“O produtor deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época”

“Me pegou desprevenido mesmo! Mas vou te respondendo no voo… Ó aí!”, escreveu o produtor musical Bruno Giorgi na resposta ao e-mail que lhe enviei com as perguntas desta entrevista.

O filho de Lenine ainda não tem 30 anos e já é um dos nomes mais requisitados do Brasil em sua área. Praticamente nasceu dentro de estúdios e viu produtores lendários em ação, como Tom Capone (1966-2004).

Em 2006, Bruno Giorgi abriu o estúdio O Quarto, na Urca, Rio de Janeiro, onde atua como produtor e engenheiro de som. Uma busca com seu nome na internet levará a um escultor brasileiro homônimo (1905-1993). Nosso entrevistado foi indicado ao Grammy latino pela engenharia de som de Chão (2011), disco de seu pai. Ele assina a mixagem e masterização de Ottomatopeia (2017), disco mais recente do também pernambucano Otto.

Bruno Giorgi está em São Luís ministrando a oficina Introdução à produção musical, hoje (30), amanhã (1º./12) e depois (2/12), das 14h às 17h, no Centro Cultural Vale Maranhão, na programação do Conecta Música, evento paralelo de formação do Festival BR 135.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Flora Pimentel/ Divulgação

 

Bruno, qual é efetivamente o papel de um produtor musical e quais os limites de sua interferência no trabalho de um artista?
Tudo depende do projeto a ser produzido. Há projetos em que o produtor cria toda a parte musical em conjunto com o artista. Também existem os projetos em que só cabe ao produtor gravar da melhor forma possível, com a menor interferência possível.  Isso, hoje em dia, é definido pelo artista, não mais pelo produtor.

Um produtor musical necessariamente não precisa ser músico, mas isso ajuda?
Todo conhecimento ajuda. O produtor está no meio de um diálogo entre o artista (ou a banda), músicos, técnicos e público. Para conseguir trabalhar com essa gama de profissionais, quanto mais ferramentas ele tiver, melhor.

Pelão [o produtor João Carlos Botezelli, responsável pelo lançamento em disco de nomes como Adoniran Barbosa, Cartola e Nelson Cavaquinho], Hermínio Bello de Carvalho [letrista de música popular, descobridor de Clementina de Jesus] e o escritor Sérgio Porto [assinava com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi ele quem encontrou o compositor Cartola trabalhando como flanelinha] produziram discos fundamentais, sem serem instrumentistas. São exceções?
Existem vários outros ótimos produtores que não são músicos. Esta é uma discussão interessante, inclusive. Quem é músico? É só quem toca um instrumento?

O quanto sentimento ajuda no trabalho de um produtor? Explicando melhor: cumprir o papel de produtor apenas pelo cachê resulta num trabalho menos bom que um produzido por alguém que se emocione com o trabalho do produzido?
Esta pergunta é muito boa e vai ser um dos motes da nossa oficina! Obrigado por ela. Acho que existem produtores que já chegaram em um grau de experiência que os permite trabalhar satisfatoriamente com quase qualquer projeto. No caso desta pergunta, que julgo ser bastante pessoal, respondo apenas por mim… Acho que o interesse de todas as partes é fundamental para o sucesso de qualquer material artístico. No fim das contas, o trabalho envolvido na produção de um disco é lento e muito subjetivo; é difícil conciliar projetos, pois o trabalho requer imersão… No meu dia a dia, acabo priorizando os projetos em que me sinto necessário de alguma forma e isso tem a ver, claro, com interesse. Respondendo mais diretamente: prefiro indicar algum profissional que imagino que se adeque melhor à proposta do artista se o projeto não me despertar interesse. Por outro lado… É muito difícil um trabalho não me interessar hoje em dia. A maioria das bandas e artistas que chegam até mim me conheceram através de algum projeto anterior em que trabalhei. Isso acaba fazendo uma espécie de “seleção natural”: quem me procura o faz por notar alguma afinidade estética com o que já produzi…

O barateamento das tecnologias facilitou a vida dos artistas por um lado. Por outro, pulverizou a produção. Com tanta oferta e tanta exposição, como se destacar? O produtor tem também algum papel fundamental nisso?
Não costumo pensar no avanço tecnológico como uma ameaça aos profissionais que precisam dominar alguma técnica. Também não acredito que a facilidade que veio com a tecnologia reduziu a qualidade das produções; acho o exato contrário. Tendo dito isso, acredito que só se sobressai o profissional com um trabalho consistente. Isso é difícil. Mas está muito mais fácil do que há 20 anos.

As formas de produzir e consumir música mudaram ao longo das últimas décadas: vinil, cd, download, streaming, a volta do vinil. Como você avalia esta linha do tempo?
O material base continua sendo a música. Acredito que o mercado muda, a forma de se ouvir música também muda, mas seguimos tentando fazer uma música que se conecte com o resto das pessoas no mundo. Por isto, acredito que esta mudança de paradigmas só venha como uma atualização do objeto que dá play na música e não em alguma característica desta arte. Acho que o produtor, diante disso, deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época. O meio dita pouca coisa (hoje em dia, quase nada).

Você já trabalhou com nomes importantes da música brasileira, entre os quais Lenine e Otto, em seu disco mais recente. Pode revelar aos leitores com o que você está ocupado atualmente?
Entreguei a versão física do disco novo da banda pernambucana Kalouv esta semana. Estou finalizando o primeiro disco do Deriva, projeto do Mateus Guedes, também de Recife. Mês que vem começarei o disco novo do Lenine. Esta semana também sai o disco novo do Cicero, que gravei ao lado do Pedro Carneiro.

A revolução do BR 135

Dois recordes quebrados, shows históricos, a Praia Grande reocupada com arte e coros em uníssono: “Fora, Temer!”

Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Em seu quinto ano, o Festival BR 135 superou todas as expectativas e parece que qualquer coisa que se diga dele soará clichê – inclusive isto.

Colocando São Luís na rota do circuito brasileiros de festivais, alguns longevos, outros tão ou mais novos que o “nosso” BR, como é simplesmente abreviado – e chamar o BR de nosso é mais que legítimo! –, mas já demonstrando vigor – e aí já disputamos as atenções de igual pra igual.

Se não, vejamos: que outro/s festival/is brasileiro/s consegue/m reunir numa mesma edição Nação Zumbi, Di Melo e Liniker e os Caramelows, para ficarmos apenas nos headliners, já que havia outras ótimas atrações na programação?

“A única saída é o aeroporto”, dizia um jocoso Tom Jobim, sobre a situação brasileira, noutros tempos. 52 anos depois do golpe que implantou a ditadura civil-militar no Brasil, um novo golpe, político-jurídico-midiático, destituiu a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, para ascender o vice-decorativo ao posto de presidente-decorativo.

Mas por que falar de política em um texto sobre cultura, mais especificamente sobre um evento cultural? Se você ainda se pergunta isso, das duas uma: ou apoia os golpistas ou está muito por fora.

Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Já na primeira noite de BR 135 – batizado com o nome da única entrada e saída de São Luís por via terrestre –, a de quinta-feira (24), as atrações foram unânimes em compartilhar do grito da galera: um mar de gente – outro clichê – entoava o coro de “Fora, Temer!”, com a recíproca verdadeira de bandas como Venga Venga (um duo de djs), DuSouto e Nação Zumbi. Estes, encerrando a noite inaugural, quebravam um recorde de público do festival. Há quem fale em 10 mil pessoas na Praça Nauro Machado e arredores.

“Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o imorrível”, gracejou Di Melo, outro pernambucano, lenda vivíssima – chegou a ser dado como morto, depois reapareceu –, cujo álbum de estreia passou anos esquecido até tornar-se cult e cantado a plenos pulmões pelo ótimo público que lotou a Praça da Criança na segunda noite de festival (quinta-feira, 25). Aqui cabe um elogio também à banda local que o acompanhou.

“Foram só 40 minutos de ensaio, estes músicos são maravilhosos”, derramou-se ao se referir a João Paulo (contrabaixo), Rui Mário (teclado), Fofo (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). Com todos os presentes cantando seu repertório de cabo a rabo – mesmo as poucas músicas de Imorrível, disco lançado este ano, nem se sentiu falta de backing vocals, para repetir o refrão “calma, calma, calma, calma, calma!”, de A vida em seus métodos diz calma, da estreia Di Melo, de 1975.

Por falar em atrações locais, a noite central foi também a “noite do empoderamento feminino”, quando o palco da Nauro Machado – difícil falar em palco principal – foi totalmente das mulheres: Nathália Ferro, Tássia Campos, Núbia e Lei di Dai mandando a real.

Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Outros destaques locais foram a volta da Pedeginja, entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco de estreia e inéditas, Beto Ehongue e os Canelas Preta, que aproveitaram os ótimos público e clima do Festival BR 135 para a gravação de um dvd ao vivo, e Bruno Batista, que apresentou novamente aos ludovicenses o show Bagaça, baseado no repertório de seu último álbum, com participações do casal Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões, idealizadores e produtores do BR 135), de Léo Chermont (guitarrista da Strobo, banda paraense que faria show na sequência) e acompanhado de André Bedurê (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria), Márcio Guimarães (guitarra) e Estevan Sinkovitz (guitarra).

Bruno Batista afirmou com todas as letras o que, de algum modo, todos tínhamos certeza: “o BR 135 é a coisa mais revolucionária que aconteceu na cena cultural do Maranhão nos últimos tempos”. Certamente referia-se ao conjunto Festival BR 135, que além dos shows promove feira criativa e intercâmbios os mais diversos, além do Conecta Música, evento paralelo que envolve debates, palestras, mesas redondas, oficinas, rodadas de negócio – sem falar na histórica roda de samba na Feira da Praia Grande, na tarde de sábado (26), reunindo Patativa e a Turma do Vandico.

Como anunciou Leminski, "essa noite vai ter sol". Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Como anunciou Leminski, “essa noite vai ter sol”. Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir: fechando a última noite de festival (sábado, 26), Liniker e os Caramelows fizeram um show para um público ainda maior que o da Nação Zumbi. Havia gente pendurada nas árvores. Um festival com dois recordes sucessivos quebrados não é qualquer festival.

Quando ela cantou Zero, acompanhada, obviamente, pela multidão, isqueiros e celulares se acenderam, quase antecipando em algumas horas a barra do domingo – na memória de quem esteve presente ainda não se apagaram.

[originalmente publicado nO Imparcial de hoje]

#ocupafeira

Patativa e Turma do Vandico farão três horas de samba na Feira da Praia Grande, na programação do Festival BR 135

Há dois anos, em novembro, a compositora Patativa realizava um sonho: pelas mãos do conterrâneo Zeca Baleiro, lançava Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia, que contou com participações especiais de Simone e Zeca Pagodinho, dois cantores de sua admiração, além do maranhense, idem.

Seu primeiro disco era há muito aguardado por um séquito de fãs e conhecidos que Patativa acumulou ao longo dos anos em que inventou e aprimorou o que ela mesmo chama de “samba de cachaceiro”, sambas de letras propositalmente curtas para evitar o risco do esquecimento numa manhã de ressaca.

Prestes a completar 80 anos, em 2017, quando lançará seu segundo disco, também produzido por Zeca Baleiro, Patativa esbanja, além do galho de arruda na orelha esquerda, uma saúde de ferro, de fazer inveja a muito jovem trabalhado na academia. Consultas e exames, aliás, contradizem a maledicência provinciana que lhe imputa o mal de Alzheimer – o HD privilegiado de Maria do Socorro Silva, nome de batismo da pedreirense, arquiva mais de 200 composições nos mais variados estilos, que o público conhecerá no sucessor de Ninguém é melhor do que eu, que privilegiou o universo do samba, vertente pela qual é mais conhecida.

A exceção, no primeiro disco, era Xiri meu, cacuriá malicioso, batizado pelo apelido maranhense dado à genitália feminina, que acabou por emprestar título a um documentário curta-metragem de Tairo Lisboa, que obteve algum êxito no circuito de festivais de cinema do Brasil. A música que fecha Ninguém é melhor do que eu é, no final das contas, um quase-samba de empoderamento feminino, que, no universo geralmente machista do samba, coloca as mulheres em seu devido lugar: fazendo o que quiserem, quando quiserem, com quem bem entenderem.

O Mercado das Tulhas ou Feira da Praia Grande, espécie de segunda casa de Patativa, que ela visita com frequência, tirando onda com feirantes, habitués e turistas, será o palco em que a madredivina dama estará à vontade, na companhia da Turma do Vandico, um dos mais longevos grupos de samba da Ilha.

A grande roda de samba e sorriso acontecerá no próximo sábado (26), a partir das 15h (a previsão é que siga até 18h), com entrada gratuita – a exemplo de toda a programação do Festival BR 135 e do Conecta Música, evento paralelo de formação e debates.

Patativa passeará pelo repertório de seu disco de estreia e do próximo (já gravado!), além levar ao público inéditas de seu cofo fundo e versátil de composições.

Há alguns anos o BR 135 e o Conecta Música ocupam com arte e discussões sobre seus rumos diversos espaços da Praia Grande, valorizando o patrimônio arquitetônico, cultural e humano. Alê Muniz, seu idealizador e organizador, ao lado de Luciana Simões, com quem forma o duo Criolina (que lança disco novo ainda este ano), reconhece o “formato de feira” do Festival, que este ano tem as ocupações culturais destes tempos temerários, mas não só, entre os temas de debate. Entrar na Feira, literalmente ocupá-la, é mais um acerto, que se soma a vários outros na estrada que o BR 135 já percorreu até aqui. Ainda mais com Pattaiva e a Turma do Vandico de cicerones.

Pré-festa

A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d'Areia. Foto: Diego Chaves
A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia. Foto: Diego Chaves

 

Semana que vem o BR 135 e sua programação paralela de debates e formação, o Conecta Música, ocupam diversos espaços da Praia Grande, no quinto ano do Festival que já consolidou seu lugar no calendário cultural do Maranhão.

Este ano, entre diversas outras atrações, estão confirmados shows com Liniker, Di Melo e Nação Zumbi, além do maranhense radicado em São Paulo Bruno BatistaHomem de vícios antigos voltará à programação em momento oportuno.

Hoje (17), às 20h30, no Bangalô Gastrolouco (Av. Litorânea, Calhau), acontece o lançamento oficial do festival, com as bandas Canal Raja e Telúricos (ambas participaram da edição do BR 135 ano passado), Forró Pé de Serra de Seu Raimundinho e discotecagem de Jards Zue.

“Além da música, nesta edição outras linguagens estarão nos palcos e na rua em um amplo painel de formas de expressão. Nossa ideia é mostrar que a estrada do festival está aberta para os artistas que resistem fora da indústria cultural tradicional”, explica Luciana Simões, realizadora do evento ao lado de Alê Muniz, com quem forma o duo Criolina – que lança disco novo ainda este ano.

Este blogueiro mediará um debate na próxima sexta-feira (25), às 16h30, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). A mesa, “Jornalismo cultural além da “grande mídia””, terá Marcelo Costa (blogue Scream&Yell), Roberta Martinelli (TV Cultura e Rádio Eldorado, leia-se, Cultura Livre e Som a Pino) e Alexandre Matias (blogue Trabalho Sujo e Ecossistema da Música).

Comunhão

Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Projeto BR135
Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135

 

Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.

Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.

Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.

Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.

Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.

Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.

Arnaldo Antunes passeia por várias fases da carreira na primeira noite de BR135

Foto: ZR (10/12/2015)
Foto: ZR (10/12/2015)

 

A expressão “mar de gente” não seria clichê para dar ideia do público que lotou a praça Nauro Machado, na Praia Grande, ontem (10) para ver Arnaldo Antunes e os shows que precederam o seu: as Caixeiras do Divino, Sulfúrica Bili, Phill Veras e o DJ Chico Correa tiveram, todos, ótima audiência, na primeira noite da edição 2015 do Festival BR135 – veja a programação completa no site.

O ex-Titãs subiu ao palco escoltado apenas por Chico Salem (guitarra e violão) e André Lima (teclado e sanfona), que lhe bastaram para um passeio por diversas fases de sua carreira solo, com pitadas de Tribalistas e da banda que fundou há mais de 30 anos.

Apropriadamente ele abriu o show com Fim do dia (Arnaldo Antunes/ Paulo Miklos). Os presentes à Nauro Machado tinham certeza do que seus versos diziam: o dia havia chegado ao fim e não havia o que lamentar, pelo contrário. Seguiram-se Sem você (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown) – com o incidental de Preta pretinha (Luiz Galvão/ Moraes Moreira) – e Meu coração (Arnaldo Antunes/ Ortinho). “É o único herói ainda vivo. Todos os outros morreram de overdose”, ouvi alguém dizer na plateia. “Ou viraram reaças”, pensei.

Arnaldo Antunes estava à vontade, todo de preto, usando grandes anéis, dançando, dizendo da alegria de voltar à São Luís após tanto tempo. Depois de Contato imediato (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte) e Pedido de casamento (Arnaldo Antunes), lembrou o falecimento recente de Nauro Machado, louvando-o como grande poeta que era e recitou sua Odisseia: “Depois de nos cortarmos a nós mesmos,/ separando a cabeça do olho impuro,/ o olho dos membros e as pernas das mãos,/ depois de separarmos em nós mesmos,/ o que se come do que nos vomita/ por meio escuso de sombrio canal,/ depois de tudo em nós quebrado e inútil,/ na angústia em pelo de uma opaca terra,/ juntamos as partes e/ continuamos”.

Nunca é demais lembrar que Arnaldo Antunes é poeta, com diversos livros publicados. Mesmo na música, sua vertente mais conhecida, à surrada pergunta “letra de música é poesia?” a resposta, no caso de sua obra, é sim: suas letras são tão boas que sobreviveriam descoladas das melodias. As justas homenagens a Nauro Machado já haviam começado com a lembrança de Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, idealizadores e produtores do Festival BR135, com o mestre de cerimônias Preto Nando e com a atriz Áurea Maranhão, a bordo de pernas de pau, atravessando o mar multicolorido e diverso de gente, recitando, em meio ao povo, trechos de poemas do poeta que deu nome à praça que abriga parte da programação do festival, como Pequena ode a Tróia e Câmara mortuária.

Mas voltemos à Arnaldo Antunes, que cantou por mais de hora e meia e deixou no público o gosto de quero mais. Depois do poema do maranhense ele cantou Saiba (Arnaldo Antunes): “saiba, todo mundo vai morrer/ presidente, general ou rei”. Que nos sirva de consolo.

Seguiram-se Invejoso (Arnaldo Antunes e Liminha) e Consumado (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte), cuja letra fala em “rádio sem jabá”, tema de palestra proferida à tarde por Patrícia Palumbo – por cujo Vozes do Brasil Antunes já foi entrevistado – na programação do Conecta Música, evento de formação, paralelo ao festival.

Arnaldo elogiou o trabalho de Chico Salem, que está lançando disco solo e deixou-o no palco para imediata empatia do público. Ele cantou Real demais pra você (Chico Salem), música animada de letra galhofeira: fala de uma usuária de redes sociais cuja vida real é diferente da postada no facebook, tuiter e instagram – qualquer semelhança é mera coincidência: a plateia ria e cantava junto, empunhando celulares que não pararam de fotografar e filmar o show inteiro. Ou, às vezes, apenas cabeças e mãos pra cima à sua frente.

Dos discos mais recentes, ele fez blocos. De Disco, cantou Muito muito pouco (Arnaldo Antunes) e Ela é tarja preta (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ Felipe Cordeiro/ Luê/ Manoel Cordeiro); de Já é, Põe fé que já é (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ André Lima) e Naturalmente, naturalmente (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte/ Dadi).

“Essa é pra lembrar de quando a gente tava dentro da barriga da mamãe”, disse antes de cantar Debaixo d’água (Arnaldo Antunes). Depois de Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira), Velha infância (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Davi Moraes/ Marisa Monte/ Pedro Baby) emocionou grande parte do público, que ajudou Arnaldo a cantar o hit tribalista. Não vou me adaptar (Arnaldo Antunes) atendeu aos deselegantes e insistentes gritos de “Titãs!” ouvidos desde o início do show.

“Tudo fica mais bonito com vocês cantando”, agradeceu ao deixar o público cantar sozinho os versos finais de Socorro (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz): “qualquer coisa que se sinta/ tem tanto sentimento/ deve ter algum que sirva”. Com Passe em casa (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Margareth Menezes), outro vibrante hit tribalista, o trio deixou o palco.

Os gritos de “mais um” demoraram um pouco mais: cigarro entre os dedos, Arnaldo Antunes, ao voltar do camarim, posou para selfies com a equipe de produção, técnicos e quem mais estivesse na lateral de acesso ao palco. No bis, atacou de Envelhecer (Arnaldo Antunes/ Marcelo Jeneci/ Ortinho) e O pulso (Arnaldo Antunes/ Marcelo Fromer/ Toni Bellotto).

Shows como o de Arnaldo Antunes e festivais como o BR135 estão aí para provar que São Luís ainda pulsa. Seu coração de paralelepípedos bombeou emoção aos de carne e sangue ali presentes.

Festival BR 135 será lançado quinta-feira (20) no MHAM

Divulgação

 

Nesta quinta-feira (20), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), o duo Criolina, em evento para convidados, lança o Festival BR 135 e o Conecta Música, que ocorrerão em paralelo, em dezembro, na capital maranhense, e prometem sacudir a Ilha.

Já estão anunciados nomes como Céu, Dona Onete, Felipe Cordeiro e Mombojó, além dos selecionados pelo festival (lista completa na imagem acima).

Idealizador do Festival ao lado de Luciana Simões, Alê Muniz afirma que a intenção é mapear os vários Brasis existentes unindo-os através da música. Para ela é preciso “repensar o Centro Histórico, reconhecido patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, mas abandonado pelo poder público”. “Nosso maior patrimônio não é o conjunto arquitetônico, mas sua relação com as pessoas da cidade”, provoca Luciana.

Shows – Céu abre o Festival BR 135 dia 18 de dezembro, no Teatro Arthur Azevedo. Os demais shows acontecem na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dias 19 e 20. A programação do Conecta Música inclui palestras, oficinas e workshops. O blogue voltará ao assunto.

Confiram Céu em Retrovisor: