Guarnicê e(m) silêncio

Está previsto para acontecer entre os dias 3 a 7 de outubro o 34º. Festival Guarnicê de Cinema. Digo previsto, pois, às portas da semana que vem, a cidade ainda não fala nisso, o povo não respira cinema e as agendas culturais dos jornais ainda não ventilam o assunto, não necessariamente nessa ordem.

O festival, um dos mais antigos e importantes do país, vem diminuindo ano após ano, tendo, injustificadamente, deixado de acontecer no período junino – o que lhe justifica(va) o nome – e mudado de endereço: à guisa de suposta “interiorização”, o Guarnicê repete uma atitude condenável do poder público: o abandono do Centro Histórico ludovicense.

Se antes as sessões do Guarnicê ocupavam o Cine Praia Grande e os teatros do bairro homônimo, já tendo inclusive havido sessões no Convento das Mercês, em outro bairro do Centro Histórico, o Desterro, dialogando com a população local, hoje o festival está reduzido ao Campus Universitário do Bacanga, depois de uma passagem desastrosa pelo Centro de Convenções Governador Pedro Neiva de Santana.

Lá, por exemplo, o cineasta Frederico Machado lançou, ano passado, o premiado Vela ao crucificado, baseado em conto homônimo do teatrólogo Ubiratan Teixeira, para uma plateia de cadeiras – uma aqui, outra acolá carregava alguém no colo. Pouco público não é bom nem para o festival, nem para os realizadores, nem para a população.

Se ano passado o público era, mais que pequeno, quase inexistente, podemos arriscar uma repetição do esvaziamento das sessões no Guarnicê deste ano – não que torçamos por isso. Sua realização em um campus universitário pode levar a população a pensar em um evento “de universitários” ou “para universitários”, além dos problemas conhecidos: o eterno canteiro de obras instalado no Campus Universitário do Bacanga e o deficiente sistema de transporte público – mais fácil chegar ao Cine Praia Grande, com um terminal de integração “defronte”, que ao Centro de Convenções, pensado, como sua vizinha Assembleia Legislativa, para as elites que engarrafam cotidianamente a cidade caótica.

São Luís continua carente de salas de exibição que fujam aos ditames hollywoodianos com que trabalham os Boxes e Cinesystems da vida. Cumprem este papel, com todas as dificuldades que enfrentam, o Cine Praia Grande – atualmente administrado pela Lume Filmes, de Frederico Machado – e os festivais e mostras que têm pousado na Ilha: Festival Lume de Cinema, Maranhão na Tela, Mostra de Cinema e Direitos Humanos e Mostra de Cinema Infantil.

O Guarnicê deve cumprir o papel de mais um espaço de afirmação do cinema de qualidade, com quantidade, isto é, com salas cheias e todo o burburinho gerado por suas exibições – quer coisa melhor que enxugar umas cervejas comentando os filmes após a sessão? Manter a tradição por manter a tradição não serve: ou o Guarnicê se reinventa ou é melhor ficar na saudade, perdoem o fatalismo.

Seleção – Os documentários Aperreio, de Doty Luz e Humberto Capucci, e Awàka`apará, de Diego Janatã e Humberto Capucci, foram selecionados para a mostra competitiva Nego Chico Refestança, dentro da programação do 34º. Guarnicê.

Volto às deficiências do festival: este blogue só tem essas informações graças ao empenho dos realizadores supra, que, por e-mail e facebook têm feito contatos no sentido de darmos uma força na divulgação, chamar o público para ver estes filmes, que tratam da realidade contemporânea do Maranhão. Se algum dos poucos-mas-fieis leitores deste blogue perguntar pela programação completa, não sei, não vi, não tenho.

Fora os dois docs maranhenses, sei de outro curta-metragem na programação do Guarnicê: o catarinense Cerveja falada, cuja seleção me foi anunciada por e-mail pelo músico-cineasta Demétrio Panarotto [Banda Repolho]. Este último retrata em 15 minutos a história do Sr. Rupprecht Loeffler, de sua cervejaria, a Canoinhense, e a fabricação artesanal de uma iguaria que figura entre as preferências deste que vos bafeja.

Volto aos docs de Capucci, Janatã e Luz: têm importância fundamental na discussão de problemas do Maranhão contemporâneo. São filmes que põem o dedo em nossas feridas abertas: os desastres “naturais” das enchentes, que têm se repetido ano após ano, caso de Aperreio, e a violência contra povos tradicionais, no caso específico os indígenas Awa-Guajá em Awàka`apará. Só por isso, já deveriam ser assistidos pelo máximo possível de pessoas.

Ambos os filmes foram realizados por encomenda do movimento social maranhense, o primeiro pelo Comitê de Monitoramento das Políticas Voltadas às Vítimas das Enchentes no Maranhão, integrado por diversas organizações não-governamentais, o segundo pelo Conselho Indigenista Missionário – Regional Maranhão (Cimi/MA), mas não soam panfletários.

Filmes que podiam estar na mostra competitiva principal do Guarnicê e, sabe-se lá o porquê, não estão. Aperreio já levou o troféu de melhor documentário em duas ocasiões: Curta Carajás 2010 (Parauapebas/PA) e V Festival de Cinema na Floresta 2011. Fora estes certames, de que saiu vitorioso, já participou das mostras competitivas – as principais: Festival Pan Amazônico de Cinema – Amazônia Doc 2010, 22º. Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo – Curta Kinoforum e III Festival do Filme Etnográfico do Recife.

A seguir, Awàka`apará em três partes:

Aperreio pode ser assistido aqui, em duas partes.

Filmes que escancaram nossos olhos, com alguma dor e um quê de poesia, certamente seu maior trunfo. Talvez esteja faltando poesia ao Guarnicê. Talvez pelo fato de o Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da UFMA ter um evento específico em seu calendário anual para a poesia.