No labirinto da memória (em um país sem memória)

Tássia Dur e Cláudio Marconcine em cena de Ensaio sobre a memória. Foto: divulgação

 

Uma peça de Marcelo Flecha não é apenas uma peça, ou ao menos não pode ser reduzida a mero entretenimento. Mas isto nem de longe deve afastar o espectador da sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em cujo palco estreia nesta quarta-feira (1º. de maio), às 19h, o espetáculo Ensaio sobre a memória – a temporada fica em cartaz até 6 de maio (sexta e sábado às 19h e 21h); ingressos: R$ 30,00 (meia: R$ 15,00). Serviço completo no cartaz ao final do post.

Não é mero entretenimento nem para a plateia e menos para o grupo, que faz jus ao nome apenas no número de integrantes: quatro atores em cena mais o diretor, que também cumpre os papéis de autor do texto da peça, sonoplasta e iluminador. O trabalho começa já na adaptação: depois de Franz Kafka e Gabriel García Marquez, Flecha agora transmuta Jorge Luis Borges do livro ao palco. É A outra morte, conto do argentino, o ponto de partida do novo espetáculo do conterrâneo, radicado no Maranhão há mais de 40 anos.

Ensaio sobre a memória tem pouco mais de uma hora de duração e quem conhece o conto original se perguntará como é que o dramaturgo preenche tanto tempo a partir de um conto tão curto. Mas quem conhece a obra de Flecha logo sabe que ele elimina qualquer possibilidade de comparação, algo do tipo “o conto é melhor que a peça?” ou vice-versa.

O conto foi publicado em O Aleph, de 1949. A adaptação de Flecha o traz a um tempo não definido, mas cujo resultado soa atual, num momento em que revisionistas querem negar ou atenuar as ditaduras militares brasileiras ou negar-lhes seus efeitos.

São três atores em cena – Cláudio Marconcine, Lauande Aires e Tássia Dur, mais as participações ligeiras de Kátia Lopes –, todos enormes, dando voz a uma crise de consciência de um escritor que, a partir do desejo de escrever sobre episódios de tortura ocorridos durante a ditadura militar argentina – vizinha de geografia e crueldade da brasileira de 1964 – enfrenta vários dilemas, a começar por sua legitimidade para tratar do assunto, tendo em vista que não foi vítima direta do regime (de crimes contra a humanidade todos somos vítimas de algum modo). Nós, espectadores, passeamos pelo labirinto mental de um escritor-pesquisador em conflito consigo mesmo e com duas versões da mesma história (memória, invenção ou esquecimento?).

Texto e interpretações brutais, cruéis, precisos, mas carregados de ironia e cerzidos por certa delicadeza. O debate sobre a memória está posto, urgente e necessário em um momento em que o governo brasileiro dificulta a identificação de corpos de vítimas de um Estado que nunca fez seu dever de casa quanto ao tema.

Ensaio sobre a memória é literalmente uma obra de arte que nos leva a refletir sobre o estado de coisas a que chegamos no Brasil justamente por não termos acertado as contas com o passado: teria o então deputado Jair Bolsonaro dedicado seu voto na sessão da Câmara Federal que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff a Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador, se agentes da repressão (leia-se assassinos) tivessem sido punidos?

Uma das lições da peça de Flecha é que a memória precisa, além de ser preservada, construída: quem não viveu determinado período, precisa aprender sobre ele. Urgente, necessária e certeira, Ensaio sobre a memória ensina e leva a refletir. É tudo de que não querem sequer ouvir falar os ditadores de plantão.

Ensaio sobre a memória. Cartaz. Reprodução

A ditadura militar brasileira em original abordagem ficcional

K. Capa. Reprodução
K. Capa. Reprodução

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Bernardo Kucisnki é cientista político e jornalista, e neste último campo, autor de ao menos uma obra fundamental: Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa [Página Aberta, 1991].

Assinando simplesmente B. Kucinski, bastou um livro para que ele passasse a ser também reconhecido como “escritor” ou “autor de ficção” – o que no fundo deve servir apenas a quem organiza as obras nas estantes, em livrarias, bibliotecas ou coleções particulares.

K. – Relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014, 190 p.], primeiro romance do autor, foi finalista dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura em 2012.

Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução
Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução

O tema era urgente, embora o autor o tenha maturado por quase 40 anos: K. é o relato autobiográfico, embora o livro seja classificado como ficção, sobre o desaparecimento, em 1974, 10 anos após o início da ditadura militar brasileira, da irmã e do cunhado de Kucinski – Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva –, ela química, professora da USP; ele físico, funcionário de uma empresa.

Como o assunto exigia mais, o autor não se contentou e, na sequência, lançou o volume de contos Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.] e o romance policial Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], o único que não se passa durante a ditadura, totalmente ficcional, sobre o assassinato de uma professora da USP.

Alice. Capa. Reprodução
Alice. Capa. Reprodução

Kucinski revela que os 28 contos de Você vai voltar pra mim foram selecionados de um universo de 150 – os que tinham a ditadura militar como tema/ambiente –, escritos entre 2010 e 2013. “Embora o autor não nos explique nada a respeito da veracidade, ou não, dos episódios, alguns deles são muito conhecidos das vítimas e dos estudiosos do período. Minha memória sugere que todos eles sejam, como se afirma nas legendas finais de alguns filmes, inspirados em fatos reais”, a psicanalista Maria Rita Kehl nos coloca a boa e quase óbvia pulga atrás da orelha no prefácio. O conto-título, aliás, é frase dita por um torturador a uma vítima.

Os muitos anos de jornalismo e magistério certamente ajudaram Kucinski com a forma: narrativas bem estruturadas, doses de ironia, a cumplicidade do leitor com a urgência dos personagens – o que lhes/nos espera nas linhas seguintes? – e a dúvida não incômoda: autobiografia? Invenção? Ou um mix? O conteúdo, mesmo que com pitadas de ficção, é, por vezes, fruto de seu próprio sofrimento, transformado em literatura da melhor qualidade. De um modo ou outro, ele dá uma bela contribuição à discussão sobre o direito à memória e à verdade no Brasil, um debate infelizmente tardio e por vezes enviesado e sem a profundidade necessária.

As obsessões de Antonio Carlos Viana

Jeito de matar lagartas. Capa. Reprodução

Contando 40 anos de carreira literária e fiel ao conto, o sergipano Antonio Carlos Viana aprofunda algumas obsessões em Jeito de matar lagartas [Companhia das Letras, 2015, 147 p.; leia um trecho]: a velhice, o sexo (ou a falta dele), a solidão, a morte. “Pode-se dizer que todos os seus contos giram em torno do corpo e suas vicissitudes”, adverte-nos Paulo Henrique Britto nas orelhas.

A muralha da China, que abre o volume, por exemplo, é sobre como uma vizinha ensaia seus filhos para uma mentira antes de (quase) noticiar a morte do marido e do filho da protagonista. No conto-título o sexo está nas entrelinhas, no sabor de descoberta entre as ocupações do fim da infância e começo da adolescência.

Em Florais a protagonista, após enviuvar, descobrirá algo inédito em se tratando de sexo. Em Lucy in the sky a mulher do título abre a porta a um desconhecido para torná-lo outro homem. E descobrir-se outra mulher. Em Balé, Aline nunca mais voltará a andar. Em Madame Viola faz escova progressiva, a mulher que batiza o conto torce ardentemente por tornar-se viúva, após ver uma notícia na televisão sobre um acidente de que presumivelmente seu marido teria tomado parte.

Paixão no delta relata o encontro de dois velhos, ela “68 anos”, ele “cabelos alvíssimos e espessos”, e a falta de memória dele para relatar o encontro. Dona Deusinha tem horror à morte e achou que seu casamento com seu Odilon “tinha tudo para não durar”, após a primeira noite com ele, nos fundos da funerária onde foram morar. Falecido o marido, em Cremação, a primeira coisa que a mulher faz é mudar-se para bem longe, ir em busca de uma antiga paixão da juventude e anunciar aos filhos o desejo de ser cremada.

Em Um traidor dona Maria Reina “faz sessenta anos, sozinha”. Em seu registro o escrivão esqueceu da letra g, ponto que ela descobriu depois, masturbando-se em uma cadeira com vista para o mar. Em Missa de sétimo dia um cliente deseja dar o último adeus a uma prostituta, sendo hostilizado por familiares da falecida.

O autor é cruel, mas extremamente humano, com senso de humor aguçado. Por vezes o que se chamaria humor negro em tempos menos politicamente corretos. Seus contos, sempre curtíssimos, nunca excedem o necessário. Ao longo das 27 breves narrativas de Jeito de matar lagartas vez por outra sentimos pena desta ou daquela personagem, mas, cruéis que também somos, quando em vez flagramo-nos com um sorriso no rosto.

Cultura popular para crianças, do teatro ao conto

Lenita Estrela de Sá lança hoje (5) A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho

A filha de Pai Francisco - Bumba meu boi para crianças. Capa. Reprodução
A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças. Capa. Reprodução

 

A escritora Lenita Estrela de Sá lança hoje (5), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, seu livro A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças, adaptação em prosa de uma premiada peça teatral de sua autoria.

O folclorista Américo Azevedo Neto, no prefácio da obra, elogia o trânsito de Lenita entre os gêneros, conclamando palmas para ela em ambos.

O livro é curto, como indica o “para crianças” do título, e vai além do bumba meu boi, servindo como uma espécie de porta de entrada para os pequeninos ao universo das lendas do Maranhão. Além do boizinho cuja língua é pretendida para a alimentação da gestante Mãe Catirina, estão lá a Mula sem cabaça e a Cavala canga, ilustrados por Salomão Jr. Um exercício importante, num tempo em que as crianças são cada vez mais cedo tragadas para o universo do virtual e dos joguinhos eletrônicos.

Outro aspecto que merece destaque nesta obra infantil de Lenita é sua demonstrada preocupação com o meio ambiente: o fazendeiro rico, além de tudo, polui o mangue de onde os moradores dos arredores de sua fazenda tiram sua alimentação, baseada em caranguejos, sarnambis e sururus. A história tem final feliz, com comida farta e festa.

O homem-mulher reafirma Sérgio Sant’Anna como um grande mestre das histórias curtas

O homem-mulher. Capa. Reprodução
O homem-mulher. Capa. Reprodução

Sérgio Sant’Anna é o melhor contista brasileiro em atividade. A quem porventura discordar da afirmativa, recomenda-se urgentemente a leitura de O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 183 p.; leia um trecho], seu mais recente volume dedicado às histórias curtas.

“Conto é tudo aquilo que chamamos conto”, diz a célebre definição de Mário de Andrade. Daí que esta obra de Sérgio tenha contos de duas páginas até O homem-mulher II, que encerra a antologia, com suas 44 páginas, na linha tênue entre o conto e a novela. Ou o roteiro cinematográfico.

Eis aí, aliás, uma espécie de baliza particular para avaliar a qualidade de um livro de contos: quantos deles dariam bons filmes? Sérgio que é autor, por exemplo, de Um crime delicado [1997], romance que originou Crime delicado [2005], de Beto Brant, tem ao menos quatro contos cinematográficos em O homem-mulher: os contos-títulos, que abrem e fecham o volume (o primeiro uma organizada versão cut-up do segundo, como se Sant’Anna guardasse o melhor – e mais trágico – para o final), Lencinhos – comovente sem perder o erotismo, uma das marcas de sua literatura – e As antenas da raça – que seria ainda melhor se terminasse no “suicídio” da protagonista, sem o autor (tentar) entrar na “psicologia” de uma barata.

Os contos-título contam a história de Adamastor Magalhães – ou Fred Wilson, ou ainda Zezé –, paraense que se veste de mulher no carnaval e vai ao Rio de Janeiro tentar a vida como ator, para terminar de forma trágica. Lencinhos narra a paixão de um cinquentão por uma vendedora de lenços cujo marido definha vítima de câncer. As antenas da raça relata o suicídio acidental da embaixatriz Berenice Azambuja, que resulta da vaidade e orgulho bestas da dita grã-finagem. Em O conto maldito e o conto benfazejo e Prosa Sant’Anna reflete sobre o ofício de escritor. Clandestinos revela um adultério. O torcedor e a bailarina relata a paixão instantânea de um torcedor cujo time é derrotado na final de um campeonato por uma bailarina que toma a tela após uma zapeada deste torcedor – que logo esquece a derrota e o mundo ao redor. E há ainda 11 outras histórias, para deleite do leitor, iniciante ou mais acostumado à pena elegante do mestre carioca.

O sexo, a violência, o futebol e a morte, obsessões deste torcedor do Fluminense, estão presentes. E há mesmo um conto – Amor a Buda – em que o autor comenta a “escultura Tentação (Tangseng e Yaojing), de 2005, do chinês Li Zhanyang”, que ilustra a capa e O homem-mulher.

Autor profícuo e consagrado, Sant’Anna iniciou sua premiada carreira literária há 45 anos, com os contos de O sobrevivente (1969), a que se seguiram quase vinte livros entre contos, novelas, romances, peças de teatro e um de poesia [Junk box, de 1984]. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti e é pai do também escritor André Sant’Anna – que a julgar pela qualidade da obra que vem construindo, herdou muito do pai.

A pergunta que não cala ao encerrarmos um livro monumental como O homem-mulher é: como um autor há tanto tempo na estrada consegue soar original? Determinados temas são como marcas de sua prosa, mas a forma como Sant’Anna os aborda soará sempre singular. Para ele, parece, a literatura é a própria vida, que começa com sexo e termina com morte – longe de querer, aqui, entregar o ouro ao bandido. Repete-se a recomendação com que se abre esta resenha: a quem não conhece, o volume serve também como uma bela porta de entrada à obra do autor.

Obituário: Ubiratan Teixeira

Ubiratan Teixeira perdeu ontem (15) a batalha que travou nos últimos meses contra um câncer no estômago. Nome fundamental para a literatura, o jornalismo e o teatro maranhenses, Bira, como era conhecido entre os íntimos e os nem tanto, deixa importante legado nas áreas em que atuou.

As áreas, em sua obra, aliás, não raro se confundiam. Transitava com desenvoltura por elas, às vezes mesclando-as. Suas crônicas em O Estado do Maranhão, jornal em que trabalhou desde a fundação, não raro deixavam o leitor na dúvida: o que ali havia acontecido de verdade e o que era pura invenção da cabeça mágica de Bira? A pulga na orelha do leitor que só os melhores cronistas conseguem plantar.

No teatro era autor e crítico. Seu grande Pequeno Dicionário de Teatro é obra que o torna merecedor de respeito em qualquer canto e se Bira não foi mais famoso ou conhecido (respeitado era e continuará sendo), certamente é por ter optado pela província. Seu conto Vela ao crucificado rendeu festejadas adaptações ao teatro, por Wilson Martins, e ao cinema, por Frederico Machado.

Encontros – Em 2007 sua novela Labirintos venceu uma das categorias do último edital para literatura lançado pela Secretaria de Estado da Cultura. Vez por outra, à época, ele ia à sede do órgão, na Praia Grande, saber do desenrolar das coisas para a publicação, prevista no regulamento do certame. Os poucos encontros que tivemos sempre foram muito agradáveis: Bira era muito educado, simpático e engraçado. Adorava ouvir suas lembranças de episódios hilários somadas às de José Maria Nascimento, Nauro Machado e Wilson Martins, gargalhadas às quais por vezes somei as minhas, quando eles se reuniam, para água, cafezinho e prosa, na sala que eu ocupava (naqueles idos eu chefiava a Assessoria de Comunicação da Secma). A burocracia emperrou e as obras vencedoras do edital lançado pelo governo Jackson Lago só foram publicadas no governo Roseana Sarney, quando o golpe judiciário tirou aquele do poder.

Ubiratan merece mais respeito. Foto: Murilo Santos

 

O Estado da lambança – Se por um lado a oficialidade, em notas de pesar e fotografias aos pés do féretro, parece lamentar realmente a perda de Ubiratan Teixeira, por outro sua memória parece já ameaçada: qual Tião Carvalho apontado como João do Vale, no Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão público estadual, o velho e saudoso Bira aparece, no mesmo “palco”, como Odylo Costa, filho, entre gente – inclusive o com quem lhe confundem – de sua mesma envergadura: Ferreira Gullar e Josué Montello. Nem comentarei a grafia do nome do jornalista que batiza outro importante órgão público estadual.

Homenagem – Ubiratan Teixeira já havia sido escolhido pela Fundação Municipal de Cultura como um dos homenageados da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que acontecerá em novembro.

Outra grande perda – Em pouco mais de um mês, é a segunda grande perda para as letras maranhenses: seu confrade na Academia Maranhense de Letras (AML) José Chagas faleceu em 13 de maio passado.

Cortázar em ritmo de jazz

Um primor a edição em que a Cosac Naify brinda os leitores brasileiros com uma pequena obra prima do galã Julio Cortázar. O perseguidor [2012] é escrito como se o autor tocasse jazz. Como se fosse possível traduzir solos de saxofone – em um improviso interminável, puro êxtase – pelo batuque frenético da máquina de escrever do argentino nascido na Bélgica.

Em 94 páginas são narrados alguns episódios da vida de Charlie Parker, o Bird, um dos maiores nomes do sax alto no jazz em todos os tempos. O talento grandioso, ainda hoje venerado, a vida curta, consumido por altas doses de álcool e heroína, é retratado pela pena precisa de Cortázar e o traço elegante de José Muñoz.

O conto é narrado por um crítico de jazz, autor de uma biografia de Bird – cujo nome é modificado, embora outros personagens reais compareçam ao livro, caso de Miles Davis –, a quem visita, logo no início. Humanamente decadente, o músico não tem sequer um instrumento para iniciar uma temporada dali a dois dias.

A narrativa que mescla a biografia de Parker e ficção entremeia histórias folclóricas (para não dizer engraçadas) e tristes. Neste campo a morte de uma filha e a ruína do músico; naquele, o dia em que chamuscou um colchão em um hotel em que se hospedava, onde desfilou nu pelos corredores.

Originalmente publicado em 1959 – em Las armas secretas, que trazia Las babas del diablo, que inspirou Michelangelo Antonioni em Blow up – e reeditado na Espanha 50 anos depois, o conto ganhou nova tradução, do poeta Sebastião Uchoa Leite. Recomendável não apenas para jazzófilos iniciados.