Esse livro é uma pedra!

Da terra das primaveras à ilha do amor. Capa. Reprodução
Da terra das primaveras à ilha do amor. Capa. Reprodução

 

Não à toa Ademar Danilo fala em “pioneirismo desbravador” em A primeira pedra, texto de introdução à reedição de Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade cultural [Pitomba!, 2016, 143 p.], de Carlos Benedito Rodrigues da Silva, o Carlão.

Fruto da dissertação de mestrado defendida na Unicamp pelo professor campinense radicado em São Luís desde 1981, o livro foi publicado pela primeira vez em 1995, pela Edufma. Também não foi à toa que os lançamentos de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, e O reggae no Caribe brasileiro, de Ramusyo Brasil, ambos da Pitomba!, requentaram a busca pela obra inaugural, até então alçada também ao status de raridade.

Carlão dá um mergulho profundo tentando compreender – e fazer seu leitor – o trinômio do subtítulo. Militante do movimento negro, aborda o preconceito sem soar panfletário. Fato é que passados 20 anos da publicação em livro da pesquisa do professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o reggae pode ter deixado as páginas policiais para ganhar as de cultura. Ainda enfrenta, no entanto, a resistência dos que insistem em se incomodar com o epíteto de Jamaica brasileira atribuído à São Luís.

Saudosistas de um passado que não houve – São Luís nunca foi uma cidade bem servida de livrarias e/ou leitores, e hoje, creio, o quadro é ainda pior – apegam-se a uma Atenas brasileira que a capital maranhense nunca foi, de fato. Nisso também reside o preconceito abordado por Carlão: mais fácil (e bonito) descender da Europa que da África, para quem nisso crê.

Para o autor, entender o reggae enquanto lazer e identidade cultural é libertador, tendo em vista que a maioria dos estudos sobre o negro e a negritude, em geral aborda a herança africana de modo a relegar-lhes à condição de ex-escravos ou descendentes de.

A pesquisa de Carlão alia a abordagem acadêmica – as referências dão um belo catatau a quem quiser se aprofundar no tema – a um trabalho de campo de imersão, que resultou em etnografia capaz de traduzir a realidade daquele momento, em que clubes como Pop Som, Toque de Amor e Espaço Aberto, e radiolas como Estrela do Som, Voz de Ouro Canarinho e Águia do Som davam o tom regueiro à cidade.

Carlão remonta às origens, refazendo o percurso dos primeiros Jimmy Cliff que soaram por estas bandas, passando pelas lendas envolvendo donos de radiola e DJs quanto à exclusividade de determinadas “pedras”, a verdadeira guerra travada por clubes e programas de rádio no sentido de garantir atrativos à massa regueira, quase tão fiel quanto as torcidas de futebol (digo quase por que eventualmente um “torcedor” de determinada radiola podia frequentar uma festa em que outra tocasse).

A necessária reedição de Da terra das primaveras à ilha do amor chega em boa hora, enriquecida, como é padrão da Pitomba!, por vasta iconografia, podendo o leitor perceber melhor a estética do período abordado pelo livro.

Ramusyo Brasil em dose dupla

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

Hoje o professoramigo Ramusyo Brasil tem dose dupla de lançamento: às 20h no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) ele realiza sessão de pré-lançamento de Maranhão 669 – Jogos de Phoder, um “filme de terror político”. A entrada é gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria com meia hora de antecedência.

Na sequência, às 23h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), ele lança O reggae no Caribe brasileiro, fruto de sua tese de doutorado Reggae no Maranhão: música, mídia, poder, defendida em 2011 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP. Sua pesquisa foi contemplada com prêmios de Melhor Tese de Doutorado da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs, 2011) e Melhor Tese de Doutorado da área de Ciências Humanas e Sociais (Fapema, 2012). O livro, financiado pelo edital de apoio à publicação da Fapema, sai pela editora Pitomba.

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

O dilema da UFMA

FLÁVIO REIS*

Próxima de completar 50 anos de sua fundação, a Universidade Federal do Maranhão vive um momento emblemático. A greve de fome desencadeada há mais de uma semana pelos residentes das Casas de Estudantes traz em seu desenrolar toda a radiografia de um dilema antigo. Com uma estrutura administrativa arcaica, a universidade é dirigida de forma extremamente concentradora e, dependendo do ocupante do cargo de reitor, esta característica pode ser drasticamente intensificada.

Depois de uma década sem investimentos por parte do governo federal, os reitores de IFES da era REUNI, viram-se na situação de existência de recursos aliado a estruturas administrativas arcaicas que possibilitavam extrema liberdade pessoal na definição de prioridades. No Maranhão, estado ainda com marcas oligárquicas muitos fortes, o peso dessa cultura política concentradora de decisões encontrou sua tradução histórica no medo da dissenção, no elogio subserviente dos poderosos, na bajulação das chefias. A cultura oligárquica não suporta debates, pois se reproduz em circuito quase fechado, entre atores escolhidos a dedo, com roteiro devidamente marcado. Numa palavra, encontra-se em relação inversa ao ideal democrático e republicano de publicização ampla dos atos e dos processos decisórios. Na era do espetáculo, no entanto, preocupa-se enormemente com a encenação.

A gestão do reitor Natalino Salgado se desenvolveu exatamente apoiada no festival de recursos e na exacerbação da concentração de poderes. Sem uma discussão com a comunidade universitária, pondo e dispondo a bel prazer, com a anuência tácita dos conselhos da administração superior ou mesmo simplesmente desconhecendo-os, o reitor Natalino Salgado executou com maestria todos os traços do nosso velho oligarquismo. Movido pela política de expansão promovida pelo governo federal, ele criou o mito do grande administrador, através de uma construção obsessiva em torno do autoelogio.

No fundo, apenas seguia a cartilha do MEC, acatando tudo. Os planos de expansão foram tocados como diretrizes e obras da administração superior e nunca foram alvo de discussão democrática. O campus universitário foi remodelado e a UFMA inchando, talvez seja a palavra certa, sem que a comunidade fosse ouvida. Tudo se resumiu à vontade do reitor, que passou a viver numa verdadeira ilha da fantasia, cheia de números, percentuais e muita propaganda. Acompanhado sempre de um séquito, encarnou a figura do chefe, aquele que encena uma proximidade com a comunidade que dirige, mas na verdade mantém o controle das decisões com mão de ferro.

Como os estudantes já demonstraram largamente, a luta pela moradia no campus é antiga. A decisão do reitor de dar outra destinação ao prédio que em sua concepção original estava voltada para a moradia estudantil, depois de anos de protelações, ensejou a tomada de posição drástica dos estudantes, iniciada na terça-feira, 26 de novembro, quando o aluno Josemiro Oliveira se acorrentou ao portão de entrada e declarou-se em greve de fome. Em sua posição olímpica, o reitor de início pouco se importou e, em viagem, silenciou, enquanto a assessoria de comunicação limitava-se a registrar que a universidade se pronunciaria apenas após seu retorno, no melhor estilo “volte depois, o dono da casa não se encontra”. Tivemos a partir daí uma nota postada no site da UFMA que apenas reafirmava investimentos feitos na assistência estudantil; o não comparecimento do reitor para presidir a reunião do CONSEPE, na sexta-feira, onde o assunto foi debatido, apesar do espantoso voto contrário de alguns conselheiros; uma curta entrevista do próprio reitor, onde repetia a mesma lengalenga da nota.

No sábado, diante da falta de resposta da reitoria (a não ser a instalação de câmeras no local do protesto, no pátio em frente ao prédio), que simplesmente afirmava não ter sido solicitado nenhum “agendamento”, numa reunião do movimento pela moradia no campus, com a presença também de estudantes não residentes e alguns professores, além de deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e um membro da OAB/MA, que foram convidados a tomarem conhecimento do problema, ficou claro a necessidade de colocar o protesto na rua, pois a situação se agravava a cada momento.

Foi neste contexto, inconformados diante do silêncio irresponsável por parte da administração superior, que os estudantes e professores ali presentes resolveram levar seus gritos e cartazes à porta da casa do reitor. Sob os olhares da vigilância patrimonial da universidade, que monitorava de perto o que estava sendo discutido e saiu para fazer as vezes de segurança privada, todo o protesto foi pacífico e o objetivo foi alcançado. A situação extrapolava os muros da universidade e chegava às ruas. Poucas horas depois, Josemiro passou mal e precisou ser levado para o Hospital Universitário, assumindo seu lugar, igualmente acorrentado e em greve de fome, o estudante Daniel Fernandes.

Na segunda-feira, dia 2 de dezembro, após uma manifestação feita na Avenida dos Portugueses no início da manhã, com o bloqueio da passagem dos carros e o grande engarrafamento ocasionado, o reitor finalmente decidiu entrar em cena, mas não ainda para dialogar com os manifestantes e discutir sua reivindicação, e sim, para falar à imprensa. Na coletiva convocada ainda pela manhã, reafirmou ter feito os maiores investimentos da história da UFMA; disse que não havia desvio de função na aplicação da verba, pois o prédio não teria sido construído com esta finalidade e que a nova destinação (então existia outra, não?), voltada para assistência estudantil, serviria a um número muito maior de pessoas, portanto sua opção se enquadrava no projeto de inclusão social. Por fim, afirmou ter sido o “mais democrata” de todos os reitores, apto a ouvir todos os segmentos da universidade, apesar de dizer, de maneira totalmente extemporânea, que o protesto era fruto de uma radicalidade pela proximidade de eleições sindicais e estudantis, sem nenhuma explicação. Nas respostas foi taxativo ao dizer que não aceitava abrir mão do prédio. Antes de sentar com os estudantes tratou, portanto, de afirmar logo que não acataria a única pauta do movimento: a entrega da casa para a residência estudantil.

Apenas na terça-feira, uma semana depois do início do protesto, o Magnífico se encontrou com representantes das residências estudantis, com a presença de representantes da OAB/MA e da Defensoria Pública da União. Isto após ter realizado, ainda no dia anterior, uma esdrúxula reunião com diretores de alguns centros acadêmicos (?!), escolhidos entre os que lhe são próximos, pois a entrada de vários outros foi mesmo barrada no clima de fechamento e truculência que tomou conta do Palácio Cristo Rei; ter ido ao bispo em comitiva, incomodado com a nota expedida pela Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz, ressaltando que os direitos são geralmente fruto de lutas; e de ter insistido na realização de uma reunião prévia com a Defensoria Pública. Enquanto buscava apoio sem sucesso, dezenas de declarações favoráveis à luta dos estudantes começaram a circular, vindas não só de diretórios acadêmicos, mas de núcleos de estudos, pesquisadores, professores, departamentos e outros, na esfera acadêmica, além de várias manifestações de solidariedade por entidades da sociedade civil.

O resultado da reunião com os estudantes das casas de moradia foi um fracasso, pois a decisão de não entregar o prédio já estava anunciada, uma posição típica de quem não sabe dialogar. Em troca do fim da mobilização, o reitor propôs, então, que outro prédio fosse construído no campus, com a promessa de apresentar um projeto em 60 dias e a partir daí buscar os recursos necessários. Ora, para quem vem sendo levado na conversa há tanto tempo e depois de ocupações de reitoria, termos de compromisso etc., viu tudo virar nada por determinação pura e simples do reitor, como aceitar tal proposta? Como trocar o sacrifício brutal a que vêm sendo expostos seus colegas em greve de fome e todos eles numa mobilização difícil e cansativa, por uma nova promessa de quem teve anos para efetivar uma decisão herdada da administração anterior e do conhecimento de todos, mas sempre criou desculpas e empecilhos para concretizá-la, simplesmente porque tem uma avaliação, exposta sem maiores considerações na coletiva, de que “não é conveniente” a presença permanente de alunos no campus?

O próximo passo do reitor, após o fracasso da reunião, foi convocar uma nova entrevista coletiva para anunciar a sua decisão de baixar uma resolução determinando que a casa para a moradia estudantil seja construída no campus. Ou seja, ele toma mais uma de suas decisões solitárias, impondo o que foi recusado na reunião como forma de “solução” do conflito e vai para a mídia apontar os estudantes como intransigentes. Tal decisão não soluciona nada, apenas agrava e acirra o impasse.

A intolerância às posições divergentes, tão arraigada nesta administração, teve um ponto alto de demonstração num manifesto assinado pela Pró-Reitora de Gestão e Finanças, onde o protesto dos estudantes é desqualificado como fruto de manipulações por entidades de classe e partidos políticos. O texto, postado no facebook no dia 3, pode ser classificado, sem nenhum exagero, de Manifesto da Truculência. Não demonstra nenhuma preocupação com a situação dos manifestantes, inclusive reclamando que um leito do Hospital Universitário estaria sendo ocupado para atender a um “capricho” (pasmem!) de um estudante. Fora isto, e em caixa alta, frisa que a folha de pagamentos pode ter problemas se continuarem os protestos na entrada do campus. A que se deve uma observação tão fora do objeto em discussão? Criar alguma antipatia dos professores, sempre apertados em seus rendimentos, ao movimento? E esta coleção de despautérios termina ainda falando em democracia e diálogo…

A questão que se coloca de forma cada vez mais urgente é se a comunidade universitária ficará refém da intransigência de um reitor acostumado a dar a palavra final sobre tudo ou se colocará firmemente ao lado dos estudantes, levando a administração a tratar o caso com mais realismo, reconhecendo as necessidades urgentes denunciadas e ampliando o acesso à moradia estudantil. É até ridículo afirmar que a UFMA possui mais de vinte mil alunos com matrícula presencial e apenas três casas velhas no centro da cidade como moradia estudantil, atendendo a menos de cem pessoas. Nos campi do interior do estado, os relatos indicam que a situação também é crítica.

Na ação desesperada de alguns estudantes, com todas as dificuldades que enfrentam para se manter na universidade, está a possibilidade de resgatar um mínimo da autonomia tão violentada nos últimos anos. Para isto, é preciso insistir que esta não é uma questão isolada, mas o fruto recorrente de uma maneira de administrar totalmente anacrônica. O impasse em torno da moradia estudantil diz respeito a todos, principalmente pela forma como foi gerado e tem sido encaminhado. Não é possível manter o cotidiano como se não estivesse acontecendo nada, enquanto alunos se acham acorrentados em greve de fome. Lavar as mãos diante disto é sancionar não só o autoritarismo sem freios da administração do reitor Natalino Salgado, mas aceitar passivamente a barbárie que se desenrola hoje dentro do campus da UFMA.

Enquanto a comunidade universitária ainda vacila, Daniel Fernandes foi recolhido ao ambulatório na entrada do campus e um terceiro aluno, Rômulo Santos, iniciou também a greve de fome. Será que vamos esperar o drama se transformar em tragédia?

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA

O desvario autoritário de Natalino Salgado

FLÁVIO REIS*

Estamos assistindo, e o termo infelizmente é este, a mais um episódio de extrema irresponsabilidade e insensibilidade protagonizado pela administração superior da UFMA, sintetizado na posição imperial e intransigente do reitor Natalino Salgado em torno da questão da moradia estudantil, que se arrasta desde o início de sua gestão. Para ser mais preciso, a comunidade de estudantes acertou com a administração que findava, após uma pressão com a ocupação da reitoria por oito dias, o término das obras do prédio próximo ao bairro do Sá Viana. Recursos previstos para 2007 por emenda parlamentar na ordem de 5 milhões e liberados somente em dezembro, quando já havia tomado posse a nova administração, contemplavam com sobras a obra, cuja finalização estava orçada em cerca de 170 mil reais. Desde então, por mais incrível ou bizarro que pareça, a obra nunca foi concluída, a reitoria sempre enrolando os estudantes com evasivas, apesar das ações de pressão que envolveram novamente a ocupação da reitoria.

Nascido do descumprimento de um acordo herdado da administração anterior, o dilema da moradia estudantil, apesar de todo o dinheiro recebido pela universidade nestes últimos anos por conta do REUNI, espelha rigorosamente um modo de pensar a administração da universidade como resultante da concentração de decisões. É uma forma avessa não só à participação, mas, sobretudo, voltada ao esvaziamento dos colegiados superiores, estabelecendo um padrão de gestão, para usar uma palavra cara à atual reitoria, muitas vezes alheio à observância mínima das regras, das normas básicas de funcionamento da própria instituição, mesmo da maneira conservadora e concentradora de poderes como foram desenhados há décadas.

Em resumo, mesmo no modelo herdado, bastante afeito à concentração de poderes na reitoria, Natalino Salgado sempre extrapolou qualquer limite, o que tem ficado cada vez mais evidente nos últimos acontecimentos envolvendo perseguição a professores, a intervenção no COLUN, o total descaso em convocar o CONSUN, chegando mesmo a ter de fazê-lo apenas após intervenções da APRUMA junto ao Ministério Público, o encaminhamento do caso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e outros. Os registros em vídeo das poucas reuniões dos conselhos superiores atestam um comportamento despótico totalmente desconectado do ideal de participação necessário a uma instituição universitária. É a própria figura anacrônica de um coronel decidindo tudo para o puro assentimento de um colegiado dócil até as raias da incompreensão.

Estes são os ingredientes que de novo reaparecem, desta vez de uma forma mais crítica, brutal, no episódio em curso. Inconformados com a destinação do prédio da Moradia Estudantil para outros fins, abrigar mais um órgão da administração, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, os estudantes prejudicados reagiram. Sem nenhuma resposta clara por parte da reitoria sobre um problema grave que se arrasta há tanto tempo, e efetivado o descumprimento da destinação que sempre foi sua, diante da inauguração para outros fins, o estudante do curso de Ciências Sociais, Josemiro Oliveira, tomou uma atitude de risco, acorrentando-se às grades da entrada do prédio e decretando uma greve de fome que já dura três penosos dias. Jogado no tempo, com a ajuda apenas de colegas de moradia, membros da aguerrida direção da APRUMA e do DCE, alguns poucos professores e estudantes.

Isso mesmo! Greve de fome para conseguir uma audiência com o Magnífico Reitor para tratar de um assunto essencial a uma parcela de nossos estudantes, que deveriam estar vivendo em condições dignas e não passando as dificuldades terríveis que vez ou outra são denunciadas ou vêm à tona apenas por força de atitudes quase desesperadas como esta, mas compreensíveis diante da intransigência irresponsável da atual reitoria. Numa manifestação desastrada, como é de praxe, a direção da universidade já chegou a minimizar o número de estudantes atendidos pelo programa de moradia, quando a verdade é que o prédio seria até acanhado frente às necessidades atuais, com a expansão a toque de caixa que estamos vivenciando.

Tivesse a menor sensibilidade e disposição ao diálogo, o reitor deveria, ao tomar conhecimento de tal fato, de onde estivesse, garantir a audiência com os estudantes e evitar a continuidade de um espetáculo terrível, como é ver um estudante se acorrentar em greve de fome dentro da universidade pública para garantir a observância de um direito à moradia estudantil.

Numa circunstância destas é de se perguntar, para que serve um vice-reitor, por exemplo? Para figurar ao lado do reitor e simplesmente assistir a todo festival de desvarios autoritários que temos visto nas gravações estarrecedoras das poucas reuniões dos colegiados superiores, sem dizer uma palavra, esboçar um gesto? Para que servimos nós, professores, chefes de departamento, coordenadores, diretores de centro, se assistimos passivamente à transformação da universidade num território de desatinos administrativos e podemos conviver tranquilamente em nossos afazeres cotidianos com uma situação insana se desenrolando às nossas vistas, à espera de um simples gesto do homem que se considera o “dono da UFMA”.

Esta não é uma questão circunscrita, é a reafirmação continuada e sem freios de uma posição administrativa que está levando o personalismo mais danoso a ditar os rumos da universidade e protagonizando cenas lamentáveis, como foi a expulsão do professor Ayala Gurgel, movida por mero capricho, revertida depois pela justiça em caráter liminar e, agora, esta decisão abrupta, uma rasteira nos estudantes, culminando numa situação que pode ter desdobramentos sérios se ficarmos apenas observando como um espetáculo desagradável.

Diante deste quadro, a administração superior da universidade limitou-se até agora a postar uma nota cínica no site da instituição, onde afirma com todas as letras que “o Reitor tem se reunido sistematicamente com os representantes estudantis e grupos de alunos para ouvir demandas e reivindicações dos estudantes e atendê-los na medida do possível”. Não responde a uma única questão, limitando-se a dizer que a instituição não foi procurada pelos estudantes para agendar nenhuma audiência com a reitoria para tratar do problema e arrolando números da gestão atual, bem ao estilo da eterna propaganda que tanto lhes agrada e engana a sociedade sobre a real situação de desmandos administrativos que é a realidade hoje da UFMA.

Quanto tempo o corajoso Josemiro ficará ainda lá, acorrentado, para que o Magnífico se digne a conceder aos estudantes uma audiência, explicar as suas decisões e discutir uma resolução rápida? Sim, porque o reitor deve explicações, não só aos estudantes, mas a toda a comunidade acadêmica.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA

Outras estratégias no fazer política: o caso Black Bloc

IGOR DE SOUSA*
ESPECIAL PARA ESTE BLOGUE

As táticas Black Bloc são uma demonstração do poder que já existe nas mãos da população, e esse poder é normalmente desconsiderado pela simples existência das chamadas “vias institucionais”. Quando atuamos com ação direta, queremos também chamar atenção a isso, a essa multiplicidade de caminhos para atender as reivindicações sociais e à ineficiência de se utilizar apenas um, especialmente um que é viciado pelo próprio sistema onde está inserido. Queremos demonstrar que política também se faz com as próprias mãos. (Roberto, 26 anos, manifestante anarquista Black Bloc em entrevisa por e-mail à CartaCapital )

Manifestação com tática Black Bloc

Ondas de manifestações varreram o país de cabo a rabo, dando visibilidade ao que nenhum profeta da insatisfação seria capaz de prever. Manifestações a céu aberto que reuniram um contingente inegável de pessoas; o Planalto Central sitiado por manifestantes, câmaras de vereadores ocupadas pelo país, colocando na pauta do dia a inoperância e mediocridade desse setor, governadores andando com o cu na mão por medo de a qualquer momento estar apenas não dormindo, mas perdendo completamente o controle político. Jovens, adultos, trabalhadores, universitários e secundaristas resolveram ir às ruas e mostrar toda uma gama de insatisfações referentes a questões de cunho político, econômico e social. Nesse sentido, vieram à tona insatisfações referentes ao modelo socioeconômico, às formas de representação política e jogo eleitoral pactuado no cenário contemporâneo, o velho dilema da corrupção e a ausência de mecanismos eficazes de controle, bem como desvios de recursos públicos, entre outras.

Na multiplicidade de atos e estratégias, vem ganhando destaque e ataques furiosos na mídia corporativa, sob acusações de uso de táticas violentas que desviam o caráter ordeiro de manifestações pacíficas; destruição de patrimônio público e privado e desacato a autoridades; grupos políticos de viés anarquista que usam uma estratégia denominada Black Bloc, que consiste basicamente em criar um cordão de contenção frente a polícia e sua habitual brutalidade e o enfrentamento e destruição de símbolos do capitalismo e ufanismo através da quebra de agências bancárias, concessionárias e símbolos nacionais como estátuas e placas de sinalização. Coloquemos os pingos nos is e falemos do que realmente interessa.

Quando se deseja falar em violência ou mesmo de ações de caráter violento esquece-se de referir-se a quem ou que pessoa física se expõe a essa situação ou corre-se o risco de repetir-se um discurso que tende, a priori, a desqualificar ações de caráter direto, uma vez que uma instituição por si só é muito mais um símbolo, uma dada forma de expressão, de consecução, forma de raciocinar e produzir, instituição social, sendo os danos realizados por esses grupos, se realmente mensurados, irrisórios, não afetando de maneira significativa a capacidade econômica dessas instituições, mas abalando simbolicamente a força de representação das mesmas ao evidenciar a situação de insatisfação com o sistema econômico e mesmo a crise política que vivenciamos dia a dia. Essa crise se manifesta pela não aceitação da insanidade cotidiana, da felicidade expressa pelo puro consumo, da naturalização da pobreza, da aceitação do modelo falido de mobilidade que temos e escravidão frente ao tempo de produzir, tão habituais no sistema capitalista, onde a performance de destruição de cashs de bancos, vidraças de lojas e relógios públicos muito mais tendem a colocar no debate da vez o valor real das instituições que esses símbolos representam e o jogo a que estamos submetidos.

Outra acusação, fazendo uso de comparações grosseiras e mesmo estereótipos banais, são as de perigo ao sistema democrático ou coisa que o valha. Os anarquistas são apresentados como grupo homogêneo, geralmente irracional, sem qualquer organização, tendentes à violência gratuita e pouco afeitos ao diálogo. Faz-se necessário perguntar: o que representa, dentro do atual padrão de democracia adotada, mais perigo do que as práticas oligárquicas e mesmo descabidas dos políticos profissionais que temos?

Não faltam escândalos para povoarem a memória recente com o mal uso de dinheiro público, obras públicas sem finalidade alguma, escândalos envolvendo corrupção; financiamentos execráveis para campanhas eleitorais, pactos de mediocridade; colocando sob suspeita qualquer nível de controle de órgãos e instituições fiscalizadoras (Ministério Público, Juizados, Controladoria Geral da União, Supremo Tribunal Federal etc.); sem falar no já banalizado descaso com a educação, saúde, pautas fundiárias, transporte público e moradia.

Ganha força nesse cenário de descrença com as formas habituais de fazer política, outra forma de tratar a política, força essa que com radicalidade tem ido para cima e peitado figurões da política nacional como Sérgio Cabral no Rio de Janeiro e Geraldo Alckmin em São Paulo, esfacelando a estabilidade política de outrora e criando contraespetáculos, talvez por isso a ira da mídia conservadora, através de postagens de fotos, gravações de vídeos, contrainformações na rede que visam subverter e sabotar o espetáculo midiático que toda política democrática se tornou. Essa outra forma é caracterizada por um fazer política fluído, instável, criador de zonas de autonomia e ação, como no pensador Hakim Bey no livro TAZ (Zona Autônoma Temporária), se propondo a fazer com ações, no anonimato e rejeitando o conceito de liderança e mesmo de vanguarda, das receitas prontas e da representação política asfixiante preponderantes, atualizando a luta anarquista em busca de formas de democracia direta.

Nessa luta dos que dormem contra os que quase não comem, fica demonstrada a força que temos nas mãos, somos nós os agentes capazes de atos que impulsionam o futuro, não mais um líder iluminado ou uma fórmula pensada a luz de escritos de gabinete, todavia, o canal de diálogo deve ser usado quando necessário, não sendo a estratégia Black Bloc, enquanto tática, sua substituição, mas a canalização de força e energia combativa para outro viés de fazer política. Combatamos nossos verdadeiros inimigos com bombas, atentados, poesias ou mesmo votos, fiquemos firmes, não deixando alguns fingirem que não existimos com tanta tranquilidade.

*Igor de Sousa é estudante de Ciências Sociais na UEMA, um dos Perros Borrachos e integrante da ala jovem do jornal Vias de Fato

Encontro lembra 10 anos do falecimento de Caldeira

Tem início hoje, às 16h, no Auditório Mário Meireles (CCH/UFMA) o encontro Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira, organizado por amigos, ex-alunos, admiradores, gente enfim que, de uma forma ou outra, foi por ele influenciado.

“Ele está completando 10 anos [de falecimento] e um grupo de amigos, ex-alunos, gente que gostava de Caldeira, que tiveram nele uma força propulsora, provocadora, de áreas diferentes, resolveu lembrar seu pensamento, sua influência, neste encontro. De dentro da UFMA tem gente de uns quatro ou cinco departamentos, gente de fora da UFMA e gente que não tem muito a ver com a Universidade. Ali são vários tentáculos. O encontro tenta abordar algumas das áreas por onde ele transitou, com ênfase nas Ciências Sociais, na História, Economia Regional, já que no momento da tese dele ele está muito voltado pra isso, é sobre a formação do parque fabril aqui [Origens das indústrias no sistema agroexportador maranhense (1875-1895). Estudo micro-sociológico da instalação de um parque fabril em região do nordeste brasileiro no final do século XIX, orientado pela Dra. Maria Isaura Pereira de Queiroz. USP, 1989], e a Política, que foram os primeiros escritos dele, ainda da década de 70, analisando eleições locais. O Mestrado foi em Ciência Política falando das interventorias aqui após a revolução de 30″, explica, em depoimento exclusivo a este blogue, o professor Flávio Reis (do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA), um de seus ex-alunos, que coordena a mesa de abertura, “Ciência e provocação: lembranças de Caldeira”, cujo expositor será o professor Flávio Soares (História/UFMA).

José de Ribamar Chaves Caldeira nasceu em Pedreiras/MA em 21 de julho de 1940. “Foi um pioneiro dos estudos de Sociologia e Ciência Política no Maranhão, desenvolvendo, ao longo de décadas, trabalhos variados, enfocando problemas de nossa formação histórica. Professor sui generis, seu conhecimento vasto e diversificado, avesso às especializações estéreis, levou a um estímulo constante ao trabalho interdisciplinar, na contracorrente dos inúmeros nichos de saber que começavam a dar o tom da produção intelectual da universidade brasileira, a partir dos anos 1980”, conforme material de divulgação do encontro.

À “caldeira” sempre fervilhante de ideias que já trazia no nome, Flávio Reis chama de vulcão: “Um cara que era imbatível na conversa. Era um vulcão ambulante ali pela UFMA naquele tempo. Encontrá-lo era uma tremedeira: “éguas, Caldeira! O quê que pode vir?” Invariavelmente, se estivesse rolando uma discussão ele ia logo discordar. O papo de Caldeira era provocar o raciocínio, ainda no final do regime militar. Você tava dizendo uma coisa que parecia óbvia e ele dizia “não, isso aqui não é assim”, e dali gerava toda uma discussão. Isso, pra ele, é que era o exercício do magistério. Ao mesmo tempo ele era o cara que não tinha nada a ver com esse negócio de aula, compromisso burocrático, programação, nota. Ele era de uma irresponsabilidade absurda! Não faltava aula. Era quase o único que vivia exclusivamente para a atividade intelectual. Ao mesmo tempo o sujeito que era o protótipo do camarada que não tinha muito compromisso com a burocracia institucional tinha tudo a ver com a alma da atividade. O que orgulhava Caldeira era, além da família, a biblioteca [particular]”, lembra.

“Caldeira é um professor que exerceu o magistério de uma forma extremamente original e que teve uma influência em muita gente aqui, em gerações. Era um cara que tava no início dessa tentativa de formar um raciocínio daqui que fosse pautado nas ciências sociais tal qual ela estava se desenvolvendo principalmente por São Paulo, que era por onde ele tinha muita atração e por onde o pensamento dele muito caminhou. Ele tem uma referência forte inicial de Sociologia, Formação Econômica do Brasil, da Política. Mas conhecia também muita etnologia. Transitava por áreas. Foi uma das primeiras coisas diferenciais aqui. Imagina, início da década de 1980, encontrar um sujeito que tinha mais de cinco mil livros. Hoje até não é uma coisa de espantar, mas no final da década de 70? O encontro com Caldeira, pra muitos de nós ali na universidade, no início da década de 80, significava sair da infância, de um tipo de estudo que ainda tinha no ensino médio uma referência forte. Ele era quem jogava [o conteúdo] de uma maneira a aproximar dos autores, ele falava como se os autores estivessem próximos, e com o tempo a gente ia pegando também. Então era [os sociólogos] Florestan [Fernandes], Fernando Henrique [Cardoso], Otávio Ianni, Maria Isaura [Pereira de Queiroz], Celso Furtado. Era uma salada de doido”, continua, entusiasmado.

O professor Caldeira chegou a ocupar a cadeira nº. 8 da Academia Maranhense de Letras, cujo patrono é Gomes de Sousa, o que a muitos pode parecer uma contradição “Infamado, muitas vezes tomado pela chama que a paixão do saber é capaz de proporcionar, defendia hoje com ardor o que recusaria com veemência amanhã”, voltamos ao material de divulgação. “Foi num momento em que já não estávamos mais tão próximos. Nunca tivemos nenhum tipo de briga, mas meu tempo de maior proximidade com Caldeira foi até o início dos anos 90. De qualquer maneira nos causou uma estranheza, pois nós fomos formados ali, e um dos alvos era o tipo de reflexão sobre o Maranhão que saía de dentro da Academia”, conta Flávio Reis.

Pergunto se visionário era uma palavra que bem traduziria o saudoso professor. “Até certo ponto. Um cara como Caldeira conseguia perceber na frente uma pasmaceira como a que aconteceu na universidade. Isso ele dizia com todas as letras, que a universidade tava caminhando pra um tipo de exaltação dessa formação burocrática, e que a jogada não era essa. A jogada era, como ele dizia, viver na fronteira, misturando coisas de um lugar, de outro. Não foi esse tipo de pensamento que vigorou aí”.

Confira a programação do encontro.

PENSANDO NA FRONTEIRA: LEITURAS CRUZADAS DE RIBAMAR CALDEIRA

Auditório Mário Meireles (CCH/UFMA), 17 a 19 de junho de 2013

17, 16h: Ciência e provocação: lembranças de Caldeira
Expositor: Flávio Soares (departamento de história/ UFMA)
Coordenador: Flávio Reis (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

18, 16h: Ciências Sociais e História: duas paixões
Expositores: Claudio Zannoni (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA), Mirtes Santos Barros (departamento de artes visuais/ UFMA) e Manoel Barros Martins (departamento de história/ UFMA)
Coordenadora: Sandra Nascimento (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

18, 18h: Oligarquias e sistemas políticos
Expositores: Flávio Reis (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA) e Paulo Rios (Faculdade São Luís)
Coordenadora: Ilse Gomes (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

19, 16h: Economia regional e mudança social
Expositores: Saturnino Moreira (economista, professor aposentado da UEMA) e Moacir Feitosa (departamento de economia/ UFMA)
Coordenador: Marcelo Carneiro (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

19, 18h: O professor e o acadêmico
Expositores: José Ferreira (departamento de comunicação social/ UFMA) e Benedito Buzar (jornalista e historiador, presidente da Academia Maranhense de Letras)
Coordenador: José Reinaldo Ribeiro Barros Júnior (economista, IBGE)

De carinhos e conflitos

Não sei se chamo Igor de Sousa de amigo-irmão ou de filho. Ambos os parentescos caem bem: já o tinha visto umas poucas vezes, em geral por conta de nossa atuação em organizações de direitos humanos no Maranhão, e em meados do ano passado DP, como o chamo carinhosamente, veio estagiar na Cáritas Brasileira Regional Maranhão, onde além de trabalharmos, conversávamos muito sobre música, literatura, cinema e artes em geral, sempre um aprendendo com o outro.

Deixei a Cáritas semana passada e ele permanece por lá, onde espero que tenha vida longa, pois reconheço neste estudante de Ciências Sociais um belo quadro para as lutas, não só naquela entidade.

Com nossas meninas temos também bebido um bocado, descobrindo e redescobrindo botecos, bares, calçadas, shows, churrasquinhos e nossa cozinha, onde ele sempre pede para ouvir Celso Borges, Itamar Assumpção, Jards Macalé, Miles Davis e Ferreira Gullar, entre outros. Pedidos raros e atendidos na medida do possível, a depender do clima da farra e do resto da galera que porventura nos acompanhe.

O apelido “depê” vem de um endereço de e-mail que ele ainda hoje usa, embora já disponha de um e-mail “sério”, “adulto”, feito, aquele, quando ele tinha mais ou menos a metade da idade que tem hoje, 22 bem vividos e estudados: desajustado underline punk arroba hotmail ponto com.

Mas comecei a falar dele e quase me perco por conta de um texto seu que recebi hoje. Queria minha ajuda na edição e para fazer repercutir o assunto. Já saiu no site da Cáritas/MA, mas roubo-o ao “blogue cachorro”, como ele carinhosamente chama este espaço, especialistas que estamos em reeditar velhas gírias, este blogue que divide a honra de sua leituratenta apenas com o Socialista Morena. “Quando encontrar a Cynara [Menezes] novamente, diga-lhe que só leio dois blogues: o teu e o dela”, pediu-me certa vez. Quando encontrá-la novamente ela já saberá.

Sobre o texto abaixo, DP demonstra uma sincera indignação: “como é que um cara desse pode ser ofensivo? Ele é menor que eu”, revela. “O cara tá com mais de 30 boletins de ocorrências nas mãos e não acontece nada! É por isso que eu estudo, para ver se consigo ajudar esse povo”. Qual professor Raimundo para Ptolomeu, penso: “eu queria ter um filho assim”.

“A GENTE NÃO SABE O QUE TÁ ACONTECENDO”

Vítima de prisão irregular e ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro, liderança quilombola, concedeu entrevista coletiva na manhã de hoje (4), na sede da CPT-MA

TEXTO E FOTO: IGOR DE SOUSA*

Em uma coletiva de imprensa realizada na manhã de hoje (4), na sede regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT-MA), foi exposto que dois policiais militares encarceraram de forma ilegal o líder quilombola José da Cruz Monteiro (51), da comunidade de Salgado, área que se encontra em processo de titulação via Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),  no município de Pirapemas/MA.  A prisão ocorreu devido à morte de um caprino que invadiu a sua roça. José da Cruz já havia feito vários boletins de ocorrência na delegacia local para providenciar soluções sobre a invasão dos animais à sua propriedade, não obtendo qualquer resultado por parte da polícia.

Em 31 de janeiro, após abater o animal que estava em sua pequena plantação, foi à delegacia comunicar o feito e solicitar a retirada do mesmo. Porém, após relatar o fato, foi preso pelos policiais que ali estavam de serviço. A prisão foi feita sem qualquer flagrante, sem qualquer mandado de prisão. Ao ser preso, o líder quilombola recusou-se a receber algemas, sendo jogado à força em uma cela, havendo incitação por parte dos policiais para que os presos espancassem o referido senhor. Após horas sem comer nada, passando o dia apenas com o gole de café que havia tomado em casa, foi transferido para a delegacia de Itapecuru-Mirim. Lá foi comunicado ao advogado Diogo Cabral, assessor jurídico da CPT-MA, que a situação de José da Cruz Monteiro era de depoente, configurando completa arbitrariedade aos fatos ocorridos em Pirapemas. Durante o período em que esteve preso, José da Cruz teve sua casa invadida e vasculhada por policiais. Ele relatou ainda que sua casa e a de seu cunhado estão ameaçadas de demolição por Ivanilson Pontes Araújo, proprietário da área.

O que se percebe pela recorrência dos fatos, seja no que tange à quantidade de boletins de ocorrência registrados pelo senhor José da Cruz Monteiro, sem qualquer providência por parte da polícia, seja pelo envenenamento de animais e água potável na comunidade Salgado, ocorrido em 2011 e sem resposta até o presente momento, é uma total complacência do governo do estado do Maranhão quanto à situação de violência e conflito no campo referente às comunidades quilombolas e camponesas. Há violência cotidiana contra essas comunidades, havendo inclusive a existência de grupos armados no interior do estado. Quanto aos órgãos responsáveis pela titulação, há lentidão e descaso. Hoje o Incra conta com mais de 300 processos aguardando titulação, contando com um quadro ínfimo de funcionários para os referidos trabalhos. A própria comunidade de Salgado é um exemplo notável dessa morosidade: já titulada certificada pela Fundação Cultural Palmares (FCP), a área aguarda titulação pelo Incra. O processo está parado desde 2000.

Outro dado alarmante é tratamento dado pelas autoridades estaduais. No ano passado, a delegada geral agrária foi categórica ao afirmar que no Maranhão não há conflitos no campo, havendo apenas conflitos entre vizinhos. Será?

Somente no último semestre do ano passado foram vitimadas quatro pessoas: duas lideranças sindicais e dois indígenas.

E assim segue a vida real de trabalhadores rurais na terra do faz de conta do governo Roseana Sarney.

Ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro (C), entre outro morador de Salgado e o advogado Diogo Cabral (D)

 

ENTREVISTA: JOSÉ DA CRUZ MONTEIRO

Qual a situação da sua comunidade? Lá, a nossa situação nós não aguenta, é muita escravidão. Muita injustiça. Ele [Ivanilson Pontes] coloca os vizinho [a reportagem optou por manter a transcrição da entrevista o mais próximo possível da fala de Monteiro] da gente contra a gente para matar o que é nosso. Ele coloca a própria polícia de Pirapemas contra a gente.

De quem o senhor fala? Quem persegue vocês? São três irmãos que vivem nos perseguindo. Eles são filhos de Moisés Sotero Araújo. Ele se diz proprietário das terras lá em Pirapemas. Quem afronta a gente lá é o Ivanilson Pontes Araújo.

Há situação de conflito na sua comunidade? Existem ameaças de morte? Ameaças às pessoas da comunidade? Como ocorrem? As ameaças que acontecem lá são com nossas criações e com a gente. Ele ameaça nós de morte e mata nossas criações para não ter o que comer. Ele mata e manda os outros matar, manda os capangas.

E a polícia? O que faz? A polícia sempre protege ele [o proprietário]. A gente se queixa e a polícia só protege o proprietário. Ela [a polícia] é bandida, só protege o proprietário. Diz que não pode fazer nada porque tem outras autoridades no conflito.

Como aconteceu a sua prisão? Eu fui preso pelo delegado de Pirapemas, pelo doutor Ricardo porque eu queria terminar de assinar o boletim de ocorrência. Nessa hora ele disse que eu estava preso, que eu era um bandido. Me pegaram, me jogaram para um bandido numa cela. Nesse dia eu passei o dia com um gole de café. Eu vinha registrando boletim de ocorrência, era a quarta vez que os bode entrava na minha roça. Na quarta vez eu matei. O dono não tira, eu tive que matar. Eu fui preso em Pirapemas e fui levado para Itapecuru para ser preso lá. Eu matei o bode para pesar a carne e vender para esperar o Ivanilson para ele pagar o meu prejuízo. Mas ele já tinha dado a carne do bode para a polícia. Eu saí jurado de lá, prometeram derrubar minha casa e a do meu cunhado hoje. Disseram que vão derrubar a do meu cunhado e depois a minha. A gente não sabe o que tá acontecendo, tá marcado pras 10 horas. Disseram que em dois dias vão me tirar de lá, de um jeito ou de outro.

*IGOR DE SOUSA é estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), estagiário da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e membro do jornal Vias de Fato.

Onde o reggae era a lei

Prefácio do livro Onde o reggae é a lei [Edufma/ Pitomba, 2013], de Karla Freire.

OTÁVIO RODRIGUES

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da músi­ca negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de pri­meiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dança­rinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o es­quema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os super­graves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas su­biam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – oshomens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tam­bor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar re­ferência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Estou prospectando a terra dura da memória atrás da essên­cia desse primeiro encontro, já que alguns episódios me colocaram em delírio, desconfiado de estar vivendo uma experiência supra­dimensional. Ungido pelas baixas frequências e exposto demais ao sol, cheguei mesmo a pensar que tinha aberto um portal ou mer­gulhado num túnel fantástico, absorvido num vórtice do tempo. Como um Jurassic Park ou uma aventura de Júlio Verne, me vi ali, no meio dos dinossauros e atravessando a lava dos vulcões, perdido nos horizontes de uma Jamaica já extinta.

Pois estávamos no final dos anos 1980, quando o reggae ain­da era meio cult em São Paulo e no Rio, restrito a alguns círculos do movimento negro e entre os surfistas, que voltavam de viagens internacionais com as mochilas derramando discos e fitas. Tirando a Bahia, o grande público achava que a coisa se resumia a Bob Mar­ley, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Gilberto Gil e pronto – e quase sempre associada à ideia de verão e praia, esse lugar comum e equivocado. Ora, dava até tontura descobrir que o hit parade do Maranhão igno­rava a cobertura nacional de rádio e tv e, mais ainda, que também fora da Jamaica o reggae podia ser coisa dos mais pobres e dos mais pretos, e não apenas um lance legal dos entendidos e da juventude bronzeada.

Mil novecentos e tape-deck

Naquela ocasião, infelizmente, não haviam sido ainda conce­bidos este trabalho de Karla Freire nem o que dignamente lhe pre­cede e referencia, Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor, do pro­fessor Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Juntas, essas obras são o ponto de partida para qualquer estudo, reportagem ou tentativa de se compreender ou explicar o reggae no Maranhão – se é que isso é mesmo possível.

Com dedicação, talento e um gosto chamativo pelo objeto de sua pesquisa, Karla puxa a história do começo e faz sobrevoos inéditos nos acontecimentos dos últimos vinte anos, comprovando o contínuo processo de mudanças. Demonstra que, do esforço ou participação de todos os envolvidos – incluindo o público, natural­mente –, resulta algo original e único que não corresponde ao ideal de qualquer um em particular. Parece ser esse o bicho vivo do qual estamos falando, a tal Jamaica Brasileira, uma entidade que se reno­va a cada temporada, pra não dizer diariamente.

Como é comum nas epopeias, há controvérsias sobre a gê­nese. Foram as ondas de rádio trazendo músicas do Caribe? A si­milaridade com os ritmos dançantes da ilha? Alguém que tinha os discos e começou a tocar? Ou uma combinação de tudo isso? Se­gundo o cantor Jackie Brown, no meio dos anos de 1970 a produtora jamaicana Sonia Pottinger (1931-2010) – uma das raríssimas representantes femininas no ofício – colocava seus lançamentos nas mãos de marinheiros, convicta de que alcançariam outras praias. Teriam alguns desses pacotes de bolachinhas chegado à costa norte brasileira? O fato é que Riba Macedo, tido como um dos pioneiros do Maranhão – para muitos, o próprio Adão –, comprou seu pri­meiro disco de reggae no comércio informal das calçadas de Belém do Pará, um dos portos brasileiros de maior comunicação com o Caribe. É um ponto que ainda merece pesquisa e, de pronto, suscita uma pergunta: por que a moda pegou primeiro no Maranhão e, só mais tarde e por tabela, no Pará?

Mas, além de possuir discos exclusivos e insistir em tocá-los nas festas, o radioleiro Riba parece ter se envolvido ainda em outro acontecimento crucial: o primeiro tape-deck, em 1975. Com esse equipamento, podia copiar os discos para fitas cassete e partilhar as músicas com os amigos, vários deles radioleiros também. Ele con­ta ter surpreendido muita gente com a novidade: “Uma vez, numa vesperal lá no Filipinho, veio um moço forte, falou: ‘Tu é que é Riba Macedo? Ô, rapaz, o que você tem de novo aí, diz que tem um jogo de luz, um tal de trepideque…’ Não, rapaz, é tape-deck! ‘Como é que é isso?’ Peguei uma fita e botei pra funcionar. Comprei em Belém. Ninguém tinha.” Como se sabe – e a pesquisa de Karla não deixa es­capar –, o cassete reinou nas festas e programas de rádio ao longo da década de 1980, até a chegada do mini disc (MD). Guarnecida por uma cápsula plástica que lhe protegia do pó dos terreiros e quintais da periferia de São Luís, executada por um sistema imune a solavan­cos e quedas de energia, a fita foi o meio físico da consolidação do reggae no Maranhão.

A era do breggae

Outro advento técnico importante é o da radiola de mesa, que colocou os djs de frente para o público e lhes abriu caminho para performances mais entusiasmadas ao microfone, inclusive com alguma participação sobre as músicas. A cena reggae do Maranhão virou do avesso. O primeiro a abandonar o móvel vertical foi Natty Nayfson, em meados de 1995. Infelizmente, um dos talentos mais explosivos dessa nova configuração, Antônio José Pinheiro Silva, o “Lobo”, morreu em 1996, não tendo tempo de desenvolver técnicas mais elaboradas e, quem sabe, deixar um legado mais contundente. O fato é que, a despeito de seu papel revolucionário, a radiola de mesa não produziu djs como os do estilo jamaicano, que dominam o microfone e têm realmente o que dizer, a ponto de se tornarem grandes artistas e lançarem discos como intérpretes.

Antonio José, o "Lobo" em ação
Antonio José, o “Lobo” em ação

O privilégio estava reservado a cantores como Dub Brown, Toty, Rosy Valença, Ronnie Green e outros dessa geração, que ir­rompeu no século 21 em mais uma onda de mudanças patrocinada por um equipamento: o computador. Ora, em pequenos estúdios adaptados na garagem ou no quarto dos fundos, com o auxílio de um teclado, um microfone e um violão – afora algum talento –, dá pra fazer melôs parecidas às dos gringos. Parecidas mesmo, porque esse novo cancioneiro flutua em um mar de referências, fisgando linhas melódicas que remetem aos clássicos das radiolas e arranjos que o aproximam do brega. Apesar dos mimetismos, não há similar no mundo: esse “breggae” feito hoje no Maranhão é mesmo uma coisa de louco.

Mas é possível contar tudo isso de outro jeito, retomando o episódio de Riba Macedo nas calçadas de Belém e, daí, as aventuras de afamados djs e colecionadores como ele. Porque a lavra dessas pedras é uma ciência e possui, também, sua arqueologia – as levas de discos compradas no Rio e em São Paulo, as que eram trazidas ou enviadas da Europa, a garimpagem nos baús de velhas lojas e estú­dios de Kingston. Dá pra percorrer a linha do tempo observando a evolução na maneira de dançar ou no modo de vestir e, de novo aí, resgatar os acontecimentos e personagens que fizeram essa história. A obra de Karla Freire, nesse sentido, é um tesouro. Certamente, vai inspirar muitos outros estudos sobre o tema.

&

Otávio Rodrigues foi o apresentador do primeiro programa de reggae no rádio brasileiro. É uma enciclopédia ambulante do assunto e um dos jornalistas que inspiram este blogue (pena o Bumba Beat nunca mais ter sido atualizado).

Onde o reggae é a lei é a adaptação da dissertação que Karla Freire apresentou ao Mestrado em Ciências Sociais da UFMA, onde já havia se formado jornalista e se especializado em Jornalismo Cultural. O nome da editora Pitomba, de seu marido Bruno Azevêdo, aparece lá em cima por que são dele a edição, pesquisa de imagens e projeto gráfico.

O livro terá mini-turnê de lançamento em São Luís entre amanhã (25) e segunda-feira (28). As noites de autógrafos em outras capitais já estão sendo armadas. Confira a programação na Ilha:

Divulgação

Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Cinema Pela Verdade em São Luís

Começa amanhã (19) em São Luís a mostra Cinema Pela Verdade, que debaterá a ditadura militar brasileira após a exibição de documentários sobre o período. Suas sessões ocuparão auditórios na UEMA, UFMA e Campus Centro Histórico do IFMA. Programação completa na página da SMDH na internet (no link, sinopses e horários das sessões, seguidas de debates e gratuitas). Abaixo, trailers de Cidadão Boilese, Condor e Hércules 56, documentários que compõem a mostra.

Amanhã (19), às 8h30min, estarei na UEMA para, após sua exibição, debater o filme Condor. Entre os debatedores da mostra, em outras sessões, estão o advogado Luis Antônio Câmara Pedrosa e o jornalista Emílio Azevedo. A curadoria local da Cinema Pela Verdade é de Andressa Brito Vieira, estudante de Ciências Sociais da UFMA.