Um sábado chuvoso e choroso

Foto: Rose Panet

 

Apesar do clima chuvoso, um bom público prestigiou a apresentação do Instrumental Pixinguinha, ontem (24), no Auditório Itapecuru do Centro Cultural Vale Maranhão (Rua Henrique Leal, 149, Centro).

João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Raimundo Luiz (bandolim), Domingos Santos (violão sete cordas) e Nonatinho (pandeiro) tinham, todos, diante de si, o Caderno de partituras – Choros maranhenses, organizado pelo flautista Zezé Alves, membro emérito do grupo, também professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), em cujos corredores o Pixinguinha se formou ainda no final da década de 1980.

“O único da formação original é Domingos. Ele costuma dizer que é o dono do conjunto”, gracejou Juca, mantendo a marca bem humorada das apresentações do grupo. Mais adiante, brincou com a plateia: “vocês já repararam que tem dois caladinhos aqui, não é? Mas eles vão falar já já”, disse, referindo-se a Domingos e Nonatinho, no que o violonista retrucou: “tu já falou o que eu ia falar”, referindo-se ao fato de Juca ter feito os comentários anunciando o choro Miritibano, de sua autoria, a segunda da apresentação. O título é o gentílico de Miritiba, antigo nome do município de Humberto de Campos, onde o autor nasceu.

João Neto, Juca e Raimundo Luiz revezavam-se nas explicações entre as músicas, ora comentando autorias, ora contando histórias sobre as composições, determinados contextos, dando um ar didático ao concerto. “Muito obrigado pela presença de todos vocês, apesar do clima chuvoso”, agradeceu Juca. Neto emendou: “é um sábado chuvoso e choroso”.

A apresentação do Pixinguinha, penúltima da temporada 2017 do programa Pátio Aberto, do CCVM (provavelmente transferida de lugar em virtude da chuva), foi aberta com Nova república, do saudoso advogado e cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, também gravado pelo grupo em Choros maranhenses [2006]. Se o Regional Tira-Teima é o mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, o Pixinguinha foi pioneiro: seu disco de estreia foi o primeiro inteiramente dedicado ao gênero por estas plagas.

O Caderno de partituras por que se guiavam ontem é uma espécie de ampliação do repertório do disco, este composto por choros autorais e choros de autoria de mestres do gênero, já então saudosos, caso por exemplo de Um sorriso, de autoria do rosariense Nuna Gomes.

Chorinho da Beatriz (Domingos Santos) “foi a música com que participamos da Mostra de Música Sesc Onde Canta o Sabiá, apesar de ser uma música instrumental”, revelou João Neto. Na sequência foi a vez de Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense). “Cearense era sobrenome mesmo, ele era maranhense”, riu Juca, cujo cavaco evocava uma viola, dando certo ar caipira à execução da música. No meio dela ele soltou um “vocês!”, encorajando o público a cantar o refrão: “não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão”. “Com um coral desses, a gente nem precisa de cantor”, elogiou o cavaquinhista.

Após tocarem Viajando para Carajás (Zé Hemetério), Juca revelou terem alterado a ordem do set list. “Era para termos tocado a que vamos tocar agora, os nomes das cidades são até parecidos”, fez a plateia rir, ao anunciar De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) e perguntar para João Neto: “de quem é essa música?”, ao que o flautista respondeu, rindo também: “de titio” – para quem não sabia, sim, João Neto é sobrinho de Josias Sobrinho.

Juca derreteu-se em elogios ao choro Elegante (Raimundo Luiz), cheio de nuances. “É uma das que eu mais gosto de tocar”, emendou João Neto, no que o cavaquinhista relembrou o Prêmio Universidade FM de melhor música, conquistado pela composição em 2006, ocasião em que o quinteto recebeu também o troféu de melhor disco instrumental. Cabe lembrar que durante muitos anos foi o Pixinguinha também o responsável pelo espaço dedicado ao choro na noite ludovicense, quando ocupavam semanalmente o palco de um bar, hoje extinto.

Ontem ao luar (Catulo da Paixão Cearense) antecedeu Lembro-me de você assim (Juca do Cavaco). “Essa música eu fiz quando a gente estava gravando o disco. Houve uma ocorrência na família, meu sogro faleceu. Era uma pessoa animada, dançante, eu sempre lembro dele desse jeito”, revelou o autor. “É difícil falar mesmo”, completou, a emoção travando a garganta, o sentimento percebido pelo público em comunhão.

A sequência formada por Candiru (Zezé Alves e Omar Cutrim) e Choro axixaense (José Maria Fontoura) garantiu também um passeio pela brejeirice e malemolência do lelê e do bumba meu boi de orquestra, manifestações culturais típicas da região do Munim, particularmente os municípios de Rosário e Axixá, num diálogo saudável entre o choro e estes ritmos.

Catulo da Paixão Cearense ainda voltaria ao repertório, com Flor amorosa (parceria com Joaquim Callado), que antecedeu Chora cavaco (Juca do Cavaco). Antes de tocarem a saideira, o grupo mais uma vez agradeceu a presença do bom público. João Neto anunciou: “para fechar, uma de Cesar Teixeira. Esse choro é a cara dele, enrascado, cheio de passagens harmônicas e melódicas complexas”. Terminaram a noite, após pouco mais de uma hora de apresentação, com Conversa fiada.

A certa altura, Juca havia gracejado que o grupo havia ensaiado seis meses para aquela apresentação. “Seis meses e um dia, não vamos mentir por um dia”, emendou João Neto, também rindo. Brincadeiras à parte, o fato é que poucas vezes, por aqui, o choro foi tratado com tanto esmero, em execuções impecáveis. Uma apresentação como a de ontem demonstra que também em se tratando do gênero o Maranhão não deve nada a outras praças brasileiras.

Chorografia do Maranhão: Nonatinho

[O Imparcial, 6 de julho de 2014]

Natural de Penalva, professor da Escola de Música e pandeirista do Instrumental Pixinguinha, o percussionista Nonatinho é o 35º. Entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Raimundo Nonato Soeiro Oliveira aparentava certa timidez quando a chororreportagem o encontrou na porta da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Carregando o case com o pandeiro, o músico convida o primeiro chororrepórter a entrar e sentar. A tevê da recepção transmite Bélgica e Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e instrumentista e entrevistador dividem educadamente as atenções entre a partida e a conversa – não necessariamente nessa ordem.

No papo, Nonatinho, como é mais conhecido o percussionista do Instrumental Pixinguinha, professor da EMEM há 12 anos, revela ter lido algumas edições anteriores da série Chorografia do Maranhão, cuja 35ª. edição traria seu depoimento. O chororrepórter tranquiliza-o contando causos de entrevistas anteriores, informando-lhe que a conversa tem um caráter completamente informal.

Mas o penalvense nascido em 9 de julho de 1967 já parecia ter perdido totalmente a timidez. Com a chegada do restante do time, diga-se, o outro chororrepórter e o chorofotógrafo, o professor conduziu todos ao salão Leny Cotrim Nagy, o mesmo em que a série conversou com Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], seu colega de Escola e Pixinguinha.

Filho de José Oliveira, comerciante e músico, e da dona de casa Maria José Soeiro Oliveira, Nonatinho é o único homem entre os cinco filhos. Já apresentou monografia ao curso de graduação em Música da Universidade Federal do Maranhão. “Estou concluindo uns créditos que fiquei devendo”, disse ele, que pretende publicar o trabalho.

No dia seguinte à entrevista, pelo chat do facebook, ele complementou-a, destacando a importância da série e de Deus – é evangélico – em sua vida: “Hoje sou evangélico e tudo o que faço me sinto na obrigação de agradecer a Deus. Inclusive por um bom período atuei como ministro de louvor. Não fiz isso na entrevista. Como esse é um registro que vai permanecer na história do nosso estado não gostaria de perder a oportunidade de falar dEle”, registrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Teu pai sustentava a família com música? Eu não sei dizer. A partir de quando eu tinha uns cinco anos, ele sustentava com um comércio. Quando se desfez a história dos conjuntos, cada colega procurou seu rumo, uns foram ser alfaiates, sapateiros, comerciantes. Ele foi ser comerciante e também trabalhar numa terra herdada, ele foi tomar conta. Ele ainda chegou a trazer algum sustento, mas em épocas festivas, carnaval, ele parava o comércio para se dedicar um pouco à música. A vida dele era basicamente isso, ele gostava muito de pescar, chamava o pessoal, passava três dias, vinha, tudo ele comercializava.

Você lembra, na infância, de como era a atmosfera musical em tua casa? O que se ouvia? Geralmente essas festas que ele fazia eram de promessa. Ele gostava muito de fazer o Baile de São Gonçalo, tambor de crioula. Sempre que ele fazia, ele fazia o barraco ao lado e fazia o baile. Eu ouvia o que as bandas tocavam na época, forró, sempre instrumental, não tinha nada cantado, marchas. Depois eles começaram a tocar a própria discoteca [a disco music], imitando as radiolas.

Você acha que o fato de seu pai ser baterista e percussionista influenciou no teu fazer musical ou você só veio se interessar por isso depois? Essa influência foi total. A minha mãe tinha um problema muito sério, os primeiros filhos dela, ou ela abortava ou, quando nascia, geralmente com dois anos, no máximo, morriam. Eu sou de um grupo que entre três, um morria, dentre esses três eu escapei. Eu via que meu pai lutava muito comigo nesse sentido, de me mostrar as coisas, me mostrar a vida. Quando eu me entendi ele me levava pra festa, eu tava o tempo todo do lado dele. Quando ele ia tocar fora, ele levava, ele tinha a preocupação de tentar passar. Quando a festa ia ser lá, os colegas dele deixavam os instrumentos, então o meu brinquedo passou a ser esses instrumentos. Às vezes na própria quitanda ele montava a bateria e ficava tocando, o pessoal gostava de vê-lo tocando, e ele tocava muito bem, diziam isso. Hoje essa coisa de apreciar, de ver músico tocar, de ver performance, vai muito [da herança] dele. Depois, passado um tempo, ele viu que eu precisava estudar, eu tive que ir para a cidade, Penalva.

Você morava num povoado. Como era o nome? Bom Jesus, que era [onde ficava] a terra dele com os três irmãos.

Essa lembrança de você ir para festas acompanhando teu pai, você tem desde que idade? Acho que aos oito anos. É aquela coisa de garoto que vai sendo levado e de repente está ali envolvido.

Então sempre houve apoio por parte de teus pais para que você seguisse o ofício da música? Sim, da parte do meu pai. A minha mãe não gostava muito, pela própria questão, pra ela não era uma profissão, não trouxe muita coisa para ela, mesmo como esposa, tanto que quando ela viu que eu queria estudar música, ela disse “será que tu vai seguir o mesmo caminho do teu pai?”, aquela coisa. Ele mesmo, por essa questão de não ter aquele sucesso, dizia “vai depender de você, você tem outras opções”. Ele tinha um filho do primeiro casamento, esse filho fez concurso para a marinha, era enfermeiro, vivia bem. E ele vivia me apontando: “olha, segue o exemplo de teu irmão, teu irmão tá bem”. A vontade dele mesmo era que eu fosse militar.

Você chegou a tocar com ele nessas festas? Não cheguei a tocar. Cheguei a dar umas canjas, ele me botava, em determinado momento, ele dizia “olha meu filho aí”, e os músicos gostavam, ficavam elogiando.

Você tocava o quê? Pandeiro? Bateria. Tem uma coisa interessante que eu acho que marcou muito, era um senhor que tocava sempre do lado dele, muito bem. Ele ia muito lá pra casa, era muito amigo de meu pai. Quando era festa ele era o primeiro a chegar. Não consigo lembrar [o nome dele], eu era muito garoto. Eu lembro dessa pessoa, tocava muito bem, ele tinha uma forma, meu pai dizia [que ele] “jogava muito bem”. Ele não falava tocar, falava jogar.

Você chegou a estudar música em Penalva ou só depois de vir à São Luís? Quando eu saí de lá, eu perdi totalmente o contato com música. Fui mesmo [para a sede de Penalva] para estudar, morar com um padrinho, foi mesmo a questão de estudo, não tive mais oportunidade. Mas eu ficava assim, aquela coisa tava dentro do sangue. Quando eu saía do colégio, no meu caminho tinha uma casa que tinha um conjunto, eles ensaiavam. Às vezes eu saía da escola e ficava ali em frente ouvindo. Mas também não passava daquilo, não cheguei a me aproximar. Passei aquele tempo todo mais dedicado aos estudos, recuperar o tempo perdido. Eu só fui estudar mesmo a partir dos nove anos. Lá no interior as escolas não tinham muita base. Aí perdi totalmente o contato. Ele [seu pai] também deixou mais de fazer festa. Com 14 anos eu voltei pra lá [para o povoado Bom Jesus], e já fui ter outra vida, na roça mesmo. Passei aquela fase de adolescência, que eu não queria mais ficar, queria voltar para casa [dos pais]. Só vim retomar [o contato com música] quando eu vim pra cá [para São Luís].

Quando é que você veio para cá? Eu vim com 17 anos. A oportunidade que eu tive de vir para cá para São Luís foi o seguinte: na época tinha uma juíza, ela ia medir as terras e papai pegou amizade com essa juíza e um advogado. Uma dessas vezes, eu indo para lá, levar alguns documentos, ela disse: “rapaz, tu não quer ir para São Luís? Não quer trabalhar lá em casa? Você pode trabalhar de vigia, estou precisando de alguém”, ela vivia procurando. Eu disse “olha, vou falar com meu pai, se ele aceitar…” Aí fui falar com ele, ele disse “tu que sabe”. Quando ele disse “tu que sabe”, no outro dia eu já estava lá com a bolsa e foi uma nova fase. Eu via a possibilidade de retomar meus estudos. Mas não pensando na questão musical.

Você disse que passou um tempo afastado da música. Você chegou a ter outra formação, que não a musical? Não, só trabalhando lá mesmo. A princípio foi como vigia mesmo, depois eu comecei a trabalhar com documentos, levava documentos no tribunal eleitoral, ela era juíza eleitoral. Eu fiquei como uma pessoa de ir resolvendo as coisas, e morando na casa dela.

E a partir de quando você se interessou novamente pela música? Outra coisa interessante. Eu já estava querendo trabalhar, arrumar outro tipo de trabalho, procurar uma independência maior, até em termos de moradia, ajudar os pais. Aí um dia eu vi no jornal um anúncio que um escritório estava precisando de pessoas. Eu peguei o dinheiro, sempre fui de guardar, aí saí para comprar uma beca bacana, calça social, sapato social, para ir ao escritório. Na época era a Mesbla [extinta loja de departamentos], era ali na Rua Grande. Quando eu chego lá, eu não sei por que, no segundo andar, bem na prateleira, a primeira coisa que deu na vista foi um pandeiro, um pandeirinho vermelho. A princípio eu pensei que era decoração. Uma loja de roupa, vendia outras coisas, estava lá. Chamei o vendedor: “vem cá, esse instrumento aí está à venda?” Aí ele deu o valor. O que vocês acham? Eu comprei a roupa ou o pandeiro? [risos]. Comprei o pandeiro!

Aí você nem foi ao escritório? Nem fui. Aí depois bateu a depressão. O quê que eu vou fazer com isso? Aí era época de eleição, nessa época os candidatos pegavam os ônibus, levavam o povo em caravanas para votar. Eu fui numa, levei o pandeiro. Quando o ônibus parou bem em frente à casa de meu tio, sempre muito rígido, da Sucam [a extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão do governo federal], mandava estudar, queria ver as coisas melhores. Quando ele me viu chegar com o instrumento, que eu fui cumprimentá-lo, ele disse: “ah, tu tá nessa bagunça?” Depois eu fui à casa de meu pai, pensei que ele também ia falar algo, ele disse: “agora você vai ser um músico, comprou seu instrumento”. Aquilo foi tão forte em mim que eu disse “rapaz, agora eu vou estudar”. Foi um incentivo. Voltei para São Luís, mas sem saber onde estudar, onde procurar. Um belo dia eu vi um jornal falando da Rita Ribeiro [cantora, hoje Rita Beneditto], foi quando eu soube que havia uma escola de música. Eu guardei esse jornal, já estava no Liceu Maranhense. E com esse pandeirinho já comecei a formar grupos, a gente fazia apresentações, mas já de olho na Escola [de Música]. Comecei primeiro no Liceu. Quando foi em 1992, eu passando por acaso na Rua de Santo Antonio, ouvi o som dos instrumentos, “ah, é aqui que é a Escola”. Foi uma entrada para nunca mais sair.

Quem te recebeu? Eu fiz o teste com Raimundo Luiz [bandolinista, hoje diretor da EMEM, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013] e tudo aconteceu muito rápido, por que eu já tinha essa experiência do interior, com o pai com banda. Eu comecei logo a participar de grupos. Meus primeiros parceiros foram a Java, que hoje está na Paraíba, é professora de sax, o Fernando, foi professor aqui, hoje está em Brasília. Começamos a nos apresentar no auditório.

Você entrou [na EMEM] para estudar percussão? Bateria. Havia uma bateria que ficava lá no mirante e ninguém usava. Havia um grupo de jazz, eu me entrosei com eles e comecei. Depois eu entrei nos grupos, tipo Big Band, depois Metal e Cia. Como eu já estava no Metal e Cia. com [Antonio] Padilha, foram contratados Rogério [Leitão, baterista] e Jeca [percussionista] e eu comecei a ter aulas com eles. O Jeca mais, o Rogério me influenciou muito na coisa da leitura, ele sempre estava pelos corredores lendo, com métodos.

Como é que o Instrumental Pixinguinha surge nessa história? Eu costumava ver o Instrumental ensaiando, as apresentações, mas eram só professores, na época. Eram [os instrumentos de] cordas, Garrincha [baterista] e Lazico [Lázaro Pereira, percussionista]. Me chamava a atenção, mas não me interessava na época, por que meu trabalho era a Big Band, o Metal e algumas coisas de MPB, eu comecei com Shirley, é uma cantora de coral, que resolveu cantar em algumas salas. Foram as primeiras apresentações que eu fiz fora, fizemos no DAC [o Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], éramos eu, Nonato Privado [violonista] e ela. Eu tinha vontade [de tocar no Instrumental Pixinguinha], mas tinha muito receio, pois tinha-os como mestres. Marcelo [Moreira, violonista], Lazico, eu considerava muito bom no pandeiro, “será que eu vou conseguir tocar?” Quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília, fazer um curso de verão, eu me entrosei com a turma, Marcelo, Raimundo, e eles “vamos ali, tem uma turma de choro e tal”. Na época eu andava com um pandeiro 12 [polegadas], a turma se reunia lá, mas não tinha pandeirista. Eu cheguei com o pandeiro, comecei a tocar, eu sem saber com quem eu estava tocando [risos]. A gente passou 15 dias lá fazendo o curso de verão. Depois Raimundo chegou e disse assim: “rapaz, tu sabe quem tá tocando aí?” Eu: “quem?” E ele: “Henrique Cazes [cavaquinista]” Aí foi que caiu a ficha! Quando foi no outro dia, o pessoal se reunia, sempre muito brincalhões, um deles: “e aí, pandeiro? Vai hoje?” Aí aquela música começou a entrar. Eu sempre fui um cara muito inseguro, às vezes eu sabia que tinha aquela coisa dentro de mim, mas não sabia se eu queria ser músico. E entra outra figura, do interior, um senhor que sempre me deu muita força, falava de meu pai, dizia “olha, você vai ser um grande músico”, me incentivava. Uma vez eu organizei lá a questão do 7 de setembro [as comemorações alusivas ao Dia da Independência do Brasil] e ele se empolgou muito com isso, eu sempre gostei de participar das bandinhas, tocando tarol. Certo dia a gente tocando lá, eu vi esse senhor assistindo, montado no cavalo. Quando eu olhei para ele, o vi com aquele sorriso, como quem diz “eu não disse?” E por incrível que pareça, quando eu cheguei em Brasília me veio essa figura. Aí bateu o medo, mas eu lembrei dele dizendo “você consegue, você é capaz”. Quando eu voltei eu sabia que era o caminho que eu queria. Comecei a acompanhar o Pixinguinha onde eles iam, nos bares, na praia. Aí eu procurei ver uma oportunidade de estar dando canjas, pedia pra Lazico, nas primeiras oportunidades que não dava para Lazico eu já estava lá tocando.

Teu interesse por choro começa com esse curso de verão em Brasília ou já existia antes alguma relação tua com essa música? Eu acho que começa lá, quando eu vi os mestres, a forma como os vi tocando, eu me encantei. Foi muito forte. Raimundo ainda me levou, a gente saiu, e numa dessas, tinha acabado um concerto, “vamos ali que o cara vai estar lá”, o Henrique Cazes. Ficamos nós três, eu gravei a conversa toda, até hoje eu tenho pena dessa fita, que eu perdi. Só eu, ele e Raimundo. Ele começou a falar de Pixinguinha, do choro, de várias pessoas, contou várias histórias.

O Cazes, então, teve um papel importante nessa tua aproximação com o choro. Isso, com certeza!

Além do Pixinguinha, da Big Band e do Metal e Cia., você participou de outros grupos musicais? Não. Depois eu comecei a fazer uns trabalhos com [a cantora] Rosa Reis e MPB, bares, acompanhando cantores, comecei a ser conhecido. Até hoje toco com [a cantora] Laura Lobato, principalmente confraternizações, casamentos. Chegamos a tocar uma temporada num shopping, outra no Zanzibar [bar na Av. Litorânea, extinto] na época.

Você também fez o caminho de entrar na Escola como aluno e depois se tornou professor. Como é que se deu essa transição? Como foi que você se tornou professor da Escola? Exato! Professor eu só vim ser de fato quando eu entrei como concursado, em 2000. Eu sempre estive por ali, participando com os grupos. O Mestre Tomaz me levou para o Convento das Mercês, estavam iniciando um trabalho com os meninos, tinha uns meninos de percussão, ele era o maestro da banda, e eu fui, estava precisando. Foi o meu primeiro trabalho como professor, carteira assinada. Quando eu vinha do Convento das Mercês pra Escola de Música na Rua de Santo Antonio, eu passava aqui atrás [nos fundos da EMEM, na Rua do Giz], era a época em que estavam reformando este prédio. E eu dizia para mim mesmo que quando a escola viesse pra cá, eu tinha que ser professor aqui, meio que profetizava que ia ser professor. Era meu caminho todos os dias. Meus colegas também haviam se tornado professores, Fernando, Java, eles me incentivavam muito. Depois teve outra oportunidade, eu fui para Curitiba. Lá eu conheci o Bolão [Oscar Bolão, baterista e percussionista], já foi totalmente divisor de águas. Também tive a oportunidade de conhecer o Luiz Otávio Braga [violonista], um cara muito bacana mesmo! Dei sorte de chegar nos lugares e não ter pandeiro, “ah, você é pandeirista, chega aqui”. Aí teve o concurso, quando eu vim de lá eu já vim pensando, comecei a me preparar. Eu tava numa fase, ou seria professor ou ia desistir de música, foi uma fase complicada. Todo mundo estava buscando uma, digamos, estabilidade.

Você participou de um capítulo muito importante da música do Maranhão, que foi a gravação do disco do Instrumental Pixinguinha [Choros Maranhenses, 2005], o primeiro disco exclusivamente de choro gravado por aqui. O que isso significou para você? Pra mim, na época, foi oportunidade. De estar registrando um trabalho, era o primeiro cd maranhense de choro, de compositores maranhenses. Na época eu não sei se eu tinha noção do que eu estava fazendo, da importância. Hoje eu vejo isso. Foi um momento muito importante pra gente.

Quase 10 anos depois do lançamento do disco de vocês, os membros do Pixinguinha têm conversado, pensado sobre o lançamento do segundo cd? Tem-se pensado, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tem falado. Teve uma fase que eu tava meio, “rapaz, tu está no Pixinguinha, não tá, como é?”. Cada um estava para um lado, independente, fazendo trabalhos. Sempre que tem um projeto é preciso reunir, o disco está ainda mais como um projeto, pelo menos para mim.

Você relatou que o choro veio depois do curso de verão em Brasília. Hoje você se considera um chorão? Pergunta difícil! [risos]. Primeiro eu teria que saber o que é um chorão, o que é ser chorão. Por que hoje na verdade eu faço de tudo, eu toco de tudo. Pra ser chorão, seria um cara que está participando de todos os movimentos, tudo o que é movimento estar lá, participando ativamente. Eu sou um músico que adquiri habilidades de tocar em qualquer estilo. Eu toco em big band, orquestra de jazz, MPB. Mas tenho um respeito muito grande pelo choro, foi onde encontrei maior oportunidade de trabalho. Como músico, foi o choro que me deu isso. Eu sempre tive medo do rótulo. Tipo: se o cara é roqueiro, ele pode tocar samba, mas ninguém vai chamá-lo para tocar, por que acha que ele só sabe tocar aquilo.

Qual a importância do choro? É uma música nossa, talvez onde a gente possa ter tudo o que a gente precisa para se desenvolver como músico. Em todas as áreas. Para desenvolver os ouvidos, você vai ouvir as mais lindas melodias, as mais lindas harmonias criadas, deixadas aí, permanecendo por mais de século, música com qualidade. O choro é uma escola. Todo músico, dentro do Brasil, que quer ser músico, tem que passar pelo choro. É uma fonte, uma fonte que hoje está vindo gente de todo lugar do mundo querendo beber dessa fonte.

Se ela é tudo isso, por que ter medo de se assumir como chorão? Exatamente por isso! [risos]

O choro praticado no Rio tem como base rítmica o samba. A ida dos nordestinos para o Rio de Janeiro levou outros ritmos que foram incorporados nas rodas de choro, como o baião, o calango, o frevo. Você acha que os ritmos do Maranhão, tão ricos e tão plurais, podem ser incorporados nas rodas de choro? Com certeza! Se você observar no disco do Instrumental Pixinguinha, tem uma levada naquela música [Candiru, faixa que abre o disco] do Zezé Alves [parceria com Omar Cutrim] que tem uma levada de lelê [imita com a boca a batida do pandeiro].

Mas isso ainda é muito tímido por aqui. É. O choro é uma música muito aberta, cabe tudo o que você colocar. Você pode botar o maracatu, o samba, o baião, ele pega de tudo. O choro na verdade é uma forma de tocar. Falta se assumir, “esse é meu ritmo” e colocar lá.

Chorografia do Maranhão: Juca do Cavaco

[O Imparcial, 13 de abril de 2014]

Juca do Cavaco virou bordão em programa de choro. Cavaquinista do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 30º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando a realização de sua entrevista para a Chorografia do Maranhão foi previamente anunciada nas redes sociais, Juca do Cavaco foi saudado como um chorostar. Não é à toa: o músico virou um bordão no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado há mais de 20 anos por Ricarte Almeida Santos na rádio Universidade FM (106,9MHz). “Eu sinto uma alegria muito grande, eu fico satisfeito em chegar o domingo, escutar o programa numa rádio de respeito, com um pesquisador fantástico, escutar o nosso nome. Já começo o domingo de uma forma 10. É uma honra!”, revela o torcedor do Fluminense, de longe o mais adjetivado de nossos instrumentistas, entre chorografados e chorografáveis.

Fora o instrumento que lhe deu o sobrenome artístico, Emilson Pires dos Santos não sabe a origem do apelido que ganhou na infância. “Eu perguntei várias vezes para mamãe, mas ela vacilava e nunca soube responder”, confessa. Titular do cavaquinho do Instrumental Pixinguinha, o músico nasceu em 26 de julho de 1958, em Bacuri, então Cururupu, “perto de Valha-me Deus, Lençóis. Da família sou o único que não conhece minha cidade”, conta o ex-bigodudo que veio ainda menino para a Ilha capital.

Formado em Medicina Veterinária, Juca do Cavaco é filho de Doralice Rodrigues Pires dos Santos, autonôma, dona de casa, e Cândido Machado dos Santos, com quem não teve convívio. É o mais novo de três irmãos, em time que se completa com os quase homônimos Edilson e Enilson. Casado com Maria da Conceição Souza, ele deu seu depoimento à chororreportagem, o 30º. da série, após a feijoada sabática do Hotel Pestana, onde toca com o Regional Feitiço da Ilha.

Regada a chopp, a conversa foi ilustrada musicalmente por Você, carinho e amor, Minhas mãos, meu cavaquinho, Chiquita e Pedacinhos do céu, todas de Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. Na última simulou o jargão de Ricarte ao apresentar o Chorinhos e Chorões: “Olá, são nove horas, está no ar Chorinhos e Chorões, o seu café instrumental de domingo”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico, qual a tua outra profissão? Atualmente eu vivo só de música. Fiz um concurso nacional, aqui em São Luís, concorrendo a uma vaga para cavaquinho e tive a felicidade de passar nesse concurso, que fez com que eu abandonasse todas as minhas outras funções, de professor de inglês e matemática nos principais colégios daqui. Eu fiquei como tempo integral e dedicação exclusiva, tive que largar todas as outras coisas e estou até hoje, graças a Deus, na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

De onde vem o apelido Juca? Olha, nem mamãe soube me explicar. Eu andei perguntando pra ela. Ela vacilou e não soube me explicar, eu curioso… é uma pergunta que todos me fazem, principalmente os amigos íntimos, como vocês. Eu perguntava, ela não soube me responder direito. Eu não sei a origem desse apelido.

Quando você veio para São Luís, você veio morar onde? Eu lembro que morei num quarto com mamãe na Praia Grande, perto da Escola de Música. Às vezes eu passo lá, fico olhando, “eu morei aqui”, dá vontade de entrar, curiosidade mesmo. Depois desse quarto eu fui morar na [rua] Pereira Rego [também conhecida como Rua dos Craveiros], entre a Rua da Paz e a Rua do Sol, nunca asfaltaram até hoje, até hoje os paralelepípedos estão lá.

Qual era o seu universo de vivências musicais, o que fez você optar por essa carreira? Na verdade, quando eu morava nessa Rua Pereira Rego, meus irmãos, principalmente o mais velho, tinham amigos que tocavam violão, se encontravam, estudavam no mesmo colégio, aquela amizade. Eles se reuniam para tocar violão e eu ficava olhando. Nunca pensei na minha vida em ser músico. Eu os olhava tocando, achava bonito, o tempo foi passando. De repente quando me vi, estava morando na Rua do Norte, nº. 129, perto do Caneco Bar, até hoje existe, inclusive eu fui o bebedor da primeira cerveja do Caneco Bar, e o Martins [proprietário do bar] não deixou que eu pagasse a cerveja. Na Rua do Norte meus irmãos continuavam a tocar violão, por brincadeira, por hobby, nada profissional. Eu já fazia faculdade nessa época. Lá tinha uma roda de samba, e aí que eu comecei a entrar no âmbito da música sem eu saber.

Você fazia faculdade de quê? Primeiramente eu fiz a faculdade de Medicina Veterinária, formei. Depois eu fiz Matemática, incompleto. Larguei pela metade, não tinha mais tempo mesmo. Eu entrei na Escola de Música, tinha muita tarefa, estudava inglês, depois a Escola me contratou para ser professor e eu aceitei. Na Rua de São Pantaleão tinha uma roda de samba que eu gostava muito. Eu nem tocava cavaquinho nessa época. Dava final de semana, o pessoal se encontrava: Cotia [Jorge Henrique], que hoje mora em Natal, violonista, cavaquinista; Vadeco, que era a grande expressão daqui do Maranhão, me ensinou muita coisa, era solista e centrista, depois virou percussionista; era um exímio cavaquinho, tenho-o como um dos mestres, eu tenho muitos mestres, na verdade. Tinha essa roda de samba, que tinha o grande Armand como violonista, irmão de Gerude [cantor e compositor]. Aí eu comecei a tocar cavaquinho e aprender os acordes, pedia muita consulta pra Vadeco. Quando ele solava um choro eu ficava extasiado: que coisa bonita!

Falando em Bar do Caneco, é verdade aquela história de que você foi chamado de Juca dos Teclados? Essa história foi uma grande brincadeira do, se não me engano o nome dele é Alessandro. Uma vez na Rua de São Pantaleão, ele gostava de tocar saxofone, e eu virei para ele e disse: “grande baterista!” [risos]. E ele virou pra mim e disse “você é um grande tecladista!”. Depois eu estava no Clube do Choro [Recebe], quando ele contou essa história. Mas não tem nada a ver, eu nunca fui… não foi no Caneco, foi no CC, no Canto da Comunicação, ali onde tem uma funerária, em frente à antiga sede da [escola de samba] Flor do Samba, o grande reduto destes meus mestres. Essa história é brincadeira, uma brincadeira bem saudável, todo mundo gosta, eu gosto. Tudo isso é alegria, é saúde.

Você é uma das pessoas que mais enriquece esse anedotário, além do espírito didático-pedagógico, de cumprir uma função de interagir com o público, o que é, quem é, uma história sobre a música, sobre o compositor, você sempre cumpriu esse papel de maneira bem interessante. Eu fico feliz com estes adjetivos.

Por que você escolheu o cavaquinho? Por que é um instrumento que tem um timbre muito bonito, agradável. A beleza do próprio instrumento, a facilidade. Não por que ele é pequeno, eu poderia muito bem tocar piano, ou violoncelo, mas o cavaquinho está dentro da linha do samba, dentro da linha do choro, da música brasileira, apesar de sua origem portuguesa. Eu olhava meus amigos tocando e achava tão bonito que isso me influenciou, a beleza deles tocando. Quando eu fazia faculdade foi a época em que eu passei a tocar cavaquinho. Foi lá pelos anos de 1980, 81. Nessa época já rolava essa roda de samba e Vadeco era o único solista que eu conhecia aqui. Depois eu fui conhecendo outras pessoas, o Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], exímio solista, principalmente de choro, domina bem, depois vieram outras pessoas, Adelino Valente [bandolinista], foi meu professor [de matemática] no Colégio Batista. Eu fui me juntando com essas pessoas, sempre aprendendo, fazendo perguntas, tirando dúvidas. Eu comprava muitos vinis, principalmente do Waldir e do Jacob [do Bandolim]. Mais ainda do Waldir por que era o instrumento que eu me engracei por tocar. Os vinis quando chegavam em São Luís, era perto da casa da minha mãe, onde eu morava, tinha uma loja lá que eu comprava muito, Arpasão, eu era federal [frequentador assíduo] no Arpasão.

Com o advento da tecnologia e a facilidade que a internet proporciona, você continua um grande comprador de discos, de cds? Eu procuro muito cd, muitos vinis. Não tenho uma grande coleção. Os vinis que eu consegui comprar ainda estão na casa da minha mãe. Uma grande parte está na casa de um grande amigo meu, a gente fez um trabalho de transformação de vinil para cd. Eu uni meus vinis com os dele. Na minha casa, atualmente, eu não tenho nenhum, na verdade. Eu tenho já passado tudo para o computador. Mas é muito interessante as pessoas terem esses vinis como relíquias. Nos vinis é que estão as verdadeiras histórias dos músicos. Por isso é que eu sei contar muitos casos, hoje nos cds tem algumas histórias, mas nos vinis vinham as histórias de cada músico, sambistas, chorões, e muitos casos, na capa do vinil. Eu lia muito isso, relia, e se eu olhar um vinil hoje eu continuo lendo. É muita cultura!

Você falou há pouco de Vadeco e Adelino e disse que tinha muitos mestres. Quem são os outros? O Cotia também, [César] Jansen, bandolinista, Natan, violonista que me ensinou muita coisa de cavaco, tocava cavaquinho esporadicamente. É principalmente essa turma. Sem falar nos percussionistas, que acompanham os sambas, os choros. Até hoje, toda vez que eu vou tocar com qualquer pessoa que seja, eu sempre estou observando, aprendendo. Se eu toco um choro e a pessoa toca outro, são praias completamente diferentes. Eu sou muito observador, às vezes eu vejo o jeito de a pessoa tocar, a dinâmica. Eu fui conhecendo as pessoas ao longo da minha vivência. Primeiro Vadeco, depois Paulo Trabulsi, Cotia. Nessa roda de samba eles invertiam os instrumentos: quem tocava cavaquinho depois pegava violão.

Quando é que o [Instrumental] Pixinguinha entra na tua vida? O grupo Instrumental Pixinguinha foi criado e formado na Escola de Música. Quando eu entrei lá eu já conhecia muitos dos integrantes do grupo. Quando eu entrei para estudar, pra me aprofundar, pra aprender a ler, a escrever a música, tinha esse grupo de choro, com uma deficiência muito grande no instrumento cavaquinho. Ora passava um, ora passava outro, passou muita gente. Uma vez, eu dentro de um ônibus, encontrei Marcelo Moreira [violonista], grande músico, grande amigo meu, a gente começou a conversar. O grupo estava num momento de crise, aquela coisa de grupo, até os Beatles acabaram, não é? Ele sentado, eu em pé, eu perguntei: “Marcelo, no Pixinguinha eu vejo muita deficiência em termos de cavaquinho. Por que vocês não botam uma pessoa fixa pra tocar cavaquinho? Eu me disponho a tocar com vocês!”. Certo tempo depois, me convidaram: “Juca, tu não quer tocar no grupo?”. Eu já tocava alguma coisinha, depois daí não parei mais. Eu já tinha tido passagens pelo [regional] Tira-Teima, meus amigos de longa data, os do Pixinguinha eu fui conhecer na Escola de Música.

Quem tocava cavaquinho? Era Raimundo [Luiz, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], era Biné [do Cavaco], o Athos [Lima], houve muitas passagens. Quirino…

Athos virou roqueiro depois. Muitos roqueiros vêm do rock pro choro. Athos fez o movimento contrário. O Ronaldo [Rodrigues, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 1º. de setembro de 2013], sobrinho de Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], veio do rock pro choro, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]. Tinha um aluno na Escola de Música, chamado Ricardo [Foca], toca um bandolim de prima, era roqueiro. Continua roqueiro, mas toca muito choro.

Não está na hora de o Pixinguinha gravar um disco novo? Essa é uma história sobre a qual eu tenho observações.

Eu soube que você não gosta de gravar. Essa história está totalmente errada. Vamos tirar isso a limpo [gargalhadas do entrevistado e dos chororrepórteres]. Quando eu me propus, como integrante do grupo, a gravar o primeiro cd [Choros Maranhenses, de 2005], eu disse, “olha, eu vou gravar com várias condições”. Eles: “quais?”. Primeiro, temos que ter um produtor, quando forem fazer o cd, capa, encarte, letras grandes, toda pessoa que se interessa, vai ter que ler. Eu vejo tanto cd com letra miudinha, letra preta em fundo azul, gente! Isso é uma falta de respeito com o leitor, com o ouvinte, o consumidor. Tem que ter uma foto bem produzida, realmente a foto foi bem produzida. Outra: depois que gravarmos o cd, vamos contratar alguém para gravar entrevistas, contratos musicais, trabalhar em cima do cd, fazer shows de divulgação em São Luís, no interior do Maranhão, e depois rodar o Brasil. Isso não aconteceu. O único show que a gente fez foi quando tocávamos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen]. A gente lançou o cd ali. Depois disso não houve nada. Por isso quando se pergunta: “vamos gravar o cd?”. Eu posso gravar o segundo, o terceiro, o quarto e ficar encofado.

Tuas condições são plausíveis. Choros Maranhenses cumpriu um papel muito importante: é o primeiro disco de choro gravado no Maranhão, com repertório autoral, de membros do grupo e mestres do passado. Neste aspecto há alguma discussão, de um eventual segundo disco manter essa linha? Já houve conversas, de se manter a mesma linha. Pesquisar e fazer uma seleção.

O Caderno de Partituras de Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] seria um orientador da pesquisa de vocês? Eu falei pra ele também: “Zezé, esse teu caderno é muito bom, uma iniciativa muito boa, mas leva teu projeto pra frente, pega um apoio, um produtor, que te leve com esses cadernos para o interior, divulgar teu trabalho”. O trabalho está parado. Ele me convidou para gravar o caderno dele [um cd encartado, para que o estudante de música possa tocar acompanhando as partituras], eu, Carbrasa [percussionista] e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], mas o caderno está parado! A única coisa que foi feita nesse livro, em termos produtivos, foi quando chega músico de fora, ele dá, entrega. Mas tem que ter um trabalho direcionado, estratégico, educacional, música nas escolas.

Pra você, o que é o choro? O choro é, como diz meu amigo João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], a espinha dorsal da música brasileira. É a música que abrange todos os gêneros. A pessoa que toca choro tem maior facilidade em tocar os outros ritmos, fica mais fácil. É a primeira música brasileira, tem que ser respeitado. É onde começa todo o desenvolvimento musical da história da música brasileira. O choro é a base.

Você se considera um chorão? Assim como eu me considero também um sambista, assim como eu gosto de vários estilos musicais. Ser chorão é como se eu estivesse dizendo que toco só choro. Eu toco outros estilos. Eu me identifico muito com a música de boa qualidade. Eu posso dizer que sou um chorão dentro das minhas limitações. Não conheço tudo, mas sinto muito prazer em tocar.

Além do Instrumental Pixinguinha, de que outros grupos musicais você participou? Eu toquei muitas vezes com o Tira-Teima, eu andava muito com eles. Fixo mesmo foi com o Pixinguinha. Em relação a grupos de samba toquei em muitos grupos: Amigos do Samba, que inclusive é um choro de Waldir Azevedo, toquei no Sambando na Praia, toquei com Serrinha [e Companhia]. Hoje em dia São Luís está cheia de grupos. O grupo Ébano até hoje me convida para tocar, de vez em quando eu toco com eles. De choro eu tenho vários grupos formados: o Duo Chora Cavaco, eu e Domingos Sete Cordas [Domingos Santos]; o Triângulo Escaleno, eu, Domingos e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira]; grupo Éramos Seis, que era o Pixinguinha, Garrincha [baterista] saiu. Atualmente, fixo, eu estou tocando com o Feitiço da Ilha, que sou eu, Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014] e Chico Nô [cantor, compositor e violonista], e com o Instrumental Pixinguinha.

Você esteve em duas iniciativas que ganharam prêmios Universidade, Choros Maranhenses e Rosa Secular [o show Noel, Rosa Secular, que celebrou o centenário do compositor de Vila Isabel, com vários artistas]. O que isso significou para você? Significou muito para mim. Houve muita produção, a gente estudou vários arranjos, a produção de cada música, tocar, ensaiar. Foi um ganho muito bom, me sinto recompensado, alegre e satisfeito de ter participado destes dois momentos. Quem não fica satisfeito em ser reconhecido? Em produzir um trabalho e ganhar determinado prêmio? Agora, o prêmio maior é a convivência com os envolvidos. Puxa, quando eu lembro que no primeiro Rosa Secular não tinha mais como entrar no Daquele Jeito [bar no Vinhais]. Foi apoteótico, essa é a palavra. A gente passou vários meses ensaiando, e nunca havíamos pensado em chegar a este patamar de sucesso.

Para você, o que é sucesso? Sucesso é o fruto de um trabalho bem feito, feito com muito esforço, com muito estudo e muita participação. Acima de tudo, estar tocando uma música bem tocada. No momento em que a gente começa a tocar errado, a gente já vira insucesso. Sucesso é a gente tocar bastante, se esforçar, ter gratidão às pessoas que ajudam a gente, de uma maneira geral. Isso gera o sucesso. Se fizer bem feito o sucesso chega. Tem que tocar por amor, mesmo. Dinheiro é consequência.

Ano passado você esteve envolvido em um episódio importante, quando o Tira-Teima e o Pixinguinha subiram juntos ao mesmo tempo em um palco da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, promovida pelo Sesc. O que aquele momento significou para você? Foi um encontro onde reunimos os grandes chorões e onde houve um encontro de muita musicalidade e entrosamento. Dois grupos tocarem o mesmo repertório juntos é complicado, mas conseguimos. Um detalhe interessante, muito difícil: no Pixinguinha eu me responsabilizei por montar o repertório, e Paulo Trabulsi por montar o do Tira-Teima. Fizemos os repertórios, mandamos um pro outro, eram músicas diferentes. Foi tão difícil fazer esse repertório, em cima da hora mudamos [risos]. Quando eu desci de lá, duas pessoas vieram: “gente, vocês devem ter ensaiado muito, saiu tudo perfeito”. Foi um reconhecimento a essa cultura instrumental.

Uma questão fashion: por que você tirou o bigode? É o seguinte: cabelo branco eu acho lindo, agora bigode branco, eu não acho legal. E eu fiquei mais jovem [risos]. Agora, esse lance de bigode, toda semana eu recebo comentários interessantes: “Juca, depois que você tirou o bigode, é tipo o cabelo de Sansão, tu não faz mais aquele negócio”; “Juca, agora tu tá o cara!”. Eu fico em cima do muro [risos].

Como você avalia o choro que se pratica no Maranhão hoje? Temos duas faculdades de música, a Escola, grupos de choro, grupos de estudo. Como você enxerga isso, comparando o hoje com o que era anteriormente? É uma evolução muito grande, acima de tudo do interesse pela música. Nas escolas, nas faculdades, a gente vê pessoas interessadas em aprender, não só para entrar no mercado de trabalho, mas produzir uma música que é estudada, a pessoa se esforça para fazer uma coisa bem feita. É altamente positivo. Vivemos um bom momento no choro, assim como no samba, que está num momento incrível em São Luís.

O choro do Maranhão tem futuro? Só tem! Basta a gente querer e ter o apoio de pessoas sérias.

Chorografia do Maranhão: Domingos Santos

[O Imparcial, 16 de março de 2014]

Violonista sete cordas do Instrumental Pixinguinha, o “miritibano” Domingos Santos é o 28º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando Domingos da Silva Santos nasceu, em 3 de julho de 1955, Miritiba já passara a se chamar Humberto de Campos, em homenagem ao escritor maranhense nascido ali. Miritibano, como se chamavam os que nasciam na cidade, dá nome à faixa de abertura de Choros Maranhenses [2005], disco de estreia do Instrumental Pixinguinha, do qual é titular do violão sete cordas.

O músico deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Sala Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], em que dá aulas na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Filho do saxofonista e comerciante Raimundo Nonato Amaral dos Santos e da dona de casa Maria José da Silva Santos, o músico é bacharel em Geografia, mas nunca atuou na área. “A música bateu mais, não foi preciso andar atrás de emprego, me agarrei com ela”.

A seu lado, dos outros professores da EMEM com que forma o Pixinguinha, e de outros mestres já saudosos, seu falecido pai figura na lista de compositores de Choros Maranhenses. Seu grupo gravou Não se esqueça de mim.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo em casa, familiar, era propício à música? Eu morava numa casa de festa. Papai era músico. Ele tinha uma orquestra que tocava as festas de Humberto de Campos, das redondezas, não era só da cidade. Eram bateria, banjo, tuba, trombone, saxofone, trompete e pandeiro. Tocava a região inteira lá.

E o que se ouvia em casa? Papai tocava choro. Na verdade a gente não tinha nem rádio. A gente só escutava as festas. Mamãe fazia essa festa de Santo Antônio, lá o pessoal amanhecia. Amanhecia tocando choro, cantando.

Teu pai além de tocar era professor de música? Ele deu aulas para alguns lá. Já morreu com 94 anos, até 80 e pouco ainda andou dando aula para uma criançada lá. Nada foi assim pra diante.

A vida dele era só música ou ele tinha outra profissão? Ele tinha um comércio. Lá, Humberto de Campos, era uma região muito pobre, a história é farinha e peixe, só isso [A pedido do flautista Paulinho Oliveira, também professor da EMEM, Domingos Santos conta uma história:]. Eu estudava aqui na Escola de Música, tinha um professor de piano que falava assim pra mim: “rapaz, faz de conta que tu estás pegando uma laranja”. E eu: “rapaz, lá no interior só tem manga” [risos dos chororrepórteres e do entrevistado]. Mamãe fazia remédios caseiros, e comprava remédio em São Luís e revendia lá.

Teu pai era saxofonista? Saxofonista. Tocador mesmo! Lia partitura que era uma beleza. Inclusive quando o Pixinguinha, depois que acabou, a gente fez uma nova formação, eu, Marcelo [Moreira, violonista], Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Paulinho, a gente foi tocar na festa de Cururupu, e ele estava lá e tocou com a gente.

Com que idade você veio para São Luís? Eu vim fazer o ginásio no Liceu, em 1973.

Vocês são quantos irmãos? Nós somos nove. Morreu uma. São quatro homens e cinco mulheres. Aí morreu uma.

Quando teu pai ia fazer festas, você garoto, acompanhava ele nessas festas? Não. Eu vim acompanhar depois, nas rezas lá de casa. Tinha as ladainhas, aí eu passei a tocar. Ele tocava as ladainhas lá com esse grupo. Depois de muito tempo é que eu comecei. Eu tenho a [gravação da] ladainha tocada com eles, com essa formação. A gente estudava música lá em casa e outro dia descobrimos que papai tinha um violão dentro do guarda roupa. Alguém comprou no comércio, não tinha dinheiro para pagar e deu esse violão. E ele tocava um pouco de violão também. Aí ensinou um acorde para outro irmão meu, eu aprendi, ele que já me ensinou. Aí eu comecei a tocar. Passei a tocar no Ginásio Bandeirante, na época, festas de dia das mães, dia das crianças. Lá também funcionou o Clube Alvorada de Leôncio Rodrigues, e ele fazia show de calouros. E eu passei a tocar nesses shows, com 12, 13 anos.

Foi essa a idade com que você começou a tocar em ladainhas? Com 12, 13 anos eu comecei a estudar música com papai. Depois, com uns 13 anos, a gente descobriu que ele tinha um violão, ele sabia um pouco de violão, começou a ensinar pra gente, e a gente começou. Aí passamos a tocar, só de ouvido. Engraçado que o primeiro solo de violão que eu fiz, eu aprendi com minha vó, que tocava violão. Meu avô também tocava, a parte materna toda tocava.

Você vindo dessa linhagem musical, teu filho seguiu na música? Meu filho mora com a mãe dele, não mora aqui. A gente inclusive tem pouco contato.

Você vindo dessa tradição de família musical, seu pai tocava sax. Como é que você optou pelo violão? É por que todo mundo lá em casa tocava um pouquinho. Foi a época em que eu vim para cá para São Luís. Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] morava na casa da minha tia, na Rua do Ribeirão [Centro], era muito amigo de Viriato Gaspar [poeta maranhense radicado em Brasília], que é meu primo. Em 1981 eu vim estudar na Escola de Música. Aí eu participei em 1985 do Festival Viva [de Música Popular do Maranhão], Fátima Passarinho, que tem esse nome por causa da música [Canto de Passarinho]. Na época Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva] botou como se fosse minha e do irmão dele, ele participou com várias músicas e só podia parece que duas [pelo regulamento]. É minha e de Gerô, poucas pessoas sabem disso. Inclusive a gente participou de festival na UFMA, há poucos dias eu estava folheando uma revista e olhei uma música, minha e de Gerô, que eu nem sei como é, a melodia eu não lembro.

Essa música que Fátima [Passarinho] defendeu no [Festival] Viva, você tocou? Toquei no Festival. Na gravação é [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu que toca.

Quem foram teus principais mestres? De música foi papai. Partitura musical. Mas professor de violão mesmo foi Marcelo. Só tinha ele na Escola de Música quando eu cheguei.

Quando você deu o salto do seis cordas para o sete cordas? Foi uma necessidade. O Instrumental Pixinguinha, na primeira formação, era Carbrasa [percussionista], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Marcelo, eu, Paulinho [flautista] e [o bandolinista César] Jansen. Era a primeira formação, ensaiamos seis meses para tocarmos dois shows [a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, maestro e compositor gaúcho]. Depois teve a gravação do disco de Rosa Reis, Estrela, música de Joãozinho [Ribeiro, compositor]. Aí começou uma história que Marcelo disse que o bandolim de Jansen estava desafinado, a flauta de Paulinho estava desafinada, tinha que refazer. Aí Jansen entregou a partitura dele para Marcelo. Inclusive Marcelo fez no violão a parte do bandolim nessa gravação de Estrela. Ah, esqueci do nome de Biné [do Cavaco], tocava cavaquinho. Aí acabou o grupo. Paulinho não foi refazer, Rosemary [Fontoura, pianista] fez no teclado, Jansen não foi refazer, Marcelo fez no violão.

Quem é o grande violonista que mais te inspira? Eu, na verdade, passava o ano todo esperando Turíbio e João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] virem tocar aqui. Eram só eles quem tocavam aqui. Eu não conhecia outra pessoa. Tudo o que eu aprendi de violão foi com Marcelo. Marcelo é um cara… mas eu fiz curso com João Pedro, com Joaquim, com Turíbio, e viajei. Eu fiz cursos em Londrina, em Brasília, com Eustáquio Grilo, aqueles cursos de verão, e Henrique Pinto. E as outras coisas é assistindo mesmo por aqui, o que aparece.

Teu pai, além de músico, instrumentista, mestre de banda, também era compositor. Papai tem cento e poucas músicas. Eu vou editar, até falei com Zezé. É um acervo significativo, muita música. Uma vez eu fui para Pindaré, fui tocar com Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Papai tocava suas próprias músicas em festas. Ele tocava forró, tocava samba. O pai de Osmar [José Furtado, saxofonista] passou uma meia hora tocando uma música. Aí ele perguntou: “e o senhor não termina essa música?” Aí ele disse: “não, rapaz, acabou a música e eu fui inventando”. Outro dia Maurício Carrilho [violonista] veio aqui e disse que Pixinguinha fazia isso. As músicas tinham a primeira, a segunda e a terceira parte, e geralmente ele improvisava outra música. Papai faliu o comércio dele por que ele levava músicos para lá e ficavam tocando, eles tocavam dentro do comércio, faliu o comércio dele. As primeiras pessoas com quem eu toquei, aqui em São Luís, na noite, foi com Hamilton Rayol [cantor] e Antônio Vieira [compositor e percussionista]. Eu estudava com Hamilton na Escola de Música, a gente estudava na mesma turma. Um dia ele me viu tocando violão, Fernando Cafeteira [violonista] viajava e toda vez que ele viajava ele me levava. Era ali no Petisco, que era de Biné [Aranha], ali na Fonte do Ribeirão, tocando acústico.

Que linha predominava na composição de teu pai? Choro. E tinha música que tinha letra, letra dele.

E você compondo? Eu tenho 20 e poucas músicas. Eu faço choro e valsa, não sei fazer outra coisa.

A música de teu pai foi gravada pelo [Instrumental] Pixinguinha. Foi. Não se esqueça de mim. Essa música eu tenho uma gravação antiga, a gente tocando lá em Cururupu, ele mesmo tocando. Papai deixou de tocar por que mamãe morreu. Ele tava com 92 anos, não quis mais viver. Abandonou instrumento, perdeu a vontade de viver.

Dá para viver de música? Eu vivo de música. Eu não preciso de muito dinheiro para viver bem. O dinheiro que eu ganho dá pra viver legal. Eu dou aula aqui [na EMEM], eu dou aula particular, eu toco, não toco mais por que não quero. Carnaval, por exemplo, eu não quero mais tocar.

De que grupos musicais você já participou? O primeiro grupo foi quando eu fazia o bacharelado em Geografia, lá no grupo eu tocava cavaquinho, no Geosamba [risos dos chororrepórteres]. Eu abandonei total o cavaco, hoje em dia eu só pego. Eu participei do Amigos do Samba, do Cacuriá de Dona Teté e do Pixinguinha. Tinha dia que eu tocava nos três grupos no mesmo dia. O em que eu passei mais tempo foi o Pixinguinha.

O que significa esse grupo para você? Significa tudo. Na verdade eu sou o único componente da primeira formação, que fiquei. Tem uma pergunta que eu não respondi, né? O negócio do violão…

Sim, o pulo do violão de seis para o sete cordas. Quando a gente terminou os dois shows, acabou a história da primeira formação. Aí nós tentamos fazer, éramos eu, Zezé, Paulinho e Paulo Akomabu, tocou pandeiro na segunda formação. Sempre foi complicado pandeiro e cavaquinho. Era Athos [Lima] no cavaquinho, mas ele dormia até 12 horas e não tocava de manhã. Depois ele virou roqueiro. Quando a gente ia tocar de manhã, a gente ia sem cavaquinho. Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] também tem essa história. Uma vez eu pedi uma corda do violão sete cordas, Ubiratan mandou um recado por Paulinho. Aí eu liguei para ele, ele dormindo, a mãe dizia que ele não estava. Aí ele me disse: “rapaz, quando tu vier do pagode tu me liga”, era de madrugada, nessa época eu tocava num pagode.

O Pixinguinha já tem mais de 20 anos e demorou bastante a gravar o disco de estreia. Não há vontade do grupo de gravar um segundo disco? Já teve essa ideia, essa história. Nesse livro de Zezé [Choros Maranhenses – Caderno de Partituras, organizado pelo músico] era para ser feito, só que alguns componentes, Juca [do Cavaco], por exemplo, é um cara que não gosta de gravar. Eu não sei por que, ele é um cara que saca muita coisa de choro, é um cara que lê muito.

Além do disco do Pixinguinha e do de Rosa Reis, há outros discos que têm teu sete cordas? Toquei no de Zeca Tocantins [Terreiro de Todo Canto].

O que significa o choro para você? A melhor música brasileira. Eu quando chego em casa, eu não digo que é choro, é a música instrumental. A música instrumental é muito bacana.

Que nomes você admira nesse meio? Eu tenho admiração pelo Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], ontem encontrei-o, fazia tempo que não o via, é um baita dum flautista. Os violões vocês sabem, a primeira vez que eu vi Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] tocar eu fiquei admirado, os baixos que ele faz, não aprendeu com ninguém, aprendeu com Dino [o violonista sete cordas Horondino José da Silva, do Conjunto Época de Ouro]. Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] toca muito bem, Solano. A nossa música instrumental melhorou demais.

Isso deve-se a quê, esse avanço de grau, de qualificação? Ao estudo. Antigamente a gente não via o choro tocado bem aqui. O pessoal só olhava a televisão. Maurício Carrilho está vindo por aqui, sempre, na Escola. A gente conhecer as outras pessoas, a gente aprende olhando os outros tocarem.

Você acha que a internet também contribui para isso? Eu acho que tudo contribui, Youtube, aquela coisa toda.

Você é refratário à tecnologia? Você baixa música? Eu não sou muito da tecnologia, mas eu acho que é importante. Baixo. Até pouco tempo eu não sabia. Eu tenho um sobrinho que é craque, me ensinou.

Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A história do Radamés, aquele divisor, dali pra cá todo mundo passou a estudar. Antigamente era um solista e os outros acompanhando, também é bonito. Eu escuto umas coisas modernas, acho legal, mas o choro, eu quando escuto Vibrações [o disco de Jacob do Bandolim], com aquele [conjunto] Época de Ouro, eu fico arrepiado.

Há quem diga que é o melhor disco de choro da história. É uma das gravações que eu mais gosto, aquela gravação deles. O lado moderno eu acho bonito também, não pode ser todo tempo do mesmo jeito. Sem a tradição o moderno não existiria.

Você se considera, a si e ao Pixinguinha, moderno, tradicional ou as duas coisas? Eu me considero tradicional. Eu quando vou escrever uma música é muito romântico. Hermeto [Pascoal, compositor e multi-instrumentista] durante um ano escreveu uma música por dia. Eu passei um tempo com um caderno de partituras, tinha uma ideia, anotava. Tenho uma porrada de músicas que, se eu quisesse fazer hoje a segunda parte, eu podia fazer.

O que te inspira para compor? Às vezes eu penso numa música, eu acordo, naturalmente. Eu penso num tema e vou desenvolvendo ele. Qualquer coisa.

Como você observa o choro no Maranhão hoje? Se o Clube do Choro não tivesse parado estaria melhor. O projeto Clube do Choro [Recebe] deu um pontapé inicial na história. Se não tivesse, não tinha hoje um monte de garoto tocando choro.

Dessa gurizada quem te chama a atenção? Tem um monte de gente tocando bem. Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013].

Onde o Pixinguinha está tocando hoje? Só aqui na Escola. Temos viajado por projetos da Escola para o interior.

O que você ainda sonha em fazer com a música? Um cd com minhas músicas.

[O músico posa para fotos tocando, com arranjo de choro, Essas emoções, do recém-falecido Donato Alves, do Boi de Axixá] Você acha que o nosso repertório de música popular pode ser chorificado? Pode. Eu mesmo estou procurando isso. Nem tudo poderia virar choro, mas o lado instrumental sim, os arranjos para violão.

Você acha que ajuda o músico de choro tocar música popular e vice-versa? Acho que sim. O instrumentista tem que tocar a música popular. Tem muita música bonita, muita toada de bumba meu boi.

Obituário: Omar Cutrim

Faleceu nesta madrugada o músico Omar Cutrim (30 de junho de 1958 – 6 de janeiro de 2015), vítima de um câncer de próstata – o velório acontece na Pax União (Rua Grande, Centro, próximo à caixa d’água).

Conheci-o há alguns anos, provavelmente no saudoso Bar de Seu Adalberto, onde começou A Vida é uma Festa, evento semanal capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, do qual Omar era habitué. Em uma rede social o colega lamentou a perda: “Triste com o falecimento do companheiro […]. A música está triste”, declarou o guitarrista e saxofonista.

Admirava-me de sua simplicidade, ele autor, entre outras, de Fé no santo (parceria com Costa Neto), gravada por Betto Pereira, e Tempo de guarnicê (parceria com Gerude e Ronald Pinheiro), também gravada por Betto, além de Alcione, entre outros. É dele ainda o choro Candiru (parceria com Zezé Alves, seu companheiro de Rabo de Vaca), gravada pelo Instrumental Pixinguinha em Choros Maranhenses. Só estas três já lhe valeriam lugar na galeria dos grandes.

Cumprimentamo-nos algumas vezes, a última numa manhã de sábado, quando ambos devorávamos um delicioso caldo de ovos em uma lanchonete do Mercado Central. Depois ainda o veria tocar na Companhia Circense de Teatro de Bonecos, na Praia Grande, há algum tempo palco dA Vida é uma Festa.

Confiram Omar Cutrim em ação em Remelexo (de sua autoria) no Carnaval de 2009:

Chorografia do Maranhão: Raimundo Luiz

[O Imparcial, 15 de setembro de 2013]

Diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo e titular do bandolim do Instrumental Pixinguinha, Raimundo Luiz é o 15º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivânio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Bandolinista, cavaquinhista, violonista, violinista. Músico, enfim. Raimundo Luiz está em São Luís a passeio. Quer dizer: ele nunca retornou à cidade natal depois de chegar à Ilha entre 1975 e 76, movido pela curiosidade de descobrir o que era “a cidade”. Atualmente, visita Cedral e a baixada a trabalho, difundindo o choro e pesquisando-o, num movimento de mão e contramão como o da maré que o trouxe para cá, numa época em que para se chegar à São Luís eram necessários dois ou três dias de barco.

Raimundo Luiz Ribeiro nasceu em 15 de junho de 1960 no povoado Jacarequara, em Cedral – então Guimarães –, Litoral Ocidental Maranhense. Sobre a origem do nome de seu lugar, ele explica: “tinha uns alagados, os jacarés quaravam, ficavam lá de papo pra cima, quando tinha um sol quente”.

Sua genética musical talvez se explique pelo fato de o pai, o lavrador e carpinteiro Lucílio Ribeiro, ter sido “uma figura que adentrou muito na coisa do boi de zabumba, na época era o Boi do Jacarequara. Ele fazia parte do cordão, era um brincante”. O pai construiu a maioria das casas do povoado e outros adjacentes, por onde andava, entre o boi e a carpintaria. “Segundo alguns documentários históricos, o boi da região de Guimarães nasceu por ali, outros interiorezinhos, Damásio”, remonta Raimundo. Edite Rosa Ribeiro, sua mãe, era também lavradora, primeiro campo em que atuou o bandolinista do Instrumental Pixinguinha, hoje diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo.

Raimundo Luiz recebeu a chororreportagem nos jardins da EMEM, quando findava a tarde. Durante a conversa, tocou Elegante, choro de sua autoria, gravado em Choros Maranhenses, disco de seu grupo que registra o que entrega o título, e Flor Amorosa, de Joaquim Callado.

Entre discos que já tocou, lembra, além do citado Choros Maranhenses, do primeiro disco do Cacuriá de Dona Teté, onde compareceu de banjo e violino, além de Hongolô, de Cláudio Pinheiro – é dele o violino em Tocaia, de Cesar Teixeira, vencedora do Festival de Marabá/PA, em 1994. Aos pais, já falecidos, deixou um agradecimento: “Eu queria deixar um recado a meus pais, que mesmo na labuta da roça, no seu dia a dia de lavradores, mesmo sem me propiciar grandes condições de educação, me propiciaram estar aqui agora. Isso pra mim é extremamente saudável, enquanto homem e enquanto músico”.

Foto: Rivânio Almeida Santos

Jacarequara já virou nome de choro? Ainda não [risos], mas há perspectivas pra isso.

Você ainda visita a região? Jacarequara eu estou tendo a satisfação de ir mensalmente. Nós colocamos no ano passado um projeto de interiorização do choro, eu e Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e eu coloquei dentre as seis cidades de minha região, o município de Cedral, como coloquei Cururupu, Guimarães e outras pra cá [mais perto de São Luís]. Justamente pra tentar buscar essa coisa da música instrumental, que eu vi lá desde criança, molequinho, 10 anos. A minha cidadezinha, embora seja um povoado bem rural, tinha nem luz elétrica na época, tinha um quarteto de música na cidade, um quarteto de irmãos, um tocava trompete, outro a zabumbinha, pandeiro, a percussãozinha e um banjo. Esses homens adentravam em todas as manifestações folclóricas e religiosas dos povoadozinhos: festa de São Luís, Santa Luzia, São Sebastião, Santana, Divino, Pastor, até hoje é muito forte pra lá o pastoral. Eu adorava ver esses senhores tocando! Paralelo a essa coisa, a essa prática instrumental dele, também tinha as radiolas, que não são as radiolas de reggae de hoje. Eram pequenas radiolas de festa, que tocavam na época muita música instrumental, muito [o saxofonista] Saraiva, [o cavaquinhista] Waldir Azevedo, principalmente a música de sopro. Aquela coisa foi nascendo em mim esse desejo, esse sabor pela música instrumental. Daí eu comecei esse gosto musical.

Você se lembra de estar inserido nessas festas a partir de que idade? Acho que 12, 13, 15 anos. Até então a gente não ia pra festa, os pais não deixavam.

Dá para perceber nessas suas falas, a vivência musical na cidade, no povoado. Como era a vivência musical em casa? A vivência dentro da minha casa, não tinha. Praticamente assim, só rádio mesmo. Lembro que papai tinha rádio, escutava muito a Rádio Educadora de madrugada. Mas a gente não tinha radiola, não tinha nada de som na minha casa. Até pela própria carência mesmo, a gente morava em uma casinha de taipa, coberta de palha, não tinha luz, não tinha nada.

Com essa idade com que você começou a frequentar as festas já se interessou por querer aprender a tocar? A vontade de tocar era imensa, mas a condição, entendeu? Daí a primeira oportunidade que eu tive de vir morar em São Luís, até por uma curiosidade que eu tinha, de saber o que era a cidade. Só se viajava pra cá de barco, barco a vela. Eram dois, três dias pra chegar aqui, principalmente no inverno. Meus dois irmãos já moravam aqui, só os via de dois em dois anos. Eu ficava me questionando e aos meus pais, “pra onde meus irmãos tão?”, “tão pra cidade”, “e o que é a cidade?, eu também quero conhecer a cidade, como é que esse barco chega toda semana cheio de arroz, lata de querosene, onde é que se faz isso?”, eu ficava com aquela coisa em mim.

E o impacto com a cidade? Pode crer! Eu cheguei ainda na época dos jipes, achei uma coisa, a minha cabeça pirou. Tanto é que eu não voltei mais, já procurei meios de ficar por aqui mesmo. E fui buscando meu caminho musical.

Tua vinda, então, foi a passeio, e você não voltou mais? Eu tinha uma necessidade de ficar, uma necessidade pessoal mesmo. Eu queria fazer algo diferente. Essa coisa da música que eu tinha como raiz, lá não ia me proporcionar. Procurei alguns serviços, trabalhei em inúmeros locais, em casa de umbanda, como atendente, fazer os banhos, defumador. Vendi livros. Depois consegui um emprego de auxiliar de serviços operacionais numa empresa, e com esse primeiro emprego eu tive meu primeiro salário e comprei meu primeiro violão, novembro de 79.

Você chegou a trabalhar na roça? Literalmente na roça. Com 12, 13 anos. Capinando, abatendo, roçando, plantando, as mais diversas colheitas. Quando eu não ia pra roça, eu ia pra pesca, por que como eu já tava meio taludinho, como papai dizia e Luiz Gonzaga, que ele gostava muito de ouvir, enquanto ele ia pra roça eu ia pra pescaria, botar uma rede, tirar um sururu, de alguma forma, pra quando ele chegasse meio dia já ter o sustento [alimento].

Quais são as melhores lembranças desse período? Sinceramente, além desse sabor musical que eu adquiri na infância, mesmo sem saber tocar nada, essa cultura que eu tive, familiar, de respeito, de admiração pelo que eu sou hoje, por essa relação que meus pais me deram de entendimento, de família.

E na Escola de Música, você entrou quando? Trabalhando como operacional nessa empresa, eu tive o prazer de sair dessa coisa de rua, de office boy, e fui trabalhar numa sessão de fotocópias. Essa empresa ficava na rua Treze de Maio, que era próximo à Rua da Saavedra, onde era a Escola de Música. Sempre ia uma senhora lá, dona Maria José, chegava semanalmente com uma pilha de material de música pra tirar cópia. Eu tinha chegado na sessão na época e fiquei loucamente curioso pra saber que monte de coisa pretinha era aquela. “Ah, isso aqui é música, é partitura!”. Ela me levou à Escola de Música, em 1980, já fora do período de inscrição, me apresentou para a então diretora Olga Mohana. Ela já tinha esse sonho que nós temos até hoje, de ter uma Orquestra Sinfônica no estado. Ela já me viu tocando violino, já me ofereceu o violino pra estudar. Eu não tinha instrumento e queria isso mesmo.

Então você passou por violão, por conta própria… É, estudei esse violãozinho lá no bairro do Monte Castelo, morava lá com os parentes. Tive certa resistência por parte da família daqui: vim do interior, fui logo comprar um violão. Enfim, consegui mostrar pra todo mundo, que a partir do violão eu consegui chegar onde eu queria.

Você concluiu o curso de música por aqui? Me formei em violino. Comecei a estudar o violino, trabalhava fora também o violão, que eu tocava na Igreja da Conceição, no Monte Castelo, em grupo de jovens. Em 1984, sempre tinha em Brasília, Curitiba, esses festivais de verão, festivais de inverno, eu procurava sempre me aperfeiçoar no violino. Ia eu, várias pessoas aqui da Escola, pegava o ônibus, ia pra Curitiba, pra Brasília, fiz vários cursos, e consegui trabalhar o violino. Mas sempre, paralelo ao violino, eu estudava também o violão. Cheguei a estudar também cavaquinho, toquei em grupos de samba. Em 1987 eu peguei dois serviços com música, já era monitor na Escola de Música, de solfejo, teoria musical, e fui convidado pra ministrar aulas no [Colégio] Marista e nesse mesmo período fui convidado a fundar um coral com os funcionários dos Correios. Eu louco pra viver de música, aceitei os serviços. Trabalhava duas vezes por semana nos Correios e tinha uma carga horária no Marista também, trabalhando com educação musical em sala de aula, para o fundamental e também para o ensino médio. Passei quase 12 anos no Marista como professor de música, a [cantora] Flávia Bittencourt foi minha aluna lá.

A partir daí você passou a viver de música? Literalmente. Viver de música. O trabalho com o coral dos Correios foi tão bacana, viajamos vários regionais Norte e Nordeste. A Associação dos Correios, que na época era o [bandolinista] César Jansen, o [percussionista] Carbrasa, era todo mundo de lá, “vamos criar um grupo de samba”, e lá vem o professor Raimundo Luiz, criamos o Arco Samba, tocamos aí na época no Dunas Center [centro comercial, na Cohama], Maré Chic [próximo ao retorno do São Francisco]. Foi uma boa temporada também com a coisa do samba. Daí eu comecei a gostar do cavaquinho, viajei várias vezes para Brasília, estudei com [o cavaquinhista] Henrique Cazes, depois fiquei só com o bandolim.

Como se deu essa passagem, em definitivo, para o bandolim, que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecido hoje?

Ele veio, acho que pelo gosto do choro, da coisa pequenininha lá do interior. Eu escutava o chorinho no bandolim, no cavaquinho, no saxofone, na sanfona e me identifiquei com a coisa do bandolim, abracei o bandolim. Embora eu nunca tenha abandonado o violino. Achei também mais vantagem financeira no bandolim, a gente estava sempre tocando o bandolim.

O sonho da orquestra vem desde a época de Olga Mohana. Como está esse processo hoje? Nós temos um núcleo de cordas que sustenta ainda esse sonho. Temos uma mini orquestra de 20, 25 músicos, uma pequena orquestra de câmara, sob a coordenação do professor Joaquim Santos [violonista]. O que falta para essa orquestra é vontade política. Pra que ela cresça, nesse ponto de vista da orquestra sinfônica, precisa ter muita força de vontade. Uma orquestra sinfônica eu a vejo vinculada à instituição, eu não vejo a Escola de Música tomando conta de uma orquestra, por que nós vamos deixar nossos afazeres didático-pedagógicos pra tomar conta de uma orquestra. Uma orquestra sinfônica, ela, em si, é uma instituição, e muito grande, por sinal. Muita gente pergunta por que a Escola não faz uma orquestra, não tem uma orquestra? Não tem que ter! A Escola já tem uma função, que cumpre muito bem. Eu acho, né? [risos].

Quando é que você passa a atuar como professor da Escola de Música? Em 83 eu já comecei a ministrar aula. Quando eu formei em 88, violino, eu fui nomeado. Nessa época não tinha concurso. Eu, [o violonista sete cordas] Domingos Santos, Zezé, Paulinho [Paulo Santos Oliveira, flautista], todo mundo trabalhava como monitor.

E o choro? Quando é que começou efetivamente? Minha participação no choro, eu entrei no Pixinguinha em 94, 95, o Pixinguinha começou em 90, eu entrei cinco, seis anos depois, comecei a trabalhar o bandolim no choro.

Você entrou no Pixinguinha tocando cavaquinho ainda, não é? Foi, no cavaquinho, fazendo base. O bandolinista era o Jansen. Carbrasa na percussão, depois entrou [o percussionista] Quirino, ou foi o contrário. Paulinho já foi do Pixinguinha, Zezé, [o violonista] Marcelo Moreira, Garrincha fez a percussão um bom tempo.

E a sua chegada à diretoria da Escola? Eu fui convidado em março ou abril de 2009. Ligaram da Secretaria [de Estado da Cultura, à qual a EMEM é vinculada] se eu aceitaria, passei umas horas pensando. Resolvi aceitar, não pelo cargo, mas pelos quase 30 anos que eu tinha, na época, de Escola de Música. Eu tinha na cabeça as necessidades que a gente desejava, enquanto professor. A gente já tem uma noção das perspectivas, acredito que eu já realizei algumas delas, estamos realizando outras. Há coisas muito boas que temos feito por aqui, sinceramente. Dentre elas a conclusão de nosso plano político-pedagógico. Não tinha! Era um documento antigo, metodologia antiga. Fizemos várias equipes, caímos para pesquisar, desde 2010. Terminamos em 2012, agora. Dois anos de pesquisa bibliográfica pra arrumar, adequar essa nova metodologia, novo padrão de ensino, baseado no currículo nacional.

Qual a diferença que hoje tem o processo de ensino-aprendizagem na Escola para o que era antes? O que significou a consolidação desse documento? Esse documento, diga-se de passagem, ainda não está aprovado no Conselho Estadual de Educação, embora já o estejamos utilizando. Ele traz de diferente uma série de fatores, entre eles as diversas metodologias de ensino que nós usamos hoje em sala de aula, tanto na teoria quanto na prática, os padrões de estudos, os novos métodos de teoria musical, ritmo, solfejo, que você aplica, estudos práticos em turmas coletivas, a descentralização dos cursos. Por exemplo, hoje nós temos cursos básico infantil, fundamental infantil, fundamental adulto e técnico profissionalizante, separou tudinho. Estamos reduzindo esse curso técnico profissionalizante, que era de cinco anos, para três anos.

Teoria e prática caminham juntas agora? Teoria e prática, não tem mais essa coisa de passar um ano na teoria para depois chegar na prática. Entrou, caminhando junto.

Durante muito tempo a Escola de Música teve um perfil erudito. Como está o espaço da música popular hoje, na formação? A gente sempre tem procurado acabar com essa linguagem, que é pejorativa. A gente tem que procurar fazer a música, a boa música. A Escola de Música está mais aberta, hoje a gente vê muito evento popular, dizem que “a música popular chegou à escola de música”; não é isso: não se trata de música popular ou erudita, é a música, o povo quer ouvir música de qualidade.

Mas durante muito tempo as escolas de música e os conservatórios meio que negligenciaram a música popular. Em Pernambuco o choro está tendo um papel fundamental no conservatório de música, o próprio Marco César [bandolinista] esteve aqui recentemente e disse que foi uma luta, uma conquista recente. Nós fizemos ano passado, isso também foi uma conquista, nós tínhamos aqui na Escola encontros que a gente denominava de semanas. Semana de piano, semana de canto lírico, semana de violão. A partir do ano passado, nós decidimos fazer encontros de música de câmara. Aí você junta, esse aqui do piano, com aquele ali do canto, com esse aqui do violão erudito e trabalha conjuntamente e no final da semana, você está trabalhando vários núcleos no mesmo período e no mesmo palco e fica a coisa camerística. Foi um ganho que a Escola teve. Para esse ano nós já estamos pensando, nesse segundo encontro, que será agora em novembro, dentro do Encontro de Música de Câmara, a primeira Oficina de Choro do Maranhão. Eu tive um contato há duas horas com [o flautista] Toninho Carrasqueira, ele já está fazendo contato com outros. Em breve teremos a definição desse grupo, da oficina que estará dentro do encontro.

Falando em choro, qual a situação do Pixinguinha hoje? E o que significa este grupo para você? O Pixinguinha, para mim, é minha identidade pessoal maior. É o que eu mais trabalho, o que eu mais toco, o choro é o gênero que eu abracei, com que convivo diariamente. O Pixinguinha tocou nove anos na Lagoa da Jansen e depois que eu assumi a Escola não tive mais tempo. Preocupado com a gestão, eu não tinha como sair daqui sete da noite, chegar lá, tocar até meia noite. Eles ficaram lá os quatro, depois resolveram deixar. De lá para cá temos tocado muito em eventos particulares. Ao menos duas vezes por mês a gente toca. Nossa perspectiva é trabalharmos o segundo cd.

O que significou para você o fato de o Pixinguinha ter sido o primeiro grupo a gravar um disco de choro no Maranhão, registrando músicas tanto de vocês, membros do grupo, quanto de chorões que estavam inéditos? Isso foi uma pesquisa muito interessante que a gente começou a fazer logo que pensamos em gravar. Saímos buscando as pessoas. O choro de Zé Hemetério [Viajando pra Carajás], eu pensei logo, eu morava próximo dele no Monte Castelo, próximo à Estrada de Ferro na época. Toquei com ele no Canta Nordeste [festival de música da Rede Globo], defendemos a música do César Nascimento. Zezé procurou outros e assim a gente saiu caçando, Nuna Gomes [Um Sorriso]. Esse registro, pra mim, foi fantástico, não pelo fato de ser o primeiro grupo, mas por registrar, ver a coisa acontecendo, colher a partitura, copiar, registrar.

Esse disco foi registrado nos estúdios da Escola de Música? Como está esse estúdio hoje? Tudo foi feito lá, masterização, uma parte foi feita com o Henrique Duailibe, que na época era técnico do estúdio. Hoje ele está um pouquinho a desejar, mas muito em breve, já estamos com os recursos alocados para dar uma recauchutada. Vamos trocar toda essa parte de informática e de áudio.

Choros Maranhenses. Capa. Reprodução

O [disco] Choros Maranhenses me parece ter tido um desdobramento com o Caderno de Partituras de Zezé. O que o Pixinguinha está pensando para o segundo disco? Há alguma relação com esse caderno? Com certeza! Esse segundo disco a gente vai tirar uma boa parte do que já pesquisamos por onde andamos, com esse projeto no interior, e buscar outras pesquisas, até pra fazer um segundo caderno, se for o caso, e ampliar esse repertório do choro, o qual já vai fazer parte do nosso acervo bibliográfico. A Escola de Música tem um projeto apoiado pela Fapema [Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão] de digitalização de todo o acervo. Todos os equipamentos já estão chegando, pra gente digitalizar tudo o que nós temos, fitas k7, VHS, LPs, tudo vai ser digitalizado e vamos criar também um banco de partituras de autores maranhenses. É bom que toda a cidade esteja sabendo, os artistas que não têm suas músicas copiadas, escritas, podem trazer que a Escola vai fazer isso. Já temos profissionais e bolsistas contratados para isso.

Como você está observando a cena brasileira do choro hoje? Cada dia que você põe um programa, assiste um canal, a gente vê coisa nova, impressionante, a gente pira. Novas invenções, novos retratos da música, do choro. Pra mim é extremamente inovador, criativo, interessante. É uma nova roupagem. É igual aquela capa do cd do Pixinguinha: aquele monte de tinta, vem a do meio, a de fora, é tudo se renovando.

Que nomes você destacaria? Pelo Maranhão mesmo eu falaria do Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], acho que é um grande nome que temos por aqui, tem uma pegada própria dele, tem uma versatilidade muito boa, acho muito interessante o trabalho.

E dos grandes mestres, de outras gerações? Quem é a sua grande referência? Não vamos falar do Jacob [do Bandolim], por que Jacob é Jacob e é de todos. Eu pessoalmente adoro o Joel [Nascimento, bandolinista], estudei três vezes com ele, em três oficinas. Foi o Joel quem me deu um laboratório de bandolim. Fui o bebezinho do Joel. É um cara que tem um jeito todo especial de lidar com o aprendiz.

Hoje os bandolinistas mais jovens, todo mundo cita, é quase uma unanimidade, o Hamilton de Holanda. Com certeza! O Hamilton é uma referência. Em 90 e alguma coisa eu era aluno do Joel e o Hamilton também era aluno do Joel. Nós éramos da mesma sala, nos encontrávamos. Nessa época o Hamilton já era o Hamilton. As palavras do Joel para o Hamilton eram “você já é músico, já faz o que faz, tem o domínio do instrumento, o que você faz é seu, é isso mesmo”, isso em sala de aula.

Se a gente observa bem o choro feito em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife, Pará, tem estilos particulares. Você consegue identificar isso? O disco do Pixinguinha meio que deu uma mostra do nosso estilo. Você acha que temos um jeito próprio de fazer choro no Maranhão? Essa mistura, essa identidade do choro do Maranhão está nessa riqueza rítmica que a gente absorve, não tem como se livrar disso. Se você vai no Recife tem algo diferente, o Pará tá bem aqui, a gente tá nesse meião, sem falar nessa polirritmia que a gente tem aqui. O cd do Instrumental veio com essa cara.

Você se considera um chorão? Com lágrimas! [risos]. Eu gosto. Gosto muito de choro, mas eu não sou só choro. Mas eu diria que 90% do meu eu é choro.

Isso te faz um chorão. Isso me faz um chorão [risos].

Chorografia do Maranhão: Zezé Alves

[O Imparcial, 9 de junho de 2013. Cá no blogue um tantinho maior

Oitavo entrevistado da série Chorografia do Maranhão, Zezé da Flauta tornou-se Zezé Alves e investe na formação para a continuidade da cena.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Estavam enganados os que pensavam que uma cirurgia cardíaca diminuiu a atividade e/ou a intensidade musical de Zezé Alves: ele apenas mudou o foco, trocando os palcos pelas salas de aula. Trocando, não, que o professor já dava aulas enquanto o artista apresentava-se nos bares e bailes da vida.

É o próprio músico, nascido no Maracanã, em São Luís, em 8 de dezembro de 1955, “dia de Nossa Senhora da Conceição”, ele emenda à data, quem faz a distinção entre o Zezé Alves de hoje e o Zezé da Flauta de outrora. Filho do paraibano José Alves da Nóbrega e da doméstica Inês Alves da Costa, ele chegou a morar em Bacabal, onde lembra de ter ouvido choro pela primeira vez na vida, ainda criança: “Palito, mestre Palito, José de Brito, que era dono de um conjunto em Bacabal. Saxofonista, dono do Brito Som Seis. Chegou a ser um dos maiores do nordeste. Era meu vizinho, morava de frente a minha casa. Eu saía, chegava na porta, ele estava tocando Saxofone, por que choras? [de Ratinho].

Sua mãe “fazia aqueles reisadinhos, aqueles autos, tocava cabaça, gostava muito de cantar, talvez esta seja a origem familiar”, afirma, sobre sua musicalidade. “Sempre fui muito musical”, continua. “Quando comecei, criança, eu cantava, eu era cantor, cantava Waldick Soriano. Talvez a coisa da minha musicalidade seja a seguinte, tem uma história muito interessante. Quando eu era criança eu era muito fraquinho das pernas, cheguei a ir a médicos, tomar remédios, pra ficar mais forte. E tinha um rádio e eu ficava sentado debaixo desse radio, num caixotezinho, um banquinho, um tamborete, ouvindo todas as músicas do rádio da época, da década de 1950, virando pra 60, Orlando Silva, Waldick Soriano, eu repetia todas essas músicas”, começa a contar antes mesmo da primeira pergunta.

Além de flauta, Zezé toca violão, para compor e estudar harmonia. Depois de ter ajudado a formar muitos músicos que hoje tomam conta da cena local, o professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo considera-se uma espécie de “Bota pra Moer”, apelido de Antonio Lima, folclórico personagem ludovicense que carregou uma bandeira numa passeata contra o governador Eugênio Barros, em 1951. “Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu”, teria afirmado, conforme relata Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua (1988).

Zezé Alves recebeu os chororrepórteres em casa. Isto é, na Sala Leny Cotrim Nagy, na EMEM, a mesma que serviu de cenário para uma das fotografias do encarte de Choros Maranhenses, disco de estreia do Instrumental Pixinguinha. Estudantes de música em aula em duas salas contíguas garantiram a boa trilha sonora da conversa.

Além de músico, qual a tua outra profissão? Eu fui criado por outra família e essa família não queria que eu fosse músico, pois o pai desse pai que me criou não se deu bem, era saxofonista. Eles não queriam, eu tive que sair de casa. Eu comecei a tocar, tocar mesmo, com 22 anos já. Mas eu só vivia cantando. Na realidade me formei em contabilidade, sou contador, técnico em contabilidade. A outra profissão seria essa, por que eu trabalhei com meu pai por muito tempo num comércio, eu sei muito de comércio.

Você exerceu a profissão? Não, não exerci a contabilidade. Mas trabalhei junto no escritório dele muito tempo, ajudava nessa área. Aqueles irmãos do Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva] eu conheci todos do Banco do Brasil por que eu ia pagar as duplicatas do comércio do meu pai e os via lá.

Quando tu falas que começaste a tocar com 22 anos, isso tu falas profissionalmente? É, por que eu cantava, eu já arranhava um violãozinho, tocava Eu só quero um xodó [de Dominguinhos e Anastácia, sucesso na voz de Gilberto Gil], tocava flauta doce, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo [repete enfatizando]. Quando chega em 77, em 76 eu saí de casa, em 77 é que aí eu digo que é o meu marco: eu participei de um show chamado Boca do Lobo, de [o compositor] Sérgio Habibe. Esse show foi o primeiro com características de show, com banda, com [o violonista] Joaquim Santos, [o compositor] Ronald Pinheiro, e eu na flauta começando. Por que na realidade, meu professor de música, meu primeiro mestre de música, é o Sérgio Habibe, é meu mestre mesmo! Quando [o violonista] João Pedro [Borges, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] volta à São Luís, em 97, eu já o conhecia, ele de certa forma passou a ser o meu mestre, me convidou para trabalhar no Musiceuma junto com ele, aí foi que eu comecei a reforçar mais a ideia de ser educador musical. Ele reforçou isso. Eu comecei essa carreira, de 77 pra cá, comecei no show dele [de Sérgio Habibe], ele trouxe uma flauta do Rio de Janeiro, daqui a pouco eu tava tocando com todo mundo. Eu é que fui o “Bota pra Moer”, até enquanto surgiu o [flautista João] Neto, Paulinho, Lee Fan. O que eu quero agora é a função de educador. Até por que eu gosto de ensinar, sempre gostei de ensinar, eu ficava dando aula em mesa de bar [risos].

Se tu pudesses citar três músicos que foram bem influentes pra ti, do começo até agora… Palito foi o primeiro cara que eu ouvi tocar. Mas, claro: Sérgio Habibe, Chico Maranhão e João Pedro Borges. Por que Chico Maranhão também influenciou muito na minha vida, estive em São Paulo, acompanhando-o no Lances de Agora [1978]. As pessoas às vezes dizem [imita um cochicho] “ah, por que Chico Maranhão é um cara chato” [volta ao tom normal], quem é amigo dele não acha. Eu sou amigo dele, de ele ligar “vem comer aqui um tabule comigo”.

Esses três nomes que tu citaste, de João Neto, Lee Fan e Paulinho, seriam os nomes de destaque, na flauta, hoje, no Maranhão? Sim, sim. A gente não pode negar o Serra [de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], o grande Serra, pelo tempo, pela história dele, aquela qualidade que ele tem de tocar, lembrando Copinha, lembrando Carrilho, inclusive o Sérgio me disse isso uma vez, “Zezé presta atenção, toca igualzinho”.

Você vive de música? Vivo de música como professor de música. Sou funcionário do Estado e hoje, depois de uma pós-graduação, estou professor substituto na UEMA. Como instrumentista, o que eu ganhava era pra pagar a passagem no outro dia e tomar uma e tal. Então, sobrevivo de música, como professor, dou aulas particulares.

Tu tens uma preocupação muito grande com o registro da obra de chorões, seja no disco [Choros Maranhenses, de 2006] do Instrumental Pixinguinha, seja no Caderno de Partituras [2012]. A gente percebe que o registro ainda é uma fraqueza, mesmo com todas as tecnologias hoje disponíveis. A que tu creditas essa pobreza de registro? O pouco registro se deve a certo descaso nosso mesmo. Nós admiramos muito o que é dos outros, muita besteira. Se você ver pessoas como Cleômenes [Teixeira, compositor], Tomaz de Aquino, eram grandes professores, saxofonistas, mas não houve nenhum registro. As condições técnicas não havia, agora é que estão surgindo gravadoras com nível, mas na década de 70 não havia onde, edição de partituras era raridade. Agora é que a Escola de Música vai ter um banco de partituras, quer dizer, quase 40 anos depois [da fundação da EMEM]. O Rabo de Vaca foi um grupo que eu sempre disse que é uma escola, muita gente passou por ele: Ronald Pinheiro, [o compositor] Josias Sobrinho, [o compositor] Beto Pereira, [o contrabaixista] Mauro Travincas, todo mundo passou, mas tem pouco registro. Josias deve ter uns k7s. A gente não ligava para registrar, não havia recursos tecnológicos, nem apoio.

O Rabo de Vaca foi importante para o desenvolvimento da música do Maranhão. De que outros grupos você participou? O mais importante foi o Rabo de Vaca. O Rabo de Vaca é a cabeça de Josias. Ele tinha saído do Laborarte e eu entro no Laborarte, era muito amigo de Nelson Brito [ator e diretor teatral, ex-diretor do Laborarte], que trabalhava numa loja de discos de um tio dele, tava todo mundo debandando, e havia um departamento de artes, eu entrei, o período em que fiquei no Laborarte, Josias saiu, mas o [a peça] Cavaleiro do Destino ainda estava sendo encenado. Eu entrei para tocar violão nas peças. Em outubro [de 77] o Aldo Leite monta uma peça chamada Os Saltimbancos, e se não me engano, foi o segundo lugar em que foi feito com músicos ao vivo. No Rio de Janeiro era feito com músicos, depois no Maranhão. Nos outros lugares era playback. Na do Maranhão o Aldo Leite convidou Josias, “monta um grupo”, e se fez ao vivo. Josias convidou Beto Pereira, Mauro Travincas, acho que [o percussionista] Manoel Pacífico e Vitório Marinho, um cara que pouca gente fala, um moço cego que tocava violino. A gente tinha público. Foi um grupo muito importante para a música maranhense. Depois disso, Beto Pereira fez um grupo para tocar música maranhense em barzinhos, tocou muito, o Amor de Canela, era eu, [o percussionista] Carbrasa, Mauro, [o percussionista] Jeca e Beto, o banda líder [aportuguesa o band leader]. E no Maçaroca [1986], disco dele, ele gravou uma música nossa [Campo Cidade, parceria de Zezé Alves e Paulinho Lopes]. Depois teve outro grupo, eu, Omar Cutrim, Fazendo Mel, que era uma música dele…

E o [Instrumental] Pixinguinha? Aí sim, aí é que vem o Pixinguinha. A gente já era professor da Escola de Música, eu, Marcelo [Moreira, violonista], [o bandolinista] Raimundo Luiz, quando [Francisco] Padilha chegou, começou a ser diretor da Escola, teve essa ideia, junto com Marcelo, que era carioca, a escola precisava criar um núcleo de música popular, criaram a Big Band junto com Tomaz e Marcelo encabeçou, de certa forma, a criação de um grupo de choro. Por que um grupo de choro? Por que é a nossa música, com raiz no samba. Por que Instrumental Pixinguinha? Por que foi o maior arranjador e não sei o quê e não sei o quê. O Instrumental Pixinguinha vingou, tocamos em muitos lugares, fez um trabalho belíssimo, aquele cd, Choros Maranhenses, pioneiro, que esse caderno [aponta para o Caderno de Partituras] é uma continuidade dele, aqueles dez choros e mais alguns. Pra não falar dos compositores que eu acompanhei. Com [o cantor, compositor e violonista] Chico Nô e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira] a gente teve um trio chamado Trio Tom, tocávamos Bossa Nova, é outro grupo de que participei. Toquei muito no Cacuriá de Dona Teté. De início era só caixa, depois tiveram a ideia de botar flauta, depois eu fiquei tocando, viajei o Brasil todo por conta do Cacuriá de Teté.

E atualmente? Atualmente eu sou titular, fundador do Pixinguinha. Emérito [risos]. Atualmente o que eu quero mesmo é essa coisa de educador musical.

Quando tu começaste a dar aulas na Escola de Música? Essa coisa da Escola de Música é interessante. Teve um governo, na época da Olga Mohana, ela foi ao Rio de Janeiro, e alguém escolheu para ela, uma porção de professores. Estes professores moravam no Seminário Santo Antonio, ela era irmã do padre João Mohana. Os caras ganhavam uma grana, na época coisa de 10 salários mínimos. Nós tivemos Watanabe, grande violinista, Emanoel Martinez, hoje regente do coral de Curitiba, Mércia Pinto, Cidinho Ornelas, então foi um naipe incrível. De repente foi todo mundo embora. Dessa leva o cara que ficou e hoje é uma figura importante é o Marcelo Moreira. Quando Padilha chega, pegou os alunos mais avançados e transformou em professores. Era eu, Raimundo Luiz e alguns outros.

Uma das críticas recorrentes à Escola de Música é a erudição, o distanciamento da pulsação de São Luís, uma coisa mais de cultura popular. Isso parece que vem sendo equacionado nos últimos anos. Vem sim. A Escola, quando ela foi lançada, na época da professora Olga, ela foi pensada nesses moldes, de formar músicos de orquestra. Ela era meio mãe, e dizia “tu vai estudar viola e tu vai estudar piano”, ela era quem dizia. Por um bom tempo ela ficou nisso, ficou nessa insistência. A primeira aluna formada aqui, grande pianista, com [o então governador do estado] João Castelo entregando diploma e tudo, foi a professora Rosimary Fontoura. Hoje em dia se forma muito aluno na área popular, violonista, baterista, cavaquinhista. Quando chega a música popular na escola, que é quando a direção chama Jayr [Torres] pra dar aula de guitarra, Diógenes pra dar aula de contrabaixo, Jeca chegou a dar aula de percussão, abriu concurso, hoje em dia Rogério Leitão é professor de bateria da casa. Essa vertente, chamada núcleo de música popular, ainda hoje em formação, com isso a escola se tornou uma coisa mais popular, encheu. O Jayr Torres faz toda sexta uma coisa chamada Sexta Musical, Sexta Jazz, enche. 90% dos alunos da escola são evangélicos. Isso mudou, se não a escola estaria do mesmo jeito.

Tu tocaste em alguns discos importantes, como Lances de Agora, Pedra de Cantaria [disco coletivo gravado em Belém, reunindo diversos compositores maranhenses, entre eles Chico Maranhão, Josias Sobrinho e Giordano Mochel], Maçaroca, Choros Maranhenses. Eu queria que tu lembrasses outros discos que têm tua flauta. O de Fátima [Passarinho, Voos, 2007] eu fiz uma flauta lá. Com Joãozinho Ribeiro eu participei daqueles shows do Samba da Minha Terra [temporada de 18 shows em bairros ludovicenses produzida por Vanessa Serra] e agora da gravação do Milhões de Uns [estreia de Joãozinho Ribeiro em disco, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a ser lançado em breve], em que ele gravou uma parceria nossa [a música Rua Grande, interpretada por Lena Machado]. De Sérgio eu nunca toquei em nenhum disco dele, ele gravava quase tudo no Rio. Fiz pontas em outros.

O que é o choro pra ti? Que importância tem para a música feita no Brasil? A visão que eu tenho é a que todo mundo tem: o choro como raiz dessa música popular urbana. Tem essa história toda que vocês já conhecem, da década de 30 pra cá, com Noel Rosa, com Pixinguinha. Como raiz dessa música, a mistura do batuque com a música que veio com o colonizador europeu, que criou a escola nacional, tocaram juntos com os músicos que vieram nas caravelas, e daí, teve o momento de renascimento, a partir do momento em que os caras vão estudar em Berkeley, depois a chegada da Odete Ernst Dias, que é uma mãe de todos os flautistas. O choro, a importância dele é inconfundível, inegável. Tem que estudar o choro para compreender a música brasileira. Aquela máxima de que tudo é choro, de repente vale, tudo é choro, tudo é baião. Luiz Gonzaga quando chegou no Rio, chegou tocando choro. Aliás, Gonzaga é nosso primeiro músico pop.

Como tu observas o choro hoje? Já está começando a se universalizar. Já está tendo outras influências, já estão fazendo choros mais modernos. Se você pegar o [violonista] Guinga, já faz choros mais elaborados, com a influência do jazz – Influência do Jazz [Carlos Lyra] é o nome de uma música da bossa nova [risos] – ele não tá parado, ele tá evoluindo. A pessoa hoje em dia já não estuda choro só pra tocar choro como antigamente. Ele está enriquecendo. O cara pega, estuda, vai atrás, vai fazer uma boa música.

Que nomes tu destacarias nessa cena? Gostei muito do [saxofonista] Eduardo Neves. Alguns que eu nunca mais ouvi falar, mas são muito interessantes, o [saxofonista] Zé Nogueira, o [saxofonista Mauro] Senise, assim, que eu conheço mais. Atualmente, que eu conheço, o Guinga, que a gente pode considerar um cara do choro. Tem aqueles já mais tradicionais, [o trombonista] Zé da Velha, [o trompetista] Silvério Pontes. É tanta gente que não dá para dizer um ou dois só, tem muita gente fazendo choro.

Tu disseste que tua obra como compositor é pequena. Saberias precisar em números? Quantas composições? Ah, poucas. Por que na realidade eu fiz esse choro, Candiru [parceria com Omar Cutrim gravada em Choros Maranhenses], tenho duas músicas só, mais, assim. O resto tudo tá no baú, eu toco quando me lembro. Choro é só essa. O resto são baladas, são músicas seis por oito. Com Paulinho Lopes eu tenho umas coisas que nunca foram gravadas.

Independentemente de compor choro, tu te consideras um chorão? [Pensativo, demora a responder] Não. Não. Essa resposta é meio doída, mas eu não me considero um chorão, não. Por que eu me interessei pelo choro quando foi criado esse grupo que eu tive que aprender a tocar, a mergulhar. Por que com o Rabo de Vaca eu tocava era os bois da gente, os baiões, frevo, xote, xaxado. Quando era criança, o primeiro cara que eu ouvi tocando Saxofone, por que choras?, mestre Palito, todos aqueles discos de Pixinguinha, Altamiro Carrilho na banda do Palhaço Carequinha, tudo aquilo eu ouvia.

Como tu observas o atual momento do choro no Maranhão? O choro no Maranhão, se for pegar na raiz, a gente tem sempre os antigos, por que eles tocavam choro mesmo, todo mundo tocava, tocou-se muito choro. Se você pegar, todo mundo, Cleômenes, Palito, seu Raimundo Amaral. Aqui em São Luís, a referência que eu tenho é o [Regional] Tira Teima, é Ubiratan [Sousa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Paulo Trabulsi. O Pixinguinha foi o segundo grupo. Depois do Tira Teima e do Pixinguinha, não demorou muito, o Pixinguinha reinou um pouco, aí começaram a surgir, por exemplo, o Chorando Callado, com Tiaguinho [o saxofonista e clarinetista Tiago Souza], hoje tem Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista], que tá um figura, indo gravar em Brasília, São Paulo, tem esse menino do bandolim, o Robertinho Chinês [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], tem o João Eudes, os filhos de Osmar, tem Osmar [do Trombone], que eu fico muito feliz por ele, foi visitar o filho, os colegas adoraram, ele virou estrela, está gravando o disco lá em Minas. Quer dizer, continua aquela coisa, Clube do Choro sem sede, o povo se reunindo aqui, aqui, ali, mas tem uma geração boa tocando. Meus alunos, quando eu falo, dou o caderno pra todo mundo, “ah, tocar choro” e tal. Tá todo mundo tocando choro.

Nesse processo de pesquisa para o Caderno de Partituras, quais foram as principais dificuldades? Não houve muitas dificuldades. As 10 partituras do disco eu já tinha. Minha ideia foi recolher mais uma de cada. Eu editei, fui nos autores pra corrigir. Escolhi algumas que achava muito importantes. Cesar Teixeira não podia deixar de ter. Algumas partituras eu escrevi, mas a maioria os autores já me deram.

Quem são os teus compositores preferidos da música popular no Maranhão? Aí vão entrar as paixões. A ordem é aquela mesminha: Sérgio Habibe é um cara maravilhoso, o Chico, Josias, tem um cara que eu tenho lembrado muito dele agora, por causa dessa história do Bandeira de Aço, que é o Mochel. Cesar Teixeira inegavelmente, tem características muito próprias, de samba, tem aquela consciência política dele muito forte. É um cara muito especial.

Quais os teus próximos projetos no campo da música? Me aprofundar mais. Fazer um mestrado, se der. Aprofundar.

Qual é a diferença entre o Zezé da Flauta e o Zezé Alves? O Zezé da Flauta surgiu a partir do momento em que eu peguei uma flauta e comecei a tocar em shows, com todo mundo. É a história do “Bota pra Moer”, eu chegava e o pessoal, “olha Zezé!”, e eu onde chegava tirava, e tocava, de graça, toquei muito, tava aprendendo, toquei muito romanticamente. Esse é o Zezé da Flauta. O Zezé Alves é o educador, que começa a racionalizar mais as coisas. Todos dois são legais [risos]. As pessoas me chamam de Zezé da Flauta, gente que me reencontra depois de não sei quantos anos. As pessoas que me conhecem hoje já me chamam de Zezé Alves.

Essa distinção entre um Zezé e outro tem a ver com o consumo de álcool? Não. Por que Zezé Alves ainda bebeu pra poxa [risos]. Todo mundo que passa por essa cirurgia do coração muda muito. Eu acho que é por que o cara vai lá e volta [risos]. Mas não tem a ver não.

Você vê algum futuro para o choro no Maranhão? Não só para o choro. Teu programa [o Chorinhos e Chorões que Ricarte Almeida Santos apresenta aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], uma iniciativa como a do Alê Muniz, lembrar os 35 anos de um disco [o show em que o projeto BR-135 homenageou o Bandeira de Aço no Teatro Arthur Azevedo]. A música do Maranhão precisa se organizar. Elizeu Cardoso, Bruno Batista, há uma moçada nova muito boa, são mais organizados. A gente era mais romântico.

Tu hoje estás mais concentrado na função de professor. Mas o que te tiraria de casa para um palco ou um estúdio? O convite de grandes amigos, participar de um projeto interessante, com minha turma. Mas mesmo para pessoas de hoje eu não me nego. É só me ligar e marcar que eu vou.