Em primeira mão: conheça os vencedores do Maranhão na Tela 2018

Mavi Simão anuncia os vencedores do Maranhão na Tela 2018. Foto: Ascom/ Maranhão na Tela

 

Terminou ontem o 11º. Maranhão na Tela. Este ano o festival concentrou suas atividades de exibição em duas salas do complexo Kinoplex, no Golden Shopping, Calhau, em cuja praça de alimentação aconteceram debates, como “Lugar de mulher é no cinema”, de que participaram a atriz e diretora Aurea Maranhão, a diretora e produtora Mavi Simão, e a diretora Rose Panet, sob mediação da jornalista e escritora Andréa Oliveira, e o bate-papo com os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mediado pelo poeta e jornalista Celso Borges, após a sessão que exibiu versão remasterizada de Baile perfumado (1996).

Esse deslocamento geográfico gerou críticas ao festival nas redes sociais. De minha parte, gosto de pensar em duas questões: a comprovada qualidade das exibições e a possibilidade, a um estudante de escola pública ou a um morador de periferia, sobretudo quem nunca esteve em um cinema, fazer sua estreia logo em uma sala luxuosa, sem pagar ingresso, o que se tornou realidade para muita gente.

Idealizadora e produtora do Maranhão na Tela, Mavi Simão canta uma vez por ano, justamente na festa de encerramento do festival, que ontem ocupou o Fanzine, na Av. Beira-Mar, Centro. Antes, ela mesmo anunciou e entregou os troféus aos vencedores das mais diversas categorias.

Fiz um esforço para tuitar em tempo real, mas por lerdeza, algum grau de mouquidão, lentidão na internet, por vezes, e às vezes tudo isso junto, vacilei na cata de alguns nomes.

A atriz e diretora Patrícia Niedermeir e o diretor e montador Christian Caselli formaram o júri para longa-metragem; videoclipes foram julgados pelo diretor Lírio Ferreira e a produtora cultural Luciana Adão; e curta-metragem pelo curador e produtor Breno Lira Gomes e o técnico Carlos Henrique Santos, da equipe de formação audiovisual do Centro Técnico Audiovisual (CTav), órgão vinculado à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC).

Além dos troféus, baseados na obra do artista Walter Sá, em que se apoiou toda a identidade visual do festival este ano, os melhores filmes e videoclipes ganharam horas de aluguel de equipamentos e mixagem no CTav. Eis a relação completa dos vencedores:

MOSTRA NOSSO CINEMA

Longa-metragem

Melhor atriz: Keila Gentil, Para ter onde ir

Melhor ator: Aldo Leite (homenagem póstuma), No palco com Aldo Leite

Melhor atriz coadjuvante: Joelma Maestrini, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor direção de fotografia: Beto Martins, Para ter onde ir

Melhor ator coadjuvante: Fabio Lima, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor som: João Simas, A tribo do reggae

Melhor roteiro: Rose Panet, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor direção de arte: Dida Maranhão e Geovane Camargo, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor montagem: André Garros, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor filme: Para ter onde ir

Melhor direção: Jorane Castro, Para ter onde ir

Curta-metragem

Melhor direção: Al Danúzio e Thiago Kistenmacker, Aquarela

Melhor filme: Foi-se

Melhor roteiro: Adriano Pinheiro, Foi-se

Melhor som: Foi-se

Melhor direção de fotografia: Roman Lechapelier, Farol

Melhor direção de arte: Jeff Cecim, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor montagem: Arturo Saboia, Farol

Melhor ator: Diego Bauer, Obeso mórbido

Melhor atriz: Luna Gandra, Aquarela

Melhor ator coadjuvante: Francisco Gaspar, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor atriz  coadjuvante: Rosa Ewerton Jara, Aquarela

Videoclipe

Melhor videoclipe: Cabelo, Liége

Melhor direção: Arthur Rosa França, A menina do salão, do Criolina

Melhor direção de fotografia: Thiago Pelas, Deusa da lua perigosa, de Sammliz e Dona Onete

Melhor montagem: Lucas Domires e Alexandre Nogueira, por Lança (Até morrer), de Juliana Sinimbú

Melhor direção de arte: Neile Albertina, Frimes – Fadinha

Melhor performance: Pratagy, Búfalo

Premio especial do júri: Lucas Sá, Boy, de Butantan e Only Fuego

MOSTRA MARANHÃO DE CINEMA

Melhor filme: 3x melhor

Prêmio especial do júri: Alberto Greciano, Divino Pato

Menção honrosa: Roberto Augusto, Cantiliana e os herdeiros do mal de Lázaro

Menção honrosa: Maria Thereza Soares, José Louzeiro – Depois da luta

Black friday talk show

Foto: Zema Ribeiro

 

Era uma sexta-feira de black friday e estávamos na praça de alimentação de um shopping center. Por conta de uma das promoções típicas da data, a fila do Burger King era enorme e obviamente não passou despercebida a Lírio Ferreira, um dos diretores do clássico Baile perfumado, lançado há 22 anos, em Pernambuco. Com ele, no bate-papo, seu par de direção do filme Paulo Caldas, e o mediador, o poeta e jornalista Celso Borges.

Película importante da chamada fase de retomada do cinema nacional, após o desmantelo da Embrafilme no governo Collor, Baile perfumado foi o precursor de tudo o que viria depois em se tratando de cinema pernambucano, o Árido movie, que não à toa intitulou outro filme de Lírio Ferreira 10 anos depois, o estado nordestino um dos mais importantes celeiros do cinema nacional desde então.

Uma versão remasterizada de Baile perfumado foi exibida ontem (23) na programação do Festival Maranhão na Tela, em uma sala do Kinoplex Golden, no Golden Shopping, Calhau. “É interessante estarmos aqui. Embora seja estranho fazer isso em um shopping center. Mas quem diria, 22 anos depois do Baile perfumado, nós estarmos debatendo o filme aqui, em uma praça de alimentação, diante da fila enorme do Burger King”, disparou Lírio Ferreira.

Na plateia eu pensava que rever Baile perfumado na ocasião era uma espécie de atestado afetivo de velhice: eu tinha visto o filme na finada MTV Brasil. A trilha sonora, impactante, funciona como uma espécie de coletânea do MangueBit, o último movimento musical organizado de grande repercussão no Brasil, à época então se firmando: Chico Science, Fred 04, Mestre Ambrósio, Stela Campos e companhia.

“Quando gravamos o filme, já tínhamos 80 por cento da trilha sonora gravada”, revelou Lírio. “É muito bom poder ouvir o filme antes de rodá-lo”, repetiu Paulo Caldas.

Com Luís Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti interpretando respectivamente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Benjamim Abrahão, Baile perfumado tinge de ficção vermelho sangue a história real do fotógrafo libanês que conseguiu fazer imagens do cangaceiro em vida. Ao filme, aliás, comparecem as imagens em preto e branco da época de Lampião e seu bando.

“Havia várias imagens de vários arquivos. A gente juntou, recuperou, e está tudo na Cinemateca Brasileira”, comentou Paulo Caldas, revelando uma espécie de contrapartida histórica da dupla ao país – são imagens fabulosas, um documento valioso, sobretudo num tempo em que museus pegam fogo e pouca gente se importa.

O cangaço é algo muito forte no imaginário coletivo nordestino. “Lampião é, ao lado de Padre Cícero e Antonio Conselheiro, um dos maiores símbolos do Nordeste”, provocou Celso Borges. “E Luiz Gonzaga”, completou Lírio.

O nome de Luiz Inácio Lula da Silva não foi dito, talvez por terem citado apenas os que já se foram. Mas o descontentamento com os rumos do país ficou claro em suas falas. “Fazer cinema não é fácil, mas imagino que ser professor de escola pública também não seja fácil”, atacou Lírio. “Ainda mais num espaço sem liberdade, escola sem partido ou escola de partido único”, emendou Caldas.

“Uma coisa fica evidente, se estamos aqui 22 anos depois falando desse filme: o que fica é a arte, a coisa mais importante de um país é sua arte, sua cultura, não é a política”, completou, para aplausos dos poucos que assistiam ao bate-papo, infelizmente menos gente sentada que em pé na fila da citada lanchonete.

Aquarela será exibido hoje em São Luís

Curta-metragem maranhense venceu dois kikitos em Gramado e é um dos favoritos na mostra competitiva do festival Maranhão na Tela

Aquarela. Cartaz. Reprodução

Por detrás da fragilidade e inocência de uma criança (Clarinha, interpretada por Maria Helena De Dea), que envia um desenho para o pai, os diretores e roteiristas Al Danuzio e Thiago Kistenmacker estabelecem a trama alicerçada em flashbacks do curta-metragem Aquarela [drama, Brasil, 2018, 15 minutos].

As tintas da delicadeza para pintar um retrato do em geral trágico e brutal sistema penitenciário brasileiro. Inspirado em fatos reais, avisam, de início, dando ares de documentário à ficção.

“Uma denúncia revela que mulheres de detentos estão sendo abusadas dentro da penitenciária nos dias de visita. Líderes de facções criminosas obrigam as mulheres a manter relações sexuais com eles sob ameaças de matar os outros detentos, parentes ou maridos das vítimas”, uma locução de telejornal nos esfrega a triste e trágica realidade ao final.

Al Danuzio (que interpreta o detento Marcelo, pai de Clarinha) e Thiago Kistenmacker abordam o horror do sistema prisional por um ângulo inusitado. Quem não ler a sinopse e cair em uma sessão poderá se dizer enganado pelo título, que remete ao que o filme tem de poético, embora seja impossível escapar da violência.

A cena em que Ana (Luna Gandra) é enquadrada através dos cobogós é de uma beleza ímpar, em metáfora (também presente no cartaz) que sintetiza a opinião de muitos agentes de segurança pública, sobretudo policiais: mulher de malandro é malandra, filha de malandro é malandra, sentenciam, às vezes justificando a pena de morte a que os mesmos condenam sumariamente quem quer que orbite um detento.

A pergunta de Ana a Marcelo, durante a visita, é emblemática sobre o inchaço dos presídios brasileiros: “e o advogado? Disse quando é que vão te julgar?”. O que o filme tem de poético não disfarça os problemas do sistema nem joga tintas de pieguice em um dos maiores dramas não só do Brasil, mas com que, particularmente aqui, muito pouca gente se importa, apesar de seus reflexos para muito além dos muros de penitenciárias e que tais.

Cabem destacar ainda as atuações de Rosa Ewerton Jara (Dolores, mãe de Marcelo) e Urias de Oliveira (Diabão). Aquarela voltou do Festival de Gramado com dois kikitos na bagagem: melhor desenho de som (Fabio Carneiro Leão) e melhor montagem (Thiago Kistenmacker).

Serviço

Aquarela será exibido hoje (19) no festival Maranhão na Tela e certamente é um dos favoritos na mostra competitiva de curtas-metragens. As sessões acontecem às 19h (Kinoplex Golden Sala Platinum) e 21h15 (Kinoplex Golden Sala Kinoevolution), no Golden Shopping (Calhau). Toda a programação do festival é gratuita.

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Veja o trailer:

Um baile de cinema

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Cartaz. Reprodução

 

Um homem montado em um jumento transforma-se numa espécie de minotauro. Um minotauro moderno pode ter como segunda parte do corpo uma motocicleta. E é por uma espécie de labirinto que somos conduzidos ao longo do poético Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos [documentário, Brasil, 2016, 80 minutos], de Sergio Oliveira, com roteiro dele, Leo Pyrata e Renata Pinheiro, estreia nacional da semana – em São Luís em cartaz no Cine Lume.

O filme é povoado por jumentos, burros, jegues e outros animais que puxam carroças, além de bodes, cachorros e galinhas. Prescinde de palavras ao acompanhar uma viagem do grupo que lhe intitula, carinhosamente conhecido também pela sigla Super Oara, outro destaque musical da cidade que já deu ao Brasil o Coco Raízes de Arcoverde e o Cordel do Fogo Encantado, estes, nomes tidos como representantes de uma cultura mais “pura”, “genuína”, do lugar, apesar do flerte do último com o rock’n’roll.

Mescla o fazer musical do grupo, entre guitarra, contrabaixo, bateria, percussão, saxofone, trompete, trombone e piano, sob a regência do maestro Beto, à vida cotidiana do município do sertão pernambucano, distante 256 km da capital Recife, entre obras, trânsito, o tanger dos animais, o fim de feira, uma corrida de jegues, um inusitado encontro de easy riders agrestes, crianças brincando.

Em um de seus ônibus, a Super Oara vai de Arcoverde a Serra Talhada tocar em um aniversário de 15 anos, na sede da AABB local. Seu repertório, como o nome do grupo indica, é especializado em standards americanos, e ao longo do filme ouvimos clássicos como New York, New York (John Kander/ Fred Ebb), sucesso de Frank Sinatra, Bridge over troubled water (Paul Simon), regravado entre outros por Elvis Presley (a que vimos um dos integrantes da banda vendo um vídeo em um laptop durante a citada viagem), Fly me to the moon (Bart Howard), já gravada por aqui por Paula Toller, In the mood (Joe Garland), por aqui tema da minissérie Agosto, baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca, e, entre outras, Am I black enough for you (Kenny Gramble/ Leon Huff), sucesso de Billy Paul, na cena em que uma espécie de Michael “moonwalk” Jackson cover dança com o bumba meu boi de Arcoverde.

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, o filme, não se pretende uma cinebiografia do grupo quase sexagenário, tanto é que só do maestro Beto sabemos o apelido, ao longo de sua duração – quantos brasis há no Brasil por conhecermos? É um cinema inventivo, de puro deleite, que abusa da força poética das imagens, entre a realidade (documental) e a fantasia, à revolução dos bichos orwelliana, em que também os burros cantam e dançam.

É ao mesmo tempo um belo tributo à cultura nordestina e um retrato – não necessariamente uma crítica – das influências estrangeiras que chegam ao lugar. Se a elite criticou a substituição de jumentos por motocicletas, “graças ao Bolsa Família”, o documentário revela um convívio harmonioso entre uma e outra ferramentas, o que acaba por se tornar uma perfeita metáfora intercultural.

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Veja o trailer:

O beijo no asfalto terá exibição hoje em São Luís

Adaptação de Nelson Rodrigues, filme marca estreia de Murilo Benício como diretor. Sessão abre festival Maranhão na Tela

Lázaro Ramos em cena de O beijo no asfalto. Frame. Reprodução

Ator consagrado, Murilo Benício estreia na direção com O beijo no asfalto [Brasil, drama, 2017, 101 minutos; classificação indicativa: 12 anos], adaptação – de que assina o roteiro – da peça de Nelson Rodrigues. Filmado em preto e branco, a opção do diretor não esbarra no óbvio, contrariando quem eventualmente pensar na escolha como uma busca das facilidades ao refazer um texto consagrado. Ao contrário, o diretor parece guiar-se justamente por essa preocupação: o que pode ainda atrair espectadores em um texto tantas vezes adaptado e encenado?

Para começar, Murilo Benício cerca-se de grandes nomes – Lázaro Ramos (Arandir), Débora Falabella (Selminha), Luiza Tiso (Dália), Otávio Muller (Amado Ribeiro), Stênio Garcia (o sogro de Arandir) e Fernanda Montenegro, entre outros – da televisão, do cinema e do teatro, e nos apresenta um filme, de atmosfera noir (a fotografia é de Walter Carvalho), híbrido dessas linguagens, no caso do cinema transitando com desenvoltura entre a ficção, o documentário e o making of.

Todo o grupo de atores está sentado ao redor de uma mesa, repassando o texto, a que são acrescidos comentários, sobre a grandeza rodrigueana, a hipocrisia social reinante desde sempre ou a monumentalidade de outros atores e atrizes que já encarnaram os papéis naquela peça – o próprio diretor aparece, sentado e discreto. O filme mescla esse ambiente de ensaio com bastidores de teatro e de set, com câmeras, microfones boom e outros equipamentos dividindo a cena com o dream team da dramaturgia de Nelson Rodrigues repaginada por Murilo Benício.

O enredo é por demais conhecido: um homem (Arandir), na Praça da Bandeira carioca, vê outro ser atropelado por um lotação e atende seu último desejo: um beijo na boca, visto por toda sorte de transeuntes, entre homens comuns, meros curiosos, e um jornalista inescrupuloso (Amado) que ganha a vida com o sensacionalismo nosso de cada dia. A partir daí este homem tem a vida devassada, num conluio entre a mídia, a polícia e a sociedade conservadora.

Qualquer semelhança entre a ficção sessentista de Nelson Rodrigues e a realidade brasileira de 2018 não é mera coincidência. A adaptação de Murilo Benício coloca em debate temas infelizmente ainda bastante atuais: a homofobia, a manipulação das pessoas por meios de comunicação (ou por redes sociais, em nossos tristes tempos) e um sentimento de culpa baseado em uma moral cristã. “Nelson Rodrigues tem um teatro da culpa; embora em busca de redenção, mas esta se dá pela culpa”, afirma categoricamente Fernanda Montenegro – que afinal de contas, era a Selminha da montagem original e aqui aparece como dona Matilde, uma vizinha fofoqueira.

Outra fala da atriz nos traz à triste realidade: passado tanto tempo, o Brasil segue atrasado em matéria de “moral e bons costumes”, no que imagino que a opção de Benício pelo preto e branco, mais que estética, seja também um modo de dizer: de nada adiantaram as cores e a tecnologia se um texto que se passa em 1960 pode ser encenado como atual no Brasil em pleno 2018.

Serviço

O beijo no asfalto será exibido hoje (15), às 20h, no Kinoplex (Golden Shopping, Calhau), na sessão de abertura do 11º. Festival Maranhão na Tela, com a presença do diretor Murilo Benício. A sessão é gratuita e aberta ao público, como toda a programação do festival.

Convergência em T

Meu corpo é politico. Cartaz. Reprodução

Quatro histórias se cruzam em Meu corpo é político [drama/documentário, Brasil, 2017, 71 minutos], documentário da diretora paulista Alice Riff. As personagens fogem ao padrão heteronormativo vigente e o grande trunfo do filme reside em revelar-lhes em ações cotidianas. O quarteto mora em distintas periferias da cidade de São Paulo.

A câmera-corpo acompanha-as no dia a dia: um operador de telemarketing, uma professora ocupando o cargo de direção de uma escola, uma jovem fotógrafa que coloca sua arte a favor da militância pelos direitos de transexuais e uma artista do funk idem.

Meu corpo é político é didático sem ser panfletário. É um mergulho ousado na temática, a apontar questionamentos que deveriam ser feitos por cada um de nós, diante de tema (relativamente) novo, pouco abordado, ao menos com a devida responsabilidade, sobretudo por (grande) parte da mídia.

O olhar sensível de Alice Riff passa a merecer ainda mais respeito justamente por ela tê-lo devotado a seu próprio mergulho no universo dos Ts da sigla LGBTQI+: sendo mulher cisgênero (e aqui o resenhista não foge ao lugar comum de enquadrar seres humanos no binarismo que rege/ia a identidade de gênero), ela consegue contar, com louvor, as histórias a que se propõe.

O roteiro é bem urdido, entremeando as vidas de Fernando Ribeiro, Paula Beatriz, Giu Nonato e Linn da Quebrada, que além de protagonistas, assinam o roteiro do filme com Alice Riff.

Se todo corpo é político, o corpo de um/a transgênero o é ainda mais, vivendo em estado permanente de ameaça, e na iminência de toda forma de violência. Existir é político: resistir se faz necessário.

Em uma época em que um presidente recém-eleito ameaça toda sorte de cotas e de censura o mais importante mecanismo de acesso ao ensino superior do país, o filme de Alice Riff é peça fundamental na re/educação da sociedade, ou ao menos da parcela ainda disposta a abrir a mente.

Selecionado pelo mais recente edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que garante a produção de conteúdo audiovisual para a veiculação em emissoras públicas, uma versão estendida de Meu corpo é político foi exibida ontem (12), no Cine Teatro Aldo Leite (Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão – DAC/UFMA, Canto da Viração, Centro), na mostra Corpos Elétricos, que integra a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, do Sesc/MA.

A sessão foi seguida de debate com a diretora, a atriz Áurea Maranhão e o técnico em cultura do Sesc/MA Fábio Azevedo. A programação continua daqui a pouco, com Uma mulher fantástica [drama, 2017, direção: Sebátian Lelio, duração: 104 minutos; classificação indicativa: 14 anos], às 16h, e Corpo elétrico [drama, 2017, Marcelo Caetano, 94 minutos, 16 anos], às 18h. As sessões têm entrada franca.

Veja o trailer de Meu corpo é político:

Amado para sempre

O cineasta Orson Welles em ação. Netflix. Reprodução

 

Orson Welles (1915-1985) foi, como ele mesmo admitia, vítima de uma espécie de maldição, causada por sua própria genialidade: aos 25 anos lançou Cidadão Kane [Citizen Kane, 1941, 119 minutos], considerado por muitos o melhor filme da história do cinema em todos os tempos. Até o fim da vida, sempre que lançava um novo filme, as expectativas em torno eram acrescidas da inevitável comparação com sua obra-prima ou pela ansiedade em torno da superação do cineasta por si próprio. Qualquer outro realizador, americano ou não, poderia também ser considerado genial (muitos deles merecidamente) sem ter precisado fazer um Cidadão Kane, portanto livres de cobranças do gênero.

O outro lado do vento [The other side of the Wind, 2018, 122 minutos] joga luzes sobre esta espécie de maldição: filme de montador (Bob Murawski), o inédito deixado por Orson Welles acaba de ser lançado pela Netflix. Metacinema, cinema sobre cinema, cinema para cineastas, cinema para cinéfilos, seu fã-clube, nada desprezível, comemora. Fragmentário, entrecortado. Uma sátira cinematográfica, uma contundente crítica à indústria cinematográfica, mas também um comovente tributo à sétima arte – sua polifonia impressiona. Cinema, simplesmente.

Ao mesmo tempo a plataforma disponibiliza também Serei amado quando morrer [They’ll love me when I’m dead, 2018, 98 minutos], dirigido por Morgan Neville, documentário sobre a feitura de O outro lado do vento, este, sobretudo, uma aula de cinema. Aliás, ambos são verdadeiras aulas de cinema: a mensagem final de O outro lado do vento é certeira: “filmem tudo, filmem até morrer”, recomenda o diretor, antes que as pessoas deixassem de ver espetáculos com os próprios olhos para vê-los através das telas de seus smartphones – certamente não era disso que falava, mas como todo grande artista era também um visionário.

Mas estará enganado quem pensar que Serei amado quando morrer é mero making of, manual de instruções, chave de leitura ou “os extras do dvd” de O outro lado do vento: o documentário ajuda a entender a figura plural (em todos os sentidos) de Orson Welles.

O outro lado do vento é uma espécie de cinebiografia de um alter ego de Welles, um obcecado por cinema, que apesar da grandeza, nem sempre teve vida fácil para realizar este ou aquele projeto – palavrinha surrada hoje em dia –, um dos motivos pelos quais acabaria se “exilando” de Hollywood. Com trilha de Michel Legrand, o filme é cheio de referências cinematográficas e literárias (sobretudo Ernest Hemingway) e tem uma das mais bem feitas cenas de sexo da história do cinema.

Orson Welles escreveu e dirigiu O outro lado do vento ainda nos anos 1970 e nele trabalhou até morrer. Falta de financiamento, batalha judicial, mais de 100 horas de material bruto filmado, inúmeras anotações e diretrizes compõem a saga do lendário filme inacabado do cineasta. Mais de três décadas depois sua genialidade é posta à prova. O par de filmes prova que ele segue merecedor do epíteto.

Garrincha do Brasil

Garrincha, a alegria do povo. Cartaz. Reprodução

 

Nada mais simbólico que neste domingo de missa, praia, céu de anil, sangue no jornal e bandeiras e adesivos nas avenidas, o Canal Brasil exibir Garrincha, alegria do povo [documentário, Brasil, 1962, restaurado em 2006; 58 min.], tributo cinematográfico de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) ao anjo das pernas tortas – de carioca para carioca, de craque pra craque, tabela perfeita, um gol de cinema. O filme tem roteiro do diretor com Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira (1927-2010), Mário Carneiro (1930-2007) e David Neves (1938-1994).

Personagem emblemático do futebol brasileiro, Garrincha (Manuel Francisco dos Santos, 1933-1983) é até hoje adorado não só por botafoguenses: seus dribles desconcertantes encantavam até mesmo os adversários – e seguem encantando, em videotapes ou no filme de Andrade. Eis aí um brasileiro capaz de unir o Brasil.

Acervo Cinemateca Brasileira. Reprodução

Eram outros tempos, em que um futebol tinha uma dimensão menos espetacularizada (e monetizada, através da publicidade, sobretudo) e a gente humilde (onde vez por outra surge um Garrincha) tinha condições de frequentar estádios, antes de estes passarem a ser chamados de arenas.

A homenagem de Andrade a Garrincha, prestada ainda em vida, como advogavam Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006), acertadamente não se prende a ser uma espécie de “melhores momentos” do craque (o que qualquer produtor de tevê faz na segunda-feira, após a rodada do fim de semana), nem adentra a tragédia do alcoolismo que o vitimou, talvez por ter sido realizado no auge do futebolista, em 1962 – e já que falamos em música, à trilha sonora comparecem as escolas de samba Portela e Império Serrano.

Andrade equilibra a montagem entre o delírio das torcidas e o silêncio das fotografias em preto e branco com que também ilustra seu filme, antológico qual um drible do homenageado, a reação do craque à fama (uma câmera escondida acompanha o ídolo pelas ruas do Rio de Janeiro) e a dimensão humana do personagem: pai de sete filhas, a casa humilde, na Pau Grande natal, decorada quase completamente com temas futebolísticos – retratos, flâmulas –, e o aparelho de som, diante do qual aparece dançando e botando as filhas para dançar, numa coleção que tinha Nat King Cole, sambas e marchinhas, o próprio Garrincha personagem de alguns clássicos da música popular brasileira.

É cinema, mas contém teatro (o espetáculo das jogadas individuais de Garrincha e as vitórias alcançadas pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira nas copas de 1958 e 62), dança (não apenas na sala de casa: Garrincha bailava ao deixar adversários – os joões, como ele mesmo se referia a seus marcadores – no chão), pintura (cada fotografia de um drible de Mané merece moldura) e poesia: adaptando Leminski (1944-1989, que posteriormente se referiria a Zico, com essa pergunta), “como explicar um gol de Garrincha?”. Tarefa impossível: quem explica um milagre? Em se tratando de Garrincha, é simplesmente disso que se trata.

Uma história curiosa que comparece à película narrada por Heron Domingues é a de que Garrincha chegou a se empregar na fábrica de tecidos em torno do qual girava a vida em Pau Grande. Conseguia a proeza de dormir em pleno expediente, apesar do barulho ensurdecedor das máquinas. Sua demissão ficava adiada para a próxima segunda-feira e nunca se concretizava, pois no fim de semana ele fazia os gols das vitórias do Sport Club Pau Grande, o time da fábrica, ampliando o respeito dos colegas – e garantindo a sobrevida no emprego.

Criador de passarinhos, entre os bichos de sua “coleção”, havia um mainá, ave reconhecida pela capacidade de aprender algumas palavras, quando em cativeiro. Duas ou três vezes ao longo do filme ouvimos o bichinho de estimação de Garrincha gritar: “Vasco!”.

É vendo Garrincha, alegria do povo que entendemos a resposta de Vinicius de Moraes (1913-1980) a um superior no Itamaraty, quando perguntado se não gostaria de prolongar sua função no estrangeiro: “e você sabe lá o que é um choro de Pixinguinha, o que é torcer pelo Botafogo?”.

Maranhão na Tela amplia alcance

Idealizadora e realizadora do festival, Mavi Simão conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Um dos seis trabalhos em óleo sobre papel cartão do artista maranhense Walter Sá que compõem a identidade visual do festival. Reprodução

A 11ª. edição do festival Maranhão na Tela acontecerá entre os dias 15 a 24 de novembro, e acontecerá, entre sessões e rodadas de negócios, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), Centro Cultural Vale Maranhão (Praia Grande) e Kinoplex Golden (Golden Shopping, Calhau).

As inscrições para as mostras competitivas – gratuitas – e para as rodadas de negócios – entre R$ 70 e 100 – serão abertas amanhã (10), no site do festival.

A realização de mostras em uma sala de uma grande rede de cinemas é uma das novidades do Maranhão na Tela, cuja origem remonta a 2006, idealizado pela cineasta Mavi Simão e realizado pela Mil Ciclos Filmes.

Com a atriz Áurea Maranhão (E), a diretora Mavi Simão no set de Terminal Praia Grande, seu primeiro longa, em fase de finalização. Foto: divulgação

“Sobre a exibição nas salas Kinoplex, o que mais pesou para decidirmos foi a questão da qualidade de exibição, essa é uma enorme prioridade para qualquer festival. Infelizmente, o Cine Praia Grande, espaço pelo qual tenho imenso carinho, não possui a estrutura exigida para a projeção de muitos dos filmes que queremos exibir, mas ainda teremos boa parte da programação nesse espaço tão importante para o cinema maranhense e para o Maranhão na Tela. Também acho importante exibir os filmes locais, agora regionais, com o que se tem de melhor em termos de qualidade. Para os realizadores isso faz toda a diferença. A rede Kinoplex também foi muito aberta a essa parceria, que é inédita até pra eles, já que conseguiremos manter a entrada gratuita. Estou louca para ver a reação dos estudantes da rede de ensino público, assistindo filmes deitados em poltronas reclináveis da sala Platinum.  Grande parte dessas crianças e jovens  estão indo ao cinema pela primeira vez, imagina que experiência inesquecível”, comenta Mavi.

Sobre as rodadas de negócios, ela afirma: “esse é um sonho muito antigo e de grande importância para o fomento à produção maranhense. Trata-se de uma iniciativa com foco na geração de negócios, ou seja, uma ação que vai contribuir de fato para que projetos saiam do papel e, consequentemente, para que o nosso mercado se desenvolva. Serão dezenas de convidados entre executivos de canais de TV, grandes produtores, distribuidoras, entre outros profissionais, além de representantes da Ancine [Agência Nacional do Cinema], do Sicav [Sindicato da Indústria do Audiovisual] e da Bravi [Brasil Audiovisual Independente, associação que congrega mais de 600 produtoras no país]. Outra novidade importante é a ampliação do projeto para as regiões Norte e Meio Norte. A partir de 2018, o Maranhão na Tela estende suas ações para mais oito estados. Seremos uma janela de visibilidade e fomento desse mercado que hoje é o que menos produz no Brasil”.

Mavi não antecipou títulos ou cineastas que participarão desta edição do festival, nem homenageados. “Já estamos trabalhando para fechar os homenageados, mas ainda não temos os nomes confirmados. A curadoria dos filmes convidados está começando a ser feita agora. Nessa fase ainda não temos o detalhamento da programação”, declarou.

Ela é otimista quanto ao atual momento do cinema produzido no Maranhão. “O cinema maranhense vive seu melhor momento. Parte disso é fruto da seleção de realizadores maranhenses em chamadas do Fundo Setorial do Audiovisual [FSA], mas também da Escola de Cinema do Maranhão [vinculada ao Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, IEMA] e do edital lançado pelo Governo do Estado em 2015, em parceria com o FSA. Esse edital injetou 3 milhões de reais na economia da cultura do audiovisual maranhense, por isso, é fundamental que essa seja uma política pública continuada. Naquela ocasião o FSA entrava com recursos na proporção de 2/1, hoje eles entram com 5/1. É um recurso muito significativo! Se esse edital for realizado anualmente, nosso cinema vai para o alto e além”, finaliza.

A classe média no espelho

Karine Telles e Otávio Müller em cena de Benzinho. Frame. Reprodução

 

Sem firulas ou grandes intrigas, Benzinho [coprodução Brasil/Uruguai, 2018, drama, 95 min.; direção: Gustavo Pizzi; em cartaz no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença)] é um retrato da típica classe média brasileira, para irmos direto ao ponto, como o próprio enredo do filme.

Conta a história de uma família que vive em Petrópolis (o filme foi rodado lá e em Araruama), numa casa caindo aos pedaços – apesar de ter uma casa de veraneio –, enquanto seus membros se viram nos trinta para conseguir pagar as contas.

Klaus (Otávio Müller) é um livreiro romântico – redundância intencional –, a típica profissão em extinção. Irene (Karine Teles), sua esposa, é a mãe batalhadora, o retrato da mulher enquanto heroína, que se divide entre os afazeres domésticos, criar os quatro filhos, estudar e ajudar no orçamento doméstico, entre a venda de roupas de cama e quentinhas.

Há discordâncias entre o casal apaixonado, sobretudo quanto ao convite a Fernando (Konstantinos Sarris), o filho mais velho, para ir jogar handebol na Alemanha e a venda da casa de praia – Klaus sonha em terminar uma nova casa para morarem e abrir um novo negócio com o dinheiro da venda.

Se o filme não adentra questões políticas, pauta de qualquer família, não apenas classe média, no Brasil polarizado de hoje, a trama comporta a abordagem a um tema infelizmente ainda não superado, com estreitas relações com o golpe jurídico-político-midiático em voga desde 2016: a violência contra a mulher.

Ao longo da película, descobriremos que Irene foi explorada em situação de trabalho doméstico infantil. Quando ela abriga a irmã (Sônia, vivida por Adriana Esteves) e o filho, após uma agressão do marido (Alan, vivido por César Troncoso), manda um recado cristalino ao espectador: está ultrapassado o dito popular de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O filme guarda ainda uma surpresa: a discreta participação especial do compositor Ivor Lancellotti, pai do incensado Domenico e autor de sucessos de, entre outros, Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Nana Caymmi e Roberto Carlos.

Benzinho, no fundo, é uma história de amor, longe de resvalar na pieguice.

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Veja o trailer:

O menino é o pai do cineasta

O editor Felipe Melhado exibe orgulhoso o singelo Novos Contos. Foto: divulgação

 

Rogério Sganzerla (1946-2004) “é um dos cineastas mais radicais e inventivos que o Brasil já teve”, nos lembra o editor Felipe Melhado, da Grafatório Edições (de Londrina/PR). Em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos, ele reconhece a importância de Sganzerla para sua formação em vários sentidos. Em parceria com a Míriade Edições (de Florianópolis/SC), de Gabi Bresola, acaba de ser publicado uma edição fac-similar de Novos Contos [2018], livro que Sganzerla publicou em 1954, aos sete anos de idade.

Você não leu errado: aos sete anos de idade. Um primor editorial, a caprichada edição vem num singelo envelope, com o livro (quatro contos de aspecto fabular, mas sem moral da história), selos aludindo a filmes e cineastas importantes como O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla, de 1968), A chinesa (de Jean-Luc Godard, que também completa 50 anos em 2018), Orson Welles e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da cidade catarinense de Joaçaba – onde nasceu Sganzerla. E Gabi Bresola.

O cineasta Rogério Sganzerla em ação, durante as filmagens de O signo do caos (2003), seu último filme. Foto: Marcos Bonisson

O livro foi descoberto pela conterrânea. “A Gabi conseguiu uma cópia do livro em xerox, conversou com a Helena Ignez [cineasta, viúva do diretor] e com as filhas do Rogério, a Djin e a Sinai [Sganzerla, atrizes], e elas toparam a brincadeira”, conta Melhado. “Desde o começo a Gabi tinha imaginado um livro fac-similar, impresso em tipografia, como na edição original. Nós da Grafatório já tínhamos feito algumas publicações tipográficas, e foi por isso que ela convidou a gente pra trabalhar juntos! É claro que eu fiquei entusiasmado, já que sempre admirei o Sganzerla”, continua.

Melhado comenta também as opções estéticas em torno dessa (re)edição: “Graficamente, tentamos nos aproximar o máximo possível da edição original. Utilizamos os tipos móveis e ornamentos tipográficos mais parecidos que encontramos, e também os papéis mais próximos. No texto mantivemos inclusive a grafia da época e alguns cacoetes da escrita, que talvez sejam do Rogério ou, talvez, do tipógrafo que montou o livro. Mas a edição também traz alguns elementos extras: uma recontextualização gráfica que faz referência às criações posteriores do Sganzerla (os selos, os carimbos no envelope…), e também um texto-depoimento da Dona Zenaide Sganzerla, mãe do Rogério, que hoje está com 99 anos de idade”.

“Junto no envelope vai um livro do Rogério. Esse faz anos. Foi no tempo que ele era o meu mais novo, com sete anos, em Joaçaba. Ele escrevia tudo o que era coisa”, começa. A carta, escrita à mão, e os contos nos dão ideia de como o menino Sganzerla já continha o cineasta, inclusive quanto à precocidade, basta lembrarmos que O bandido da luz vermelha, considerado sua obra-prima, foi filmado quando ele tinha apenas 22 anos.

“O Rogério sempre foi de todos eles [os filhos] o mais fora do sério. […] O Rogério saiu cedo de casa porque parecia que sempre estava ansioso, inquieto, não parava, não parava de inventar coisa. Quando ele foi estudar em São Paulo com dezoito anos, fazer filmes, aí também escreveu outros livros. Mas o Novos Contos foi o primeiro de todos. O dos papeizinhos, o das coisas que ele inventava”, finaliza a missiva materna.

“Pra mim, pelo menos, a decisão de publicá-lo tem a ver com revelar uma passagem desconhecida da vida do cara. Acho que reabilitá-lo nunca é demais. Precisamos sempre botar em cena, de todas as formas, pessoas com a atitude, o pensamento e a criatividade anárquica como a dele. Precisamos tornar esse tipo de potência sempre acessível, sempre à mão, inclusive na contemporaneidade problemática em que a gente vive”, alfineta Melhado.

“Além do mais, o próprio Sganzerla tinha bastante estima por essa criação super precoce que foi o livreto Novos Contos. Ele sempre mencionou o livro em diversas entrevistas, em muitos momentos. O Sganzerla tinha um interesse pela infância que é bastante estimulante. Ele considerava a criança como um criador por excelência, um ser livre, assim como os loucos e os poetas. Ele dizia que se alguém quiser investigar sobre o processo criativo, essa pessoa precisa levar em conta a infância. Porque a criança é um ser em permanente estado de criação, e isso parecia fascinar o Rogério. E me parece que esse era um estado que ele procurava cultivar permanentemente, durante toda a sua vida”, prossegue.

O envelope de Novos Contos contém ainda uma fotografia do menino Sganzerla, a reprodução de um autógrafo em que ele oferece o opúsculo, uma espécie de lembrança – no retrato ele aparece batendo palmas diante de um bolo onde se lê “Edifício Sganzerla” –, e os contos, curtíssimos, A rainha das flôres (mantendo a grafia da época), A bola do mágico, Paulo e seu carro e Os dois patos.

Certamente alvo de curiosidade, a obra deve agradar, pelo conteúdo e singeleza, admiradores do cineasta. “A família foi muito receptiva à ideia. A Helena Ignez e as filhas do casal, Sinai e Djin Sganzerla, gostaram bastante do resultado, nos disseram que ficaram emocionadas ao ver o livro. É lógico que isso nos deixou muito contentes também”, revela Melhado.

Novos Contos é o terceiro livro publicado pela Grafatório Edições – em parceria com a Miríade Edições –, que estreou com A hora da lâmina, de Paulo Leminski (esgotado), também marcada pelo capricho editorial. “A criação gráfica serve para intensificar a potência do pensamento e vida dos autores”, explica Melhado. E anuncia: “muita coisa já está no prelo”.

Cinemateca Lume estreia hoje (6), com sessão seguida de debate com diretores

Divulgação

 

“Meus pais [os poetas Nauro Machado (1935-2015) e Arlete Nogueira da Cruz] foram os grandes responsáveis por eu ser um apaixonado pelo cinema. O fato de ir quase diariamente para uma sala de projeção foi o que me moldou a ser hoje um cineasta”, declarou-me em entrevista, em 2011, Frederico Machado.

Mais que cineasta, Fred, como é carinhosamente chamado pelos mais próximos, é um homem de cinema, na acepção mais ampla da expressão, tendo ao longo destes anos de dedicação à sétima arte colecionado monumentos de resistência, mesmo quando acossado por dívidas: a locadora Backbeat (a maior do Nordeste e certamente uma das maiores do país, num momento em que o setor perde a batalha para os serviços de streaming), o Cine Lume (com três estreias semanais, ponto fora da curva em relação a qualquer outra sala em São Luís), a Lume Filmes (por onde realiza suas próprias obras e projetos em que acredita) e a Escola Lume de Cinema (que colaborou na formação de toda uma geração de diretores/as, atores/atrizes e técnicos/as).

Hoje (6), Frederico Machado inaugura mais uma pedra fundamental nesta trajetória ímpar: às 20h, no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), com entrada gratuita, acontece a primeira sessão da Cinemateca Lume, que pretende ser uma referência em se tratando de acervo fílmico produzido por diretores/as locais.

Serão exibidos seis filmes, sendo o sexto um filme surpresa, cujo título não foi anunciado. Os outros cinco são Jardins suspensos, de Euclides Moreira, Amniogênese, de Rose Panet, Carnavalha, de Ramusyo Brasil e Áurea Maranhão, Marina, de Taciano Brito, e Você é diferente, de George Pedrosa.

Após a exibição haverá debate com os diretores.

Está nos planos de Frederico Machado realizar uma sessão mensal da Cinemateca Lume, prestigiando as diversas vertentes do cinema local, sem distinção de gênero, metragem ou outras de qualquer natureza, sempre seguida de debate com os realizadores, e com entrada franca. Nomes como Breno Ferreira (Walter do 402), Francisco Colombo (Avesso) e Maria Thereza Soares (José Louzeiro: depois da luta) já confirmaram participação em edições vindouras da Cinemateca Lume.

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.

Um olhar privilegiado sobre o maio de 1968

Um ano depois. Capa. Reprodução

 

O trunfo da prosa de Anne Wiazemsky (1947-2017) é nos tornar cúmplices dela e do então marido Jean-Luc Godard em suas perambulações pelos acontecimentos do maio de 1968.

À época com apenas 20 anos, a atriz conduz os leitores por um ângulo sui generis, tornando-nos íntimos, espectadores privilegiados, como a conviver com tantos personagens interessantes que aparecem ao longo das páginas de Um ano depois [Um na après; tradução: Julia da Rosa Simões; Todavia, 2018, 172 p.; R$ 50,00] – o livro foi adaptado ao cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard.

Godard era um ícone da esquerda francesa e de algum modo havia profetizado o mítico mês em que os estudantes tomaram Paris em seu filme A chinesa, lançado em 1967, com Anne Wiazemsky como protagonista.

A autora escancara sua intimidade com o cineasta, de modo poético, entre preferências gastronômicas, o mau humor quase infantil provocado por motivos prosaicos, o trabalho e o ciúme – o homem comum por detrás do gênio do cinema –, longe de soar fútil.

O cineasta se irrita, por exemplo, com a mulher indo à praia em plena greve. Ou com os donos da casa em que se hospedam durante determinada passagem, enquanto Paris literalmente pega fogo. Anne reconta também episódios marcantes como o boicote – liderado por Godard e François Truffaut, de quem se afastaria, posteriormente – ao Festival de Cannes, além do convívio com figuras como o filósofo Gilles Deleuze e o cineasta Bernardo Bertolucci, entre outros.

Em uma reunião em que se discute a gravação de um filme de Godard com os Beatles, o projeto acaba inviabilizado pelo humor de John Lennon. Anne e Paul McCartney enfiam-se debaixo da mesa para tomar chá e comer bolachas – para desespero de Godard, que não acredita muito na versão da própria esposa, ao menos não de cara.

Na sequência, o casal viaja para Londres, onde acaba gravando os Rolling Stones em Simpathy for the devil – as gravações foram interrompidas por um incêndio no prédio do estúdio e a escritora não retoma o assunto.

Anne Wiazemsky também aborda as insatisfações e desilusões de Godard com o cinema e sua ameaça em deixar de praticar a sétima arte – em determinada passagem chama a si mesmo de “Jean-Luc ex-Godard” – e seu quase suicídio motivado por… ciúmes.

A história é contada com rigor e sentimento, sem romantização, em uma prosa delicada, por quem esteve literalmente no olho do furacão. É um olhar inédito e instigante sobre os acontecimentos de maio de 1968, seus desdobramentos e, sobretudo, seus personagens, fundamentais para a vida cultural e política do planeta nos últimos 50 anos, homens e mulheres com seus defeitos e contradições, tão humanos quanto nós, meros leitores e admiradores de seu legado.

E não é o Domingão do Faustão!

O vazio do domingo. Frame. Reprodução

 

Como muitos podem pensar ao ler o título O vazio do domingo [La enfermedad del domingo, drama, Espanha, 2017, 113 min., classificação indicativa: 16 anos; disponível no Netflix].

O belo filme de Ramón Salazar explora de maneira poética, emoldurado por belas paisagens, os limites da ética e do amor.

Começa com ares de filme policial, a trama a envolver o espectador em uma espécie de jogo de gato e rato.

As atuações de Bárbara Lennie e Susi Sánchez, que interpretam a filha Chiara e Anabel, a mãe que a abandonou décadas antes, são estonteantes – nelas se concentra o enredo, numa curta temporada em que passam juntas, a partir de um pedido da primeira.

Anabel tornou-se rica e poderosa e ao ver a reaproximação da filha, imagina mesquinhamente tratar-se de alguém que quer dinheiro. É aí que há uma guinada para um convívio durante o qual é forçada a sair de sua zona de conforto, entregando-se a tarefas domésticas simples, lembranças, feridas que não cicatrizam e um tempo que ameaça consumir a (re)descoberta de laços – no que o título em português é mais sutil que o original, ao não entregar o ouro de cara, ao contrário deste resenhista que não se importa em dar spoiler.

O atrito entre as protagonistas é permanente, apesar do atavismo que as une – “quem herda aos seus não degenera”, diz o dito popular. Em determinada cena, mãe e filha veem slides e aquela se surpreende com uma memória impossível: em uma imagem aparece grávida de Chiara, mas com a mesma idade desta, a seu lado. A filha explica tratar-se de uma colagem, algo simples, elogiada pela mãe quase como uma obra de arte, enquanto surge uma nova revelação sobre o passado da adolescente abandonada. Um drama familiar comovente.