Meia dúzia de videoclipes maranhenses

 

Quando ouvi os primeiros segundos de Como me sinto tive a certeza de um hit instantâneo. Com Gisa Franco, entrevistei-o no Balaio Cultural (Rádio Timbira AM) sobre o EP que lançou antes de rumar para São Paulo. Garoto prodígio, Dhean começou a cantar aos três anos na igreja evangélica que sua família frequentava. A música é, por assim dizer, o carro-chefe do trabalho, que traz quatro faixas autorais e uma releitura inspirada de Demais (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), sucesso de Maysa.

 

 

Em 17 de maio passado, sob direção de Marcelo Flecha, Cláudio Lima subiu ao palco da Pequena Companhia de Teatro, em São Luís, onde apresentou o show Com a lira, marcando posição no Dia Internacional de Combate à Homofobia. Desfilou um repertório de temática homoafetiva e/ou assinado por compositores e compositoras idem. O show acabou merecendo bis e o cantor ganhou de presente de Zeca Baleiro a canção Qualhira, para a qual o próprio Cláudio Lima, designer de profissão, realizou o videoclipe de animação. Contra a força bruta, delicadeza e beleza.

 

 

Enquanto uns fecham os olhos e assim legitimam e autorizam o extermínio de indígenas, o duo Yamí celebra os povos originários. Marco Lobo (percussão e eletrônica) e Federico Puppi (violoncelo e eletrônica) se unem a Rita Benneditto (voz e percussão) num canto que celebra a conexão do humano/indígena com o divino/natureza. A música une o candomblé ao bumba meu boi, utilizando instrumentos de percussão típicos da manifestação legitimamente maranhense, como o pandeirão e o tambor-onça.

 

 

O registro ao vivo dá ideia do que foi o show de lançamento de Elementos e hortelã na terra dos eucaliptos, segundo disco do cantor e compositor Vinaa, realizado no último dia 1º/11, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen). O álbum está disponível nas principais plataformas digitais e tem também edição física.

 

 

Zeca Baleiro já lançou outro disco, O amor no caos – volume 2, mas soltou recentemente o lyric vídeo de Mais leve, gravada pelo cantor e compositor com a adesão de sua parceira na autoria da faixa Cynthia Luz no volume 1. Ambos os álbuns estão disponíveis em cd e nas plataformas digitais.

 

 

Jornalista de formação, a compositora e cantora Valéria Sotão assina direção e edição de vídeo em Desmanchem, single que acaba de disponibilizar no youtube. Antenada com os novos tempos e as mudanças na forma de consumir música, ela tem lançado faixas de modo esparso e anuncia para breve o lançamento de novo single.

“Tu é qualhira, porra?”

Foto: Zema Ribeiro

Ninguém que tenha ouvido qualquer disco ou canção ou visto qualquer apresentação duvida do talento de Cláudio Lima: não cabe em si de tanto.

Corajoso e ousado, ele soltou seus demônios ontem (17), Dia Internacional de Combate à Homofobia, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em Com a lira, cujo repertório é dedicado à temática homoafetiva na música popular brasileira – e/ou de compositores homossexuais.

O trocadilho do título, com a expressão tipicamente maranhense “qualhira” (ou “qualira”), usada para designar homossexuais, afeminados etc., já anunciava o conteúdo do show.

Com a lira é o grito de resistência de Cláudio Lima diante da violência perpetrada historicamente contra homossexuais, quadro que deve se agravar com a política armamentista do governo federal.

Num formato econômico, Cláudio Lima acercou-se dos talentosos Totti Moreira (violão e guitarra) e Luís Cruz (guitarra, bateria e programações) para dar seu recado.

A direção de Marcelo Flecha potencializou o gigante que Cláudio Lima já era. No cenário pendiam formas evocando chifres de veado e costela de veado. O cantor trajava uma camisa brilhosa, que ele não tardaria a tirar, ficando apenas com a de baixo, a calça com suspensório e um sapato de salto e sem traseira.

Sou rebelde (Manuel Alejandro, versão de Paulo Coelho), sucesso de Leno e Lilian regravado por Chico César, abre o espetáculo, marcando o primeiro arrebatamento musical de Cláudio Lima, ainda na infância. Segue-se Homem com h (Antonio Barros), hit de Ney Matogrosso.

“Este show é um ato de resistência contra o empoderamento da imbecilidade”, anunciou Cláudio Lima. Para completar, divertindo-se/nos: “um pouquinho de qualhiragem”.

Balada do louco (Rita Lee e Arnaldo Baptista) ele cantou sem o auxílio do microfone, percorrendo o L formado pelas cadeiras da plateia. Daniel na cova dos leões (Renato Russo e Renato Rocha), da Legião Urbana, ganhou arranjo reggae, o que aconteceu também com Malandragem (Cazuza e Frejat), sucesso de Cássia Eller. Nesta, ele trocou o “eu troco um cheque” da letra original por “eu fumo um beque”.

Quando cantou Ilusão à toa (Johnny Alf), mandou: “essa música é do único homossexual da bossa nova”, ao que alguém na plateia retrucou: “que você sabe, não é, Cláudio?”. O cantor riu, concordando: em pleno 2019 ninguém mais deveria caber no armário.

Gilberto Gil compareceu ao repertório com duas em sequência: O veado, faixa pouco lembrada de Extra (1983), e Pai e mãe. Antes de River Phoenix – Carta a um jovem ator (Milton Nascimento) ele pediu “licença: essa eu quero dedicar ao meu boy”.

Única autoral do repertório, O medo (Cláudio Lima) é um rap de letra densa e ligeira, que trata de um tema central na vida da população LGBTQI+. Depois atacou de Minha carta (Tom Zé), única música do set list já gravada por Cláudio Lima (faixa de Cada mesa é um palco, de 2006, segundo disco do artista).

Era hora de uma dose dupla de Chico Buarque: após uma introdução em que evoca um cantor de ópera, mandou O que será? e em sequência Geni e o zepelim.

Parceria de Angela RoRô e Cazuza, Cobaias de Deus é apoteótica: Cláudio Lima canta sentado na poltrona vermelha que compõe o cenário e vem escorregando, evocando a agonia pública de Cazuza em decorrência do vírus HIV. Termina a música deitado no chão, bagunçando o tapete e anunciando que o show, visceral, está próximo do fim.

“A placa de censura no meu rosto diz:/ não recomendado à sociedade”. A letra de Não recomendado (Caio Prado) é uma cusparada na cara hipócrita da sociedade. Continua: “má influência/ péssima aparência/ menino indecente/ viado!/ pervertido/ mal amado/ menino malvado/ cuidado!”.

À porrada da letra original, Cláudio Lima tira onda mandando um recado sério, evocando o bullying sofrido por tantos na infância e adolescência: termina de cantar aos berros, com a pergunta violenta tantas vezes ouvida: “tu é qualhira, porra?”.

Aos gritos de “mais um!” e diante do impacto da plateia, emendou a música nela mesma, como quem acende um cigarro na bagana do anterior: atacou novamente de Não recomendado, repetindo trejeitos e a pergunta brutal.

Com a lira é destes espetáculos que não podem estacionar em uma única apresentação.

Um legítimo 12 anos

Foto: Zema Ribeiro

 

A resignação católica nos ensina que para tudo tem seu tempo.

Ontem o cantor Cláudio Lima entrou para a história, poderíamos dizer de forma brincalhona: é provavelmente o primeiro artista a lançar o segundo disco (Cada mesa é um palco) depois de ter lançado o terceiro (Rosa dos ventos). Não como Hermeto Pascoal, que recentemente soltou um disco gravado em 1999. Ou John Coltrane, que recentemente teve descoberto um disco inédito gravado em 1963.

Cada mesa é um palco, disco de voz e piano, que Cláudio Lima dividiu com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles, chegou ao mercado em 2006, mas nunca teve um show de lançamento, por uma soma de circunstâncias. Tudo tem seu tempo, ontem foi o dia – ou melhor, a noite. A eles juntou-se o percussionista paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio.

Falar em show de lançamento daquele disco talvez não dê conta da dimensão da noite, pelo fato de o repertório ter extrapolado o que foi gravado no disco do copo sujo de batom. Se os uísques 12 anos são os melhores, que dizer então de um disco, cujo bolero-título diz: “cada mesa é um palco/ e afogada no álcool/ tu finges me amar”?

O palco não poderia ser outro: o Buriteco Café, na Praia Grande, vem se configurando como uma casa que acredita em propostas artísticas diferenciadas, para além daquilo que se convencionou chamar de música de barzinho.

Há uma comunhão entre artistas e plateia – que compreende estar diante de um espetáculo grandioso, e não (apenas) para comer, beber e conversar.

Cláudio Lima se agiganta ao subir ao palco, parece entrar em transe. Durante o show de ontem, por duas vezes chegou a dispensar o microfone, sua voz entre um cantor de ópera e um vaqueiro aboiando, por exemplo, em Lamento sertanejo (Dominguinhos/ Gilberto Gil).

Na inédita Toc toc (Rubens Salles), “ou Knock knock, em inglês”, brincou o pianista, o espaço para o improviso do trio, entre teclas, tambores e voz. Os três tocam e cantam como quem brinca, status adquirido com muito esforço.

Entre os destaques da noite, as releituras arrebatadoras de Guardanapos de papel (Leo Masliah), de letra longa e delicada, versão pouco conhecida de Milton Nascimento, e Tropicana (Alceu Valença).

Estabelecido nos Estados Unidos, o piano de Rubens Salles está para muito além da bossa nova para gringo ouvir (o que já não seria pouco) e após acompanhar Cláudio Lima em músicas como Garota de Ipanema (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), Lígia (Tom Jobim) e Insensatez (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), não se fez de rogado e acompanhou a pulsação frenética do bumba meu boi de zabumba, na toada Adeus (Mestre Zió), gravada por Luiz Cláudio em um EP indicado ao Grammy, música que encerrou a apresentação de ontem.

Aos gritos de “mais um”, Cláudio Lima retrucou: “eu já estava pensando que vocês não iam pedir”. Cada mesa é um palco estava finalmente lançado, com direito a exemplares do disco à venda: “ainda existe cd, gente!”, o cantor tornou a brincar. No bis, Bis (Cesar Teixeira), que contém o verso-título do disco e show.

Serviço: hoje (10), a partir das 16h, o trio reprisa Cada mesa é um palco no projeto Quintal Cultural, na Casa d’Arte (Rua do Farol do Araçagy, 9, Raposa – em frente à clínica Ruy Palhano), com cachê colaborativo, no velho esquema Silvio Santos (leiam este parêntese lembrando a voz do Lombardi: “deixa o Oficina em paz, Silvio!”): “quanto vale o show?”.

Todo mundo vai pedir bis

[baita honra e responsabilidade escrever este release a pedido de Cláudio Lima]

Cada mesa é um palco é um verso de Bis, bolero de Cesar Teixeira, que dá título ao segundo disco do cantor Cláudio Lima, lançado em 2006, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles.

A música conta a história de um artista entre o ofício e o amor e o verso evoca diversas leituras. Cada mesa é um palco foi o título escolhido para o show que Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão) apresentam no próximo dia 9 de junho (sábado), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande). Os ingressos – à venda no local – custam R$ 20,00.

A curiosidade é que o disco nunca teve show de lançamento. “Posso dizer que vou finalmente lançar meu segundo disco, depois de ter lançado o terceiro”, diverte-se Cláudio Lima, que além de Cada mesa é um palco, lançou também Cláudio Lima (2001) e Rosa dos ventos (2017).

Os discos de Cláudio Lima são profundamente marcados pelo flerte com a música eletrônica e com uma criteriosa seleção de repertório. Ao disco – e ao show – Cada mesa é um palco comparecem nomes como o citado Cesar Teixeira, além de Bruno Batista, Tom Zé, Luiz Gonzaga, Herivelto Martins e Tom Jobim, entre outros.

O show reunirá no palco três virtuoses: Cláudio Lima é hoje reconhecidamente um dos maiores intérpretes da música popular produzida no Maranhão, tendo-se aventurado com desenvoltura como compositor em seu disco mais recente; Rubens Salles é pianista aclamado internacionalmente, com sua mistura de jazz, world music e a ginga brasileira, com os discos Munderno e Liquid Gravity Plus na bagagem; e o paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio é um de nossos mais requisitados percussionistas, atualmente desenvolvendo um trabalho solo, já tendo emprestado seu talento ao trabalho de nomes como Cesar Teixeira (Shopping Brazil), Ceumar (Dindinha), Lena Machado (Samba de Minha Aldeia) e Zeca Baleiro (Vô Imbolá), entre muitos outros.

O espetáculo terá apresentação única, aproveitando a passagem de Rubens Salles por São Luís. O set list será focado em Cada mesa é um palco, mas Cláudio Lima passeará pelo repertório de seus outros discos, lembrando músicas como Black is the color of my true love’s hair (tradicional canção folk, gravada por Nina Simone), do primeiro, além de umas poucas que não figuram em seus discos, caso de My valentine (Paul McCartney). Ao longo da apresentação haverá espaço também para Rubens e Luiz Cláudio exibirem seu virtuosismo, num diálogo-duelo entre piano e percussão.

Sobre o encontro do trio no palco, Cláudio Lima relembra: “foi Luiz Cláudio quem me apresentou a Rubens Salles, em 2003, em São Paulo. A gente tentou montar uma banda, foi o começo de tudo. A banda acabou não dando certo e pouco tempo depois veio o Cada mesa é um palco”. É a primeira vez que os três artistas se apresentam juntos.

Alterando o verso final da música que dá título ao segundo disco de Cláudio Lima, podemos antecipar do show Cada mesa é um palco: quando a noite terminar e a cortina fechar, todo mundo vai pedir bis.

Serviço

O quê: show Cada mesa é um palco
Quem: Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão)
Quando: dia 9 de junho (sábado), às 20h
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (ingresso individual)

Lições de um guará

Esplêndido. Capa. Reprodução

 

2017 foi um ano de descobertas para Cláudio Lima. Artista sempre apontado como cantor talentoso, revelou-se compositor ao assinar, sozinho ou em parceria, a metade das faixas de Rosa dos ventos, seu terceiro disco. O ano que findou revelou ainda outra faceta de Cláudio Lima: a de escritor, autor do infanto-juvenil Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho [Gwará/ Sesc/ Oca/MA, 2017, 48 p.], ilustrado por Rosiane Bastos.

Claudio Lima não coloca no papel algo ouvido da tradição oral, nem reconta uma lenda ou algo que o valha. Ele parte de um argumento original e seu livro debate questões urgentes e fundamentais, todas pautadas em direitos humanos, como a preservação do meio ambiente, sabedoria indígena, solidariedade, bullying, igualdade, amizade, adoção, alimentação adequada etc.

Livro para ser lido por crianças de todas as idades, com o perdão do clichê, Esplêndido conta a história de um guará que é muito mais que um guará que não conseguia ficar vermelho. É a história de um guará que cai do ninho ao nascer, se perde de sua família original, se afeiçoa a um caranguejo chama-maré (base da alimentação da espécie) e é adotado por uma siricora.

Fábula de formação – acompanha os passos do guará do nascimento aos ensinamentos que nos deixa ao longo da leitura –, sua moral vem em forma de poesia, com referências sutis (à cantora Maysa, rainha da fossa, gênero a que Cláudio Lima já dedicou um disco) ou escancaradas (à poeta Cora Coralina, que empresta o nome à Siricora Coralina, mãe adotiva de Esplêndido).

O quanto temos em comum com o protagonista, muitas vezes querendo ser isto ou ter aquilo sem entender o sentido de determinadas buscas?

“Às vezes a gente tenta maquiar os problemas, achando que as aparências são o mais importante. Se tu quer uma transformação, ela tem que vir de dentro”, ensina-lhe/nos Pedro Bó, um macaco amigo. “Tu realmente acreditas que só os pássaros vermelhos são felizes? A felicidade tem tantas cores!”, disseram-lhe/nos árvores e nuvens em uníssono durante um sonho.

Viva a diversidade!, outro tema abordado por Cláudio Lima em seu livro de estreia, recheado de ensinamentos, longe da autoajuda que costumeiramente vira best-seller. Aquela voz (das nuvens e árvores no sonho), volta a se pronunciar: “às vezes o mundo com suas provocações te deixa desamparado e buscas alguma ilusão que te cega e deixas de tirar proveito da tua própria angústia. Vou te dar apenas dois conselhos: 1. Busque o amor dos outros do jeito que eles te sabem amar e retribua; 2. Busque conhecimento em todos os lugares onde tiveres acesso. Assim tuas dúvidas poderão transformar-se em sabedoria”.

Vale usar o próprio título do livro para elogiá-lo?

Verdade e fantasia: João do Vale para crianças

O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.

Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.

João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.

Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiroPisa na fulô e a já citada Minha história.

João – O menino cantador. Capa. Reprodução

Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.

“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.

A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.

Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.

A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.

Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.

Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.

Serviço

A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA

Beleza a norte, sul, leste e oeste

Foto: ZR (27/5/2017)
Foto: ZR (27/5/2017)

 

Ao contrário de shows em que, em geral, o uso de celulares e câmeras é proibido (em vão) pela produção, a plateia que assistiu Claudio Lima sábado passado (27), no Cine Teatro da Cidade de São Luís, foi das mais educadas que vi em muito tempo. E a colheita de imagens e posterior postagem nas redes sociais foram incentivadas, logo no texto de abertura, que anunciou a subida do cantor ao palco.

“Coloquem seus celulares no silencioso, mas não os desliguem: fotografem e filmem e postem nas redes sociais”, dizia o texto. Em seguida, solicitou, para gargalhadas da plateia: “este show está sendo gravado. Guardem manifestações como “lindo! Gostoso! Arrasou, qualhira!”, para os intervalos das músicas”. Pedido pronta e educadamente atendido.

Gritos de “lindo!”, “gostoso!” e “viado!” foram ouvidos ao fim da primeira música, Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz). “Tá bom, gente! Já chega!”, pediu Claudio Lima entre a timidez ensaiada e o domínio absoluto da cena – sua performance nunca é exagerada, a serviço tão somente de sua voz, de dar ênfase ao que canta.

O show de lançamento de Rosa dos ventos coroava de forma brilhante uma ideia acalentada há ao menos cinco anos. O show seguiu à risca o roteiro do disco, à exceção de Lástima (Giovanne Chaves), que cantou sentado, acompanhado apenas pelo teclado de Rui Mário.

A inclusão da inédita comprova o que Claudio Lima disse em entrevistas de divulgação do show: já está catando repertório para um próximo disco. Em Rosa dos ventos gravou apenas nomes maranhenses – incluindo ele, em seu début como compositor – e quase apenas inéditas, a exceção justamente a faixa-título, já registrada pelo compositor, Bruno Batista – “mas eu cantei antes”, também frisou em diversas entrevistas, lembrando os prêmios de melhor música e melhor intérprete que ele e Bruno levaram, respectivamente, no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que em 2012 celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense.

Claudio Lima, que a exemplo de seus discos anteriores, assina o projeto gráfico de Rosa dos ventos, também era autor do belo cenário em que desfilou o repertório do disco, acompanhado por Eduardo Patrício (programações eletrônicas, bateria e percussão), Pablo Habibe (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Memel (guitarra), João Neto (flauta) e Rui Mário (teclado e sanfona).

Em Eu não sou refém da maioria (Claudio Lima) trouxe ao palco o bailarino Luciano Teixeira que, a princípio enrolado numa bandeira do Brasil, foi literalmente até o chão coreografando o funk. “É uma honra, pra mim, pra vocês, pra toda a equipe, podermos fazer arte em tempos tão sombrios”, disse o cantor em determinada altura do espetáculo. Fervorosamente aplaudido após cada música, não foi diferente após o comentário.

Após São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (letra de Celso Borges sobre melodia de Michael Rilley), Claudio Lima tornou a brincar com a plateia: “não precisam pedir bis. Ele já está institucionalizado. A gente vai sair e volta pra fazer”. Voltaram aos gritos de “mais um, mais um!”, prontamente atendido. Cantou Bis (Cesar Teixeira), de onde tirou o verso que dá título a seu disco anterior, Cada mesa é um palco (2006). Foi o único momento em que o cantor e os seis músicos estiveram todos juntos no palco ao mesmo tempo, quando Claudio Lima os apresentou ao público.

O disco e a figura escolhida para título apontam em todas as direções, norte, sul, leste, oeste. Rosa dos ventos, disco e show, e Claudio Lima aglutinam e distribuem beleza. Seu público não é refém da maioria e justamente por isso estava ali.

*

Roteiro do show

1) Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz)
2) Salomé minha dor (Fernando Abreu/ Marcos Magah)
3) Não seja burra, baby (Walquiria Almeida/ Claudio Lima)
4) Caminhos ocultos (Der wegweiser) (Franz Schubert/ Claudio Lima)
5) Pingão (Tiago Máci)
6) Parapapá (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
7) Esmolas (Bruno Batista)
8) Não sou refém da maioria (Claudio Lima)
9) Melodia sentimental (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
10) Lástima (Giovanne Chaves)
11) Só me resta regar tuas petúnias (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
12) Falta flauta (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
13) Nem os cadáveres sobreviverão (Marcos Magah/ Acsa Serafim)
14) Rosa dos ventos (Bruno Batista)
15) São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (Celso Borges/ Michael Rilley)

Bis

16) Bis (Cesar Teixeira)

Claudio Lima: um artista único

[release]

Em seu terceiro disco, cantor revela-se também compositor. Rosa dos ventos será lançado em show no próximo dia 27 de maio

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução
Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

POR ZEMA RIBEIRO

Cada disco de Claudio Lima é único. O artista não repete fórmulas, se arrisca, ousa, nunca se acomoda em uma zona de conforto. É um dos mais talentosos cantores brasileiros em atividade. A cada disco, cuida de cada detalhe: da seleção de repertório – só canta o que lhe emociona – ao projeto gráfico: artista talentoso também nessa seara, já emprestou seus dotes a discos de Bruno Batista e Cecília Leite.

Isto talvez explique o grande intervalo entre um trabalho e outro: cinco anos de Claudio Lima (2001), a estreia, a Cada mesa é um palco (2006), dividido com Rubens Salles, pianista baiano radicado nos Estados Unidos, e mais de 10 entre o segundo e este Rosa dos ventos (2017), que lançará em show no próximo dia 27 de maio (sábado), às 20h30, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro) – os ingressos antecipados custam R$ 20,00, à venda na Livraria Leitura (São Luís Shopping); no dia do espetáculo, R$ 30,00, na bilheteria do teatro.

A história de Rosa dos ventos, o disco, começa em 2012, quando Claudio Lima levou para casa o troféu de melhor intérprete no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense. A composição de Bruno Batista, que gravou-a em seu (2013), levou a estatueta de melhor música e com o dinheiro do prêmio, Claudio Lima começou a arquitetar o novo álbum, cuja realização se completou com o patrocínio do Centro Elétrico através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Em Rosa dos ventos o artista debuta como compositor: sozinho ou em parceria, assina metade das 14 faixas, alicerçadas pelas bases eletrônicas de Eduardo Patrício, com quem divide a produção musical. A ele, com seus loops, efeitos sonoros, sintetizadores, baixo, marimba e programação de xilofone, somam-se João Simas (guitarra, baixo, teclado e loops de bateria), Pablo Habibe (guitarra e violão), Rui Mário (sanfona, piano e violoncelo), Roberto Chinês (cavaquinho e bandolim) e João Neto (flauta).

Há poema de Walquiria Almeida musicado (Não seja burra baby), versão de Franz Schubert (Der wegweiser virou Caminhos ocultos), o funk Não sou refém da maioria, cuja mensagem pode ser uma espécie de cartão de visitas do cantor, além de parcerias com Mário Tommazo (Parapapá e Melodia sentimental) e Marcos Tadeu (Só me resta regar tuas petúnias e Falta flauta).

O cantor em retrato de Alison Veras
O cantor em retrato de Alison Veras

Antenado, Claudio Lima reúne ao menos três gerações de compositores maranhenses na ativa, atestando a si mesmo como um “pescador de pérolas”, expressão que não à toa já intitulou disco de outro grande cantor brasileiro.

Rosa dos ventos abre e fecha com o olhar poético sui generis de Celso Borges sobre a cultura popular e a capital maranhense: a toada Boi tarja preta (parceria com Alê Muniz), em que dessacraliza o bumba meu boi, e a pedra de responsa São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae), versão para o clássico Shaperville, de Michael Riley.

Marcos Magah também comparece com duas músicas ao repertório: Salomé minha dor (parceria com o poeta Fernando Abreu) e Nem os cadáveres sobreviverão (com Acsa Serafim), ambas já testadas (e aprovadas pelo público) em shows de Claudio Lima. Quem também lhe fornece um par de pepitas é Bruno Batista: Esmolas e a faixa-título. O repertório se completa com o samba Pingão, de Tiago Máci, recheado de ludovicensidade, crítica social e fina ironia.

Claudio Lima faz música e é impossível rotulá-lo além disso. Sobre a demora deste Rosa dos ventos o que se pode dizer é que valeu a pena esperar. Ele afirma já ter repertório e já estar trabalhando no próximo disco, mas a letra de Não sou refém da maioria pode responder a eventuais cobranças mais apressadas: “não me queiram enquadrar/ em nenhum padrão vulgar/ onde eu tenha que concordar/ o meu molde se quebrou”.

Não é apenas cada disco de Claudio Lima que é único: ele próprio o é.

*

Clique aqui para ouvir Rosa dos ventos, o novo disco de Claudio Lima.

Modéstia e sinceridade

O cantor e compositor Marcos Magah é uma das atrações da terceira edição de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece amanhã (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão.

A noite será aberta com discotecagem do DJ Samir Ewerton, e apresentações do cantor Claudio Lima e do grupo Urubu Malandro – formado por Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone.

O evento é gratuito, com patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Sobre sua participação nesta edição do projeto, Marcos Magah concedeu uma breve entrevista – modesta, sincera e hilariante – a Homem de vícios antigos.

Divulgação
Divulgação

Claudio Lima interpretou Salomé [no show Rosa dos Ventos, no Teatro da Cidade de São Luís, antigo Cine Roxy, em fevereiro de 2014], parceria tua com o poeta Fernando Abreu. O que você achou da interpretação?
Eu fiquei super feliz e honrado, e foi engraçado: eu tinha acabado de chegar em São Paulo para fazer uns shows e descolar uns trampos em restaurante de chinês e Wilka  [Sales, sua produtora à época] me mandou o link do youtube. Eu, na época desesperado, olhei aquilo, comprei uma cerveja, acendi um careta [gíria para cigarro] e saí gritando no meio daquela cidade linda, onde nada espanta.

O que você espera do show de sábado, no sarau de RicoChoro ComVida na Praça?
Velho, na boa, não é frase de efeito, não, mas eu sempre espero o pior.

Serão dois shows separados ou vocês se encontram em algum momento?
Eu e Claudio estamos sempre juntos, mas, sim, eu entro no show dele e ele no meu. Cantaremos Adoniran [Barbosa] juntos.

Você é um artista mais próximo do punk, rock e brega. Como foi se encaixar no choro do Urubu Malandro?
Eu pensei que seria enrolado, mas, cara, da minha parte foi tranquilo. Não sei da parte deles. Cheguei ao estúdio e toquei aquelas canções velhas e simples que tenho e eles me trataram com respeito. Só fiquei com pena do Juca e do Domingos se olhando e pensando: “como é que se chama um cara desses para um projeto tão bonito?” Meninos, coisas da vida.

RicoChoro ComVida (sobre a edição passada e a próxima)

[Escrevi no Medium os dois textos abaixo; rependuro-os aqui (com pequeníssimas edições), caso você não tenha lido lá, para ir entrando no clima…]

MAGIA MARCA ESTREIA DE RICOCHORO COMVIDA

Foto: Rivanio Almeida Santos

Uma alta dose de expectativa foi gerada em torno da estreia do projeto RicoChoro ComVida, desde seu anúncio. Em parte explicada pela orfandade musical deixada pelo saudoso Clube do Choro Recebe, realizado entre 2007 e 2010, também produzido por Ricarte Almeida Santos — para alguns o novo projeto é uma continuidade daquele.

A proposta e a dinâmica são quase as mesmas, sobretudo o diálogo entre o choro e ritmos da cultura popular maranhense e outras vertentes musicais, através do encontro de instrumentistas e cantores e, agora, DJs.

O Barulhinho Bom, palco da nova empreitada, estava completamente lotado para a inauguração do RicoChoro ComVida. As expectativas foram todas superadas em uma noite carregada de magia.

Entre vinis e o laptop, o DJ Franklin abriu os caminhos, os trabalhos, as trilhas da noite, tocando o melhor do samba e do choro, entre nomes como Paulinho da Viola, Cartola, Nourival Bahia, Clara Nunes, Nelson Cavaquinho e outros bambas. Ficou até fácil para o quarteto formado por João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho).

Fácil é modo de dizer, que música é trabalho duro e sério, e o quarteto inaugural do projeto passeou por um repertório de choros clássicos, entre nomes como Pixinguinha e Waldir Azevedo, incidentando, aqui e ali, sutilmente, a ginga e a malemolência da cultura popular do Maranhão.

Luiz Jr. pegou o microfone e ao declarar a emoção de estar ali, foi às lágrimas. “Eu me sinto honrado em estar aqui. Muito obrigado ao Ricarte, um eterno batalhador do choro e da nossa música. Esse projeto traduz a minha luta de quase 30 anos, pois tenho orgulho de dizer que me dedico exclusivamente à música, que é justamente o reconhecimento da nossa música”, declarou, antes de voltar ao ofício.

O convidado da noite era o cantor Cláudio Lima, que cantou sentado, obrigado por um aparelho ortopédico que trazia na perna esquerda. Esbanjou versatilidade, passeando por nomes como Cesar Teixeira, Marcos Magah, Acsa Serafim, Celso Borges, Alê Muniz e Bruno Batista, entre outros. O adjetivo “visceral” não é nenhum exagero: sentindo fortes dores durante a apresentação, o artista levou o show até o final, foi elegante ao negar o bis — “eu emendei tudo, por que com a perna desse jeito, sair e voltar ia dar trabalho”, disse sorrindo — e saiu do palco para o hospital.

Um momento muito aguardado do RicoChoro ComVida era também o das canjas, algo outrora tradicional no Clube do Choro Recebe: é o momento em que instrumentistas e cantores da plateia sobem ao palco, para uma jam sem ensaio. É a hora dos encontros, dos improvisos e de novo deleite da plateia. Sábado passado deram o ar da graça Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Osmar do Trombone, Osmar Jr. (saxofone) e Zé Carlos (pandeiro), além da cantora Célia Maria, próxima convidada do projeto, na edição de 5 de setembro, véspera de feriado.

Produtor e apresentador da empreitada, Ricarte Almeida Santos agradeceu aos deuses da música e aos patrocinadores (Fundação Municipal de Cultura e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré), apoiadores (Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas) e equipe de produção (RicoMar Produções Artísticas).

Quem achou pouco, talvez tenha razão, ainda mais que, ao contrário do semanal Clube do Choro Recebe, RicoChoro ComVida terá periodicidade mensal. Mas no fim da noite, o DJ Franklin já começou a abrir os caminhos, as trilhas para a próxima edição. Como diria o filho do chorão Godofredo: “quando entrar setembro”…

Veja fotos da edição inaugural de RicoChoro ComVida aqui.

*

VOCÊ SABE O QUE É TRÍTONO?

Trítono? No dicionário é o “intervalo de três tons”. É um conceito musical, mas mesmo na música, pode ir além. E vai. É quando se juntam Israel Dantas (violão), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Rui Mário (sanfona): é o Trítono Trio.

Foto: Divulgação

A formação é recente na cena musical instrumental da cidade, mas somadas as trajetórias individuais de cada um, é possível falar em vasta bagagem e experiência de sobra, talento idem.

O Trítono Trio surgiu espontaneamente, nos intervalos de ensaios, shows e gravações em que seus membros se encontravam, com esta formação oportunizando a cada músico mostrar suas veias de instrumentista — de acompanhamento ou solista –, arranjador e compositor.

Vindo de searas diferentes da música, os componentes do Trítono Trio apresentam ao público suas releituras para clássicos e músicas menos conhecidas do repertório do choro e da música popular brasileira, além de composições próprias, com influências do jazz, da bossa nova, do baião e de ritmos da cultura popular do Maranhão.

Somados aos talentos de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo acústico), o Trítono Trio é o grupo anfitrião da próxima edição do projeto RicoChoro ComVida, que acontecerá dia 5 de setembro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

A trinca de ases com dois coringas receberá a dama Célia Maria, dona de um timbre inconfundível, desfilando sucessos de artistas do Maranhão e do Brasil, entre choro, bolero, samba canção, bossa nova e música popular brasileira em geral.

RicoChoro ComVida tem produção de RicoMar Produções Artísticas, patrocínio de Fundação Municipal de Cultura (Func) e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio de Barulhinho Bom, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Músika S.A. Produções Artísticas, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio e Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt.

Ricarte Almeida Santos estreia projeto no rastro do Clube do Choro Recebe

[release que eu já tinha publicado aqui; agora com novas informações]

Divulgação
Divulgação

 

RicoChoro ComVida acontecerá mensalmente no Barulhinho Bom (Praia Grande) e mantém formato que estimula diálogo do choro com ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais

Tido como o mais longevo projeto musical independente da noite de São Luís, o Clube do Choro Recebe deixou saudades ao ser encerrado, em 2010, após aproximadamente três anos de existência.

Entre março de 2013 e maio passado, Ricarte Almeida Santos inventou, com o irmão-fotógrafo Rivanio Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro, a série Chorografia do Maranhão, que entrevistou 52 instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão. O projeto agora está em fase de captação de recursos e um volume reunindo os depoimentos publicados no jornal O Imparcial deve sair em livro em breve, em edição da Pitomba! Livros e Discos, do irrequieto Bruno Azevêdo.

Órfãos daquele projeto, majoritariamente sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto (Cohama), com breves passagens por La Pizzeria/Pousada Portas da Amazônia (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), sempre reclamaram da ausência de um palco adequado para a fruição do choro, não obstante a resistência de grupos e experiências como o Regional Tira-Teima – o mais antigo em atividade no estado – e o Cantinho do Choro, ainda em voga.

Foi atendendo a inúmeros pedidos que Ricarte Almeida Santos resolveu, através da RicoMar Produções – dele com a gestora cultural Marla Silveira –, voltar à produção de um espetáculo mensal, nos moldes do saudoso Clube do Choro Recebe, em que o choro dialogue com os ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais – proposta que norteou as noites de sábado daquele projeto, então semanal.

Atrações – O projeto RicoChoro ComVida estreará no próximo dia 1º. de agosto (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), tendo como atrações o Quarteto de Aço, formado por João Neto (flauta e flautim), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, viola e guitarra) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho). O convidado da noite será o cantor Claudio Lima, um dos mais versáteis intérpretes da música brasileira produzida no Maranhão.

“A formação do Quarteto de Aço é quase a gênese do Choro Pungado, um dos grandes acontecimentos do Clube do Choro Recebe, que incorporou em seu repertório o diálogo do choro com as manifestações de nossa cultura popular. Claudio Lima, com dois discos gravados, é um artista de extrema sensibilidade, gosto apurado, com grandes serviços prestados à música brasileira, seja por seus registros sonoros, seja pelos belos projetos gráficos que assina em trabalhos alheios”, elogiou Ricarte Almeida Santos, produtor do RicoChoro ComVida.

Quem também sobe ao palco da primeira edição do projeto é o Dj Franklin, com uma trilha de “samba, choro e outros baiões”, pescados de sua vasta coleção de vinis. Ele é um dos mais respeitados djs ludovicenses, com um profundo trabalho de pesquisa musical. Sua alegria contagiante é um dos temperos do cardápio com que ele prepara cada apresentação, em especial esta inaugural do RicoChoro ComVida. Franklin tocará antes e depois das apresentações do Quarteto de Aço e Claudio Lima.

Neste semestre inaugural a frequência do projeto será mensal. Novas datas e novas atrações já estão fechadas, mas, por enquanto, a produção prefere guardar segredo. Os ingressos para as apresentações custarão R$ 20,00, cada.

Nova casa – O palco da nova produção de Ricarte é o Barulhinho Bom, que mudou de endereço há alguns meses. Antes localizado na Lagoa da Jansen, já contando alguns bons serviços prestados à boa música, além de bar e cozinha diferenciados, veio juntar-se à teimosia e resistência do bairro da Praia Grande, um dos três do centro histórico ludovicense, cartão postal tombado como patrimônio cultural da humanidade.

“O sucesso do projeto depende da parceria e solidariedade de um monte de gente envolvida, desde os artistas que se apresentarão a cada edição, a equipe de produção, patrocinadores, apoiadores, a casa que abriga os espetáculos e, é claro, o público, razão maior de tudo isso”, enumera Ricarte.

O projeto RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio cultural de Dunas Gráfica, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt, Calado e Corrêa Advogados Associados e Restaurante Barulhinho Bom.

Serviço

O quê: estreia do projeto RicoChoro ComVida
Quem: Dj Franklin, Quarteto de Aço (João Neto, Luiz Cláudio, Luiz Jr. e Wendell Cosme) e Claudio Lima
Quando: 1º. de agosto (sábado), 18h
Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00
Maiores informações: (98) 981920111 (Ricarte Almeida Santos, produção), 988265617 (Marla Silveira, produção) e/ou 991668162 (Zema Ribeiro, assessoria de comunicação)
Fan page: facebook.com/ricochorocomvida

Alvíssaras! Ricarte Almeida Santos inaugura novo projeto musical

Rico Choro Com Vida terá primeira edição dia 1º. de agosto, no Barulhinho Bom

Arte: Nuna Neto
Arte: Nuna Neto

 

Talvez o Clube do Choro Recebe tenha sido o mais longevo projeto musical já realizado em São Luís/MA, em seus moldes. Os encontros musicais semanais realizados no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, com rápidas passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), eram feitos com baixo orçamento, e muito do que aconteceu em aproximadamente três anos, entre 2007 e 2010, tempo de duração do citado projeto, foi fruto das doações de alguns.

E não se fala aqui só em dinheiro. Fatores como tempo, energia, amor e carinho também se somaram para seu êxito – coisas que não têm preço, nem figuram em comerciais de cartões de crédito. Equipamento de som, cachês de músicos, produção e assessoria, embora pequenos, eram garantidos por pequenos patrocínios, além do apurado com a bilheteria da casa, sempre praticando preços populares.

Tive a honra, o prazer e o privilégio de, à época, ser assessor de comunicação do exitoso projeto – até hoje, vez por outra, ouço a indagação: “quando é que o Clube do Choro vai voltar?”. A abreviatura do nome do projeto na pergunta se justifica pela estreita relação, à época, do produtor Ricarte Almeida Santos com o Clube do Choro do Maranhão, apesar de o Clube do Choro Recebe ser bastante identificado como algo do apresentador do Chorinhos e Chorões na Rádio Universidade FM (106,9MHz) – e não agiam errados os que cometiam esta personificação.

Idealizador do projeto a partir de uma visita do músico mineiro Paulinho Pedra Azul à Ilha, em 2007, era Ricarte Almeida Santos o responsável por articular grupos e artistas convidados para os saraus semanais que viraram sinônimo de música de qualidade em São Luís, já que o formato pensado, proposto e realizado, embora privilegiasse o choro, não se fechou ao gênero, abrindo diálogos bastante interessantes e importantes, sobretudo com os ritmos da – e com os artistas que a fazem – cultura popular do Maranhão. Também era ele que corria em busca de patrocínios, que “perturbava” os músicos para garantir os ensaios que se traduziam em intimidade musical entre grupos e convidados no palco, além de ser o mestre de cerimônias que, sábado após sábado, apresentava grupos e artistas e outras informações pertinentes, já que – e isso também merece destaque – o Clube do Choro Recebe cumpriu uma função pedagógica. E se houvesse outras tarefas, certamente seriam desempenhadas com o mesmo capricho e zelo.

Não é raro também encontrar entre os que tenham passado pelo projeto, em seu palco ou plateia, os que elogiem a atenção do público presente à música, principal atração das noites daqueles sábados. “As pessoas iam ali para ouvir música”, costumam afirmar, em oposição a lugares em que a música é apenas um detalhe, quando o que importa para as pessoas é tocar sua própria percussão, batendo talheres em pratos ou estalando selfies (praga menos avassaladora naqueles idos).

O fato é que, passados três anos, com a inexistência de apoio dos poderes públicos e os escassos patrocínios da iniciativa privada, o projeto teve que ter um fim decretado, deixando muitos órfãos, incluindo o produtor e este que vos perturba.

Três anos depois, em março de 2013, iniciamos, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, este responsável pelas fotografias, e este que lhes toma o tempo com estas mal traçadas, a série Chorografia do Maranhão, publicada quinzenalmente aos domingos (com raras falhas na periodicidade) no jornal O Imparcial, que gratuitamente nos cedeu duas páginas de seu caderno Impar e recebeu, também gratuitamente, por mais de dois anos, até aqui, 52 entrevistas com instrumentistas de choro nascidos ou radicados no Maranhão.

A Chorografia do Maranhão contempla um panorama único e inédito, constituindo-se na maior série de entrevistas já publicada por um jornal no Maranhão – apesar da pausa, seu trio de realizadores não deu ainda o trabalho por encerrado, por entender que algumas figuras fundamentais para a história e o desenvolvimento do choro no estado ainda estão de fora.

Por outro lado, somado o entusiasmo do escritor e editor Bruno Azevêdo e de sua Pitomba! Livros e Discos, já está sendo trabalhado o lançamento do material em livro – oxalá que na próxima Feira do Livro de São Luís (Felis) – para o que estamos correndo atrás de patrocínio.

Mas as coisas não param por aí. Ainda bem!

Durante um show do compositor Cesar Teixeira – com participações especiais de Flávia Bittencourt e Célia Maria – no Bar do Léo, no último sábado (4), e em seu programa, ontem (5), Ricarte Almeida Santos anunciou: dia 1º. de agosto, ele inaugura o projeto Rico Choro Com Vida, que acontecerá aos sábados, uma vez por mês, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), sempre das 18h às 21h.

O projeto manterá o formato do Clube do Choro Recebe: um grupo apresenta repertório instrumental por uma hora, recebendo depois um convidado. Na sequência, palco livre para as tão charmosas canjas. Para a primeira edição, o embaixador do choro no Maranhão anunciou o nome do cantor Cláudio Lima, que será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, guitarra e viola), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e Rui Mário (sanfona), o mesmo quarteto que acompanhou Cesar Teixeira no show de sábado. A formação é quase o Quartetaço (que tinha o flautista João Neto em vez de Robertinho Chinês), que batizado por Aço, de Bruno Batista, foi formado justamente para acompanhá-lo quando de uma apresentação no Clube do Choro Recebe, e engendrava o Choro Pungado, quinteto que acabou reunindo todos eles ao redor da fogueira do fazer choro, mesclando o gênero a tudo o que se possa imaginar em termos de ritmos da cultura popular do Maranhão, certamente uma das maiores invenções daquele projeto – infelizmente, de existência ainda mais meteórica que o próprio.

Os ingressos custarão R$ 20,00 e poderão ser adquiridos no local. Ao novo ciclo que se inicia, desejamos vida longa: Rico Choro Com Vida, Rico Choro Com Vida longa!

Para ouvidos, mentes e corações abertos

[Sobre Hein?, show de Bruno Batista e Claudio Lima, Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy), 27/11]

Foto: Aparecida Batista
Foto: Djalma Raposo

 

Hein? não é para surdos. É para ouvidos atentos, ávidos. Não é para quem está acostumado a mesmice. Ou é, se se quiser sair desta zona de conforto.

É um show em que Bruno Batista e Claudio Lima divertem-se no palco e nós nos embevecemos na plateia. Em determinada altura, ao agradecer carinhosamente a presença de todo mundo, o segundo comenta a importância do público: “sem vocês nós não estaríamos aqui cantando, fazendo música. Estaríamos em casa, estudando”.

Parece simples a ideia de reunir um amontoado de canções, subir no palco e cantar. Pode até parecer, mas está longe disso. Há uma preocupação em reinventar, em recriar, em recompor.

Claudio Lima está cantando cada vez melhor, no palco sua entrega é total, seus elegantes suspensórios não contêm o talento que lhe cabe. Bruno Batista, a despeito de ainda bastante jovem, já é um senhor compositor, sua boina deve ser a primeira a saber das ideias musicais originais que estão sempre a fervilhar sua cabeça.

A poesia forte de Gonzaguinha é recitada ao final de Comportamento geral, que abre o show. Uma música forte, que parece dizer que, apesar de estarem se/nos divertindo e deliciando, a dupla não está para brincadeira.

Noturno (Graco/ Caio Silvio), sucesso de Fagner, ganha clima jazzy na interpretação límpida de Claudio Lima. Sozinho, acompanhando-se com um maracá, canta Kaô (Gilberto Gil/ Rodolfo Stroeter), o risco e a experimentação marcas deste inspirado artista.

Zanza (Carlinhos Brown) ganha grand finale de boi de zabumba, no arranjo inspirado acompanhado pela banda, enxuta e competente: Rui Mário (teclado e sanfona), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas e viola) e João Simas (guitarras).

Antes de cantarem Guaraná Jesus (versão de Carlos Careqa para Chocolate Jesus, de Tom Waits) Bruno Batista contou a história de como chegou à música, de como chapou com À espera de Tom, o disco em que Carlos Careqa canta apenas versões de Tom Waits, ele “fãzaço” declarado de ambos.

Claudio Lima brinca com a voz e torna sublime o fecho de Menina amanhã de manhã (Tom Zé), cantada por ambos e acompanhada por Bruno Batista ao violão – o que ele faz em boa parte do show.

Vê se me esquece (Itamar Assumpção/ Alice Ruiz) é uma música que Bruno Batista escolheu para chamar de sua. Ciranda para Janaína (Kiko Dinucci/ Jonathan Silva) demonstra sua inserção na cena paulistana, onde reside.

“A culpa é dele”, Claudio Lima acusa Bruno Batista ao interpretar Teu corpo (parceria de Bruno com Paulo Monarco e Dandara Modesto), uma das inéditas da ótima safra recente do compositor. Também foram reveladas Madrigal (também parceria de Bruno com Monarco e Dandara) Senhora da alegria – cantada como se rezassem, linda oração que a música é –, O queixo, um tango engraçado, e Caixa preta. Coisas lindas que eu espero que eles gravem logo nos discos prometidos em entrevista, pois não é justo ficarmos reféns de apresentações que não acontecem com tanta regularidade – infelizmente.

O show foi fechado com Hein? (Tom Zé/ Vicente Barreto), que batiza o show. Bruno Batista e Claudio Lima apresentaram a banda e agradeceram novamente aos patrocinadores e apoiadores e a presença do público. Voltaram para o bis: Rosa dos ventos, com que venceram um festival há dois anos, em São Luís, se juntou a Tarantino, meu amor, únicas autorais já gravadas pelo compositor.

Esqueceram-se de comentar o belo cenário, assinado por Claudio Lima: formado por espelhos, um ponto de interrogação em forma de orelha – ou vice-versa –, espécie de logomarca de Hein?, usada também na divulgação do espetáculo desde sua primeira edição, em 2008.

Que venham temporada e turnê, como também prometido em entrevista. Mais gente precisa ouvir e conhecer Bruno Batista e Claudio Lima, dentro e fora do Maranhão.

p.s. (como na música de Itamar e Alice): houve certo exagero no uso de gelo seco, às vezes mais de um jato por música. A máquina faz muito barulho.

Seis anos depois, Bruno Batista e Claudio Lima reapresentam Hein?

Blogue conversou com os artistas sobre o show, parceria, amizade, projetos e discos futuros

Foto: Vivian Pereira
Foto: Vivian Pereira

 

Quando me abriram a porta do Estúdio Sonora, do músico Luiz Jr., ele (violão sete cordas), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado) acompanhavam Bruno Batista (voz e violão) e Claudio Lima (voz) em Zanza (Carlinhos Brown).

Passaram a música várias vezes, com Rui Mário chegando a trocar o teclado pela sanfona, para ver o que soava melhor no arranjo. Estavam arredondando-a para o espetáculo Hein?, sucesso de público e crítica que depois de seis anos volta a ser apresentado hoje (27), às 20h30, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro; ingressos: R$ 30,00, à venda na bilheteria do Teatro).

Bruno Batista e Claudio Lima são dois dos mais interessantes artistas da música produzida no Brasil atualmente. O primeiro tem três discos gravados: o homônimo Bruno Batista (2004), Eu não sei sofrer em inglês (2010) e (2014). Claudio Lima estreou antes, com um disco que levava seu nome (2001), e depois lançou Cada mesa é um palco (2006), dividido com o pianista Rubens Salles.

Responsável pelos belos projetos gráficos de seus dois discos, Claudio Lima assinou também o do segundo de Bruno Batista. Atualmente está gravando seu terceiro disco, ainda sem título.

Quando apresentaram a primeira edição de Hein?, em 2008, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), ninguém – nem eles mesmos – entendeu o porquê de o show não ter ganhado uma temporada ou turnê – promessa que já fazem para a edição de agora.

Depois de Zanza, o grupo deu um break para café e cigarros. Este blogue aproveitou para conversar com Bruno Batista e Claudio Lima, que além de Hein?, falaram de amizade, parceria, projetos e discos futuros. Depois da conversa o blogue ainda ouviu Menina amanhã de manhã, outra de outro baiano, Tom Zé, que comparece ao repertório do show, batizado por uma parceria dele com Vicente Barreto.

Claudio sempre me parece mais tímido fora do palco. No palco ele cresce…
Bruno Batista – [risos] Agora… por que no palco, antes, era a mesma coisa.
Claudio Lima – A mão no bolso [risos].

Eu li que Guaraná Jesus [Chocolate Jesus, de Tom Waits, versão de Carlos Careqa] está no repertório do show.
Bruno –Eu sou fãzaço do Tom Waits. Quando Careqa fez aquele disco de versões [À espera de Tom, 2008], eu falei “pô, que massa!”. E quando chegou em Guaraná Jesus eu fiquei puto: “quem era pra ter feito isso era eu!” [risos]. Tinha que ter tido essa ideia, sensacional a sacada dele. Aí a gente resolveu colocar no show, eu trouxe pra Claudio, ele se amarrou também, tá legal pra caramba.

Seis anos depois vocês voltam com Hein? O show na época foi sucesso de público e crítica e havia uma cobrança. Por que a demora? E o que significa essa volta?
Claudio – Foi até uma surpresa na época.
Bruno – Ambos tínhamos lançado apenas um disco [nota do blogue: Claudio Lima já havia lançado Cada mesa é um palco, de 2006]. Claudio Lima tinha o Claudio Lima, que foi um disco arrebatador, todo mundo falava. Eu lancei o meu [Bruno Batista, de 2004] dois ou três anos depois, e quando eu lancei o meu a gente se conheceu. Eu já o conhecia através do trabalho do disco dele, ele conheceu o meu, a gente se aproximou através de amigos em comum, e já rolou aquela energia boa, a gente se gostou de cara.
Claudio – Acho que a primeira vez que a gente sentou, na casa de Alex [Palhano, jornalista], tu me mostrou “hoje eu quero solidão” [cantarola o verso inicial de Despedida, de Bruno Batista], eu falei: “eu quero!”.
Bruno – Exatamente! Na verdade, foi na audição do disco. Eu tava com o disco pronto, fui fazer uma audição e tu tava lá. Nesse mesmo dia tu gostou de Despedida e de Eu não ouvi todos os discos, quis gravar e tal. Afinou, pessoalmente, musicalmente, fizemos o primeiro Hein? O show foi um sucesso. A gente cometeu um erro, na época, de não ter feito uma temporada do show.

Por que não ter repetido antes?
Claudio – Eu provoquei bruno no face [a rede social facebook]: “vamos ressuscitar o Hein??” Foi só um comentariozinho.
Bruno – Exatamente!
Claudio – Eu tou vendo que a cena aqui tá bem legal.

Quando foi essa provocação?
Claudio – Foi esse ano, começo desse ano.
Bruno – A provocação para refazer o Hein? foi esse ano, mas a gente já tinha um projeto de fazer um disco juntos. E como a gente ainda não conseguiu fazer isso, bom, tá demorando demais, talvez por causa do disco que venha a ideia de refazer o Hein?

Mas vão conseguir fazer o disco juntos, não é?
Bruno – [enfático:] Vamos! É um projeto pessoal nosso, meu e dele. Agora não vai dar, ele vai lançar o disco dele proximamente. Não vai demorar, né?
Claudio – [irônico] Não, não vai demorar. Depende só de… grana [risos].

Como está essa feitura de teu disco novo, o terceiro disco?
Claudio – A pré-produção tá pronta, com as bases de Eduardo Patrício [músico maranhense radicado em Curitiba, assinou as bases eletrônicas de Cada mesa é um palco]. Eu fiz um show, Rosa dos ventos [título de uma música de Bruno Batista, vencedora do Festival Viva 400 anos, que celebrou o aniversário de fundação da capital maranhense], eu estava excitado com as bases do Eduardo e chamei Luiz Jr., briguei com Luiz Jr. para ele tocar em cima das bases [risos].

Há um momento muito bonito de Rosa dos ventos [o show aconteceu dia 21 de fevereiro de 2014, no Teatro da Cidade de São Luís], que está no youtube, que é Salomé, de Fabreu [o poeta Fernando Abreu] e Magah [o cantor e compositor Marcos Magah]. Ela está no teu disco novo?
Claudio – Não sei. Não sei, mas eu acho que sim.
Bruno – É linda aquela música!
Claudio – Por que o que acontece: eu tou com essas bases, aí vou chamar músicos, começar a gravar, alguma coisa pode acontecer. Essa é uma. Tem outra do Magah que eu também tou com vontade, dele e de Acsa [Serafim, cantora e compositora], nunca foi tocada.

E o que tem no repertório desse novo Hein??
Bruno – O repertório é todo diferente. A gente pensou em fazer umas canções de que a gente gostava, começou com isso. A gente não sabia muito bem o que fazer e começamos apanhando algumas canções de que a gente gostava pessoalmente. No meio do processo eu senti Claudio cutucando ali, mas não falava direito o que era. Aí ele falou: “Bruno, eu tou sentindo falta de inéditas”. Aí eu achei que isso seria o grande lance. Eu tinha acabado de lançar um disco [Lá, 2014], no começo desse ano, e quando você lança um disco você acaba com seu estoque, as que eu tinha eu gravei [risos]. Como o disco saiu em março, eu já vinha compondo algumas coisas, comecei a apresentar uma série de canções pra ele.
Claudio – Começou a vasculhar as gavetas, os sentimentos.
Bruno – Tanto que tem música que ainda não estava pronta, que está sendo terminada agora, terminando a letra agora, eram só embriões. Mas o repertório do show, basicamente é esse: canções que a gente gosta de cantar, que a gente tem afinidade.
Claudio – Mas a gente manteve um formato, intuitivamente, um formato que foi o primeiro Hein?. Tipo colocar uma música muito conhecida, colocar inéditas. Por que quando eu cantei Rosa dos ventos no primeiro Hein? – eu cantei Rosa dos ventos –, era inédita. Foi a primeira vez que a música foi cantada. Teve mais inéditas?
BrunoHilda Regina [faixa de Eu não sei sofrer em inglês, de 2010] era inédita, eu fui gravar depois. Mas eu acho que esse show tem mais inéditas que o anterior, tem quatro ou cinco. Por que se depender da gente, a gente bota só as coisas que são meio lado b, então a gente tenta dosar um pouquinho.

Então Hein? mescla um pouco de um tributo a artistas que acabaram colaborando por moldar vocês enquanto artistas, quer dizer, referências – Tom Zé, Tom Waits – a um repertório inédito teu. Tudo que é inédito é teu ou há inéditas de outros artistas?
Bruno – Não. Até poderia ter tido. Calhou de ser. A gente não pensou isso: “vamos botar inéditas minhas”. Acabou acontecendo. Comecei a mostrar algumas coisas e elas preencheram o show e a gente não foi atrás [de repertório inédito de outros compositores]. Basicamente é isso: inéditas minhas e um tributo a artistas que nos formaram musicalmente.

Estou sentindo uma timidez de vocês em não entregar o ouro [risos]: Tom Zé eu sei que tem por conta da faixa-título, Tom Waits por que eu li na matéria [#hein? A volta, de Patrícia Cunha, nO Imparcial de 23 de novembro de 2014], Carlinhos Brown por que ouvi vocês cantando. O quê mais?
Bruno – Fagner. Roque Ferreira, que é um cara que cada vez que passa, desde que eu descobri a obra dele, me apaixonei, a gente vai botar uma música dele. Carlinhos Brown, Tom Waits, Carlos Careqa, Tom Zé. É o seguinte: se fôssemos pegar os formadores mesmo, teria que botar Elomar, Chico Buarque. O repertório é de coisas que a gente está ouvindo e gosta de cantar e de alguma forma influenciam no que a gente faz.
Claudio – Tem [Gilberto] Gil também.
Bruno – Sim, Gil, um dos grandes mestres nossos.

E vocês, fora de Hein?, têm se encontrado de vez em quando, às vezes não no palco. Teve Rosa dos ventos, com que vocês ganharam o festival, um compondo, outro cantando. Estão sempre em contato.
Claudio – Que pagou a pré-produção de meu disco.
Bruno – Sempre. Sempre que eu venho à São Luís a gente se encontra. Nós, além de parceiros musicais, somos amigos. As primeiras audições de meu disco, eu sempre mando pra Claudio, música nova. Tem uma música que vai entrar no Hein?, chamada Senhora da alegria, que, assim que eu fiz, mandei pra Claudio. A gente se conhece, sabe que o outro vai gostar de ouvir. A gente está sempre em contato, é amigo.

E teu disco novo? Por que você mostrou muita coisa inédita lá na Ponta do Bonfim [Bruno Batista cantou na edição do evento que trouxe Danilo Caymmi à São Luís].
Bruno – Mostrei. Mas esse disco não vai ser para agora. Eu lancei o em março de 2014. Esse ano foi atípico para a produção no Brasil. Todo mundo lamentou não ter circulado, Copa do Mundo no Brasil, eleições, o dinheiro ficou apertado para todo mundo, não tinha verba de incentivo. Eu ainda não consegui fazer esse disco andar da maneira que eu gostaria. O ano que vem vai ser dedicado a tentar andar com , colocar ele na roda, então meu próximo disco vai ficar provavelmente para 2016. Mas a criação, a composição ela não para. Ainda bem.

Claudio, você está trabalhando no terceiro disco e já comentaram o projeto de gravar um disco em conjunto. Algum sonho de fazer um disco teu cantando só músicas de Bruno?
Claudio – [gargalhadas]. Eu faria um disco só com músicas de Bruno.
Bruno – É. Tem dois discos para fazer: o nosso e esse, que eu farei com o maior prazer do mundo.

E você está envolvido com o de Naeno [compositor piauiense, tio de Bruno], não é?
Bruno – O disco de Naeno é um disco que me deu um superprazer. Além de ser meu tio é um compositor que eu acho maravilhoso. Inclusive, agora que tu falou, me deu uma pena de não ter colocado uma música de tio Naeno nesse show, cara.

Ainda dá tempo!
Bruno – [gargalhadas] O disco de Naeno eu fiz a produção artística, chamei Swami Jr. [violonista] e Guilherme Kastrup [percussionista] para a produção musical, tem participações especiais de Monica Salmaso, Chico César, Zeca Baleiro. Eu peguei o repertório dele todo, selecionamos 13 faixas, algumas já gravadas, outras completamente inéditas. Eu queria fazer um panorama da obra dele. Era a primeira vez que ele ia fazer um disco fora, com esse tipo de músico, esse tipo de produção, achei que merecia isso. Tá lindo, tá muito bonito, está sendo prensado agora, até o Natal deve estar pronto, e a gente deve lançar ano que vem. Esse disco tem uma curiosidade: o Dominguinhos ia participar dele. Eu liguei para Dominguinhos, ele estava saindo de Recife para Fortaleza, e falou “olha, chegando em Fortaleza daqui a uma semana”, ele só andava de carro, “e lá eu vou gravar a participação no disco de Naeno. Nesse meio tempo ele adoeceu terminalmente e a gente não teve a oportunidade de ter Dominguinhos no disco, que é uma grande referência pra meu tio. Nossa, seria pra gente uma honra imensa. Mas apesar disso o disco está maravilhoso.

Apesar de uma banda enxuta estão escudados pelo que há de melhor, em termos de instrumentistas, em São Luís, no Maranhão. Como é que foi a escolha dessa banda, o entrosamento de vocês?
Claudio – A gente já trabalha com Luiz Jr., eu, Bruno separadamente. Você já fez um show com essa formação, né?
Bruno – Só Jr. e Rui Mário.
Claudio – E deu vontade de chamar alguém da nova geração pra dar uma provocada. A gente chamou o Simas.
Bruno – Pra misturar as linguagens.
Claudio – E tirá-los de uma zona de conforto. Eu adoro estranhamento, adoro botar músico pra brigar [gargalhadas]. Meu primeiro disco foi um dj [Eduardo Corelli], não é músico, tem uma cultura musical maravilhosa. Na época ele se travestia, tu imagina o cara vir de São Paulo e chegar lá no estúdio de Henrique Duailibe [gargalhadas]. No primeiro momento já teve aquele [gesticula e imita sons de objetos se quebrando]. E ele não sabia da linguagem musical, andamento, tom. E me perguntavam: “como é que tu quer, Claudio?” “Eu não sei, resolvam!”. Foi assim que surgiu o primeiro disco.
Bruno – É isso! A gente queria misturar linguagens. Tem o Jr. e o Rui, que a gente toca há muito tempo, eu sou fãzaço dos dois, e a gente queria fazer um show acústico. Eu sou compositor, por excelência. Claudio é intérprete, adora canção, adora letra, aquele universo da canção. A gente pensou numa formação mais acústica, menor, onde a canção fosse a vedete e as letras fossem bem ditas, bem compreendidas, e nisso, querendo misturar linguagens, a gente optou por essa formação, que tá dando o maior pé, da maneira como a gente pensava ser. Vai ficar foda!

Há perspectiva de temporada, turnê?
Bruno – [enfático] Tem! Eu não vou ter medo de falar isso em entrevista, é até uma forma de a gente se cobrar depois.

Intimidade musical

Sobre o show de lançamento de , terceiro disco de Bruno Batista, ontem (30), no Teatro Arthur Azevedo

Foto: Maristela Sena
Foto: Maristela Sena

 

Pareceu descortesia, mas era intimidade, entrosamento. Primeiro entre ambos, e imediatamente entre eles e a plateia.

Bruno Batista subiu ao palco acompanhado da paulista Dandara Modesto sem apresentá-la de imediato. Atacaram de Batalhão de rosas, inédita dele, um belo bumba meu pop (ou pop meu boi).

O cenário, assinado por Cláudio Lima com base no caprichado projeto gráfico de [2013], do piauiense Antonio Amaral, levava o público a se sentir à vontade, em casa, neste lugar musical que é o disco e ontem era  mesmo no Teatro Arthur Azevedo.

O compositor parece menos inibido no palco e está cantando melhor – não tivesse citado uma virose que lhe acometeu, não sem um quê de charme no aviso, nem se teria percebido a dificuldade para exercer o ofício no palco.

O repertório de não foi tocado na íntegra, mas o show foi além, reinventando faixas de Eu não sei sofrer em inglês [2011], o disco anterior, e do próprio : disco é disco, show é show.

Reinventar é a palavra certa: em participação especial, como de praxe em shows de Bruno Batista em São Luís, Claudio Lima deu a exata carga dramática necessária à interpretação de Do abraço. Dandara Modesto tornou o tango Tarantino, meu amor um rock abolerado. E arrepiou o público ao inserir uma tribo de índio em Rosa dos ventos, para citarmos duas que cantou sozinha.

Ao fim foi às lágrimas e quem viu sabe que não era jogo de cena. Elogiou o trabalho do parceiro de disco e palco, o incentivo, agradeceu o convite e revelou: “estou muito feliz em estar aqui. Antes de conhecer o Bruno eu já tinha uma vontade enorme de cantar neste teatro”. Ela ainda substituiu à altura Tulipa Ruiz – que divide os vocais com Bruno Batista na gravação do disco anterior – em Nossa paz.

Bruno Batista é uma espécie de ponte: se traz para o Maranhão a modernidade cosmopolita da São Paulo que hoje lhe abriga, leva para os elementos de nossa cultura popular que acabam por influenciar seu fazer musical. Prova disso é que os músicos que o acompanharam e à Dandara Modesto no show de lançamento do disco estão bastante à vontade em bumba boi e tribo de índio e noutras influências confessas ma(i)s sutis.

E que banda! Ele trouxe à Ilha quase o time inteiro que lhe acompanhou no disco: Chico Valle (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), André Bedurê (contrabaixo e guitarra), Rovilson Pascoal (guitarra, violão e cavaquinho) e Ricardo Prado (guitarra e piano).

Em , o disco, Dandara Modesto canta em cinco faixas. No show demonstrou conhecimento do repertório inteiro de Bruno Batista, incluindo a inédita que apresentou e as músicas do disco anterior: As cigarras e Hilda Regina, além das já citadas. Sobre anjos e arraias ele cantou só, juntando-se à banda ao violão, que tocou em boa parte do show.

O casamento musical de Bruno Batista e Dandara Modesto é terreno fértil para a música brasileira: reafirma a força poética do compositor e revela o imenso talento de intérprete da cantora. Fosse eles não vacilava: um disco dela produzido (e composto, ao menos em parte) por ele já começa a tardar.