Maranhão na Tela amplia alcance

Idealizadora e realizadora do festival, Mavi Simão conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Um dos seis trabalhos em óleo sobre papel cartão do artista maranhense Walter Sá que compõem a identidade visual do festival. Reprodução

A 11ª. edição do festival Maranhão na Tela acontecerá entre os dias 15 a 24 de novembro, e acontecerá, entre sessões e rodadas de negócios, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), Centro Cultural Vale Maranhão (Praia Grande) e Kinoplex Golden (Golden Shopping, Calhau).

As inscrições para as mostras competitivas – gratuitas – e para as rodadas de negócios – entre R$ 70 e 100 – serão abertas amanhã (10), no site do festival.

A realização de mostras em uma sala de uma grande rede de cinemas é uma das novidades do Maranhão na Tela, cuja origem remonta a 2006, idealizado pela cineasta Mavi Simão e realizado pela Mil Ciclos Filmes.

Com a atriz Áurea Maranhão (E), a diretora Mavi Simão no set de Terminal Praia Grande, seu primeiro longa, em fase de finalização. Foto: divulgação

“Sobre a exibição nas salas Kinoplex, o que mais pesou para decidirmos foi a questão da qualidade de exibição, essa é uma enorme prioridade para qualquer festival. Infelizmente, o Cine Praia Grande, espaço pelo qual tenho imenso carinho, não possui a estrutura exigida para a projeção de muitos dos filmes que queremos exibir, mas ainda teremos boa parte da programação nesse espaço tão importante para o cinema maranhense e para o Maranhão na Tela. Também acho importante exibir os filmes locais, agora regionais, com o que se tem de melhor em termos de qualidade. Para os realizadores isso faz toda a diferença. A rede Kinoplex também foi muito aberta a essa parceria, que é inédita até pra eles, já que conseguiremos manter a entrada gratuita. Estou louca para ver a reação dos estudantes da rede de ensino público, assistindo filmes deitados em poltronas reclináveis da sala Platinum.  Grande parte dessas crianças e jovens  estão indo ao cinema pela primeira vez, imagina que experiência inesquecível”, comenta Mavi.

Sobre as rodadas de negócios, ela afirma: “esse é um sonho muito antigo e de grande importância para o fomento à produção maranhense. Trata-se de uma iniciativa com foco na geração de negócios, ou seja, uma ação que vai contribuir de fato para que projetos saiam do papel e, consequentemente, para que o nosso mercado se desenvolva. Serão dezenas de convidados entre executivos de canais de TV, grandes produtores, distribuidoras, entre outros profissionais, além de representantes da Ancine [Agência Nacional do Cinema], do Sicav [Sindicato da Indústria do Audiovisual] e da Bravi [Brasil Audiovisual Independente, associação que congrega mais de 600 produtoras no país]. Outra novidade importante é a ampliação do projeto para as regiões Norte e Meio Norte. A partir de 2018, o Maranhão na Tela estende suas ações para mais oito estados. Seremos uma janela de visibilidade e fomento desse mercado que hoje é o que menos produz no Brasil”.

Mavi não antecipou títulos ou cineastas que participarão desta edição do festival, nem homenageados. “Já estamos trabalhando para fechar os homenageados, mas ainda não temos os nomes confirmados. A curadoria dos filmes convidados está começando a ser feita agora. Nessa fase ainda não temos o detalhamento da programação”, declarou.

Ela é otimista quanto ao atual momento do cinema produzido no Maranhão. “O cinema maranhense vive seu melhor momento. Parte disso é fruto da seleção de realizadores maranhenses em chamadas do Fundo Setorial do Audiovisual [FSA], mas também da Escola de Cinema do Maranhão [vinculada ao Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, IEMA] e do edital lançado pelo Governo do Estado em 2015, em parceria com o FSA. Esse edital injetou 3 milhões de reais na economia da cultura do audiovisual maranhense, por isso, é fundamental que essa seja uma política pública continuada. Naquela ocasião o FSA entrava com recursos na proporção de 2/1, hoje eles entram com 5/1. É um recurso muito significativo! Se esse edital for realizado anualmente, nosso cinema vai para o alto e além”, finaliza.

A classe média no espelho

Karine Telles e Otávio Müller em cena de Benzinho. Frame. Reprodução

 

Sem firulas ou grandes intrigas, Benzinho [coprodução Brasil/Uruguai, 2018, drama, 95 min.; direção: Gustavo Pizzi; em cartaz no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença)] é um retrato da típica classe média brasileira, para irmos direto ao ponto, como o próprio enredo do filme.

Conta a história de uma família que vive em Petrópolis (o filme foi rodado lá e em Araruama), numa casa caindo aos pedaços – apesar de ter uma casa de veraneio –, enquanto seus membros se viram nos trinta para conseguir pagar as contas.

Klaus (Otávio Müller) é um livreiro romântico – redundância intencional –, a típica profissão em extinção. Irene (Karine Teles), sua esposa, é a mãe batalhadora, o retrato da mulher enquanto heroína, que se divide entre os afazeres domésticos, criar os quatro filhos, estudar e ajudar no orçamento doméstico, entre a venda de roupas de cama e quentinhas.

Há discordâncias entre o casal apaixonado, sobretudo quanto ao convite a Fernando (Konstantinos Sarris), o filho mais velho, para ir jogar handebol na Alemanha e a venda da casa de praia – Klaus sonha em terminar uma nova casa para morarem e abrir um novo negócio com o dinheiro da venda.

Se o filme não adentra questões políticas, pauta de qualquer família, não apenas classe média, no Brasil polarizado de hoje, a trama comporta a abordagem a um tema infelizmente ainda não superado, com estreitas relações com o golpe jurídico-político-midiático em voga desde 2016: a violência contra a mulher.

Ao longo da película, descobriremos que Irene foi explorada em situação de trabalho doméstico infantil. Quando ela abriga a irmã (Sônia, vivida por Adriana Esteves) e o filho, após uma agressão do marido (Alan, vivido por César Troncoso), manda um recado cristalino ao espectador: está ultrapassado o dito popular de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O filme guarda ainda uma surpresa: a discreta participação especial do compositor Ivor Lancellotti, pai do incensado Domenico e autor de sucessos de, entre outros, Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Nana Caymmi e Roberto Carlos.

Benzinho, no fundo, é uma história de amor, longe de resvalar na pieguice.

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Veja o trailer:

O menino é o pai do cineasta

O editor Felipe Melhado exibe orgulhoso o singelo Novos Contos. Foto: divulgação

 

Rogério Sganzerla (1946-2004) “é um dos cineastas mais radicais e inventivos que o Brasil já teve”, nos lembra o editor Felipe Melhado, da Grafatório Edições (de Londrina/PR). Em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos, ele reconhece a importância de Sganzerla para sua formação em vários sentidos. Em parceria com a Míriade Edições (de Florianópolis/SC), de Gabi Bresola, acaba de ser publicado uma edição fac-similar de Novos Contos [2018], livro que Sganzerla publicou em 1954, aos sete anos de idade.

Você não leu errado: aos sete anos de idade. Um primor editorial, a caprichada edição vem num singelo envelope, com o livro (quatro contos de aspecto fabular, mas sem moral da história), selos aludindo a filmes e cineastas importantes como O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla, de 1968), A chinesa (de Jean-Luc Godard, que também completa 50 anos em 2018), Orson Welles e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da cidade catarinense de Joaçaba – onde nasceu Sganzerla. E Gabi Bresola.

O cineasta Rogério Sganzerla em ação, durante as filmagens de O signo do caos (2003), seu último filme. Foto: Marcos Bonisson

O livro foi descoberto pela conterrânea. “A Gabi conseguiu uma cópia do livro em xerox, conversou com a Helena Ignez [cineasta, viúva do diretor] e com as filhas do Rogério, a Djin e a Sinai [Sganzerla, atrizes], e elas toparam a brincadeira”, conta Melhado. “Desde o começo a Gabi tinha imaginado um livro fac-similar, impresso em tipografia, como na edição original. Nós da Grafatório já tínhamos feito algumas publicações tipográficas, e foi por isso que ela convidou a gente pra trabalhar juntos! É claro que eu fiquei entusiasmado, já que sempre admirei o Sganzerla”, continua.

Melhado comenta também as opções estéticas em torno dessa (re)edição: “Graficamente, tentamos nos aproximar o máximo possível da edição original. Utilizamos os tipos móveis e ornamentos tipográficos mais parecidos que encontramos, e também os papéis mais próximos. No texto mantivemos inclusive a grafia da época e alguns cacoetes da escrita, que talvez sejam do Rogério ou, talvez, do tipógrafo que montou o livro. Mas a edição também traz alguns elementos extras: uma recontextualização gráfica que faz referência às criações posteriores do Sganzerla (os selos, os carimbos no envelope…), e também um texto-depoimento da Dona Zenaide Sganzerla, mãe do Rogério, que hoje está com 99 anos de idade”.

“Junto no envelope vai um livro do Rogério. Esse faz anos. Foi no tempo que ele era o meu mais novo, com sete anos, em Joaçaba. Ele escrevia tudo o que era coisa”, começa. A carta, escrita à mão, e os contos nos dão ideia de como o menino Sganzerla já continha o cineasta, inclusive quanto à precocidade, basta lembrarmos que O bandido da luz vermelha, considerado sua obra-prima, foi filmado quando ele tinha apenas 22 anos.

“O Rogério sempre foi de todos eles [os filhos] o mais fora do sério. […] O Rogério saiu cedo de casa porque parecia que sempre estava ansioso, inquieto, não parava, não parava de inventar coisa. Quando ele foi estudar em São Paulo com dezoito anos, fazer filmes, aí também escreveu outros livros. Mas o Novos Contos foi o primeiro de todos. O dos papeizinhos, o das coisas que ele inventava”, finaliza a missiva materna.

“Pra mim, pelo menos, a decisão de publicá-lo tem a ver com revelar uma passagem desconhecida da vida do cara. Acho que reabilitá-lo nunca é demais. Precisamos sempre botar em cena, de todas as formas, pessoas com a atitude, o pensamento e a criatividade anárquica como a dele. Precisamos tornar esse tipo de potência sempre acessível, sempre à mão, inclusive na contemporaneidade problemática em que a gente vive”, alfineta Melhado.

“Além do mais, o próprio Sganzerla tinha bastante estima por essa criação super precoce que foi o livreto Novos Contos. Ele sempre mencionou o livro em diversas entrevistas, em muitos momentos. O Sganzerla tinha um interesse pela infância que é bastante estimulante. Ele considerava a criança como um criador por excelência, um ser livre, assim como os loucos e os poetas. Ele dizia que se alguém quiser investigar sobre o processo criativo, essa pessoa precisa levar em conta a infância. Porque a criança é um ser em permanente estado de criação, e isso parecia fascinar o Rogério. E me parece que esse era um estado que ele procurava cultivar permanentemente, durante toda a sua vida”, prossegue.

O envelope de Novos Contos contém ainda uma fotografia do menino Sganzerla, a reprodução de um autógrafo em que ele oferece o opúsculo, uma espécie de lembrança – no retrato ele aparece batendo palmas diante de um bolo onde se lê “Edifício Sganzerla” –, e os contos, curtíssimos, A rainha das flôres (mantendo a grafia da época), A bola do mágico, Paulo e seu carro e Os dois patos.

Certamente alvo de curiosidade, a obra deve agradar, pelo conteúdo e singeleza, admiradores do cineasta. “A família foi muito receptiva à ideia. A Helena Ignez e as filhas do casal, Sinai e Djin Sganzerla, gostaram bastante do resultado, nos disseram que ficaram emocionadas ao ver o livro. É lógico que isso nos deixou muito contentes também”, revela Melhado.

Novos Contos é o terceiro livro publicado pela Grafatório Edições – em parceria com a Miríade Edições –, que estreou com A hora da lâmina, de Paulo Leminski (esgotado), também marcada pelo capricho editorial. “A criação gráfica serve para intensificar a potência do pensamento e vida dos autores”, explica Melhado. E anuncia: “muita coisa já está no prelo”.

Cinemateca Lume estreia hoje (6), com sessão seguida de debate com diretores

Divulgação

 

“Meus pais [os poetas Nauro Machado (1935-2015) e Arlete Nogueira da Cruz] foram os grandes responsáveis por eu ser um apaixonado pelo cinema. O fato de ir quase diariamente para uma sala de projeção foi o que me moldou a ser hoje um cineasta”, declarou-me em entrevista, em 2011, Frederico Machado.

Mais que cineasta, Fred, como é carinhosamente chamado pelos mais próximos, é um homem de cinema, na acepção mais ampla da expressão, tendo ao longo destes anos de dedicação à sétima arte colecionado monumentos de resistência, mesmo quando acossado por dívidas: a locadora Backbeat (a maior do Nordeste e certamente uma das maiores do país, num momento em que o setor perde a batalha para os serviços de streaming), o Cine Lume (com três estreias semanais, ponto fora da curva em relação a qualquer outra sala em São Luís), a Lume Filmes (por onde realiza suas próprias obras e projetos em que acredita) e a Escola Lume de Cinema (que colaborou na formação de toda uma geração de diretores/as, atores/atrizes e técnicos/as).

Hoje (6), Frederico Machado inaugura mais uma pedra fundamental nesta trajetória ímpar: às 20h, no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), com entrada gratuita, acontece a primeira sessão da Cinemateca Lume, que pretende ser uma referência em se tratando de acervo fílmico produzido por diretores/as locais.

Serão exibidos seis filmes, sendo o sexto um filme surpresa, cujo título não foi anunciado. Os outros cinco são Jardins suspensos, de Euclides Moreira, Amniogênese, de Rose Panet, Carnavalha, de Ramusyo Brasil e Áurea Maranhão, Marina, de Taciano Brito, e Você é diferente, de George Pedrosa.

Após a exibição haverá debate com os diretores.

Está nos planos de Frederico Machado realizar uma sessão mensal da Cinemateca Lume, prestigiando as diversas vertentes do cinema local, sem distinção de gênero, metragem ou outras de qualquer natureza, sempre seguida de debate com os realizadores, e com entrada franca. Nomes como Breno Ferreira (Walter do 402), Francisco Colombo (Avesso) e Maria Thereza Soares (José Louzeiro: depois da luta) já confirmaram participação em edições vindouras da Cinemateca Lume.

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.

Um olhar privilegiado sobre o maio de 1968

Um ano depois. Capa. Reprodução

 

O trunfo da prosa de Anne Wiazemsky (1947-2017) é nos tornar cúmplices dela e do então marido Jean-Luc Godard em suas perambulações pelos acontecimentos do maio de 1968.

À época com apenas 20 anos, a atriz conduz os leitores por um ângulo sui generis, tornando-nos íntimos, espectadores privilegiados, como a conviver com tantos personagens interessantes que aparecem ao longo das páginas de Um ano depois [Um na après; tradução: Julia da Rosa Simões; Todavia, 2018, 172 p.; R$ 50,00] – o livro foi adaptado ao cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard.

Godard era um ícone da esquerda francesa e de algum modo havia profetizado o mítico mês em que os estudantes tomaram Paris em seu filme A chinesa, lançado em 1967, com Anne Wiazemsky como protagonista.

A autora escancara sua intimidade com o cineasta, de modo poético, entre preferências gastronômicas, o mau humor quase infantil provocado por motivos prosaicos, o trabalho e o ciúme – o homem comum por detrás do gênio do cinema –, longe de soar fútil.

O cineasta se irrita, por exemplo, com a mulher indo à praia em plena greve. Ou com os donos da casa em que se hospedam durante determinada passagem, enquanto Paris literalmente pega fogo. Anne reconta também episódios marcantes como o boicote – liderado por Godard e François Truffaut, de quem se afastaria, posteriormente – ao Festival de Cannes, além do convívio com figuras como o filósofo Gilles Deleuze e o cineasta Bernardo Bertolucci, entre outros.

Em uma reunião em que se discute a gravação de um filme de Godard com os Beatles, o projeto acaba inviabilizado pelo humor de John Lennon. Anne e Paul McCartney enfiam-se debaixo da mesa para tomar chá e comer bolachas – para desespero de Godard, que não acredita muito na versão da própria esposa, ao menos não de cara.

Na sequência, o casal viaja para Londres, onde acaba gravando os Rolling Stones em Simpathy for the devil – as gravações foram interrompidas por um incêndio no prédio do estúdio e a escritora não retoma o assunto.

Anne Wiazemsky também aborda as insatisfações e desilusões de Godard com o cinema e sua ameaça em deixar de praticar a sétima arte – em determinada passagem chama a si mesmo de “Jean-Luc ex-Godard” – e seu quase suicídio motivado por… ciúmes.

A história é contada com rigor e sentimento, sem romantização, em uma prosa delicada, por quem esteve literalmente no olho do furacão. É um olhar inédito e instigante sobre os acontecimentos de maio de 1968, seus desdobramentos e, sobretudo, seus personagens, fundamentais para a vida cultural e política do planeta nos últimos 50 anos, homens e mulheres com seus defeitos e contradições, tão humanos quanto nós, meros leitores e admiradores de seu legado.

E não é o Domingão do Faustão!

O vazio do domingo. Frame. Reprodução

 

Como muitos podem pensar ao ler o título O vazio do domingo [La enfermedad del domingo, drama, Espanha, 2017, 113 min., classificação indicativa: 16 anos; disponível no Netflix].

O belo filme de Ramón Salazar explora de maneira poética, emoldurado por belas paisagens, os limites da ética e do amor.

Começa com ares de filme policial, a trama a envolver o espectador em uma espécie de jogo de gato e rato.

As atuações de Bárbara Lennie e Susi Sánchez, que interpretam a filha Chiara e Anabel, a mãe que a abandonou décadas antes, são estonteantes – nelas se concentra o enredo, numa curta temporada em que passam juntas, a partir de um pedido da primeira.

Anabel tornou-se rica e poderosa e ao ver a reaproximação da filha, imagina mesquinhamente tratar-se de alguém que quer dinheiro. É aí que há uma guinada para um convívio durante o qual é forçada a sair de sua zona de conforto, entregando-se a tarefas domésticas simples, lembranças, feridas que não cicatrizam e um tempo que ameaça consumir a (re)descoberta de laços – no que o título em português é mais sutil que o original, ao não entregar o ouro de cara, ao contrário deste resenhista que não se importa em dar spoiler.

O atrito entre as protagonistas é permanente, apesar do atavismo que as une – “quem herda aos seus não degenera”, diz o dito popular. Em determinada cena, mãe e filha veem slides e aquela se surpreende com uma memória impossível: em uma imagem aparece grávida de Chiara, mas com a mesma idade desta, a seu lado. A filha explica tratar-se de uma colagem, algo simples, elogiada pela mãe quase como uma obra de arte, enquanto surge uma nova revelação sobre o passado da adolescente abandonada. Um drama familiar comovente.

Extras

Tungstênio. Cartaz. Reprodução

 

Estreia hoje (21) em diversas salas de cinema no Brasil Tungstênio, adaptação de Heitor Dhalia para a graphic novel de Marcello Quintanilha. Em São Luís o filme será exibido no cinema do Shopping da Ilha.

Conversei com o diretor e o quadrinhista para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural.

A seguir, a íntegra das conversas.

O cineasta Heitor Dhalia e o quadrinhista Marcello Quintanilha. Foto: divulgação

ENTREVISTA: HEITOR DHALIA

Entre outros feitos você possui no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinhista Lourenço Mutarelli, para citarmos outra bem sucedida adaptação. Você se sente mais à vontade dirigindo um roteiro original, uma adaptação ou tanto faz?
Na verdade, pra mim tanto faz. São dois caminhos diferentes, são duas vertentes e sensações completamente distintas, quando você cria uma obra do zero e aí consegue construir todo aquele universo a partir de uma ideia original, mas também tem um sabor muito grande você adaptar uma obra que já existe, mergulhar no universo de um autor e traduzir esse universo pro mundo, fazer esse universo que já está construído de alguma maneira encontrar ressonância na realidade, em personagens, atores, locações de verdade, traduzir nos figurinos, nos conceitos da dramaturgia. É um desafio, por que você tem a referência do autor de origem e a obra de origem, que você tem que de alguma maneira respeitar. Toda adaptação é de alguma maneira uma traição e ao mesmo tempo uma homenagem à obra original. É um prazer muito grande poder adaptar, eu adaptei duas obras integralmente, O cheiro do ralo e agora o Tungstênio e fiz alguns roteiros originais também. Então as duas coisas têm igual sabor, são desafios diferentes, mas igualmente tentadoras, quando você acha uma obra que você quer adaptar ou tem uma ideia original e quer levar essa obra a cabo. São jornadas distintas, mas ambas muito recompensadoras.

Tungstênio é bastante fiel aos quadrinhos de Marcello Quintanilha, cuja graphic novel já é, em si, bastante cinematográfica. Como foi a decisão de levar essa história à telona?
Na verdade a decisão de fazer o Tungstênio se deve ao fato dos temas propostos pelo filme. O Tungstênio é uma tradução do Brasil 2018, ele toca em questões muito relevantes do nosso tempo. Por exemplo, esse acúmulo de tensões sociais, o esgarçamento da malha social, que tem levado a uma polarização política muito grande e é tudo meio à flor da pele. A gente viu, por exemplo, agora na greve dos caminhoneiros, um exemplo disso: como um evento aleatório consegue detonar uma série de tensões que estão submersas e que atingem todo mundo de uma maneira muito forte, muito violenta. Tungstênio é um pouco isso, esse momento de tensões acumuladas, que no caso, uma pescaria-bomba deflagra uma série de eventos numa espiral de caos. Eu acho que é bem o momento do Brasil atual, essa tensão acumulada que a gente está sentindo. O filme aborda também questões como o saudosismo da intervenção militar. Quando a gente filmou era uma ironia, uma sátira, e tristemente isso parece se tornar o sentimento de uma parcela grande da população, meio absurdo. Aborda também a questão da violência policial, da questão da discussão de gênero, tem uma relação abusiva entre esse policial e a mulher dele. O racismo estrutural que a gente vive, nas periferias, nos subúrbios brasileiros, quando você tem uma grande parte da população que vive ali abaixo da linha da sobrevivência ou lutando por ela de uma maneira muito difícil e essas tensões são mostradas no filme de alguma maneira. O filme não abarca todas elas, por que a história se passa num recorte de tempo muito curto, mas ele toca em temas muito atuais, o racismo, a discussão de gênero, a violência policial, e essa tensão social que a gente vê muito nas redes sociais e que agora explode também no tecido social de um jeito muito violento.

O próprio Quintanilha integra o time de roteiristas. Isso ajudou a manter essa citada fidelidade?
Claro que ter o Quintanilha na nossa equipe de roteiristas foi um facilitador, uma honra, um luxo pra gente, tê-lo no processo de roteiro, e também um pouco na filmagem, mas eu acho que a fidelidade, a busca por ela, se deve a uma decisão conceitual de tentar nos aproximar o máximo possível da obra de origem. Tem gente que adapta histórias pegando essas histórias como ponto de partida e não como ponto de chegada. Aqui no caso a gente quis que Tungstênio fosse um ponto de chegada e não só um ponto de partida. A obra original estava presente o tempo inteiro, a gente tentou ser fiel ao máximo à estrutura narrativa proposta naquele quadrinho e o que a gente tentou fazer foi traduzir esse universo pro audiovisual, tentar elucidar e trazer essa dramaturgia pra frente, enfim, foi essa a nossa busca, a nossa tentativa de adaptar essa obra tão instigante pro cinema. Foi uma adaptação que eu acho bem sucedida nesse sentido, por que ela é muito fiel aos conceitos especialmente propostos pelo Quintanilha na realização do quadrinho e a gente tentou traduzir, levar o máximo possível isso pra tela do cinema.

Serra Pelada é outro filme teu que mostra a realidade nua e crua de um Brasil subterrâneo, como a violência que permeia a trama de Tungstênio. É um tema instigante?
Eu acho que a violência é um tema seminal do Brasil, o Brasil é um país que vive em guerra civil, não se dá conta disso e faz de conta que ela não está acontecendo. A gente vê, por exemplo, o Rio de Janeiro, hoje.

Há todo um pano de fundo que aponta para diversas questões sociais em Tungstênio, com a trama quase se confundindo com um documentário, no que o Brasil é um manancial riquíssimo de temas para serem explorados. A seu ver, o cinema é um campo privilegiado para a abordagem dessas questões?
Eu acho que o cinema é uma das formas de expressão mais eficazes para traduzir a realidade. Apesar de ser uma representação do real, o cinema parece real. Eu tenho uma filha de seis anos, ela foi ver uma peça de teatro, e ela falou “ah, eu não gostei, não é o fantasminha, é um ator. Eu gosto mais de cinema, por que o cinema é de verdade”. Então as pessoas têm essa sensação de que o cinema é real, apesar de ser uma construção artística, mas ela consegue traduzir, abarcar a realidade de uma maneira muito forte. Você consegue ter a cor, o tom, o suor, o som, os personagens, a paisagem, então eu acho que o cinema é um grande instrumento de investigação social, é um grande instrumento de compreensão do mundo que a gente vive, e num momento em que a gente está tão sensível, com tantas questões importantes a serem debatidas no Brasil, eu acho que o cinema é sim um instrumento de reflexão, de compreensão e de possibilidade de transformação disso através da crítica, da compreensão do que a gente vive, das questões que a gente vive e também propondo de alguma maneira um lugar de ação. Acho que a partir de uma tomada de consciência ou uma compreensão maior do real a gente é capaz de agir melhor sobre ele. O cinema, sim, é um grande tradutor do Brasil, é um fator de construção da nossa identidade como povo e é também esse lugar de tradução mesmo do Brasil pra ele mesmo e pro mundo também.

Como você avalia o cenário brasileiro, no geral, a partir da destituição de Dilma Rousseff do poder e a tomada da presidência por Michel Temer e companhia?
O Brasil vive um momento muito complexo, a gente viveu uma ruptura democrática e o país tá um pouco perdido nisso. Eu acho que todos os eventos que aconteceram nos últimos anos vão ter efeitos muito marcantes na nossa formação enquanto povo, com nosso pacto social, de alguma maneira ele foi rompido de várias maneiras. Eu acho que a gente vai levar muitos anos pra se recuperar e ter de novo um otimismo enquanto nação, enquanto país. A gente vive um momento muito difícil em nosso momento social, a gente vive um governo que realmente é ilegítimo e que ainda bem que está no fim. A gente vive tensões muito grandes no cenário político, onde não se sabe para que caminho o país está indo, o pacto que se formou durante algum tempo, o bipartidarismo que a gente viveu durante 20 anos se esgotou e agora o Brasil vai ter que repensar seus caminhos e achar uma busca de retomada assim de um caminho democrático, mais inclusivo para a população, torcer para o Brasil voltar a crescer, mas o momento atual é de muita preocupação. A gente tem ameaças reais, com candidatos de extrema direita com apoio expressivo da população. O campo progressista, as pessoas que têm um pouco mais de sensibilidade social têm que tentar se juntar num projeto de país mais justo, mais moderno, que traga conquistas para a maioria da população, que infelizmente vive há 500 anos à margem disso. Por algum tempo houve uma evolução econômica e social e parece que a gente deu passos pra trás. Eu torço pra que o Brasil consiga achar um rumo, que a gente consiga repactuar um mínimo de nação possível, pra que a gente saia dessa polarização extrema e burra em certo sentido, que a gente possa através do diálogo, do conflito e da contradição, por que eles existem, estão aí para serem superados, que a gente consiga achar um caminho pra esse país, que é tão bacana, tão cheio de possibilidades, a gente tem uma economia muito grande e tem tudo pra conseguir florescer. Esse país só vai se reagrupar se a gente seguir o interesse da maioria da população, atuar nas causas que são mais urgentes, que são inclusão social, combater o racismo, discutir questões de gênero e tentar fazer uma economia mais moderna, que consiga produzir riqueza e fazer com que essa riqueza seja dividida pras pessoas que a produzem de uma maneira interessante. O momento político é difícil, é complexo, é assustador em algum sentido, mas eu tenho esperança que a gente vai prevalecer no caminho correto, mais justo e torço pra que a gente não volte atrás mais do que a gente já voltou. O Brasil precisa andar pra frente, superar esse ciclo negativo em que a gente entrou, precisa voltar a ser o país que a gente mostrou que a gente pode ser.

O quadrinhista Marcello Quintanilha e o cineasta Heitor Dhalia. Foto: divulgação

ENTREVISTA: MARCELLO QUINTANILHA

Tungstênio, o filme, é bastante fiel à HQ, que quando lemos, já pensamos inevitavelmente em cinema, como de resto toda tua obra. Quando você a escreveu e desenhou, já imaginava uma adaptação?
Não, eu não imaginava uma adaptação. Eu trabalho sempre dentro das premissas que se referem ao quadrinho, se referem à experiência da leitura de quadrinhos como um todo. Acredito que o efeito cinematográfico que muitas vezes é atribuído às minhas obras em particular e a muitas obras de quadrinhos em geral, se deve a própria experiência da leitura do quadrinho como um meio que tem características próprias.

Você integra o time de roteiristas, o que certamente ajudou a manter essa fidelidade aos quadrinhos. Houve essa intenção ou preocupação?
A principal preocupação de todas as pessoas envolvidas no roteiro foi a de encontrar a melhor maneira de traduzir o que era relatado no quadrinho pro expectador. Acho que o quadrinho foi uma grande base pra esse trabalho de tradução. Eu particularmente estou muito satisfeito com a forma com que isso foi feito.

Tuas graphic novels expõem as vísceras de um Brasil periférico de modo um tanto brutal, pois muito realista. No entanto, há sutilezas e delicadezas, no caso de Tungstênio, desde o título. Esse equilíbrio é algo premeditado ou simplesmente acontece enquanto você desenvolve a trama?
Acho que nem uma coisa nem outra, por que todas as histórias que eu tive oportunidade de trabalhar até hoje refletem aquilo que eu trago comigo como pessoa, trazem uma experiência vivida tanto por mim como por pessoas muito próximas a mim, de maneira que acredito que tudo o que está transcrito nas histórias, tudo o que está exposto nas histórias reflete aquilo que eu sou capaz de sentir como pessoa. Acho que por isso essa sutileza pode ser tão bem identificada.

Tungstênio, a HQ, foi premiada em Angoulême, o mais prestigiado prêmio quadrinhos do mundo. Qual a sensação? E quais as expectativas quanto a prêmios em festivais de cinema para o filme?
A sensação é a melhor possível, por que é fantástico quando um quadrinho que expressa tanta brasilidade é tão bem acolhido fora do contexto brasileiro, ou seja, quando um trabalho que representa uma visão tão específica sobre uma realidade brasileira consegue transcender o universo no qual ele está circunscrito de alguma maneira e é capaz de chegar a públicos tão distintos, como pode ser o público europeu, por exemplo. É fascinante quando isso acontece. Sobre as expectativas em relação ao filme, eu não trabalho no terreno das expectativas, mas seria muito interessante se conseguíssemos nos comunicar com os espectadores de uma maneira tão direta e tão honesta como ocorreu com o quadrinho. Eu acho que vamos por um muito bom caminho nesse sentido.

Heitor Dhalia tem no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinista Lourenço Mutarelli. Como foram as negociações para essa adaptação? A escolha dele foi proposital?
Sobre as negociações a respeito da adaptação, tudo foi muito direto e muito objetivo desde o começo. Eu já conhecia o trabalho do Heitor e já admirava muito o trabalho dele. Quando ele me propôs trabalhar na adaptação eu achei fantástico e uma semana depois já tínhamos tudo concretizado, já tínhamos começado a trabalhar na adaptação. Foi um processo relativamente simples, na verdade.

Você mora na Espanha já há algum tempo, mas percebemos em teu trabalho toda uma brasilidade, coisa de quem conhece a fundo o que está retratando. A internet certamente ajuda, mas como você faz para manter estreitos os laços com sua terra natal?
Eu não faço nada para manter os laços com a minha terra natal, por que eu não me sinto distante da minha terra natal, não existe nenhum trabalho específico nesse sentido. Eu realmente não me sinto distante do Brasil, eu não me sinto sequer a 10 centímetros de distância. Não existe nada que seja necessário pra que essa proximidade seja mantida. Eu sei que pode parecer estranho pra muitas pessoas, mas realmente não me sinto distante do Brasil, nunca me senti distante do Brasil. Cada vez que tenho oportunidade de voltar ao Brasil o sentimento que eu tenho é de que nunca saí daí. Não me sinto estranho, absolutamente nada. É simples assim, é simples assim.

Como você tem observado e acompanhado o cenário político que se abateu sobre o Brasil desde a destituição de Dilma Rousseff e a tomada de poder por Michel Temer e companhia?
Tenho observado como um dos momentos mais interessantes de toda a história da vida política brasileira no sentido de que muitas pessoas, ou uma imensa parcela da população, parece que vem se dando conta cada vez mais da importância de sua participação no processo político. Acho que é um momento fundamental da nossa história democrática. Estou muito ansioso para acompanhar os próximos desdobramentos, vamos ver o que acontece.

Por ocasião de lançamento do filme Tungstênio você virá [veio] ao Brasil e aproveita para lançar nova HQ. O que pode adiantar sobre ela?
Sim, estou lançando um novo livro, que se chama Todos os Santos [Editora Veneta, 2018, 112 p., R$ 84,90]. O livro é uma compilação de trabalhos feitos pra imprensa, trabalhos publicados em revistas do Brasil, trabalhos publicados em jornais do Brasil, jornais da Europa, quadrinhos publicados nas primeiras revistas onde eu comecei a publicar, na antiga Editora Bloch, no Rio de Janeiro, um apanhado de vários momentos da minha carreira. Estou muito feliz de ter podido reunir esse material em livro. Também há algumas histórias que nunca foram publicadas, também está incluída a história Acomodados acomodados, que foi a história que foi vencedora da I Bienal Internacional de Quadrinhos, em 1991, que até hoje permanecia inédita e eu estou muito ansioso de que esse material finalmente chegue ao público. É isso, realmente espero que as pessoas gostem.

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Veja o trailer de Tungstênio:

Entre drama e comédia, novo filme de Helena Ignez discute o Brasil

Djin Sganzerla é A moça do calendário. Frame. Reprodução

 

Grande vencedor da 41ª. edição do Festival Guarnicê de Cinema, A moça do calendário [Brasil, 2017, 86 min., classificação indicativa: 14 anos], de Helena Ignez, é, antes de tudo, um belo tributo ao cinema marginal, que tem como um de seus expoentes Rogério Sganzerla (1946-2004), autor do roteiro original, de 1987, baseado em contos de Luiz Antonio Martins Mendes, a que a diretora acrescentou suas pitadas.

Entre as referências, aparecem, por exemplo, Carmen Miranda (1909-1955) e Zé Bonitinho – personagem de José Loredo (1925-2015), que contracenou com Helena Ignez em Sem essa, Aranha (1970), de Sganzerla –, além do vestido vermelho usado por Djin Sganzerla, filha de Helena e Rogério (foram casados até a morte do diretor), que interpreta a personagem que dá título ao filme, que evoca o usado por sua mãe em Copacabana, mon amour (1970), também de Sganzerla.

O resultado é um filme fragmentário e desgraçadamente atual, sobretudo ao discutir relações de trabalho, não a única bandeira levantada por Helena Ignez, desde sempre feminista e transgressora. O fato de o filme ter levado várias estatuetas no Guarnicê, que este ano teve como tema “tElas – Protagonismo feminino no audiovisual”, diz muito sobre o atual momento vivido não só no cinema e não só no Brasil, em que se intensificam as reivindicações contra o machismo e o racismo vigentes em determinadas estruturas.

Para resumir a questão, uma fala da cineasta Rose Panet, na mesa “A mulher no cinema”, na programação do evento: “Nosso corpo não é de musa, é um corpo funcional”. Helena Ignez, atriz talentosa, transpõe a barreira e firma-se como diretora idem – no entanto, não resistindo à magia de atuar, torna-se personagem de seu próprio filme: senta-se para beber no Bar do Bigode paulista, nos arredores do Teatro Officina (que infelizmente em breve será emparedado por um empreendimento do grupo Silvio Santos), e dá o recado, levantando outra bandeira: “velhos que fumam maconha tomam menos remédio”. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra também é retratado com honestidade, algo raro em telas brasileiras – de qualquer tamanho.

Na narrativa entrecortada e no revezamento do uso de colorido e preto e branco, entre a crueza e crueldade do urbano e a delicadeza do onírico, A moça do calendário evoca O bandido da luz vermelha (1968), outro clássico da filmografia de Sganzerla – em que Ignez também atuou. Em 2010 ela lançou, como diretora, Luz nas trevas: a volta do bandido da Luz Vermelha, espécie de continuação do clássico marginal, com Ney Matogrosso no papel do bandido, originalmente interpretado por Paulo Villaça.

Helena Ignez não faz nenhum esforço para esconder a influência do ex-marido sobre sua obra: narração em off, personagens encarando diretamente o espectador e um quê de teatral – Inácio (André Guerreiro Lopes), o mecânico (filho de pai latifundiário com quem corta relações) que sonha com a moça do calendário enquanto come o pão que o diabo amassou na mão do patrão, é dançarino nas horas vagas.

É um filme sobre sonhos e contradições – a pinup inatingível é militante do MST, o que a afasta duplamente do empregado que na oficina mecânica adentra com o corpo os motores com a cabeça nas nuvens –, misto de drama e comédia, com limite tênue entre seriedade e bom humor. Uma maneira inteligente de debater o Brasil onde os memes estão perdendo o jogo para a tragédia política.

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Veja o trailer de A moça do calendário:

Cinemulher

Foto: Zema Ribeiro

 

A pesquisa Participação feminina na produção audiovisual brasileira, da Agência Nacional do Cinema (Ancine), publicada em 2016, norteou os debates da mesa A mulher no cinema, ontem (13) à tarde, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Um bom público, formado por homens e mulheres, prestigiou a mesa mediada por Thais Nunes (ao microfone, na foto), com (da esquerda para a direita) Ana Mendes, Thais Fujinaga, Nayra Albuquerque, Isa Albuquerque, Tata Amaral, Rose Panet e Maria Thereza Soares.

As profissionais partilharam experiências e dificuldades, dialogando com os números alarmantes da pesquisa. A equação não fecha: se as mulheres são a maioria da população brasileira, como elas estão sendo representadas na telona, em um cinema predominantemente realizado por homens, brancos e heterossexuais?

Rose Panet tomou como exemplo um catálogo da Ancine, com as obras selecionadas e realizadas com verba do Programa de Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), em que consta seu documentário Manuel Bernardino: o Lenin da Matta (2017), que participa da mostra competitiva nacional nesta edição do Guarnicê. “Entre os filmes do catálogo, com mais de 90 obras selecionadas entre quase 800 inscritas, menos de 30 eram dirigidas por mulheres. Na categoria a que concorri, de filme único, eu era a única mulher diretora. O cinema é uma representação da sociedade e há uma subordinação histórica da mulher. Nosso corpo não é de musa, é um corpo funcional. Ser mulher no mundo é um processo de luta. Ser mulher é uma condição e isto não pode nem deve ser definidor nem limitador”, afirmou.

Tata Amaral destacou que “temos um audiovisual hétero, cis, macho, branco e falocêntrico”. Elogiou o Guarnicê na escolha do tema em 2018 – “tElas”, destacando a presença e o protagonismo femininos no cinema brasileiro, mas ressaltou que isto não deve acontecer apenas em uma edição, por conta do tema. “Isso precisa acontecer sempre”, enfatizou.

Thais Fujinaga destacou que o ambiente dos curtas-metragens é aparentemente mais democrático. No entanto ressaltou a ausência de mulheres negras e indígenas e classificou o debate de ontem – e de resto, todo o 41º. Festival Guarnicê de Cinema – como superimportante.

Para Nayra Albuquerque, ter começado a carreira sob a égide do digital, torna mais fácil a produção e veiculação de seus trabalhos. Ressentiu-se porém de mulheres exercendo papéis em curadorias e júris – no que o Guarnicê também acerta este ano.

“A consolidação de políticas públicas como a regionalização da produção aponta para o surgimento de um novo cinema atento a questões de gênero e étnicas”, destacou Isa Albuquerque.

“O Brasil é o quinto país do mundo em violência contra a mulher. Dados nos dizem algo. É necessário fazer levantamentos e a partir deles, fazer algo. A política de cotas é algo sensacional e vem para corrigir distorções históricas. Essa cultura do patriarcado não nos representa”, finalizou Tata Amaral.

Os herdeiros de José

Júlia Konrad, Erasmo Carlos e Jaloo em cena de Paraíso perdido. Frame. Reprodução

 

A princípio, é a trilha sonora que tem garantido bom público a Paraíso perdido [drama/musical, Brasil, 2018, 110 min.; classificação indicativa: 14 anos; em cartaz no Cine Lume, Sessão Vitrine Petrobras], novo filme de Monique Gardenberg, diretora do exitoso Ó paí, ó [2007] e do subestimado Benjamim [2003, baseado no livro homônimo de Chico Buarque]. Mas é preciso dizer: à frente da ótima trilha sonora há um enredo múltiplo, com diversas histórias se cruzando, em um roteiro muito bem urdido.

Paraíso perdido é uma boate com ares de cabaré e certa sofisticação perdida ao longo do tempo neste tipo de ambiente – falo do luxo do lugar e do capricho dos números musicais. A casa é administrada por uma família, cujo patriarca é José, na interpretação papo firme de Erasmo Carlos. Neste ambiente familiar sui generis os artistas da noite são os próprios filhos e netos de José.

“Esqueçam a vida lá fora e sejam felizes aqui no Paraíso perdido, o lugar para aqueles que sabem amar”, José faz o convite aos frequentadores de sua boate – e este se estende a nós, espectadores, que por quase duas horas nos emocionamos, contemos as lágrimas (ou não) e por vezes seguramos o ímpeto de cantar junto e aplaudir ao final de cada número.

A partir daí, diversas histórias se cruzam, costuradas por uma trilha sonora que funciona como uma espécie de antologia sentimental que vai de Reginaldo Rossi a Roberto Carlos, de Raul Seixas a Waldick Soriano, de Odair José a Carly Simon, de Ângela Maria a Márcio Greyck, de Paulo Sérgio a Belchior, entre outros, desfiladas entre (poucas) versões originais e (muitas) releituras por um elenco de híbridos: Seu Jorge, ator e cantor cujo talento já foi posto à prova em vários discos e filmes, o cantor Jaloo, que dá conta do recado ao interpretar Ímã, e Júlio Andrade, ator que se sai bem fazendo covers no papel de Ângelo. A direção musical é de Zeca Baleiro.

O tributo à música cafona não se encerra no soundtrack: personagem central na trama, o policial vivido por Lee Taylor chama-se Odair.

Amores perdidos (e re/encontrados) são o pano de fundo de um filme que joga holofotes sobre temas urgentes como a violência contra a população LGBTI, os direitos de idosos, pessoas com deficiência e detentos, os “bicos” de policiais, a covardia e brutalidade da ditadura militar brasileira, instalada com o golpe de 1964, e o momento político conturbado que vive o Brasil desde o golpe de 2016.

Tantos temas são encaixados com maestria no roteiro de Monique Gardenberg sem o menor risco de o filme tornar-se panfletário desta ou daquela causa, e inteligentemente propor o debate sobre todas elas, ao menos a quem procurar ir além da superfície. Mas mesmo a quem se contentar com ela, perceberá tratar-se de um filme sobre amores e afetos, artigos tão em falta no Brasil de hoje.

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Veja o trailer de Paraíso perdido:

O mais importante é o verdadeiro amor

Timothée Chalamet e Armie Hammer em cena de Me Chame Pelo Seu Nome. Frame. Reprodução

 

“Me chame pelo seu nome”, a frase que dá título ao filme de Luca Guadagnino, é um código entre um adulto e um adolescente que descobrem a amizade e o amor, nessa ordem.

A ação se passa no interior da Itália, no início da década de 1980, mas poderia ser em qualquer país, a qualquer tempo: os pais de Elio (Timothée Chalamet), o adolescente protagonista, são, infelizmente, exceções. Mentes abertas, libertários, os pais que todo filho gostaria de ter – longe de isso significar um salvo-conduto para eventuais irresponsabilidades.

Garoto prodígio, Elio tem 17 anos, lê partitura, toca piano e violão, para deleite dos mais velhos, lê bastante, conhece um pouco de tudo e conversa sobre qualquer assunto, entre o próprio esforço, herança genética e o ambiente familiar favorável, de pais ligados à ciência e à arte.

Curtindo as férias de verão na casa dos pais, a rotina, meio preguiçosa, meio animada, entre nadar, andar de bicicleta, muitas visitas e encontros furtivos com garotas, é interrompida pela chegada de Oliver (Armie Hammer), acadêmico que veio encontrar o pai de Elio, um professor universitário.

Elio e Oliver são bonitos e este, estrangeiro, desperta a curiosidade das garotas que frequentam a casa, com o próprio Elio sugerindo contatos, preocupado em ser bom anfitrião.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, Me chame pelo seu nome [drama/romance, França/Itália/EUA/Brasil, 2018, 131 min.; em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)] muito provavelmente será rotulado apenas como um romance gay, pelo envolvimento de seus protagonistas, embora o filme não levante nenhuma bandeira em si.

É um filme delicado, bonito, bem realizado – com cenas de sexo idem. Se há uma lição é o “qualquer maneira de amar vale a pena”, que infelizmente ainda nos recusamos a aprender. Aliás, triste pensar que atualmente ainda exista gente que não pense como os pais de Elio.

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Veja o trailer:

Uma lição de vida

Tomás Vidiella e Jaime McManus em cena de La memoria de mi padre. Frame. Reprodução

 

Peguei por acaso, ontem, no Canal Brasil.

La memoria de mi padre, drama chileno [2017, 90 min.], estreia do diretor e roteirista Rodrigo Bacigalupe Lazo, conta uma história familiar cada vez mais próxima de qualquer um de nós.

Ficção baseada no drama real vivido pelo próprio diretor, filmada pelas lentes da delicadeza, La memoria de mi padre trata de laços familiares, de vínculos perdidos e reatados.

Alfonso (Jaime McManus) é um roteirista de televisão insatisfeito com o trabalho. Seu pai, Jesus (Tomás Vidiella), acometido de Alzheimer, não suporta a perda da esposa, Ester (María Izquierdo), vitimada por um câncer. Com uma viagem a trabalho por um mês de sua irmã, Claudia (Tamara Tello), Alfonso acaba se vendo obrigado a assumir a tarefa de cuidar do pai.

O que a princípio ele aceita a contragosto e enxerga como um fardo é a oportunidade de reatar laços com o pai, cuja doença acaba por expor ambos a situações perigosas – e vez por outra engraçadas, como o talento de galanteador não perdido pelo velho.

Jesus não aceita a morte de Ester, que crê estar esperando por ele, num hospital, sem dinheiro. É em busca deste encontro irrealizável que ele tira literalmente o sono de Alfonso, que tem dificuldade em compreender a doença do pai. No meio disso tudo, Alfonso tira lições para sua relação com o próprio filho, distante, fria e desinteressada – quase protocolar –, talvez temendo um replay na vida.

Um filme sobre altruísmo, uma lição para nós, espectadores.

La memoria de mi padre reprisa esta madrugada, às 2h, no Canal Brasil (150 na Net).

O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro:

Revelando Louzeiro

José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte

 

A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.

Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.

A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.

Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.

O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.

Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.

Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.

Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.

A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).

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Veja o trailer de José Louzeiro – Depois da Luta: