O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro:

Quantas vidas cabem numa só?

Lou. Frame. Reprodução

 

Quantas vidas alguém precisará viver para viver uma vida como a de Lou Andreas-Salomé [1861-1937]? Esta é uma das perguntas possíveis ao término de uma sessão de Lou [drama/histórico/biografia, Alemanha/Suíça; 113 min.; em cartaz no Cine Lume], de Cordula Kablitz-Post, cinebiografia da escritora e psicanalista que influenciou Sigmund Freud [interpretado por Harald Schrott], o pai da psicanálise – só dizer isto já dá ideia da grandeza da personagem.

Bem realizado na reprodução de cenários e figurinos da época, o filme parte da decisão da protagonista de escrever sua biografia, aos 72 anos. Entra em cena a figura de Ernst Pfeifer [Matthias Lier], então desempregado, que acabará por virar o administrador do espólio de Lou Andreas-Salomé [Nicole Heesters interpreta a personagem aos 72 anos; Katharina Lorenz, dos 21 aos 50; Liv Lisa Fries, aos 16; e Helena Pieske, aos seis], até sua própria morte, responsável pela redescoberta da mulher que se insurgiu contra os padrões então vigentes.

A história tem início em 1933, no período entre-guerras. Lou  é uma senhora reclusa que já havia parado com os atendimentos. O filme se equilibra bem entre os diálogos entre a protagonista e seu datilógrafo – que acaba assumindo um papel misto de repórter e confidente –, que também acaba se apaixonando por ela, e no vaivém das histórias que conta, remontando à infância em São Petesburgo e ao mundo que ganhou ao desafiar a mãe e o status quo, após a morte do pai.

Numa época em que às mulheres não era dado o direito de estudar, é isto o que Lou faz, simplesmente por não aceitar a condição subalterna imposta ao sexo feminino. Seu primeiro livro é publicado com um pseudônimo masculino: os editores de então não acreditavam no sucesso de um livro escrito por uma mulher. Acabou por tornar-se pioneira da psicanálise e do feminismo; no primeiro campo dedicou-se à sexualidade feminina; no segundo, antecipou-se a sistematizações acadêmicas que só aconteceriam no século XX.

Em suas conferências é seguida por um devotado René Maria Rilke [Julius Feldmeier] que, por sugestão dela, adota o pseudônimo Rainer e vem a ser o poeta que conhecemos hoje, tantos anos depois. É ele quem irá quebrar sua repulsa ao casamento, que acreditava ser um sinônimo de perda de liberdade, após a dispensa de pretendentes do naipe dos filósofos Paul Rée [Philpp HauB] e Friedrich Nietzsche [Alexander Scheer].

Sua luta por liberdade tinha um quê de egoísmo, ela mesmo admite a determinada altura. “O que mudou para as mulheres?”, pergunta a seu privilegiado interlocutor noutro momento. Mas certamente inspirou a insurgência de outras mulheres e a (r)evolução que vemos, infelizmente ainda, mais lenta do que gostaríamos e do que o necessário.

A cinebiografia certamente ajudará a jogar luzes sobre esta personagem tão importante quanto desconhecida do grande público. O silêncio sobre ela e sua obra ajuda a compreender as relações de poder estabelecidas, contra as quais Lou dedicou toda a sua vida e obra.

Merecem destaque os grafismos em que Lou movimenta-se por estáticos cartões postais. Piegas é a forma como se apresenta o deus com quem conversa na infância e de quem se lembra no divã de Freud, o que nem de longe tira o brilho do filme, ousado como sua protagonista, ao decidir abarcar tantos aspectos da vida – ou das vidas? Quantas ela viveu numa só? – de Lou Andreas-Salomé.

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Veja o trailer de Lou: