Carlos Latuff

Carlos Latuff fez o desenho abaixo para a capa da próxima edição do jornal Vias de Fato. Diante do quadro caótico em que se encontra o Maranhão, resolvemos publicá-la antes: hoje Conectas, Justiça Global e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) encaminharam carta a Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, solicitando intervenção federal em Pedrinhas.

Mais uma vez o cartunista é preciso ao traduzir em seu traço as cotidianas violações de direitos humanos em nosso país.

A violência artística de Carlos Latuff

“A função do artista é violentar”. A frase do cineasta Glauber Rocha que serve de epígrafe ao blogue de Carlos Latuff traduz seu exercício de ler o mundo através dos traços e cores de suas charges, publicadas por aí, o artista ainda mais conhecido fora que em seu pobre Brasil – triste do país que não sabe reconhecer e valorizar seus artistas.

Carioca nascido em 30 de novembro de 1968, o chargista é um cronista do cotidiano, com a pena mais afiada e o olhar mais aguçado que o de muita gente por aí, sobretudo os que ocupam cargos e funções nos podres poderes – o poder, propriamente dito, e a mídia.

Latuff come pelas beiradas. É na imprensa alternativa e sindical, entre jornais nanicos e panfletos dos movimentos sociais que ele crava suas denúncias, não sem um quê de ternura e beleza, orientando-se pela máxima do revolucionário. Tem ilustrado e participado de momentos cruciais da história recente – primavera árabe, derrubada da ditadura egípcia, Pinheirinho, Copa do Mundo no Brasil etc. Já perdeu a conta de em quantas publicações infiltrou suas obras de arte e uma delas protagonizou talvez o primeiro caso de asilo artístico no Brasil: Por uma cultura de paz, charge de sua autoria que retrata um homem negro crucificado executado pela polícia, teve sua retirada solicitada por um político filho de militar e ganhou abrigo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Sem formação acadêmica, apenas com o “segundo grau completo”, como ele mesmo diz, o desenhista formou-se observando as ruas, sua cidade maravilhosa natal, o Brasil e o mundo que roda a trabalho, terrenos mais que férteis em se tratando de matéria prima para o seu fazer artístico e político.

“Artivista”, cravei uma vez referindo-me a ele. Já admirava e acompanhava seu trabalho e acompanhava quando pintou a oportunidade: a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) realizou, em 2012, com algumas entidades parceiras, uma Campanha de Combate à Tortura e tivemos a honra de convidá-lo a desenhar o cartaz (a imagem ilustra a capa desta agenda).

Por que Latuff não é apenas talentoso. É também um artista comprometido com a luta dos menos favorecidos, despejados, indígenas, quilombolas, sem-terra, vítimas dos megaprojetos e megaeventos, vítimas da polícia, crianças e adolescentes, idosos, mulheres, LGBTs. Em suma, um artista comprometido com a luta por e a efetivação dos direitos humanos na vida das pessoas.

Cada um luta com as armas que tem. Canetas na mão e ideias na cabeça, eis as de Latuff. No ano em que a SMDH completa 35 anos de luta em defesa da vida, é motivo de orgulho para nós, presentear sócios/as, parceiros/as e amigos/as com esta antologia latuffiana, imagens pinçadas de um ano especialmente trágico para os direitos humanos no Brasil.

Homenagem – Especialmente para esta Agenda 2014, Latuff desenhou o saudoso Celso Sampaio, assessor jurídico da SMDH, falecido ano passado, também admirador de seu trabalho.

[textinho que escrevi pra Agenda 2014 da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos]

A desgraça, o traço e o riso

Se há um povo que aprendeu a rir das próprias desgraças é, sem dúvida, o brasileiro. Especialista em nos fazer rir dessas e refletir sobre essas mesmas desgraças: Carlos Latuff, sempre referenciado como gênio por este modesto blogue.

Ao longo dos próximos 12 meses, a duração de seu mandato, o pastor Marco Feliciano (PSC/SC) têm apenas dois significados na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados: um retrocesso sem precedentes no histórico da citada comissão (uma jovem nascida em 1995) e um prato cheio para o trabalho de humoristas, cartunistas, chargistas e outros istas (não cabem aqui racistas e fundamentalistas: estes tomaram de assalto a CDHM).

Odyr

Acho que “guzzices” é hoje um termo melhor que “mainardices” para definir as “sandices” (que são bem mais que isso) da revista Veja, que em sua edição ora nas bancas, chegou a comparar a união entre pessoas do mesmo sexo com a relação entre homens e cabras, além de inúmeras baboseiras outras (encravou, no texto, por exemplo, “homossexualismo” em vez de “homossexualidade”, intenção em vez de vacilo).

Sobre o assunto (ou diante da falta dele), o genial Odyr Bernardi postou em seu facebook (“bernardice”, ao contrário de seu significado original, é, aqui, sinônimo de vida inteligente na “cartunice” brasileira).