Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

Num país sem memória a ficção refaz a história

Legalidade, de Zeca Brito e Léo Garcia, terá estreia nacional hoje (20), às 19h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) na programação (gratuita) do Festival Guarnicê de Cinema. A estreia mundial aconteceu em abril, no Festival Latino de Chicago, nos Estados Unidos.

O filme costura, a partir de um triângulo amoroso fictício, uma narrativa que remonta ao episódio histórico com que Leonel Brizola, no fim das contas, conseguiu adiar em cerca de três anos o golpe militar de 1964, que acabou por jogar o Brasil numa ditadura militar por 21 anos.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com os diretores e com Sapiran Brito, pai de Zeca, um dos atores que interpreta Brizola, personagem central na trama.

Léo Garcia, Sapiran Brito e Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Como é que foi a receptividade do filme no festival de Chicago?
Zeca Brito – Surpreendente. Incrível como um filme que conta uma história brasileira pode ser universal e pode encontrar reverberações em outras culturas, outras visões de mundo. Chicago é uma cidade muito cosmopolita, então o público que assistiu o filme era de americanos e estrangeiros, pessoas que foram morar nos Estados Unidos, mas que vêm de outras histórias geopolíticas, por exemplo, do Oriente Médio, ou da própria América Latina, a gente pode conversar com uruguaios, com argentinos que residem em Chicago e por conta de ser um festival latino foram assistir o filme, e todos dizem a mesma coisa: algo muito parecido aconteceu em meu país. Que é o reflexo de como o mundo se movimenta, de como os interesses [acentua os dois primeiros “e”, imitando o sotaque de Brizola], de que o Leonel Brizola falava são reais, e é um pouco o que o filme tenta estabelecer. O filme se passa em 1961 e é sobre esse ambiente de guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética e distintas vontades políticas dominavam o mundo e muito daquilo que a gente vivia como história, como processo histórico era influenciado por esses interesses externos. Em Chicago foi muito interessante como isso passou pela percepção do público, essa identificação de como a história se repete, de como a história é parecida. Por outro lado, foi uma questão também que me surpreendeu, eu tava contando pro Léo esses dias, a gente vem, a gente fala muito no filme sobre o aspecto histórico, os personagens históricos. Mas o público mais desinformado da história do Brasil, que é grande parte do público norte-americano, não sabe nada do que aconteceu aqui, primeiro por que nossa cinematografia não chega lá, segundo por que não há muito interesse dos Estados Unidos de olhar para outras culturas, por que já trabalha a sua também como um produto, foi a questão do romance. É um filme que tem um romance que costura a narrativa histórica e esse romance tocou no coração do público e isso também me surpreendeu.

O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa
O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Por que a opção de estrear aqui?
ZB – Interessante. Acho que o Festival Guarnicê é um festival com uma história muito bonita, diferente de outros festivais, sem querer fazer uma crítica específica, ele não é um festival monárquico, de um dono, de uma empresa, ele é um festival que se liga muito com a comunidade civil organizada, partindo de uma universidade [o festival é promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], há 42 anos. Isso no Brasil é muito bonito e importante de ser celebrado nesse momento histórico. A função do cinema tem que ser essa, se aproximar da sociedade civil, cumprir um papel também educativo, falar mensagens importantes, provocar discussões, aproximar nossa memória histórica e também do tempo contemporâneo do que está acontecendo no mundo, mas da nossa realidade cultural, trazer esses debates pra sociedade. Esse festival, nesse sentido, já é muito sério, por estar ligado, a uma instituição do saber. E segundo, a gente vive um momento político, não foi à toa que a gente escolheu Chicago, que é uma cidade ligada à causa operária, aos direitos trabalhistas, e é uma cidade que recentemente elegeu uma mulher, negra, LGBT, prefeita [Lori Lightfoot]. De alguma maneira isso pontua que a gente está num território que tem espaço para as discussões que a gente está propondo no nosso filme e acho que o mesmo se revela no tempo contemporâneo com o Flávio Dino, que é uma referência para um pensamento aberto, de como deve ser a construção da cidadania, do encontro humano, principalmente partindo da luta contra as desigualdades sociais. A gente tem que trabalhar também essa questão de como a sociedade se traduz politicamente. Estar num território com um pensamento tão aberto a questões da história, questões que nosso filme trata, questões da sociologia que nosso filme trata, isso a gente vê publicamente que há uma sinalização de política pública mesmo, que vem a calhar com o que a gente está querendo discutir.
Léo Garcia – A gente começou a escrever essa história em 2007, 2008, mais ou menos, e naquela época era impensável falar em ditadura militar. Tu encontrava dois ou três malucos, mas era algo “ah, já passou”, e aí quando a gente está lançando o filme pairam no ar nuvens cinzentas e o filme ganha outra importância, tem, digamos, outra virtude, que é lembrar um passado recente, que as pessoas já esqueceram, o que foi a ditadura militar. Apesar de o filme se passar antes da ditadura, o Brizola já estava combatendo um princípio de golpe, ali em 1961. Ele consegue, mas depois em 1964, infelizmente…

O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa
O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa

Dá até pra dizer que o golpe foi adiado por essa ação.
LG – Foi, com certeza!
Sapiran Brito – O golpe era contra ele. Ele tava na rua, tava na boca do povo, “cunhado não é parente, Brizola presidente!”, não tinha outro. Era o grande nome entre os progressistas, não tinha outro. Estava praticamente eleito pelo povo. Pelas ações, pelas atitudes, pelo momento. A CIA [Agência Central de Inteligência do governo americano, na sigla em inglês] tentou, não conseguiu a primeira vez, mas na segunda… por detrás de tudo sempre está a CIA. Sempre estão os interesses norte-americanos, através da CIA, que me desculpe a expressão, mas costumeiramente compra os nossos deputados. Costumeiramente. Ele conseguiu segurar o golpe, conseguiu evitar o golpe, mas terminou o mandato como governador, foi ser deputado, e não tinha os meios físicos e materiais e o poder que tinha como governador para tentar deter os golpistas de 1964. Por que infelizmente o nosso país é construído de golpe em golpe. Agora tivemos o golpe branco contra a presidenta Dilma e tivemos um complô da mídia e do parlamento contra o presidente Lula, nada mais que outro golpe branco. E de golpe em golpe nós vamos. E Leonel de Moura Brizola significa o anti-golpe, a voz da resistência, a voz do progressismo, a voz daqueles políticos corretos que ainda resistem. Cinco por cento, mas ainda temos, na classe política, uns cinco por cento de homens retos, honestos e verdadeiramente brasileiros, sem nacionalismo, sem xenofobia, questão de amar o Brasil. Quero lembrar só uma coisa: Brizola não era um gaúcho. Darcy Ribeiro escreveu uma bela crônica sobre o Brizola, dizia “Brizola, um filho do povo brasileiro”, por que ele era preocupadíssimo e envolvido com toda a questão. Um grande problema nacional é o problema da dominação do Brasil. O Brasil é dominado. E nós sabemos por quem. Dominado pelo capital, que se organiza basicamente em Wall Street. E o Brizola representa essa voz de rebeldia contra isso. O Brizola, que foi tachado de comunista, não tinha nada de comunista. O Brizola era um progressista, um socialista embrionário. Tanto que a Internacional Socialista o elegeu vice-presidente, ele não sendo presidente do país. E esse cargo, em memória dele, ainda está na mão do partido dele, o PDT, hoje representado pelo Carlos Lupe. O PDT tem cadeira na Internacional Socialista, mesmo o Brizola não sendo declaradamente um socialista, mas era um socialista, por que era um progressista e um nacionalista sem xenofobia.

O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa
O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa

O que significou para o senhor interpretar o Brizola no filme?
SB – Ah, uma grande emoção. Primeiro que eu vi o negócio nascendo, pelas mãozinhas deles, pelas cabecinhas deles [aponta para Léo e Zeca]. Aí quando eles notaram que eu tinha alguma semelhança com o velho, que eu conhecia muito, por ser amigo dele, de frequentar a casa, falar ao telefone, abraçar e conversar com ele com intimidade em diversas ocasiões, eu ajudei a construir o que o Léo e o Zeca roteirizaram. E que fique claro o seguinte: eu não estou no filme por que sou filho do Zeca [risos] ou amigo do Léo, é que eles viram uma semelhança com o Brizola, que eu não posso negar: é uma espécie de osmose, de tanto eu gostar, eu acabei ficando parecido com o velho e tento pensar e agir como ele, por que eu também sou político. Além de artista, ator, diretor de teatro, eu também sou político. Me honra, sobremaneira, representar, mesmo eles me dando pouco espaço [risos], mas é simbólico honrar a memória do velho. E é uma satisfação saber da oportunidade do lançamento desse filme. Eles não previram, eles não têm bola de cristal, nenhum dos dois é Nostradamus, mas parecia que estavam prevendo: “ah, vamos lançar durante o outro golpe”. E estamos aqui honrando a memória de Leonel Brizola.

É curioso que o filme anterior de vocês é sobre Tarso de Castro [A vida extra-ordinária de Tarso de Castro], que é outro combatente da ditadura e também um brizolista.
ZB – E que estava na Legalidade.
LG – De certa forma influenciou um pouco o roteiro do Legalidade. Ele não só estava na Legalidade, como ele foi, a gente conta no filme, um episódio, uns 20 dias antes da Legalidade, o Brizola conheceu o Che Guevara em Punta del Este, um encontro da OEA [Organização dos Estados Americanos] e o Tarso cobriu isso. Várias coisas acabaram se mesclando, a gente estava rodando o Tarso e acabando de escrever o roteiro.
ZB – Quando a gente terminou de filmar o Tarso e foi filmar o Legalidade, o que acontece é que eu acho que tanto personagens que são personagens do filme do Tarso inspiraram personagens do Legalidade. O Flávio Tavares, o Carlos Bastos, pessoas que estão no filme do Tarso de Castro e que são a síntese do Tom e do Luís Carlos, que são os personagens fictícios que a gente criou. São muitos personagens reais, a gente fez uma pesquisa, até interessante, tu vai assistir o filme e vai ver, a gente colocou nos créditos finais todos os livros que a gente pesquisou para criar essa história de ficção. Ela é toda costurada por episódios reais, mas cabe a cada um de nós ir a fundo para ver a veracidade daquela coisa no sentido de que a costura é poética. É uma obra poética, como se fosse o [poeta grego] Hesíodo estar contando a guerra e não estar falando da guerra como ela é, mas está se baseando em fatos que aconteciam e que aconteceram para poder sintetizar de forma poética a guerra. O que a gente fez no Legalidade foi isso. A gente leu muito sobre tudo o que havia sido produzido em termos de pesquisa científica, da academia, e bibliografia, livros sobre episódios históricos, depois entrevistamos autores, o Juremir Machado, o Flávio Tavares, mas primeiro a gente partiu do livro deles, mas entrevistamos, e entrevistamos familiares, amigos, o Carlos Araújo, que inspira nosso personagem comunista, mas vai acabar sendo trabalhista. O próprio [Luís Carlos] Prestes foi ser presidente de honra do PDT, tem essa costura histórica e a gente coloca esses elementos no filme. Tem o personagem trabalhista, que é o Brizola, tem o personagem comunista, que é o Luís Carlos, como essas ideologias vão se encontrar com o campo oposto, que é alguém que está corrompendo a constituição. Alguns deputados, no campo do poder legislativo, e alguns militares, o chefe da Marinha, o chefe da Aeronáutica, que não queriam permitir o Jango [João Goulart] voltar ao Brasil e assumir a presidência, porém, aí é interessante como a história é complexa, a Legalidade só foi possível com a adesão do Terceiro Exército, que era a maior força militar brasileira: 120 mil homens, que estavam no Rio Grande do Sul. Brizola foi tão persuasivo, conseguiu levar tão profundamente a mensagem, mobilizar a população civil, que aqueles soldados que estavam no Rio Grande do Sul aderem à Legalidade, rebelando-se à ordem inclusive de bombardear o Palácio [Piratini, sede do governo gaúcho], que partiu de Brasília, então acontece esse contragolpe. Aí o Jango vem, aí o que acontece: a coisa estava tão inflamada que era mais conveniente que o Jango viesse pra apaziguar, por que o Brizola ia sim subir e tomar o poder. Aí o Tancredo [Neves] vai até Punta del Este, faz uma negociata básica, histórica, e resolve, para que não haja derramamento de sangue, “vamos estabelecer um pacto de silêncio você volta e assume o parlamentarismo, não fala nada, não faz discurso, fica quietinho, acalma o Brizola, silencia o Brizola, a gente vai silenciar o Exército lá em cima, Aeronáutica, Marinha”… Nisso os navios de guerra já estavam no porto do Rio Grande, toda a frota aérea já estava mobilizada para bombardear o Rio Grande do Sul e acontece esse acordo de paz, que foi um desfecho, pro Brizola foi um pouco frustrante, mas um ano depois, através de um plebiscito, se reconstitui a democracia, que dura dois anos e acaba com o golpe, em 1964.
LG – É legal por que tem todo esse aspecto político, mas nosso roteiro tem camadas. Uma pessoa que, digamos, não tem nenhum conhecimento de história pode assistir o filme e vai acabar desfrutando pelo menos da história de amor, vai entender o enredo, vai saber que existiu esse momento tão importante da história. Eu acho que tem essa virtude o roteiro que a gente trabalhou. Quando essa história começou, em 2007, mais ou menos, eu e Zeca bem jovens, Zeca estava acabando o primeiro longa dele, O guri, eu ainda não tinha nem um longa filmado, e o Zeca veio com essa história: “ah, o meu pai sempre falou que a Legalidade renderia um filme”, eu nem conhecia o Sapiran, nem lembrava da Legalidade, eu tinha estudado no colégio, assim [estala os dedos] talvez numa tarde… aí eu comecei: que Legalidade é essa? Li um livro e falei: “cara, rende um filme, vamos escrever?”. “Vamos!” E começou, naquela época a gente tinha o sonho de lançar em 2011, nos 50 anos da Legalidade. Ledo engano. Cinema no Brasil nada é tão fácil. Um dia eu quero convidar o Zeca pra fazer umas quatro, cinco horas, pra gente mostrar nosso roteiro desde o início. Do primeiro argumento o tanto que mudou, a gente foi enxugando personagens, mudando, tinha um circo, quatro irmãos viraram dois. Um roteiro tinha um diálogo de 15 páginas entre dois palhaços, eu falei: “Zeca, não sei se a gente vai ter tempo pra isso” [risos], queríamos fazer uma coisa mais [o cineasta italiano Federico] Fellini, mas enfim, a gente foi se acertando.
ZB – Esteticamente é um filme bem atemporal. Interessante o fato de a gente ter achado que ele deveria ter sido lançado em 2011 e não conseguimos, só filmamos em 2017 e estamos lançando agora em 2019, mas a construção do roteiro, apesar de se passar em 1961, é um filme que joga com a história, com o fato de ter essa construção poética, personagens fictícios. De algum momento essa história já aconteceu em outros momentos antes, aconteceu depois. A gente diz: é a prévia de 1964, depois 1964 aconteceu mesmo. Mas pode ter acontecido agora, em 2016.
SB – Já tinha acontecido antes, com Getúlio [Vargas].
ZB – E esteticamente ele flerta com o melodrama, tenta buscar essa raiz brasileira, que às vezes o cinema olha com certo preconceito, essa matriz que vem da televisão, da telenovela, como elemento estético, para se trabalhar a história, ela se relaciona muito com a história, no sentido de que a história brasileira é um pouco uma telenovela. A narrativa histórica. Às vezes a realidade é tão engenhosa, que parece surpreender, daqui a pouco cai o avião do desembargador, do primeiro ministro, coisas que não existem no Brasil, mas estão aí toda hora.
LG – Alguém viu um corte do filme e falou: “não, os militares nunca iam fazer isso”, mas está ali, foi assim que aconteceu.
ZB – Exatamente. É por isso que a gente bota todos os elementos históricos sem citar, mas lá no final, para que essas pessoas tenham o trabalho de ler esses livros.
SB – Enfrentamos um grande problema: é um país sem memória. Todos nós enfrentamos, jornalistas, todos nós. Ninguém lembra o que aconteceu há cinco anos. Não vai lembrar o que aconteceu há 50. Não tem a mínima informação. O filme contribui pra isso. Não chega a ser um filme histórico, mas pode chamar a atenção para que a juventude desperte para esse tema e vai encontrar outras histórias de muitos e muitos golpes que esse país sofre.

Essa abordagem de algum modo é curiosa por que a gente vive a era das fake news, que ao fim e ao cabo foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E vocês viram o jogo ao contar um capítulo da história do Brasil através de uma ficção, o que é uma solução supercriativa.
ZB – É uma coisa que está aí desde que o mundo é mundo, que se chama romance histórico. Quem não leu O tempo e o vento [do gaúcho Érico Veríssimo] ou E o vento levou… [da norte-americana Margaret Mitchell]. Ambos são romances históricos que viraram filmes e que contam uma história. A história do Rio Grande do Sul foi contada em O tempo e o vento, a história da guerra de secessão nos Estados Unidos foi contada em E o vento levou… Estou dando dois exemplos, mas poderiam ser outros.
LG – Ao fazer isso a gente altera alguns detalhes, a gente cria personagens fictícios que fazem coisas importantes, mas isso é normal de qualquer dramaturgia.
ZB – A dramaturgia histórica é assim. É a síntese da história. A gente tem a responsabilidade de esperar 50 anos do episódio, poder ler todos os livros, poder comparar as perspectivas históricas, poder colocar diferentes pontos de vista em cena. Por isso é um romance. A gente tem a visão dos Estados Unidos, a visão da CIA, que parte de uma jornalista do Washington Post, de alguma maneira…
LG – Olha o spoiler… [risos].
ZB – A gente não tem o personagem real por que a CIA não revelou esses documentos, mas hoje a gente sabe que a CIA espionava o Brizola.
SB – Já revelou.
ZB – Já, mas a gente não sabe quem era o espião, a gente tem o relatório.
SB – Daqui a 50 anos vamos saber.
ZB – Daqui a 50 anos vamos saber, talvez. Mas a questão é que depois do Che Guevara o Brizola era o homem mais vigiado na América Latina. Como é que a gente vai construir isso historicamente? A gente tem essa informação, mas tem que ser através de personagens fictícios, a própria questão da Legalidade, como a gente tem muitos personagens reais, você precisa sintetizar cinco personagens reais em um personagem fictício. O que aconteceu é real. Essa que é a questão do Legalidade. Você tem compromissos históricos com personagens históricos. Tudo que o Brizola diz no filme são falas do Brizola durante a vida que estão ali na boca dele. Claro, tem uma ou outra cena de intimidade que a gente consultou a família: “isso aqui ele falaria dessa maneira?”. “Ah, sim”. É uma síntese de um discurso, colocado de uma maneira mais coloquial, mais íntima, como ele falava com a esposa, coisas assim. Mas os personagens históricos, os discursos do Brizola são os discursos que ele fez na época. Então tem essa costura entre personagens históricos com discurso histórico real e uma construção poética que é o lirismo da dramaturgia clássica que está aí desde a Grécia antiga.
SB – Uma coisa a ser ressaltada na ação do Brizola é que foi a primeira vez no mundo que alguém usou a comunicação para organizar um levante. Nos dias que correm é a maior barbada, mas naquele tempo, o grande veículo era o rádio. Tevê não tava ainda em cadeia, não tinha as afiliadas, tevê era uma coisa muito incipiente ainda. Ele foi o cara que despertou pra comunicação, pra fazer um levante através da comunicação, quando ele criou a Rede da Legalidade, que começou lá no porão [do Palácio Piratini], depois foi pra Goiás, Paraná, foi crescendo, crescendo, só não entrou em São Paulo, mas no resto do país se formou a Rede da Legalidade. Então, esse fator, o tino desse cara, de se dar conta do uso da mídia, da comunicação, a seu favor, a favor da sua ideia, do seu projeto, é fundamental, pouca gente observa isso.
ZB – É muito interessante. Ele tinha o dom da oratória. Toda sexta-feira ele falava num programa de rádio, ele se comunicava quatro, cinco horas, as pessoas às vezes dormiam, de tanto que ele falava, dormiam, acordavam e ele tava falando.
SB – Que nem o Fidel [Castro] e o Mao [Tsé Tung].
ZB – Quando ele se dá conta de que tinha um golpe em curso ele escreve um comunicado e manda pra todas as rádios. Aí acontece um fato, que era sintomático do golpe, que o exército imediatamente manda fechar todas as rádios que haviam lido o manifesto, em que ele dizia: “Jango está na China, está sendo impedido, temos que nos mobilizar para que seja respeitada a constituição”. As rádios são fechadas, a única que não é fechada é a Rádio Guaíba, por que era um pouco mais conservadora, de alguma maneira tinha uma outra visão política, não aceitou ler o manifesto, não foi fechada. No dia seguinte ele confisca o transmissor da Rádio Guaíba, traz pro palácio e transforma a secretaria de comunicação na secretaria de segurança, digamos assim. Ele bota todo aparato da brigada militar a serviço do resguardo da comunicação. Resguardar a torre da Ilha da Pintada, transforma o palácio num grande forte de comunicação, onde ele bota os transmissores na rua pro povo que tava na frente ouvir o discurso dele, começa a discursar, discursar, produção artística, poesia, jogral, em torno disso, os dias vão passando e só discurso não dá, [o ator Paulo César] Pereio, [a poeta] Lara de Lemos, fazem o Hino da Legalidade, aquilo começa a ser tocado ininterruptamente.
LG – Vai mobilizando todo o Brasil, “olha não vamos deixar ter esse golpe”.
ZB – Mobiliza a sociedade civil inteira no sentido de dizer: “o que temos aqui?”. “A brigada militar”. “Quantos contingentes?”. “Tantos”. “Isso aqui não dá nada”. “O que a gente tem?”. “O povo na rua”. “Quantas mil pessoas estão na rua?”. “As pessoas precisam se armar”. Aí ele estabelece um jogo de guerra civil pela constituição. Quem tem arma pega sua arma e vem pra rua. Ninguém tinha tanta arma, ele pega todas as armas de estoque do palácio e distribui pra sociedade civil. Vai na Taurus, pega todo estoque de armas da Taurus, a Taurus que hoje tá com as ações lá em cima, distribui pra população todas as armas e “nós vamos enfrentar o exército brasileiro, vai ser brasileiro contra brasileiro, por que a gente tem que preservar a única coisa que a gente tem que é o voto democrático popular”. Jango Goulart havia sido eleito com mais votos que Jânio Quadros, numa época que as eleições eram separadas, vice e presidente.
SB – Não podia ser mais legítimo.
ZB – Só que na verdade isso tudo era um jogo de cena, as armas do palácio não tinham balas, as balas eram da revolução de 30, estavam todas estragadas. Ele vai jogando com o limite, pra ver o que ia acontecer, e tentando segurar, segurar, segurar, pro Jango voltar e o Jango não vinha.
LG – Não tinha informação direito de onde é que ele tava, tava em Nova York, ele vinha a conta-gotas, parava em Lima…
ZB – Até começar a guerra eles não precisam saber que elas não atiram [risos].
LG – Triste pensar que tem uma avenida em Porto Alegre chamada Castelo Branco. Fizeram uma votação, vereadores conseguiram mudar pra Legalidade. Aí quiseram mudar, “não, por que tem uma pracinha chamada Legalidade”. Aí virou avenida da Legalidade e da Democracia. Agora, em tempos [de] Bolsonaro voltou a se chamar Castelo Branco.

Sério?
LG – Agora vamos recomeçar, pra voltar a ser Legalidade, é sintomático, não?
ZB – Se a gente quer lutar, tem que lutar por educação, no Brasil hoje.
SB – O Castelo era o menos golpista deles. O Castelo saiu do Ceará pra detonar o golpe, o AI-5 do Costa [e Silva], por que o compromisso moral do Castelo com a nação era da eleição em dois anos. Ele saiu, teve que sair, passou pro Costa e Silva e o Costa e Silva deu um golpe dentro do golpe. E ele decolou e caíram o avião dele.

A personagem da Cléo Pires é jornalista.
SB – É uma espiã disfarçada.
ZB – Spoiler!
SB – Apaga, apaga [risos]. Quem sabe ele não é um espião da CIA? [gargalhadas].

Ou pelo menos da Abin [risos]. Recentemente houve esse episódio do The Intercept vazando as conversas do Sérgio Moro. Queria saber a opinião de vocês sobre a importância do jornalismo e da liberdade de imprensa no mundo e principalmente no Brasil sob a égide de Bolsonaro.
LG – Estou aguardando o episódio de hoje da Vaza Jato.
SB – O filme deles sobre o Tarso reflete muito bem isso. O Tarso sempre disse que não tínhamos uma imprensa livre, é uma imprensa submissa, uma mídia submissa, infelizmente. Claro, tem CartaCapital, tem Caros Amigos, tem umas revistas, uns jornais que não estão no topo do consumo, que são as vozes resistentes. Agora os demais? [Fala com desdém:] Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, Record, tudo isso está a serviço do capital. O jornalista de um desses órgãos que quiser ser libertário, da grande mídia, que quiser falar a verdade, está desempregado. Não só desempregado como o chefe liga pras outras redações e diz: “não contrata fulano, que ele complica”. Nosso jornalismo, infelizmente, está amordaçado. O que salva agora? As redes sociais, as agências independentes.
LG – Pro bem e pro mal. Hoje em dia as pessoas recebem notícias pelo celular e ninguém quer saber se é verdade, se não é. Mas fake news passa.
SB – Passa. O cara vai quebrar tanto a cara dando mancada, que uma hora ele vai procurar uma fonte confiável. E existem fontes confiáveis. A própria grande mídia agora está ficando responsável [risos], está sentindo a concorrência. Desde o tempo do [Assis] Chateaubriand que a grande mídia é golpista, que derruba, se apropria, e manda no presidente.
LG – A gente aborda, no próprio Legalidade, não só a Cléo Pires é uma brasileira que mora em Washington. A gente tem um triângulo amoroso, são dois irmãos, um deles trabalha no [jornal] Última Hora. Todo envolvimento dos jornalistas naquela época na Legalidade é fundamental. Eles fazem parte do plano do Brizola, era um jornalismo muito mais ativista, digamos.
ZB – Tem duas questões, fazendo relação com The Intercept. Primeiro, a questão da investigação e dessa responsabilidade que o jornalismo brasileiro talvez precise retomar, de depender menos do release, das notícias prontas, mas de ir atrás não só da visão oficial. Até no filme isso é engraçado, por que de alguma maneira os meios de comunicação de nosso filme estão a serviço do Brizola, eles são a voz do Brizola, a voz de uma liderança, mas de uma liderança que eles conheciam intimamente. Isso é uma questão. Ele não tinha como governante, esse distanciamento que os governantes costumam ter da imprensa. O Brizola tomava café todos os dias com os jornalistas para falar sobre o que estava acontecendo, chamava, não se negava a responder nenhuma pergunta, não era uma pessoa que fugiria de uma pergunta. Ele sabia a importância da imprensa para se manter ligado ao povo, ele tinha essa relação com o povo. “A grande massa, as pessoas que estão muito distantes, todos precisam saber do que estou fazendo”, pra ser cobrado também. Ele dava a cara a tapa, deu grandes exemplos em vida pra poder fazer as coisas que fez. Ele fez a reforma agrária, mas ele doou uma fazenda que ele tinha, foi a primeira fazenda, que ele doa, da família. Mas ele soube jogar, no episódio da Legalidade, com a imprensa como um elemento de guerra.
LG – Isso o Brizola jovem, por que o Brizola mais velho, depois…
ZB – Vai comprar briga com a imprensa.
LG – E o fato de o Brizola ter brigado com a Globo significou que ele nunca foi presidente do Brasil. O exílio também fez muito mal pra ele.

Como é que vocês têm acompanhado esse ataque sistemático às artes, à cultura e ao pensamento pelo governo Bolsonaro?
SB – É o que se esperava dum fascista. Não pode esperar do fascismo outra coisa a não ser isso. O [ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph] Goebells, o número um do [Adolph] Hitler, dizia: “quando eu ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar da pistola”. Indiretamente, eles odeiam, eles também têm vontade de sacar a pistola e matar todos os artistas, por que o artista é rebelde, o artista fala, o artista é independente, além do quê a cultura e a arte servem para o esclarecimento do povo, e eles não querem, querem o povo burro.
LG – Ignorante como eles.
SB – Eles não têm carinho nenhum, têm profundo desprezo pela cultura. E é aí que está o nosso papel: resistirmos. Por que isso passa. Essa onda de fascismo, de direitismo, existe em todo o mundo, não é só no Brasil, eles estão surfando na onda, a direita botou as garras de fora e está tendo seu momento. Até por culpa da esquerda, vamos aprofundar, que fracassou em muitas coisas. Acontece que a hora é deles, não é a nossa hora, não é a hora dos progressistas, não é a hora dos esquerdistas. Nesse momento nós temos que resistir, aguentar, por que muda, claro que muda, não sei se vai durar 10 ou 20 anos. Mas de repente alguém pode cair do cavalo.
LG – Vale falar que o filme é em memória de nosso ator, que acabou falecendo, infelizmente, que interpreta o Brizola, o Leonardo Machado.
SB – Foi o último trabalho dele.
ZB – O Léo é o protagonista, junto com o Sapiran ele faz o Brizola, a maior parte do filme ele conduz a trama, é um grande ator do Rio Grande do Sul, deixa um legado importante. Todos os diretores dos últimos 20 anos em algum momento trabalharam com ele. Não chegou a ver o filme pronto, viu um corte, enfrentou um câncer e nos deixou precocemente. Mas fez o filme com uma entrega absoluta, com paixão, buscou o papel, a gente estava buscando um ator, estávamos caindo no canto da sereia de que para chamar público tínhamos que ter atores do eixo Rio-São Paulo, em grande evidência na televisão.
LG – Mas tu tinha uma pulguinha, queria um Brizola gaúcho.
ZB – É, num primeiro momento a gente achava. Mas ele buscou o papel, me procurou, chegou ao teste caracterizado, era mais forte do que o próprio filme a vontade dele de fazer o filme. Fez lindamente, conduz o filme com uma baita responsabilidade, as falas reais do Brizola, teve um processo de caracterização, mudou o cabelo, colocou lente de contato, engordou um pouco para fazer o filme, é um ator muito completo, tanto pelo aspecto físico, disposto a transformações, quanto pela parte de equipamento vocal, tinha uma voz muito bonita, muito volume, pros discursos do Brizola isso foi muito importante, uma capacidade também de ser muito generoso, conviveu muito com o Sapiran, foi pra Bagé, fez um laboratório de um mês antes, saiu um pouco da cidade, para buscar essa raiz do Brizola, que era um homem rural, um colono, um homem do campo. Foi conviver com o Sapiran para os dois criarem o mesmo personagem. O filme, agora que eu falei esse negócio do campo, tem uma outra questão importante que a gente foi buscar: o filme se passa todo em Porto Alegre, mas estabelece um relação histórica com São Borja, com a raiz desse trabalhismo brasileiro que nasce com Getúlio Vargas num território que é Brasil mas que tem como origem de colonização a cultura espanhola, a figura do caudilho, e principalmente a questão da justiça social que fez parte da utopia jesuítica guarani. São Borja é uma cidade que nasce da colonização espanhola jesuítica, e foi o grande centro da justiça, os tribunais guaranis aconteciam em São Borja. Em 1680 já existia a ideia de reforma agrária, de divisão igualitária da terra, isso vai estar no subconsciente do Getúlio, do Brizola, e o filme tenta também flertar com esse passado espanhol que fez o Rio Grande do Sul, que está nas missões, tem um elemento do nosso filme que é inspirado no Darcy Ribeiro, antropólogo, que está na região das missões, em São Miguel das Missões, trabalhando com os indígenas, e vai pra Porto Alegre, mobilizado pela Legalidade, também mostrando essa mobilização que o Brizola fez no interior do estado. Então, pra falar um pouco das raízes do Brasil, que passa pelo elemento indígena, pelo elemento negro, pelo elemento português e pelo elemento espanhol, também no caso do Rio Grande do Sul.

Foi todo rodado em Porto Alegre?
ZB – O filme teve locações em São Miguel das Missões, também em Torres, mas representando Punta del Este, mas a história em si se passa em Porto Alegre.

No começo da entrevista você fez um elogio ao Guarnicê. Nesta edição foi inaugurada uma mostra chamada Cinema Político. O que você achou da iniciativa?
ZB – Eu achei fantástico, o festival tem que ter um compromisso com a sociedade. A gente vive um momento no Brasil onde as instituições, onde o próprio sistema político, como a sociedade vê a política, precisa ser discutido, pensado, a gente precisa repactuar com a sociedade, com a política. Há hoje uma ojeriza, um preconceito muito grande do cidadão com a classe política, por conta do desgaste da corrupção, que é real e que é histórico. A gente esteve no Museu de Arte Sacra hoje à tarde e há uma frase de Padre [Antonio] Vieira, numa de suas pregações, falando de como a corrupção está presente e é genuína do ser humano e é preciso combatê-la, não é questão apenas de ser brasileira, ela existe em toda parte, mas de alguma maneira no Brasil, por conta de nosso processo histórico, a mancha da corrupção se tornou maior do que a vontade civilizatória de fazer política por parte do cidadão. A gente precisa reaproximar o cidadão da política. A sociedade, no seu mais alto grau de caminhar, de pacto social, precisa da política, precisa da participação política. Mas não necessariamente da figura do grande líder, e é essa que é a questão que o Brizola entende, que aquilo tudo só seria possível envolvendo todos os cidadãos e fazendo com que as pessoas se apropriassem daquela causa, lessem a constituição, entendessem por que estavam lutando por aquilo. Como artista a gente também tem um compromisso de aproximar a política da discussão cidadã. A política é estrutural na sociedade, voltamos pra Grécia antiga. Há sociedades que conseguiram avançar, inclusive pra que a gente pudesse ter um processo civilizatório que deu origem ao renascimento, que deu origem à modernidade, ela se baseia na política.
SB – Há um preconceito contra a política em essência. Quando tem um festival que abre uma janela importante para um filme político, é importante, é um avanço. O Guarnicê tem conteúdo, tem pensamento, é um festival de pensamento. O festival que ele [aponta para Zeca] é coordenador tem isso também. É arte, mas é arte para pensar.

Qual é o festival que você coordena?
ZB – Tanto eu quanto Léo, de alguma maneira nós criamos janelas para poder propagar a arte cinematográfica brasileira, mas também refletir sobre nossas áreas, eu na minha atuação na faixa de fronteira e o Léo como roteirista. O Léo criou em Porto Alegre, o Frapa, o Festival do Roteiro Audiovisual, que é hoje um dos maiores, acho que é o maior da América Latina, e eu criei em Bagé e Livramento o Festival de Cinema da Fronteira, que já tem 11 edições. Ano que vem eu não vou participar, vou assistir. Mas fui o idealizador. O Frapa está chegando à sétima edição.

Qual a previsão de estreia do Legalidade no circuito exibidor?
ZB – Dia 12 de setembro ele vai estrear no Brasil. [Distribuição da] Boulevard Filmes, que distribuiu o Tarso também, distribuiu o Glauco do Brasil, meu outro filme.

Como vocês avaliam o atual momento do cinema brasileiro em que filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, e Marighela, de Wagner Moura, têm concorridas estreias internacionais, com ampla repercussão, mas não estreiam no Brasil?
LG – Eu acho que o Bacurau vai acabar estreando. O Marighela tá complicado, eu estou lendo, está complicado, a distribuidora ficou com medo da repercussão. O Marighela é diretamente contra o Bolsonaro. Eu não vi o Bacurau, mas imagino que seja uma coisa não tão direta, é óbvio que o discurso está ali, mas uma pessoa tosca não vai se sentir agredido, como o Bolsonaro, diferente do Marighela, que é um cara que combateu a ditadura. Eu acho que o Bacurau vai entrar em cartaz, deve entrar bem, espero que faça um bom público.
ZB – Eu acho que ambos os filmes escolheram estrear em festivais estrangeiros, é uma política que os realizadores brasileiros têm tido, não agora, mas há muitos anos, por que muitos desses festivais exigem que seja première mundial. Estreiam fora por que não têm espaço no Brasil? Não é verdade. Estreou fora por que os realizadores brasileiros preferem estrear fora, criar expectativas, ganhar prêmios fora, e depois estrear nos festivais nacionais. Acho difícil que ambos os filmes, de realizadores de prestígio, com os elencos que têm não sejam selecionados em festivais brasileiros. Provavelmente a gente vai ver agora no segundo semestre, os dois filmes em Gramado, Brasília, em algum desses festivais, Rio, São Paulo, eles vão estar nesses festivais. A questão do lançamento comercial, hoje no Brasil, tem dois caminhos: ou é investimento de uma grande distribuidora, e aí isso não é uma questão de perseguição política, é uma questão de capital. A gente vê que o capital pode, por exemplo, como a Netflix, lançar um filme sobre o impeachment da Dilma, por que o capital não tem esquerda nem direita, ele vende pra esquerda e pra direita.
LG – A Netflix fez O mecanismo [de José Padilha].
ZB – A mesma Netflix que fez O mecanismo faz Democracia em vertigem [de Petra Costa]. Então o capital é um grande balaio, que tem uma oferta que é o comunismo, o neoliberalismo, está tudo ali em oferta. O outro mecanismo é o Fundo Setorial do Audiovisual. O Legalidade é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o Marighela também. O Fundo Setorial do Audiovisual, na medida em que você aprova o financiamento da realização, a distribuição é suporte automático. Se eu quiser recorrer, eu posso ter recursos do mesmo fundo pra distribuir o filme.
LG – Até o ano passado. Agora tá tudo meio turvo.
ZB – Qualquer filme que está sendo lançado esse ano comercialmente teve que fazer esse processo ano passado. Imagino que qualquer filme que tenha optado pelo Fundo Setorial do Audiovisual ele terá o lançamento, imagino, garantido. A sociedade civil organizada que lutou pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que lutou pela transparência, pela governança de um fundo que é gerido por um banco público, aliás, o BRDE foi criado pelo Brizola [risos]. O que existe é uma dominação estrangeira das salas. Vingadores estreou em 800 salas. Há um preconceito contra o cinema nacional, isso existe e isso o Bolsonaro está fazendo questão de acentuar, é uma questão que a gente já vêm lutando há muitos anos e é função nossa, como imprensa, como artistas, formar público, lutar contra essa dominação estrangeira.

Serviço

Divulgação
Divulgação

Você tem medo de quê? Você tem ódio de quê?

Foto: Zema Ribeiro

 

​Duas portas de rolo são levantadas e de trás delas saem duas travestis a se somar à que​​ já está no palco — ao todo são seis em cena. Teatro, canto, dança e música conduzem os espectadores por seu universo.

A rua, a noite, o medo. O bullying na infância, o preconceito dentro e fora de casa, da família, a violência. Paisagens e temas que compõem a vida de qualquer travesti.

Quem tem medo de travesti, de Silvero Pereira e Jezebel De Carli, é um exercício de pensar em como lidamos com o diferente, uma peça urgente diante da licença para matar minorias traduzida na política armamentista do governo federal.

Mulher Barbada, Denis Lacerda, Patrícia Dawson, Diego Salvador, Ítalo Lopes e Verònica Valenttino em cena travestem-se várias vezes. O figurino, de Antônio Rabadan, é um luxo. Os jogos de sombras ajudam a descortinar as várias situações de uma população em geral enxergada como sub-cidadã (inclusive, ou principalmente, pela hipocrisia dos “cidadãos de bem” que desfrutam de seus serviços). O texto joga luz sobre esse grupo vulnerável, que mais que invisível, é alvo fácil do ódio.

A dramaturgia conduz à reflexão mas consegue fazer sorrir, fazendo-se valer de piadas do universo homoafetivo, sem nunca precisar descambar para o politicamente incorreto, além do pajubá, o código linguístico particular da população LGBTQI+ (mas não só), que tanto incomodou o homofóbico presidente da república ao ser tema de questão do último Enem.

Medo é uma palavra central em Quem tem medo de travesti. Nem sempre travestis podem perdê-lo antes de tombarem, vítimas da violência, agora infelizmente legitimada. Mas o espectador pode perder seu medo e ir assistir o espetáculo.

Serviço

A circulação de Quem tem medo de travesti integra o projeto Travestis Itinerantes, do Coletivo Artístico As Travestidas, selecionado pelo programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural, e conta com mesa redonda, oficina e encenação. Hoje, às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) acontece a última apresentação em São Luís. Os ingressos custam R$ 20,00 (meia para estudantes com carteira: R$ 10,00). Daqui o grupo segue para Belém/PA (dias 20 e 21 de maio na Estação Gasômetro) e Imperatriz/MA (25 e 26 de maio, no Teatro do Sesc Palmas).

Você tem medo de travesti?

Coletivo Artístico As Travestidas se apresenta em São Luís. Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com o diretor Silvero Pereira.

Cena de Quem tem medo de travesti. Foto: Leonardo Pequiar

O espetáculo Quem tem medo de travesti está em circulação pelo Brasil e este mês chega a Belém/PA, Imperatriz/MA e Palmas/TO – depois de São Luís (entre amanhã e quinta-feira, 16). Segundo o material de divulgação, as cidades foram escolhidas pelos altos índices de violência contra a população LGBTQI+.

O Coletivo Artístico As Travestidas está em circulação com o projeto Travestis Itinerantes, contemplado no edital do programa Rumos, do Itaú Cultural. O espetáculo é escrito e dirigido pelo ator e pesquisador cearense Silvero Pereira e pela professora e diretora gaúcha Jezebel De Carli.

A agenda do grupo na capital maranhense tem início amanhã (14), às 9h, com a mesa de debate “Os corpos dissidentes na cena contemporânea: tombamentos e dissoluções em normas de gênero”, que acontece no Teatro de Bolso do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (CCH/Ufma). À tarde e noite (das 14h às 21h), no mesmo local, acontece a oficina “Procedimentos técnicos em atuação, dramaturgia e encenação do Coletivo As Travestidas”.

Quem tem medo de travesti será apresentado dias quarta (15) e quinta-feira (16), às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Silvero Pereira não virá à São Luís: está a caminho de Cannes, no elenco de Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial do prestigiado festival.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O diretor Silvero Pereira. Foto: divulgação

Vamos começar pelo título do espetáculo que chega à São Luís: Quem tem medo de travesti. A homofobia é ódio, mas esse ódio parte do medo, não sei se você concorda. A seu ver, quais as razões desse medo e desse ódio?
Silvero Pereira: A gente trabalha o título a partir da definição da palavra “medo”, que é exatamente o fato do não conhecer, ou seja, do pré-conceito. Muito do que temos é a violência provocada por falta de conhecimento, por ignorância e, principalmente, falta de políticas públicas que trabalhem o respeito às questões de gênero e diversidade na família, na escola e na sociedade em geral.

Tua dramaturgia, desde BR-Trans, é baseada em tristes estatísticas e acaba misturando arte e política. Na sua opinião é dever do artista fazer do fazer artístico um fazer político também?
Não consigo pensar em arte sem ação político-social. Fui criado e arrebatado por ela desta forma e só me sinto artista quando consigo subir no palco pra provocar e questionar a sociedade. Arte não é instrumento de transformação social, isso depende do espectador que aprecia e decide se o que vou mostrar muda, ou não, algo em sua vida. Acredito na arte como manifestação de provocação.

As ações do atual governo brasileiro são desastrosas em todos os campos, mas sobretudo no cultural e no social, com o desmonte de estruturas como o Ministério da Cultura e os conselhos de direitos, que eram os canais de participação social. Como você tem acompanhado esse cenário?
Desastroso e cheio de retrocesso. Uma nação sem uma cultura, arte e educação solidificadas jamais conseguirá evoluir no trabalho, saúde, relações humanas, judiciária e legislativa. A cultura e a arte são processos fundamentais na formação humana de uma nação.

Depois de BR-Trans você fez novela na Globo [ele interpretou Nonato em A força do querer, de Gloria Perez]. Acredita que a visibilidade que você adquiriu favorece a causa pela qual você milita?
Sim! A TV me possibilitou alcançar mais pessoas e poder ajudar, por meio da minha militância e arte, desconstruir paradigmas, enfrentar preconceitos e reduzir violências.

Sua peça vai ser apresentada em São Luís, mas você está indo a Cannes…
Infelizmente não estarei nessa etapa de São Luís, pois estou de partida para o Festival de Cannes, onde estou no elenco de Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial. É um grande ato estar presente nesse festival e neste momento em que a cultura se vê tão devastada por um governo e aclamada mundialmente através do audiovisual. Não poderia perder esse feito! Reencontro o Coletivo As Travestidas nas etapas Belém, Imperatriz e Palmas.

Além do elenco, já que BR-Trans é um solo, que diferenças e aproximações você destacaria entre aquele espetáculo e Quem tem medo de travesti?
Quem tem medo de travesti é uma espécie de continuação de BR-Trans, pois eles trazem as experiências de encenação, dramaturgia e atuação que, hoje, configuram as pesquisas do Coletivo As Travestidas. Quem tem medo de travesti é um trabalho cheio de questões reais e que parte da multimídia, música, teatro, dança e musical, variando entre o trágico e cômico.

Desconstrução

Max Silva e Marcê Porena se entregam a Chico Buarque. Foto: Zema Ribeiro

 

Que Chico Buarque de Holanda é um dos maiores gênios da chamada música popular brasileira disso ninguém tem dúvida. Quer dizer, num país em que a ignorância dita as regras e o whatsapp virou noticiário, alguns têm dúvida, sim. Mas, na verdade, Chico nunca foi unanimidade, basta lembrarmos a recorrente pergunta: “Chico ou Caetano?”.

Depois de mais de 50 anos de carreira e o mesmo período alinhado a ideais de esquerda, filho de sociólogo, amigo pessoal de Lula, autor de músicas censuradas durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964 e ativo personagem na campanha pelas Diretas Já!, um punhado de fãs (ou ex-fãs?) descobriu que o coração de Chico é vermelho como o sangue que pulsa em suas veias, da cor que costumeiramente representa o espectro político que se alinha do lado em que sempre esteve o compositor. Ou seja: atualmente, Chico é menos unanimidade ainda.

Chicólatras são tão fanáticos quanto raulmaníacos. Prova disso foi o que fez o público presente à apresentação do duo Nu’zs, ontem (9), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande): apesar de mais de três quartos das canções apresentadas pelo ex-integrante dO Terço Max Silva (guitarra e programações) e Marcê Porena (voz) fazerem jus ao título do espetáculo – Chico Buarque: um outro olhar – a plateia cantou junto, bateu palmas, vibrou, pediu mais um.

Max e Marcê trajam ternos sóbrios e as novas roupagens com que vestem as músicas literalmente desconstroem o que por vezes está configurado em nossa memória afetiva, no inconsciente coletivo. A pegada eletrônica leva o público a outro olhar, outra audição.

O duo é um casal, para além do palco, o que garante a intimidade no ponto certo, sem vulgaridade, para alguns exercícios teatrais, para além da música, em canções como Terezinha, O meu amor, Folhetim, Sob medida. Em pouco mais de uma hora de apresentação o que não faltam são clássicos.

“Foi difícil escolher o repertório. A gente começou com 13 canções, mas não havia como não aumentar isso. A questão é que Chico Buarque só tem clássicos”, revelou Max. “Esse show é para inspirar vocês a beijar na boca. Pra mim bastou uma música do Chico e hoje eu sou casada e estou no palco com alguém que ama Chico”, Marcê revelou a intimidade.

Às vezes a guitarra de Max parecia ofuscada pela programação eletrônica, mas ele compensou o problema, por exemplo, na versão voz e guitarra de As vitrines. Em História de uma gata (versão de Chico Buarque para a música de Luis Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti), da trilha sonora de Os saltimbancos, Marcê deitou no chão e evocou a felina personagem com seus miados. Dedicou a canção a Miúcha, irmã de Chico, uma das vozes da gravação original, recém-falecida.

Um dos maiores momentos do espetáculo foram as releituras de Apesar de você e Cálice (parceria de Chico com Gilberto Gil), cantada no bis, à capela, por uma Marcê deitada no palco, com alusões a uma provável queda da atual ditadura que governa o país.

Antes de cantar a saideira, perguntaram à plateia, que não decepcionou: “vamos cantar a única parceria de Chico Buarque com Sivuca, sabem qual é?”, e foram de João e Maria, após a resposta. Encerraram a apresentação aos gritos, vindos do palco e da plateia, de “Fora Bolsonaro!”, “Lula livre!” e “Viva Flávio Dino!”.

Marcê ainda entoou os versos iniciais de Carcará (João do Vale e José Cândido), reafirmando sua adoração por João do Vale, n/o que também se relaciona com Chico Buarque. Quem precisa de unanimidade quando se está ao lado de quem importa?

Serviço

O duo Nu’zs apresenta o espetáculo Chico Buarque: um outro olhar hoje (10), às 20h30, no Teatro do Boi (R. Rui Barbosa, 339, Matadouro), em Teresina/PI.

Sebos unidos

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando a Editora Autêntica começou a republicar a obra do monumental Campos de Carvalho (não confundir com o outro Carvalho, ideólogo de revisionistas), brincávamos, um grupo de amigos: éramos uma espécie de seita, descobrindo ou reencontrando a literatura do autor de Vaca de nariz sutil.

Íamos além, numa matemática maluca: se somos três leitores apaixonados por Campos de Carvalho em São Luís, isso faz da ilha a cidade brasileira com mais leitores do autor de A chuva imóvel. A equação é simples: a tiragem média de um livro no Brasil é de algo em torno de 3 mil exemplares, o que dá menos de um livro por cidade, pouco mais de meio.

E ríamos também de nossa própria falta de talento, já que talvez essa matemática tivesse alguma graça se proposta literariamente pelo próprio escritor de A lua vem da Ásia – ou Macedónio Fernandez (autor do Museu do romance da eterna).

Lembro da devoção ao mineiro Campos de Carvalho, de saudosa memória, por ocasião da inauguração, ontem (10), da 1ª. Feira do Livro Usado (vascaíno que sou, é melhor não inventar sigla), evento que acontece até amanhã (12), na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) – para quem não sabe, aliás, Valdelino e Odylo dois importantes escritores.

O acontecimento congrega diversos sebos que vêm configurando um corredor literário no centro da capital maranhense: estive na abertura, ontem, e por lá encontrei Natan Máximo, Riba da Feira da Tralha, Silvia do Paço Prosa e Arteiro – Riba do Poeme-se se somaria, me disseram.

Enquanto jogava conversa fora, tomava café cubano e amealhava exemplares, rato de sebo que sou, me deparei com a diversidade dos frequentadores, motivados pela paixão pelos livros, curiosidade e, às vezes, circulando por ali como quem não quer nada.

Certamente muitos dos passantes, quando acabar a Feira, voltarão a estes espaços em seus endereços fixos e eventos: sem periodicidade no Sebo do Arteiro e no Paço Prosa, às últimas quintas-feiras do mês no Poeme-se, e todo domingo na Feira da Tralha, um com discotecagem de vinil, outro com roda de choro ao vivo, alternadamente – a propósito, amanhã, na noite de encerramento da iniciativa, João Eudes (violão sete cordas) e Ronaldo Rodrigues (bandolim) se apresentarão.

Cumprimentei conhecidos, vi uma desconhecida catar um exemplar de bolso do On the road de Jack Kerouac, topei com um exemplar do Hemóstase de Bruno Azevêdo, volume de contos de que até então eu só ouvira falar, a primeira edição de O desatino da rapaziada de Humberto Werneck, uma conferência proferida por Josué Montello sobre o Arthur Azevedo contista e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, entre outros volumes de seus consagrados romances.

Eis uma das graças de sebos – e livrarias, em geral: entrar procurando uma coisa (ou nem procurando nada especificamente) e sair com várias coisas completamente diferentes e tudo bem, tudo certo. Aliás, ainda prefiro comprar livros e discos presencialmente, mais ainda conversando com alguém que entenda daquilo que está vendendo.

Em um tempo em que o desmonte da educação e da cultura é uma política pública do governo federal, não faltam motivos para visitar a 1ª. Feira do Livro Usado, ainda que São Pedro não colabore. É praticamente um ato de resistência.

Senti saudade de Moema de Castro Alvim, em cujo Papiros do Egito iniciei essa perambulação que espero que nunca termine.

A força das mulheres cantando o Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

São impressionantes a qualidade e o entrosamento da Orquestra Guajajaras, em atividade apenas desde agosto de 2018. O show apresentado ontem (9), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), foi uma prova da vitória de um esforço coletivo que, embora recente, já mostra a que veio.

A Orquestra Guajajaras surge “da admiração pela consagrada formação instrumental das big bands e da paixão pela renovação estética empreendida pelas orquestras de baile brasileiras na primeira metade do século XX, das quais a Tabajara”, sua irmã de rima, “foi a mais conhecida e longeva”, em atividade até hoje – as aspas são do texto lido pelo mestre de cerimônias da noite, o cantor Fernando de Carvalho.

A Orquestra Guajajaras é formada por Ricardo Mendes, Emerson de Paula, Danilo Santos, Lucas Lima e Paulo Rafael (saxofones), Hugo Carafunim, Evandro Maia, Daniel Cavalcante e Gabriel Oliveira (trompetes), Elder Ferreira, Daniel Miranda, Adrian Ferreira e Sidney Diniz (trombones), Rafael Bruno (contrabaixo), Anselmo Rômulo (violão), Ronald Nascimento (bateria) e Wesley Sousa (piano).

A noite musical – dedicada inteiramente a repertório brasileiro – começou pela instrumental Brooklyn High (Nelson Faria), a única música que a orquestra tocou sem uma convidada no palco. O show chamava-se Orquestra Guajajaras e Elas e podia ser entendido como uma espécie de prolongamento das celebrações às mulheres pelo mês de março.

10 cantoras maranhenses de todas as gerações e timbres desfilaram um repertório impecável – difícil até elogiar pontos altos em uma apresentação que tampouco pode ser considerada uniforme diante das particularidades dos talentos de cada convidada. No fundo do palco, o telão exibia fotografias das cantoras e de outras grandes mulheres da história: Annah Harendt, Chiquinha Gonzaga, Janis Joplin, Malala Yousafzai, Maria da Penha, Maria Firmina dos Reis e Simone de Beauvoir, entre outras.

A primeira a subir ao palco foi Bruna Lussaray, que interpretou Maçã, de Djavan, o autor mais interpretado da noite, autor da peça seguinte, Açaí, interpretada por Adriana Bosaipo. Um problema técnico tirou o piano elétrico de Wesley Sousa de cena e enquanto isto se ajustava, ele continuou cumprindo seu papel de anunciar as próximas músicas e intérpretes, fazendo-lhes as devidas e merecidas referências e reverências.

A troca de elogios entre cantoras e orquestra era sincera. Elas eram unanimes em reconhecer a importância da iniciativa da orquestra e de o público prestigiar tal iniciativa – o Teatro Alcione Nazaré estava completamente lotado.

Após cantar Viagem de novembro (Erasmo Dibell), Regiane Araújo revelou o quanto foi difícil fazê-lo sem o piano de Wesley, que seria substituído na sequência. Ele chamou Anna Cláudia, paraense radicada no Maranhão há mais de 20 anos, recomendando: “ela tem um disco lindão no spotify, quem não conhece está pecando”, disse, referindo-se a Bons ventos, segundo disco da carreira da cantora, que interpretou Papel marché (João Bosco e Capinam).

Com o piano devidamente trocado, Wesley pode participar do momento seguinte, em que à sua exceção, todos os músicos da orquestra se retiram do palco e ele dueta com o violino de Thaynara Oliveira em Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque). “Ela sempre chora nessa música, vamos ver hoje”, provocou, mas ela aguentou firme, até seus agradecimentos.

Milla Camões arriscou uns passos de dança na síncope de Capim, de Djavan, cuja letra cita de raspão o “tronco do juremá” dO canto da ema de João do Vale (com Ayres Viana e Alventino Cavalcante), metáfora-síntese para as camadas descortinadas ao longo do espetáculo. Tudo isso antes de Gabriela Marques por toda sua exuberância à prova em Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), não perdendo o prumo nem na única (ligeira) microfonia da noite.

Ao revelar que a Orquestra Guajajaras está trabalhando em seu disco de estreia, antecipou que uma das faixas do repertório será Flanelinha de avião (Cesar Teixeira). Revelou ainda que não conhecia Milena Mendonça, tendo topado convidá-la por indicação de outros dois integrantes da orquestra: deve ter sido a cantora que mais causou reações no público, sendo aplaudida de pé no meio da música. A cantora interpreta Maria Bethânia no musical João do Vale – o gênio improvável e recomendou ao público valorizar a arte produzida no Maranhão, “para que a gente possa fazer aqui, para vocês, e não tenha que ir para lá, fazer só para eles”, afirmou, aludindo ao fluxo migratório a que Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra se referiam em Missa agrária – que Bethânia gravou junto ao Carcará (João do Vale e José Cândido) em seu disco de estreia – e que durante tanto tempo foi regra para o sucesso de artistas nascidos maranhenses.

A Célia Maria pediu aplausos e tratou de diva, tudo merecido. Engraçadíssima, chegou fazendo o povo rir, embora estivesse sendo apenas modesta, virtude das grandes: “maravilhosos são eles”, disse ao público, referindo-se aos músicos que a acompanhariam em As rosas não falam (Cartola) – nem errando a letra ela se apequena.

Tássia Campos brilhou em Ladeira da preguiça (Gilberto Gil), dançou e arrematou o discurso unânime: “todos nós estamos aqui por amor à música. Prestigiem e valorizem iniciativas como essa, por que nós, além de fazermos com profissionalismo, fazemos com amor”. Como dizem os tabeliães: o referido é verdade e dou fé.

Encerrando o espetáculo, Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) foi entoada por todas juntas no palco, traduzindo a grandeza de cada uma, colocando a letra no plural: essas mulheres são dons, certas magias, forças, sons, cores, suores, as doses mais fortes.

O homem-tambor volta à terra do tambor de crioula

Carlos Pial se apresenta amanhã e depois em São Luís. Percussionista conversou com o blogue com exclusividade

Ano passado, o percussionista Carlos Pial fez um dos melhores shows do ano, conforme modestamente elegi, na votação anual para o site Scream&Yell, a que compareço a convite do editor Marcelo Costa.

Foi no circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen. Em um show de música instrumental, Pial botou literalmente o povo para cantar e bater palmas, com o fascínio que exerce sobre a plateia – à qual literalmente adentrou, enquanto fazia soar seus instrumentos.

Bruxo, mago, alquimista. Para além de clichês, estas são palavras que traduzem a atuação de Pial no palco. Maranhense radicado em Brasília, costumeiramente se referem a ele como homem-tambor. Não é à toa.

O músico se reencontra com o público maranhense amanhã (5) e depois (6), com o show Alquimia dos Sons, título do dvd que gravou em Brasília/DF, e com o qual tem percorrido o Brasil, com patrocínio do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

Os shows acontecem às 21h, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca. Pial será acompanhado por Hamilton Pinheiro (contrabaixo), Misael Silvestre (piano e teclados), Westonny Rodrigues (trompete), Agilson Alcântara (violão) e Pedro Almeida (bateria). Quarta-feira (5) o instrumentista terá como convidado o Henrique Duailibe Trio; quinta (6) é a vez do Jayr Torres Trio.

Por e-mail, Carlos Pial conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Marcia Foizer

Pial, onde você nasceu e quais são as suas primeiras lembranças musicais? Quando você começa a se interessar por percussão e decidiu que dedicaria a vida a isso?
Nasci em Tocoíra, um lugarejo ribeirinho entre Viana e Cajari, baixada maranhense. Sou de família tradicional de músicos de sopro, onde até hoje continua a tradição repassada de pai pra filhos. Minha vó por parte de mãe era folclorista e tocava caixa do divino. Nasci no dia 30 de junho, dia de São Marçal, um dia fortíssimo e importante em nossa cultura. Daí imagino que, apesar de toda influência dos metais, o que aflorou mesmo em mim foi a caixa e as catracas que minha vó tocava.

Maranhense radicado em Brasília, você acabou por construir uma das mais sólidas carreiras como percussionista no Brasil, seja em seu trabalho como artista solo, seja como músico a serviço de outros músicos ou ministrando oficinas. Mas a gente sabe que chegar até este ponto nunca é fácil. O que você gosta de destacar nessa trajetória?
Vida de músico sabemos que é difícil, e a do percussionista termina ficando mais difícil por ficar sempre no plano de fundo nos palcos, onde só aparecem os guitarristas, tecladistas, enfim [risos]. Com todo respeito a todos os colegas músicos eu tive uma atitude arriscada e que depois ficou prazerosa demais: a coisa de sair da cozinha e vir pra sala. Mostrando a cara mesmo! Onde comecei a desenvolver minhas composições e ideias que eu vinha desenvolvendo e observando meus ídolos maiores: [os percussionistas] Papete e Naná Vasconcelos. Brasília pra mim foi e está sendo um portal para outros povos, por ser uma cidade super cultural e de bom gosto. Através dela estou nesta turnê e consequentemente em minha cidade, claro!

Alquimia dos Sons tem muito de misturas, mas há uma coerência em teu trabalho, não é um cozinheiro maluco jogando qualquer ingrediente na panela. Como foi conceber este espetáculo?
[Risos] Boa! Mencionei cozinha na resposta anterior. O lugar mais gostoso de minha casa, adoro cozinhar e de repente isso me ajudou a usar os ingredientes certos na hora certa. Desde o início do meu trabalho solo sempre misturei ritmos, ideias, foi realmente resultado de pesquisas de trabalhos de alto nível no decorrer desses anos musicais. Alquimia dos Sons tem um pouco de cada momento que venho percorrendo ao longo de minha carreira.

Títulos como Somambembe, Salsamba, Samba candango e Norjazzteando já dão pistas de algumas fusões que comparecem a tuas composições. O que te inspira?
Então, falei um pouco disso na resposta anterior [risos]. Eu nunca gostei da coisa tradicional, ritmo tal, ritmo tal. Uma coisa é um arroz branco muito bom, outra coisa é um arroz de cuxá. Com a mistura dos ingredientes fica melhor o arroz. Penso assim nas minhas músicas.

Vi sua apresentação na edição de São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival ano passado, que elegi na ocasião como um dos melhores shows do ano. Ali, pode-se perceber o domínio que você tem da plateia, botando o público para fazer coro em um show de música instrumental. A que você credita essa empatia?
Muito obrigado por esse elogio. Respondendo sua pergunta, eu brinco com os amigos que sou um cantor frustrado [risos]. Brincadeira! Assisti muitos shows instrumentais, de jazz e outros, onde o músico sola meia hora e na maioria das vezes o público não entendia nada, ficava bocejando e muitas vezes até ia embora. Eu via muitas vezes as pessoas falando mal da música instrumental, até por não conhecer. Via muito o Naná Vasconcelos interagindo e eu via resultados. Achei que poderia fazer isso também. Terminei fazendo com um estilo próprio, e por onde ando percebo que venho agradando públicos de todas as idades.

Uma coisa que também chama a atenção em teus espetáculos é o uso da tecnologia. Você está ao vivo no palco e já vai gravando e usando essas bases gravadas, dialogando consigo mesmo. Como foi desenvolver essa linguagem?
Dando sempre os créditos do que faço sempre, confesso que aprendi muito bem as dicas do saxofonista maranhense Sávio Araújo [radicado em Portugal], com que dividi o palco durante muitos anos. Ele e novamente o mestre Naná Vasconcelos, com quem tive a honra de passar alguns dias em São Luís, num trabalho. Ele me deu muitos toques e foi pioneiro nessa coisa de um percussionista usar tecnologia. Terminei desenvolvendo minha própria forma de usar esta faceta.

Você já citou Papete e Naná Vasconcelos. Quem são os percussionistas fundamentais para tua formação? Por quê?
Papete, Naná Vasconcelos, Jeca [Jecowski], Erivaldo [Gomes], Airto Moreira, Paulinho da Costa. Por quê? Por que eles são os melhores!

Qual a sensação de voltar a tocar em casa, recebendo como convidados amigos de longa data? O que o público pode esperar destas duas apresentações?
A sensação é maravilhosa! Tocar com Henrique Duailibe, um músico extraordinário, com quem toquei muitos anos. Foi ele quem deu a maior força e gravei meu primeiro CD em seu estúdio. Jayr Torres, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, somos amigos de adolescência eu vi todo seu crescimento musical. Foi no trabalho dele que eu toquei pela primeira vez num show instrumental e isso foi fundamental para meu crescimento no gênero. O que o público pode esperar? Muito suingue, quebradeira e muita emoção. Porque estou levando aqui de Brasília os melhores músicos da cidade e alguns dos melhores do Brasil.

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Assista Mãe Natureza (Carlos Pial):

Um palhaço brasileiro

Foto: Zema Ribeiro

 

​”Era uma vez uma boca de fumo. Nessa boca de fumo havia drogas e doces. Chapeuzinho Vermelho encheu uma cesta de doces, botou na garupa de sua bizinha para levar para a vovó e saiu pilotando pela floresta. No meio do caminho apareceu o lobo. “O que tem na garupa, Chapeuzinho?”, perguntou. “Doces para a vovó”. “Me dá a metade?”. “Não posso, são para a vovó”. O lobo insistiu, pedindo quantidades menores, até arrematar: “Se você não me der os doces, eu pego um atalho, chego antes de você na casa da vovó, mato ela e toco o terror em você; todo mundo conhece a história, vem o caçador e me mata. Dois homicídios por causa de um punhado de doces. É isso que você quer para sua vida?”.

O palhaço Klaus (Márcio Douglas) atualiza a história infantil para os perigosos ares que o Brasil respira no momento. Para bom entendedor, uma fábula basta. Foi longamente aplaudido pelo ótimo público presente ao Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde foi apresentado ontem (24) o espetáculo da La Cascata Cia. Cômica, de São José dos Campos/SP, integrando a programação do Palco Giratório, do Sesc. E arrematou, irônico, para a plateia novamente irromper em aplausos: “isso sim é uma história infantil: ninguém morre!”.

Klaus é um palhaço aposentado. No monólogo tragicômico ele compartilha sua experiência animando festas infantis. O palhaço é uma metáfora: alvo de toda sorte de preconceitos e violência. Politicamente incorreto, a personagem bebe e fuma em cena. Beira o desalento. Logo de cara, adverte: “quem está em busca de algo lúdico, algo mágico, pode ir embora”. Soa cruel, mas é apenas sincero.

Animo festas, o espetáculo, se vale do universo infantil para debater temas em torno das relações de trabalho: qualificação, violência, preconceito, assédio, direitos. E também realização e felicidade: não à toa a pergunta “você é feliz?” aparece diversas vezes no texto, dirigida ao palhaço, quando ele relata encontros com pessoas diversas após as festas.

Hábil ao embrulhar estes questionamentos no “inocente” mundo das crianças, Klaus provoca gargalhadas na plateia durante o espetáculo inteiro. Beira o nonsense quando, por exemplo, saca um canivete ao ameaçar as “crianças” (dois adultos escolhidos aleatoriamente em meio ao público) para que deixem a aniversariante (outra adulta idem) vencer o jogo da dança das cadeiras – quando joga luz sobre outro assunto em voga no Brasil: a corrupção.

“Todo DJ é um “filha” da puta”, provoca: “a gente pede uma música, ele sempre toca outra. O DJ é aquele cara que não aprendeu a tocar um instrumento, mas teve dinheiro pra comprar o equipamento”, ataca. Provocar é uma especialidade de Klaus, que vai parar numa penitenciária após provocar um policial. É outra história em que se equilibra entre o hilariante e a denúncia social, a debater a questão carcerária, tema sempre urgente e quase sempre escamoteado, não apenas no período eleitoral.

Vez por outra, a palavra palhaço é injustamente usada como xingamento. Klaus define a si mesmo como um palhaço profissional. Ousa peitar contratantes, aniversariantes e quem mais achar que deve em nome de sua dignidade, que não desaparece sob uma camada de tinta e maquiagem. Ao contrário de muitos (não apenas palhaços) que se deixam tanger como gado para o abatedouro, ele dá um importante alerta a quem, por ação ou omissão, em nome de valores no mínimo dúbios, se arrisca a abdicar de seus próprios direitos. Klaus é brasileiro e se reinventa para existir e resistir.

Serviço

O grupo La Cascata Cia. Cômica apresenta hoje (25), às 17h, o espetáculo Precisa-se de um mané, no Cine Teatro Aldo Leite (Palacete Gentil Braga, Rua Grande, 782, Centro). A entrada é gratuita. A programação integra o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

Uma banda é um mundo inteiro

O saxofonista Ney Platt sola em “Dengoso” (Manoel Alves e Marcelo Jardim). Foto: Zema Ribeiro

 

Quando o maestro Jean Gonçalves comenta o fato de que as rádios só tocam música comercial é que nos damos conta do quão escondidos estão verdadeiros tesouros musicais, oriundos de outras práticas, caso dos repertórios das bandas sinfônicas que ora circulam o país pelo projeto Sesc Sonora Brasil – em São Luís, até amanhã (27), sempre às 17h, no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca.

A Sociedade Musical União Josefense, oriunda do município de São José, na região da grande Florianópolis, em Santa Catarina, completará em novembro próximo 142 anos de atividades – o que volta a nos dar dimensão dessa invisibilidade: se pensarmos na banda mais antiga em atividade no Brasil, por exemplo, certamente nos virá à cabeça um grupo de rock ou samba.

O regente e seus 11 músicos apresentaram um concerto didático, passeando por diversas fases da trajetória das bandas de música no Brasil, formações que dialogam diretamente com as fileiras militares – o exército brasileiro é uma grande escola – e religiosas – qualquer pessoa, sobretudo os de mais idade, lembrará de uma banda tocando em procissões e festejos. Como o próprio Jean Gonçalves lembrou que havia visto duas cortando as ruas de São Luís desde que chegou à ilha, no dia anterior.

Em ordem alfabética, Artur José Fernandes (trombone), Braion Jhonny Zabel (clarinete), Cristiano Canabarro Forte (percussão), Gabriel dos Santos Guimarães (bombardino), Jean Carlos da Silva Rodrigues (trompete), Jean Leiria (percussão), João Geraldo Salvador Filho (tuba), João Paulo Trierwaller (trompete), Ney Platt (saxofone alto), Rui Gilvano da Silva (clarinete) e Vinícius Inácio Nery (flauta e flautim), sob regência de Jean Gonçalves, apresentaram peças como Jubileu, composta por Anacleto de Medeiros em homenagem aos 50 anos do Corpo de Bombeiros fluminense, tendo sido um dos primeiros dobrados registrados em disco no país, no início do século passado.

Fé cristã, de Osmildo Delvan, escancarou as relações destas “formações e repertórios” – tema da segunda parte do biênio 2017/2018 do circuito Sonora Brasil, que ano passado proporcionou a circulação de quatro grupos de coco – com a religiosidade e, consequentemente, sua relação com as comunidades, com procissões percorrendo ruas de localidades diversas, unindo o sacro (a missa, por exemplo) e o profano (os bailes, quermesses).

Royal Cinema é uma peça escrita pelo maestro potiguar Tonheca Dantas por encomenda do proprietário do cinema homônimo, que queria um tema para abrir as sessões. Com Cabaçal, maracatu e baião, João Victor Barroso conquistou o segundo lugar no Prêmio Alberto Nepomuceno de música para formação de bandas, do estado do Ceará. A composição é de 2016, a atestar a renovação de grupos e formações e a necessidade de valorização, já que, ao longo dos anos, muitas bandas têm deixado de existir, devido a dificuldades de manutenção.

Um projeto de circulação guarda também encontros inusitados: foi assim com a participação especial do trombonista Feitosa Jr., que já integrou o grupo quando serviu o exército em Santa Catarina. Ele participou da execução de Pelotão cívico 14 BC, de autoria do maestro Jean Gonçalves.

Com uma plateia formada majoritariamente por músicos, a apresentação ao por do sol transformou-se numa grande roda, reunindo os membros da Sociedade Musical União Josefense e alunos do projeto Sesc Musicar, que vem revelando talentos ao longo dos últimos anos em São Luís, entre outros instrumentistas que prestigiavam a apresentação, na meia lua da pequena ágora. “Vamos tocar Dois corações (Pedro Salgado), que é uma música que todo músico de banda conhece, agradecendo a presença do maestro Rogério Francisco, da Corporação Musical Cemadipe [que se apresenta hoje, 26], que veio nos prestigiar, e já pedindo desculpas por dar um pequeno spoiler de sua apresentação, já que essa música está no repertório deles”, anunciou Jean Gonçalves.

“Dois corações” a unir músicos da plateia aos do palco, encerrando a apresentação. Foto: Zema Ribeiro

Rufar dos Tambores homenageia Papete

O percussionista maranhense Papete. Foto: Bruno Mendonça

 

“Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás”.

O depoimento do percussionista Luiz Cláudio, paraense radicado no Maranhão desde o início da década de 1980, a Ricarte Almeida Santos e este repórter, para a série Chorografia do Maranhão, relembra o impacto que foi, ver e ouvir pela primeira vez o genuinamente maranhense tambor de crioula.

Com base em São Luís, Luiz Cláudio fez escola, com saídas pontuais. Tocou com meio mundo de gente. Para citar apenas alguns artistas em cuja ficha técnica de discos seu nome aparece: Cesar Teixeira, Ceumar, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro.

Nesta sexta-feira (27), das 15h às 22h, com programação inteiramente gratuita, entre oficinas (todas as vagas preenchidas com bastante antecedência) e shows, acontece o Rufar dos Tambores – Festival de Percussão de São Luís, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

“De algum modo isso está atrasado”, comentou o músico em entrevista a Gisa Franco e este escriba, sábado passado (21), no Balaio Cultural, programa que dividimos na Rádio Timbira AM (1290KHz). Longe de se lamentar, o que Luiz Cláudio disse é que, diante de sua devoção e reverência a grandes mestres da percussão maranhense, um evento desse naipe já deveria contar com várias edições realizadas, sob sua idealização e produção.

Esta primeira, em um único dia, é um passo inaugural. O percussionista revelou a intenção de consolidar o Rufar dos Tambores no calendário cultural da cidade, sem negar a influência do baiano Panorama Percussivo Mundial, o famosíssimo Percpan, que já teve o gigante Naná Vasconcelos (1944-2016) na direção musical.

A edição inaugural do festival homenageia Papete (1947-2016), talvez mais reconhecido como cantor, graças a álbuns antológicos como Bandeira de aço (1978), divisor de águas da música popular produzida no Maranhão, mas, antes de qualquer coisa, percussionista reconhecido internacionalmente.

“Nenhum artista simboliza os batuques afro-indígenas da nossa cultura popular como este percussionista (…) que dedicou sua vida a divulgar os ritmos e as toadas de nossos cantadores. Papete foi o primeiro músico brasileiro a fazer um show exclusivamente voltado para a percussão nacional”, o caprichado material de divulgação justifica a escolha.

Entre as atrações – programação completa na página do evento no facebook – destaques para o Batuque de São Benedito, “realizado anualmente dia 6 de janeiro no município de Carutapera por ocasião do festejo da igreja de São Benedito”, o Boi Brilho da Sociedade, “um dos mais tradicionais grupos do bumba-meu-boi maranhense, (…) um dos seis grupos do sotaque Costa de Mão que ainda estão em atividade”, o Terecô de Igaraú, “brincadeira de cordão realizada sempre no dia 25 de janeiro, em homenagem a Nossa Senhora de Belém, (…) tradição de mais de 200 anos, em que três tambores são batidos por mulheres” e o grupo Divina Batucada, que, inspirado “nas antigas turmas de samba, como Fuzileiros da Fuzarca, Turma do Quinto e Vira-Latas, homenageia os grandes nomes da velha guarda do samba tradicional maranhense, cantando, principalmente, canções que marcaram a história dos antigos carnavais” – aspas pescadas do material de divulgação.

A programação do primeiro Rufar dos Tambores será encerrada com o show Encantarias, título do EP que Luiz Cláudio lançou no fim do ano passado, com participações especiais de Chico César e Zeca Baleiro.

Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Para analfabetos políticos e cinéfilos em geral

Num clássico poema de sua lavra, o alemão Bertolt Brecht cravava: “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Arrisco dizer, décadas depois: o pior analfabeto político é o que pede a volta da ditadura militar, tendo ou não passado pelo regime de trevas que subjugou o Brasil entre 1964 e 85.

A este tipo de analfabeto, literalmente jogando luz sobre o período, o Cine Praia Grande oferece, a partir deste domingo (27), a mostra Golpe nunca mais, fruto de parceria do cinema com a Cantaria Filmes, Petrini Filmes e Cineclub Amarcord. A partir de domingo, sempre às 18h, com entrada franca, quatro filmes sobre o citado período.

De resto, segue a programação normal da sala de cinema do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), com Malala [EUA, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 88 minutos, direção: David Guggenheim], sessões às 15h e 16h30, e Chico – artista brasileiro [Brasil, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 115 minutos, direção: Miguel Faria Jr.], sessões às 20h (exceto terça-feira). Os ingressos custam R$ 14,00 (meia para casos previstos em lei). Às segundas-feiras, meia para todos. Alunos de cursos do CCOCf pagam R$ 5,00.

Útil para analfabetos políticos, Golpe nunca mais é aberta a qualquer apreciador/a de cinema nacional de qualidade que queira ver ou rever os títulos da mostra, de graça.

Mostra Golpe nunca mais – Programação

Domingo, 27

Batismo de sangue [de Helvécio Ratton. Brasil, drama, 2006, 110 minutos] São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas.

Segunda, 28

Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução
Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução

Cabra marcado para morrer [de Eduardo Coutinho. Brasil, documentário, 1984, 119 minutos. Narração: Ferreira Gullar] Início da década de 1960. Um líder camponês, João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo golpe militar de 1964. 17 anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus 10 filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

Terça, 29

O que é isso, companheiro? Cartaz. Reprodução
O que é isso, companheiro? Capa. Reprodução

O que é isso, companheiro? [de Bruno Barreto. Brasil/EUA, drama, 1997, 110 minutos] O jornalista Fernando (Pedro Cardoso) e seu amigo César (Selton Mello) abraçam a luta armada contra a ditadura militar no final da década de 1960. Os dois se alistam num grupo guerrilheiro de esquerda. Em uma das ações do grupo militante, César é ferido e capturado pelos militares. Fernando então planeja o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), para negociar a liberdade de César e de outros companheiros presos.

Quarta, 30

Retratos de identificação [de Anita Leandro. Brasil, documentário, 2014, 71 minutos] Na época da ditadura militar, os presos políticos eram fotografados em diferentes situações: desde investigações e prisões até em torturas, exames de corpo de delito e necropsias. Hoje, dois sobreviventes à tortura veem, pela primeira vez, as fotografias relativas às suas prisões. Antônio Roberto Espinosa, o então comandante da organização VAR-Palmares, testemunha sobre o assassinato de Chael Schreier, com quem conviveu na prisão. Já Reinaldo Guarany, do grupo tático armado ALN, relembra sua saída do país em 1971, em troca da vida do embaixador suíço Giovanni Bucher. Ele conta como foi sua vida no exílio e fala sobre o suicídio de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, com quem vivia em Berlim. Com essas revelações e testemunhos, segredos de um passado obscuro do país voltam à tona.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.