Um filme é um filme é um filme

Era uma vez... em Hollywood. Cartaz. Reprodução
Era uma vez… em Hollywood. Cartaz. Reprodução

 

​Quem ainda faz faroestes hoje em dia? Quem gosta de faroestes? A revolta​​ de Rick Dalton, personagem de Leonardo DiCaprio, um ator decadente e alcoólatra, é uma das chaves para entendermos o nono filme de Quentin Tarantino, Era uma vez… em Hollywood [Once upon a time… in Hollywood, drama, Estados Unidos, 2019, 161 min.].

O diretor traça uma espécie de documentário ficcional, um falso documentário, remontando as trajetórias de Dalton e Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê, faz tudo e amigo íntimo. Estamos em 1969 e com vários papeis e alguma glória, Dalton está em vias de cair no ostracismo, quando recebe um conselho-convite para fazer westerns na Itália.

A cena em que ele chora ao relatar o enredo de um livro que lê no intervalo das gravações a uma atriz mirim, revelando o próprio destino (e o futuro que ele lhe prevê, sem que ela entenda) é tocante, ao mesmo tempo que é um dos sarros de Tarantino com a indústria, além, provavelmente, de um sábio conselho a iniciantes (ou, pior, aspirantes a celebridades fast food). A confusão entre os filmes (dentro do filme) e a vida de Dalton é ainda maior (mais real?) quando ele usa um artefato cênico (tarantinesco) para salvar a própria vida, durante o ataque de uma gangue à sua residência.

Filmes dentro do filme, Tarantino expõe as vísceras da indústria, numa grande tiração de onda. Sobra, obviamente, até para a publicidade (não só de cigarros, à moda antiga).

Coalhado de referências (e reverências, ao modo Tarantino), a começar pelo título que evoca os clássicos Era uma vez no Oeste (1969) e Era uma vez na América (1984), ambos de Sergio Leone.

Para além do cinema, estão lá gibis de Kid Colt, um personagem chamado Tex (Austin Butler), discos de Paul Revere (a trilha sonora é um espetáculo à parte), o cineasta Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa Sharon Tate (brutalmente assassinada quando grávida pela gangue de Charles Manson nos anos 1960, interpretada por Margot Robbie, num episódio reinventado por Tarantino) e Bruce Lee (Mike Moh), tornado um idiota em cena hilariante – não são poucas.

Tarantino é um iconoclasta que remonta a história a seu bel prazer para fazer grande cinema. Licença poética não é fake news, o objetivo aqui é nobre, não deseja, por exemplo, influir em resultados eleitorais, nem mesmo a votação do Oscar. Durante as quase três horas de Era uma vez… em Hollywood é possível esquecer o noticiário e o governo, ao menos os espectadores brasileiros, sem se tratar de anestesia.

No meio de tudo isso há uma cadela, que acaba tendo papel central na trama. “Quanto mais conheço o homem, mais eu gosto do meu cão”, cantaria Ataulfo Alves. “É preciso estar atento e forte”, advertiriam antigos compositores baianos. Em Tarantino, “tudo é maravilhoso”.

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Veja o trailer: