Quase crônica em comentário a telefonema de ouvinte a rádio AM

O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010
O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010

 

Em comentário em rede social que cito de memória, Bruno Azevêdo afirmou, certa vez, que telefonemas a rádios AM dariam bons contos. Ou crônicas, já não lembro. Tão bons que bastaria gravar e transcrever as ligações e publicar. Escriba de raro talento, ele tem razão.

Como se o trânsito já não me estressasse o suficiente, normalmente dirijo ouvindo AM. Vez por outra sintonizo uma FM, a depender do horário, da qualidade da música tocada e, o que quase sempre enseja a mudança, das opiniões reacionárias propagadas pelas amplitudes moduladas: enojam-me mais as de certos colegas radialistas que as de ouvintes em geral.

O fato é que, hoje pela manhã, enquanto dirigia, após ouvir diversas notícias entre as quais as dos assassinatos de um vereador em Santa Luzia, domingo, e de um estudante, durante um assalto a ônibus na capital, ontem, o telefone começou a ser usado pelos ouvintes para as esperadas colheradas no angu.

No caso, a defesa da redução da maioridade penal é uma espécie de unanimidade burra, como advertiria Nelson Rodrigues. O ouvinte começa seu alô dizendo o nome e o bairro em que mora, depois saúda o locutor e os ouvintes da rádio e do programa. A certa altura da ligação, ouvimos um “eu sou policial também”. Depois emenda com um “não estou incitando a violência” para finalmente destilar sua opinião – veneno que ninguém pediu.

Antes de desligar, ameaça a torto e a direito: “não nasci com farda na costa nem tenho paixão por emprego: comigo é elas por elas. Adolescente vagabundo que vier se meter com soldado Carlos vai levar” – omiti o nome real do policial, mas o programa tem grande audiência, então é capaz de os poucos mas fiéis leitores o saberem.

Não culpo Carlos por sua postura pública. Embora ele não tenha dito na ligação se é policial civil ou militar, disse que a profissão “é de risco”. Neste aspecto ele sabe o que fala. Ademais, na hipótese de ser militar, repete a opinião dos hierarquicamente superiores, incluindo seus representantes na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Feito Carlos, grande parte dos que defendem a famigerada medida apenas repete clichês surrados ouvidos aqui e acolá. Desconhecem, por exemplo, estatísticas que dão conta de que cerca de 1% dos homicídios são cometidos por pessoas com 16 e 17 anos. Ou seja: você não soluciona um problema e, de quebra, aprofunda outro, gravíssimo, inchando ainda mais os superlotados locais de privação de liberdade do falido sistema penitenciário brasileiro.

A raposa e as urnas

[letra pra um samba de breque e ocasião, que permanece sem melodia. Escrevi por conta deste episódio e o título me veio, óbvio, inspirado no saudoso Reginaldo Rossi]

 

Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)
Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)

Vocês se lembram por que
O urubu ficou com raiva do boi
Mas a raposa tá contente
Eu vou contar por que foi

Um amigo do rei ganhou
Uma licitação
Pra cuidar de urna eleitoral
(num curral)
Lá no Maranhão

É muita cara de pau
Um amigo da família
Vestir pele de cordeiro
Pra beneficiar a matilha

Refrão

As urnas vão
De ferry atravessar a baia
E o Maranhão continua
A ser notícia ruim todo dia

É tanta água
Mas não mata minha sede
Agora além do ferry (e da lancha)
A urna também é do Cantanhede

Nossa Senhora das Cabeças Cortadas

Mais um petardo certeiro de Carlos Latuff sobre a crise no sistema penitenciário maranhense. Acompanhe notícias sobre o assunto no site da SMDH.

Carlos Latuff

Carlos Latuff fez o desenho abaixo para a capa da próxima edição do jornal Vias de Fato. Diante do quadro caótico em que se encontra o Maranhão, resolvemos publicá-la antes: hoje Conectas, Justiça Global e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) encaminharam carta a Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, solicitando intervenção federal em Pedrinhas.

Mais uma vez o cartunista é preciso ao traduzir em seu traço as cotidianas violações de direitos humanos em nosso país.

A violência artística de Carlos Latuff

“A função do artista é violentar”. A frase do cineasta Glauber Rocha que serve de epígrafe ao blogue de Carlos Latuff traduz seu exercício de ler o mundo através dos traços e cores de suas charges, publicadas por aí, o artista ainda mais conhecido fora que em seu pobre Brasil – triste do país que não sabe reconhecer e valorizar seus artistas.

Carioca nascido em 30 de novembro de 1968, o chargista é um cronista do cotidiano, com a pena mais afiada e o olhar mais aguçado que o de muita gente por aí, sobretudo os que ocupam cargos e funções nos podres poderes – o poder, propriamente dito, e a mídia.

Latuff come pelas beiradas. É na imprensa alternativa e sindical, entre jornais nanicos e panfletos dos movimentos sociais que ele crava suas denúncias, não sem um quê de ternura e beleza, orientando-se pela máxima do revolucionário. Tem ilustrado e participado de momentos cruciais da história recente – primavera árabe, derrubada da ditadura egípcia, Pinheirinho, Copa do Mundo no Brasil etc. Já perdeu a conta de em quantas publicações infiltrou suas obras de arte e uma delas protagonizou talvez o primeiro caso de asilo artístico no Brasil: Por uma cultura de paz, charge de sua autoria que retrata um homem negro crucificado executado pela polícia, teve sua retirada solicitada por um político filho de militar e ganhou abrigo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Sem formação acadêmica, apenas com o “segundo grau completo”, como ele mesmo diz, o desenhista formou-se observando as ruas, sua cidade maravilhosa natal, o Brasil e o mundo que roda a trabalho, terrenos mais que férteis em se tratando de matéria prima para o seu fazer artístico e político.

“Artivista”, cravei uma vez referindo-me a ele. Já admirava e acompanhava seu trabalho e acompanhava quando pintou a oportunidade: a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) realizou, em 2012, com algumas entidades parceiras, uma Campanha de Combate à Tortura e tivemos a honra de convidá-lo a desenhar o cartaz (a imagem ilustra a capa desta agenda).

Por que Latuff não é apenas talentoso. É também um artista comprometido com a luta dos menos favorecidos, despejados, indígenas, quilombolas, sem-terra, vítimas dos megaprojetos e megaeventos, vítimas da polícia, crianças e adolescentes, idosos, mulheres, LGBTs. Em suma, um artista comprometido com a luta por e a efetivação dos direitos humanos na vida das pessoas.

Cada um luta com as armas que tem. Canetas na mão e ideias na cabeça, eis as de Latuff. No ano em que a SMDH completa 35 anos de luta em defesa da vida, é motivo de orgulho para nós, presentear sócios/as, parceiros/as e amigos/as com esta antologia latuffiana, imagens pinçadas de um ano especialmente trágico para os direitos humanos no Brasil.

Homenagem – Especialmente para esta Agenda 2014, Latuff desenhou o saudoso Celso Sampaio, assessor jurídico da SMDH, falecido ano passado, também admirador de seu trabalho.

[textinho que escrevi pra Agenda 2014 da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos]

A obra de arte no asilo e a direita reaça nas ruas e gabinetes

A gente morre e não vê tudo. Roubei o texto abaixo do facebook de Jotabê Medeiros, um dos melhores jornalistas deste país.

É sobre a censura perpetrada ao judiciário carioca por Bolsonarinho, filho vocês sabem de quem, por conta de uma obra de arte (sim: obra de arte!) de Carlos Latuff, um dos melhores desenhistas deste país.

Trouxe o texto para cá por achar que o assunto merece debate e que podemos contribuir com a difusão desta informação. Hoje é uma obra de arte, amanhã o que será? Hoje censura. E amanhã? Tortura? Tempos sombrios vive o Brasil…

A obra de arte de Carlos Latuff censurada no judiciário carioca

O desembargador Siro Darlan, do Rio de Janeiro, concedeu hoje o que talvez se configure como o primeiro caso de asilo a uma obra de arte.

Darlan foi proucrado pelo juiz João Batista Damasceno, da 1ª. Vara de Órfãos e Sucessões, com um caso desesperador: decisão do TJ do Rio de Janeiro determinava um prazo até o meio-dia de hoje, quarta, para a retirada de seu gabinete da charge Por uma cultura de paz, de Carlos Latuff. A censura foi motivada por um pedido do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), filho do deputado federal Jair Bolsonaro – ambos conhecidos não exatamente por seu espírito democrático.

A charge de Latuff está enquadrada no gabinete e mostra um PM atirando com um fuzil em um homem negro crucificado.

O magistrado decidiu transferir a obra para a sala do desembargador Siro Darlan, pois lá a censura não tem efeito. O desembargador diz que promoveu “asilo a uma obra de arte” e que “quem alguém estiver insatisfeito que vá ao presidente do Superior Tribunal de Justiça reclamar”.

O deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), que pediu a censura ao TJ, vai encaminhar denúncia à corregedoria do tribunal. O deputado Bolsonaro chegou a divulgar em seu site oficial um modelo de ação indenizatória para os policiais militares do Rio que se sentissem ofendidos com a obra de Latuff, estimulando retaliação.

No Facebook Latuff comemorou o “asilo artístico” e relatou ameaças sofridas de policiais militares ao juiz Damasceno, que se disse favorável à desmilitarização da PM, pois “a política de segurança pública militarizada tem como alvo os pobres e excluídos, ‘inimigos eternos’ sujeitos ao extermínio”.

A desgraça, o traço e o riso

Se há um povo que aprendeu a rir das próprias desgraças é, sem dúvida, o brasileiro. Especialista em nos fazer rir dessas e refletir sobre essas mesmas desgraças: Carlos Latuff, sempre referenciado como gênio por este modesto blogue.

Ao longo dos próximos 12 meses, a duração de seu mandato, o pastor Marco Feliciano (PSC/SC) têm apenas dois significados na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados: um retrocesso sem precedentes no histórico da citada comissão (uma jovem nascida em 1995) e um prato cheio para o trabalho de humoristas, cartunistas, chargistas e outros istas (não cabem aqui racistas e fundamentalistas: estes tomaram de assalto a CDHM).

Violência, alienação e facebook

Nos últimos dias tenho visto fortemente uma campanha grotesca, sobretudo no facebook, em defesa da redução da maioridade penal e, em tom debochado, perguntas sobre onde estariam os defensores de direitos humanos, que supostamente não aparecem quando as vítimas de homicídios são policiais.

A redução da maioridade penal não é a solução para a violência, nem mesmo para minimizá-la. Começar a condenar severamente adolescentes aos 16 anos despertará, sem tardar, daqui a alguns anos, a vontade de reduzi-la, a maioridade penal, para 14, 12, 10 anos e assim sucessivamente. Em breve, cagar nas fraldas seria crime, passível de punição do bebê.

Os que defendem a redução da maioridade penal são, em geral, contra a política de cotas; é mais fácil punir quem também é vítima que atacar as reais causas do problema. Entupir celas de presídios com jovens a partir de 16 anos faria o sistema penitenciário cumprir ainda menos sua função primordial: a de ressocializar quem passa (e sobrevive) por ali.

Quem defende a redução da maioridade penal também é, em geral, a favor da pena de morte. Ora, já não é o que está acontecendo? Só não aos moldes de filmes americanos, onde se aplicam o fuzilamento, a cadeira elétrica, a eutanásia. Ou, em épocas mais distantes, o enforcamento ou a guilhotina. Em praça pública, de preferência, para aumentar a audiência e servir de exemplo a outros “bandidos”, “marginais”, “vagabundos”, que seriam, hoje em dia, digamos, os usuários de crack com seus olhares vidrados, em qualquer retorno ou semáforo.

Em suma, reduzir a maioridade penal não é solução para nada. Por outro lado, o discursinho fajuto de que “os direitos humanos só defendem bandidos” é pra lá de surrado. Repetido à exaustão por uma mídia que compactua com a opinião de que se deva reduzir a maioridade penal ou instituir a pena de morte no Brasil, agora é copiado indiscriminadamente por quem nem sabe que “os direitos humanos” não são uma entidade abstrata. O que são os direitos humanos? São os direitos de pessoas como este que vos escreve, vocês que me leem, moradores de rua, doutores, padres, policiais “que estão contribuindo com a sua parte para o nosso belo quadro social”.

O que muita gente esquece é que moradores de rua, mendigos e mesmo os ditos bandidos também são gente. Igualzinho a quem preconceituosamente torce o nariz e acha que matar quem dorme debaixo do viaduto é solução. Que acha normal a polícia acordar quem dorme no frio, ao relento, a base de cutucões de cassetetes, chutes de coturno, balas (de borracha ou não) e spray de pimenta.

Sabem por que “os direitos humanos”, no caso, as entidades de defesa dos direitos humanos, aprendam, ó preconceituosos!, aparecem quando um jovem negro é assassinado? Por que em geral as circunstâncias são “misteriosas”, o crime é cometido de forma covarde e brutal e o defunto acabará virando mera estatística, às vezes nem isso. Por ele apenas a família, quando muito, às vezes sem a (in)formação necessária para reivindicar seus direitos, seja a reparação (a vida de um filho, tirada, nunca será recuperada) e/ou a punição do(s) agente(s) responsável(is). Policiais por outro lado têm suas associações, sindicatos, o apoio da mídia, sobretudo a que empunha cassetetes em programas sensacionalistas baratos (apesar dos caríssimos patrocínios), além do corporativismo e da impunidade vigentes.

Uma imagem vale mais que mil palavras. Disse até aqui pouco mais que a metade disso, embora não tenha dito tudo. Resumindo, deixo-lhes o sempre genial Carlos Latuff, que traduz perfeitamente toda a hipocrisia vigente, do sistema, da mídia e dos alienadinhos do facebook.

O acarajé em tempos de copa

Charge de Carlos Latuff sobre o episódio gaúcho

Na madrugada de hoje ouvi em um telejornal que baianas serão impedidas de vender acarajés próximo a estádios durante a Copa do Mundo que terá o Brasil como sede em 2014.

Imediatamente lembrei-me da polícia gaúcha partindo para cima de jovens que protestavam contra a privatização de espaços públicos em Porto Alegre. Resumo da ópera: a prefeitura cede praças para a Coca-Cola administrar e a mais famosa marca de refrigerantes do mundo faz alguns chafarizes, instala um mascote inflável da copa e lucra (bastante) em cima disso.

Não tenho detalhes da proibição da venda de acarajés nas proximidades de estádios baianos, se já ocorre, se vai ficar para quando a Copa chegar. Escrevo aqui com base no que ouvi na tevê, ainda meio grogue de sono, enquanto escovava os dentes ou passava uma água no rosto ou arrumava qualquer outra coisa.

Outra coisa em que pensei foi que a proibição do acarajé certamente vai favorecer as redes multinacionais de fast food, que certamente poderão instalar barraquinhas padronizadas, vendendo comida padronizada para gente padronizada. Ou vocês acham que gente fora do padrão, econômico principalmente, vai ter chances de chegar aos estádios ou ao menos perto deles?

A Copa do Mundo no Brasil não será uma copa para os brasileiros, ou ao menos não para os brasileiros médios, não para os que Lula e Dilma tiraram da miséria e fizeram ascender à classe média. Os ingressos supercaros deverão fazer com que muitos aficionados por futebol continuem assistindo ao esporte como se a copa fosse na África do Sul, no Japão, nos Estados Unidos, na Espanha ou em qualquer outro lugar do mundo: pela televisão. Brasileiros nos gramados e arquibancadas serão os jogadores da seleção, a comissão técnica, autoridades e celebridades; fora, próximo dos estádios, se muito, flanelinhas, se mesmo estes não forem também importados. Colados à tevê, torcendo para o Brasil resolver de vez o trauma de 1950, os outros quase 200 milhões, não poucos já mandados para longe dos estádios durante suas construções e reformas.

Por último e não menos importante, na verdade a primeira coisa em que pensei, de que lembrei: para que diabos servem títulos como o de patrimônio cultural imaterial disso e daquilo outro? Se não servirem para proteger patrimônios como o ofício das baianas do acarajé em tempos de copa servirão para nada.

Privatização gaúcha dos espaços públicos e proibição baiana do acarajé têm entre si mais que “meras coincidências”

Entrevista: o artivismo de Carlos Latuff

Carlos Latuff é um artista contemporâneo fundamental. Incomoda fazendo arte. Faz arte incomodando. Quer transformar as pessoas, não nega. E assim, transformar a sociedade, torná-la melhor. É mais conhecido fora que no Brasil. Tem incomodado ditaduras no norte da África. Aqui incomoda a polícia. “A violência policial é um tema tabu”, diz ele que já foi levado a delegacias por pautar o assunto em seus desenhos.

Grande honra tê-lo chamado para desenhar o cartaz da Campanha de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e organizações parceiras do Comitê Estadual de Combate à Tortura:

Vejam a seguir entrevista que o artista deu ao Globo News em Pauta, onde comenta estes e outros assuntos.

Carlos Latuff contra a tortura

Nem lembro quando e como conheci o trabalho de Carlos Latuff. Provavelmente a primeira lembrança que tenho de um cartum seu é a famosa imagem abaixo, em que o jornalista Vladimir Herzog aparece enforcado vestindo uma florida camisa de turista tomando um coquetel (ou caipirinha ou “refresco”) com aquela fruta espetada na beirada do copo, enforcado por um cinto, o suicídio inventado, paródia da talvez mais conhecida foto do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura. Aludia ele ao episódio em que a Folha de S. Paulo afirmara que a ditadura brasileira não passara de ditabranda.

Latuff é um gênio! Menos conhecido no Brasil que fora dele, nem sei dizer se infelizmente. Lá fora tem cumprido utilíssimo papel ao fazer críticas bem humoradas com seus traços e cores a diversos acontecimentos políticos. De sua arte também não escaparam episódios nacionais como o massacre de Pinheirinho, em São Paulo, e a ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, apenas para citar alguns dos mais recentes. Quem quiser saber e ver mais do trabalho do rapaz, basta acessar seu blogue, o dele, digo.

Em março passado, mais precisamente dia 22, quando se completaram cinco anos do assassinato do artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por policiais militares em 2007, Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA), Ouvidoria de Segurança Pública e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) lançaram Campanha de Combate à Tortura.

Dias antes, fiz contato com Latuff, cujo compromisso com causas e ideais nobres eu já conhecia. Um e-mail e alguns telefonemas depois, ele me encaminhou a bela arte do cartaz da Campanha, que abre este post e eu já havia publicado em alguns lugares.

Hoje é Dia Mundial de Apoio às Vítimas de Tortura. Roubo do perfil do jornal Vias de Fato no facebook a imagem abaixo, que o carioca desenhou há dois anos. A imagem permanece atual: infelizmente a tortura ainda é prática recorrente em nosso país. É preciso mudar este quadro, urgentemente!

Cinco anos do assassinato de Gerô serão lembrados hoje

Na data em que se celebra o Dia Estadual de Combate à Tortura será lançada campanha

O artista Carlos Latuff assina a identidade visual da campanha que será lançada hoje

Entidades que compõem o Comitê Estadual de Combate à Tortura (CECT-MA), a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA), a Ouvidoria de Segurança Pública e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), lançam hoje (22) uma Campanha de Combate à Tortura.

Seu primeiro ato será uma panfletagem no Terminal de Integração da Praia Grande e arredores. “Aquele terminal foi um dos palcos da tortura sofrida por Gerô, é simbólico fazermos algo ali”, afirmou a psicóloga Cinthia Urbano, da SMDH. Um ato previsto para às 18h no local, foi cancelado, por motivos de força maior, segundo a assessoria de comunicação da entidade. Diversas outras atividades estão previstas até dezembro, quando se encerra esta etapa da campanha.

O artista popular Gerô foi torturado até a morte por policiais militares

A lembrança do assassinato de Gerô é justificada: o artista popular Jeremias Pereira da Silva foi torturado até a morte por policiais militares, na tarde de 22 de março de 2007. Os PMs, supostamente, teriam “confundindo”-o com um assaltante. Hoje, data de lançamento da campanha, o crime completa cinco anos.

Debate-papo – Às 19h30min o Papoético cede seu privilegiado espaço de debates sobre arte e cultura ao tema. Um filme sobre a temática será exibido e, em seguida, uma roda de conversa com Cinthia Urbano e a advogada Joisiane Gamba, também da SMDH, tomará o espaço do Chico Discos, sebo-bar localizado na esquina das Ruas Treze de Maio e Afogados, no Centro da capital maranhense (no segundo piso de um casarão, sobre o Banco Bonsucesso).

O Papoético é realizado todas as quintas-feiras no espaço, desde novembro de 2010, organizado pelo jornalista e poeta Paulo Melo Sousa. A entrada é franca. (Da Assessoria de Comunicação da SMDH)

Pra não dizer que não falei de big brother

[Textinho nosso pro Vias de Fato de janeiro, já nas bancas]

CIRCO DOS HORRORES

POR ZEMA RIBEIRO

São Luís, capital do Maranhão. Local e data a escolha dos leitores e leitoras. Engarrafamento. Um motorista joga uma embalagem plástica pela janela. Em outro horário e local, outro motorista para no meio da pista, mesmo havendo acostamento. Pouco se importa com a fila de carros que se forma atrás de seu veículo. Em frente a uma escola, um grupo de crianças deseja atravessar a avenida. Parecem contentes com o fim de mais um dia de aulas, o sol a pino, a fome ao voltarem para casa. Uma delas resolve por o pé na faixa, como a sinalizar aos motoristas o desejo de chegar ao outro lado da via. Quase tem o pé esmagado por vários carros.

Chove e os condutores não reduzem a velocidade. Pedestres, espremem-se sob a proteção insuficiente do que deveria ser um abrigo no ponto de ônibus. A água suja lhes molha as roupas. Ouvem-se alguns gritos, palavrões, mas xingar, dá em nada, os motoristas estão “protegidos” por seus vidros fumês e ares-condicionados.

Um(a) motorista aciona rápido o botão do vidro elétrico de seu veículo (novo), que acabou de parar em um semáforo. Prefere isolar-se do contato com a criança ou o adolescente – um ser humano, enfim – que lhe pede para limpar os vidros em troca de uma moeda. Apesar do barulho infernal proporcionado pelo ronco dos motores – embreagens cerradas mesmo em terrenos planos –, o trânsito, enfim, àquela hora, mesmo com o vidro fechado, é possível ouvir o comentário de condutor e carona acerca de “comprar droga”. “Tou com fome, é para eu comer”, tenta argumentar o “de menor” – como os do interior do veículo e os dos interiores dos veículos de comunicação tratam os filhos de “gente pobre” –, embora a música (ruim) e o barulhinho (bom) do ar-condicionado lhes impeçam de ouvi-lo.

Uma “autoridade” (branca) destrata um vigilante (negro) na entrada de uma repartição. Ele engole em seco, nada diz. Mesmo tendo razão na advertência que fizera à primeira.

Uma música de qualidade duvidosa é emitida por caixas de som em um estabelecimento comercial. É uma loja de confecções. Além da péssima música, em volume ensurdecedor, vendedores batem palmas rente aos ouvidos dos passantes. Adiante, outra loja toca música tão ruim quanto. Na verdade, um restaurante. Um homem na porta anuncia pratos baratíssimos. Aos gritos. A depender do estabelecimento, podem estar vestidos de palhaços ou ter bundas postiças – desprovidos de qualquer graça. A música ruim é ubíqua, tanto faz venderem roupas, comidas, eletrodomésticos, utilidades do lar ou qualquer outra coisa. Se a loja vende aparelhos de som, várias músicas ruins saem de vários equipamentos (escapamentos?). De unanimidade só a “qualidade” da “obra” (sinônimo de excremento) veiculada.

A mesma música exalada por porta-malas a céu aberto, ensurdecendo antes a vizinhança e os “malas” que depois sairão cantando pneus anunciando seus dirigires embriagados. Mesmo que leis proíbam coisa e outra. Adiante, na base do “sabe com quem está falando” e algum trocado, o herdeiro, ainda que de terceiro grau (de parentesco, não de formação) de alguma autoridade (política, policial, jurisdicional ou outra) é liberado pela blitz, obviamente sem ter sido submetido ao teste do bafômetro.

Mais adiante, próximo a outro bar, outro motorista, sem qualquer gota de álcool no sangue, atropela um gato. É noite e o felino morre imediatamente. O condutor ouve algum barulho, mas não se importa. Talvez não se importasse mesmo em se tratando de um ser humano.

Um homem que bebe nesse bar, munido de um saco plástico, segura pelo rabo o gato morto e deposita-o no canteiro central. Lava as mãos e torna a entornar seus goles, despreocupado. Noutra mesa, um grupo comenta a rebelião no presídio, o que a tevê do recinto havia acabado de exibir. “Bandido tem mais é que morrer. Um bando de come-e-dorme, vivendo confortavelmente à custa do Estado”, bradou um mais eufórico, batendo o copo recém-esvaziado na mesa de plástico. Sua risada cínica e sádica fez mais barulho.

A maior obra da prefeitura é uma árvore de natal, metáfora perfeita para a dilapidação dos recursos públicos: passado o período, a árvore foi ao chão. A grande marca do governo é a propaganda: anuncia mesmo o que sua gestão não fará e/ou continuará adiando indefinidamente.

Num dia, dois jornais diferentes trazem o mesmo texto sobre o mesmo assunto. Noutro, estes mesmos jornais contam duas versões completamente diferentes acerca do mesmo acontecimento.

No trabalho, colegas comentam mais um capítulo da novela, do reality show, da minissérie. Reclamam da corrupção, do trânsito, dos preços, da vida, do trabalho. Comentam qualquer coisa acerca das eleições que se aproximam. Terminam o cafezinho e voltam a seus afazeres.

Vocês, leitores, leitoras, certamente já presenciaram e/ou ouviram falar de uma ou mais das situações descritas ao longo deste texto, cujo título tomo emprestado da música homônima de Josias Sobrinho. Quem carece da realidade fabricada e ensaiada de um Big Brother Brasil quando já se vive na realidade dura, nua e crua deste circo de horrores?