João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

Corpos poéticos, corpos políticos

Momentos de Chico, eu e Buarque. Fotos: Clarissa Anfevi e Louise Mendes/ Divulgação

 

Dividido em três atos, o espetáculo de dança Chico, eu e Buarque – Fragmentos poéticos é um mergulho no vasto universo do compositor Chico Buarque, cujos versos de enfrentamento à ditadura militar brasileira nunca ficaram datados, seja por sua genialidade poética em si, seja pelo Brasil nunca ter acertado contas com o passado e vivermos a iminência (?) da repetição da história como tragédia.

Idealizado pelo diretor do Teatro Arthur Azevedo Celso Brandão, dirigido e coreografado por Anderson Couto e realizado pelo Núcleo de Arte Educação (NAE) do TAA, parceria das Secretarias de Estado de Educação (Seduc) e Cultura e Turismo (Sectur), Chico, eu e Buarque marca um novo momento nas artes cênicas do Maranhão e na história do próprio TAA, quando a casa, além de receber espetáculos e produções, produz seus próprios feitos – além deste espetáculo de dança, também o maravilhoso João do Vale – O musical.

11 bailarinos em cena: 10 do corpo do NAE – André Lima, Calina Rubim, Daniel Lima, Geisa dos Anjos, Heide Cabral (que deu nome ao espetáculo nos estudos que o precederam), Isabella Sousa, Kleverson Froz, Weber Bezerra, Miriam Martins e Nuiliane Lago – mais a professora Débora Buhatem, que surge sozinha e leve, para “ficar em teu corpo feito tatuagem”, após a explosão de Geni em Geni e o zepelim, fechando o primeiro ato.

O espetáculo se abre com Construção/Deus lhe pague (1971), em que cenário e luzes simulam o trânsito apressado de operários brasileiros, com todos os bailarinos do NAE em cena. É o bloco das músicas de protesto, longe de panfletos datados: seguem-se Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978), na interpretação de Chico e Milton Nascimento, Apesar de você (Chico Buarque, 1978), O que será (À flor da terra) (Chico Buarque, 1976), novamente cantada em dueto com Milton, Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1979) e a versão instrumental de Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973).

O segundo ato traz à cena o Chico romântico, valorizando trios e pas de deux: Samba e amor (Chico Buarque, 1970), Terezinha (Chico Buarque, 1977), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca, 1977) e Todo sentimento (Chico Buarque e Cristóvão Bastos, 1987), quando as flores do cenário descem quase ao chão e uma dançarina brinca com elas, antes de fazê-las novamente voar, alusão ao “sopro do criador” de que falava outro compositor, aqui mais um motivo para celebrar o Chico criador de alguns dos momentos mais sublimes de nossa vasta música popular.

O ato final marca o diálogo da obra de Chico Buarque com os ritmos da cultura popular do Maranhão. Os bailarinos saem de longas fitas – evocando os chapéus dos caboclos de fita do bumba meu boi – nas cores da bandeira jamaicana (afinal de contas celebra-se Chico Buarque na Jamaica brasileira). Ou seria a bandeira do Sampaio Correa aludindo ao tricolor carioca por que torce o compositor?

Neste ato, novas gravações e arranjos (de Rovilson Pascoal) para a obra de Chico Buarque, inserindo os tambores de crioula e mina e o bumba meu boi, a provar que o universo buarqueano é mais vasto e aberto do que sonha a nossa vã filosofia.

Nessa pegada, seguem-se Cotidiano (Chico Buarque, 1971), Paratodos (Chico Buarque, 1993) e Roda viva (Chico Buarque, 1968) – cujo uso a TV Cultura teve desautorizado na abertura do programa homônimo, após a emissora veicular uma entrevista com o ilegítimo Michel Temer (não havia contrato formal com a emissora para uso da canção, mas um acordo verbal entre o autor e o produtor Fernando Faro, falecido em abril de 2016).

Chico, eu e Buarque é um espetáculo político e não poderia deixar de ser, em se tratando do homenageado, autor da trilha sonora. O corpo fala e no palco está mais livre do que nunca, para reinterpretar a riqueza de um verdadeiro craque da canção brasileira – interpretações erradas de uma entrevista que ele deu ao jornalista Fernando de Barros e Silva, para a Folha de S. Paulo, em dezembro de 2004, levaram muita gente a acreditar que Chico Buarque teria decretado “a morte da canção”.

Mas voltemos ao espetáculo, que fecha com outra canção de protesto, cantada até hoje em plenos pulmões carnavais afora: Vai passar (Francis Hime e Chico Buarque, 1984). A arte imita a vida e tudo termina em samba. Que fique o alerta e nossa pátria mãe tão distraída pare de ser subtraída em tenebrosas transações. E a tragédia brasileira deixe de se repetir. Para Chico Buarque seguir atual por outros motivos.