Projeto celebra o músico Ernesto Nazareth

O IMS lança hoje site que resgata composições, partituras e documentos do pianista, que faria 150 anos em 2013

Artista, que foi um dos arquitetos da identidade musical brasileira, deixou 211 peças para piano

JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O IMS (Instituto Moreira Salles) coloca hoje no ar um site com músicas, partituras e documentos que marcarão a contagem regressiva para a comemoração, no ano que vem, dos 150 anos de nascimento de Ernesto Nazareth (1863-1934), compositor e pianista que, por meio do choro, foi um dos arquitetos da identidade da música brasileira.

Nazareth deixou 211 composições para piano, como “Apanhei-te, Cavaquinho”, “Odeon”, “Brejeiro” ou “Dengoso”. O pianista brasiliense Alexandre Dias, 28, que abastecerá o site em “uploads”, diz existirem cerca de 2.400 gravações do compositor, das quais 2.100 poderão ser ouvidas em até dois meses, quando os arquivos virtuais estiverem inteiramente disponíveis.

Bia Paes Leme, coordenadora do acervo de música do IMS, diz que “Nazareth nunca chegou a submergir no esquecimento, mesmo se, nos anos da bossa nova, seu repertório parecesse um pouco ‘démodé'”. Mas o compositor recuperou seu antigo fôlego nos anos 1980, quando músicos buscavam se firmar por critérios nacionalistas próprios ao choro.

Boa parte das partituras originais e documentos do compositor estão no IMS, cedidas por Luiz Antonio de Almeida, biógrafo do compositor que recebeu o acervo como herança. Mas há também documentos na Biblioteca Nacional, no Rio, e muita coisa de colecionadores.

O culto à memória de Nazareth, por meio da restauração de partituras e da coleta de gravações, é um trabalho antigo, feito por mãos de reconhecida erudição, como a da musicóloga Sara Cohen ou da cravista Rosana Lanzelotte, que há três anos incluiu Nazareth entre compositores brasileiros com partituras para “download” no Instituto Música Brasilis.

“O que pretendemos é que nosso site possa ser a referência maior de Nazareth”, diz Bia Paes Leme.

Ao lado de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Nazareth concebia o piano como o local de encontro entre o erudito e o popular. Segundo Alexandre Dias, é mais que óbvio que os grandes intérpretes de Nazareth sejam músicos de formação clássica, como Maria Teresa Madeira, Aloysio de Alencar Pinto, ou, sobretudo, Arthur Moreira Lima -um “cult” discográfico no Brasil, em 1975 e 1977, e nos Estados Unidos em 1982, por gravações em que Nazareth foi o autor exclusivo.

Alheio aos excessos e escândalos da boêmia, Ernesto Nazareth foi um pacato professor de piano num país em que se civilizava com música própria, dono de ritmos e harmonias de raízes populares urbanas. Foi um solitário, numa versão tropical e tardia de Chopin ou Lizst. Sustentou o pai e quatro filhos como músico de salão.

Direitos autorais eram coisa rara. “Se dependesse de minhas composições, morreria de fome”, disse certa vez.

Nota do blogue – Domingo (25), no Chorinhos & Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz), participo, no programa de Ricarte Almeida Santos, de uma homenagem a Ernesto Nazareth. Sintonizem!

Choros revelados

Dois cliques de Val Monteiro, manhã de hoje, Chorinhos & Chorões, ocasião em que participei, sempre uma honra e um prazer, do programa de Ricarte Almeida Santos, lançando o ótimo Visitação, disco de choro com parte da obra de Biné do Banjo, em cujas composições visita ritmos da cultura popular do Maranhão, vários sotaques de bumba meu boi, tribo de índio, a sambatucada dos Fuzileiros da Fuzarca e o tambor de crioula, entre outros. Tudo em arranjos caprichadíssimos do mestre Ubiratan Sousa e mais não digo por que o disco merecerá um post exclusivo.

Na segunda foto o titular do programa e o blogueiro escolhendo algo de Visitação para tocar; na primeira, além dos já citados, o produtor Tote da Madre Deus (de boné), Biné do Banjo e o assistente Douglas da Liberdade.

LançamentoVisitação terá show de lançamento nesta quinta-feira (22), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo. O ingresso custa R$ 20,00, com um cd de brinde.

Nazareth – Domingo que vem (25), este que vos perturba volta ao programa: prestaremos homenagem a Ernesto Nazareth, cujos 149 anos de nascimento serão celebrados nesta terça-feira (20), data em que o Instituto Moreira Sales, guardião do acervo do autor de Brejeiro, Floureaux e Odeon, entre muitas outras, lança o site Ernesto Nazareth 150 anos, em contagem regressiva para as grandes e merecidas homenagens que certamente tomarão os palcos do país ano que vem (o IMS sai na frente, com show já agendado para esta terça-feira em sua sede, no Rio de Janeiro). Mas isso é assunto para domingo, no Chorinhos & Chorões, se liguem.

Choro poliglota traduzido em “Língua Brasileira”

A música colorida da estreia de André Parisi

POR RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO

Dois amigos, um chega ao escritório de trabalho pabulando de sua mais nova aquisição chorística. Coloca-o para tocar, gabando-se de sua recente descoberta e o outro imediatamente aprova a beleza anunciada pelo primeiro, que havia lido uma belíssima resenha do Tárik de Sousa na CartaCapital e, sem pestanejar, encomendou o disco pela internet, caminho cada vez mais natural hoje em dia, numa São Luís que padece da falta de lojas de discos e livrarias.

Era Língua Brasileira, do jovem clarinetista André Parisi, disco independente lançado em 2011 e distribuído pela Tratore. Os dois amigos, também colegas de trabalho – parece óbvio e/ou redundante, mas são duas coisas diferentes, diga-se –, ficaram ali, no escritório, trabalhando e ouvindo o disco em som ambiente. Ao fim, play novamente e assim até a hora do almoço.

O regional Língua Brasileira, que acompanha André Parisi (em pé) ao tocar a homônima

“Surgiu o nome, a partir da ideia de que não falamos mais a língua portuguesa; e, na música, os lundus, maxixes e polcas também compõem uma nova linguagem musical, a língua brasileira”, explica Filosofando num boteco, curto texto no encarte do disco dando conta da urdidura do mesmo. Por ali também cabem baião, frevo e sambas, tocados em modo choro, tudo ali desde sempre, tudo soando tão novidade.

Conclusões de ambos: fazia tempo que não ouviam um disco inédito e, ainda por cima, de um jovem músico, tão bom, tão arrebatador.

Para o segundo, o primeiro tinha toda razão ao propagandear sua aquisição choro-fonográfica, de fato, um achado da “arqueologia musical contemporânea”, por tudo que esse disco traz de extraordinário. Os dois amigos, o leitor já percebeu faz  tempo, eram os autores deste texto, postado quase simultaneamente em seus blogues. Mas voltemos à Língua Brasileira.

Um repertório autoral e inédito, nos dando a sensação de grandes clássicos; daí ficar bem clara, até aos ouvidos menos atentos, uma pegada moderna, de substância tradicional. Algo raro nos discos de música instrumental brasileira. Coisa que alguns até se arriscam a fazer, mas, ou caem no tradicionalismo repetitivo, sem nada de novo, ou escorregam num vanguardismo sem alma, sem substância, até com certo virtuosismo, mas sem tocar ou revelar a própria identidade. Na maioria das vezes são acometidos, como diria Nelson Rodrigues, de uma síndrome de vira-latas, fuçando acordes em busca de ser algo que não são, ou exibindo-se como maratonistas, narizes empinados, as mãos capazes de tocar não-sei-quantas notas e/ou acordes por segundo.

Definitivamente isso não é o que ocorre em Língua Brasileira. André Parisi, jovem e exímio clarinetista, mostra saber equacionar bem essa natureza da cultura brasileira em permanente e intensa transformação, apresentando- nos um disco com alma e idioma brasileiro, naquilo que ele tem de mais original, a multiculturalidade. Um disco de sonoridade límpida, quase transparente e ao mesmo tempo colorida. Lúdica. Lúcida. Lírica.

A este par dá a impressão de um lindo vitral multicolorido em forma de música – mais precisamente de choro – no qual é possível perceber todas as cores, ou seria todas as sonoridades, tomando os ouvidos de agradável sensação e o coração de aprazível sentimentalidade. A música de André Parisi – ele assina todas as composições e arranjos – é mais colorida que a fotografia e design de Fernando Angulo, que emoldura o rapaz barbado e sua clarineta na capa, contracapa e encarte – ali onde aparecem Léo Nascimento (violão oito cordas), Dado (flauta e saxofone), André Kurchal (pandeiro), Júlio César (cavaquinho) e Marcos Cruz (violão sete cordas), regional que entra em campo sob o comando de nosso clarinetitular. Também falam a Língua Brasileira Osvaldinho da Cuíca (competência e beleza no instrumento que lhe dá sobrenome), Charlie Flesch (pandeiro), Felipe Soares (sanfona) e Ruy Weber (direção musical).

Com o mérito que lhe confere o título informal de “embaixador do Choro no Maranhão”, um dos autores deste texto recebeu, da assessoria do artista, o disco, em sua residência. Muito justo!

Neste domingo (4), às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz),  ele compartilha com os ouvintes do Chorinhos e Chorões este Língua Brasileira. Certamente será um excelente programa, pelo talento apurado de quem fala e toca, sem constrangimento algum, a nossa pluralíssima  Língua Brasileira da Música, que também pode se chamar de Choro – ambos assim mesmo, em maiúsculas. E nesse território amplo, Parisi se revela um grande poliglota.

Sambalanço, bumba e jazz

Aos órfãos do Clube do Choro Recebe, duas ótimas pedidas em São Luís podem fazê-los/nos relembrar o saudoso acontecimento semanal que deu uma sacudida na cena choro/musical ilhéu.

O primeiro, um show isolado. O segundo, uma temporada. Dizer, do primeiro, simplesmente isso, não é, no entanto, diminuir o acontecimento. Do segundo, basta dizer que torcemos para que a temporada dure ad infinitum, mesmo que nosso latim não dê pro gasto.

O que quero anunciar aqui são dois acontecimentos imperdíveis: o primeiro, o show Sambalanço, que Léo Capiba apresenta nesta quinta-feira (10), às 21h, no Danado de Bom (Cohajap); o segundo, o projeto Canto do Choro, as apresentações que vem realizando, já há dois sábados (e neste agora, 12), às 18h, no Bar Canto da Cultura (antigo Cia. Paulista, Praia Grande), o trio Bumba Jazz.

A elegância e o sorriso inconfundíveis de Capiba voltam ao palco

Por diversos motivos é imperdível o show de Léo Capiba: pelo raro talento do artista cearense radicado em São Luís, pelo repertório, basta lembrarmos de suas emocionadas, emocionantes, vigorosas e descontraídas interpretações para clássicos como Chiclete com banana (Almira Castilho/ Gordurinha), Espelho (Paulo César Pinheiro/ João Nogueira), Orora analfabeta (Gordurinha/ Nascimento Gomes) e Tereza da Praia (Tom Jobim/ Billy Blanco, à época do Clube do Choro cantada geralmente em duo com outro Léo, o Spirro, que acaba de lançar disco dedicado à obra de mestre Cartola, compositor da predileção de ambos), entre tantas outras que espero (re-)vê-louvi-lo cantar, além, é claro, do fino acompanhamento, que fará jus ao grande cantor e percussionista (embora ainda inédito em disco e pouco (re-)conhecido) que é Léo Capiba: o Quinteto Bom Tom, formado por Celson Mendes (violão e direção musical), Daniel Miranda (trombone), Fleming (bateria), Jeff Soares (contrabaixo) e Miranda Neto (trompete).

Desfile de talentos no Canto da Cultura, Praia Grande

Também por diversos motivos são imperdíveis (embora eu tenha perdido as duas primeiras) as apresentações que o trio Bumba Jazz vem realizando aos sábados, numa iniciativa, louvável, diga-se de passagem, também, de dar alguma qualidade às apresentações musicais e ao cenário da Praia Grande em geral. Só os talentos individuais dos virtuoses que compõem a trinca já fazem valer o ingresso: Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Rui Mário (sanfona). O repertório ajuda: clássicos de nomes como Antonio Vieira, Baden Powell, Cesar Teixeira, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Josias Sobrinho, Pixinguinha e Waldir Azevedo, entre outros, recriados e virados do avesso à base de jazz, bumba meu boi e outros temperos locais, além de temas autorais dos discos solo dos dois primeiros. Vale lembrar que este trio é um excerto do Choro Pungado, grupo que além deles tinha João Neto (flauta) e Luiz Cláudio (percussão), que durou tempo suficiente para deixar saudades. Vale destacar ainda as participações especiais, a cada sábado: no passado (perdeu!), Lena Machado (voz) e Zé Carlos (percussão); neste (12, vai perder?), a diva Célia Maria (voz).

Para o show de quinta (o dia, não a categoria), os ingressos custam R$ 15,00; para o de sábado, R$ 10,00.

Obituário: Alencar Sete Cordas

Faleceu na noite de ontem o músico cearense José de Alencar Soares, o Alencar Sete Cordas, que vivia em Brasília/DF, desde o final dos anos 1970. Ele sofreu um infarto logo após tocar no Clube do Choro da capital federal, de onde era habituè e de que foi um dos fundadores. Ainda houve tentativa de reanimação no Hospital de Base, mas ele não resistiu.

Alencar dedicava-se também ao ensino do sete cordas, primo menos conhecido do violão, notável nas mãos de nomes como Raphael Rabello, Yamandu Costa, Zé Barbeiro e do próprio Alencar, de quem ganhou o sobrenome artístico.

Tinha 60 anos. No vídeo acima, ele e Jorge Cardoso (bandolim) desfilam a beleza de Santa Morena (Jacob do Bandolim). Leia aqui uma bela matéria do amigo Daniel Cariello, hoje radicado na França, sobre o músico.