Diga não!

Foto: Zema Ribeiro

 

Limpando o e-mail, encontrei esta foto, que fiz em junho de 2009, e capta Cesar Teixeira e Lena Machado cantando juntos por ocasião do lançamento do Tribunal Popular do Judiciário, movimento que agitou o segundo semestre daquele ano, desde este evento, no auditório da OAB/MA, em São Luís, até a grande plenária estadual, realizada em dezembro no ginásio do Colégio Dom Bosco (Renascença), precedida por diversas etapas estaduais, realizadas em municípios-polo em cinco regiões do Maranhão.

O movimento, encabeçado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, junto a outras organizações sociais, algumas de caráter estadual, outras com raio de atuação mais circunscrito aos municípios em que estão sediadas, tinha por objetivo denunciar uma série de desmandos da Justiça maranhense, que iam desde o não cumprimento do expediente por juízes – que deveriam residir nos municípios em que atuavam, mas eram apelidados TQQ, por só trabalharem às terças, quartas e quintas –, até juízes que, armados, comandavam ações de reintegrações de posse, agindo como comandantes da polícia, ou que mandavam prender funcionários de companhia aérea por perder um voo.

As diversas etapas do movimento estão fartamente documentadas no blogue do Tribunal Popular do Judiciário, que acaba funcionando como uma espécie de clipping de sua rápida, mas necessária, existência.

Uma das etapas mais aguardadas e concorridas das plenárias do Tribunal Popular do Judiciário era a Tribuna do Povo, quando eram apresentadas queixas contra o sistema de justiça – pensões alimentícias e aposentadorias que repousavam meses em mesas de juízes, por vezes condenando pessoas (velhos e crianças, inclusive) à fome, para ficarmos num único exemplo.

Feito por homens e mulheres simples, animado por um organismo da Igreja Católica, talvez por isso o Tribunal Popular do Judiciário tenha tido algo de profético.

Anos depois, ao rever a foto, impossível não pensar em magistrados que agem movidos por convicções e não por provas. Que aparecem sorrindo ao lado de figurões de um partido enquanto promovem toda a sorte de perseguições a gente de coloração partidária diversa da que lhe agrada.

Uma das músicas cantadas por Cesar Teixeira e Lena Machado quando disparei este clique foi Oração latina, dele, gravada por ela em seu disco de estreia, Canção de vida (2006), que celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil – o título vem da letra dessa música, originalmente lançada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, vencedora do Festival Viva Maranhão de Música Popular, em 1985.

Oração latina foi composta três anos antes, em 1982, para a trilha sonora de uma peça de teatro. O Brasil já vivia a chamada “abertura democrática”, reta final da ditadura militar que assombrou o país entre 1964 e 1985. “Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, cutucava o cão com vara curta a letra do jornalista e compositor.

Impossível não destacar aí, também, algo de profético. E necessário. Num tempo em que juízes tomam partido e ignorantes pedem a volta da ditadura militar, sob a égide de um golpe político-jurídico-midiático.

“Mas se for pra nos prender, diga não”, arremata a letra de Oração latina.

É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom

Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro

 

Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.

O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.

O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.

Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.

Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).

A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.

“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.

O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.

Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.

“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.

“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.

Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.

A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.

Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [em Fulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.

“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.

“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.

Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.

“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.

O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.

Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.

Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.

Maria, carnaval e palavrões

CESAR TEIXEIRA*

Maria Aragão em foto de autor desconhecido

Neste sábado carnavalesco é essencial lembrar o aniversário da médica e militante comunista Maria José Camargo Aragão, nascida em 10 de fevereiro de 1910, no povoado de Engenho Central (hoje Pindaré-Mirim). Era a terceira dos sete filhos do guarda-fios Emídio Aragão e da dona de casa Rosa Camargo Aragão, que cantava e tocava violão.

Talvez por isso Maria gostasse tanto de música e festa.

Não hesitou em participar do desfile da Favela do Samba, quando foi homenageada com o enredo “A Peleja contra o Dragão da Maldade: o Sonho de Maria Aragão”. O samba daquele ano foi da autoria do compositor José Henrique Pinheiro Silva, conhecido nas rodas boêmias por “Escrete”.

Maria mantinha uma convivência saudável com os artistas locais e curtia muito Gonzaguinha, Milton Nascimento, Taiguara, Baden Powell, Violeta Parra e Mercedes Sosa, mas não deixava de ouvir Tchaikovsky, Carlos Gomes ou Wal Berg e sua Grande Orquestra.

Adorava cerveja, vinho e caipirinha, que dividia com os amigos depois da “Boca Livre” que organizava em sua casa sempre às quintas-feiras, ou então nos barzinhos após as reuniões de caráter político, quando não estava em seu consultório e nos hospitais públicos.

Sua vida foi inteiramente dedicada à medicina e à política. Abandonou cedo a carreira de professora e pegou um navio para o Rio de Janeiro com a sua mãe, que lá faleceu vítima de câncer. Especializou-se em Pediatria e Ginecologia, adotando o Partido Comunista em 1945, inspirada por um comício de Luís Carlos Prestes, que acabara de sair da prisão.

Retornou ao Maranhão em 1949, orientada a reforçar o PCB local.

Aqui publicou e vendeu pelas ruas jornais considerados subversivos, fez discursos nas portas das fábricas e no interior do Estado, onde foi tratada como prostituta e besta-fera por padres que também espalhavam que “comia criancinhas”, chegando a ser apedrejada na cidade de Codó.

Faleceu em São Luís no dia 23 de julho de 1991, aos 81 anos, depois de ter sido presa mais de cinco vezes dentro e fora do Maranhão, numa luta incansável contra as ditaduras, a corrupção política, a repressão policial, a discriminação contra as mulheres e a falta de políticas públicas, sobretudo na área de saúde.

Quando os blocos e artistas convidados passarem pela Beira-Mar, junto ao Memorial Maria Aragão, provavelmente nenhum folião recordará as batalhas dessa velha guerreira; ninguém lhe prestará homenagem pelo seu aniversário nos rituais de Axé. Na camisa-de-força dos seus abadás, certamente não ouvirão os palavrões de Maria.

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

No rastro do Bandeira de aço

[O Imparcial, ontem]

Como o LP de Papete tentou ser imitado por uma geração, que acabou presa a um rótulo-sigla e a herança às novas gerações

ZEMA RIBEIRO

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

No rastro da repercussão do LP Bandeira de Aço [Discos Marcus Pereira, 1978], em que Papete interpretava composições de quatro compositores maranhenses, elementos da cultura popular do Maranhão foram definitivamente absorvidos pelas classes médias e elites locais. Antes, era “folclore” de um lado e música erudita ou popular para outro.

As primeiras experiências de hibridização vieram justo de um grupo de artistas que, alguns anos antes, fundou o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e mergulhou na pesquisa de nossas raízes. Como se as missões folclóricas de Mário de Andrade passassem pelo Maranhão com 50 anos de atraso.

O compositor Josias Sobrinho. Foto Fafá Lago
O compositor Josias Sobrinho. Foto Fafá Lago

“Quando me incluí no grupo, no primeiro semestre de 1973, a turma já estava integrada. O trabalho girava em torno do teatro, mas cada um de nós compositores fazia sua parte, em sua busca individual de um trabalho próprio. A reação do público tinha os componentes do momento histórico: cenário político, preconceito social, de gênero, de pele, de cultura. Por minha parte ouvi algumas vezes que essas músicas não eram adequadas”, relembra Josias Sobrinho, autor de quatro faixas do Bandeira de aço.

No rastro, toda uma geração acreditou estar ali uma fórmula para o sucesso, apesar de o ex-publicitário Marcus Pereira não produzir com a cabeça no mercado. “A impressão que eu tenho é de que a geração do Bandeira de aço é uma espécie de Clube da Esquina desunido, sem continuidade”, provoca o músico Pablo Habibe, sobrinho de Sérgio Habibe, outro dos compositores gravados por Papete.

“O mercado aqui ainda é pequeno e devia ser insignificante na época. Gosto de pensar que o Bandeira de aço poderia ter sido grande nacionalmente se eles agissem como os mineiros e lutassem juntos pelo disco, divulgando no sul do país e tudo mais. Quem sabe, um Bandeira de aço II poderia ter saído. Tio Sérgio, Chico Maranhão [compositor não gravado em Bandeira de aço, mas que lançou no mesmo ano, também pela Marcus Pereira, o igualmente antológico Lances de agora], Josias e Papete, juntos, como uma banda, teria sido incrível”, continua.

O fato é que, aprisionados pelo rótulo da “Música popular maranhense” e a sigla bastarda MPM, nenhum disco lançado por um artista ou banda no Maranhão, ao longo dos próximos quase 20 anos alcançaria o nível estético de Bandeira de aço, não à toa eleito o melhor disco da música produzida no Maranhão em todos os tempos em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Pablo Habibe aposta em uma explicação. “Enquanto o pessoal do Bandeira de aço tem bossa nova, folclore, Clube da Esquina, incluindo uma inconfessável dose de rock progressivo e Beatles, a MPM era voltada para a ideia de fazer sucesso no rádio pela imitação imediata da programação. Eles atiravam pra todo lado: ora faziam reggae, imitavam Alceu Valença e sua trupe, voltavam para João do Vale, músicas românticas que soavam de novela… Tinham e têm todo o direito de fazer isso e conseguiram produzir algumas músicas bem bacanas, mas quero dizer que é uma geração, a da MPM, marcada pela perseguição do sucesso e não por uma estética musical especifica. O foco era outro”, defende.

Curiosamente, as coisas só parecerão mudar de figura quase 20 anos depois, com as estreias fonográficas de dois maranhenses que rumaram para o eixo Rio-SP, caminho natural de quase todos os maranhenses que alcançaram alguma repercussão nacional: Zeca Baleiro e Rita Ribeiro [hoje Benneditto], que em 1997 lançaram Por onde andará Stephen Fry? e Rita Ribeiro, respectivamente, ambos pela MZA Music, de Marco Mazzola, lenda viva da indústria fonográfica nacional.

Alê Muniz e Luciana Simões convergiram suas estradas musicais quando juntos inventaram o duo Criolina, hoje com dois discos e um EP gravados, responsáveis por tributos ao LP Bandeira de aço ocorridos desde 2013, quando o LP completou 35 anos, reunindo seus compositores (exceto Ronaldo Mota, o único que mora no Rio de Janeiro) e a nova geração, de nomes como Afrôs, Bruno Batista, Dicy Rocha e Madian e o Escarcéu. Hoje vivendo em São Luís do Maranhão, o casal Criolina é responsável por uma importante movimentação da cena autoral a partir do Festival BR-135, sucesso de público, crítica e intercâmbio – e frisamos o último aspecto pelo fato de o festival tanto trazer artistas de fora para deleite do público maranhense quanto servir de vitrine para artistas locais que, a partir dele, acabam conquistando outros palcos.

O cantor e compositor Tiago Máci. Foto Carla Pedraça
O cantor e compositor Tiago Máci. Foto Carla Pedraça

Onde e em quê isso vai dar, difícil responder. O jovem compositor Tiago Máci aponta, entre as principais diferenças entre aquela e sua geração, fatores como o mercado. “O mercado é uma coisa que mudou totalmente e isso acaba mudando todo o contexto de plateia, formação de plateia, não o talento ou a qualidade musical”, aponta.

“Isso de MPM talvez tenha trancado um pouco a própria música daqui, regionalizando uma coisa que na verdade é universal. Tanto que outros produtos musicais que talvez não se enquadrassem na MPM não é considerado MPM mesmo sendo feito aqui ou por gente daqui: Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, Alcione. É uma coisa que parece que, saindo daqui, já não é mais regional, ficando aqui é regional”, confunde Máci, artista confessadamente influenciado por Cesar Teixeira, autor da faixa-título de Bandeira de aço.

Entre outras influências, Máci comenta: “o mais massa é que geralmente nossos ídolos de referência estão quase todos mortos, como Sérgio Sampaio, Noel [Rosa], Gonzaguinha. E [Marcos] Magah é um desses [ídolos], mas com ele eu tomo um café, compomos juntos, e ainda diz que é meu fã [risos]. E não menos que isso: está vivo [mais risos]”. A recíproca é verdadeira.

*

Ouça o disco Bandeira de aço:

Cesar Teixeira: um artista político

[íntegra da entrevista publicada hoje (10) nO Imparcial]

IMG_1330

Para o artista, sua arte engajada é decorrência da consciência de que “o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança”

TEXTO, ENTREVISTA E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

A reportagem de O Imparcial encontrou o compositor Cesar Teixeira ensaiando para uma apresentação no arraial do Largo de Santo Antonio. Era manhã de sábado, em São Luís, e o artista encerraria sua participação na temporada junina, após alguns shows solo e a presença em diversas apresentações no espetáculo que homenageou o LP Bandeira de aço, gravado pelo cantor e percussionista Papete, recém-falecido, grande homenageado do São João 2016.

Cesar é autor de três faixas – além da faixa-título, Boi da lua e Flor do mal – de Bandeira de aço, lançado em 1978 pela Discos Marcus Pereira. Mas o artista, que atua em várias frentes, já estava em cena bem antes: como artista plástico venceu um salão intercolegial de pintura ainda em 1969; em 1972 participou de festival de música com Salmo 70, parceria com o poeta Viriato Gaspar, mesmo ano em que ajudou a fundar o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), onde conviveu com nomes como Sérgio Habibe e Josias Sobrinho – outros compositores de Bandeira de aço; o grupo se completa com Ronaldo Mota – além de artistas de outras linguagens: fotografia, cinema, teatro, artes plásticas.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) na década de 1980, Cesar passou pela redação de O Imparcial, onde foi editor de Cultura (1986-88). Em 1985, interpretada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, sua Oração latina venceu o Festival Viva de Música Popular do Maranhão. Em 2010 foi homenageado pela escola de samba Favela do Samba.

Dono de vasto repertório, a obra de Cesar, a partir da experiência laborarteana, é impregnada de elementos da cultura popular do Maranhão, de que é um pesquisador, e de crítica e denúncia social, constituindo-se num conjunto único de uma arte bastante engajada, entre música, poesia, pintura, cordel e teatro.

Foi este componente político que pautou a entrevista que o artista concedeu a O Imparcial após o ensaio.

O Imparcial – O engajamento na arte sempre foi uma preocupação tua? Você nunca conseguiu fazer nada despreocupadamente, arte pela arte?
Cesar Teixeira – Sempre fiz. Mas eu sempre tive uma consciência de que o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança.

Você se sente obrigado a fazer uma arte mais politizada?
Não. A minha politização está na faixa da normalidade poética [risos]. Então eu não me obrigo, não me amarro, tanto que eu não pertenço a partido nenhum até hoje. Sou uma cara com uma consciência, com uma formação livresca socialista, sempre fui. Mas como não existe partido socialista, só na sigla, no Brasil, me preocupo mais em estudar e aprender com os exemplos. Isso de certa forma influencia minha arte, claro, não tem como. Você exterioriza aquilo que está em seu espírito, em seu conhecimento. Involuntariamente eu posso fazer um verso que pode ser considerado engajado, proposital, por que é música de protesto. Não! Eu fiz por que eu achei que era minha inspiração naquele momento. É como você ver uma pessoa pedindo esmola e fazer um verso, aquilo é uma atitude política. Não precisa dizer que [muda a entonação, como a imitar alguém que recita:] “é por que o país”… não! Você vai falar de outra forma, “um dia cairá uma estrela em suas mãos”, por que todo mundo joga moeda, eu tou inventando isso agora.

Um ótimo exemplo disso é Dolores, que Flávia [Bittencourt] gravou [em Sentido, seu disco de estreia, 2005]. Uma música de uma poesia exuberante, com uma denúncia social fortíssima. Você está denunciando uma série de coisas ali.
É, uma música engajada, mas não perde a ternura. Uma linguagem metafórica muito rica.

É interessante: você falou que socialismo no Brasil só na sigla. Eu costumo brincar dizendo que um dos problemas do Brasil é etimológico: as siglas estão falando em socialismo, comunismo, mas os socialdemocratas na verdade são neoliberais, quem é democrata é reacionário, quer dizer, não existem, na sigla, o partido homofóbico, o partido misógino, o partido machista, o partido militar, mas estas categorias estão representadas politicamente.
Na prática… existe uma história de pessoas que eu respeito, que eram competentes, como [Carlos] Marighella, como Gregório Bezerra, Maria Aragão, esses eram socialistas, de fato. Hoje em dia o partido são os caras que são figurões, medalhões, que de certa forma roubam esse caráter, de certa forma incorporam uma coisa que não é deles. Em nome do socialismo se comete tanta atrocidade que é caracterizada pelo capitalismo, por ser um capitalismo selvagem, e a pessoa corrupta, preconceituosa, nada que se assemelha a um ideal, eu não considero utopia, todo sonho pode ser realizado. Mas nem se aproxima, é como se estivesse andando pra trás, então por que não muda o nome do partido? Partido de direita. O partido, na minha opinião, nem sempre representa os interesses da população. Por exemplo, o PT. Eu poderia ter sido membro do PT naquela época, até cheguei a me inscrever, perderam minha ficha, eu digo, “pô, perderam minha ficha?” Eu dei graças a Deus, eu estava certo. Quando eu cheguei, uma das sedes provisórias, eu discuti a reforma agrária, pra mim até hoje é uma coisa séria. Mas eu não notei nenhum interesse. Eles queriam divulgar, nos jornais que eles faziam mimeografados as ideias de Lenin. Eu disse: “olha, o povo não vai compreender isso. Vocês estão tirando praticamente do livro, copiando, tem que ter um trabalho de educação política, antes”. Foi a primeira coisa que eu vi e condenei. Aí eu fui logo rejeitado. Tipo: “ah, é um artista, um bêbado”. Eles não sabiam que eu tinha uma cultura política, e faço questão de preservar. E sempre fui rejeitado, não só por esse partido, mas por outros que tentaram, várias vezes fui convidado a participar de partidos.

Jornalista de formação, com essa cultura política que faz questão de preservar, como você avalia, sente, como jornalista e artista, esse momento turbulento por que passa o país, com a cassação de Dilma, a ascensão de Temer ao poder?
Isso tem muito a ver com tudo o que falei agora. O PT se proclamou, embora não tivesse socialismo no nome, levantou a bandeira da democracia e democracia é uma palavra forte, tem muito a ver com a participação da população. A transformação de Lula em um mito foi um prejuízo muito grande para o movimento social. Por que se imaginava que sua liderança e competência, inclusive eu ajudei na campanha, ajudando a pintar paredes, comi mocotó frio de madrugada.

A campanha de 1989?
As campanhas, de modo geral, eu participei de todas, desde a anistia. Eu estava em todas, nem sei contabilizar isso aí, mas eu tava lá. Depois disso, o PT, que seria uma esperança, se pensava que seria uma coisa nova, não tem socialismo no nome, comunismo, mas pode ser uma alternativa forte de inserção de algumas ideias socialistas no Brasil, que se perdesse o vínculo com os rancores do passado, com os partidos comunistas, coisa que ainda existia. O PT era uma coisa nova. Mas não. Quando eu vi, eu disse: “isso vai dar em merda!” Se criou um mito. Depois dessas eleições conturbadas não se conseguiu resolver os problemas de base.

Em sua opinião, qual é o momento da criação do mito? As greves operárias do ABC, a primeira campanha em 89 ou a primeira eleição em 2002?
As greves!

Muito antes de Lula chegar ao poder.
É uma figura importante. Quando assume o poder os movimentos sociais tocam foguete, comemoram, tomam cerveja.

E grande parte dos quadros dos movimentos sociais vai para dentro do governo.
E o movimento, veja só, fica estagnado. Movimento, a palavra já está dizendo, é uma coisa dinâmica. Os movimentos ficaram paralíticos. Pensaram: agora vamos ter reforma agrária, vamos ter as terras indígenas preservadas, vamos ter a água preservada. O essencial. Talvez uma reforma política, que também era essencial, nunca foi feita. Nunca aconteceu nada disso. Sabe o que aconteceu? O bolsa-família, que eu acho que é uma negação de direitos humanos. Ajuda, por que tem pobreza. Mas tem pobreza por que não tem reforma agrária. O cara lá do interior recebe bolsa-família por que ele não pode plantar, por que ele não tem emprego. Então, isso vai ficar por quanto tempo? Se você não dá cidadania, se você não dá condições de o cara sobreviver, essa cesta básica me parece uma coisa de coronel. Minha crítica é muito dura com relação a isso. Evidente que as pessoas que me ouvem, ligadas aos partidos, vão me recriminar com muito furor. Mas minha posição sempre foi essa. Não se construiu, pelo menos não se aproximou, da ideia de um socialismo. Não precisa ser um socialismo convencional. Ainda mais num país que depende de outros, de um capitalismo que é interligado, um país querer se separar do resto, como uma ilha.

Mesmo uma ilha enorme como o Brasil.
Mesmo uma ilha enorme e com condições de sobrevivência, por que Cuba não tinha. Aqui você tem ouro, prata, aquilo que Portugal não levou e os americanos não levaram, sobrou alguma coisa. As terras, a cultura, a natureza exuberante, mas isso ficou paralisado. Hoje quem estuda a nossa flora são companhias estrangeiras, que de repente levam toda essa informação que os índios, por exemplo, têm, para investigar lá fora. No Amazonas não se tem uma escola, uma faculdade para formar pessoas pra trabalhar a questão da floresta, não para derrubar e depois plantar eucalipto, mas para transformar essa informação. Tem animais e tem plantas que ninguém nem sabe o nome, mas que podem representar a cura de um câncer. A gente sabe que a química e a farmacologia dependem da natureza para existir. O cara não inventa uma fórmula dentro de um laboratório, sem nada. Com o quê que ele vai trabalhar? Isso no Brasil não se faz. Então muita coisa, fora os direitos negados, da própria Constituição, que não se exerce. Daí a decadência desse governo petista. Não é por nada, ninguém forçou a barra, eles mesmos se destruíram, foi essa autofagia, o partido se devorou a si próprio. Não resta mais nada, só osso.

Com toda essa crítica ao governo do PT não dá para legitimar o governo Temer.
Uma coisa não tem a ver com outra. Talvez seja um outro ponto que tem que ser considerado: a contribuição do PT para o retrocesso. Se tivesse feito uma coisa bem feita não haveria retrocesso. Temer, PSDB, DEM, é retrocesso! Por que isso aconteceu? Por causa do fracasso das pessoas bem intencionadas, entre aspas. Hoje a gente poderia estar respirando melhor no país. E hoje a direita bate palmas. Você vê um deputado que elogiou um torturador em plena sessão aberta, com canais de televisão, e o cara não foi preso, está aí. E só foi processado por que o povo foi para a rua e começou a debater. Tem pessoas que não podiam nem se candidatar. Por isso eu acho que tem que ter uma reforma política: o sujeito que cometeu crimes, que tenha interesses econômicos, deputado nem devia ganhar tanto quanto ganha. Eles vão pensar: “o que eu vou fazer lá, se eu não vou ganhar tanto?” O idealista vai. Hoje em dia o cara vai lá por que ele vai ter imunidade, se ele é ladrão, lá ele vai conseguir se salvar, se elege para escapar da justiça, chega lá não faz porra nenhuma, nem assina o ponto. Outros estão ali para manter seu partido vivo, por que seu partido é um balcão de negócios. Então a política não serve pra nada, nesse sentido. Esse modelo político é que deveria ser trabalhado, mas veja só como as forças reacionárias é que mandam, os fazendeiros, os empresários. Não foram os empresários que elegeram a maioria desses deputados que estão aí? Esse interesse capitalista não tem muito a ver com a natureza humana. O nosso planeta vai ser reduzido a um cocô por conta desses caras. Eles querem desmatar. Pra que serve o dinheiro? Eu questiono. Porra nenhuma! Pra que serve o poder? Pra nada! Se as pessoas dissessem “vamos organizar esse poder pra gente sobreviver mais um milhão de anos”, pra não faltar água. O espírito humano é muito hedonista, niilista e narcisista. O político se ama, ele não ama a população. Ele quer ver dinheiro. Ele não quer saber se a pessoa está passando fome, se o índio é feliz ou não, se estão desmatando. Basta a escravidão que houve quando o Brasil era colônia de Portugal, aquilo era um crime hediondo.

E o governo Flávio Dino, um ano e meio depois?
Flávio Dino carrega nas costas um grande abacaxi. Ele vai ter que resolver, descascar. Ele tenta. É um cara que a gente conhece de perto, mas que lida com os mesmos vícios, antigos. Você não consegue trabalhar em um ambiente contaminado. É tipo você estar em Chernobyl, a cidade que foi abandonada, você vai ter uma contaminação, alta ou baixa. Olha, fazem 30 anos de Chernobyl, aqui fazem 50 anos de Sarney. A contaminação não acabou. Como administrar isso, eu gostaria até de conversar com Flávio, conversei uma vez rapidamente, no Bar do Léo, depois daquele show que eu fiz. Eu falei da reforma agrária. É claro que um governador depende de decisões federais para fazer alguma coisa. O Iterma [Instituto de Terras do Estado do Maranhão] era um instituto paralítico. Eu, na época que fui empregado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos [foi assessor de comunicação da entidade entre 1989 e 2002], vi funcionários do Iterma negociando lotes, envolvendo especuladores, como se a terra fosse propriedade do Estado, e não é. O Estado está ali para administrar. Tem que ter competência e respeito pelo cidadão que já está lá. Minha opinião não mudou nada nesse sentido: tem que avançar em relação à questão da reforma agrária, principalmente. Muita gente quer que eu assuma alguma postura em relação ao novo governo. Não! Eu acho que a gente tem que apostar no futuro. O passado foi muito doloroso, a gente tem que se afastar do passado. Se não tiver essa transição… Eu procurei ajudar na música, no jornalismo, escrevi muito texto contra a família Sarney, muitas vezes fui uma voz solitária. Um grupo diferente chega, já é um alívio. Eu sou um dos caras que está na expectativa. Não conheço a estrutura desse governo, mas eu posso cobrar de perto, tem pessoas conhecidas minhas e eu vou cobrar o tempo todo. Eu não mudei, não mudo, o meu comportamento vai ser o mesmo.

Disco de Cesar Teixeira esgotado há anos, Shopping Brazil é finalmente relançado

Shopping Brazil. Capa. Reprodução
Shopping Brazil. Capa. Reprodução

 

Lançado em 2004, Shopping Brazil, disco de estreia de Cesar Teixeira, era o primeiro registro do artista interpretando sua própria obra, a despeito de ser um dos compositores mais gravados do Maranhão.

À época, o LP Bandeira de aço já contava mais de um quarto de século: lançado pela Discos Marcus Pereira em 1978, era o primeiro registro fonográfico com músicas de autoria de Cesar: Boi da lua, Flor do mal e a faixa-título, interpretadas por Papete, as duas últimas regravadas pelo autor em Shopping Brazil.

Mas a trajetória musical de Cesar Teixeira, versado em outras expressões artísticas, como a poesia, as artes plásticas e, por que não?, o jornalismo, havia começado ainda antes, quando participou de festivais ainda em fins da década de 1960.

Tudo isso fazia de Shopping Brazil um disco bastante aguardado. Ao longo de 14 faixas – incluindo dois excertos de Dona Elza (do Caroço de Tutóia) e Mestre Felipe (do Tambor de Crioula homônimo), além de uma ladainha de Antonio Rayol, cantada em latim por Dona Teté (do Cacuriá homônimo) – Cesar atestava a quem ainda ousasse duvidar sua versatilidade como compositor e sua qualidade como intérprete. Não à toa venceu, no ano do lançamento, diversas categorias do Prêmio Universidade FM, o mais importante da música produzida no Maranhão.

Como não poderia deixar de ser, Shopping Brazil veio embalado em protesto. Um texto no encarte (reproduzido neste relançamento) e a faixa-título, composta ainda na década de 1970 e atualizada por Cesar para o hip hop à base de latas recicladas e transformadas em instrumentos musicais pela trupe do Som na Lata, denunciavam os lixões brasileiros como verdadeiros shopping centers de onde populações vulneráveis e marginalizadas retiram seu sustento, alimentação e moda.

Mas havia ainda espaço para o choro (Ray-ban), o samba (Vestindo a zebra), o coco (Parangolé), o bumba meu boi (Mutuca), o xote (Xaveco) e o “bolero de Waldick Soriano” (verso de Namorada do cangaço).

12 anos depois, Shopping Brazil [R$ 25,00 na Livraria Poeme-se] é relançado, de forma independente, dando fim a uma longa espera e respondendo à pergunta recorrente, sobre uma nova tiragem, sempre feita por quem nunca teve o disco, por quem teve e perdeu ou simplesmente por quem gostaria de presentear alguém querido ou algum amigo de passagem pelo Maranhão.

Uma pergunta tão ouvida por Cesar quanto “e o segundo disco, sai quando?”.

Pela democracia

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Teatro João do Vale, na Praia Grande, recebeu aproximadamente 100 pessoas na noite de hoje (28), em ato denominado “Encontro de defensores e defensoras de direitos humanos pela democracia”. Diversos deles deram depoimentos. De alguns o blogue transcreve trechos, abaixo.

Inez Pinheiro, militante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), cumpriu o papel de mestre de cerimônias, e a artista Lúcia Gato apresentou performance com as músicas Moleque e É, de Gonzaguinha. Ao final, após a leitura de um manifesto em defesa da democracia, por Maria Luiza Mendes e Maurício Paixão [que o blogueiro não copiou mas publicará aqui, depois, editando o post], os presentes entoaram Oração latina (Cesar Teixeira), hino dos trabalhadores e movimentos sociais do Maranhão.

“Vigília é estar em alerta permanente. Estamos correndo o risco de perder tudo o que passamos a vida inteira para conquistar. Não há nada que justifique o impeachment da presidenta. Uma democracia é baseada em eleições. A condução coercitiva de Lula não incomoda por ter sido ele, mas reflete no meu trabalho de militante de direitos humanos, já que daqui a pouco um policial, ao conduzir um jovem, negro, morador da periferia, pode usar como argumento “se até Lula foi levado”… Sem segurança jurídica não se faz defesa de direitos humanos”.
Joisiane Gamba, advogada, coordenadora da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

“É preciso defender a democracia que nós conquistamos. A democracia não é abstrata. A participação dos movimentos sociais materializou a democracia brasileira. Defender direitos humanos é defender fundamentalmente uma democracia participativa e para fazer isso é preciso meter o dedo na ferida: ou mudamos o modelo [do sistema político-eleitoral brasileiro] ou só criaremos um bode expiatório para a questão da transferência de recursos públicos para mãos privadas”.
Francisco Gonçalves, professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular

“Eu tenho medo de golpe. Eu nasci em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas. Vi o presidente ser deposto, depois vi seu suicídio, depois vi a renúncia de um presidente, vi e vivi os anos da ditadura civil-militar, e estou vendo um hoje que vem de algum tempo, já. É preciso nos debruçarmos sobre a história estúpida e brutal que remonta ao tratado de Tordesilhas. Há muita mentira na história do descobrimento do Brasil e é nessa viagem que se instalam aqui a corrupção e o nepotismo. Desde a reeleição de Dilma Rousseff começaram os anúncios de impeachment. Eu quero defender este Estado democrático de direito. Eles [os oposicionistas] evocam as leis para dizer que não é golpe. [Enfática:] Este impeachment é golpe!
Helena Heluy, advogada, ex-vereadora de São Luís e ex-deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores

“É preciso marcharmos unidos contra o golpe, sem subalternidade. O governo que defendemos é o mesmo que aprovou a lei antiterrorismo que nos pune. Se o próprio governo não tivesse desarmado nossa classe, nós estaríamos num patamar mais organizado de resistência aos fascistas”.
Saulo Pinto, professor do departamento de Economia da UFMA

“Recentemente num aumento da gasolina Dilma foi estuprada em tanques de combustível. O Brasil ocupa um dos últimos lugares entre os países no quesito participação política das mulheres, com uma sociedade extremamente patriarcal e um congresso extremamente conservador. Dilma está passando por isso por que a sociedade é extremamente machista. Quando Collor disse que tinha aquilo roxo, ficou muito bonitinho; quando alguém fala que as mulheres de grelo duro precisam se unir é um escândalo”.
Mary Ferreira, professora do departamento de Biblioteconomia da UFMA

“Não aceitamos a posição da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. A OAB não pode cometer o mesmo erro de 1964, quando apoiou o golpe e só depois reviu sua posição. Ninguém lembra o nome do presidente da OAB de então, mas todos lembramos o nome de Raimundo Faoro, que levou a OAB a lutar pela democracia. Lula e Dilma não fizeram mudanças radicais, mas garantiram o mínimo a muitos brasileiros: comer todo dia, morar. Isto a elite não suporta, não consegue conviver. A direita não vai parar ao derrubar Dilma: vai dar prosseguimento à cassação de direitos, ao desmonte das ainda insuficientes políticas sociais”.
Mário Macieira, advogado, ex-presidente da OAB/MA, ingressou com uma ação popular na Justiça Federal para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e, consequentemente, da condução do processo do impeachment

“No mundo inteiro a direita está na rua: na França, nos Estados Unidos, onde [o candidato à presidência] Donald Trump pronuncia uma aberração após a outra. A direita é sustentada pela política do ódio, mantida pela homofobia, pelos feminicídios, pelo ódio de classe. O PT, em nome da governabilidade, se colocou dentro de uma estrutura corrompida que sustenta partidos políticos. É necessária a autocrítica do PT e da esquerda brasileira. Não se trata apenas deste momento, é preciso ser coerente para defender direitos humanos. No atual cenário, Bolsonaro se viabiliza para 2018, Moro já aparece com 8% das intenções de voto em pesquisa e a sanha inquisitorial não vai sumir num passe de mágica. Nós precisamos botar nosso bloco na rua”.
Wagner Cabral, professor do departamento de História da UFMA, presidente da SMDH

Correndo o chapéu

[release]

Campanha de financiamento coletivo lançada no último dia 1º. pretende garantir parte do orçamento para viabilizar a publicação; a outra parte do recurso está garantida através de edital da Fapema

Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos
Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos

O sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, o jornalista Zema Ribeiro e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos aprovaram, em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema), projeto que pretende publicar em livro as 52 entrevistas da Chorografia do Maranhão, realizadas pelo trio com instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão.

Porém, o recurso aprovado pela Fundação é insuficiente para as pretensões dos “chororrepórteres”, como eles se autodenominaram. “Foram mais de dois anos de trabalho árduo, publicando quinzenalmente as entrevistas em parceria com um jornal de São Luís, e o registro destas entrevistas em livro, além de uma vontade nossa, é também um desejo de pesquisadores, estudantes de música e interessados em música em geral, e em choro em particular, além dos próprios personagens da série”, revela Ricarte.

Para conseguir o que falta dos recursos para realizar seu intento, o grupo lançou uma campanha virtual de financiamento coletivo. “O crowdfunding é uma tendência mundial para a realização de projetos nas mais diversas áreas, hoje. É claro que estamos abertos a patrocinadores, a empresários eventualmente sensíveis à cultura, alguns dos quais têm colaborado para a realização dos projetos realizados por Ricarte nos últimos anos; mas se eles não se aliarem ao projeto, já estamos, literalmente, com o bloco na rua e o chapéu na mão”, comenta Zema.

A campanha, que pretende arrecadar 30 mil reais e tem dois meses de duração, foi lançada no último dia 1º. de fevereiro. “Realizamos um trabalho que buscou primar pela excelência na apuração dos depoimentos, revelando além das próprias histórias pessoais dos chorões, um pouco da própria história do choro e da música em geral produzidos no Maranhão, as dificuldades e avanços vividos pelo gênero no estado, além de a Chorografia ser também um mapeamento afetivo e sentimental de lugares que, de algum modo, têm relação com a música imortalizada por gênios como Pixinguinha e Ernesto Nazareth, entre outros. Pode parecer que estamos querendo dinheiro demais, mas queremos um livro com um padrão de qualidade, como a memória deste pedaço da história e da cultura do Maranhão merece”, defende Rivanio.

Lançamentos além da Ilha – Outra pretensão do trio – e para isso, outro projeto já está em fase de elaboração, para captação de recursos através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – é lançar o livro em praças de choro pelo país. “O Clube do Choro do Maranhão sempre buscou proporcionar o diálogo entre músicos do cenário local e do cenário nacional, e os projetos que produzimos ultimamente, movimentando a cena chorística da capital maranhense, não fizeram diferente. Nossa ideia é levar este livro à Brasília, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, garantindo a ida de um grupo de choro maranhense até cada uma destas cidades, para as noites de autógrafos”, antecipa Ricarte.

Capricho editorialChorografia do Maranhão, o livro, tem prefácio de Luciana Rabello e produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, que tem investido na produção de obras sobre a cena musical do Maranhão. A editora de Bruno Azevêdo já publicou Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, Em ritmo de seresta – Música brega e choperias no Maranhão, de seu proprietário, e O reggae no Caribe brasileiro, de Ramusyo Brasil, os dois primeiros em parceria com a Edufma.

Personagens e cenários – Para se ter uma ideia da diversidade dos entrevistados, citamos os personagens da galeria da Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes – filhos do capitão Nuna Gomes, compositor e multi-instrumentista rosariense, o violonista Bastico, Zequinha do Sax e Biné do Cavaco –; os bandolinistas César Jansen, Chiquinho França, Raimundo Luiz, Ronaldo Rodrigues, Wendell Cosme e Wendell de La Salles; o banjoísta Biné do Banjo; os cavaquinhistas Ignez Perdigão, Juca do Cavaco, Márcio Guimarães, Paulo Trabulsi, Rafael Guterres, Robertinho Chinês e Zeca do Cavaco; os flautistas Danuzio Lima, João Neto, Lee Fan, Paulinho Oliveira, Serra de Almeida, Zezé Alves; os percussionistas Arlindo Carvalho, Carbrasa, Léo Capiba [in memoriam], Luiz Cláudio, Nonatinho, Vandico, Wanderson e Zé Carlos; o pianista Adelino Valente; o sanfoneiro Rui Mário; os saxofonistas José Luís Santos e Osmarzinho; o trombonista Osmar do Trombone; o tecladista Maestro Nonato; os violonistas Agnaldo Sete Cordas [in memoriam], Celson Mendes, Domingos Santos, Francisco Solano, Giovani Cavalcanti, Gordo Elinaldo, Henrique Cardoso, Hermelino Souza, João Eudes, João Pedro Borges, João Soeiro, Joaquim Santos, Luiz Jr., Marcelo Moreira, Monteiro Jr., Turíbio Santos e Ubiratan Sousa – alguns dos listados assumem mais de um instrumento.

As entrevistas também revelam uma paisagem diversa, afetiva do choro em São Luís. A Chorografia do Maranhão visitou as residências de Adelino Valente, Arlindo Carvalho, César Jansen, dona Zelinda Lima (para entrevistar seu filho Danuzio), Gordo Elinaldo e João Pedro Borges (para entrevistar seu amigo e parceiro Turíbio Santos, que ensaiava lá, para uma apresentação em São Luís), além de Bar do Léo, Barraca Paradise, Barulhinho Bom, Brisamar Hotel, Chico Discos, ECI Museum, Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, Estúdio de Júlio (Camboa), Feira da Praia Grande, Fonte do Ribeirão, Hotel Pestana, Kumidinha di Buteko, La Pizzeria, Praça da Saudade, Praça de Alimentação do São Luís Shopping, Quitanda de Seu João (esquina das ruas do Ribeirão e do Machado, Centro), Quitanda do Jósimo (esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, Centro), Quitanda Rede Mandioca, Restaurante Chico Canhoto, Salomé Bar, Samba Sem Telhado e Sonora Studio.

Participações especiais – A série Chorografia do Maranhão contou ainda com chororrepórteres honorários: num encontro inusitado, em plena Feira da Praia Grande, o jornalista e compositor Cesar Teixeira – fundador do Regional Tira-Teima – ajudou a entrevistar Zeca do Cavaco, atualmente membro do grupamento de choro mais longevo do Maranhão; e Murilo Santos substituiu Rivanio, que não pode comparecer à entrevista com Os Irmãos Gomes no Bar do Léo.

Segunda etapa – Ricarte, Rivanio e Zema priorizam, agora, a publicação do trabalho em livro. Mas revelam uma vontade, para a qual já estão se preparando: revelar os chorões do interior do Maranhão. “Ao longo das entrevistas, diversas cidades maranhenses foram citadas como polos musicais importantes, embora praticamente desconhecidos. A Chorografia do Maranhão, por conta de todas as limitações, sobretudo pelo recurso zero que teve, ou melhor, não teve [risos], acabou se concentrando na capital e, quando entrevistou chorões radicados fora do Maranhão, foi aproveitando visitas suas à capital, por um ou outro motivo. Vamos trabalhar um projeto para garantir as viagens aos municípios do interior, as condições de trabalho, e continuar este mapeamento, do qual este livro encerra uma primeira etapa”, finaliza Ricarte.

Faça sua doação!

Voduns de luz

Quando Cesar Teixeira lançou, em 2004, seu primeiro (e até aqui único) disco, Shopping Brazil, anotou em O lixo é nosso!, o texto de apresentação: “é pouco espaço pra tanto vodum”. Referia-se a mestres que reverencia, de um modo ou de outro, ali presentes e homenageados. O autor das fotos de capa, contracapa e encarte era Márcio Vasconcelos.

Pai Euclides em imagem do livro Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão. Foto: Márcio Vasconcelos

Quando Pai Euclides faleceu busquei uma foto para ilustrar seu obituário. E não poderia ter encontrado uma melhor. O eterno líder espiritual da Casa Fanti-Ashanti sentado diante de um altar, em pose que deixa transparecer sabedoria, experiência, seriedade. “O hábito não faz o monge”, diz o dito popular, mas as vestes aproximam-no de um deus. Novamente o fotógrafo era Márcio Vasconcelos.

Agaxosa - Gloku Kosu Naeton (Ouidah - Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos
Agaxosa – Gloku Kosu Naeton (Ouidah – Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos

O retrato de pai Euclides e tantos outros Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão [Pitomba!, 2016, 124 p.] integra o conjunto de fotografias de Vasconcelos reunido no livro, em que percorre casas de culto afro no Maranhão e no Benin – veja outras imagens no site do fotógrafo.

Dando valiosa contribuição para a preservação da memória dos voduns, o próprio Márcio Vasconcelos acaba se configurando também um zelador, dado o capricho com que exerce seu ofício e com que reúne o belo e o sagrado, para além do exótico a que são costumeiramente reduzidas estas manifestações que aliam religiosidade e cultura popular, campos em que tem vasta experiência e diversos prêmios nacionais – o próprio livro Zeladores de voduns foi contemplado no 1º. Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura (MinC), o que viabilizou sua publicação.

Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Os textos que precedem as fotografias, do editor Bruno Azevêdo e dos antropólogos Sergio Ferreti e Hippolyte Brice Sogbossi, facilitam a compreensão, sobretudo para não iniciados, das configurações que aproximam Benin e Maranhão e tornaram nosso estado um dos principais centros das religiões de matriz africana no Brasil.

“O catolicismo está muito presente nesta religião uma vez que os escravos eram obrigados a tornar-se católicos e que o catolicismo era a religião oficial do país até fins do século XIX e oficiosa em grande parte do século XX”, anota Ferreti em A terra dos voduns, um dos três textos que abrem o volume. Com Sogbossi, beninense radicado no Brasil, Vasconcelos percorreu, ao longo de quase um mês, em 2009, diversas cidades do Benin. Além de São Luís, outras cidades maranhenses também foram visitadas pelo fotógrafo, fechando o conjunto. Nas fotografias, sobretudo as do lado de cá, é possível perceber este sincretismo, com imagens de santos da Igreja Católica frequentando os terreiros, um retrato do Papa João Paulo II pendurado na parede, “folhinhas” com imagens de santos, caixas do Divino, parelhas do tambor de crioula, a decoração típica dos festejos de São João e o bumba meu boi.

Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Além de registrar diversas personalidades importantes para a perpetuação da religiosidade de matriz africana nas geografias em que se concentra, os cliques certeiros de Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns são uma homenagem a Pai Euclides e Mãe Deni Prata Jardim, última vodunsi da Casa das Minas, falecida há um ano. É também uma ótima oportunidade a interessados em geral de conhecer um pouco mais desta história e suas personalidades.

Sempre envolvido em vários projetos simultaneamente, o fotógrafo lançará este ano dois novos livros: Na trilha do cangaço, em que refaz os caminhos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, no sertão nordestino, com curadoria e concepção da fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisiliat, será editado pela Vento Leste; pela mesma editora ele publicará, com curadoria de Diógenes MouraVisões de um Poema Sujo, conjunto de fotografias inspirado no famoso livro-poema do maranhense Ferreira Gullar.

Bandeira de aço: documentário sobre o disco é disponibilizado no youtube

No dia 28 de maio de 2013 vários artistas subiram ao palco do Teatro Arthur Azevedo para celebrar os 35 anos de Bandeira de aço, antológico disco de Papete, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1978. A iniciativa era do Festival BR 135, capitaneado pelo casal Criolina, leia-se, Alê Muniz e Luciana Simões.

No disco, vencedor de enquete do jornal Vias de Fato, Papete cantou nove músicas, os primeiros registros fonográficos das vastas, importantes e belas obras de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Por ocasião do espetáculo, um documentário foi exibido, contando a(s) história(s) do disco, destacando sua importância, e botando o dedo em feridas. O filme tem depoimentos dos quatro compositores e do intérprete, além de nomes como Chico Saldanha (compositor que fez chegar a fita com as canções às mãos e ouvidos de Marcus Pereira) e Zeca Baleiro, entre outros.

Com roteiro de Celso Borges e Andréa Oliveira, o documentário (finalmente) foi disponibilizado pela produção, na íntegra, no youtube. Assista:

A grandeza de Cesar Teixeira

O compositor (já no chão) e seu "batalhão pesado" de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)
O compositor (já no chão) e seu “batalhão pesado” de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)

 

Cesar Teixeira estava à vontade no palco da Casa das Dunas, onde se apresentou ontem (19). Cercou-se de alguns de seus melhores intérpretes, para um passeio por diversas fases de sua obra.

A vantagem de um show fora dos períodos carnavalesco ou junino é poder conhecer-lhe diversas vertentes. Teve São João – abriu e fechou com Boi da lua –, teve carnaval –Dias felizes, na interpretação das vocalistas do grupo Lamparina –, teve protesto – Oração latina foi entoada pela multidão de pé –, mas teve muito mais.

Flávia Bittencourt cantou Dolores e Flor do mal, que gravou em seu disco de estreia, em 2005, e Parangolé, que gravou em No movimento, o mais recente. Cláudio Lima cantou Ray ban, que gravou antes mesmo do compositor, em seu disco de estreia, em 2001, e Bis, cujo verso “cada mesa é um palco”, dá nome a seu segundo disco, de voz e piano, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles. Célia Maria cantou a inédita A cruz do palhaço e Lápis de cor, gravada por ela em seu disco de estreia, o homônimo Célia Maria, de 2001. Lena Machado cantou Flanelinha de avião, gravada por ela em Canção de vida, seu disco de estreia, de 2006, e Quem roubou minha aquarela?, com que ela e o compositor participaram de um festival nacional de samba. As vocalistas do grupo Lamparina cantaram a marcha rancho com que obtiveram o segundo lugar no Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação. Com cada intérprete Cesar, autor solitário da íntegra do repertório, dividiu os vocais em uma música.

A base do repertório que Cesar cantou sozinho era Shopping Brazil, o único disco lançado por ele, em 2004. A Met(amor)fose, Vestindo a zebra, Namorada do cangaço e a faixa-título daquele trabalho, somaram-se Das cinzas à paixão, gravada por Serrinha e Companhia com participação especial de Zeca do Cavaco, e Canção da partilha, lançada há cerca de 10 anos, como um poema, declamado pelo próprio Cesar, em Regar a terra, um disco comemorativo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Maranhão.

Cesar estava acompanhado por Cleuton Silva (contrabaixo acústico e elétrico), Daniel Cavalcanti (trompete), Danilo Santos (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra, viola caipira e direção musical), Raquel (vocal), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim), Ronald Nascimento (bateria), Rui Mário (teclado e sanfona) e Wanderson Silva (percussão).

O espetáculo irmanou palco e plateia – não foram poucos os momentos em que o público que lotou a Casa das Dunas fez um bonito coro acompanhando as músicas mais conhecidas do compositor. Cesar dialogou com a plateia, brincou por diversas vezes, dizendo da felicidade para com os muitos amigos ali presentes.

Aos gritos de “mais um”, não se fez de rogado. Voltou ao palco para hastear sua Bandeira de aço e repetir o Boi da lua com que abriu o espetáculo. Reunindo todos os convidados para entoar um dos hinos do São João do Maranhão, finalizou o show junto ao público, cantando com ele.

Toda a apresentação foi filmada e os melhores momentos integrarão um documentário dirigido pelo cineasta Marcos Ponts.

Tendo encerrado o ano musical com a maior categoria, Cesar Teixeira já está de olho no futuro: anunciou com exclusividade a este Homem de vícios antigos o próximo encontro com o público. Em janeiro, em data e local a definir, fará um show dedicado a sambas de sua autoria e de compositores da Madre Deus e outros bairros de São Luís. Dividirá o palco com Patativa, Zé Pivó e a Velha Guarda dos Fuzileiros da Fuzarca – o blogue voltará ao assunto em breve.

Yesterday!

O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015. Foto Marcia Carvalho
O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015). Foto Marcia Carvalho

 

CESAR TEIXEIRA*

Enfim, Nauro Machado venceu sua olimpíada. Aos 80 anos conseguiu romper a corda umbilical de um espaço que, segundo ele próprio, não era seu, “mas do universo” – para a surpresa da Morte, na outra ponta da corda, depois de ver seus planos estratégicos caírem por terra.

O poeta retornou à casa Paterna não como um filho pródigo arrependido, que recebe de prêmio um novilho cevado, mesmo porque não desperdiçou a sua herança, nem abandonou sua cidade como na parábola. Ao contrário, desde a publicação de Campo sem Base, em 1958, não parou de escrever. Foram 37 livros de poesia, além de antologias, ensaios e artigos.

Era esse o seu ofício, e São Luís a sua inspiradora oficina, não obstante o inferno burocrático das repartições públicas. Para tanto, adaptou-se ao cardápio da dor, do sofrimento e até mesmo do “escárnio da (…) província”, a fim de eliminar o homem ilusório e edificar o poeta.

Compartilhava líricas alfarrobas (menos as dos porcos) com prostitutas e artistas amaldiçoados nos becos da Praia Grande e do Desterro, e saudava deus e o mundo com a expressão “meu poeta, meu cabo de guerra”, fosse um deputado ou um chofer de táxi.

“Yesterday!” era sua palavra de ordem, ou melhor, seu canto de guerra inacabado, quando as fartas doses de Santo Antônio dos Lopes sem mel faziam transbordar no poeta uma mistura de alegria e dor – naufrágio íntimo no esôfago da alma, que nos tornaria cúmplices e irmãos de infortúnio.

Somente John Lennon ou o Marinheiro Popeye poderiam nos salvar. E tudo foi ontem.

Nauro Machado retornou ao útero de Deus, “feliz e sofrido, mas verdadeiro”, por ter preenchido o seu espaço com a sua poesia, feito a areia fina de uma milagrosa ampulheta, após consumir toda uma existência e completar-se. Estava morto e reviveu: o filho pródigo agora pode caminhar com seus próprios pés.

Até breve, meu poeta, meu cabo de guerra!

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor

Tarja preta em oposição às imprensas marrom e chapa branca

 

Três gerações da música do Maranhão se encontram hoje (14), às 20h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), no Baile da Tarja Preta, festa que comemora o aniversário de seis anos do Vias de Fato.

Cesar Teixeira, Marcos Magah e Tássia Campos, além do DJ Jorge Choairy estarão juntos para celebrar a longevidade do “jornal que não foge da raia”. Além de música, a noite terá a encenação do esquete Xópim Tarja Preta, de autoria do jornalista Emílio Azevedo, um dos fundadores do Vias de Fato, encenada pelos atores Lauande Aires e Rejane Galeno.

“Os personagens travam um diálogo sobre quem é louco e quem é normal. Conversam sobre o que seria loucura e normalidade, dentro da sociedade em que vivemos; nesse capitalismo à brasileira, com sua herança escravocrata, racista, violenta, patrimonialista; com sua urbanidade profundamente desigual, consumista; com seus profissionais liberais e seus mendigos; e com a presença cada vez mais ameaçadora de um conservadorismo raivoso, de fundo religioso, pseudocristão”, adianta Emílio.

O jornal nasceu a partir do movimento Vale Protestar, contraponto ao Vale Festejar, um festejo junino fora de época que privatizou por muitos anos o Convento das Mercês. Entre 2006 – ano da eleição de Jackson Lago, depois cassado por um golpe judiciário – e outubro de 2009, quando circulou a primeira edição do jornal, muitas discussões e amadurecimento das ideias.

Também fundador do jornal mensal, Cesar Teixeira atesta a importância do jornal para a realidade maranhense: “O Vias de Fato é uma prova de que ainda se pode acreditar em um jornalismo sem amarras no Maranhão, fazendo da sua sobrevivência um compromisso com a sociedade e com a história”, afirmou.

Indago-lhe sobre sua participação no Baile da Tarja Preta e seu aval aos talentos de Tássia Campos e Marcos Magah. “A minha participação será modesta. O palco é deles. Vai ser um prazer estar junto de dois legítimos representantes da nova geração e, embora não seja um avalista do seu talento, assino embaixo”, declarou.

Tássia corresponde o entusiasmo: “[Este encontro] ressignifica as coisas nas quais acredito e é também um lisonjeio, porque eu não componho. O que tenho escrito é apenas a minha história e eles escrevem a história. Me sinto feliz pela possibilidade deste encontro”, afirmou.

Com formação em Ciências Sociais, a cantora é tida por seus pares como uma das mais autênticas artistas de sua geração. Ela não se preocupa em ganhar ou perder patrocínios e espaço para agradar ou desagradar: é uma artista de opinião. Sobre esta questão, ela declarou ao blogue: “Não consigo ficar em cima do muro. Tenho posicionamentos, não acredito em blindagem à crítica – isto já me coloca à margem de algumas coisas – e procuro ser coerente. Acredito que mais artistas com pensamento crítico faria diferença demais. Aqui ainda rola o provincianismo, da colegagem, do disse-me-disse, o que compromete, inclusive profissionalmente, muita coisa. Mas não posso delegar essas responsabilidades aos outros. Mas me incomoda demais isso de, por conta de falta de postura crítica, pouca gente se dá muito bem, pra muita gente se dar muito mal”.

Ela ainda deu pistas do repertório que apresentará logo mais: “Decidi que vou contemplar meus compas de palco: vou cantar Cesar, Magah, Bruno Batista… Mas também tem coisa dA mulher do fim do mundo, [disco novo] da Elza [Soares], Novos Baianos e uns reggaes que eu amo cantar. Vai ter também encontro com os meus rapazes, Chico Maranhão e outras cositas”, antecipou.

Um dos responsáveis pela consolidação de uma cena punk rock em São Luís do Maranhão, Marcos Magah integrou a Amnésia, ainda na década de 1980 – a banda chegou a tocar no comício do então candidato à presidência da república Lula, para uma multidão, na Praça Deodoro, em 1989. Sumido por algumas temporadas, fez de tudo um pouco até reaparecer com Z de vingança [2012], lançado pelo selo Pitomba!, do escritor e editor Bruno Azevêdo, que, de cara, incluiu o disco entre seus prediletos em enquete do Vias de Fato.

A entrevista que Marcos Magah deu a Los Perros Borrachos – Igor de Sousa e este que vos escreve –, publicada pelo jornal meses depois, teve grande repercussão. É a este espírito coletivo que Emílio credita a longevidade do jornal. “A longevidade é, sem sombra de dúvida, fruto do grupo que faz parte do jornal, é consequência do trabalho de quem distribui, divulga, escreve, milita. Sem este trabalho coletivo, que começou no impresso e logo se expandiu para a internet, o Vias não teria durado nem um ano. Some isso a nossa relação direta com as ações de organizações e movimentos populares, de alguns professores e estudantes. Todo esse pessoal, toda esta ação conjunta, é, sem dúvida, a força deste projeto”, finalizou.

Os ingressos para o Baile da Tarja Preta custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos no local.

Laborarte comemora 43 anos com vasta programação

Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge "Cara de Borracha"; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu
Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge “Cara de Borracha”; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu

 

Diversos movimentos convergiram para o nascente Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 11 de outubro de 1972. Música, teatro, artes plásticas, fotografia, cultura popular: para tudo havia espaço em seus departamentos, ocupados por nomes que fariam história neste estado, como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Murilo Santos, Wilson Martins, Regina Telles, Tácito Borralho, Rosa Reis, Nelson Brito, Mestre Patinho, Dona Teté e Joãozinho Ribeiro, entre outros, em diferentes épocas.

O Labô, como é comumente chamado pelos mais íntimos, completa 43 anos domingo (11) e preparou vasta programação, inteiramente gratuita, para comemorar. Ano que vem, o casarão 42 da Rua Jansen Müller (Centro) será enredo da Escola de Samba Flor do Samba no carnaval.

Ao longo da programação (veja completa ao final do post), uma videoinstalação apresentará documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte, acumulados ao longo de mais de quatro décadas de atividades ininterruptas.

Entre as montagens iniciais merecem destaque Espectrofúria [1972], recentemente reencenada, sobre texto de Eduardo Lucena, que recebeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem em Niterói/RJ, Os Sete Encontros do Aventureiro Corre-Terra ou O Cavaleiro do Destino, de Josias Sobrinho e Tácito Borralho [prêmio Mambembe de 1978], Agonia do Homem [1972], poemas de Nauro Machado adaptados por Otto Prado, Mártir do Calvário [1973], em que Ubiratan Teixeira interpretou Pilatos, e Marémemória [1974], baseado no livro-poema homônimo de José Chagas, cuja foto de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros encabeça este blogue.

De 30 anos de Laborarte, reportagem do último, aliás, cato informações para este texto. O do compositor-fundador foi publicado em 19 de outubro de 2002 no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, e está também na coletânea Maranhão Reportagem [Clara Editora, 2002], organizada por Félix Alberto Lima.

Entre os destaques da programação de aniversário, acontece hoje (9) a noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, em que Camila Reis, com transcrições de Gustavo S. Correia e ilustrações de Layo Bulhão, transpõe para partituras, cantos entoados nos festejos do Divino e na dança do Cacuriá, e Vem cá curiar o cacuriá, de Inara Rodrigues, sobre a dança em que ambas as autoras dão – ou já deram – passos. O primeiro tem patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura; o segundo foi premiado no Concurso Literário Cidade de São Luís.

Moda, dança e poesia dão o tom da noite de amanhã (10). A partir das 20h Tieta Macau, Deuzima Serra, Moisés Nobre e Raimunda Frazão – uma das homenageadas da 9ª. Feira do Livro de São Luís – apresentam performances nas áreas.

Na sequência, Joãozinho Ribeiro atrela à programação de aniversário do Laborarte o show que tem apresentado ao longo deste ano, lançando seu disco de estreia, Milhões de uns – vol. 1. Nesta ocasião, a apresentação terá as participações especiais de Josias Sobrinho e Rosa Reis.

“Para mim é uma honra e um prazer fazer valer o dito popular, “o bom filho à casa torna”. Minhas relações com o Labô têm tempo e história”, declarou o compositor, autor da maioria das músicas do espetáculo carnavalesco-teatral Te gruda no meu fofão. “Alegria maior ainda é poder dividir o palco com Josias Sobrinho e Rosa Reis, nomes de importância fundamental, em diferentes épocas, para o surgimento e a continuação do Laborarte nas trincheiras em prol de nossa cultura popular”, continuou. “Darei um presente ao Laborarte, o público pode esperar uma surpresa”, prometeu, deixando o mistério no ar.

A noite de sábado guarda espaço ainda para show das Afrôs e a programação se encerra no domingo de aniversário (11), com um cortejo do Cacuriá de Dona Teté na Feira do Livro (Praia Grande), às 17h30, cujo encerramento também acontece na data.

Como afirmou Cesar Teixeira em seu texto de há 13 anos, “nomes de pessoas e considerações sobre o trabalho do Laborarte não caberiam nesta página – dariam um livro”. Faça parte dessa história!

Programação

Hoje (9), a partir das 20h

Receba! – Dança, Negritude, Pertencimento, com Luana Reis
Noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, de Camila Reis, e Vem Cá Curiar o Cacuriá, de Inara Rodrigues
Instalação fotográfica Chuseto, de Jesús Pérez
Videoinstalação – documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte
Roda de Capoeira Angola com os mestres Nelsinho, Patinho e convidados
Shows de Rosa Reis e Camila Reis
Palco livre

Amanhã (10), a partir das 20h

Exibição de vídeo de Moda e intervenção Beltranesca, com Tieta Macau
Solo de dança popular com Deuzima Serra
Performance Poéticas, com Moisés Nobre, Raimunda Frazão e convidados
Show de Joãozinho Ribeiro – Lançamento do cd Milhões de uns, com participação especial de Josias Sobrinho e Rosa Reis
Cânticos aos 43 anos de Laborarte
Show das Afrôs

Domingo (11), às 17h30

Cortejo do Cacuriá de Dona Teté na 9ª. Feira do Livro de São Luís (Praia Grande)