César Nascimento: a síncope-síntese

[release]

Violão de coreiro. Capa. Reprodução

Alguns dos convidados, gente graúda, que entende do riscado, apontam o caráter sui generis do violão de César Nascimento, em um dvd (e cd) misto de show (gravado ao vivo em estúdio), documentário, making of e antologia, não por acaso intitulado Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão.

O dvd/cd passeia pela trajetória artística de César Nascimento, por acaso nascido no Piauí, mas maranhense de alma e música – e título concedido pela Assembleia Legislativa do Estado, bem como à sua música Ilha magnética, espécie de hino paralelo de São Luís (não registrada no dvd/cd), tornada bem cultural do Maranhão por decreto legislativo.

César Nascimento é também cidadão ludovicense, em título concedido pela Câmara Municipal de São Luís. Por aqui aprendeu a percussão maranhense como coreiro do Tambor de Crioula de Mestre Felipe, que difunde na oficina “Crivador, matraca e pandeirão – uma viagem pelos ritmos do Maranhão”, que ministra onde quer que seja chamado desde 1996.

Mais que um título do tipo best of, Violão de coreiro perpassa os mais de 30 anos de carreira de César Nascimento, contados a partir de sua participação no histórico LP do Festival Viva de Música Popular do Maranhão, em 1985. O dvd/cd alterna hits radiofônicos de sua autoria, músicas menos conhecidas e a inédita, antenada e bem-humorada You no tube também (parceria com Almino Henrique), sempre valorizando as nuances de seu violão, longe de didático ou hermético.

Apaixonado pelos ritmos da cultura popular do Maranhão, o artista transpôs para as seis cordas a polirritmia dos diversos sotaques do bumba meu boi, o frenesi contagiante do tambor de crioula e a pulsação do reggae, entre outras levadas.

Gravado entre Rio de Janeiro e São Luís, entre o estúdio Aldeia e as ruas, terreiros e arraiais, há um clima junino, evocado no cenário e nas locações, mas César Nascimento não realiza um projeto datado, “de estação”: é como se espichasse os festejos juninos para o ano inteiro – embora também a “composição” de que fala o subtítulo de Violão de coreiro não se restrinja ao período em que se celebram Antonio, João, Pedro e Marçal.

Por falar em divindades, César Nascimento acerca-se de grandes nomes da música brasileira para revisitar o repertório autoral do dvd/cd. Cacau Amaral, Camaleão, Fauzi Beydoun, Gerson da Conceição, Guilherme Mará, Ícaro Gaspar, Manassés, Nelson Faria, Pandeiro Repique Duo, Paulo Calazans, Renata Gaspar, Santiago Batera, Trio Cazumbá e Zé Américo Bastos (em ordem alfabética) comparecem entre o ofício musical, depoimentos e bastidores, dividindo com o anfitrião o set list de Violão de coreiro.

Entre as faixas de Violão de coreiro estão Catirina e o mar, em cujos versos César Nascimento une os universos da cultura popular do Maranhão com outras expressões artísticas como a pintura e o cinema, em citações de Salvador Dali, Caribé e Neville d’Almeida, entre outros, Reggae sanfonado, também pródiga em citações – Bob Marley, Luiz Gonzaga, Paulinho da Viola e o Bloco Tradicional Os Foliões –, Maguinha do Sá Viana (parceria com Alê Muniz), O radinho e Sapato pra todo pé (parceria com Vicente Telles), entre outras.

O verso inicial de Catirina e o mar (que abre o dvd/cd) é um convite: “ê, Catirina, venha ver a pintura que acabei de conceber”. É literalmente uma pintura este mosaico musical de um artista radicado há 18 anos no Rio de Janeiro, que tem dedicado vida e obra a fazer ecoar por onde anda os tambores do Maranhão – e para isso, está mais que provado, precisa apenas de seu violão. De coreiro.

Ficha técnicaViolão de coreiro tem direção, roteiro e montagem de Felipe Hutter, direção musical e coordenação geral de César Nascimento, gravação e mixagem de Gabriel Tauk, masterização de Alexandre Rabaço, direção de arte de Davi Theo e Raquel Theo (que também assina o cenário), produção de Mariana Musse, imagens de Felipe Hutter, Gregori Bastos e Milosz Wieckowski, produção executiva de Wilson Zara, finalização e autoração de Cartola Studio. Cd, dvd, show de lançamento e oficinas têm patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Sectur), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Serviço – O dvd/cd Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão será lançado em show no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro, São Luís/MA), dia 4 de maio (sexta-feira), às 21h. Os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada ao Lar Pouso da Esperança.

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

Chorografia do Maranhão: Maestro Nonato

[O Imparcial, 26 de abril de 2015]

Nascido deficiente visual, Maestro Nonato faz jus ao epíteto; o multi-instrumentista é o 51º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Num início de noite chuvoso, a chororreportagem alcançou seu 51º. entrevistado, em sua casa, na Cohab. Maestro Nonato provaria, ao longo da conversa, merecer o epíteto que o tornou famoso.

Raimundo Nonato de Azevedo nasceu em Pirapemas em 1º. de novembro de 1962, filho do vaqueiro Francisco das Dores de Azevedo e da costureira Maria das Graças de Azevedo. É casado com Vera Lúcia, que vez em quando tem que chamá-lo para tomar café, tamanha é sua dedicação à música e ao estúdio que mantém em casa.

A deficiência visual com que veio ao mundo parece, qual um super-herói, ter lhe aguçado o sentido musical. Com entre seis e sete anos, já tocava bandolim, que aprendeu sozinho. Depois do instrumento que deu sobrenome artístico a Jacob, influência confessa, aprendeu também, sempre autodidata, os violões de seis, sete, 10 e 12 cordas, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano e percussão.

O ex-integrante da Tribo de Jah revela estar planejando montar um regional de choro. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Sons de carrilhões [João Pernambuco] e Marcha dos marinheiros [Américo Jacomino], tocadas em um violão seis cordas de estudo de suas filhas, Vanessa e Virlana, além de Bela mocidade [Donato Alves] e Boi de lágrimas [Raimundo Makarra], executadas em ritmo de choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Sua casa tinha um ambiente musical? Como você enveredou pela música? Eu comecei muito cedo, com seis, sete anos, tocando bandolim, foi meu primeiro instrumento.

Como foi isso? Eu simplesmente comecei, do nada, brincando. Aos cinco anos, criança tem aquela ideia de fazer aqueles violõezinhos de, na época, era de lata de goiabada, aquele negócio. Fazia aquilo, botava quatro cordas, e começava a brincar. Um vizinho chegou com um instrumento, o bandolim, “acho que a gente consegue pegar isso aqui, por que tu não compra isso aqui pro teu filho?” Papai comprou, eu comecei com aquilo, mexendo. Com sete, oito anos, eu já estava tocando bandolim. Depois mudei para violão, com 10 anos eu tava tocando violão, com 12 comecei a tocar sanfona, aí fui só aperfeiçoando, ganhando experiência e aperfeiçoando as coisas.

Além destes, que outros instrumentos o senhor toca? Violão, bandolim, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, que é quase a mesma coisa do violão, aí vem o [violão de] seis [cordas], o sete, o 10, o 12, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano, instrumento de percussão, tudo. Só nunca me dediquei ao metal, nunca tive paixão. O resto a gente toca tudo.

E estes instrumentos todos, você aprendeu a tocar só? Sozinho.

Todos? Sozinho.

O que você ouvia, quando criança, em termos de música na sua casa? O que tocava no rádio, na radiola de seu pai? Eu nunca parei para definir um estilo musical. Eu acompanhei tudo. A época de chorinho, o Jacob [do Bandolim], o Waldir [Azevedo, cavaquinista], também aquele chorinho de saxofone, essa história eu acompanhei muito. Muito chorinho a gente aprendeu assim, de ouvido. Violão, com Dilermando Reis, aquela galera toda, violão das antigas. Sanfona já foi a época de Gonzagão [Luiz Gonzaga], Dominguinhos, essa rapaziada, Oswaldinho. Foi sempre acompanhando na verdade os caras, Sivuca. Essa rapaziada.

Além de músico você tem alguma outra profissão? Eu fiz rádio-técnico, locução, reportagem, aqui em São Luís, [na rádio] Difusora, 1981, 82.

Nesse período você atuou nessa profissão? Sim, eu gostava muito. Depois não tive mais tempo, entrei em banda.

Se fôssemos definir um instrumento para Maestro Nonato, de que forma você mais se identifica, com qual instrumento? É complicado. Todos a gente procura fazer com perfeição. O que eu mais tenho contato, contato diariamente, são os teclados. Esse é contato direto, todos os dias, a gente está no estúdio. Os outros já é duas vezes por semana, três vezes por semana, agora teclado é direto.

Se você tivesse que definir a pessoa que mais o influenciou para a música, quem você definiria? [Pensativo] Ah, na época foi Sivuca. Eu ouvia muito o Sivuca, nossa! A sanfona perfeita! E a rapaziada do chorinho, Waldir, Jacob.

O senhor sempre viveu de música? Vive até hoje? Sempre! Sempre! Música sempre foi a fonte, o ganha-pão, até hoje. Estúdio de gravação é música direto, de manhã, de tarde, de noite. A gente grava todo mundo, essa rapaziada de bloco tradicional, escola de samba, bumba boi, a gente grava 40 discos de boi por ano. Bloco, nós temos 44 blocos tradicionais [em São Luís], eu gravo 38. Escola de samba nós temos 10, eu gravo oito.

Estes grupos têm uma preferência por seu estúdio. É, já temos alguns anos de estrada.

Dá para viver de música com dignidade? Dá! Os caras reclamam, mas dá, dá sim.

Também tocando tudo desse jeito, né? [gargalhadas dos chororrepórteres e do entrevistado] A atividade artística é uma atividade nem sempre bem compreendida pelos pais. Os seus sempre o apoiaram na decisão de seguir o rumo da música? No início estranharam, mas depois todo mundo chegou junto e acabou. Foi a época que eu tive que vir para cá para estudar e se aperfeiçoar nas coisas.

Você chegou a fazer faculdade? Não. Eu parei antes.

E sua passagem pela Tribo de Jah? Eu fiz a Tribo de Jah. Nós participamos dos cinco primeiros discos. Produzimos vários cantores, Betto Douglas, uma rapaziada boa, Rogéryo Du Maranhão, eu já fiz muitas produções aqui, coisa nossa.

Que fato foi decisivo para você seguir a música? Foi um presente que eu ganhei, uma sanfona, e isso acabou estimulando muito. Eu gostava muito de sanfona e uma freira me deu uma de presente, e isso fez com que eu não deixasse mais a música.

De que outros grupos e bandas você participou? Eu fiz guitarra, na época, no conjunto Transversom, em Coroatá, e aqui em São Luís eu fiz Os Invencíveis, em 1979, guitarra, em torno de dois meses, depois voltei para o teclado. Depois a gente montou o Superstar, o grupo Deliverys, o Superkingsom, a Tribo de Jah, o Jota Som Seis.

Você veio para São Luís quando? Eu vim cedo para estudar, em 1967, fiquei até 1976, por aí. Depois fui para Rosário, que foi minha primeira banda, meu primeiro grupo, onde eu fui tocar teclado. Depois fui para Coroatá, depois vim para São Luís, de novo, aí pronto.

Como era o nome do grupo de Rosário? Era Os Favoritos.

O senhor dá aula de música? Não. Eu não tenho tempo. Eu até gosto.

Além de instrumentista, o senhor desenvolve outras habilidades na música? Composição, arranjos. Eu sou mais arranjador. A minha linha mais é arranjos, eu passo para os meninos e os meninos escrevem. Eu uso uma mesa que elimina o mouse e o teclado [do computador, no estúdio], é uma mesa que a gente usa direto, facilita demais.

Por que o senhor saiu da Tribo [de Jah]? Tempo. A gente começou estúdio, essas histórias, não tinha mais como conciliar. Muita viagem, a galera começou a querer gravar. Eu fiz o estúdio, na verdade, de brincadeira, para fazer uma campanha política. Aí a história espalhou, que eu tinha botado estúdio, e eu não consegui mais parar.

Em que ano o senhor montou o estúdio? Em 2002. Aí eu não tive mais como parar.

Você gosta de tocar violão sete cordas? Gosto. É um instrumento muito bonito. Eu já gosto mais do sete que do seis. É um instrumento que além de ser muito ligado à questão do choro cabe muito bem nessa nossa música carnavalesca, bloco tradicional, escola de samba. A gente trabalha bastante o sete, tem uma pegada mais forte.

Você lembra de que discos já participou? Mais ou menos uns 30 discos diferentes. Cinco da Tribo de Jah, Betto Douglas, Giovani Papini, fiz todos dele, todas as produções, César Nascimento, na época do Reggae sanfonado [composição de César Nascimento, gravada, além do autor, por Alcione], Maguinha do Sá Viana, muita coisa.

Você chegou a integrar algum grupo de choro, algum regional? Não. A gente está com a ideia, agora. Com João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a gente está pensando em montar, a ideia está amadurecendo para fazermos.

Houve um tempo em que os grupos que tocavam na noite abandonaram os instrumentos acústicos e passaram a usar teclados. Você viveu essa transição? É, os instrumentos foram trocados pelos teclados na época. Eu fiz isso também, participei dessa época, mas nunca é a mesma coisa. Os teclados de ritmo substituíram muito, bandas e tal, demorou muito, banda agora é que está voltando. Durante muito tempo surgiram alguns fenômenos, Lairton dos Teclados, Frank Aguiar.

Você chegou a fazer festa nesse modelo? Sozinho, com o teclado? Cheguei a fazer carnaval. Fiz carnaval, grandes carnavais como Cururupu, Itapecuru, Rosário. Carnaval de praça mesmo. Aquela história, sonorização boa, só o teclado falando, era coisa de louco. Sonzão por cima e o cara tá aqui. Só em Rosário eu fiz três carnavais, dois em Itapecuru. Era a época em que o teclado estava no auge. As bandas começaram a tocar por que agora eles estão fazendo muitas variações, não dá para o teclado fazer tudo, aquelas viradas loucas que as bandas fazem. Para o cara fazer aquilo, tem que ser playback, aí não tem graça. Se não for tocando, pra mim não tem graça. Depois que o teclado começou a perder a história, os caras começaram a usar playback, aí eu aposentei o teclado. Não tem graça! Eu não estou mais tocando, agora o cara chega, leva um pen drive, antigamente era uma sacola de disquetes. Perdeu o charme. Eu saí da onda.

O choro, apesar de você não ter integrado nenhum regional, fez parte de sua vida desde o começo, seu primeiro instrumento foi o bandolim, influenciado por Jacob. Qual a importância dessa música para você? O choro é um tipo de música que vai muito fundo. É uma coisa muito certinha, você não encontra barulho em choro, você encontra tudo certinho, aqui [dedilha o violão, apresentando a estrutura de um choro], vêm os acordes, os solos.

O choro não é para qualquer um? Não. Tem que ser estudado direitinho, acordes perfeitos, o choro não aceita você errar. O choro é muito trabalhado.

Você acha que o choro no Brasil representa uma escola de música para o músico brasileiro? Na lógica seria. Para mim, é. Eu vejo o choro como uma verdadeira escola musical.

Há quem diga que quem toca choro toca qualquer música no Brasil. Você concorda com isso? Às vezes. Bom, tocando o choro você pode tocar qualquer coisa, agora quem toca qualquer coisa, nem sempre toca choro. O cara toca um arrocha aqui, se ele tentar tocar um choro, não vai sair.

Você escuta muito choro, hoje? Sempre que tenho tempo.

O senhor falou várias vezes em tempo, parece um homem muito ocupado. Você trabalha muito? Ah, a correria é de oito à meia noite. Época de campanha vai, entra a noite, vem o dia e a gente está lá, é preciso a mulher estar chamando para tomar café. É complicado.

Mas é um trabalho prazeroso? É, ali dentro a gente esquece tudo. A música representa praticamente tudo.

O choro é seu gênero musical preferido, para ouvir, para tocar? O choro, sempre que eu não estou fazendo nada, eu gosto de estar ouvindo. Em rodas de amigos, sempre que estamos reunidos, com João [Eudes]. João é apaixonado por choro.

Se você fosse defini-lo, como você o definiria? João Eudes é muito dedicado, estudioso demais, gosto de ouvi-lo tocar. Ele encara a música de maneira séria e a coisa acontece. Muita gente faz música para brincar, mas não é brincadeira, tem que ser sério.

E Dilermando Reis? O que significou para você? Me inspirou para o violão [Dedilha a introdução de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis]. É muito lindo isso, eu gosto bastante.

Você acha que o choro do Maranhão está bem representado? Com certeza! Eu acho que os eventos é que são poucos. Mas já temos uma equipe boa, dava para fazer mais movimento.

E esse regional em que vocês estão pensando, seria você, João Eudes… E João está tentando ver se traz Eliésio [sanfoneiro]. Ele está em Teresina. Grande músico! Toca muito!

Como você avalia a música produzida no Maranhão, de modo geral? Hoje nós temos uma musicalidade boa. Até por que começaram a chegar recursos, equipamentos, para que você tenha uma qualidade boa, bons técnicos, operadores. Ainda está fraco por que agora é que se está começando a ter acesso a equipamentos e as pessoas têm que estudar mais um pouco. Isso de “já sei tudo” atrapalha muito. Tudo tem que ter estudo, tudo tem que ter aperfeiçoamento. Ainda se cometem pecados em matéria de mixagem, masterização. Muita gente pensa que masteriza, mas na verdade, não. Aqui só uma pessoa faz masterização: chama-se Jota Gomes. Não se peca só aqui, mas lá fora o campo é mais aberto.

Além do choro como gênero, você pode ouvir, no choro, um baião, um frevo. O Maranhão poderia tirar proveito de seus ritmos populares nas rodas de choro. Isso ainda acontece pouco. Não seria interessante acontecer mais? Muito! Pode, por que tudo dá certo. Se você quiser fazer [começa a dedilhar Bela mocidade em ritmo de choro, passando em seguida a Boi de lágrimas, também em ritmo de choro]. Dá, tudo vai. Se fizer, dá certo. Nós temos aqui um grupo, do Carlindo, eu não lembro o nome, mas você não o ouve cantar [cantarola, se acompanhando ao violão] “descobri que te amo demais”, ele transforma tudo em samba [cantarola, se acompanhando ao violão, Boi de lágrimas, em ritmo de samba].

Você se considera um chorão? Não tanto, por que eu vivo muito outros estilos. Mas é um estilo que eu gosto demais. Não é a vivência cem por cento.

Quais os seus planos para o futuro? Nosso plano é sempre o trabalho, muito trabalho, dar continuidade à luta pela nossa cultura. Vamos continuar nessa missão. É gostoso!

César Nascimento “na base da chinela”

Jeremias Alves. Quadrante/ Divulgação
Jeremias Alves. Quadrante/ Divulgação

 

Nem só do São João “oficial” vive o período em São Luís. Com diversos arraiais tomando conta das praças da cidade, o que leva produtores a realizar shows com porta paga entrando em bola dividida pelo público?

Descontada a paixão envolvida e os eventuais prejuízos, o saldo é positivo para a cidade (e, torcemos, para os artistas e produtores que se arriscam), que se permite oferecer um cardápio alternativo. Notícias recentes dão conta de acontecimentos tão diversos como o pré-lançamento de Alice ainda, segundo disco de Nathália Ferro, em show realizado ontem (25) no Amsterdam Music Pub, ou ainda do recital Gente é pra brilhar, com leituras em russo e português de poemas de Vladimir Maiakóvski, também ontem, no Museu Russo.

Outro que entra no racha junino é o cantor e compositor César Nascimento, maranhense nascido no Piauí e radicado no Rio de Janeiro. Ele reencontra o público da terra que lhe inspirou Reggae sanfonado e Ilha magnética, para citarmos dois clássicos de sua lavra, em show hoje (26), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Em show batizado simplesmente Arrasta-pé, nome do EP homônimo que lança na ocasião, ele promete evocar Jackson do Pandeiro em noite Na base da chinela, verso-título de parceria do paraibano com Rosil Cavalcanti. Além de repertório autoral, a exemplo das dançantes Serenin e Ciúme, entre outras, César Nascimento lembrará outros mestres, referência para sua carreira: João do Vale e Luiz Gonzaga, fechando com Jackson a tríade sacrossanta da música nordestina, além de nomes como João Chiador e os recém-falecidos Humberto de Maracanã e Donato Alves.

Respondendo à pergunta que abre o post, a produtora Letycia Oliveira contou ao blogue que o show partiu de uma ideia de César Nascimento e Pedro Sobrinho fazerem algo juntos. “Eles pensaram num evento que aliasse estrutura e qualidade de atendimento. O Barulhinho Bom tem isso, é um local agradável e bonito, um casarão no Centro Histórico, sem falar na segurança e tranquilidade, além de ser uma apresentação única. Há espaço para tudo e todos no São João”, disse.

César Nascimento (voz e violão) será acompanhado por Moisés Mota (bateria), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Marcelo Rebelo (teclado). “Patrocínio: fitas 3M”, brincou ao telefone depois de o repórter observar as iniciais dos músicos da banda. Ele revelou ainda seu próximo projeto: “vou gravar um disco de reggae”. Ele entende do riscado: que o digam suas Reggae sanfonado, Bolha de sabão e Maguinha do Sá Viana, todas hits do rádio maranhense até bem pouco tempo.

A abertura da festa promete aquecer as solas das sandálias, com discotecagem de Pedro Sobrinho, que promete uma mescla de coco, ciranda, dub, xote e xaxado, temperados pelas pitadas eletrônicas que fazem dele um dos mais requisitados “dê-jotas” da Ilha. E antes de César Nascimento subir ao palco, prepara-lhe o terreno o trio General Virgulino, formado por Daniel Pereira (voz e violão), Chico Carvalho (percussão) e Pieter-Jan Coninx (violino), o último, sócio-proprietário da casa que abriga o Arrasta-pé.

Obituário: Neném Bragança

“Meu Deus, me deixe ficar mais uns dias/ dias que digo alguns anos/ anos assim não mais que uns 26”. As preces que Neném Bragança [Bragança/PA, 19 de março de 1960 – Imperatriz/MA, 15 de janeiro de 2015] cantou em Os milagres (Erasmo Dibell) não foram atendidas: vítima de um câncer de palato contra o qual lutava há cerca de um ano, o cantor faleceu nesta madrugada.

Os milagres abre o recém-lançado cd/dvd de Neném Bragança, segundo volume da série Som do Mará, produzido por Chiquinho França, que inaugurou-a. O câncer de Neném, aliás, foi descoberto quando o artista se preparava para entrar em estúdio e foi submetido a um tratamento dentário.

O trabalho é um apanhado de sucessos colecionados por Neném Bragança ao longo dos anos, composições autorais e clássicos da música do Maranhão, como Prisma (Carlinhos Veloz), Bela Mocidade (Donato), Agosto (Nando Cruz), Grades (Zeca Tocantins), Plenitude das palavras (Neném Bragança) e Ilha magnética (César Nascimento), entre outras. Ave de arribação (Javier dy Mar-y-abá) seu maior sucesso, encaixa-se nas três categorias – no fim das contas a música é também de Neném, será dele a interpretação para sempre lembrada.

Há poucos dias, em uma roda de amigos, comentávamos a situação da saúde de Neném e a torcida coletiva por sua pronta recuperação, enquanto ouvíamos um exemplar em vinil do festival Tribo (1989), que reunia nomes como Zeca Baleiro, Nosly, Renata Nascimento, Luis Carlos Dias, Neném Bragança e Tutuca, entre outros. Foi o último quem comentou: “Pra mim a música que ganhou é essa aqui [aponta para Ave de arribação na capa do vinil]: foi a única que tocou em rádio”, declarou. Na mesma ocasião, ganhei de presente, do amigo e fiel leitor Otávio Costa, o volume dedicado ao cantor da série Som do Mará.

Neném Bragança ficou conhecido como “papa festivais” entre os amigos, tantos os troféus acumulados em certames país afora, em especial no entorno da região que o acolheu. Artista iluminado, trazia a luz no sobrenome de batismo, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. Tinha 54 anos. Sua Plenitude das palavras pode lhe servir de epitáfio: “quero a plenitude das palavras/ chegará a hora da verdade/ e aí? O que vai ser de mim e de você?”. Ou Ave de arribação: “o certo é que acaba, como todas as folias/ o certo é que passa, como passa uma euforia/ (…)/ não, não vou deixar meu coração perder a luz”.

Tribo do Pixixita lembra seu legado de amizade e maestria

José Carlos Castro Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, ganha mais um tributo neste sábado (13), às 20h, no Trapiche (Ponta d’Areia). Mais que um tributo, aliás, a Tribo do Pixixita é uma grande festa que congrega amigos e admiradores do saudoso músico.

O nome parece mais apropriado, para além das feições indígenas do engenheiro civil de formação que tinha na música sua maior paixão e acabou se tornando professor da Escola de Música do Maranhão. Chegando em 2013 à sua 10ª. edição, a Tribo do Pixixita é um espaço plural que reúne música, fotografia, poesia e vídeo.

“O evento acontecerá mesmo em caso de chuva!”, exclama o material de divulgação do espetáculo, que tem confirmados os nomes de Afrôs, Ângela Gullar, Celso Borges, César Nascimento, Chico Maranhão, Chico Nô, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Rosa Reis, Sérgio Habibe e Tutuca. Tudo pode acontecer – inclusive alguns dos nomes anunciados não aparecerem; ou aparecerem nomes não anunciados.

O que não acontecerá é a festa não acontecer. A Tribo do Pixixita já é uma tradição no calendário cultural da cidade que o músico tanto amou. “O Chico Nô e a Anne Martins, uma amiga e aluna, fizeram primeiramente uma homenagem para ele n’A Vida é Uma Festa [espetáculo poético-musical comandado desde 2002 todas as quintas-feiras na Praia Grande pelo músico e poeta ZéMaria Medeiros] em 2004, e a partir daí ficamos na pilha de realizar algo um pouco mais abrangente. No ano seguinte nos juntamos ao César Roberto, radialista que também tinha essa ideia, e fizemos o tributo no Armazém da Estrela [bar na Praia Grande, hoje fechado]. Foi o maior sucesso, lotamos o Armazém numa terça-feira chuvosa, todo mundo adorou. Depois fizemos no Dom Calamar [bar no Turu, hoje também fechado]. Novamente o evento foi muito bom, reunimos além do Chico Nô, Rosa Reis e Claudio Leite, que estiveram no ano anterior, Josias Sobrinho, Sergio Habibe e Chico Maranhão. Depois não paramos mais”, conta Nelsinho Brito, professor de capoeira, herdeiro de Pixixita, hoje vice-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís.

A Tribo do Pixixita tem, ao longo dos anos, reunido um bom público em suas edições. Para além do talento das atrações que se revezam no palco ano após ano, pela energia que contagia o evento, entre produção, artistas e plateia, pelo espírito gregário do homenageado. “Pixixita sabia ouvir muito bem todo mundo, sempre saía com palavras surpreendentes e adequadas. Para muitos era o guru da galera [risos], não discriminava ninguém, na vida e na música. A rapaziada do rock era apaixonada por ele. Era calmo e inteligentíssimo, e exageradamente metódico”, lembra Nelsinho.

Fazer amigos talvez seja o maior legado de Pixixita, cuja obra enquanto compositor é pequena. Amigos e alunos se confundem e não raro os dois substantivos consubstanciam-se na mesma pessoa, não poucas vezes. Não o conheci em vida, uma lacuna; mas é recorrente entre os que tiveram a oportunidade qualificá-lo como grande figura humana, amigo, professor, mestre. Místico, “acreditava muito na astrologia, sempre fazia o seu mapa astral e o meu também [risos]. Jogava tarô e adorava seus cristais. Eu os guardo até hoje”, lembra o herdeiro da simpatia e popularidade de Pixixita.

Arte pela arte

Longe do descompromisso: Chico Saldanha e Josias Sobrinho fazem show hoje, no Chico Discos, em prol da próxima empreitada do Papoético.

 

Chico Saldanha e Josias Sobrinho voltam a subir juntos em um palco hoje (7), acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Jeca Jecowisky (percussão). Depois de pouco mais de mês da estreia do show DoBrado ResSonante em Brasília/DF, o espetáculo poderá finalmente ser conferido pelos ludovicenses. Os artistas já haviam se apresentado juntos em São três léguas, outros bois e muito mais, de 1999, e Noel, Rosa secular, que teve edições em 2010 e 2011, ocasião em que homenagearam o Poeta da Vila ao lado de Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro.

Na capital federal foram duas apresentações. Aqui não há anúncio, ao menos por enquanto, de um bis, embora o Chico Discos, bar que abrigará o show de hoje, comporte confortavelmente apenas cerca de 60 pessoas, plateia certamente menor do que merecem os autores de clássicos como Terra de Noel e Linha puída, Josias e Chico, respectivamente.

Mas a causa é boa: a ideia inicial era angariar fundos para o I Festival de Poesia do Papoético, que após muita ralação de Paulo Melo Sousa, o Paulão, seu idealizador, e do envolvimento de mais alguns teimosos e de doações de amigos e simpatizantes, conseguiu se pagar. DoBrado ResSonante, no entanto, continua sendo um show beneficente, em prol da arte: o valor arrecadado com os ingressos vendidos para a noite de hoje será revertido para a premiação do I Concurso de Fotopoesia do Papoético, cujo regulamento será publicado em breve (aqui neste blogue). A premiação deve acontecer em setembro, mês de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Sobrinho e Saldanha estão no cenário musical desde a década de 1970. O primeiro integrou a trupe do Laborarte, o segundo correu por fora, tendo ambos participado de festivais de música desde então. Ambos estrearam em disco na década seguinte, o primeiro no rastro do reconhecimento proporcionado pela gravação de Papete para quatro músicas suas no antológico Bandeira de aço [Discos Marcus Pereira, 1978] – De Cajari p’ra capital, Dente de ouro, Engenho de flores e Catirina –, o segundo fazendo de sua Itamirim clássico imediato e retumbante, na interpretação arrebatadora de Tião Carvalho em seu disco de estreia [Chico Saldanha, 1988].

Seus discos mais recentes são Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha. Ambos completamente autorais, o primeiro uma mescla de grandes sucessos e músicas inéditas, com participações especiais de César Nascimento, Papete, Lenita Pinheiro (sua esposa) e Zeca Baleiro; o segundo, quase completamente inédito, a exceção é Linha puída, gravada num arranjo diverso do bumba meu boi que é originalmente, com a participação de Lenita Pinheiro. Josias, ao lado de Gerude e Inaldo Bartolomeu, canta com Saldanha em É tudo verdade, onde este conta em versos a história de seu Mário Mentira, como era conhecido um morador da Rua de São Pantaleão de sua infância e adolescência. Zeca Baleiro, diretor musical em algumas faixas, canta na faixa-título, moderno boi de zabumba.

Algumas músicas de Dente de ouro e Emaranhado estão no repertório de DoBrado ResSonante, que se completa com músicas inéditas de Josias Sobrinho e Chico Saldanha, além de releituras de conterrâneos como Cesar Teixeira [Botequim] e Zeca Baleiro [Babylon], entre outros.

Antes da MPM

FLÁVIO REIS*

[Vias de Fato, setembro/2011]

Há alguns anos, um conhecido texto de Ricarte Almeida Santos, intitulado De Zeca Baleiro a Bruno Batista… ainda bem que “eu não ouvi todos os discos”, falava da inadequação do termo MPM (música popular maranhense) para se referir à música produzida aqui nos anos 70, 80 e 90. Saudava o disco de estreia de Bruno Batista [o homônimo Bruno Batista, 2004], cuja diversidade de influências o colocava fora da camisa de força da música baseada nos ritmos locais. Na sua crítica à adoção de um rótulo que “reduzia a produção musical do Maranhão a uma receita de sucesso, como se tentou”, não só utilizou os exemplos de Zeca Baleiro e Rita Ribeiro, então recém-incorporados ao cast da MPB, como finalizou dizendo que (e aí a radicalidade da negação) “isso já faziam seu Antônio Vieira, Josias Sobrinho, Chico Maranhão, Joãozinho Ribeiro, Cristóvão Alô Brasil, Cesar Teixeira, Seu Bibi, Dilú e tantos outros que por aqui produziram a verdadeira Música Brasileira”. O texto reportava-se a outro artigo, escrito pelo jornalista Hamilton Oliveira, cujo título era bem direto: Adeus ‘MPM’! Salve o Compositor Popular Brasileiro, onde afirmava que “o rótulo criado por certos artistas, produtores e comunicadores para vender a nossa música só contribuiu para esconder a sua verdadeira natureza”.

Comentando as observações de Ricarte e Hamilton, o compositor Chico Maranhão publicou um importante artigo, MPM em Discussão (O Estado do Maranhão, 18/07/2004), em que tenta delinear o que seria afinal a MPM. Uma das figuras de proa do movimento gestado nos anos 70 de aproveitamento de ritmos e temas para “a construção e a afirmação de uma canção maranhense moderna”, parece identificar seus pontos distintivos nos “textos cantados” e na “pulsação boeira”. Ele localiza como os experimentos em curso, que tiveram no Laborarte um espaço catalisador, estavam ligados à afirmação de uma identidade cultural e a música popular seria para isto um “veículo significativo, embora naquela época, inconsciente”. Por outro lado, a condição periférica “em relação aos centros produtores da MPB… é um fato preponderante na nossa produção, portanto a adoção da sigla MPM, que aqui não estou defendendo, mas apenas discutindo, se não mais tem razão de ser teve seu momento de importância quando aglutinadora de idéias, contribuindo na consciência de uma poesia musical comprometida com a realidade maranhense”. Assim como Ricarte concluía seu artigo com o elogio de um cd que estaria além do rótulo, Chico Maranhão termina, de maneira inversa, afirmando que Shopping Brazil, de Cesar Teixeira, e Alecrim Cheiroso, de Rosa Reis, duas produções do Laborarte, seriam autênticas expressões da “música popular maranhense”. O que faltaria? O velho sonho: uma gravadora e disposição das rádios para rodar os discos (“o ‘jabá’ deve sair da alma maranhense”).

O tema é intrigante, pois se chegarmos, por exemplo, no Recife ou no Rio de Janeiro e falarmos em MPM, provavelmente ninguém saberá do que se trata (talvez nem mesmo muitos de nós). O termo deve ter aparecido em meados dos anos 80, não se sabe ao certo, mas na década de 70 não se falava nisso. Naquele tempo, o lance ainda estava sendo gestado, os elementos da estética tomando forma. O rótulo apareceu quando se tentou vender a coisa, depois do marco que foi o disco Bandeira de Aço, mas aí já não era tanto a pesquisa, a experimentação e o talento que davam o tom, mas certo esvaziamento estético, os teclados de estúdio, a ânsia do “sucesso”, a pasteurização. De qualquer maneira, em 82 a expressão começa a ser desenhada num “I Festival de Verão da Música Maranhense”, uma parceria da Mirante FM e a TV Ribamar, do grupo Vieira da Silva. Essa é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis. Afinal, chegou a se constituir algo distinto na música produzida aqui (leia-se São Luís) que justificasse um rótulo ostensivo cuja grafia busca mesmo uma simetria com a expressão “música popular brasileira”? Como essa transformação na música se articula com outros campos artísticos e, principalmente, com as alterações na discussão sobre a identidade maranhense que então se iniciavam?

O Maranhão sempre cultivou uma diferença dentro do nordeste em termos da natureza e da cultura e ao mesmo tempo nunca se identificou com o norte. As representações elaboradas pelos intelectuais locais primeiro buscaram num passado idealizado o que nos distinguiria. De forma lenta a partir dos anos 70 até estourar nas duas últimas décadas, essa diferença foi se fixando na exaltação da cultura popular. Continuávamos a nos sentir descendentes dos “atenienses” do século XIX (a cidade dos poetas), a fazer referência a uma mítica “fundação francesa”, ter orgulho dos casarões (a cidade dos azulejos) – apesar de no dia-a-dia eles continuarem despencando – no entanto, cada vez mais o orgulho foi passando para algo antes quase escondido, as manifestações culturais populares como o bumba meu boi e o tambor de crioula. A questão da gestação de uma música, na verdade de uma arte com traços distintivos regionais, pois a tentativa era de articulação entre várias manifestações, deve ser tratada dentro do arco longo que envolve as modificações estéticas ocorridas na canção brasileira moderna, os ventos liberadores da contracultura e a rotação nos debates em torno da cultura popular e da identidade.

É possível indicar que o aproveitamento de motivos populares para a formação de um cancioneiro popular se desenvolveu lentamente desde os anos 30 no mundo da boemia e ao abrigo das festas populares, chegando ao rádio em programas ao vivo. Existia uma “velha guarda” de compositores e músicos populares, criadores de choros, sambas, xotes, baiões, inspirados na realidade maranhense (Antônio Vieira, Lopes Bogéa, Agostinho Reis, Cristóvão Alô Brasil, entre outros cronistas da cidade, da vida nos bairros). Um nome que surgiu na década de 50, saiu ainda moleque e fez carreira transformando-se em referência nacional foi João do Vale. De maneira geral, a questão se resume em que as temáticas tratadas eram daqui, mas os ritmos e danças populares ainda não haviam influenciado as formas musicais, o que pode ser observado no I Festival de Música Popular Brasileira no Maranhão, realizado em 1971. Com exceção de Boqueirão e Toada Antiga, as composições não fazem utilização de ritmos locais. O próprio nome do festival deixa claro que ainda não havia essa ideia de uma música maranhense, com elementos distintivos no cenário nacional. A música de maior sucesso junto ao público foi uma canção melosa cujo título dizia tudo, Louvação a São Luís, do poeta Bandeira Tribuzzi. Estavam presentes, entretanto, nomes que seriam fundamentais nas elaborações estéticas que marcariam a década, como Sérgio Habibe, concorrendo com a belíssima Fuga e Anti-Fuga, Giordano Mochel, com Boqueirão, que se tornaria um clássico do moderno cancioneiro maranhense e Ubiratan Souza, o grande arranjador daquela sonoridade com “pulsação boeira” de que falou Chico Maranhão.

Na década de 70, um pequeno vulcão irrompeu em São Luís num casarão localizado à rua Jansen Müller, o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte). Fruto da junção de movimentações que já se produziam no campo do teatro, com a experiência do Teatro de Férias do Maranhão (Tefema), organizado por Tácito Borralho, da dança, com o grupo Chamató de danças populares de Regina Teles, e da poesia, com o grupo Antroponáutica, de que faziam parte Valdelino Cécio e Luiz Augusto Cassas, ao qual se juntaram a música, com Sérgio Habibe e Cesar Teixeira, logo também Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Zezé [Alves], a fotografia e o cinema com Murilo Santos. Unia todas essas figuras o interesse na pesquisa das manifestações da cultura popular, geralmente ainda vistas sob a ótica do “folclore”, para servir de substrato a uma arte moderna, engajada e identitária. Como disse Tácito, principal mentor e, de resto, o melhor analista do processo, o Laborarte era “na sua formulação e urdidura, um grupo, mas na sua proposta básica e fundamental, o desencadeador de um movimento estético-político”. Esses jovens criativos e cheios de idealismo iniciaram uma estética de reelaboração dos ritmos e danças e exploração do imaginário das manifestações pesquisadas em lugarejos da ilha de São Luís ou no interior do estado. Alteraram o teatro que se fazia aqui nos anos 70, sob a direção de Tácito, com peças como João Paneiro e O Cavaleiro do Destino, em parceria com Josias, misturando atores e bonecos gigantes, cenários e figurinos utilizando materiais e cores presentes nas comunidades, com linguagem e ritmos das próprias manifestações culturais em foco e mobilizando largamente o rico universo de lendas do Maranhão, tratando de temáticas engajadas como a discussão dos efeitos da implantação da Alcoa para várias comunidades que estavam sendo desalojadas, ou seja, tudo acompanhado de um trabalho de educação popular e conscientização política, como se dizia então. Após a saída de Tácito, além da continuidade desse teatro de pesquisa, agora sob a direção de Nélson Brito, o Laborarte teria papel importante na valorização de danças antigas (tambor de crioula) e na propagação de danças novas (cacuriá).

No campo da música, a influência foi mais localizada no tempo, quando lá estavam Cesar, Sérgio, Josias, até meados dos 70, mas decisiva na elaboração dos traços do que seria posteriormente chamado de MPM. Esses são autores de clássicos reconhecidos como Bandeira de Aço, Boi da Lua, Flor do Mal, Eulália, Cavalo Cansado, Ponteira, Engenho de Flores, Dente de Ouro, Catirina e tantos outros. Formaram o substrato que daria origem a Bandeira de Aço, disco gravado por Papete para o selo de Marcus Pereira em 1978, uma espécie de marco inicial e ao mesmo tempo principal da mistura que se operava criando uma canção com sotaque perfeitamente discernível, no sentido preciso de poder ser identificado como algo desta região, de pandeirão, tambor, matraca, da mesma forma que o maracatu, por exemplo, marcaria anos depois de maneira igualmente indiscutível a música produzida pelo movimento do manguebeat no Recife. O experimento inspirava-se nos ritmos, na riqueza melódica, no traço poético presente em nossas manifestações populares. Sérgio Habibe, em informação verbal colhida por Tácito, relata que “naquela época fazia um tipo de música, Cesar Teixeira fazia outro e Josias Sobrinho, um outro. E que foi só começarem a trocar idéias para chegarem facilmente a um consenso: os ritmos do bumba-boi, do tambor de crioula etc. Foi só trabalhar nisso e começou a aparecer um perfil de música maranhense. Dois anos depois, quando os três tomaram consciência da coisa, já tinham provocado uma reviravolta em São Luís”.

Entretanto, a questão da gestação dessa música tem pontas igualmente importantes para fora, que se cruzam com o Laborarte. Uma delas é a figura crucial de Chico Maranhão. Descendente de família tradicional dos tempos do Império, os Viveiros, mas já sem as posses de outrora, estudava arquitetura na USP no final dos anos 60 e estava completamente enfronhado nas modificações da canção operadas nos festivais, tendo obtido mesmo algum sucesso com o frevo Gabriela no Festival da Record de 1967, defendida pelo MPB4. Em 1974 gravou o disco Maranhão, nome pelo qual era conhecido, pelo selo Marcus Pereira. Estão lá além de Gabriela, músicas importantes como Cirano, onde mostrava todo o seu potencial de letrista; Cabocla, um samba dialogado, espécie de resposta a Carolina, de Chico Buarque, e Lindonéia, de Caetano, na verdade superior a ambas; Deixa Pra Lá, outro samba simples, mas envolvente com a letra levada num canto quase falado e Bonita Como Um Cavalo, um de seus clássicos. A rigor esse trabalho se localiza no meio das transformações da canção, na métrica, no linguajar, que estavam sendo operadas pelos Chicos e Caetanos da nascente MPB, pois esta designação, é bom frisar, se consagra a partir desse período. De volta a São Luís, em busca dos ritmos do tambor, dos bois, da Ponta da Areia, entra em relação com o pessoal do Laborarte e lança em 1978 o fundamental Lances de Agora, novamente para o selo de Marcus Pereira, gravado na sacristia da igreja do Desterro, com o Regional Tira-Teima, onde despontavam Ubiratan [Souza], [Chico] Saldanha, Paulo [Trabulsi, então com apenas 17 anos], [Antonio] Vieira [único já falecido entre os músicos de Lances de Agora], Arlindo [Carvalho], e mais a presença de outros nomes, entre eles, Sérgio Habibe tocando flauta e Rodrigo engrossando o naipe de percussionistas. Aqui as músicas possuem maior influência dos ritmos regionais, mesmo que o leque seja variado, incluindo samba-choro, frevo, marcha, canção, toadas. Dois anos depois lançaria Fonte Nova, que ainda traz boas músicas desta fase, como a faixa-título, Veludo, Viver e a impressionante A Vida de Seu Raimundo, uma história de sequestro, tortura e assassinato, contada em detalhes, inclusive com o cinismo das versões oficiais, as notícias, os boatos, enfim, todo o enredo daqueles tempos da ditadura. É o traço do “texto cantado” levado aqui ao paroxismo, próximo mesmo à experiência dos repentistas, brincando com as palavras com maestria. Maranhão organizou o tambor de crioula Turma do Chiquinho, que manteve longo tempo e durante a década de 90 retomou as gravações, mas com trabalhos desiguais e sem o mesmo vigor, destacando-se, no entanto, outro momento memorável na “Ópera Boi” O Sonho de Catirina.

Dois nomes também importantes que corriam por fora da experiência do Laborarte eram [Giordano] Mochel e Ubiratan Souza.  O primeiro, nascido na região da Baixada, de onde retira muita influência da poética e das melodias chorosas do sotaque de orquestra, é autor de pérolas como Boqueirão, São Bento Velho de Bacurituba, Biana. Cedo se estabeleceu no Rio de Janeiro e somente em 93 gravou o disco Boqueirão, reunindo algumas de suas melhores composições e chegando a levar o prêmio Sharp na categoria “revelação regional”. O segundo é formado em enfermagem, mas antes de tudo compositor, ótimo músico autodidata e exímio arranjador. Foi responsável pelos arranjos de Lances de Agora, sempre atento às nuanças das letras de Chico Maranhão, do belo show Pitrais de Mochel, realizado no final da década de 70 no Teatro Arthur Azevedo e, posteriormente, quando da gravação do primeiro disco de Josias [Sobrinho, Engenho de Flores] ou do já citado de Mochel, é quem responde pelas faixas que possuem o arranjo mais próximo da sonoridade “boeira” que se conseguia por aqui.  Um arranjador sempre variado, um banjo ali, um clarinete acolá, um detalhe de percussão, um coro bem colocado, isso tudo num acabamento cuidadoso bem típico de Ubiratan, outro que também se estabeleceria em São Paulo a partir do início dos anos 80 e lançou vários discos. Esta é uma questão importante porque uma das tragédias da chamada MPM é que raramente conseguiram no estúdio o impacto da sonoridade acústica das apresentações.

Depois que deixou o Laborarte, César mergulhou na Madre Deus, bairro cheio de compositores, velhos tocadores de choro e samba, blocos de carnaval, brincadeiras locais e muita cachaça, fez shows, sempre mais raramente que todos os outros, participou de festivais, onde emplacou sucessos como Oração Latina, mas só gravaria um trabalho mais de duas décadas depois, o ótimo cd Shopping Brazil. Sérgio [Habibe] foi para os EUA, depois transitou pelo Rio de Janeiro, fez shows pelo projeto Pixinguinha em cidades do país e volta e meia estava de novo aqui, onde se fixou de vez, lançando alguns discos a partir do final dos anos 80. Em 2008 gravou Correnteza, ao vivo no estúdio, um bom apanhado de suas melhores canções, contando com outro grande arranjador, Hilton Assunção, fazendo o retorno à sonoridade acústica na qual essas músicas rendem melhor, depois de discos com certa roupagem pop. Lá estão Eulália, Jardins e Quintais, Do Jeito que o Diabo Gosta, Cavalo Cansado, Panaquatira e outras conhecidas, fechando com Olho D’Água, uma bela e sombria denúncia da destruição ambiental de uma praia que sempre lhe foi tão cara. Josias formou o quase lendário Rabo de Vaca, com Beto Pereira, Zezé [Alves], Tião [Carvalho], [Manoel] Pacífico, Erivaldo [Gomes], depois também, Jeca, Mauro [Travincas], Ronald [Pinheiro] e Omar [Cutrim]. Criado para acompanhar um espetáculo teatral, tornaria-se um grupo forte, inesquecível, que se apresentava nas praças, em auditórios, igrejas e associações de bairro ou onde fosse. Era uma verdadeira caravana apta a absorver quem chegasse e o clima de mistura, liberdade e simplicidade daquela música contagiava os poucos que se aventuravam a segui-los. O grupo se desfez em 82, depois de cinco anos de atividades e shows memoráveis como Dente de Ouro, Nesse Mato tem Cachorro e Vida Bagaço, apesar da precariedade constante e às vezes até da inexistência do sistema de som. Alguns foram para São Paulo, Josias e Beto [Pereira] partiram para a carreira solo aqui mesmo. Josias gravaria o primeiro disco apenas em 87, em São Paulo, com a presença de ex-companheiros do Rabo de Vaca, sem a mesma energia, mas ainda com bom resultado em várias faixas, desfilando belezas como Terra de Noel, Coragem das Matracas, Vale do Pindaré, Olhos D’água. O segundo disco, quase todo com o recurso de programações, e o terceiro são bem inferiores, algumas boas músicas ficaram prejudicadas, mas ainda é possível destacar Boi de Pireli e Nas Águas. Conseguiria uma qualidade melhor de arranjo e gravação num cd [Dente de Ouro] produzido por Papete em 2005, onde volta aos sucessos conhecidos, relembra outras composições do tempo do Rabo de Vaca (Três Potes, Rosa Maria) e junta com sucessos mais recentes, como O Biltre.

Na verdade, os três compositores fundamentais oriundos do Laborarte se tornaram aos poucos conhecidos dos maranhenses com o lançamento do disco Bandeira de Aço, do percursionista Papete, em 1978, todo com composições desses novos nomes da música local. O disco estourou, a população passou a cantar os sucessos principalmente no período junino, a se identificar naqueles versos e ritmos. Músico já rodado, apesar de ainda jovem, Papete reuniu um time de ótimos instrumentistas e conseguiu extrair um som equilibrado dos pandeirões e matracas. Apesar dos conhecidos erros nas harmonias e nas letras de algumas músicas, uma seleção de resto muito feliz, Bandeira de Aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da Lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico.

A situação parecia promissora no final dos anos 70. Dois discos fortes, Lances de Agora e Bandeira de Aço, shows utilizando o espaço de teatros, do Arthur Azevedo (na gestão de Arlete Nogueira, porque depois o sempre ridículo Pergentino Holanda, num ataque de “francesismo ateniense”, tentou se livrar da moçada proibindo camisetas e chinelos…), passando pelo Viriato Correa (Escola Técnica), Jarbas Passarinho (Ufma) ou o pequeno teatro do Museu Histórico, de praças, como a Deodoro ou parques, como o do Bom Menino, mas também bairros da periferia, Anjo da Guarda, Liberdade, Anil e até algumas cidades próximas do interior. O público em potencial parecia existir e não só entre jovens universitários de classe média. As rádios ainda resistiam, mas, no início da década a Rádio Universidade e a Mirante se diziam dispostas a “tocar música maranhense”, como lembrou Chico Maranhão no artigo citado. Para completar, o discurso que abria o campo de representações sobre a identidade maranhense no sentido de incorporar um conceito de popular se aprofundaria cada vez mais a partir daí, como indicando uma vitória da luta para ver e ouvir nossas próprias manifestações empreendida no âmbito do Laborarte. Onde, então, a coisa degringolou e o projeto ficou a meio caminho, foi se tornando aguado?

"Com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá"

Para indicar logo problemas no âmbito do mercado fonográfico, os dois discos tinham saído dos esforços de Marcus Pereira, mas ele faliu e terminou de maneira trágica, cometendo suicídio depois de ter lançado mais de cem títulos, muitos de importância crucial para o mapeamento da diversidade musical brasileira. As rádios locais, por seu lado, roeram a corda, pois achavam que a “música maranhense” caía bem somente no período junino. Sem muita perspectiva profissional, vários músicos tomaram o rumo do eixo São Paulo e Rio. Em 1980 houve um projeto coletivo com compositores locais, financiado pelo órgão de cultura do estado com apoio da Funarte, uma coletânea intitulada Pedra de Cantaria, disco gravado em Belém, com direção musical de Valdelino Cécio e arranjos de Ubiratan Souza. Alguns desentendimentos parecem ter cercado a execução do projeto, mas, com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá, Chico [Maranhão], Sérgio [Habibe], Josias [Sobrinho] e o pessoal do Rabo de Vaca, [Giordano] Mochel, Hilton [Assunção], Ubiratan [Souza] e [Zé Pereira] Godão, uma figura que seria cada vez mais importante nas articulações entre cultura popular, mídia e mercado. Cinco anos depois, com patrocínio da Mirante FM, que comemorava seus quatro anos de existência, foi lançado Arrebentação da Ilha, outra coletânea, cuja música de abertura, Quadrilha, é uma criação coletiva (Chico, Josias, Sérgio, Ronald e Godão). Aqui o processo toma uma feição mais definida, estão lá muitos dos antigos que participaram do projeto anterior com a presença de uma nova geração (Gerude, Tutuca, Jorge Thadeu e outros).  No geral, a tônica dos antigos foi uma dificuldade para gravar e, quando o fizeram, muitas vezes o resultado ficou aquém da intensidade ouvida na década de 70. Os nomes que continuavam aparecendo (César Nascimento, Carlinhos Veloz, Alê Muniz, Mano Borges etc.) não tiveram a mesma preocupação com a pesquisa, não eram também tão talentosos e logo buscaram se diferenciar da geração anterior no que diz respeito à utilização dos ritmos regionais, estabelecendo uma descontinuidade. Ou seja, a cena tinha se esvaziado, era outra coisa, rodava agora em torno do rádio e do disco e no meio artístico muitos ambicionavam o estrelato a todo custo, ainda que fosse apenas um pequeno estrelato local. Tentava-se uma entrada desastrada, porque submissa até a ingenuidade, no âmbito da indústria cultural, com gravações em condições inadequadas, o compadrio e outros interesses influindo decisivamente na oferta das poucas fontes de financiamento, passando muitas vezes pelos favores de Fernando Sarney, através da Cemar e da Mirante. Em suma, não chegou a se configurar propriamente um mercado, gerando uma antítese mal sucedida da tônica radical da década anterior, que havia chegado quase à negação total de mercado e mídia.

Todos estes problemas, é bom frisar, não são posteriores e sim ocorrem de forma mais ou menos simultânea ao próprio aparecimento do termo em questão MPM. O eixo central não era mais aprofundar a pesquisa da diversidade cultural e revolver a identidade através da música, mas apresentar e vender o que aparecia como novidade. O desastre começou pela própria designação que, antes de especificar, parecia mesmo restringir o alcance da música, circunscrevendo seu mercado potencial, piorado pelo já mencionado fato de seus divulgadores locais estabelecerem uma nova restrição ao relacioná-la às festas juninas. Visto retrospectivamente era uma autêntica vitória de Pirro, quase no mesmo passo saímos de uma situação aparentemente promissora para um esvaziamento precoce, o que parece indicar os limites em que a experiência toda se gestava, mas para perceber o quadro é preciso recuar e ampliar o foco.

As transformações que o Maranhão conheceu a partir do final dos anos 60 na esteira dos processos econômicos acelerados com o golpe militar configuraram uma “modernização oligárquica”, como tem acentuado o historiador Wagner Cabral. A antiga São Luís da Praia Grande e do Desterro, da velha trilha do Caminho Grande, fechava o seu longo ciclo e daria lugar à rápida expansão a partir do São Francisco e Calhau, de um lado, e através da criação de bairros populares no interior da Ilha, por outro. A economia não era mais controlada pelas antigas firmas comerciais e muitas de suas famílias entraram em processo de declínio financeiro. Os novos horizontes econômicos apontavam para os grandes projetos de interesse do governo federal, como a exportação do minério vindo de Carajás, o estabelecimento da Alcoa, o estímulo à formação do agronegócio no sul do estado e o início da preocupação com o turismo, enquanto mercadoria e enquanto renovação de laços de identidade, através da exaltação da natureza e do patrimônio arquitetônico. Num quadro de alterações lentas, mas de rápida expansão demográfica e êxodo rural intenso, a preservação de aspectos essenciais da dominação oligárquica veio acompanhada de modificações nos símbolos legitimadores da identidade, um embate em que o predomínio do culto dos expoentes da Atenas Brasileira e a própria instituição responsável por ele, a Academia Maranhense de Letras, entram num refluxo, cedendo lugar a novos atores. Numa palavra, trata-se do processo ainda em curso da aproximação entre a cultura ateniense e a cultura popular, com o predomínio agora dos símbolos desta última enquanto eixo ordenador do debate sobre identidade, um processo longo em que as agências estatais criadas a partir da década de 70, as secretarias e seus tentáculos nas fundações e conselhos foram paulatinamente definindo uma institucionalização da cultura que veio para o centro da cena nos últimos governos.

Entretanto, na década de 70, ponto chave da transição, o impulso mais interessante não vinha das agências governamentais, por mais que nestas estivessem folcloristas importantes como Domingos Vieira Filho, Américo Azevedo, Rosa Mochel e Zelinda Lima, para citar alguns, mas sim do encontro entre a onda contracultural com suas formas de mobilização através do grupo como comunidade alternativa, a disposição de setores escolarizados de classe media de produzir arte com base em olhares cruzados de vários campos sobre manifestações da cultura popular, expressando em termos locais os ventos da época e aproximando nossa experiência estética das transformações que sacudiram a cultura brasileira no final da década de 60 e, por fim, a existência de redutos criativos, como o circuito Madre Deus/São Pantaleão, cujas trocas são antigas, e outros que surgiam, como o Anjo da Guarda. Nas palavras de Cesar Teixeira, em antológica entrevista [em seis partes, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui] dos três compositores e ex-integrantes do Laborarte a Itevaldo Jr., era “buscar as raízes para uma afirmação da arte enquanto representação de uma cidadania inexistente” (O Estado do Maranhão, dez/98). Nesse momento, o Laborarte significou uma fenda e uma proposta mais avançada no campo estético e político, na medida em que implicava numa série de atritos de valores e comportamentos em uma sociedade bastante provinciana, sem falar nas perseguições da polícia e da censura. Mas isso era apenas um dos lados do processo que envolvia outros e mais poderosos interesses e seria redirecionado a partir da década de 80, com a entrada dos meios de comunicação, notadamente a organização da Mirante, veículo que terminaria estabelecendo a linguagem de teor turístico e mercadológico, vazia de tensões, predominante até hoje nesse processo de rotação dos signos da identidade. 

Como ficamos então? Entre o ponto onde estávamos na discussão sobre cultura e identidade nos anos 60 e o que vigoraria principalmente a partir dos anos 90, encontra-se um momento ímpar na década de 70 e início da seguinte, tempo de indefinições e possibilidades que frutificaram das margens para propor novas representações artísticas no teatro, na dança, na música, na poesia, nas artes plásticas, na fotografia, no estímulo às filmagens, como se verificou no rápido boom do Super-8. A movimentação que existia era além do Laborarte. No entanto, o chão estava dado pelos “parceiros indesejáveis” dos governos, do mundo das comunicações e da publicidade, dos pesquisadores universitários, das agências de turismo, dos interesses empresariais. No fundo, as trocas e experiências artísticas ficariam em segundo plano em nome de uma profissionalização capenga que arrastou a todos, artistas e brincantes, submetendo-os através de expedientes de padronização ao tempo que estimulou vaidades, ressentimentos e incompreensões sobre o significado desse momento onde repousa o enigma (ou será o logro?) da MPM, que parece existir quando ainda não é nomeada e se torna uma incômoda indagação logo que é batizada. A defasagem indica que algo ficou incompleto, sentimento estranho de presença/ausência que não passou despercebido a Chico Maranhão, quando rememorava os efeitos da inexistência de uma crítica que refletisse sobre aquela produção musical no momento em que ela estava ocorrendo e arrematou dizendo que o motivo para isto era simples: “não se cria uma crítica (literomusical) sobre um movimento sem que ele primeiro exista de fato e tenha bases reais para reflexão”.

No esquema artesanal em que operava, aquele núcleo de artistas nunca se ocupou com as questões do mercado e da mídia e não soube ou não pode criar um caminho que atasse o jorro criativo coletivo aos imperativos da expansão através da utilização dos meios de comunicação. Os episódios quase anedóticos que cercam a realização do disco Bandeira de Aço e o imbróglio posterior envolvendo Papete e os compositores são uma sucessão de mal-entendidos ilustrativos das dificuldades daquela geração com a questão do mercado. Em seguida, a aproximação com as agências governamentais ou com o mecenato privado foi feita na maioria das vezes segundo os esquemas de patronagem comuns de uma ordem oligárquica, onde o patrocínio não difere do favor. Quem não topou ficou no ostracismo ou caiu fora, quem topou terminou participando de uma patética diluição. Tudo isso corroeu muito da reflexão crítica que estava presente nos trabalhos da década de 70. No decorrer dos anos não teríamos nem movimento nem crítica cultural, apenas um slogan gerado mais por motivações de mídia, dos órgãos de cultura e de um punhado de individualidades tentando sobreviver disputando espaço num mercado ainda bem acanhado, quase reduzido a arraiais de shopping e similares, em íntima relação com os representantes da oligarquia local. Uma caricatura sem nenhum viço de algo que surgiu de forma criativa e contestadora, apesar das referências autoelogiosas tão comuns sobre a riqueza da nossa música.

Mesmo um reduto rico em tradições como a Madre Deus perdeu muito do seu potencial, as novas manifestações que ali surgiram a partir de meados dos anos 80 foram com o tempo sendo moldadas segundo interesses turísticos, em conluio e bastante submissas à estratégia governamental de mercantilização da cultura. E a Turma do Quinto terminaria na avenida cantando “embala eu mamãe Kiola, embala eu”, no ridículo samba enredo de 2004, O Quinto é Minha Lei: O Meu Enredo é José Sarney (nome de luta, exemplo e trabalho, segundo a letra de Bulcão, o eterno secretário estadual de cultura). Precisa dizer mais? Longe já iam os tempos de enredos irreverentes como Ali Babão e o Sete Ladrão (1986): “Abre-te Sésamo/ abre o envelope/ pois na hora que se junta/ se prepara mais um golpe”. O processo havia se completado, a cultura institucionalizada virou o local da estetização mercantil das manifestações populares e não mais o da experimentação estética elaborada a partir de sua riqueza e diversidade. De arma crítica, a música que continuou a se apresentar como maranhense voltou-se quase sempre para a louvação e a repetição, seguindo as regras predominantes do discurso publicitário. Virou “Som do Mará” e muitos passaram mesmo a propagar os valores de uma “maranhensidade”, com indisfarçável acento bairrista, em guinada conservadora que não tinha mais nada a ver com as propostas renovadoras dos anos 70.

O nascimento da moderna MPB nos debates da década de 60 resultou de uma aproximação com o universo da cultura popular e em rediscussão do problema da identidade, numa articulação decisiva com a televisão e com a reorganização de todo o mercado da música, criando um rótulo que funcionava como “senha de identificação político-cultural”, na feliz expressão de Carlos Sandroni, mas cuja pretensão era agregativa. Tal função se desgastou e no final dos anos 80 a sigla passaria a designar vagamente um segmento do mercado na enorme variedade da música brasileira. É nessa onda, quando a ênfase se deslocava para a redefinição dos nichos de mercado que a nossa sigla aparece, como em outros momentos, através de uma identificação frágil que busca marcar mais a distinção que a diferença, com a desastrada apropriação mercadológica e oficialesca de um movimento estético interrompido, cujos melhores frutos já haviam sido colhidos. Só para terminar jogando uma última lenha na fogueira, Shopping Brazil, o esperado cd de Cesar Teixeira lançado em 2004 e com promessa de reedição para este ano, mastigou isso tudo e saiu lá na frente, mesmo quando revisita clássicos do que seria posteriormente chamado de MPM. É um Maranhão colocado no miolo do furacão, misturado com o Brasil, ou até mesmo a apresentação fundamental do Brasil como um grande Maranhão, e não separado para consumo no armazém das diferenças culturais. É música popular brasileira contemporânea sim, feita aqui e da melhor qualidade, como é o caso também do sofisticado Emaranhado, lançado em 2008 por Chico Saldanha e da simplicidade delicada de Eu Não Sei Sofrer em Inglês, o recente trabalho de Bruno Batista.

Agradeço as informações, dicas e comentários de Celso, Cesar, Reuben, Ricarte e Zema. Tudo gente boa, tudo gente doida. Este artigo é dedicado a dois antigos parceiros nas andanças e descobertas da cena musical maranhense no final dos anos 70, Demétrius Almeida da Silva (em memória) e Augusto Anceles Lima.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (ed. do autor, 2005), Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007) e Guerrilhas (coletânea de artigos fechada por este Antes da MPM a ser publicada ainda em 2011).