A nordestinidade de Alexandra Nicolas

Fotosca: ZR (10/12/2016)
Fotosca: ZR (10/12/2016)

 

Não há nada que Alexandra Nicolas faça sem capricho e verdade. Talvez isso explique a demora de sua estreia no mercado fonográfico, acontecida apenas em 2013, com Festejos [Acari], inteiramente dedicado ao repertório de Paulo César Pinheiro, quando já contava quase 20 anos de carreira.

Aquele disco, inconscientemente talvez, já apontava na direção do Nordeste, região à qual ela dedica o repertório de Eu vou bulir com tu, show com que tem percorrido praças públicas de São Luís. Ela faz questão de afirmar(-se), logo no início do espetáculo: “Para quem não me conhece, eu sou Alexandra Nicolas, cantora ma-ra-nhen-se!”, diz, escandindo as sílabas.

É tamanho o cuidado e o carinho com que a cantora prepara seus espetáculos que a coisa não acaba – tampouco começa – no espetáculo em si. Quem já viu, percebe isso em “detalhes” como o figurino – dela e da banda que a acompanha – o palco, a luz, o som. Parece óbvio dizer isso, mas não é.

Sua entrega no palco é total, valendo-se de recursos aprendidos em formações em canto – no que a formação acadêmica em fonoaudiologia certamente ajuda –, dança e teatro. O verbo-mote do show, do título da música de Antonio Barros e Cecéu, é traduzido ao longo do espetáculo, quando ela bole com músicos, com público, com o marido-produtor, dedicado, jogando nas 11, atento a cada detalhe, vendendo discos, trabalhando desde muito antes e até muito depois do show, para que tudo aconteça com perfeição.

Era a sexta apresentação da temporada, espécie também de testes para o repertório do disco. A banda, cada vez mais afiada: Wendell Cosme (cavaquinho, guitarra e direção musical), Nataniel Assunção (bateria), Wanderson Silva (percussão), Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), João Neto (flauta), Rony e Gil (vocais) – lenda viva da música brasileira, o maestro Zé Américo Bastos subiu ao palco e assumiu um teclado em Bulir com tu, quando Alexandra continuou cantando, agora dançando com Carlinhos de Jesus, outra lenda viva do Brasil. Este agradeceu a oportunidade de voltar a São Luís, lembrando a importância de Zé Américo no início de sua carreira.

Ontem (10), Alexandra transformou o Espigão Costeiro da Ponta d’Areia em pista de dança, com boa parte do público “bulindo” o esqueleto em um tapete vermelho estendido em frente ao palco – havia bailarinos profissionais para quem quisesse se arriscar, mas dançaram casais, crianças e, em determinada altura do espetáculo, o bailarino Carlinhos de Jesus desceu para dançar com a plateia. “Eu estou cumprindo minha promessa, trouxe Carlinhos de Jesus para dançar com vocês”, declarou Alexandra, após anunciar a participação especial – ele protagoniza com ela o videoclipe de Bulir com tu, primeira música de trabalho de seu novo disco, a ser gravado e lançado ano que vem.

Com seu carisma e bom humor, Alexandra Nicolas provou, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, que todo mundo tem o direito de ser feliz. E quem passou pelo Espigão na noite de ontem o foi, ao menos na cerca de hora e 15 minutos de sua apresentação. 10 de dezembro é também o dia do palhaço e ao cantar Leque moleque (Alceu Valença), ela trocou o “Valença-ça” da resposta à pergunta, na letra: “e o palhaço quem é?/ Alexandra!”.

Outros destaques da noite foram Maria, Mariazinha (Aloísio Ventura), Espumas ao vento (Accioly Neto), Forró do beliscão (João do Vale/ Ary Monteiro/ Leôncio), O segredo do coco (João Madson) e, como o Maranhão se espraia entre o Nordeste e o Norte, numa deliciosa “confusão” geopolítica e cultural, No meio do pitiú (Dona Onete) e o Carimbó do macaco (Pinduca), a saideira, em que botou a banda para tocar – e Carlinhos de Jesus para dançar – a música paraense em ritmo de reggae, samba e arrocha. “Me arrocha, Carlinhos! Martin, eu te amo!”, declarou, para diversão da plateia.

Alexandra Nicolas promete bulir com o público em guinada rumo ao Nordeste

A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira
A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira

 

Os ritmos nordestinos já estavam presentes em Festejos [Acari Records, 2013], disco de estreia de Alexandra Nicolas, mais identificado com o universo do samba e do choro, seja pelo time de instrumentistas que a acompanha ali, bambas dos gêneros, ou pelo compositor que gravava: o repertório era inteiramente dedicado à obra de Paulo César Pinheiro.

Em temporada que inicia nesta sexta-feira (2 de setembro), às 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), o Nordeste deixa a periferia para ocupar o centro das atenções. Na ocasião, a cantora realiza o primeiro de sete shows gratuitos com que percorrerá diversas praças públicas de São Luís, além de lançar o videoclipe de Bulir com tu (Antonio Barros e Cecéu), repescada do repertório de Marinês e, já em sua voz, um hit em rádios locais e redes sociais. O videoclipe tem participação especial do bailarino Carlinhos de Jesus, que virá à São Luís para a apresentação de encerramento da temporada, marcada para 10 de dezembro (sábado), no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia.

A temporada passa ainda por Praça da Saudade (Madre Deus, 16 de setembro), Igreja de Santa Teresinha (Filipinho, 1º. de outubro), Largo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Monte Castelo, 15/10), Praça da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac, 4 de novembro) e Parquinho da Avenida Litorânea (11/11).

“Meu coração sempre bateu mais forte para os ritmos da minha região. Tenho certeza que nasci pra cantar o meu Nordeste. É bem simples, quando eu ouço meu corpo responde”, revela a cantora ao Homem de vícios antigos. “Tudo mexe e remexe aqui dentro e minha alegria e orgulho ficam estampados no rosto. Adoro o jeito de fazer música dos nordestinos. Eles são faceiros, entusiastas e compartilham alegria, abundância, conquista e até quando se fala de dor, nostalgia e saudade tem humor. E eu vivo assim, desse jeito, vendo o lado bom de tudo. E pra ser bem honesta de fato e de direito, eu me encanto com o jeito que eles falam da mulher. Ela tem cheiro de erva, tem gosto de fruta e tem a cor do sertão”, continua.

Patrocinada pela Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, a temporada servirá para mostrar este outro lado da versátil Alexandra Nicolas, mas será também um teste para o repertório do disco novo, cujo título também é Bulir com tu, a ser lançado em 2017. Ela confessa que a escolha não tem sido fácil, mas duplo sentido inteligente, de que o dial anda tão carente, tem presença garantida. Os testes, aliás, começaram no período junino: “a resposta foi forte!”, celebra.

“Escolha complicada e difícil, pela quantidade de música boa que chega pra mim. Já tenho material pra gravar disco por toda a vida. Não existe nesse mundo homem pra falar de sexo de forma mais inteligente do que o nordestino. Não tem! Primeiro o desejo, é aquele que dá água na boca e tem até forma, dá pra ver na música, é cinematográfico. Antigamente, a censura fazia com que eles arrodeassem o assunto de todo jeito e isso deu passagem para o duplo sentido inteligente, sagaz e cheio de malícia refinada, campo no qual João do Vale era rei”, afirma, citando um dos autores escalados para a seleção, ou devo dizer “bulição”? Outros nomes já definidos são os também maranhenses Betto Pereira, João Madson e Ronaldo Mota.

Outro maranhense que comparecerá é Zé Américo Bastos, com longo currículo de bons serviços prestados à música brasileira, durante muito tempo produtor de Elba Ramalho, com talento posto à prova também em discos de Alceu Valença, Alcione, Ednardo, Gilberto Gil e Vicente Barreto, outros ícones nordestinos que dispensam apresentações.

Ela conta como se deu o re-encontro: “Zé Americo, antes de maestro, é tio de minha infância, amigo do meu pai, parte integrante das festas na casa de minha avó. Papai sempre disse que Zé , era o maestro certo pra mim. A vida deu muitas voltas, até que Betto Pereira, meu amigo de fé, meu irmão camarada, repetiu essa frase de meu pai. Aí se tornou imperativo pra mim. Segui o conselho do amigo e fomos juntos até a casa dele no Rio. O encontro foi emocionante. Como tenho juízo, tomo a benção pra Zé, até hoje. Esse detalhe eu acho que já revela tudo”.

Bulir com tu, primeira música de trabalho do novo disco, vem dando a tônica do que serão disco, videoclipe, shows e as aparições surpresa em que aparece cantando, acompanhada de Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), seu diretor musical, que vem angariando inúmeras curtidas e compartilhamentos nas redes sociais – a banda que a acompanhará ao longo da temporada se completa com Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), Edson Reis (percussão), Gil Costa (vocal), Jonny Wekner (teclado), Lee Fan (sax e flauta), Nataniel Assunção (bateria), Rony Cravo (vocal) e Wanderson Silva (percussão).

“Tenho muitos mestres na vida, graças a Deus! Essa escolha eu devo a um deles: Arlindo Carvalho. É o grande culpado dessa escolha. Ele me deu de presente de aniversário em 2013 uma cópia do CD de Marinês e sua Gente, 50 anos de Forró, idealizado por Elba Ramalho e produzido por Marcos Farias em 1999, no qual Marinês faz duetos com grandes ícones da música nordestina, gente da gente. É um disco pra se ter pro resto da vida e passar de gerações pra gerações”, comenta o achado. “Ali estava o filme da minha infância, da minha vida de menina, que nasceu e foi criada na batida do forró. Lá estava meu novo xodó, Bulir com tu, que por sinal Marinês divide com o próprio produtor. Nascia ali minha frase de trabalho: “eu vou bulir com tu”, revela. É mais que uma promessa: ela bole mesmo, este repórter atesta.