Para ouvidos, mentes e corações abertos

[Sobre Hein?, show de Bruno Batista e Claudio Lima, Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy), 27/11]

Foto: Aparecida Batista
Foto: Djalma Raposo

 

Hein? não é para surdos. É para ouvidos atentos, ávidos. Não é para quem está acostumado a mesmice. Ou é, se se quiser sair desta zona de conforto.

É um show em que Bruno Batista e Claudio Lima divertem-se no palco e nós nos embevecemos na plateia. Em determinada altura, ao agradecer carinhosamente a presença de todo mundo, o segundo comenta a importância do público: “sem vocês nós não estaríamos aqui cantando, fazendo música. Estaríamos em casa, estudando”.

Parece simples a ideia de reunir um amontoado de canções, subir no palco e cantar. Pode até parecer, mas está longe disso. Há uma preocupação em reinventar, em recriar, em recompor.

Claudio Lima está cantando cada vez melhor, no palco sua entrega é total, seus elegantes suspensórios não contêm o talento que lhe cabe. Bruno Batista, a despeito de ainda bastante jovem, já é um senhor compositor, sua boina deve ser a primeira a saber das ideias musicais originais que estão sempre a fervilhar sua cabeça.

A poesia forte de Gonzaguinha é recitada ao final de Comportamento geral, que abre o show. Uma música forte, que parece dizer que, apesar de estarem se/nos divertindo e deliciando, a dupla não está para brincadeira.

Noturno (Graco/ Caio Silvio), sucesso de Fagner, ganha clima jazzy na interpretação límpida de Claudio Lima. Sozinho, acompanhando-se com um maracá, canta Kaô (Gilberto Gil/ Rodolfo Stroeter), o risco e a experimentação marcas deste inspirado artista.

Zanza (Carlinhos Brown) ganha grand finale de boi de zabumba, no arranjo inspirado acompanhado pela banda, enxuta e competente: Rui Mário (teclado e sanfona), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas e viola) e João Simas (guitarras).

Antes de cantarem Guaraná Jesus (versão de Carlos Careqa para Chocolate Jesus, de Tom Waits) Bruno Batista contou a história de como chegou à música, de como chapou com À espera de Tom, o disco em que Carlos Careqa canta apenas versões de Tom Waits, ele “fãzaço” declarado de ambos.

Claudio Lima brinca com a voz e torna sublime o fecho de Menina amanhã de manhã (Tom Zé), cantada por ambos e acompanhada por Bruno Batista ao violão – o que ele faz em boa parte do show.

Vê se me esquece (Itamar Assumpção/ Alice Ruiz) é uma música que Bruno Batista escolheu para chamar de sua. Ciranda para Janaína (Kiko Dinucci/ Jonathan Silva) demonstra sua inserção na cena paulistana, onde reside.

“A culpa é dele”, Claudio Lima acusa Bruno Batista ao interpretar Teu corpo (parceria de Bruno com Paulo Monarco e Dandara Modesto), uma das inéditas da ótima safra recente do compositor. Também foram reveladas Madrigal (também parceria de Bruno com Monarco e Dandara) Senhora da alegria – cantada como se rezassem, linda oração que a música é –, O queixo, um tango engraçado, e Caixa preta. Coisas lindas que eu espero que eles gravem logo nos discos prometidos em entrevista, pois não é justo ficarmos reféns de apresentações que não acontecem com tanta regularidade – infelizmente.

O show foi fechado com Hein? (Tom Zé/ Vicente Barreto), que batiza o show. Bruno Batista e Claudio Lima apresentaram a banda e agradeceram novamente aos patrocinadores e apoiadores e a presença do público. Voltaram para o bis: Rosa dos ventos, com que venceram um festival há dois anos, em São Luís, se juntou a Tarantino, meu amor, únicas autorais já gravadas pelo compositor.

Esqueceram-se de comentar o belo cenário, assinado por Claudio Lima: formado por espelhos, um ponto de interrogação em forma de orelha – ou vice-versa –, espécie de logomarca de Hein?, usada também na divulgação do espetáculo desde sua primeira edição, em 2008.

Que venham temporada e turnê, como também prometido em entrevista. Mais gente precisa ouvir e conhecer Bruno Batista e Claudio Lima, dentro e fora do Maranhão.

p.s. (como na música de Itamar e Alice): houve certo exagero no uso de gelo seco, às vezes mais de um jato por música. A máquina faz muito barulho.

Ao propor ‘ruptura’, Lobinho expõe contradições

Lobinho em pele (ou bigode) de Sarney. Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado (com intervenção de Zema Ribeiro)
Lobinho em pele (ou bigode) de Sarney. Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado (com intervenção de Zema Ribeiro)

Exemplos existem aos montes de filhos rebeldes, com ou sem causa, que por discordâncias radicais na maneira de os pais conduzirem as coisas em casa – ou por motivos outros – deixam o conforto do lar dos genitores para arriscarem-se em aventuras longe dali.

De dentro não há ruptura possível, no máximo divergências pontuais, passíveis de solução via diálogo – ou não. Candidato da oligarquia Sarney nas eleições que se avizinham, o senador Edison Lobão Filho, vulgo Lobinho, fala em ruptura com o grupo político a que pertence, em matéria veiculada hoje pelo jornal Valor Econômico (Candidato dos Sarney propõe ‘ruptura’, link para assinantes com senha e/ou leitores cadastrados).

O dono do Sistema Difusora parece já ensaiado por marqueteiros e desfila diversos jargões na tentativa de antecipar-se ao período de angariar votos, a campanha propriamente dita, oficialmente ainda não iniciada, mas já tendo atingido o baixo nível típico do que os maranhenses costumam ver no período, some-se aí a propaganda eleitoral gratuita em rádio e tevê, além do “jornalismo” cometido nos meios de comunicação tradicionais – sobretudo de sua propriedade e de aliados – e nos blogues (regiamente pagos).

Herdeiro político do pai, o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, Lobinho ocupa uma cadeira no Senado sem ter movido um músculo sequer para tanto. Não precisou nem sorrir. Como romper com o grupo que lhe deu tudo o que Lobinho tem?

Como ele não tem “críticas profundas à forma de gestão de Roseana” e, caso eleito, governaria de forma “completamente diferente”? Afinal de contas, Lobinho é “o novo”, “a ruptura”, ou não?

O postulante ao Palácio dos Leões fala em governar o Maranhão como se gerencia uma empresa. Disso ele pode até entender, mas devagar com o andor: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma empresa visa lucro e pouco importa a realidade do entorno ou as condições de quem nela trabalha, desde que seus donos possam dormir tranquilos depois de analisar as planilhas de mais um dia e confraternizar-se em restaurantes finos, com drinques cujas doses valem, cada, bem mais que um mês de trabalho de seus operários.

Mas isto já acontece, talvez me digam os poucos mas fiéis leitores. Logo, não haveria ruptura. Não me parece ser este o destino desejado por quem vive por aqui.

10 links para Cesar Teixeira

Em contagem regressiva, 10 links para os poucos mas fieis leitores (que convidarão outros muitos para lotar o Trapiche quando do acima) irem se aquecendo.

Discurso de Cesar Teixeira por ocasião de sua premiação com a comenda José Augusto Mochel, do PCdoB, como figura de destacada atuação em prol dos direitos humanos no Maranhão, ano passado.

A foto de Murilo Santos cujo detalhe serve de cabeçalho a este blogue, em que Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazem um par de violeiros em MaréMemória, peça do Laborarte baseada no livro-poema de José Chagas, em maio de 1974.

Antes da MPM, texto de Flávio Reis que viria a integrar seu Guerrilhas [Pitomba!/ Vias de Fato, 2012]; o artigo, originalmente publicado no jornal Vias de Fato, de que Cesar Teixeira é fundador, dá uma panorâmica na produção musical do Maranhão da fundação do Laborarte (1972) aos dias atuais; o compositor fundou também o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão.

Para entender Cesar Teixeira, comentário de Alberto Jr. sobre Bandeira de Aço, show que o compositor apresentou ano passado no Circo da Cidade, publicado no jornal O Estado do Maranhão.

Caricatura de Salomão Jr. que enfeitou o texto acima.

Bandeira de Aço e êxtase, comentário deste blogueiro sobre o mesmo show.

A entrevista que Cesar Teixeira concedeu a Ricarte Almeida Santos e este blogueiro, no Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz), antes do show de ano passado. Em quatro blocos, o programa traz amostra chorística da obra do compositor, em interpretações próprias e de grandes nomes da música brasileira.

Bandeira de aço, eterna, texto deste blogueiro que saiu no Vias de Fato de julho do ano passado, divulgando o show. Um ano depois, outro texto nosso sobre o show de 3 de agosto; o jornal chega às bancas e assinantes este fim de semana.

Cinco poemas de Cesar Teixeira publicados em um livro do poeta Herberth de Jesus Santos, o Betinho.

Hino latino (Oração favelense) (A Cesar o que é de Cesar), samba-enredo com três títulos, meu (letra) e de Gildomar Marinho (música), com que participamos (e fomos desclassificados na primeira eliminatória) do concurso da Favela do Samba quando a escola de samba ludovicense homenagearia o compositor.

Para entender Cesar Teixeira

Em determinada altura do dia de ontem, em que aniversariaram meu tio Sérgio Tadeu e meu amigo “presida” Vicente Mesquita (a quem desejo muitos anos de vida e alegrias, mesmo sem ter ligado para nenhum dos dois na data), André Sales, meu amigo editor do caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão, alcançou-me nalgum desses bate-papos a que pass(am)o(s) (quase) o dia inteiro conectado(s). Perguntava se eu tinha alguma boa foto feita durante o show Bandeira de Aço, sobre o que já escrevi aqui. Eu não tinha. Indiquei o fotógrafo Paulo Socha, a quem vi por entre a plateia. Quando o jornalista perguntou-me se eu não tinha uma caricatura, também foi negativa minha resposta. E perguntei: “Salomão não faz?”.

Não perguntei a ele do que se tratava, mas imaginei que algum comentário sobre o show seria publicado na edição de hoje do jornal. Chegando ao trabalho, o exemplar hodierno não fora recebido por nenhum dos colegas. Acessando o site do jornal, li o belíssimo texto abaixo, que tomo a liberdade de copiar, compartilhando-o com meus poucos mas fieis leitores.

Aliás, tem sido uma delícia ler com relativa constância e constante emoção os textos que Alberto Jr. tem publicado recentemente (por exemplo sobre o show de Marcelo Camelo, sobre o disco novo de Chico Buarque, e mesmo o texto que colo abaixo, que André Sales já havia postado em seu Diário do André; o link original n’O Estado do Maranhão é exclusivo para assinantes).

Alô, Salomão Jr., vou pendurar essa caricatura no peito!

Alô, Alberto Jr., nós merecemos mais que uma atualização mensal do Emepebistas!

PARA ENTENDER CESAR TEIXEIRA
Alberto Júnior
Especial para o Alternativo
 

 

Acesse agora o oráculo digital contemporâneo, o Google, e digite o verbete “Cesar Teixeira”. Você vai constatar que existe pouca informação disponível em contraponto à importância que este compositor maranhense tem para a música popular brasileira.

Nem mesmo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira registra algum tipo de conteúdo ou breve biografia sobre Cesar, apenas o cita em composições dele gravadas por outros maranhenses que ultrapassaram o Estreito dos Mosquitos na difusão de suas músicas, como Flávia Bittencourt, Glad Azevedo, Antônio Vieira e Rita Ribeiro.

Contudo, é possível fazer o download do único disco gravado por Cesar, Shopping Brazil (2004), pelo blogue Música Maranhense, uma iniciativa do estudante universitário Victor Hugo, que reúne um bom acervo sobre a música popular do Maranhão, além de encontrar algumas informações esparsas sobre o artista, como um “release” e algumas entrevistas.

A constatação da ausência do nome de Cesar Teixeira nos meios massivos reforça a aura mítica do compositor no Maranhão. Representante de um movimento musical, que gerou uma estética própria da música produzida no Estado, ele não cedeu aos apelos da voz do dono tornando-se o dono da própria voz. Em vez de aprisioná-la em material de acetato, deixou-a livre para fazer coro junto aos seus pares e para ser registrada na memória coletiva de todos nós, tatuada com as cores e as palavras do afeto, da luta e da identidade de uma comunidade.

Um momento – O show Bandeira de Aço, realizado sábado passado (30), no Circo Cultural Nelson Brito (Circo da Cidade), foi a prova de que ele está mais vivo do que nunca. No repertório, novas composições foram apresentadas, além das obras-primas da carreira, como Ray Ban, Parangolé, Flor do Mal, Dolores, entre outras.

Iniciativa da produtora cultural Ópera Night que reuniu os músicos Moisés Profeta (contrabaixo, guitarra), Ribão (percussão), Quintino Neto (bateria), Rui Mário (sanfona, teclados), Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho, percussão), Hugo Barbosa (trompete), Daniel Miranda (trombone), Regina Oliveira (vocal) e Mayrla Oliveira (vocal) para apresentar os diversos ritmos da obra de Cesar e o que ele tem de melhor: a música em formato canção. Como convidado especial, subiu ao palco também o compositor Joãozinho Ribeiro, com quem dividiu a apresentação do divertido Samba do Capiroto.

Mais do que a tentativa de entender a obra de Cesar Teixeira pelo viés da crítica ou da pesquisa – tão necessárias e importantes – está a experiência com o artista em cena e na interação com seu público. A resposta está na pureza das crianças que abriram o show cantando a toada Boi da Lua, na urgência do corpo em rejeitar o comportamento disciplinado pelas cadeiras de plástico levantando-se para a dança, na delicadeza de quem se emocionou com canções do ‘tempo da janambura’ que ressuscitam personagens e cenários de velhos tempos e na força da palavra de ordem repetida em coro por todos no bis: “E diga sim a quem nos quer acolher, mas se for pra nos prender diga não”.

A força de uma poesia que põe em xeque qualquer pretensão buarquiana.

Alberto Júnior é radialista e pesquisador musical.