Rebatismo

Foto: Morgana Amabile
“O amor na vida adulta devolveu-me à paixão da infância”. Foto: Morgana Amabile

 

Anos-luz de distância dos talentos de Nelson Rodrigues e Xico Sá, para citar dois craques da crônica ludopédica, arrisco-me no terreno para o qual sirvo sequer para gandula. E aqui me toma de assalto a primeira dúvida: esta seria mesmo uma crônica ludopédica? Ou de costumes? Ou sentimental, um poema em prosa, uma declaração de amor? Sabe Deus, que protege mesmo os que nEle não acreditam.

Ontem (3) fui ao Castelão assistir a partida na qual o Moto Club de São Luís sagrou-se vencedor, por três tentos a um, contra a equipe do Pinheiro Atlético Clube. O rubro-negro assumiu a liderança do campeonato maranhense. O time ilhéu abriu o placar aos oito minutos com Geovane e ampliou aos 36 com Ancelmo Jr.; com Leonardo, o PAC diminuiu, de pênalti, aos 41. No segundo tempo, Jadilson, também de pênalti, sacramentou a vitória do Papão do Norte, aos 27 minutos.

Desde a adolescência eu não ia a um estádio torcer pelo Moto Club, paixão de infância, influência de minha mãe. Um episódio lamentável me afastou: fui ver um jogo do rival, o Sampaio Correa, acompanhado de dois tios, eu em trajes neutros, eles uniformizados; ao passarmos por uma torcida motense, antes de acessarmos as arquibancadas, torcedores, apontando-nos os canos das bandeiras, marcharam em nossa direção, aos gritos de “uh, vai morrer!”. Podia ser apenas uma brincadeira, vai saber. Minha cabeça de adolescente sem parentes importantes e vindo do interior entendeu como a quase consumação de uma situação de violência nos estádios que vez por outra víamos (e vemos) no noticiário, infelizmente.

Segui acompanhando futebol e torcendo pelo êxito maranhense em campeonatos como o Brasileiro e a Copa do Brasil, esperando que aqui e acolá, Moto Club, Sampaio, Maranhão, Imperatriz ou qualquer outro que aparecesse, alçasse nosso estado a um patamar mais elevado, uma campanha destacada na Copa do Brasil, uma presença na série A do Brasileirão – de lá para cá ainda não aconteceu, mas tudo tem seu tempo, ela sempre me ensina.

Mas não há trauma que um amor não cure e o amor na vida adulta devolveu-me à paixão da infância: motense roxa, ela me fez voltar ao seio motense. Amor rubro-negro pintado pelo vermelho de seu batom com o café preto que tomamos no estádio (acreditem: ontem tomamos um cafezinho no Castelão, não é recurso literário para deixar a crônica mais interessante) antes da primeira cerveja, o fone de ouvido dividido, eu com o lado left, ela com o lado right, a acompanhar a transmissão da Rádio Timbira (onde este cronista apaixonado divide dois programas), em cujo intervalo, no tour pelas rodadas de outros campeonatos estaduais, Jauber Pereira mandou-nos um alô – inclusive à filha dela (também motense e uniformizada com a camisa que ela mesmo customizou) que, de férias na Ilha, fez nosso retrato.

O time do Moto não é bom; no máximo deu sorte nestas duas primeiras rodadas do campeonato, angariando duas vitórias, chegando a seis pontos e a líder. Ontem parecia traduzir em campo os versos de Belchior que eu estampava no peito, em vermelho e preto: “eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”. Um jogo torto, mas que venceu, e é isso o que importa, contradigo-me, logo eu, um eterno admirador da seleção brasileira de 1982.

Um casal feliz e/ou unido não necessariamente é formado por dois torcedores do mesmo time. Mas que isso facilita bastante é inegável, já que os dois sentem o mesmo naqueles ditos do padre: na alegria e na tristeza. Ganhando, comemora-se junto; perdendo, ninguém zomba da cara do outro (ou os dois zombam da cara um do outro). Mas disto só saberemos depois, já que após meu revival motense ainda não sabemos o que é perder.

Perdoem brincar com o clichê, ainda que soe piegas: sorte no jogo, sorte no amor.