A Encantaria de Luiz Claudio

O percussionista Luiz Claudio. Foto: Rivanio Almeida Santos/ Chorografia do Maranhão
O percussionista Luiz Claudio. Foto: Rivanio Almeida Santos/ Chorografia do Maranhão

 

 

Em depoimento à Chorografia do Maranhão, série publicada pelo jornal O Imparcial, o percussionista paraense Luiz Claudio lembra a chegada por acaso à São Luís, onde acabou fixando residência graças a uma paixão: um tambor de crioula que ou/viu na Praça Deodoro.

Um dos mais renomados percussionistas do Brasil, Luiz Claudio já tocou com muita gente grande: Celso Borges, Cesar Teixeira, Ceumar, Chico César, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro, entre muitos outros, além da irmã Anna Claudia. Integrou ainda grupos como o Som da Lata – em que alunos, além de aprender a tocar percussão, confeccionavam seus próprios instrumentos a partir de materiais reciclados – e o Choro Pungado, um dos mais inventivos da cena choro do Maranhão, com sua mistura entre o gênero e ritmos da cultura popular do estado.

Hoje (15) o músico apresenta o show Encantaria no projeto Palco 42, do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca. É um show solo de percussão, em que o músico exibe suas múltiplas facetas, tocando diversos instrumentos, de cajon a caixa do divino, passando por tambor grande, zabumba e maracá, entre muitos outros.

A percussão orgânica de Luiz Claudio é acompanhada por trilhas gravadas. É um mergulho profundo do músico pelos batuques, os instrumentos às vezes configurando-se extensões de seu corpo.

A apresentação acontece na Sala Cecílio Sá (Laborarte), às 19h. Na sequência, outra apresentação de peso: um dos maiores compositores brasileiros, Chico Maranhão relembra clássicos de sua trajetória, iniciada ainda na década de 1960.

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

Utilidade pública: discografia da gravadora Marcus Pereira disponível no youtube

Num dia triste para a música, com as notícias dos falecimentos de George Martin e Naná Vasconcelos, uma notícia alvissareira me alcança por um e-mail do poeta Reuben da Cunha Rocha: toda a discografia lançada pela gravadora Marcus Pereira está disponível para audição no youtube (e download via torrent).

A gravadora lançou mais de 100 discos entre 1967 e o início da década de 1980. O primeiro, Onze sambas e uma capoeira, reunia, em 12 faixas, os irmãos Chico e Cristina Buarque e Adauto Santos interpretando a obra de Paulo Vanzolini. Uma das raridades desta gravadora em que, afinal de contas, tudo é raridade, é a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira, o terceiro disco brinde distribuído pela agência de publicidade de Marcus Pereira a seus clientes por ocasião das festas de fim de ano. Logo ele abandonaria a publicidade, dedicando-se exclusivamente à gravadora, passando a realizar talvez o mais importante mapeamento musical brasileiro da história. Algumas dezenas de discos e pouco mais de uma década depois, acossado por dívidas, Marcus Pereira se suicidaria.

Foi ele o responsável pelo lançamento de algumas pérolas do cancioneiro nacional: Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Arthur Moreira Lima, Banda de Pífanos de Caruaru, Canhoto da Paraíba, Carlos Poyares, Cartola, Celso Machado, Chico Buarque, Dércio Marques, Dilermando Reis, Donga, Doroty Marques, Elomar, Luperce Miranda, Marcus Vinicius, Paulo Bellinati (do Pau Brasil), Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial, Quinteto Villa-Lobos e Sérgio Ricardo, entre outros, tiveram álbuns lançados pela Discos Marcus Pereira.

Lances de agora. Capa. Reprodução
Lances de agora. Capa. Reprodução

Os maranhenses Irene Portela, Papete e Chico Maranhão lançaram discos pelo selo. A codoense lançou Rumo Norte em 1979, entre repertório autoral e regravações de João do Vale; no ano anterior o visionário Marcus Pereira lançou Bandeira de aço e Lances de agora, ambos citados entre os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, em enquete do jornal Vias de Fato.

Rumo Norte. Capa. Reprodução
Rumo Norte. Capa. Reprodução

Por lá Papete lançaria ainda Água de coco, Berimbau e percussão e Voz dos arvoredos; Chico Maranhão, além do disco brinde dividido com Renato Teixeira e de Lances de agora, lançaria ainda Maranhão (comumente conhecido como Gabriela, por seu frevo-título), e Fonte nova.

O acervo da gravadora Marcus Pereira está com a Universal Music (que adquiriu a EMI), que não tem interesse comercial em relançar este precioso catálogo, ao menos não com a urgência necessária. “Grande parte da música brasileira está simplesmente se perdendo por não haver interesse comercial”, declarou-me o jornalista Eduardo Magossi, que aborda a história da gravadora em sua tese de mestrado. Ele foi o responsável pelo relançamento dos quatro discos da série História das Escolas de Samba, dedicados à Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro e anuncia novidades para 2016, sem adiantar que títulos serão relançados.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

De um lado burocratas preocupados apenas com lucros de grandes companhias, de outro lado o poder público despreocupado com este imenso patrimônio cultural. Enquanto isso, viva a iniciativa do anônimo que decidiu disponibilizar esta valiosa coleção, de audição obrigatória para qualquer interessado em música brasileira.

[Update: Recomendando-me este texto de sua autoria o jornalista Eduardo Magossi alertou-me de uma incorreção no texto, aqui corrigido às 14h13; o primeiro disco lançado por Marcus Pereira foi Onze sambas e uma capoeira, e não a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira]

Bumba meu dub

Vibração poética. Foto: ZR (12/12/2015)
Vibrações poéticas. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.

Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).

Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.

Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.

Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.

“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.

Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.

“Lelé da cuca num dia de sol” (meu repertório de ontem)

Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa
Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa

 

Quando comecei a colecionar música mais a sério o vinil estava caindo em desuso e o cd significava o futuro – agora as coisas se invertem. Vi muita gente substituir coleções inteiras. Eu tinha uns poucos vinis e comecei a comprar tudo no formato que então começava a se tornar mais popular.

Não sou um grande colecionador de vinis, embora tenha mantido alguns, sobretudo títulos nunca relançados em formato digital, a exemplo dos de Chico Maranhão lançados pela gravadora Marcus Pereira.

Apesar disso, não hesitei em aceitar o convite do amigo Welbson Madeira para o ato “Vinil: tempos de resistência”, do Comando Local de Greve da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ontem (9), na Área de Vivência. Por diversas razões: re-encontrar pessoas queridas com quem comungo sentimentos e ideologias, trocar ideias sobre música, o que é sempre um bom tema para muitos papos, além de erguer a voz contra o autoritarismo dominante na universidade, que cada vez mais tem tentado esterilizar o pensamento e a crítica – o que é muito arriscado num ambiente como o acadêmico, não bastasse o que têm feito o sucateamento e o produtivismo ao longo dos últimos anos.

Catei os vinis, convidei o amigo-irmão Otávio Costa, leitor fiel e atento deste blogue, e nos mandamos. Os que levamos vinis éramos djs por uma tarde: eu, Otávio, Cláudio Mendonça, Welbson, seu filho Ernesto Vandré, inclusive atendendo a pedidos.

Agulha e microfone livres, saudei o ato, sua organização, agradeci o convite e abri os trabalhos com Bandeira de aço (Cesar Teixeira), faixa-título do disco homônimo de Papete, lançado por Marcus Pereira em 1978. Na sequência ataquei de A vida de seu Raimundo (Chico Maranhão), do Fonte nova de Chico Maranhão, lançado pela mesma gravadora. Pra quê me deram liberdade? Antes de cada música eu ia contando histórias. Desta, lembrei de uma entrevista em que o autor me disse ter sido inspirada no assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar brasileira.

Papeei, namorei vinis alheios – sobretudo o duplo Na quadrada das águas perdidas, de Elomar, da Bia – e o ato vespertino seguia animado pelo revezamento de djs e locutores de ocasião. Como tudo o que é bom dura pouco, logo eu teria que partir. Anunciei duas saideiras: A bola do jogo (Fred Zeroquatro), de Samba esquema noise (1994), estreia dos pernambucanos do mundo livre s/a, e Passarinho, de João do Vale, na interpretação de Irene Portela, lançada pela codoense num disco da Marcus Pereira, Rumo Norte (1979).

Já estava nos abraços de despedida quando me chamaram para uma foto (a que abreilustra este post) e vi, sobre a mesa, uma coletânea de Paulo Diniz – que estava entre os discos repetidos que eu havia levado. Não me contive. Contei a história da música, cujo título foi retirado de uma frase (que ficou de fora da versão final) do Catatau de Leminski e mandei ver Ponha um arco-íris na sua moringa (Paulo Diniz e Odibar), espécie de faixa bônus de minha participação no ato.

Saí, na sequência, ao som de Um chope pra distrair, também de Paulo Diniz, que me foi oferecida por Marizélia Ribeiro. Parece que a coisa vai pegar. Se nem o calor nos esmoreceu, a depender da disposição deste bando, o evento deve ganhar periodicidade. A conferir.

*

Ouçam Paulo Diniz em Ponha um arco-íris na sua moringa:

Júlia Emília lança livro com vivências do Teatrodança como parte das comemorações dos 30 anos do Grupo

Vivendo Teatrodança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução

 

A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.

Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.

A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.

Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.

No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.

Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.

Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?

Depois da MPM

FLÁVIO REIS*

Trupe que gravou o LP "Lances de agora", de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de "Em ritmo de seresta" (de onde copiei a legenda)
Trupe que gravou o LP “Lances de agora”, de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de “Em ritmo de seresta” (de onde copiei a legenda)

Nos últimos tempos novos trabalhos sobre música popular e identidade cultural no Maranhão vão recolocando um tema que se tornou, aos poucos, incômodo entre os músicos e controverso entre comentaristas, apesar de relativamente aceito entre radialistas e produtores locais: a categoria música popular maranhense ou MPM. Uma referência obrigatória encontra-se ainda em 2004, no debate entre Ricarte Almeida Santos e Chico Maranhão, em dois artigos claros e densos, onde se colocou, de um lado, a inadequação restritiva do termo, utilizado a partir de meados da década de 80, considerado apenas uma receita de sucesso atrelada à estetização de ritmos populares com que se tentou reduzir a produção musical do Maranhão; de outro, foram enfatizadas as condicionantes históricas que teriam propiciado o seu surgimento, o sentido da “construção de uma canção maranhense moderna”.

Nas palavras do próprio Chico Maranhão: “Naquele momento, a afirmação de nossa identidade era mais importante, e a música popular um veículo significativo, embora naquela época inconsciente. (…) Isto continha um enorme peso estimulador criador na época. Demos a cara pra bater e ascendemos (sic) a fogueira que ainda hoje se vê a brasa arder. Éramos muito jovens e necessitávamos responder às ressonâncias que pairavam nos céus do país. Desta forma, qualquer análise sobre esta sigla MPM tornar-se-á vã se não tivermos clareza desses aspectos mórficos históricos de sua ‘adoção’”.

Em 2005, Roger Teixeira apresentou a monografia Xô do Mato, Boca de Lobo e Rabo de Vaca: a trajetória da música popular maranhense nos anos 70. Trabalho direto, sem trololó acadêmico, escrito acima de tudo por um ouvinte e admirador confesso dos compositores em questão, coloca de maneira sucinta, mas informada, praticamente todas as figuras em cena, com algumas histórias ótimas, daquelas de algibeira, onde afloram traços pessoais e situações emblemáticas do período.

Ao final, o autor afirma que as experiências ocorridas mais ou menos no mesmo momento no Ceará (Fagner, Belchior e Ednardo), no Recife (Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho) e na Bahia (Novos Baianos), além de Minas (Clube da Esquina), foram incorporadas à chamada MPB, tendo seus artistas rumado para o grande centro, o que não ocorreu no caso da geração laborarteana, seja por questões financeiras ou por convicções pessoais, pois “ir para o centro do país seria concordar que fazer música no Maranhão não poderia dar certo”.

O passo seguinte foram as monografias de músicos participantes do Rabo de Vaca. Em 2010, o trabalho do baixista Mauro Travincas, Rabo de Vaca: memória de uma geração musical, onde recupera a trajetória do grupo fundamental que existiu entre 1977 e 1982, capitaneado por Josias Sobrinho, dando continuidade nas experiências com ritmos e melodias levadas a efeito no Laborarte em meados da década e com uma postura decidida de tocar em praças e espaços comunitários na periferia, não ficando preso a apresentações em teatros. Curiosamente, o único show realizado no principal palco da cidade, o Teatro Arthur Azevedo, seria também o último do grupo.

Em 2011, o trabalho do flautista José Alves Costa, A Música Popular Produzida em São Luís na Década de Sessenta do Século XX, sobre o momento anterior ao Laborarte, quando a cena musical da Ilha era dominada pelos programas de auditório, no rádio e depois na televisão, e os grupos de acompanhamento eram no estilo “regional”, com violões, cavaquinho, baixo, percussão e algum instrumento solista, como o sax. Um pouco depois, conjuntos de baile, com formação básica dos grupos de rock, guitarras, baixo, bateria e teclados, como Nonato e Seu Conjunto e Os Fantoches, com vasta influência da Jovem Guarda, mas também de toda tradição dançante dos boleros e outros ritmos com toques caribenhos.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução

No ano passado, foi a vez da monografia de Josias Sobrinho, Aquém do Estreito dos Mosquitos: a música popular maranhense como vetor de identidade. Para o compositor, a construção da música popular maranhense significa a inserção de sua cultura de raiz popular no universo da música popular brasileira, ou seja, os ritmos do bumba boi, principalmente, transplantados para o universo da produção musical brasileira. Em nota indica que “o site de vídeos online YouTube incorporou o gênero ‘boi music’ entre as categorias disponíveis para a classificação de vídeos enviados pelo usuário da plataforma”. A consagração do gênero bumba meu boi como categoria musical estaria no disco Bandeira de Aço, gravado pelo percussionista e cantor Papete, em 1978, com composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

As células rítmicas do boi e do tambor de crioula e sua utilização nas composições é apontada por Josias como elemento distintivo e acompanhada em sua dificuldade de transposição para o disco desde os anos 60. Por exemplo, a toada de tambor de crioula Sanharó, de João do Vale e Luiz Guimarães, gravada por Marinês e Sua Gente, em 1963 ou a conhecida música Tambor de Crioula, de Cleto Júnior e Oberdan Oliveira, gravada por Alcione Nazaré e pelo Nonato e Seu Conjunto. Cleto Júnior explica: “ela não tem a pegada do tambor ainda… ela tem a letra do tambor, ela tem a ideia do tambor, ela tem a homenagem do tambor, ela tem aquela coisa toda do tambor, os versos do tambor (,,,) mas o acompanhamento não tinha ideia de como fazer”. O ritmo terminava sendo levado com toque de umbanda.

Em outros momentos a dificuldade já tinha se colocado. Na gravação do disco do I Festival da Música Popular Brasileira no Maranhão, na Toada Antiga, de Ubiratan Sousa e Souza Neto, realizada sem o acompanhamento percussivo do bumba boi ou em Cavala Canga, de Sérgio Habibe, ritmo do tambor de mina, gravada no primeiro disco do Nonato e Seu Conjunto, em 1974, também com tratamento diferente da forma original.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Essa questão de trazer a rítmica para dentro das canções gravadas só seria resolvida com Bandeira de Aço, fruto direto da estética trabalhada pelos compositores no Laborarte e o disco Lances de Agora, de Chico Maranhão, que expressa uma aproximação de seu trabalho com as “influências de berço” (os ritmos do boi e do tambor de crioula). Depois disso, “daí em diante outros artistas e álbuns, com alguma relação com a cultura popular de raiz maranhense, foram sendo colocados no mercado nacional”, citando Papete, Ubiratan Sousa, Tião Carvalho, Betto Pereira, César Nascimento, Mano Borges, Alê Muniz, a dupla Criolina, Flávia Bittencourt e “Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, que sempre apontam em suas produções um elo qualquer de identidade maranhense”.

Em setembro de 2011, publiquei no jornal Vias de Fato um longo artigo, posteriormente incluído no livro Guerrilhas, abordando, a partir das questões colocadas nos textos de Ricarte e Chico Maranhão, o mal-estar e mesmo a indefinição e o desconhecimento que cercam a sigla MPM, pois indicava algo que parecia existir quando ainda não havia sido nomeada (década de 70) e se tornava uma incômoda indagação depois de batizada (década de 80). Afinal, quem além de nós utilizava ou compreendia o que era MPM?

O artigo acentuava a visível distinção do período de gestação, marcado pelo cruzamento das experiências dos três compositores que participaram do Laborarte (Cesar, Josias e Sérgio) com figuras também exponenciais no processo, como Chico Maranhão, Giordano Mochel, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, do momento seguinte, quando a rádio Mirante FM estava no centro de uma estratégia de propagação do que se passaria a chamar de MPM, trazendo uma nova geração de compositores, entre eles, Gerude, Godão, Mano Borges, César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz.

Ao contrário das linhas de continuidade, era enfatizada uma descontinuidade em relação ao empuxo inicial, tendo a aproximação com as agências governamentais e com o mecenato privado se verificado segundo os esquemas de patronagem de uma ordem social e política ainda em larga medida oligárquica, por onde terminariam se enredando quase todos os compositores, os novos e a maioria dos antigos. O texto, não por acaso, intitulava-se Antes da MPM, para enfatizar o momento da década de 70 e início dos 80, quando a sigla não existia. Soava, ao mesmo tempo, pois, como elogio e crítica.

O ataque que essa ambiguidade carregava não só à utilização do termo, mas ao próprio estatuto da coisa, colocada como uma experiência interrompida e redirecionada, resultando em pouco tempo numa projeção fantasmagórica sobre os músicos e a própria música que realizavam, não passou totalmente despercebido e foi objeto de um comentário de tom enviesado, meio truncado, mas com uma observação importante. Intitulado Música Para Maiores, de autoria de Lane Mosi, foi publicado no mesmo jornal Vias de Fato, na edição seguinte, de outubro de 2011.

Em linhas gerais, diz que o artigo estava “perfeitamente enquadrado nos moldes históricos – sociais – científicos da sociedade vigente” por comungar de uma mitificação da ação do Laborarte, principalmente na questão das experiências “para criação de uma determinada categoria de música maranhense elitizada”. Alertava então: “É evidente que a periferia a qual me refiro não é composta por aquele bairro privilegiado, pela sua localização estratégica perto dos casarios antigos, tão pouco àquele cheio de afilhados culturais, me refiro mesmo, aos não tão distantes e nem tão abastados, mas totalmente esquecidos e desconsiderados na influência da musicalidade desta cidade”.

Para a autora, a periferia a que o pessoal do Laborarte se articulava resumia-se ao Desterro e a Madre Deus. Sem indicar qualquer referência, de ontem ou de hoje, afirma que ¨existe todo um potencial na periferia que consegue escapar à ‘estratégia governamental de mercantilização da cultura’ mas que é renegado a (sic) pelo menos 30 anos, pouco tempo cronologicamente mas uma eternidade em se tratando de uma arte para libertar”. Surpreendentemente, no entanto, termina o texto falando em reviver os “momentos áureos da música maranhense que tanto gosto”, depois de exaltar programas de rádio com “o melhor da MPM” e “os bolachões (vinis) do Festival Viva”.

Afora o evidente desconhecimento do que foi a atuação do Laborarte, principalmente até o início dos anos 80, minimizando totalmente seu significado cultural e político, pensando o que ele era a partir do que se tornou, e a percepção do momento de diluição como se fosse o “momento áureo” (aí é aquela história, cada qual com seu ouvido…), o texto deixa a observação de que a incorporação da periferia na cultura da cidade ainda não se deu ou seria bastante incompleta, muito seletiva, não aceitando o marco que geralmente é atribuído ao Laborarte. Este momento ainda seria um porvir.

No ano seguinte, Ricarte Almeida Santos volta ao tema, desta vez através de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, da UFMA, intitulada Música Popular Maranhense e a Questão da Identidade Cultural Regional. Temos aqui um trabalho mais circunstanciado, com utilização de todos os textos então existentes, destacando trechos e depoimentos com argúcia, além de sua própria pesquisa, trazendo novos e interessantes depoimentos de músicos e jornalistas. De forma geral, define dois períodos: o de surgimento da música popular maranhense, na década de 70, e o de sua inserção nos mecanismos da “indústria cultural”, na década de 80.

O Laborarte teria configurado uma “ação cultural”, um processo “com início claro e armado, mas sem fim especificado”, onde avulta o papel dos agentes ou mediadores culturais, indivíduos que “num ambiente de heterogeneidade sociocultural, de preconceitos, cumprem uma ação de aproximação de grupos sociais, de pessoas de diferentes procedências”. Uma ação pensada para a prática de um novo teatro, terminou tendo numa nova estética musical seu resultado mais duradouro e “consequentemente, contribuiu decisivamente para a assimilação das expressões e manifestações da cultura popular, até então marginalizadas e negligenciadas, como símbolos da identidade cultural regional”.

Apesar de citar e conhecer todos os nomes principais que estavam envolvidos com a música popular nos anos 60 e 70, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe são considerados “os três principais agentes culturais do desenvolvimento da música popular maranhense”. O disco Bandeira de Aço é colocado no texto como “marco de partida e de chegada” da MPM. Num dos vários trechos destacados de um rico depoimento, Cesar diz: “Bandeira de Aço é uma consequência do que foi sistematizado no Laborarte” (…) “esse paradigma musical incluiu ritmos de bumba meu boi, divino, tambor de crioula e de mina, entre outros, caracterizando-se como música percussiva e adotando uma poética enriquecida pelo vocabulário popular”.

Ou ainda, de forma mais precisa: “creio que o Laborarte serviu como um ponto de referência para a difusão de uma música popular que já vinha sendo gestada antes mesmo da criação dessa entidade cultural. Foram acrescentadas novas células rítmicas à MPB local, deixando transpirar as virtudes artísticas da nossa gente, das nossas raízes culturais. (…) No ponto de convergência estava a estratégia para a superação das dificuldades, habilitando uma essência rítmica – com base harmônica de violão e cavaquinho – alicerçada por instrumentos regionais: matraca, tambor-onça, pandeiro, cabaça, agogô, abatá, terno de crioula, pífaro etc.”

No capítulo seguinte, é olhada mais de perto, com depoimentos esclarecedores, a questão da criação da sigla a partir da ação decidida de Fernando Sarney em promover a “música maranhense”, através da Mirante e de sua posição como diretor da Cemar. É o momento da estetização, que define ao mesmo tempo uma expansão e a descontinuidade no movimento artístico, pois “a música popular em si, se reorienta em vista também de obter o apoio e a legitimação do campo político”.

Ricarte é um conhecedor de música popular brasileira, de suas raízes no choro e no samba, apreciador e incentivador dos compositores maranhenses, além de seu texto ter objetividade e fluência, oferecendo-nos, sem dúvida, uma rica análise do momento. Da sua exposição discordo, no entanto, da centralidade excessiva dada ao Laborarte (lembro, é claro, da observação feita por Lane Mosi, aproveitando-a em outro sentido), basicamente em dois aspectos.

De um lado, a própria definição da estética musical em questão, que passa, a meu ver de maneira significativa, por outros compositores, já indicados. Ameniza essa discordância o fato de que estamos falando de um movimento (ou de uma ação) cuja proposta inicial era de uma integração entre campos distintos e aberta a influências diversas. De outro, acho que a ação do Laborarte deve ser enfocada mais incisivamente como um dos elementos de um processo mais amplo de redefinição da identidade regional, a passagem da exaltação do passado letrado, centrado nos mitos de distinção expresso nas alegorias da Atenas Brasileira e da Fundação Francesa, para a exaltação da cultura popular, principalmente do bumba meu boi, antes excluído e alvo de perseguições. Algo que se efetivou mais como superposição, dado a direção do processo pela oligarquia dominante.

Claro que isto está referido lá, Ricarte sabe das coisas, mas um trabalho importante como o de Lady Selma Albernaz, O “Urrou” do Boi em Atenas: instituições, experiências culturais e identidade no Maranhão, uma tese defendida em 2004 na Unicamp, favoreceria o olhar para o movimento que se efetuava no campo das instituições governamentais em torno da cultura popular e do turismo desde o final dos anos 60. Assim, o encontro posterior com o guarda-chuva da oligarquia não era propriamente entre elementos estranhos.

O que se perceberia com clareza a partir daí era que o sentido da “ação cultural”, para manter o conceito utilizado, foi redirecionado para a ênfase na carreira profissional, aproveitando os caminhos que se ofereciam através dos favores oficiais. De maneira emblemática, o coletivo que se sobressaiu a partir do final dos anos 80 foi a Companhia Barrica, cujas principais atrações eram o Boizinho Barrica, no São João e, depois, o bloco Bicho Terra, no carnaval.

Ambos eram fruto principalmente da ação do compositor Godão na Madre Deus. No Boizinho Barrica elabora uma recriação cujos ritmos envolvem os vários sotaques do boi, os ritmos dos tambores de crioula e de mina, as ladainhas do Divino e até as batucadas dos blocos e tribos de índio do carnaval. É uma tentativa de síntese de vários elementos da cultura maranhense, da música, das danças, do artesanato etc. A Companhia tentou se colocar como movimento, mas terminou se definindo mesmo mais como atuação de empresa e desencadeou toda uma enorme discussão à época sobre grupos “parafolclóricos”. A outra ponta era a Marafolia, uma empresa de eventos vinculada ao Sistema Mirante, responsável pelo carnaval e as festas juninas “fora de época”, ambas com intensa participação da turma do Barrica. Para estes, a década de 90 significou os anos dourados.

Em ritmo de seresta. Reprodução

No final do ano passado, mais um trabalho tocou na questão da formação da MPM e, desta vez, por um ângulo inusitado. Trata-se do livro de Bruno Azevêdo, Em Ritmo de Seresta: música brega e choperias no Maranhão (Edufma, 2014), também fruto de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da UFMA. Inicia com uma relação entre a crise nas bandas de baile, determinada pelo aparecimento dos teclados eletrônicos polifônicos e a criação de um novo estilo, uma corrente da música brega que se desenvolveu nas regiões norte e nordeste a partir do final dos anos 80, conhecida como “seresta”. Muitos músicos migraram para o teclado com programação, pois barateava o show, eliminando instrumentos, como baixo e bateria. Era uma modificação na técnica acarretando alterações no estilo. “Músicos que por anos tocavam diversos instrumentos passaram para o teclado com programação, músicos que nunca cantaram passaram a emprestar sua voz para as serestas”.

O texto, bem articulado e bastante informativo, penetra fundo no universo das choperias, tendo como campo privilegiado duas grandes, a Choperia Marcelo, no retorno da Forquilha, e o Kabão, no Aterro do Bacanga. Bruno aqui está à vontade, passeando entre os nomes de destaque e suas imensas discografias, as nuances de estilo, a produção dos shows, o mercado de discos (que se apoia justamente na “pirataria”, subvertendo a lógica das gravadoras), o público consumidor etc. Consegue depoimentos incríveis de músicos, desencava vasto material fotográfico que traz muito do espírito do tempo, explorando as capa dos discos, os instrumentos e cenas de palco. Conta ainda com um ensaio do fotógrafo Márcio Vasconcelos, em flagrantes de campo, descortinando as cores, gestos e expressões em torno dos ritmos da seresta. A edição, vale frisar, é caprichada em seus detalhes, além de vir acompanhada de um cd. Tudo com a cara da Pitomba! (apesar de carregar o signo da Edufma, cujo padrão é justamente o oposto…).

Depois de analisar um estilo musical que alicerçou o boom das choperias e envolve milhares de pessoas, Bruno volta sua atenção para a (in)visibilidade dessa música e concentra-se na separação entre os músicos de seresta e suas canções e o que se poderia chamar de “identidade musical maranhense”, indicando a existência de uma marginalização nas “esferas discursivas de poder”, tanto no plano do acesso a financiamentos nos programas de cultura, quanto de legitimação nos meios de comunicação, carecendo de “reconhecimento”, pois a categoria não constaria nas listas de premiação, nem nos catálogos de cultura.

O bolero, a música romântica de “dor de cotovelo”, o brega, que dominavam as rádios, foram taxados de “música de velhos” ainda nos anos 60 e, apesar de constar das lembranças de formação de músicos e jornalistas, seriam deslocados da receita de mistura que definiria a MPM nas décadas seguintes. Nos seus próprios termos: “o processo de construção da tradição da música maranhense, corre em paralelo ao processo de exclusão de outros estilos e seus representantes”. O brega, formaria então sua linhagem à margem do que era reconhecido como “música maranhense”, dos grandes como Raimundo Soldado e Adelino Nascimento, à reinvenção com Lairton e seus teclados e depois continuando em transformação, com o aparecimento do arrocha e outras fusões, em aproximação com o sertanejo e o forró.

O trabalho dá uma guinada e passa a discutir então o processo de definição da MPM. Novamente nos deparamos com uma riqueza de depoimentos, até mais variados. O desenho interpretativo, em sua armadura mais geral, é similar ao já colocado, com a distinção de dois momentos, mas os detalhes levam a resultados distintos. Bruno estabelece uma contraposição entre a geração Laborarte e a geração Mirante. Enquanto a primeira estaria voltada para a pesquisa, a postura política de combate e o contato com bairros da periferia, a segunda centrava-se na busca do apoio de mídia, na proximidade com os grupos dominantes e na fetichização do registro fonográfico. Assim como no trabalho de Ricarte, os dois momentos privilegiados para a análise são o disco Bandeira de Aço e o aparecimento da sigla MPM.

No caso do disco e todo o imbróglio que ele gerou, com o problema dos direitos autorais, da omissão dos nomes nas rádios etc., existem depoimentos extensos de Cesar e de Papete, botando os demônios pra fora mesmo, pois, como diz este último, “é uma coisa que respinga até hoje, essa coisa rançosa, uma pena porque é um disco tão importante”. O disco foi gravado à revelia dos compositores, as músicas capturadas meio à distância, de forma enviesada e depois conseguida a autorização, apesar das resistências de Cesar e de uma certa desconfiança que pairava no ar. Mas foi um sucesso e chegou a vender na época, segundo Papete, 150.000 cópias.

Várias opiniões são reunidas, todas considerando o trabalho como referência fundamental. Como bem sintetizou Ribamar Filho, dono do Sebo Poeme-se, foi “a primeira vez que a gente se ouviu”. Ou Zeca Baleiro: “Bandeira de Aço foi um divisor de águas na música do Maranhão. Sei de cor e salteado, de trás pra frente, ouvi demais. Pela primeira vez pudemos ouvir em disco e com a qualidade de áudio (ao menos próximo) de um disco de grande gravadora, os nossos ritmos e autores. (…). Aquilo calou fundo na alma do maranhense. E abriu portas para que outros artistas se aventurassem naquela seara. Já havia outros discos feitos antes – Chico Maranhão etc. – mas aquele lá foi certeiro. Conjugou a excelência artística com o poder de fogo comercial”.

Quanto à questão da MPM, o contexto mais atual que a cerca, marcado por um certo “toma lá, que o filho é teu…”, ganha aqui contornos até mesmo hilários, dependendo da perspectiva. No geral os depoimentos descortinam ainda mais as engrenagens em operação, principalmente o papel da Mirante e dos favorecimentos pessoais concentrados na figura de Fernando Sarney. O radialista César Roberto, por exemplo, depois de dizer que “Fernando era o pai da nossa música, né? O padrinho, o ‘paitrocinador’”, afirma que ele foi “um dos criadores dessa expressão MPM”.

Pedro Sobrinho, também radialista, não concorda: “Foram os próprios artistas que criaram essa sigla, Betto Pereira, Gerude, acho que Godão do Boi Barrica também. Hoje eles não gostam, mas ele foi um dos grandes incentivadores. (…) Surgiu através dos artistas e a rádio (Mirante) abraçou, também porque houve um boom lá pela década de oitenta, um boom da música maranhense… foi a partir daí que neguinho resolveu ‘não, a nossa música é a melhor’ e criou a sigla, só que foi um grande, quer dizer, o tiro saiu pela culatra, porque não existe, foi um tiro no pé”.

Betto Pereira, por sua vez, devolve: “É do rádio. Não foi pelos artistas não. Rotularam pra diferenciar, fazer uma diferença do que é a MPB e o que é a MPM… Fez uma merda que até hoje a gente tá penando por isso, que eu não sou artista do Brasil, sou MPM”. Essa relação de estranhamento torna-se ainda mais curiosa com a afirmação de Papete, outra figura emblemática da difusão dessa música, com vários discos tendo compositores maranhenses como base, inclusive um deles intitulado Música Popular Maranhense, que a certa altura diz: “MPM não conheço não”.

Para Cesar Teixeira, “é uma discussão que surge no rádio, na verdade nos bastidores da Secretaria de Cultura, que eu acho que surgiu foi ali. Ou era pra reinaugurar uma geração que não tinha pesquisado coisa nenhuma na vida, tipo assim, legitimar uma geração que não foi lá na zona, que não foi no bumba boi, não pegou em matraca, não sei o que, pra legitimar o que eles tavam fazendo, e de repente vender aquele produto, como se venderia o reggae e outras coisas. E mais uma vez não deu certo”.

Bruno trata da programação das rádios Mirante FM e Universidade FM e de como elas cuidadosamente se apartaram dos boleros e do brega, envolvidas no processo de construção da identidade musical local baseada no bumba meu boi e, de forma mais ampla, representando-se como o moderno e conceitual. No decorrer das entrevistas ele sempre se defrontou com a posição dos músicos (de quaisquer vertentes) e dos jornalistas, todos contrários ao estabelecimento de uma relação entre a “música brega/seresta” e a “música maranhense”.

No modelo explicativo com que trabalha, isso seria fruto da internalização por parte dos agentes da construção da identidade musical maranhense como determinada pela aproximação com a cultura popular, sustentada num processo seletivo e excludente (“elitizante” é um termo várias vezes utilizado – lembro novamente de Lane Mosi). A posição das rádios seria, enfim, sintomática de uma “intenção de afastamento do popular”.

A conclusão a que chega é cruel, mas termina se tornando também uma caricatura do processo: “A MPM seria assim, um arremedo de movimento centralizado na rádio Mirante, que reuniu artistas de música popular inspirados no folclore, com o intuito de criar um elemento distintivo para a música dentro do mercado”. Para entender o que ele quer dizer é preciso não esquecer a maneira como foi colocada a dinâmica do processo, como dicotomia entre geração Laborarte e geração Mirante.

O termo geração Mirante é ótimo, basta destacar um depoimento dado por Mano Borges para um programa de televisão sobre os 30 anos da rádio, quando afirma: “30 anos que se confunde, na verdade, com a história da gente, da nossa música. Eu acho que é uma rádio que foi pioneira em mostrar essa música produzida no Maranhão, e isso nos deu muita visibilidade”.

No entanto, utilizá-lo como Bruno faz, a geração Mirante e a MPM como signos intercambiáveis, obscurece o trânsito que também houve da geração Laborarte para dentro da esfera de influência da Mirante e das secretarias de cultura. Talvez fosse mais simples falar, como Celso Borges, simplesmente em primeira e segunda gerações da MPM. Neste caso, o cuidado é para não esmaecer o fato crucial de que o termo é uma criação da segunda geração, quando a produção já não guarda a mesma qualidade, nem as mesmas características, voltando-se para o mercado fonográfico e as rádios, na busca de uma inserção que tinha ficado até então em segundo plano.

Por não se dar conta da rigidez que o esquema explicativo continha, o texto chega ao final escorregando em passagens surpreendentes ao afirmar que após o estabelecimento da sigla pela ação da rádio Mirante, “músicos da geração anterior como Sérgio Habibe passaram a ser reconhecidos como MPM por mais que não tomassem parte ativa em suas engrenagens”. Ou ainda: “Chico Maranhão se considera MPM, mesmo que a sigla tenha surgido depois da maioria de seus discos”. Em suma, aí ele opera uma disjunção total que torna a coisa toda um pouco confusa, na medida em que passa a configurar quase a existência de dois movimentos (mais do que dois momentos).

Não é possível dizer, por exemplo, que pela filiação à Mirante esta geração “é amplamente criticada pela geração anterior”. Salvo grosseiro engano, o único nome da linha de frente que permaneceu à margem dos canais que se formavam entre artistas, a Mirante e secretarias de cultura, foi Cesar Teixeira. Isso lhe valeu um certo ostracismo, uma distância que funcionou ao mesmo tempo como sua maldição e sua aura de identidade. Em graus variáveis, todos em algum momento participaram dos pequenos canais que se formaram para a produção de shows e gravação de discos de música popular. Basicamente era o esquema de financiamento que se formou aqui.

O trabalho de Bruno vai além da boa etnografia, ultrapassa a observação do fenômeno ao inquiri-lo em sua forma constitutiva, enquanto categoria socialmente legitimada, na trilha de Bourdieu, autor de quem pega as lentes para enquadrar os depoimentos dos músicos e agentes de mídia. Analisa um processo de construção simbólica e sua legitimação, insistindo na lógica da exclusão e sua introjeção, através da naturalização de noções como “cultura maranhense”, atrelando-a a um conjunto de signos retirados da cultura popular, mas filtrados pelas elites, no sentido mais preciso do conceito, portanto, incluindo o próprio Laborarte. Penso que a coisa pode ser encarada de outra forma.

Como é sabido, a discriminação acompanhou a música brega desde a formação do agregado que responderia pela sigla MPB a partir da segunda metade da década de 60. E isto só recentemente começou a se romper. No entanto, esta exclusão funciona mais como um recalque. E aqui não foi diferente, pois não dá para dizer que elementos do bolero e do brega não estão presentes na obra desses compositores, ontem e hoje. Me vêm imediatamente músicas como o bolero Babalu, que abre Emaranhado, de Chico Saldanha, seguido da cafonice fundamental de Mara, com aquele órgão hammond lá no fundo, ou ainda bregas escancarados presentes em seu disco anterior, Celebração, como Baby e Telma e Louise. Cesar e Josias não têm influência de brega? Acho que eles dificilmente negariam. Mas do velho brega, da cultura da zona, como enfatizou o primeiro.

E nem teria como ser tão diferente porque isso tudo rodava muito nas rádios. Quando Bruno analisa a questão da programação das duas FM e, através de vários depoimentos, mostra como o que era considerado muzak, de mau gosto, “brega” (Waldick Soriano, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Odair José ou Wando, por exemplo), não rodava, fala como se não estivessem presente direto nas rádios AM. Isso não invalida a percepção geral defendida no livro, principalmente a questão dos modos de incorporação e legitimação que culminaram na invenção midiática da MPM, mas abre um caminho para nuançá-la e olhar a persistência desses elementos, que estavam introjetados e não poderiam ser tão facilmente apagados.

Também na década de 80 a onda do reggae se colocava com força e o ritmo terminou sendo absorvido, não ficou à margem, passou a frequentar os discos dos compositores maranhenses. E igualmente parece ter criado um nicho próprio, com bandas, gravações etc. e ainda com a particularidade do negócio das radiolas, mas hoje faz parte do cardápio oficial e é vendido na prateleira da diversidade. O potencial de afirmação de diferenças parece ter se diluído sob o guarda-chuva da “maranhensidade” e a noção de Jamaica Brasileira foi incorporada de maneira a esvaziar o potencial crítico da ordem social e cultural vigente.

Toda essa conversa pode parecer uma ruminação de águas passadas, na medida em que o quadro atual, à primeira vista, tem características muito distintas. É o que pode ser percebido na leitura de dois instigantes e, até certo ponto, antitéticos artigos a respeito do recente festival de música do projeto BR-135 e seu significado no contexto das artes, publicados em 27 de dezembro e 3 de janeiro últimos no Caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão. Refiro-me aos textos DR-135, do mesmo Bruno Azêvedo e Não há saídas (só pontes e avenidas), de Reuben da Cunha Rocha.

Para encurtar o que já vai longo, Bruno faz um comentário bastante elogioso do festival, por expressar a diversidade atual das bandas e pelo local de realização (a Praia Grande) e do projeto, por ser o resultado de uma “ação política” dos produtores (Luciana Simões e Alê Muniz), que indicaria “uma boa chance para mudança paradigmática dos produtores locais”. A existência de uma ¨cena” artística em plena ebulição, um modelo de produção viável e, por fim, a “mudança política” anunciada são os ingredientes principais do texto.

A questão a que o BR-135 apontaria uma “saída” é de como “fazer acontecer uma cena que já acontece”, identificada por duas características: 1) “a cidade anda cheia de bandas de estilos diversos”; 2) “essas bandas tão (sic) interessadas num som autoral e desamarrado dos medalhões de identificação da cidade/estado”.

Correlato a este processo, que vem de algum tempo, ocorre agora a alteração política com a derrocada do grupo que comanda o estado há décadas, abrindo possibilidades de romper a “organização feudal” em que se tornou a pasta da cultura. Para isso, diz, “espero muito que a nova gestão consiga desfolclorizar a Secretaria de Cultura ou que aja uma ação dos produtores nesse sentido”. E conclama os artistas em geral a se inteirarem das possibilidades abertas com as leis de incentivo e a “convencer as empresas da importância estratégica do investimento na arte”. No horizonte, a aposta de que a “efetivação de uma política pública para a cultura transparente e impessoal”, seja uma alavanca para as atividades artísticas, um caminho “em direção ao público, à cidade, ao seu próprio ofício”.

O texto de Bruno é muito bom, vibrante, tocando em várias questões referentes ao esgotamento de um padrão de política cultural que vigora há décadas. Uma semana depois recebeu um comentário forte de Reuben. Um artigo radical no melhor sentido, opondo logo no título à “saída” do BR as conexões das “pontes e avenidas”.

No geral, ampliava o escopo da ¨cena¨ referida, recusando qualquer viés de apresentação do festival como sua expressão. “O que discuto no texto de Bruno é a tentativa de sequestrar, para sua formulação do BR-135, certos traços da experiência mais ampla e mais ousada que tem borbulhado na panela da ilha. Nessa jogada, ele esvazia os aspectos mais radicais ou pelo menos mais inquietos”.

Reuben expõe a desconfiança com um esquema voltado para a “profissionalização”, que estimula a troca e a mistura, mas “capitaliza experiências radicais como se fossem ‘cases de sucesso’”. Não é propriamente uma recusa, antes uma observação que recupera a importância das formas de agrupamento não marcadas pelo viés “empreendedorista” e sim pelo caráter mais “autonomista e não hierárquico”, como a experiência do Sebo no Chão, no Cohatrac, “que nunca deixa de acontecer e se vale das melhores e piores condições com o mesmo empenho”, ou a da Casa Loca, “que além de boa banda é uma casa ocupada mesmo, e parece que é louca”.

Não tenho condições de comentar o leque que ele apresenta do cenário contemporâneo das artes na Ilha, mas mesmo para quem conhece tão pouco é possível sentir os ventos e a energia que começam a despontar desses sons e imagens, dessa nova gestualidade, do “trânsito de linguagens”, claramente impulsionados por “dispositivos que apontam para a autonomia: a capacidade de gravação, a coletivização do trabalho produtivo, o domínio dos meandros da captação de recursos”.

Neste sentido, o chão da experiência atual é realmente muito distinto, tanto no referente às possibilidades de produção e circulação quanto aos desafios estéticos e políticos a responder. Os anos 70 e 80 marcaram aqui a passagem de uma configuração cultural caracterizada pelo predomínio dos signos de erudição para a incorporação de signos extraídos da cultura popular. Tal processo atingiria seus contornos mais definitivos somente na década de 90, através da ação concertada entre agências estatais e agências de comunicação, e terminou propiciando um aprisionamento e até uma acomodação dos artistas. O que se põe hoje é a necessidade de recriar os canais e ativar outros para uma nova leitura da diversidade cultural, que não seja refém de uma visão asfixiante da identidade e permita ao Maranhão se ver refletido em outros lugares, além do casarão ou do bumba meu boi. Para isso, mais do que (re)ler o local, a questão é como absorver o estranho e deixar acontecer as vias de combinação, vale dizer, de destruição das fórmulas de exaltação predominantes.

Para Reuben (no que Bruno concorda), “uma evidente liberdade se coloca entre a geração mais nova e os mais longevos fantasmas da cultura maranhense. Já quase não se sentem os ecos de certa ideia de legitimidade antes pretendida sobretudo através da cultura popular. O Maranhão, na música mais nova que tenho ouvido, aparece em outro lugar”. Liberados de qualquer “acerto de contas” com o passado, “afinal os mitos deixaram poucos discos e tudo depende da memória hiperbólica dos que lá estavam”, essa geração estaria de certo modo, liberada de carregar o fardo da “preservação da cultura”, abrindo espaço não só para um leque mais amplo de gêneros como, principalmente, da perspectiva que ele se coloca, para a experimentação mais radical e subversiva. Na formulação feliz: “O jogo agora é com o estúdio e não com o histórico”.

O dilema é o que fazer com essa “liberdade”, pois se é possível dispensar “a demanda dos fantasmas históricos”, é necessário também fugir dos “acertos do mercado nacional”, ou seja, do velho sonho de “estourar”. O próprio Reuben alerta: “não adianta tirar onda dos velhos medalhões para acabar refém de outros lugares de poder”.

Se não estamos mais na posição de reféns da relação entre arte e cultura popular, é bom frisar que isto se deu antes pelo desgaste da fórmula e pelas possibilidades abertas com os novos meios de produção e comunicação do que por qualquer diálogo crítico com essa “herança”. Não é apenas “um papo desgastado entre nós”, como Reuben e Bruno parecem concordar, é uma limitação que essa nova geração vai carregar, apesar de ser também por onde vai tentar se livrar dos “fantasmas da cultura maranhense”, que poderia sintetizar na necessidade de ultrapassar a tônica do “Maranhão, meu tesouro, meu torrão…”, o canto de sereia da ordem vigente.

Não me refiro, é claro, à bela toada que Humberto deixou gravada na memória da cidade, mas ao narcisismo ludovicense historicamente enraizado, que sempre deu o tom de nossas mais duradouras representações e ajuda a entender como um momento tão rico de transformação da música popular, capaz de definir os contornos de uma estética regional na linha de experimentações do período, desembocou na caricatura pretensiosa que significou a sigla MPM.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Publicou Cenas marginais (ed. do autor, 2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007; 2ª. ed. 2013) e Guerrilhas (Pitomba!/Vias de Fato, 2011).

Chorografia do Maranhão: Paulo Trabulsi

[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]

Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.

A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].

Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.

Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…

Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.

Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.

E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.

A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”

Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.

Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.

Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.

Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.

Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.

Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.

Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.

O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.

Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.

Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.

Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.

Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.

A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.

E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.

Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.

O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.

Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.

O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.

Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.

Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.

E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.

Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.

O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.

Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!

Por uma poética política

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Sábado passado (19) um grupo de prosadores, poetas e músicos ocupou o Memorial Bandeira Tribuzzi, na Praia da Ponta d’Areia.

O elefante branco tem “35 anos de inexistência”, conforme decretou o poeta Celso Borges, enquanto lia poemas seus, de Marcos Magah e do poeta que empresta o nome ao monumento, falecido no dia em que a cidade da qual compôs o hino completou 365 anos.

O autor de O futuro tem o coração antigo também fez o papel de mestre de cerimônias, chamando ao microfone nomes como André Lucap, Beto Ehongue, Bruno Azevêdo, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego, Madian, Luís Inácio Oliveira, Reuben da Cunha Rocha e outros. Sua senha-vinheta era “ê, Ponta d’Areia/ há muito tempo que eu não te vejo, não”, da Ponta d’Areia de Chico Maranhão, mixada com seu “eu quero ver” de A serpente (parceria com Ramiro Musotto e Zeca Baleiro).

Não fiquei até o fim do at(entad)o poético, formado em grande parte por amigos meus. Sua intenção é alertar para o abandono de lugares, em São Luís, que poderiam ser cartões postais, mas estão sendo roídos pelo salitre do descaso, do abandono, da insegurança.

Outras ocupações virão, promete o coletivo organizador do encontro. Torço para que com ampla divulgação e cobertura da mídia, falatório nas redes sociais e presença de pessoas ouvindo poesia e música, comprando livros, quem sabe até dividindo o microfone e reivindicando a reinvenção do espaço público.

Espero sobretudo a atenção e sensibilidade dos gestores públicos no sentido de revitalizá-los, não só no que tange à pedra, mas no que tange à gente.

Saudade de Pixixita (Ou: Um abraço em Nelsinho)

Contrariando o compositor baiano, Pixixita subiu há algum tempo para uma estrela colorida, brilhante. De lá, certamente continua cumprindo a missão que tinha cá na terra: legar às pessoas o amor pela música.

O saudoso José Carlos Martins, dono do apelido, com sua cara e jeito “de índio”, deixou uma legião de fãs e amigos. Seguidores, nestes tempos de redes sociais.

O homem é uma lenda. Quase todo mundo que tem algo a ver com música em São Luís conta alguma história envolvendo Pixixita. Ou foi seu aluno. Ou tomou uma com ele. Ou tirou um retrato, bonito como o preto e branco em que ele aparece com o também já saudoso Nelson Brito.

Durante muito tempo, aliás, pensei que meu amigo Nelsinho, muito provavelmente pelo sobrenome, fosse filho de Nelson Brito. Entre tantos afazeres, este herdeiro do espírito agregador de Pixixita tem por missão manter vivo o legado do pai: sua memória, o amor pela música, simpatia e o “um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar”, para citarmos outro compositor. Graças a estes, a missão de Nelsinho torna-se até fácil.

Seu pai não cheguei a conhecer, mas admiro-o já há algum tempo. Com o filho, este simpático professor de capoeira, já tomei umas tantas cervejas nesta vida e tanto mais pretendo fazê-lo.

Como sábado agora, quando os companheiros de tribo do saudoso pajé reúnem-se para mais uma festa ao redor das fogueiras acesas nos corações em nome do amor à música e à vida.

Samba de protesto

Os “excluídos” em ação em Diverdade, show de 14/12/2013

Não sou contra a vinda de artistas de outros estados para o que quer que seja no Maranhão. Ser contra seria bairrismo, embora a vinda de artistas de fora para eventos como o carnaval e os festejos juninos por aqui não cumpra o papel que deveria, de intercâmbio cultural. Tampouco artistas nossos são enviados a outros estados com essa intenção (Barrica e Bicho Terra pra gringo ver não contam).

Para o carnaval deste ano o Governo do Maranhão anunciou uma vasta programação com nomes pagos a peso de ouro. Gente do quilate de Daniela Mercury, Diogo Nogueira, Elba Ramalho, Monobloco e o onipresente (local) Bicho Terra, entre outros – confesso que senti falta da Alcione no Bloco dos Apaniguados.

O compositor Cesar Teixeira está fora da programação carnavalesca, sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), pasta comandada por Olga Simão. Não é a primeira vez que o artista é excluído de programações do tipo, sem justificativas, num gesto de retaliação política – o autor de Oração Latina é reconhecidamente uma histórica voz de resistência à oligarquia Sarney.

Notem os poucos mas fiéis leitores: o problema não é ele estar fora da programação carnavalesca. É saber que critério o excluiu. “É inadmissível que um órgão cultural do governo, na ausência de editais, se aproprie do erário público para decidir quem deve ou não participar de programações culturais públicas, exercendo uma espécie de censura institucional àqueles artistas que não rezam na cartilha do governo Roseana Sarney”, declarou em uma rede social Irinete Chaves, esposa e produtora do compositor.

No Maranhão há muitos artistas frutas de estação, isto é, aqueles que se adequam aos períodos carnavalesco e junino – muitas vezes utilizando-se inclusive do vasto repertório de Cesar Teixeira, autor de clássicos tocados à exaustão em ambos os períodos, mas não só – e depois somem, para reaparecer na próxima… estação.

Não é o caso de Cesar Teixeira, cuja obra, reconhecida nacionalmente nas mais diversas vozes, tem importância, riqueza e variedade, e deveria ser valorizada pelos gestores de cultura de nosso estado, provavelmente o último da nação que ainda não adota o princípio republicano dos editais para a convocação de artistas para compor suas programações oficiais, na contramão do que indica, por exemplo, o Ministério da Cultura.

Festival – Sábado passado (15), em um festival de música carnavalesca organizado pelo Sistema Mirante de Comunicação – de propriedade da família da governadora Roseana Sarney –, uma música de Cesar Teixeira, Dias felizes, defendida pelo grupo Lamparina, sagrou-se vice-campeã, surpreendendo a muita gente, este blogueiro inclusive. Isto é, em terreno hostil, a marcha-rancho conseguiu comprovar o talento de seu autor.

Silêncio constrangedor – Através da assessoria de comunicação, este blogue indagou à secretária Olga Simão que critérios haviam norteado a exclusão de Cesar Teixeira da programação do carnaval maranhense. Até o fechamento da matéria, a Secma não se pronunciou – como o fez também quando o compositor foi deixado de fora da temporada junina do ano passado.

Maranhão, outro excluído – Pouco antes do fechamento deste texto, através do blogue da jornalista Vanessa Serra, ficamos sabendo que Chico Maranhão, outro importante artista maranhense de reconhecimento nacional, também foi excluído da programação carnavalesca oficial.

Lena Machado inaugura a série Amigos do Tira-Teima

O Tira-Teima em ação no saudoso palco do Bar e Restaurante Chico Canhoto, no projeto Clube do Choro Recebe

O Regional Tira-Teima completou 40 anos de atividades em 2013 e este ano planeja lançar seu disco de estreia, com repertório autoral e de grandes nomes do choro no Maranhão. O disco, ainda sem título, está sendo gravado no estúdio de Gordo Elinaldo e conta com arranjos de Ubiratan Sousa e dos integrantes do grupo.

São eles: Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro), Francisco Solano (violão sete cordas), Zé Carlos (percussão) e Serra de Almeida (flauta). O grupo já passou por várias formações, tendo figurado nos créditos do antológico Lances de Agora (1978), disco de Chico Maranhão gravado por Marcus Pereira na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís.

Dando prosseguimento à jornada comemorativa, o quinteto inaugura amanhã (31) a série Amigos do Tira-Teima. Revivendo os tempos de Clube do Choro Recebe, o grupo terá ao longo do ano diversos convidados especiais no palco. A primeira será a cantora Lena Machado, que noutras ocasiões já dividiu o palco com o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

O reencontro acontece às 20h, no terraço do Brisamar Hotel, lugar que faz jus ao nome e se configurou, há pouco mais de um ano, o palco regular do Regional Tira-Teima, com seu repertório de choro, todas as sextas-feiras.

Nesta, a participação de Lena Machado somará a Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth e outros grandes mestres, gênios da criação musical brasileira como Bororó (Curare), Paulinho da Viola (Para um amor no Recife), Cesar Teixeira (Flanelinha de avião), Josias Sobrinho (Terra de Noel), Candeia (Preciso me encontrar) e, entre outros, Argemiro Patrocínio, cuja Amém cantará em dueto com Zeca do Cavaco.

A noite promete. E esta frase pode ser lida no plural, já que a lista de amigos do Tira-Teima é grande.

Chorografia do Maranhão: Arlindo Carvalho

[O Imparcial, 18 de agosto de 2013]

“Eu nasci pra tocar tambor”. A frase é do engenheiro, professor de artes e percussionista – não necessariamente nessa ordem – Arlindo Carvalho, 13º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão. Ela resume bem o espírito de quem encara a música como um ofício, um prazer.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Filho dos piauienses Caio José de Carvalho e Margarida Pinho de Carvalho, ele de Teresina, ela de Parnaíba, Arlindo José Pinho de Carvalho é o caçula de uma família de cinco irmãos: Michol, Alba, Célia, Caio e ele.

A mais velha, a folclorista Maria Michol, falecida em novembro passado, grande incentivadora do irmão, presenteou-lhe com a primeira bateria, comprada a prestações no Armazém Paraíba.

Arlindo nasceu em 2 de agosto de 1954, na Maternidade Benedito Leite, e desde então mora na mesma casa, na Rua dos Afogados, em frente à Padaria Santa Maria, no Centro da capital maranhense, onde ele recebeu a chororreportagem.

Durante a conversa, o percussionista que já tocou “com todo mundo aqui” lembrou a grande amizade com o compositor Antonio Vieira e revelou a vontade de escrever a biografia do pai, um guarda livros que fundou em São Luís o Centro Caixeiral, a Santa Casa de Misericórdia e a Liga Maranhense de Combate à Tuberculose.

Com o Regional Tira-Teima ele tira onda: “eu sou do original, não do genérico”, afirma sorrindo, para depois revelar a admiração, carinho e respeito que tem por todos. Formado em engenharia e artes, Arlindo nunca estudou música formalmente, mas é certamente um dos instrumentistas que mais aparece em créditos de discos e shows no Maranhão.

Você chegou a atuar na área de engenharia? Eu atuo na área de engenharia. Sou engenheiro do estado. Fui da Cohab, meu primeiro emprego, Companhia de Habitação Popular. Quando a Cohab mudou de nome, depois foi extinta, foi criada outra empresa, e todos nós que somos CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] fomos para lá. De lá eu fui pra onde quis: Secretaria de Trabalho e Urbanismo, Ceprama, até chegar na Secretaria de Cultura, Dona Zelinda [Lima, folclorista] me levou pra lá. Depois fui ser diretor do Teatro Alcione Nazaré, quando ainda era TPG, Praia Grande.

Tua família hoje, Michol, você, Alba, vocês são referências na área de cultura. De onde vem essa relação? Eu sempre vi isso e Michol sempre falou isso: papai era uma pessoa que gostava muito de bumba meu boi. Ele trazia muito bumba meu boi, muito tambor de crioula, ele levava Michol. Michol sempre acompanhou papai. Eu muitas vezes não fui, quando papai morreu eu tinha seis anos. As referências minhas são muito poucas, ela já tinha 10 anos, a memória afetiva de Michol é muito maior do que a minha, eu não lembrava muito.

Michol é quem cumpriu um papel central nessa história? Exato! Michol é quem foi a pessoa central. Eu quando comecei a tocar, Michol é que me deu a primeira bateria. Sempre apoiou. Michol, sim, era a pessoa que estava na linha de frente. Fez Serviço Social, depois fez Mestrado em Cultura Popular. Aí ela desenvolveu um trabalho de cultura popular, embora antes ela tenha trabalhado na Universidade, foi diretora do DAC [Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão]. Quando veio do Mestrado no Rio, ela começou no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e fez as casas de cultura todas.

Além da engenharia, você dá aulas. Depois de engenharia, formei em 1980, logo depois, trabalhando com a professora Nerine [Lobão], na Secretaria de Educação, como diretor da parte de engenharia, me deu vontade de fazer outra coisa. Aí eu fiz artes, educação artística na Universidade, me formei na especialidade de teatro. Fiz concurso para o estado e estou hoje no Liceu [Maranhense], dando aula de Artes. Da engenharia estou mais esperando me aposentar.

Então sempre houve outra profissão pra te sustentar, a música sempre foi uma diversão? Não era uma diversão. Mamãe sempre dizia “você quer ser o que quiser, eu apoio; agora peço pra você estudar uma profissão, ter uma profissão”. Por que isso dá uma base muito grande, você não fica tão refém da fragilidade da arte da música. Eu sempre toquei. Eu me formei, antes de me formar era músico, tocava com [os compositores] Chico Maranhão, Sérgio Habibe, toquei com o Coral [São João], com quem estou até hoje.

Qual era o universo musical da tua casa? Uma música que tem na minha memória, que eu nunca esqueci, é Cigarro de Paia [de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas], de Luiz Gonzaga, que não é dele, mas que ele canta. Essa música eu ouvia. A gente tinha uma coisa de ouvir rádio, o rádio era o grande lance. A gente ouvia o rádio dia de domingo, e eu me lembro de Cigarro de Paia, mas fora disso nenhuma relação de música. Fora o rádio aos domingos, nada.

Ele não era de comprar discos? Que eu me lembre não. Embora eu tenha uma coleção inteira de discos de [cera de] carnaúba. Tá tudo ali. Deve ser dele, eu não lembro, ele morreu eu era muito pequeno. Mas Caio, meu irmão, que tem uma memória de elefante, se lembra. Mas eu fiquei com a coleção de discos dele, de carnaúba. O primeiro disco de Jackson do Pandeiro tá bem ali guardado.

Quando você começou a se interessar por aprender música? Mamãe ganhou de presente no casamento dela uma bandeja de prata que eu quebrei de tanto tocar. Eu fazia como se fosse uma bateria, intuitivamente, sem ter uma noção do que era uma bateria. Mas eu fazia a mão esquerda de um jeito, a mão esquerda do outro, batia nos copos com os lápis que Michol me dava. Eu tinha minha bateria, mas não sabia que aquilo era música e que eu um dia fosse ser músico. Mas era uma coisa muito forte, embora eu nunca tenha visto ninguém tocar. Eu sempre aprendi minhas coisas sozinho.

Você não teve nenhum estudo formal de música? Nenhum! O estudo formal vem ser agora, com meu professor [Chico] Pinheiro que está me ensinando a escrita da percussão. Entrei na Escola de Música por dois anos, depois larguei, por que a professora Olga Mohana [ex-diretora da EMEM, famosa por determinar que instrumento o aluno tocaria] queria que eu tocasse piano e eu queria tocar era percussão.

O percussionista demonstra o “um, dois, três, quatro” que aprendeu com Mascote para a chororreportagem

Mesmo você não tendo o estudo formal de música, teve pessoas que foram referenciais pra ti. Dá pra citar algumas? [O compositor Antonio] Vieira foi uma pessoa que me ensinou a tocar afoxé e reco-reco. E ele me levou para aprender pandeiro com Mascote [o percussionista e violonista Antonio Sales Sodré]. Vieira disse “olha, Mascote, Arlindo é amigo meu e quer aprender a tocar pandeiro”. Mascote perguntou “meu filho, tu tem um pandeiro? É um, dois, três, quatro” [pega um de seus nove pandeiros e demonstra, acelerando rapidamente a batida]. Aí eu vim pra casa, botava o disco na radiola e acompanhava. Errava, acertava, e assim eu fui. Aprendi ouvindo, tentando imitar o disco.

Então você aprendeu instrumentos soltos? Instrumentos soltos. Eu, no meu tempo de Universidade, tinha um grupo chamado Terra e Chão. E a Universidade comprou alguns instrumentos: uma conga, um bongô, um surdo. Eu nunca tinha visto aquilo, mas intuitivo eu fui batendo as congas, o bongô. Tanto que, por exemplo, eu aprendi a tocar bongô pelo som do disco. Depois é que eu fui ver o pessoal tocando bongô, a técnica do bongô. O som que eu tirava, que eu tiro, é igual, mas o movimento não.  Tudo aquilo é intuitivo, eu aprendi intuitivamente.

Quando foi que começou tua convivência com Mestre Vieira? Vieira foi aluno de meu pai no Centro Caixeiral. Não sei quem me convidou, me parece que Adelino [Valente, pianista], morava aqui no [edifício] Caiçara. “Vai no Caiçara, tem um grupo de chorinho”. Aí eu encontrei Vieira, bate papo, já tinha uma atração mútua, Vieira e eu, depois que ele soube que papai foi professor dele, aí foi que ele gostou de mim mesmo. Aí sim, ele começou a pegar o afoxé, o reco reco, “meu filho é assim”. E eu deslanchei. Eu comecei a tocar bateria no [Colégio] Marista, o professor Celso Raposo, até hoje eu digo o nome dele, foi a pessoa que me desemburrou. Tá-tum-tum-tá, tá-tum-tum-tá [imita o som da bateria com a boca]. Bateria você erra, erra, é igual pandeiro, é igual andar de bicicleta: um dia você acerta e não erra mais.

Quem fazia parte do Terra e Chão? Eu, Wellington Reis, Joaquim, um garoto chamado Magno, depois passou o irmão dele, Frias. Aí tem Eliezer, que era flautista, Celso Raposo, nesse tempo não era mais baterista, era tocador de viola.

Isso era que ano? Foi antes do Tira-Teima? O Terra e Chão foi antes, 74, acho. O Tira-Teima é outra história.

E o repertório? Era autoral, a maioria [das músicas] de Wellington. Tinha um lance de um jazz nordestino, Luiz Gonzaga, aqueles grupos de pau e corda, Jackson do Pandeiro, minha referência.

Teus pais e irmãos te impediram de alguma coisa, em algum momento? Não. Pelo contrário. Mamãe sempre me deu muito apoio. Quando eu viajava, que acabava o dinheiro, ela mandava as passagens para eu vir. Sempre me deu muita força, sempre pedia pra eu estudar, pra eu não ficar refém de uma coisa que podia dar certo ou não. Michol me deu congas, bateria, ela tirava à prestação no Armazém Paraíba. Foram grandes incentivadores da minha carreira.

Em que mais Michol te inspira? Leitura. Ela me inspirou a ler, a perceber que você tem que ter uma bagagem literária muito grande, até para você pensar a música. Se você não tem sentimento, a gente não pensa à toa, tem que ter bagagem. Ela me inspirou nesse sentido.

Ser irmão de Michol, extremamente mergulhada no estudo da cultura popular, você um artista do ritmo. Há uma influência muito estreita aí, não é? Eu acredito que sim. Não vejo outra explicação. Até essa coisa intuitiva. Quando eu chegava em casa, que eu era mais garotinho, a primeira vez que eu peguei as congas e transmiti para as congas o tambor de crioula.

Você já viveu de música? Quando eu era estudante, no tempo do Terra e Chão, tinha uma bolsa, que eu dividia com Wellington, era muito boa. Agora viver, de no fim do mês esperar ter algum dinheiro…

De sustentar a casa, a família? Não, não. Eu sempre vivi música, engenharia, trabalhos de arte, que eu desenhava muito bem, pintava, essas coisas. Nunca vivi especificamente de música. Gostaria de ter vivido essa experiência.

De algum modo isso te frustra? Se a gente pensar numa perspectiva de carreira do Arlindo Carvalho percussionista. De jeito nenhum! Eu, por exemplo, quando fui tocar com Chico Maranhão, [a cantora] Diana Pequeno que era o grande nome daquele tempo, ela gostou tanto da gente, que ela foi 16 vezes ao show. Chamou a gente e convidou eu, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] e Ubiratan [Sousa, compositor e instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ubiratan ficou ainda com ela, Zezé veio embora. Eu lhe pedi perdão, “Diana, você me perdoe”, faltava um semestre pra eu terminar engenharia. Eu não ia abandonar tudo por um sonho. Mas não me arrependo. Eu construí uma carreira aqui, e falei uma vez num seminário desses de música, que sucesso é isso: é você na sua terra desenvolver um projeto. Até hoje eu sou uma pessoa respeitada, tenho o meu lugar garantido dentro da história da música popular maranhense.

Você chegou a tocar com Diana Pequeno? Não. Eu toquei aqui uma vez com Sérgio Ricardo [compositor, autor de trilhas do Cinema Novo, parceiro de Glauber Rocha]. A gente fazia a abertura do show dele aqui no Teatro Arthur Azevedo. Quando acabou o show, eu estava guardando meus instrumentos quando chegou um recado para eu ir falar com ele. “Olha, gostei imensamente de você. Eu quero que você toque comigo pelo menos quatro músicas”, aí eu toquei. Toquei com aquele [grupo] Água de Chile, que gravou com Milton Nascimento. Mas pra mim o mais importante é tocar com o pessoal daqui.

Entre nacionais e locais, sabemos que a lista é grande. Ah, toquei com tudo mundo aqui [gargalhadas dos chororrepórteres]. Não tem nenhum. Faltava Papete, outro dia eu toquei com ele. Antigos, novos, novíssimos e geração nova que é Caio [Carvalho, percussionista, filho de Arlindo], que já toquei com ele, muito.

Além do Terra e Chão de que outros grupos você participou? Terra e Chão, o Tira-Teima original. Eu sou do Tira-Teima original, o genérico não [risos]. Do genérico, Paulo [Trabulsi, cavaquinhista] era. É o único remanescente. Todos eles são excelentes. Eu vou ver o Tira-Teima lá naquele hotel, eu adoro ver Paulo tocar.

Urubu Malandro. Urubu Malandro eu fiz com Vieira. Eu fundei também o Sururu no Galinheiro.

O Surra Curuba? O Surra Curuba foi Vieira quem deu esse nome. Vieira foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

A última cena dele em palco foi lá no Clube do Choro Recebe. Foi. Quando eu deixei ele em casa, ele sempre dizia “até o outro se nós vivo for” [sic]. Deixei na casa, sempre esperava ele abrir o portão. O mesmo procedimento. Eu sempre passo agora, a hora que eu passo, eu grito “ê, seu Vieira!”, e vou muito na sepultura dele. Eu sempre digo “seu Vieira, reze por mim”. A pessoa mais digna que eu vivi na minha fase mais adulta. Na fase de criança a minha meta era meu pai. Mamãe sempre falava muito bem, estudei muito a vida dele depois, pretendo lançar um livro sobre a vida dele, o que ele fez aqui dentro [de São Luís].

Dá pra dizer que teu pai foi tua maior inspiração enquanto homem e seu Vieira enquanto músico? Isso. Por que Vieira era uma pessoa que não deixava a gente criar nenhum tipo de soberba. Ele sempre colocava a gente no patamar da humildade. A referência de homem é meu pai, de dignidade, honestidade, de ser uma pessoa batalhadora, respeitadora. Vieira é uma figura que eu vejo como músico. Me inspirei muito nele.

Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Arranjador, compositor… Não. Se algum dia eu compus alguma coisa eu escondi muito bem [risos]. A gente tem que saber o que a gente faz bem. Eu faço bem tocar tambor. Violão eu comprei, toco, mas nunca serei um bom violonista. Agora, tocar tambor, eu nasci pra isso.

Você não tem disco solo, mas já tocou em inúmeros discos. Os de Rosa [Reis], quando ainda eram vinis. O primeiro cd de Sérgio [Habibe], os discos de Chico Maranhão, Lances de Agora [1978] e Fonte Nova [1980]. Eu gravei com muita gente boa. Outra referência agora é [a cantora] Alexandra Nicolas, gravei uma única faixa [São Luís do Maranhão] do disco dela [Festejos, 2013], que foi gravado no Rio. É um bumba meu boi meio estilizado.

Ela fez aquele disco dentro do universo do choro. Os grandes nomes do choro. Como é que foi pra ti estar ali no meio? Eu toquei muito com Alexandra, o último show que ela fez aqui. Eu fiz uma amizade muito grande com Luciana Rabello [cavaquinhista, esposa de Paulo César Pinheiro, compositor]. Aí Luciana me ligou junto com Alexandra e queria que eu participasse desse disco tocando essa música. Fui para o Rio e tive a honra de ser dirigido no estúdio por Paulo César Pinheiro. Lógico que tinham os músicos que assinavam a direção, mas tudo eles se reportavam a Paulinho. Nada que ele não quisesse sairia no disco.

Ele foi uma espécie de supervisor. Ele foi uma espécie de supervisor geral. Ele dizia “é isso que eu quero”. Eu entrei com uma ideia de uma gravação mais lenta, um boi de sotaque de Pindaré. Ele disse “eu quero mais rápido”, mudou algumas coisas, pra mim foi uma honra. A própria Luciana, [o violonista] Maurício Carrilho também.

Você acompanha os grandes nomes da percussão no Brasil? Eu tenho loucura por Naná [Vasconcelos, percussionista]. Eu nasci no mesmo dia dele. A grande loucura que eu vivi foi quando eu ouvi o disco de Santana, Carlos Santana, guitarrista. A base dele era percussiva.

Qual foi o disco? O primeiro dele, que tem uma joia na capa. Quando eu ouvi aquele disco, Celso Raposo botou lá no Marista, eu pirei. Eu não consegui entender o que era aquilo, mas era aquilo que eu queria. Eu tenho discos e discos de percussionista. Escuto, tenho discos de percussão de todo o mundo. Robertinho Silva, adoro ouvi-lo tocar. Tem um cara da bateria que eu digo que eu incorporo, eu adoro: Edson Machado. Dois caras: Jackson do Pandeiro é minha grande paixão. Esse ano eu quero ir ao memorial, na terra dele, Alagoa Grande [Paraíba].

Na tua opinião, o que é o choro? O que significa este gênero? Se a gente for ver é a primeira música genuinamente brasileira. Carioca. Mas não ficou só no Rio. Hoje em dia a nova geração está voltando a ouvir chorinho, embora as rádios não toquem. Quando eu comecei a ouvir chorinho, a gente não percebe, mas se torna apaixonado, vai comprar discos. Você pode nem saber o que é, mas se torna apaixonado por chorinho. É uma coisa de alma, chorinho tem isso.

Você se considera um chorão? Eu sou um profissional. Profissional é você se dedicar. Eu não sei se sou chorão por que eu gosto de tudo. Eu gosto daquelas músicas do tempo da colônia, lançaram agora quatro discos, as músicas no tempo de D. João VI, eu gosto de ouvir uma coisa africana anterior a choro, lundu, eu escuto tudo. Eu escuto um choro de Anacleto de Medeiros, eu choro. Se ser chorão é ter essa alma, se identificar, você chorar até ouvindo. Mas choro também no lundu, no blues, no jazz.

Você passeia com a mesma desenvoltura por ritmos brasileiros, pelos ritmos de nossa cultura popular, por jazz. Em que praia você se sente mais à vontade? Eu me sinto à vontade em todas. Eu só toco bateria no Quarteto Insensatez. Chorinho, eu adorava tocar com Vieira. Era uma brincadeira! A gente nunca ensaiava. Era um ensaio, um dia antes do show, aqui em casa, a gente passava os tons e o resto era brincadeira. Eu quero é estar onde eu me sinta feliz, dentro da música. É ali que eu quero estar.

Você acha possível falar em um choro genuinamente maranhense? Maranhense, paulista, carioca, qualquer um é choro, é samba. É a mesma coisa do samba genuinamente maranhense. O que é o samba genuinamente maranhense? É a batucada dois por um, dos Fuzileiros [da Fuzarca, imita o som da batucada com a boca]. O grande erro nosso foi a gente tentar imitar as escolas de samba do Rio. Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara, se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão.

30 anos de Fulejo

[No Vias de Fato de setembro, já nas bancas]

Hoje raro, disco de Dércio Marques tem primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira – Erivaldo Gomes era o percussionista

ZEMA RIBEIRO

Um violão sobre uma cadeira, em frente à porta da casa que dá para um jardim. A capa do disco entrega o conteúdo, e seu título a festividade ali contida: Fulejo [Copacabana Discos, 1983], de Dércio Marques, é obra importantíssima da música brasileira e completa 30 anos neste 2013. O trabalho tem a participação de Doroty Marques, irmã do menestrel, e merece ser mais e mais ouvido.

É um disco que merece ser festejado também – ou principalmente – em terras maranhenses: ele contém a primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira, com direito a percussão de Erivaldo Gomes e arranjo de Ubiratan Sousa. No disco, a música é dedicada a Chico Maranhão.

O menestrel durante apresentação no Sr. Brasil de Rolando Boldrin

Mineiro de Uberaba, filho de pai uruguaio, Dércio Marques estreou em disco em 1977, com Terra, Vento, Caminho, lançado pela Discos Marcus Pereira, a mesma que no ano seguinte brindaria o público com Bandeira de Aço, de Papete, com repertório assinado por Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Inspirado pelas raízes musicais brasileiras que pesquisava, Dércio mostrou em Fulejo a influência das congadas mineiras, embora o disco fosse, como sua obra em geral, bastante diverso. Além da citada Namorada do Cangaço, são de seu repertório Mineirinha (Raul Torres), O pinhão na amarração (Elomar) – que ele defendeu em um festival da Rede Globo em 1980 –, Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo), Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos) e Disco Voador (Palmeira). Uma descuidada reedição em cd alterou a ordem das faixas – não sei se esta sorte é pior que a não reedição dos discos que Chico Maranhão lançou pela Marcus Pereira.

Falecido em 26 de junho do ano passado, no pós-operatório da retirada de pâncreas, baço e vesícula, Dércio Marques deixou 10 discos gravados e apresentou-se ao lado e foi parceiro de muita gente: Diana Pequeno, Heraldo do Monte, João Bá, Milton Edilberto, Oswaldinho do Acordeom, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola e Xangai, entre outros, além dos maranhenses Irene Portela e João do Vale. Em 1996 foi indicado ao Prêmio Sharp por Monjolear, disco fruto de oficinas de músicas ministradas por ele e a irmã para mais de 200 crianças – um dos melhores discos de música infantil já feitos no Brasil em todos os tempos.

Histórias de Fulejo – Dércio Marques aprendeu a letra de Namorada do Cangaço com o percussionista Erivaldo Gomes, que então morava em São Paulo, onde o disco foi gravado. O compositor Chico Saldanha, responsável também pela chegada das músicas de Bandeira de Aço às mãos e ouvidos de Papete, lembra que ele gravou sem pedir a autorização do autor: “Eu falei: “quer gravar, grava, mas vamos ao menos avisar o autor”. A princípio ele disse que não ia mais gravar, depois resolveu e o disco saiu com a música”, lembra.

“A música chegou a tocar razoavelmente no rádio, mas eu só fui saber depois que já estava gravada”, recorda-se o autor. “Até há uns erros de letra, ele não me procurou antes. Ele me ligou depois, pedindo autorização para inscrever a música em um festival da Rede Globo, o que neguei. Depois de muitos anos nos encontramos, eu trabalhava nO Imparcial, ele chegou com o violão, começou a tocar, tocou Boi da Lua [também de Cesar Teixeira], parou a redação inteira [risos]. Era uma figura irreverente e engraçada. Fulejo é um grande disco e o Brasil perdeu uma grande voz”, lamenta Cesar Teixeira.

REPERTÓRIO

1. Namorada do Cangaço (Cesar Teixeira)
2. Mineirinha (Raul Torres) Participação especial: Doroty Marques
3. Fulejo (Dércio Marques)
4. Malambo (Ricardo Zanon Morel/ Dércio Marques)
5. O Pinhão na Amarração (Canto de Amarração) (Elomar Figueira de Mello)
6. Cantiga da Serra (Hilton Acioli) Participação especial: Benjamim e Titina
7. Brasil Caboclo (Tonico/ Walter Amaral)
8. Riacho de Areia (Adaptação folclórica de Maria de Lira) Participação especial: Benjamim, Genésio e Doroty Marques
9. Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
10. Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos)
11. Ranchinho Brasileiro (Brasil Sinfonia) (Elpídio dos Santos)
12. Lua Sertaneja (Adauto Santos/ Gilberto Karan) Participação especial: Benjamim
13. Flores do Vale (Dércio Marques/ João Bá)
14. Disco Voador (Palmeira)

DISCOGRAFIA

Terra, vento, caminho (1977)
Canto forte – Coro da primavera (1979)
Fulejo (1983)
Segredos vegetais (1986)
Anjos da Terra (1990)
Espelho d’água (1993)
Monjolear (1996) – com Doroty Marques
Cantigas de abraçar (1998)
Cantos da Mata Atlântica (1999)
Folias do Brasil (2000)