A faceta infantojuvenil de Josué Montello

O tesouro de D. José. Capa. Reprodução

 

Originalmente publicado em 1944, O tesouro de D. José e outros contos só ganhou nova edição já na década de 1980. Agora, por ocasião do centenário do autor (1917-2006) e iniciativa do escritor Wilson Marques, em parceria com a Casa de Cultura Josué Montello, o livro infantojuvenil ganha uma terceira edição pela editora Mercuryo Jovem [2017, 63 p.]. O caprichado volume tem ilustrações de Paola Brunelli.

Sete contos fantásticos apresentam aos leitores outra faceta de Josué Montello, realizados antes de ele se tornar o escritor consagrado como viria a ser reconhecido. Já estão ali marcas da prosa montelliana, a despeito dos verdes anos da juventude, às vezes desculpa para deslizes: prosa límpida e envolvente, sua terra natal como cenário, o cuidadoso tratamento literário dado a temas populares – ou simplesmente aos frutos puros de sua fértil imaginação.

“São pequenas histórias, muito bem escritas, lendas que se referem à terra maranhense, envolvendo homens e bichos. Josué resgatou estes causos, para não deixar que eles fossem tragados pelo esquecimento”, atesta na apresentação do livro o escritor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, em que ocupa a cadeira 18, cujo patrono é o também maranhense João Francisco Lisboa.

Em O tesouro de D. José e outros contos Josué Montello fantasia a origem do dourado das águas do Rio Itapecuru (o conto-título), conta a história de um macaco que queria ser homem, antecipando a discussão sobre autoaceitação, sobretudo na ditadura da publicidade (A ambição do macaco), discorre sobre a força do amor (A princesa Julieta e A rainha das águas), a origem das flores (A lenda das flores), das saúvas (O bruxo) e das construções subterrâneas das formigas (O palácio da formiga).

Por vezes crianças e jovens terão que recorrer ao dicionário para descobrir o significado de uma ou outra palavra mais rebuscada do vocabulário de Montello. Por vezes adultos também precisarão fazê-lo – talvez mesmo o livro seja para estes, embora mergulhe profundamente no universo da fantasia, em geral vinculada à infância, já que ao tornarmo-nos adultos perdemos a capacidade de nos encantar com princesas, fadas e bichos e plantas que falam.

O autor de Os tambores de São Luís é capaz de nos devolver este encanto – ao menos enquanto dura a leitura de O tesouro de D. José e outros contos.

Um escritor de grosso calibre

Calibre 22. Capa. Reprodução

 

Aos 92 anos de idade, Rubem Fonseca permanece um dos mais monumentais escritores brasileiros em todos os tempos, posto a que para ser alçado bastaram seus três primeiros livros de contos, Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) e Lúcia McCartney (1967).

O mineiro, radicado no Rio de Janeiro desde os oito anos de idade, fez de tudo na vida e na literatura: foi office-boy, escriturário, revisor de jornal e comissário de polícia, de onde certamente retirou muita matéria-prima para seus contos; na literatura, escreveu ainda romances, novelas, ensaios, roteiros e fez traduções, além de ter sido adaptado ao cinema e televisão.

Em Calibre 22 [Nova Fronteira, 2017, 201 p.] reaparecem elementos já consagrados de sua prosa: violência, sexo, ironia, bom humor e enciclopedismo, além do personagem Mandrake, que protagoniza o conto que intitula e encerra a coletânea, em que o consagrado detetive investiga uma série de assassinatos, na mais longa narrativa do volume.

Em Fantasmas, Fonseca tira onda com psicanalistas (depois se redime, mais ou menos, em Satiríase e impotência); em Um homem de princípios, um assassino começa a história afirmando: “Não gosto de matar barata, nem piolho, nem seres humanos. Não mato por ódio, ciúme, inveja, medo”, e termina: “Eu tenho os meus princípios, já disse. Não mato mulher, criança e anão. E sou honesto”.

O politicamente incorreto aparece aqui e ali, mas Rubem Fonseca não é seu apologista: ele apropria-se da realidade para fazer sua ficção, merecidamente uma das mais festejadas da literatura brasileira. Há contos em que o protagonista mata um homem que batia em sua esposa (Homem não pode bater em mulher) – “Ela sorriu para mim”, termina – e um homofóbico (O morcego, o mico e o velho que não era corcunda, partes I e II).

Em Outro anão, volta a tirar onda do próprio ofício, ao afirmar ironicamente, antenado com as novas tecnologias: “É mentira também o que você ouve no rádio, na televisão, lê no jornal, na revista, no zapzap, é tudo mentira”. Mas noutro conto o escritor afirma: “Sou do tempo em que as pessoas gostavam de ópera, de foder e de sanduíche de mortadela” (abrindo Ópera, foder e sanduíche de mortadela).

Rubem Fonseca domina plenamente a linguagem. Em Camisola e pijama, volta aos embates entre escritor e editor, outro tema caro à sua prosa. Em O presente de Natal uma mulher consulta-se com uma mãe de santo “formada” por Bita do Barão, em Codó, interior do Maranhão – novamente a realidade se cruza com a ficção em sua obra, em que diversos protagonistas, como ele, chamam-se “José” – personagem que intitulou o livro do autor, de 2011, mais ou menos autobiográfico –, também prenome de Mandrake, não a única autorreferência à sua vida e obra em Calibre 22.

Com três Jabuti na bagagem, dois APCA, um Casa de Las Américas, um ABL de Ficção, um Camões, um Juan Rulfo e um Machado de Assis, Rubem Fonseca não precisa(va) mais provar nada para ninguém, nem escreve para angariar outros prêmios. Mas os leitores deste escritor de grosso calibre são premiados a cada volume que nos faz chegar às mãos.

Wilson Marques autografa novo livro infantil hoje

Arte e manhas do jabuti. Capa. Reprodução

 

O novo livro de Wilson Marques já começa com um trocadilho: em Arte e manhas do jabuti [Autêntica, 2017, 47 p.] ele reescreve seis contos tendo o quelônio como protagonista, todos já recolhidos anteriormente pela tradição oral de diversas culturas.

O maranhense remonta ao trabalho de folcloristas importantes como Câmara Cascudo e Silvio Romero, centrando forças na cultura tenetehara, dos indígenas guajajara, habitantes da Amazônia maranhense.

Se antes de escrita a palavra (já) era dita, as “arte e manhas” do título podem ser lidas como “artimanhas”: o jabuti sempre vence, numa demonstração de que mais vale a paciência e a esperteza, que a força e a velocidade.

É um livro infantil, mas é impossível não pensarmos em metáforas políticas, no momento conturbado por que passa o Brasil. O jabuti é o povo, os governantes são seus adversários, raposas e tubarões cujo desejo é unicamente perpetuar-se no poder em busca da manutenção de privilégios (para si mesmos).

Não é um manual infantil da espécie “como se dar bem”, mas também leva a refletir que os mais fracos, os oprimidos (as minorias, para seguirmos na metáfora política) também merecem vez e voz.

“Jabuti trepado ou foi enchente ou foi mão de gente”, diz o dito popular, prisma por que também podemos observar o alçar de figuras nefastas a postos-chaves de nossa selva republicana.

Em seis contos, Wilson Marques passeia por histórias mais e menos conhecidas, como a festa no céu e a corrida do jabuti, aqui com um veado – na versão mais conhecida a aposta é com um coelho (ou lebre).

Este é um grande trunfo: com modificações aqui e acolá, o autor preserva a essência dos contos, acrescentando-lhes novos detalhes e personagens, isto é, dando seu toque pessoal a histórias seculares.

O livro é ilustrado por Taisa Borges e tem apresentação de Marco Haurélio, com quem Wilson Marques divide a autoria de Contos e lendas da terra do sol. Texto e imagem dialogam em mais um prazeroso exercício de atrair a gurizada para o hoje tão menosprezado prazer de ler, missão que o autor assumiu para si já há algum tempo, através de Touchê, seu personagem mais famoso, com que agora, tem percorrido municípios do interior, com uma caravana literária e teatral.

Arte e manhas do jabuti tem apoio cultural do Sesc e é publicado pela mineira Autêntica, dois selos de qualidade que atestam a da obra de Wilson Marques que ora temos em mãos. O primeiro, responsável pelo recente lançamento de João, o menino cantador, biografia-mirim de João do Vale (1934-1996) escrita pela jornalista Andréa Oliveira; a segunda, pela recolocação do monumental Campos de Carvalho (1916-1998) em circulação.

Em tempo, não esqueçamos que jabuti é o bicho que dá nome a um dos mais importantes prêmios literários do Brasil.

Serviço

Wilson Marques autografa Arte e manhas do jabuti hoje, a partir das 18h, na livraria Leitura (São Luís Shopping), com apresentação do grupo Xama Teatro.

Um Nelson Cavaquinho da literatura

É como se Miguel Del Castillo fosse um Nelson Cavaquinho da literatura: seus contos permeados de morte e separação, ele escolhido um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros pela revista Granta.

restinga
Restinga. Capa. Reprodução

Em Restinga [Companhia das Letras, 2015, 127 p.; leia o conto-título], que dá título e abre o livro, a mãe da protagonista tem um último desejo antes de morrer: visitar a restinga da Marambaia, em conto que cita o Tom Jobim de Querida: “Longa é a praia, longa restinga, da Marambaia à Joatinga”.

“Começou as sessões um ano após a separação” e “Ainda não contou detalhes da separação na terapia” são frases que adiantam apenas em parte Olimpíadas. Empire State retrata um conflito entre irmãos com ecos bíblicos.

A Violeta que batiza conto sobre as ditaduras militares latino-americanas também morre. No texto se mesclam realidade, memória e ficção, português e espanhol.

Paranoá é outro conto povoado pela morte. A música volta a dar as caras, desta vez Stairway to heaven, do Led Zeppelin: “Naquela época cabia pouca coisa no disco. Acho que tiveram que parar a música do nada para fazer caber”, a narrativa termina abruptamente como supostamente a música.

Uma garota se lembra da babá – morta – enquanto passeia em um Cruzeiro. Leme, a narrativa mais curta do volume, é sobre desencontro – de algum modo, uma espécie de separação. Em Cancun, reencontro e fuga: um menino brasileiro de onze anos vai visitar no México o pai envolvido sabe-se lá com o quê. Ferido, o pai resolve voltar ao Brasil.

Duas gêmeas, o casamento e a separação de uma delas, outrora o marido era seu sócio, em Colônia. Em Arraial, em tempos de facebook, a tentativa de uma turma de amigos do tempo de colégio de se reencontrar no Recife.

O subtítulo anuncia na capa: “dez contos e uma novela”. Laguna, a novela que encerra o livro, acompanha as aventuras de um jornalista pelo Uruguai, com uma guia de museu recém-conhecida. É um passeio por paisagens e sensações, numa narrativa em que o abandono também se faz presente, como a música do Ratones Paranoicos, grupo oitentista de rock argentino. “No pierdas tiempo, nunca”, diz uma pichação catalogada no último texto de Restinga. Uma espécie de lição de que a vida é o que acontece enquanto a planejamos.

Galeria de desgraçados

Amar é crime. Capa. Reprodução
Amar é crime. Capa. Reprodução

Em boa hora ganha reedição o volume de contos Amar é crime [Record, 2015, 160 p.], de Marcelino Freire.

Dono de voz e ritmo particulares, a prosa do pernambucano radicado em São Paulo não poupa os personagens nesta galeria de desgraçados.

As narrativas são brutais, cruas, secas – o conto Ricas secas, por exemplo, é “livremente inspirado” no romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, de que se vale de um trecho.

A “nova edição ampliada”, como nos alerta a contracapa, traz novas histórias em relação ao volume publicado em 2011 pela Edith Editorial. Ricas secas, por exemplo, aborda a crise hídrica paulista.

Em Amor e sangue, o prefácio assinado por Ivan Marques, é o próprio Marcelino Freire, de Rasif [Record, 2008], quem serve de epígrafe: “Cristo mesmo quem nos ensinou./ Se não houver sangue, meu filho,/ não é amor”.

“Oralidade: eis a palavra-chave. A literatura de Marcelino Freire é erguida sobre falas, frases roubadas, pedaços vivos do cotidiano e da miséria social brasileira, que ele recolhe com inteligência crítica, a exemplo do que ocorre em autores como João Antonio e Francisco Alvim”, atesta o prefaciador.

“Contos de amor e morte ou pequenos romances”, é o próprio autor quem define, num subtítulo informal, que não comparece à capa nem à ficha catalográfica.

Impossível não ser tocado pela tragédia da protagonista de Vestido longo, conto que abre Amar é crime: uma garota que, abusada sexualmente na infância, torna-se prostituta e sonha com a roupa que intitula a narrativa.

Em meio a essa prosa de agruras, violenta como os cotidianos que relata, há espaço para a poesia. Como no onírico Liquidação, em que dois carroceiros brigam por um sofá velho: de quem é? Quem viu primeiro? “Ele primeiro viu, repetiu. Ajeitou na noite anterior. Descansou o troço ali. Hoje, recolheria. Nem precisaria abrir crediário das Casas Bahia. De que maneira pagaria?”, rima a tragédia.

Em Irmãos e A última sessão, as igrejas evangélicas que tomaram o lugar de cinemas são panos de fundo para a crítica de Marcelino à fé enquanto engodo do povo. Num o protagonista, abandonado pela mulher, é confundido com um pastor; noutro, um velho, sem família, após sair do hospital, consegue achar o caminho até um cinema pornô que costumava frequentar e encontrar consolo em uma travesti. Mas o cinema já não mais existe.

Em União civil a homossexualidade é pautada. O conto é narrado como se o autor estivesse em uma mesa num evento literário ou ministrando uma oficina – universos do autor.

Seu companheiro de projetos, Jorge Ialanji Filholini – ambos estiveram na Feira do Livro de São Luís em 2014, ocasião em que ministraram oficinas pelo Quebras, patrocinado pelo Itaú Cultural –, assina as orelhas e atesta: foi aquele conto uma espécie de laboratório, “inspirador para o que viria: a “prosa-longa” do solitário e solidário primeiro romance, Nossos ossos [Record, 2013]”.

Amar é crime e a única pena possível para os que se apaixonarem pela prosa de Marcelino Freire é sair imediatamente à procura de outros livros do autor, “fundamental para a nossa literatura contemporânea”, como afirma Filholini na orelha.

As obsessões de Antonio Carlos Viana

Jeito de matar lagartas. Capa. Reprodução

Contando 40 anos de carreira literária e fiel ao conto, o sergipano Antonio Carlos Viana aprofunda algumas obsessões em Jeito de matar lagartas [Companhia das Letras, 2015, 147 p.; leia um trecho]: a velhice, o sexo (ou a falta dele), a solidão, a morte. “Pode-se dizer que todos os seus contos giram em torno do corpo e suas vicissitudes”, adverte-nos Paulo Henrique Britto nas orelhas.

A muralha da China, que abre o volume, por exemplo, é sobre como uma vizinha ensaia seus filhos para uma mentira antes de (quase) noticiar a morte do marido e do filho da protagonista. No conto-título o sexo está nas entrelinhas, no sabor de descoberta entre as ocupações do fim da infância e começo da adolescência.

Em Florais a protagonista, após enviuvar, descobrirá algo inédito em se tratando de sexo. Em Lucy in the sky a mulher do título abre a porta a um desconhecido para torná-lo outro homem. E descobrir-se outra mulher. Em Balé, Aline nunca mais voltará a andar. Em Madame Viola faz escova progressiva, a mulher que batiza o conto torce ardentemente por tornar-se viúva, após ver uma notícia na televisão sobre um acidente de que presumivelmente seu marido teria tomado parte.

Paixão no delta relata o encontro de dois velhos, ela “68 anos”, ele “cabelos alvíssimos e espessos”, e a falta de memória dele para relatar o encontro. Dona Deusinha tem horror à morte e achou que seu casamento com seu Odilon “tinha tudo para não durar”, após a primeira noite com ele, nos fundos da funerária onde foram morar. Falecido o marido, em Cremação, a primeira coisa que a mulher faz é mudar-se para bem longe, ir em busca de uma antiga paixão da juventude e anunciar aos filhos o desejo de ser cremada.

Em Um traidor dona Maria Reina “faz sessenta anos, sozinha”. Em seu registro o escrivão esqueceu da letra g, ponto que ela descobriu depois, masturbando-se em uma cadeira com vista para o mar. Em Missa de sétimo dia um cliente deseja dar o último adeus a uma prostituta, sendo hostilizado por familiares da falecida.

O autor é cruel, mas extremamente humano, com senso de humor aguçado. Por vezes o que se chamaria humor negro em tempos menos politicamente corretos. Seus contos, sempre curtíssimos, nunca excedem o necessário. Ao longo das 27 breves narrativas de Jeito de matar lagartas vez por outra sentimos pena desta ou daquela personagem, mas, cruéis que também somos, quando em vez flagramo-nos com um sorriso no rosto.

Por que O Brasil é bom é tão bom

O Brasil é bom. Capa. Reprodução
O Brasil é bom. Capa. Reprodução

 

O André Sant’Anna é filho do Sérgio Sant’Anna, mas querer explicar todo seu talento pela genética pode diminuí-lo. Os dois são dois dos maiores contistas brasileiros em atividade, o que mostra que Deus é injusto: como pode tanto talento numa só família? Coisa assim só se viu, talvez, na família do Caetano e da Bethânia. Ou na família Sarney, mas esta não fez nada de útil pelo Brasil ou pelo Maranhão, apesar de tanto tempo no poder. Esta última família seria uma espécie de família de anti-talentosos. Mas o que importa mesmo, aqui, agora, são os Sant’Anna. Na verdade, o Sant’Anna, o André. E seu livro novo, nem tão novo assim, já com quase um ano de lançado, O Brasil é bom [Companhia das Letras, 2014, 190 p., leia um trecho] – o título do livro –, o Maranhão é uma província e às vezes o, digamos, crítico, pode demorar a ler e resenhar coisa ou outra. Está lá, embalado por aquele prato com uma banana espetada por um garfo, o Campo de batalha 5, óleo sobre tela de Antonio Henrique Amaral, de 1974, a prosa elegante e mui característica de um, repito, dos maiores contistas brasileiros em atividade. Sim, o André, que já havia provado isso em livros como Inverdades [7Letras, 2009], Sexo e amizade [Companhia das Letras, 2007] e O paraíso é bem bacana [Companhia das Letras, 2006], mesmo este último sendo um romance. O André, que é escritor, mas também mexe com música e publicidade, sabe utilizar muito bem a ironia, ou vocês não notaram isso a começar pelo título? O Brasil é bom tem um conto chamado O Brasil não é ruim, que ele enxerta o texto inteiro com vários “nãos” para terminar por dizer a verdade. Começa assim: “Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente”. E termina assim: “Por isso é que o Brasil é bom”. O primeiro conto do livro, Deus é bom Nº 8, começa tirando uma onda com Lula e a guinada à direita dos governos petistas. O presidente é Cristo e Judas negocia com o centrão e o livra da crucificação, mas o afasta de todos os ideais que moviam o partido antes do mesmo chegar ao poder. É claro que o André Sant’Anna adverte que “os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles” e aí está outra coisa muito interessante na prosa de Sant’Anna, o André, de mesclar ficção e realidade e tornar pessoas reais personagens de ficção, tipo a Glória Peres, no conto inicial, que quando “Jesus nasceu num barraco bem pobrinho […] falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho”. Ou o George Harrison que ele foi. Todo mundo foi, um dia, na infância, um ídolo. O beatle aparece em vários contos, os últimos do livro, A história da revolução, A história do rock, A história do futebol e A história da Alemanha. No penúltimo, dedicado a Sérgio e Ivan Sant’Anna, “quando o futebol foi inventado, em 1969, o George Harrison era de Belo Horizonte, e no prédio dele, na escola dele, na rua dele as pessoas ou eram Atlético ou eram Cruzeiro. O primo do George era Atlético. O George era o Tostão do Cruzeiro”. Há ainda contos intitulados O futuro vai ser bom, Nós somos bons, O brasileiro é bom e Amor à pátria. Tudo ironia pura, fina ironia. Duas aspas, o começo e o fim deste último: “Porque eu sou assim: a nível de futebol, a pátria em primeiro lugar”. “A nível de futebol, o que importa é o sangue”. Comentário na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí ironiza o discurso de ódio da classe média e da polícia sobre militantes e movimentos de defesa dos direitos humanos. Antológico, este conto mereceria transcrição integral, mas fiquemos com uns trechos, apenas, até para vocês se interessarem pela parada, digo, a prosa do André Sant’Anna, e comprarem o livro – e lerem, que é o que realmente importa: “A culpa é toda do direitos humanos, que vem aqui se meter no Brasil e não cuida dos problemas deles mesmos, desses países que se acha. Porque lá todo mundo faz o que quer, faz terrorismo, fuma drogas, anda pelado com os seios de fora e até faz sexo com homens do mesmo sexo. […] Aí, quando vem um bandido e pega o seu carro no farol e dá um tiro na sua cara, você que é um cidadão de bem, com a sua família, o que é que acontece? Vem o direitos humanos e protege os bandidos e quer que a gente que é homens de bem, que não temos direitos humanos nenhum, fique quieto vendo os estupradores todos levando boa vida lá na cadeia, comendo comida que a gente paga e até levando mulher lá prá dentro, prá fazer sexo. […] Brasileiro não precisa nada desses gringos. Esses gringos é que fazem esses terrorismos. Pode ver que aqui no Brasil não tem terrorismo, não tem terremoto nem nada disso. […] Os gringos vêm aqui e ficam querendo botar esse direitos humanos aqui prá soltar os bandidos todos da cadeia. Mas eles lá prendem bandido de menor. Lá na terra deles pode até pena de morte. Só aqui é que não pode porque os gringos do direitos humanos não deixa. […] Eu sou igual o velho lobo Zagallo, totalmente verde e amarelo”. Na história mais longa do livro, Lodaçal, um par de amigos tem várias vezes seu futuro interrompido, sempre de maneira trágica, tudo narrado com a categoria futebolístico-literária de André Sant’Anna, mineiro que hoje vive em São Paulo e talvez não torça pelo Fluminense, como o pai dele, não sei. Toninho e Chiquinho, os personagens, se alimentam, entre outras coisas, de papel higiênico usado. Há sexo, drogas, violência, “o Toninho engolindo os próprios dentes, a visão toda turva, mas pelo menos não saiu pedaço de cérebro pela orelha, coisa que ia acontecer se o Chiquinho deixasse o Toninho nas mãos dos cidadãos de bem”. É irônico, e talvez por isso engraçado, que a ficção de André Sant’Anna revele tão bem o Brasil cotidiano, com seus problemas, sua ignorância, seus preconceitos, o que deveria ser papel da imprensa, mas esta, na maior parte do tempo e das vezes, prefere praticar ficção para agradar aos patrões, e o André é competente também ao escrever não-ficção, que eu já li, aqui e acolá. “Vou dizer uma coisa pra você, uma coisa que, no país da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e das instituições de espancar crianças seria considerado uma blasfêmia absoluta: a Alemanha é muito melhor do que o Brasil. Pode crer.”, termina o livro A história da Alemanha, o livro escrito e publicado antes da Copa do Mundo de 2014, antes da reeleição de Dilma Rousseff, antes, portanto, do panelaço e do “impítima”. Qual a capa de seu livro – quem vê de longe e ligeiro pensa em retrato, mas é uma pintura – o que André Sant’Anna faz é pintar um quadro – futurista? – do Brasil, um Brasil em que a Lei de Murphy devia ser artigo da Constituição. É por isso que a literatura de André Sant’Anna é tão boa!

O homem-mulher reafirma Sérgio Sant’Anna como um grande mestre das histórias curtas

O homem-mulher. Capa. Reprodução
O homem-mulher. Capa. Reprodução

Sérgio Sant’Anna é o melhor contista brasileiro em atividade. A quem porventura discordar da afirmativa, recomenda-se urgentemente a leitura de O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 183 p.; leia um trecho], seu mais recente volume dedicado às histórias curtas.

“Conto é tudo aquilo que chamamos conto”, diz a célebre definição de Mário de Andrade. Daí que esta obra de Sérgio tenha contos de duas páginas até O homem-mulher II, que encerra a antologia, com suas 44 páginas, na linha tênue entre o conto e a novela. Ou o roteiro cinematográfico.

Eis aí, aliás, uma espécie de baliza particular para avaliar a qualidade de um livro de contos: quantos deles dariam bons filmes? Sérgio que é autor, por exemplo, de Um crime delicado [1997], romance que originou Crime delicado [2005], de Beto Brant, tem ao menos quatro contos cinematográficos em O homem-mulher: os contos-títulos, que abrem e fecham o volume (o primeiro uma organizada versão cut-up do segundo, como se Sant’Anna guardasse o melhor – e mais trágico – para o final), Lencinhos – comovente sem perder o erotismo, uma das marcas de sua literatura – e As antenas da raça – que seria ainda melhor se terminasse no “suicídio” da protagonista, sem o autor (tentar) entrar na “psicologia” de uma barata.

Os contos-título contam a história de Adamastor Magalhães – ou Fred Wilson, ou ainda Zezé –, paraense que se veste de mulher no carnaval e vai ao Rio de Janeiro tentar a vida como ator, para terminar de forma trágica. Lencinhos narra a paixão de um cinquentão por uma vendedora de lenços cujo marido definha vítima de câncer. As antenas da raça relata o suicídio acidental da embaixatriz Berenice Azambuja, que resulta da vaidade e orgulho bestas da dita grã-finagem. Em O conto maldito e o conto benfazejo e Prosa Sant’Anna reflete sobre o ofício de escritor. Clandestinos revela um adultério. O torcedor e a bailarina relata a paixão instantânea de um torcedor cujo time é derrotado na final de um campeonato por uma bailarina que toma a tela após uma zapeada deste torcedor – que logo esquece a derrota e o mundo ao redor. E há ainda 11 outras histórias, para deleite do leitor, iniciante ou mais acostumado à pena elegante do mestre carioca.

O sexo, a violência, o futebol e a morte, obsessões deste torcedor do Fluminense, estão presentes. E há mesmo um conto – Amor a Buda – em que o autor comenta a “escultura Tentação (Tangseng e Yaojing), de 2005, do chinês Li Zhanyang”, que ilustra a capa e O homem-mulher.

Autor profícuo e consagrado, Sant’Anna iniciou sua premiada carreira literária há 45 anos, com os contos de O sobrevivente (1969), a que se seguiram quase vinte livros entre contos, novelas, romances, peças de teatro e um de poesia [Junk box, de 1984]. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti e é pai do também escritor André Sant’Anna – que a julgar pela qualidade da obra que vem construindo, herdou muito do pai.

A pergunta que não cala ao encerrarmos um livro monumental como O homem-mulher é: como um autor há tanto tempo na estrada consegue soar original? Determinados temas são como marcas de sua prosa, mas a forma como Sant’Anna os aborda soará sempre singular. Para ele, parece, a literatura é a própria vida, que começa com sexo e termina com morte – longe de querer, aqui, entregar o ouro ao bandido. Repete-se a recomendação com que se abre esta resenha: a quem não conhece, o volume serve também como uma bela porta de entrada à obra do autor.

Sim, eu compro livros pela capa

PREFÁCIO

Desconhecido, como se fosse um dos seus próprios personagens, Lucas Baldez voltou ao Beco das Minas para reviver as histórias de Fofi, Sabiá, e Mário Jumenta. Chegou a jogar no Graça Aranha Esporte Clube, mas somente depois de pendurar as chuteiras descobriu a sua nova vocação: a literatura. E depois de ganhar o Prêmio Graça Aranha, no Concuro Literário Cidade de São Luís, em 1980 com o conto “O Torcedor”, resolveu juntar seus contos, novos e velhos, e publicar este volume. O seu maior mérito, entretanto, foi ter penetrado no perigoso caminho da literatura com a disposição de quem já sabia pisar os espinhos da Fonte do Bispo, da Quinta do Barão, e do Apicum (onde já pernoitava o velho Erasmo Dias), mas, na verdade apenas começou a vislumbrar a sua trajetória.

Dostoiévski nos diz que “as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente de assuntos humanos”, e assim são os personagens de Lucas Baldez. Note-se que aqui a palavra “vulgar” não é um termo pejorativo, pois serve para designar o homem comum, o homem simples e anônimo. E é utilizando a linguagem popular que Lucas Baldez consegue driblar as regras da Gramática em favor de uma melhor comunicação com o leitor. Por este motivo, “A Outra Face da Ilha” torna-se um livro agradável, e mais facilmente coloca em questão a problemática social do nosso povo, valorizando cada personagem em seu próprio tempo e espaço. Personagens que lutam para sobreviver nesta ilha universal onde os ditadores bebem o sangue de suas vítimas.

Cesar Teixeira

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Cesar Teixeira escreveu o prefácio de A outra face da ilha (1981) e fez sua capa e ilustrações, bem como a capa de O estranho caso do inditoso Francisco Sotero (1989), do mesmo autor, imagens que abrem-ilustram este post. Os livros, que ainda não li, encontrei-os ontem, à cata de outros, no sebo Papiros do Egito (Rua Sete de Setembro, 150, Centro, (98) 3231-0910).