O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

Um acerto que deve servir de exemplo

Quer se concorde ou não com a escolha da candidata, a iniciativa da revista CartaCapital, de declarar apoio à reeleição de Dilma Rousseff, é digna de elogio.

A semanal da editora Confiança anunciou em editorial a opção pela petista. No texto, justificou a escolha, embora não lhe tenha poupado de críticas, sobretudo à equipe de ministros e ao duradouro relacionamento com o PMDB, partido do vice Michel Temer, também candidato à reeleição.

Impossível não lembrar o pioneirismo da revista Trip, quando abdicou da publicidade de cigarros e iniciou uma campanha que resultou no fim dos anúncios de tabaco em publicações brasileiras. A mesma Trip, depois, tomou partido quando do referendo do desarmamento.

Outros veículos nacionais e locais deveriam lhes seguir os exemplos e anunciar de que lado estão. A blogosfera, idem. Seria melhor para todos/as: candidatos/as, partidos, veículos, jornalistas e, principalmente, leitores/as. Afinal de contas, sabemos: imparcialidade jornalística é quimera.

Este blogue mesmo, como de praxe, anunciará em breve suas escolhas. Quantos mais terão coragem e independência?

Pseudo-concurso público, jornalismo (?), mentira, reitoria, opinião, papado e egolatria

“Confirmado concurso público para o HU”, afirma a manchete de capa de O Estado do Maranhão de hoje (17). No interior do jornal o que se lê é um mega-release (link para assinantes do jornal, com senha), embora o texto não seja tão longo, isto é, nada que justificasse uma manchete de capa, propaganda descarada da gestão do magnífico reitor Natalino Salgado.

Se não se trata disso, o que justifica um jornal anunciar com tamanho destaque um “concurso público” cujo edital só será lançado mês que vem?

Não se iludam a população em geral e em especial os concurseiros de plantão: os aprovados no “concurso público” não serão os novos servidores públicos federais; serão terceirizados, celetistas, com contrato temporário e consequente prazo de validade pré-determinado.

O jornal pode até chamar o “processo seletivo simplificado” de “concurso público”, já que qualquer pessoa que venha a atender os requisitos especificados no edital, quando este for publicado, poderá concorrer ao mesmo; mas não devia criar a falsa ilusão de que tudo corre às mil maravilhas e os problemas que restam serão sanados com “o maior concurso público já realizado na história do Maranhão”, conforme afirmou o megalômano reitor em matéria (link para assinantes do jornal, com senha) do mesmO Estado do Maranhão em 19 de janeiro passado, sobre o mesmo assunto.

Pasmem, poucos mas fieis leitores: a seleção de 3.500 novos servidores do Hospital Universitário, cujo edital somente será lançado em março próximo, já é notícia no jornal da família Sarney há um mês.

A quem interessa toda essa propaganda enganosa? É capaz de o jornal, mês que vem, publicar outra matéria, adiando o lançamento do edital: a adesão do HUUFMA à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) é questionada pelo Ministério Público Federal; isto é, o processo seletivo simplificado pode sofrer adiamento. Ou nem acontecer. É à EBSERH que os novos servidores selecionados no “concurso” estarão vinculados. Serão terceirizados por uma empresa pública de direito privado, isto sim a realização da privatização da saúde usando recursos públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

O texto não foca no processo seletivo, assunto que talvez se resolvesse num parágrafo ou nota, jamais justificando manchete de capa. Alardeia “18 obras (…) em execução no HUUFMA” entre “reformas, ampliações e construção de novas alas” e lembra estar “entre as melhores organizações de saúde do mundo que se destacam na divulgação da produção científica”, conforme ranking do Webometrics Ranking of World Hospitals. Um trecho do texto chega a informar (?) até mesmo quantos acessos teve o site do HU de agosto para cá e o número de profissionais que compõe sua assessoria de comunicação. Estes, certamente empenhados: só assim para conseguir uma dominical manchete de capa com exercícios de futurologia.

O pseudo-concurso público do Hospital Universitário é encoberto por fumaça, não a da inocente diamba desde sempre fumada pelos blocos da UFMA, mas talvez também a do conclave que escolherá o próximo papa com a renúncia de Bento XVI: longe do assunto da capa dO Estado do Maranhão, na página de Opinião do jornal, o sumo pontífice, digo, o magnífico reitor escreve sobre a renúncia papal e a igreja (que frequenta assiduamente). Sob o título Exemplo de abnegação e altruísmo (link para assinantes do jornal, com senha), o texto de Natalino Salgado, imortal da Academia Maranhense de Letras, é só elogios a Ratzinger, cuja renúncia é por ele classificada de “atitude imprevisível e, ao mesmo tempo, corajosa”.

“Estranho ato, muitos disseram, mas que se coaduna com esta época em que a velocidade é o substantivo primordial. Ou, como lembra o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que nada é feito para durar. Mal nos acostumamos com o teólogo Joseph Ratzinger a levar sobre si a missão petrina, deparamo-nos com seu perfil sereno a explicar que este seu radical ato é antecedido de demorada meditação e exame de consciência diante de Deus”, prossegue o reitor, parecendo esquecer-se da “solidez” de seus mandatos e dos de outro imortal, o dono do jornal em que escreve, mesmo sustentados por eleições ilegítimas. A última do reitor registrou “uma abstenção gigante, solenemente ignorada pela ASCOM, cada vez mais transformada em assessoria de comunicação do reitor e não da universidade, que alardeou uma vitória esmagadora”, conforme resgatou Flávio Reis em O dono da UFMA.

“As questões em jogo, na Itália e no mundo todo, transcendem a fé, sincera ou não. Vivemos uma época intelectualmente e moralmente pobre, instigada pelos avanços tecnológicos e arrepiada por demandas inovadoras em choque com a doutrina eclesiástica. De aborto a casamento gay. Enquanto isso, a Igreja de Pedro tenta em desespero impor seus vetos e se agarra aos dogmas, cada vez mais inviáveis à luz da razão”, bem lembra Mino Carta no editorial da CartaCapital desta semana, assuntos em que o reitor não toca em seu artigo, mantendo a média do costume bem maranhense de transformar em santo qualquer um que morra ou renuncie.

Voltando aO Estado do Maranhão: a Coluna do Sarney (link para assinantes do jornal, com senha) sobre os 43 anos da ponte do São Francisco é uma imodesta aberração em que ele se põe, por conta da efeméride, a evocar bravatas do tempo em que era governador. Mas Sarney sempre escreveu com o ego, e tão mal, que se seu artigo não fosse, cúmulo da egolatria, publicado na capa do jornal, muita gente sequer o leria ou saberia que existe.

A cultura brasileira em debate e a liberdade de expressão

(OU: METENDO O BEDELHO ONDE NÃO FUI CHAMADO)

Enxerido que sou, não poderia deixar de meter minha colher nesse angu. O debate iniciado por Mino Carta em sua CartaCapital e Cynara Menezes em seu Socialista Morena. Sobre a cultura brasileira. O primeiro, sob o título A imbecilização do Brasil, falando em “deserto cultural”, a segunda apontando frutos prontos a serem colhidos, sob o título Em que tipo de arte você acredita? Ou: a imbecilização da elite. Fico com a segunda, fosse apenas para tomar partido.

O problema de todo saudosista, nostálgico, passadista ou coisa que o valha – como parece ser o caso de Mino – é achar que tudo só era bom no seu tempo. E aí os olhos fecham-se para o que de bom lhes passa bem debaixo do nariz. Quem acha que bom era no tempo de Bethânia, Caetano, Chico, Edu Lobo, Gal, Gil, Milton etc., todos gênios, cada qual a seu modo, jamais perceberá o talento de nomes como Bruno Batista, Junio Barreto, Karina Buhr, Kléber Albuquerque, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Siba, Tulipa Ruiz etc., e é proposital que a segunda lista tenha mais nomes que a primeira. Isso para ficarmos apenas na música. Era bom naquele tempo? Sem dúvidas! É bom agora? Também!

Cynara pontua bem a apropriação pelas elites de gêneros hoje populares(cos) – e na grande maioria das vezes de péssima qualidade – e a imposição das mesmas ao povo pela via midiática. Mostra-se otimista em relação a tevê, coisa que não sou tanto: temos tevê pública, temos tevê paga – embora nem todo mundo possa pagar ou fazer gambiarra – e mudar de canal é muito fácil. Eu diria que nem tanto: conheço gente que passou a vida inteira se contentando com as novelas da Globo e as “verdades” do Jornal Nacional e, hoje, com 200 canais pagos, num combo que inclui ainda a internet, continua vendo também o Faustão aos domingos.

Muita coisa mudou no Brasil dos últimos 10 anos. Falo de inclusão social e econômica. De as pessoas poderem escolher queijos e iogurtes e não apenas contentar-se ao pão com manteiga – quando havia – e café preto. Produzir música nunca foi tão fácil e barato. As coisas, porém, não são automáticas e a ofensiva midiática é pesada, violenta. Muita porcaria ainda é lida, vista, ouvida no Brasil. Mas daí a negar que existam talentos e esperança é pessimismo demais para meu gosto.

Lembro-me de um colega de turma, devíamos ter uns 14, 15 anos, que dizia, na escola, não curtir Cartola e Chico Maranhão, nomes que eu então já admirava. Depois de algum tempo ele me aparece com um cd do primeiro, o que invejei, já que eu mesmo não tinha um. Ele me confessou não admitir admirar o compositor em público pois tinha vergonha de ser ou parecer estranho. Talvez isso aconteça ainda hoje ao menos com uma pequena parcela de carinhas que inviabilizam, do ponto de vista de sua finalidade original, o porta-malas do carro, com caixas de som que vão tocar em sabem Deus e a polícia quantos decibéis, músicas que desvalorizam a figura feminina, este apenas um exemplo dentre os temas preferidos dos compositores do forró de plástico, para ficarmos em um gênero musical que não aprecio – e poderia me fazer pessimista.

A discussão é complexa, até por que passa também por aquilo a que chamamos “questão de gosto”: cada um tem o seu e há os que acham que isso não se discute.

Algumas coisas, no conjunto, merecem aplausos. Capas, em geral, em jornais ou revistas, são dedicadas a notícias ruins, tragédias e coisas do tipo. A CartaCapital desta semana botou a cultura na capa, sem a pretensão de um consenso nos vários textos do “dossiê”. Se Mino parece pessimista, Alfredo Bosi, um dos entrevistados da edição, é otimista. Digo parece por que ele fundou a Veja e a IstoÉ e ao ver as crias tornarem-se outras coisas não cruzou os braços, fundando a CartaCapital (de que sou assinante, única semanal que leio com regularidade), este senhor será um eterno otimista.

Cynara Menezes cobriu outra pauta para a edição, mas deu seu pitaco em seu blogue: a discussão é saudável e abre portas para outras. Os poucos mas fieis leitores deste blogue imaginam profissionais (ou como queiram chamar: jornalistas, empregados etc.) da Folha, da Veja, da Globo, “respondendo” ao patrão em público? Se imaginam são casos raríssimos e em geral o “rebelde” é demitido em sequência – às vezes nem precisa a reação ser em público, basta ser numa reunião.

Incluindo a blogosfera suja, há quem não possa ouvir falar em “conselho de comunicação” e coisas do tipo que se treme todo e começa a falar besteiras como “a volta da censura” e/ou “a volta da ditadura” – que defendem quando lhes convêm. Um bom exemplo de liberdade de expressão é o saudável debate que me instigou a este texto. E que me faz admirar ainda mais seus protagonistas.

O dia em que o homem de vícios antigos encontrou a socialista morena

Eu poderia dizer que Cynara Menezes é uma das melhores jornalistas que descobri nos últimos tempos, mas isso diminuiria o que quero dizer. Até mesmo por que sua descoberta, enquanto jornalista, não é recente. Talvez dizer que ela é uma das mais admiráveis pessoas que conheci nos últimos tempos traduza.

Ela ocupa com talento as páginas da semanal CartaCapital e tem um blogue bonito, inteligente e de esquerda. Que nem ela. Leio-a em ambos, com gosto.

Quem a conhece pessoalmente ou ao menos acompanha seu trabalho sabe que quaisquer elogios serão merecidos. Mas hesitei bastante em escrever sobre nosso encontro em minha mais recente ida à Brasília: temia fazer mero texto de fã que encontra ídolo – o que não deixa, em parte, de ser; o que não deixo, em parte, de fazer.

“Coleciono amigos, essa é a minha natureza”, já li, ou algo parecido, nalgum texto seu no Socialista Morena, o blogue bonito, inteligente e de esquerda, a cara da dona, que ela mantém. Nossas naturezas se parecem e, em minha mais recente passagem pela capital federal, dividimos alguns chopps e quibes no Beirute, “o bar mais antigo de Brasília”, como ela me apresentou o espaço que tem no cardápio texto de Leandro Fortes, seu colega de redação na revista de Mino Carta e de faculdade, na Universidade Federal da Bahia.

Conversamos um bocado entre o fim de minhas atividades de trabalho e a hora do voo de volta à Ilha – que Cynara conhece, gosta e onde quer voltar –, enquanto Tito, seu filho figuraça, de quatro aninhos, se divertia entre jogos no celular da mãe, o parquinho que o bar tem, mel e amendoim vendidos por ambulantes.

Catei na mochila uns presentinhos que levei à nova amiga, com quem já tinha trocado alguns tuites. Entre eles, dois pratinhos de doce de espécie, iguaria típica de Alcântara – quando de sua passagem por São Luís chegou a ir até lá, confessando o medo da travessia de lancha –, à base de coco. Espero ter contribuído para deixar seu “esquerdismo way of life” ainda mais doce.

Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense
Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense

Os velhinhos (já) não gostam de “buceta”

“Nunca quis e jamais haverei de querer entrar para a ABL [Academia Brasileira de Letras]. Tenho o senso do ridículo. Já imaginou me ver metido naquele fardão patético, com aquela espada absurda e aquele chapelão que, como você costuma dizer, se assemelha a um espanador ou a um rabo de avestruz?”, argumentou certa feita [o poeta Carlos Drummond de Andrade].

O trecho acima colhi da resenha de Fernando Jorge sobre o livro Drummond e o Elefante Geraldão, publicado na revista CartaCapital desta semana. O poeta tinha, como disse, senso do ridículo.

Há alguns dias recebi do poeta Josoaldo Rego um e-mail cujo assunto dizia simplesmente “os acadêmicos”. Seu conteúdo trazia uma matéria do jornal O Globo sobre a interrupção de uma palestra do ciclo Mutações – O futuro não é mais como era, no site da ABL. Motivo: a exibição do famoso quadro A origem do mundo, de Gustave Courbet, e a menção da palavra “buceta”.

Prezado amigo Afonsinho

O “prezado amigo Afonsinho” que Gilberto Gil cita na clássica Meio de campo, acima na soberba interpretação de Elis Regina, agora é colunista da revista CartaCapital, do que todos já sabiam.

Em sua coluna de estreia ele cita a canção. Semanalmente na Pênalti, coluna outrora ocupada por outro médico, outro craque da bola e da palavra, Sócrates, a quem a estreia é dedicada/dirigida.

O dinossauro Picasso

“Picasso tornado repentino dinossauro por meio dos pães de sua mesa, igualados a antigas patas” (Rosane Pavam), uma das 152 fotos que compõem a exposição Simplesmente Doisneau, de Robert Doisneau, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro, até 17 de junho.

Roubei as aspas e a sensacional imagem da edição impressa da CartaCapital (nº. 688).

IpanAmy

Mais um achado a que cheguei graças à leitura de resenha do Tárik de Sousa na CartaCapital, ele um dos heróis deste blogue que, feito quem parou no tempo, ainda acredita em (alguns) críticos de música (outros achados “tarikianos” foram o novo da Céu e Língua Brasileira, de André Parisi). Não, não se trata simplesmente de mais uma versão, de mais uma gravação da desde sempre tão regravada Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: trata-se da gravação de Amy Winehouse para The Girl From Ipanema, a versão de Norman Gimbel para o clássico bossanovista.

Confesso que antes de ler o Tárik pensei que Lioness: Hidden Treasures (2011) era mais um destes caça-níqueis da “necrofilia da arte” (Pato Fu), a indústria sempre querendo faturar mesmo antes de o defunto esfriar. Isso aí é coisa fina!

Choro poliglota traduzido em “Língua Brasileira”

A música colorida da estreia de André Parisi

POR RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO

Dois amigos, um chega ao escritório de trabalho pabulando de sua mais nova aquisição chorística. Coloca-o para tocar, gabando-se de sua recente descoberta e o outro imediatamente aprova a beleza anunciada pelo primeiro, que havia lido uma belíssima resenha do Tárik de Sousa na CartaCapital e, sem pestanejar, encomendou o disco pela internet, caminho cada vez mais natural hoje em dia, numa São Luís que padece da falta de lojas de discos e livrarias.

Era Língua Brasileira, do jovem clarinetista André Parisi, disco independente lançado em 2011 e distribuído pela Tratore. Os dois amigos, também colegas de trabalho – parece óbvio e/ou redundante, mas são duas coisas diferentes, diga-se –, ficaram ali, no escritório, trabalhando e ouvindo o disco em som ambiente. Ao fim, play novamente e assim até a hora do almoço.

O regional Língua Brasileira, que acompanha André Parisi (em pé) ao tocar a homônima

“Surgiu o nome, a partir da ideia de que não falamos mais a língua portuguesa; e, na música, os lundus, maxixes e polcas também compõem uma nova linguagem musical, a língua brasileira”, explica Filosofando num boteco, curto texto no encarte do disco dando conta da urdidura do mesmo. Por ali também cabem baião, frevo e sambas, tocados em modo choro, tudo ali desde sempre, tudo soando tão novidade.

Conclusões de ambos: fazia tempo que não ouviam um disco inédito e, ainda por cima, de um jovem músico, tão bom, tão arrebatador.

Para o segundo, o primeiro tinha toda razão ao propagandear sua aquisição choro-fonográfica, de fato, um achado da “arqueologia musical contemporânea”, por tudo que esse disco traz de extraordinário. Os dois amigos, o leitor já percebeu faz  tempo, eram os autores deste texto, postado quase simultaneamente em seus blogues. Mas voltemos à Língua Brasileira.

Um repertório autoral e inédito, nos dando a sensação de grandes clássicos; daí ficar bem clara, até aos ouvidos menos atentos, uma pegada moderna, de substância tradicional. Algo raro nos discos de música instrumental brasileira. Coisa que alguns até se arriscam a fazer, mas, ou caem no tradicionalismo repetitivo, sem nada de novo, ou escorregam num vanguardismo sem alma, sem substância, até com certo virtuosismo, mas sem tocar ou revelar a própria identidade. Na maioria das vezes são acometidos, como diria Nelson Rodrigues, de uma síndrome de vira-latas, fuçando acordes em busca de ser algo que não são, ou exibindo-se como maratonistas, narizes empinados, as mãos capazes de tocar não-sei-quantas notas e/ou acordes por segundo.

Definitivamente isso não é o que ocorre em Língua Brasileira. André Parisi, jovem e exímio clarinetista, mostra saber equacionar bem essa natureza da cultura brasileira em permanente e intensa transformação, apresentando- nos um disco com alma e idioma brasileiro, naquilo que ele tem de mais original, a multiculturalidade. Um disco de sonoridade límpida, quase transparente e ao mesmo tempo colorida. Lúdica. Lúcida. Lírica.

A este par dá a impressão de um lindo vitral multicolorido em forma de música – mais precisamente de choro – no qual é possível perceber todas as cores, ou seria todas as sonoridades, tomando os ouvidos de agradável sensação e o coração de aprazível sentimentalidade. A música de André Parisi – ele assina todas as composições e arranjos – é mais colorida que a fotografia e design de Fernando Angulo, que emoldura o rapaz barbado e sua clarineta na capa, contracapa e encarte – ali onde aparecem Léo Nascimento (violão oito cordas), Dado (flauta e saxofone), André Kurchal (pandeiro), Júlio César (cavaquinho) e Marcos Cruz (violão sete cordas), regional que entra em campo sob o comando de nosso clarinetitular. Também falam a Língua Brasileira Osvaldinho da Cuíca (competência e beleza no instrumento que lhe dá sobrenome), Charlie Flesch (pandeiro), Felipe Soares (sanfona) e Ruy Weber (direção musical).

Com o mérito que lhe confere o título informal de “embaixador do Choro no Maranhão”, um dos autores deste texto recebeu, da assessoria do artista, o disco, em sua residência. Muito justo!

Neste domingo (4), às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz),  ele compartilha com os ouvintes do Chorinhos e Chorões este Língua Brasileira. Certamente será um excelente programa, pelo talento apurado de quem fala e toca, sem constrangimento algum, a nossa pluralíssima  Língua Brasileira da Música, que também pode se chamar de Choro – ambos assim mesmo, em maiúsculas. E nesse território amplo, Parisi se revela um grande poliglota.

Sócrates, brasileiro

Ontem fui ao Chorinhos & Chorões, como entrega a foto acima, em que apareço com o titular do programa Ricarte Almeida Santos e os compositores Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha. A tríade foi entrevistada pelo primeiro, divulgando o show Rosa Secular II, que apresentam sábado que vem (10), às 21h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais).

O show é mais ou menos uma reprise de Noel, Rosa Secular, que apresentaram ano passado e, a pedidos, no comecinho deste ano – e que está concorrendo na categoria “melhor show” no Prêmio Universidade FM, a maior premiação da música produzida no Maranhão.

Digo mais ou menos por que, desta feita, além de Noel Rosa também serão homenageados outros bambas centenários, Assis Valente, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago e Nelson Cavaquinho, além dos saudosos e eternos maranhenses Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil, Dilu Mello, João Carlos Nazaré e Lopes Bogéa. O show contará com as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro, como eu já disse aqui.

Mas não é disso que quero falar: ao adentrar o estúdio da Rádio Universidade FM ontem, a primeira notícia que recebi foi bastante triste: a subida (ontem, 4) de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, vulgo Dr. Sócrates (1954-2011) – avesso a computadores em fim de semana, salvo raras exceções, não fui atrás de ler uma linha sobre o assunto e escrever isto aqui é a primeira coisa que faço nesta manhã de segunda-feira, após o Corinthians ter conquistado seu quinto título nacional (também ontem, 4).

Um jogador cerebral. Um dos fundadores, em plena ditadura brasileira, da Democracia Corintiana, que levou também para dentro das quatro linhas a luta pela redemocratização do país. Em campo ou fora dele, Sócrates nunca deixou de pensar.

Participou de duas copas do mundo, em 1982 e 86, sem ter vencido nenhuma. Azar das copas! Sócrates era a tradução humana da frase-pergunta que abre Catatau, o romance-ideia de Paulo Leminski: “que flecha é aquela no calcanhar daquilo?” Quem o viu jogar ou viu videotapes – dá um google aí no youtube agora! – sabe do que estou falando.

Colunista da CartaCapital, comentarista da TV Cultura, apresentador do Canal Brasil, o paraense era do tempo em que o esporte bretão e a mídia não fabricavam ídolos milionários da noite para o dia. Talvez por isso – ou não – ele tenha se dividido entre o futebol e a medicina. E depois ocupado os meios de comunicação de forma crítica – no último canal, nem sei se seu programa chegou a ir ao ar, gestado já em meio às complicações de saúde que o matariam ontem (4).

Em meio à geral, em geral acrítica, de torcedores, jogadores, dirigentes, cartolas e outros, Sócrates era voz dissidente, que despejava críticas e elogios a quem os merecesse, sendo ácido ou doce, conforme a necessidade. Não erraram seus pais quando batizaram-no com nome de filósofo.

Uma grande perda para o futebol e a inteligência nacionais, num dos raros casos em que essas duas categorias conseguem se conciliar. Descanse em paz, Doutor Sócrates! E que seu exemplo – necessário – possa ser seguido por mais gente por aqui.

Em sua memória e homenagem deixo a sinfonia de pardais abaixo, que ouvi e fotografei hoje pela manhã, antes de sair de casa.

P.S.: atualizo o post às 13h23min para recomendar, sobre o assunto, a subida do doutor, três belos textos: dois de Ronaldo Bressane e um de Xico Sá.

P.S.2: e às 8h55min do dia 6, este de Marcelo Montenegro.