A Real Grandeza de Edu Krieger

Impossível obedecer a recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro
Impossível obedecer à recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro

Sucessos é um nome bastante apropriado para o show que Edu Krieger apresentou sábado e domingo passados (6 e 7), de graça, no Espaço Furnas Cultural, na mítica Rua Real Grandeza, em Botafogo, Rio de Janeiro – este blogueiro assistiu ao segundo.

À frente do Edu Krieger Trio, como anunciado, acompanhado do irmão Fabiano Krieger (guitarra) e PC Castilho (flauta e percussão), Edu Krieger (voz e violão sete cordas) mostrou, em cerca de hora e meia de show, por que é um dos mais interessantes artistas da música brasileira da atualidade.

Completo, canta, toca e compõe como poucos e ouso mesmo dizer que Krieger é, apesar da pouca idade e tempo curto de carreira, apenas dois discos lançados – Edu Krieger (2006) e Correnteza (2009) –, um dos maiores cronistas musicais já surgidos neste Brasil de Noel Rosa e Chico Buarque, com quem sua obra dialoga diretamente.

Suas personagens e paisagens têm força e categoria para estar à altura deste e daquele. Basta ver os casos de Graziela, A mais bonita de Copacabana, Pole dance e Maria do Socorro (gravada por Maria Rita) – seus discos podem ser ouvidos na íntegra em seu site.

Aliás, para continuarmos às comparações a Noel e Chico, nunca o diminuindo, Krieger é um grande fornecedor de matéria-prima – ou obras primas, melhor dizendo – a nomes como a citada Maria Rita (Ciranda do mundo e Novo amor, além da citada), Roberta Sá (Novo amor), Aline Calixto (Saber ganhar), Pedro Miranda (Coluna social) e Ana Carolina (Combustível, Resposta da Rita e a citada Pole dance), entre outros, o que faz com que você muito provavelmente conheça-o, mesmo que (ache que) nunca tenha ouvido falar em seu nome.

“Eu gostaria muito que todos os políticos, tanto na esfera federal quanto na estadual, se sentissem homenageados com esta”, anunciou antes de tocar Coluna social, cujo verso inicial diz: “o Cinismo casou/ com dona Hipocrisia/ teve uma grande festança/ no apartamento da Demagogia”.

Como bom cronista que é, de língua ácida e afiada e pensamento ligeiro, o filho do maestro Edino Krieger sabe que sua opinião é importante e sobre determinados assuntos nos quais se quer e se deve meter o bedelho não dá para esperar disco. Assim vem pitacando sobre questões importantes se utilizando do youtube. São deliciosos e contagiantes seus hits Aos vinte e sete – decassílabo cujo mote afirma “rock’n roll pra valer foi Noel Rosa/ que partiu sem chegar aos vinte e sete –, Desculpe, Neymar – sobre a Copa do Mundo de 2014 –, e a Resposta ao funk ostentação – cujo ritmo foi marcado nas palmas pela plateia.

Ele cantou-as no show e comentou sobre as polêmicas geradas pelas duas últimas. “Me chamaram de coxinha, de reacionário. Até de eleitor do Aécio eu fui xingado”, disse entre risos, seus e da plateia. “O problema não é a ostentação do funk. O autêntico funk carioca, que mistura nossas raízes africanas ao eletrônico, é uma das mais importantes músicas surgidas no Brasil nas últimas décadas e eu mesmo quero aproximar essa relação da música brasileira com o funk”, afirmou. “De repente eu passei a ser chamado de comunista, marxista. O problema não está na ostentação do funk, mas na ostentação, seja ela no sertanejo, no camaro amarelo”, continuou.

Entre outras, Krieger cantou ainda Temporais (parceria com Geraldo Azevedo, “um cara que sempre foi meu ídolo, na MPB”, afirmou), Correnteza, Clareia e Rosa de açucena. No bis, uma versão eletrizante do afrossamba Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Edu Krieger está definitivamente entre os grandes.

Uma zúñiga se abateu sobre o Brasil

Foto: Eitan Abramovich/ AFP
Foto: Eitan Abramovich/ AFP

 

Neymar está fora da Copa. É a notícia mais triste da Copa, até agora. E permanecerá a mais triste, mesmo que a próxima notícia triste seja a de que a seleção brasileira disputará o terceiro lugar.

O Brasil fez ontem, talvez, sua pior partida no mundial. Se não a pior partida, ao menos o pior segundo tempo. Ainda assim demonstrou sua superioridade e bateu a Colômbia por 2×1.

Bater talvez não seja melhor verbo que vencer, afinal de contas, Zúñiga bateu Neymar e terminou com seus sonhos – e o de milhões de brasileiros, ao menos meus, em particular – de terminar artilheiro do torneio e seu melhor jogador.

Bater, no caso, é eufemismo. A joelhada do colombiano nas costas do brasileiro, que terminou por fraturar-lhe a coluna uma vértebra e eliminá-lo da competição, foi, no mínimo, criminosa.

Logo Neymar, o craque do Barça – mas eternamente santista –, que vinha enfeitando a competição com seu talento e suas belas jogadas, devolvendo ao futebol o status de arte de que já parecíamos ter nos desacostumado.

Li e ouvi muitas opiniões acerca da mordida do uruguaio Suárez no italiano Chiellini e sua severa punição. Minha opinião sobre o episódio está dada: a punição é necessária, mas a Fifa pesou a mão (e isto eu já dizia antes do ocorrido ontem).

Brasil e Colômbia fizeram talvez o jogo mais violento da Copa e infelizmente o dado não se traduziu na distribuição de cartões amarelos e vermelhos – Zúñiga sequer recebeu punição. Em determinado momento do segundo tempo a seleção colombiana admitiu ter carimbado o passaporte de volta para casa e, em vez de tentar reverter a situação e garantir ao menos a prorrogação da partida, aprimorou seu arsenal contraditor de qualquer vestígio de “fair play”.

A Fifa precisa punir exemplarmente o jogador colombiano. Se é para comparar, certamente a marca deixada por Suárez em Chiellini já sumiu. Neymar ficará ao menos um mês fora dos gramados. Lamentável não só para a seleção e torcida brasileiras e a Copa do Mundo: lamentável para o Futebol, com F maiúsculo.

Zúñiga, para este que vos perturba, vira, a partir de ontem, sinônimo de tragédia, qual ziquizira, urucubaca, caiporismo e que tais.

O acarajé em tempos de copa

Charge de Carlos Latuff sobre o episódio gaúcho

Na madrugada de hoje ouvi em um telejornal que baianas serão impedidas de vender acarajés próximo a estádios durante a Copa do Mundo que terá o Brasil como sede em 2014.

Imediatamente lembrei-me da polícia gaúcha partindo para cima de jovens que protestavam contra a privatização de espaços públicos em Porto Alegre. Resumo da ópera: a prefeitura cede praças para a Coca-Cola administrar e a mais famosa marca de refrigerantes do mundo faz alguns chafarizes, instala um mascote inflável da copa e lucra (bastante) em cima disso.

Não tenho detalhes da proibição da venda de acarajés nas proximidades de estádios baianos, se já ocorre, se vai ficar para quando a Copa chegar. Escrevo aqui com base no que ouvi na tevê, ainda meio grogue de sono, enquanto escovava os dentes ou passava uma água no rosto ou arrumava qualquer outra coisa.

Outra coisa em que pensei foi que a proibição do acarajé certamente vai favorecer as redes multinacionais de fast food, que certamente poderão instalar barraquinhas padronizadas, vendendo comida padronizada para gente padronizada. Ou vocês acham que gente fora do padrão, econômico principalmente, vai ter chances de chegar aos estádios ou ao menos perto deles?

A Copa do Mundo no Brasil não será uma copa para os brasileiros, ou ao menos não para os brasileiros médios, não para os que Lula e Dilma tiraram da miséria e fizeram ascender à classe média. Os ingressos supercaros deverão fazer com que muitos aficionados por futebol continuem assistindo ao esporte como se a copa fosse na África do Sul, no Japão, nos Estados Unidos, na Espanha ou em qualquer outro lugar do mundo: pela televisão. Brasileiros nos gramados e arquibancadas serão os jogadores da seleção, a comissão técnica, autoridades e celebridades; fora, próximo dos estádios, se muito, flanelinhas, se mesmo estes não forem também importados. Colados à tevê, torcendo para o Brasil resolver de vez o trauma de 1950, os outros quase 200 milhões, não poucos já mandados para longe dos estádios durante suas construções e reformas.

Por último e não menos importante, na verdade a primeira coisa em que pensei, de que lembrei: para que diabos servem títulos como o de patrimônio cultural imaterial disso e daquilo outro? Se não servirem para proteger patrimônios como o ofício das baianas do acarajé em tempos de copa servirão para nada.

Privatização gaúcha dos espaços públicos e proibição baiana do acarajé têm entre si mais que “meras coincidências”

Existem tragédias maiores que a derrota em copas do mundo e olimpíadas

A Relatoria do Direito Humano à Cidade da Plataforma Dhesca Brasil visitou o Rio de Janeiro em maio passado para investigar os impactos que já causam aos cariocas os dois maiores eventos esportivos de que o Brasil já teve notícia: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o primeiro sediado em diversas cidades brasileiras, incluindo a capital carioca, cidade-sede do segundo.

Abaixo, quatro vídeos elaborados pela Missão da citada Relatoria nas comunidades de Restinga, Favela do Metrô, Morro da Providência e Vila Recreio 2. Para assistir, se indignar e lembrar quando formos comemorar cada gol brasileiro na primeira competição, cada medalha na segunda. Qual o preço de cada vitória? A derrota de milhares de famílias desde agora? Para quem não tiver paciência de abrir vídeo por vídeo, um playlist com os quatro aqui.