Show da Eddie coroou o já consagrado BR 135

Foto: Zema Ribeiro

 

Com 30 anos de estrada, a Eddie é menos conhecida – mas não menos importante – que seus pares de manguebit, principalmente Nação Zumbi e mundo livre s/a. Mas os meninos de Olinda já estavam na área quando o boom se deu e seguem firmes, fortes e tendo o que dizer.

No camarim, após o show da banda ontem (2), na última noite de Festival BR 135, Fábio Trummer me contou que o grupo foi convidado a gravar o disco de estreia no mesmo período em que Chico Science o fez. “Vamos lá! A gente só vai acontecer se for em bando”, vaticinava o malungo. A Eddie, com sua sabedoria, recusou: “Chico, nós ainda não estamos preparados para isso”.

Só estreariam em disco em 1998, com o ótimo Sonic Mambo. Nação Zumbi e mundo livre s/a já tinham dois discos cada uma e o vocalista da primeira já havia falecido em um trágico acidente automobilístico no carnaval do ano anterior. A pressa é inimiga da perfeição e o segundo disco só sairia em 2002, Original Olinda Style, título que bem cabe de rótulo ao som da banda, que mistura punk, rock, maracatu, ciranda, frevo, surf music e outros carnavais. Sobre este disco, uma curiosidade: a grana dos direitos autorais pela gravação de Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho) por Cássia Eller, em seu Acústico MTV (2001), ajudou enormemente em sua feitura. A música, aliás, foi um dos pontos altos – e não foram poucos – do show vibrante de ontem, um passeio por todas as fases destes 30 anos de carreira – quase 20, se contarmos a partir do debut discográfico.

Fábio Trummer (guitarra e voz), Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (trompete, teclados e samplers), Rob Meira (contrabaixo) e Kiko Meira (bateria) botaram o público para cantar, dançar e aplaudir. De Quebrou, saiu e foi ser só (de Morte e Vida, o disco mais recente, de 2015) a Veraneio (que batiza o disco de 2011), passando por Danada (de Metropolitano, de 2006), Desequilíbrio (de Carnaval no Inferno, de 2008), Sentado na beira do rio e Pode me chamar (ambas de Original Olinda Style).

Quando um fã mais afoito gritou pedindo por O Baile Betinha, Urêa retrucou, bem humorado: “você já quer acabar o show, rapaz?”. Fazia calor, Trummer deu mais um gole na long neck e agradeceu à polícia: “pelo expediente eles já podiam ter ido embora, mas ainda estão aí para garantir a segurança de todo mundo”. A programação da noite estava atrasada e ao se despedirem, lamentou, para desespero do ótimo público presente: “ainda tínhamos umas seis ou sete músicas”. Atenderam aquele pedido e não voltaram para o bis.

Em uma rede social da banda, um comunicado postado por volta de meio dia de hoje (3) anuncia a remarcação de um show em Londrina/PR para o ano que vem, em virtude de não terem conseguido “logística em tempo hábil para sair de São Luís”. O BR 135 marcou, então, o encerramento desta turnê da Eddie – não poderia haver coroamento mais adequado para ambos. Este mês a Eddie disponibilizará outro single do disco novo, a ser lançado em 2018.

Pessoalmente, Fábio Trummer é ainda mais simpático. Em seu braço esquerdo cheio de tatuagens, mostro a ela a mosca que dá nome à banda, que compareceu ao encarte do primeiro disco. Aos 47, ele entra de férias para curtir outra estreia: esperar a chegada de seu primeiro filho.

O novo som de Brasília

Foto: BR 135/Divulgação

 

A Muntchako não entrega o ouro ao bandido de cara: a princípio o show lembra uma espécie de Buena Vista Social Cover, trocadilho infame, o que não seria pouco. No palco, o trio só evoluiu ao longo de sua apresentação, ontem (2), na última noite do Festival BR 135. Não demorou para o público estar completamente entregue, dançando, aplaudindo, erguendo os braços.

Os teclados de Samuel Mota (guitarra, banjo, programação e synths) evocam bandoneons e logo um tango argentino me vai bem melhor que uma cumbia. Com Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão, samplers e voz), ele assina todas as faixas do álbum de estreia do grupo [2017], um caprichado vinil com sete faixas e produção musical de Curumin, mago cujo toque de Midas é uma espécie de certificado de qualidade – o álbum está disponível para audição e download gratuito e legal no site do Muntchako. A capa é desenhada pelo paraibano Shiko e evoca o Edy Star glam de Sweet Edy [1974], com o personagem mascarado que a estampa usando um botton com a inscrição “Temer jamais”. Não à toa o disco abre com Golpe.

Não há fronteiras ou quaisquer limites para a sonoridade do trio, convergência de experiências distintas. São três cabeças, mas a lista de instrumentos usados no disco e no palco é enorme. Na apresentação de ontem, destaque para o sample da voz da funkeira carioca Deize Tigrona, trazida virtualmente à ilha em Cardume de volume, faixa de que participa no disco – sem ela a festa não estaria completa.

Brasília não é berço apenas de escândalos políticos nem estacionou no rock brazuca oitentista.

O sistema é bruto

Foto: Zema Ribeiro

 

Musical e geograficamente o Baiana System está localizado entre a pernambucana Nação Zumbi e a carioca O Rappa. Como o nome indica, Russo Passapusso e companhia vêm da Bahia.

A sonoridade do grupo é uma salada que vai de samba-reggae, axé, pagode, rock, reggae, rap, um som urbano urgente que discute questões idem – especulação imobiliária, desigualdades sociais, racismo, trabalho – embaladas em bases de contrabaixo, guitarra, percussão, programações eletrônicas e a guitarra baiana na linha de frente. As projeções, com a máscara-símbolo do Baiana System em destaque, são outro elemento à parte, compõem o cenário mas estão para além disso.

Russo Passapusso é um showman sui generis: bota o público pra dançar, erguer os braços, fazer barulho, mas sabe que está ali para abrir cabeças, diferente da polícia que, Brasil afora, o faz a base de cassetetes, como ele mesmo disse, a frisar com um exemplo engraçado, de Salvador, em que policiais chegaram para espancar populares que estavam “fazendo a roda” e caíram na gargalhada em resposta às risadas com que foram recebidos. Ufa, foi por pouco. “Salve a polícia simpática, educada”, cumprimentou.

O vocalista e compositor se divertiu: fez a maior parte do show em frente ao palco, um nível abaixo da banda, dançando com um par de cazumbas que fazia as honras da casa. “Cadê o boi?”, perguntou ao perdê-los de vista. Várias vezes foi até o gradil cumprimentar o público, exalando simpatia.

Lançado ano passado, Duas cidades, base do repertório do show de ontem (30/11), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR 135, figurou em quase todas as listas de melhores discos do ano. Lucro (Descomprimindo) dialoga diretamente com Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga: ambos têm a especulação imobiliária como personagem central.

Eletronicamente malemolente a faixa-título retrata o abismo social entre as periferias e bairros nobres de qualquer cidade do mundo: “diz em que cidade você se encaixa?/ cidade alta, cidade baixa”, provoca, reflete, a partir da realidade soteropolitana. “Dignidade é poder trabalhar”, diz verso de Mercado, em tempos de reformas trabalhista e previdenciária sob a égide golpista. O coro de “Fora, Temer!”, estimulado por Passapusso, soou tímido.

Não houve bis. O Baiana System dá seu recado – seco, duro, preciso, direto, urgente – mas não faz charminho.

“Viver é correr riscos, poesia é risco”

O baiano Lucas Santtana se apresenta hoje (1º.), às 22h, pela primeira vez em São Luís, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça, na programação do Festival BR 135.

São sete discos lançados em quase 20 anos de carreira, álbuns bastante diferentes entre si, o mais recente, Modo Avião, não dará as cartas no repertório de hoje à noite: o set list de Balada de Lucas, nome do show, foi escolhido pelos fãs, pela internet.

Multi-instrumentista, seu nome já frequentou fichas técnicas de discos de Marisa Monte, Chico Science & Nação Zumbi, Jussara Silveira e Caetano Veloso e Gilberto Gil – é dele a flauta em Baião atemporal, de Tropicália 2 [1993], faixa que homenageia seu tio Tom Zé.

A direção musical do espetáculo é de Xuxa Levy e Lucas Santtana, que não tocará nenhum instrumento para ficar livre para dançar e interagir com o público, sobe ao palco escoltado por Dudinha Lima (contrabaixo e guitarra), Jr. Deep Drumagik (batidas eletrônicas e samples), Rafa Moraes (guitarra) e Lenis Rino (percussões e octapad).

Por e-mail, Lucas Santtana conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Edu Pimenta

 

Lucas, você acaba de lançar disco novo. Em vez de optar por fazer o show de Modo Avião, você fará um show baseado em escolha popular pela internet. É mais um dado de tua enorme capacidade de se reinventar?
​Eu só quero fazer o show Modo Avião em teatros, com as pessoas sentadas. Não faz sentido fazê-lo em festivais e casas noturnas. Como meu show mais eletrônico com o Bruno e o Caetano já estava na estrada há cinco anos, senti a necessidade de criar um show novo, com novos arranjos, outra concepção. Chamei o Xuxa Levy para dirigir o show, coisa que nunca tinha feito antes. Queria sair um pouco de dentro da minha cabeça e acho que nesse sentido foi uma abertura positiva. Até porque já tenho quase 20 anos de estrada. Então para subir num palco e cantar uma música de 15 anos atrás você tem que se reinventar, sem dúvida. Se não há mais sentido e prazer em dizer aquilo, melhor não dizer.

Você tem discos completamente diferentes em sua carreira. A reinvenção constante é uma necessidade?
​Para mim sempre foi mais uma questão de tesão e de urgência. De precisar fazer um disco de dub, ou de violão ou mais eletrônico etc. Naquele momento é aquilo que tira meus pés do chão, me faz gozar, me faz sonhar acordado.​ Sinto que preciso fazer aquilo, que é urgente para mim fazer. Não sinto obrigação de que sempre seja diferente, simplesmente é assim que meu lado artístico tem se manifestado. E pago caro por essa escolha de mudar o tempo todo. Mas é isso, tenho que fazer reverberar a minha essência. Se me desconectasse dela é que pagaria um preço muito mais alto. Viver é correr riscos, poesia é risco. Ainda mais nos dias de hoje. Viver para instigar os outros.

Você é sobrinho de Tom Zé. No que este parentesco te ajudou e te atrapalhou? Qual o tamanho da responsabilidade em carregar essa informação no DNA?
​Não me atrapalhou em nada, até porque quase ninguém sabe desse parentesco [risos]. E nunca me fiz valer dele também apesar de ter muito orgulho e pertencimento. Estudando o samba [1975] é um dos cinco álbuns mais importantes da música brasileira. Há ali pela primeira vez a simbiose da canção com o ruído de maneira harmônica​. Ao mesmo tempo um disco experimental e de cancioneiro popular. O uso de samples, ou a invenção deles, já que não existia ainda máquinas de sampler. Aquilo abriu as portas para muitas coisas que vieram a seguir, veja o disco do Rincón Sapiência [Galanga livre, 2017] que usa um sampler de Tom Zé.

Nesta apresentação você não tocará nenhum instrumento, ficando livre para dançar e interagir com o público. É possível que a ideia percorra outros festivais ou outras apresentações tuas?
​No último show com o trio eu tocava vários instrumentos. Era legal, mas isso me prendia muito ali. Tava com saudade de ficar livre para olhar no olho das pessoas, chegar mais perto delas e só me preocupar em cantar, em passar o recado. No show do Modo Avião também só tenho cantado. É como me sinto agora, pode ser que alguma hora mude de novo. Mas por hora é tudo que eu quero.

Seu show tem direção musical de Xuxa Levy, que produziu recentemente discos de Emicida e As Bahias e a Cozinha Mineira, colocando você lado a lado com o que de melhor a música brasileira tem produzido atualmente. Como você se sente em meio a essa cena?
​Orgulhoso de fazer parte de uma cena tão rica e diversificada, que só reafirma e fortalece tudo que veio antes de nós.

A seu ver falta atenção por parte dos meios de comunicação, que insistem na mesmice?
​Olhe, eu acho que basicamente falta educação no Brasil. Em todas as classes sociais. Falta diálogo e, sobretudo, maturidade. Ainda somos uma sociedade bastante imatura, e muito disso é por falta de educação. Os meios de comunicação são apenas mais um reflexo disso. Muito pior do que a mesmice é a irresponsabilidade desses meios, que vêm insuflando o ódio e as polarizações dentro dessa sociedade imatura. Os meios de comunicação só têm servido para deseducar e manipular uma massa de manobra de maneira inconsequente.

Que outros nomes você destacaria na atual cena independente brasileira?
​Todos que estão tocando no Festival BR 135 esse ano e muitos outros que não vieram esse ano, mas virão nos próximos.

 

Em Streets Bloom, seu clipe mais recente, você homenageia São Paulo, a maior cidade do Brasil. Agora chega pela primeira vez a São Luís, capital com características completamente diversas daquela megalópole. Quais as tuas expectativas?
​As melhores possíveis. De conseguir fazer um show legal para as pessoas. De trocar energia e ideias com elas. Mas, sobretudo, de fazer amigos. O que sempre mudou para mim em relação às cidades que já toquei várias vezes é que quando você faz amigos, voltar àquela cidade se torna algo completamente diferente. Em certa medida é como re-visitar parentes, entende? Tenho amigos de longa data em Recife, em Belo Horizonte, em Brasília… e voltar para tocar nessas cidades é saber da alegria de revê-los. Espero que role o mesmo em São Luís.

Quando você ouve falar em Maranhão, no que você pensa, musicalmente falando?
​As Radiolas, Tambor de Crioula, a festa do Boi​, e mais recentemente do governo do Flávio Dino, que foi apontado pela FGV como o governo mais transparente do Brasil. Precisamos valorizar tudo que é público. Isso é ser patriota de verdade.

“O produtor deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época”

“Me pegou desprevenido mesmo! Mas vou te respondendo no voo… Ó aí!”, escreveu o produtor musical Bruno Giorgi na resposta ao e-mail que lhe enviei com as perguntas desta entrevista.

O filho de Lenine ainda não tem 30 anos e já é um dos nomes mais requisitados do Brasil em sua área. Praticamente nasceu dentro de estúdios e viu produtores lendários em ação, como Tom Capone (1966-2004).

Em 2006, Bruno Giorgi abriu o estúdio O Quarto, na Urca, Rio de Janeiro, onde atua como produtor e engenheiro de som. Uma busca com seu nome na internet levará a um escultor brasileiro homônimo (1905-1993). Nosso entrevistado foi indicado ao Grammy latino pela engenharia de som de Chão (2011), disco de seu pai. Ele assina a mixagem e masterização de Ottomatopeia (2017), disco mais recente do também pernambucano Otto.

Bruno Giorgi está em São Luís ministrando a oficina Introdução à produção musical, hoje (30), amanhã (1º./12) e depois (2/12), das 14h às 17h, no Centro Cultural Vale Maranhão, na programação do Conecta Música, evento paralelo de formação do Festival BR 135.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Flora Pimentel/ Divulgação

 

Bruno, qual é efetivamente o papel de um produtor musical e quais os limites de sua interferência no trabalho de um artista?
Tudo depende do projeto a ser produzido. Há projetos em que o produtor cria toda a parte musical em conjunto com o artista. Também existem os projetos em que só cabe ao produtor gravar da melhor forma possível, com a menor interferência possível.  Isso, hoje em dia, é definido pelo artista, não mais pelo produtor.

Um produtor musical necessariamente não precisa ser músico, mas isso ajuda?
Todo conhecimento ajuda. O produtor está no meio de um diálogo entre o artista (ou a banda), músicos, técnicos e público. Para conseguir trabalhar com essa gama de profissionais, quanto mais ferramentas ele tiver, melhor.

Pelão [o produtor João Carlos Botezelli, responsável pelo lançamento em disco de nomes como Adoniran Barbosa, Cartola e Nelson Cavaquinho], Hermínio Bello de Carvalho [letrista de música popular, descobridor de Clementina de Jesus] e o escritor Sérgio Porto [assinava com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi ele quem encontrou o compositor Cartola trabalhando como flanelinha] produziram discos fundamentais, sem serem instrumentistas. São exceções?
Existem vários outros ótimos produtores que não são músicos. Esta é uma discussão interessante, inclusive. Quem é músico? É só quem toca um instrumento?

O quanto sentimento ajuda no trabalho de um produtor? Explicando melhor: cumprir o papel de produtor apenas pelo cachê resulta num trabalho menos bom que um produzido por alguém que se emocione com o trabalho do produzido?
Esta pergunta é muito boa e vai ser um dos motes da nossa oficina! Obrigado por ela. Acho que existem produtores que já chegaram em um grau de experiência que os permite trabalhar satisfatoriamente com quase qualquer projeto. No caso desta pergunta, que julgo ser bastante pessoal, respondo apenas por mim… Acho que o interesse de todas as partes é fundamental para o sucesso de qualquer material artístico. No fim das contas, o trabalho envolvido na produção de um disco é lento e muito subjetivo; é difícil conciliar projetos, pois o trabalho requer imersão… No meu dia a dia, acabo priorizando os projetos em que me sinto necessário de alguma forma e isso tem a ver, claro, com interesse. Respondendo mais diretamente: prefiro indicar algum profissional que imagino que se adeque melhor à proposta do artista se o projeto não me despertar interesse. Por outro lado… É muito difícil um trabalho não me interessar hoje em dia. A maioria das bandas e artistas que chegam até mim me conheceram através de algum projeto anterior em que trabalhei. Isso acaba fazendo uma espécie de “seleção natural”: quem me procura o faz por notar alguma afinidade estética com o que já produzi…

O barateamento das tecnologias facilitou a vida dos artistas por um lado. Por outro, pulverizou a produção. Com tanta oferta e tanta exposição, como se destacar? O produtor tem também algum papel fundamental nisso?
Não costumo pensar no avanço tecnológico como uma ameaça aos profissionais que precisam dominar alguma técnica. Também não acredito que a facilidade que veio com a tecnologia reduziu a qualidade das produções; acho o exato contrário. Tendo dito isso, acredito que só se sobressai o profissional com um trabalho consistente. Isso é difícil. Mas está muito mais fácil do que há 20 anos.

As formas de produzir e consumir música mudaram ao longo das últimas décadas: vinil, cd, download, streaming, a volta do vinil. Como você avalia esta linha do tempo?
O material base continua sendo a música. Acredito que o mercado muda, a forma de se ouvir música também muda, mas seguimos tentando fazer uma música que se conecte com o resto das pessoas no mundo. Por isto, acredito que esta mudança de paradigmas só venha como uma atualização do objeto que dá play na música e não em alguma característica desta arte. Acho que o produtor, diante disso, deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época. O meio dita pouca coisa (hoje em dia, quase nada).

Você já trabalhou com nomes importantes da música brasileira, entre os quais Lenine e Otto, em seu disco mais recente. Pode revelar aos leitores com o que você está ocupado atualmente?
Entreguei a versão física do disco novo da banda pernambucana Kalouv esta semana. Estou finalizando o primeiro disco do Deriva, projeto do Mateus Guedes, também de Recife. Mês que vem começarei o disco novo do Lenine. Esta semana também sai o disco novo do Cicero, que gravei ao lado do Pedro Carneiro.

Brilha um Estrela

Foto: Zema Ribeiro

 

Lucas é Estrela desde o sobrenome. O guitarrista paraense colocou a multidão para dançar e aplaudir, ontem (25), na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental.

É bastante jovem, pouco mais de 20 anos, mas toca como se tivesse mais tempo de experiência que de idade. Tem pose de rock star, mas é generoso: não quer o palco só pra si. O grupo que lhe acompanha, um percussionista, um tecladista e uma guitarrista que também toca banjo, se reveza na função de band leader. Todos falam, interagem com o público.

Lucas Estrela brilha e isto não é um trocadilho barato. Para além da música, o que por si só bastaria, usa uma camisa com paetês e um sapato lustradíssimo, parece que acabou de sair do engraxate, realçam-lhe o brilho.

É um homem bonito, com cabelos compridos inicialmente presos, mas que depois ele solta, balançando ao ritmo do que toca: siriá, tecnobrega, guitarrada, tecnoguitarrada, lambada. Nunca ouvi um brega de churrascaria tocado com tanta sofisticação. A sonoridade do quarteto faz o público parecer um enorme grupo de figurantes em cena de festa em filme de cineasta pernambucano com trilha sonora de DJ Dolores.

O Pará é tradicionalmente um celeiro de bons guitarristas. Lucas Estrela perpetua a tradição sendo moderno, ousado. Ano passado lançou Sal ou Moscou, seu disco de estreia. O primeiro a me falar dele foi o jornalistamigo Jotabê Medeiros, que assistiu a seu show no Se Rasgum em 2016, entrevistou-o e publicou uma matéria na CartaCapital. Quando comentei há poucos dias que o veria no Festival BR 135, o crítico musical mandou: “o garoto arrebenta”. De fato.

Ao fazer os agradecimentos, Lucas Estrela disse ter parentes no Maranhão, “metade da família no Pará, metade aqui em São Luís”. Várias pessoas na fila do gargarejo responderam ao cumprimento. Depois o artista desceu para o meio da multidão, empunhando sua guitarra, dançando e engrossando o coro de “Fora, Temer!”.

Ao anunciar o fim do show, Lucas Estrela ouviu de um ou outro tirador de onda mais exaltado: “toca Raul!” e “Calypso!”. Quando voltou para o bis, mandou: “vamos fazer mais uma. Não, vamos fazer logo mais duas” e seguiu com seu repertório autoral e dançante, cúmplice do público em êxtase do início ao fim.

Da Europa à Ilha

O grupo Quartabê se apresenta pela primeira vez em São Luís hoje (24). O show acontece às 21h30, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental – a programação de hoje na praça tem início às 19h e por ela passarão ainda os maranhenses DJ Pedro Sobrinho e Black & Tal, o paraense Lucas Estrela, além do Instrumental Pixinguinha, às 17h, na Feira da Praia Grande. A programação completa pode ser acessada no site do festival.

 

O Quartabê estreou em disco em 2015, com o ótimo Lição #1 Moacir, dedicado ao repertório de Moacir Santos. Este ano lançaram o EP Depê, também dedicado ao repertório do genial maestro pernambucano, com participações especiais de Juçara Marçal, MC Sofia, Tulipa Ruiz, Tim Bernardes e Arrigo Barnabé.

 

Após uma baixa – a saída da contrabaixista Ana Karina Sebastião –, Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete, clarone e flauta), Maria Beraldo (clarinete, clarone e sax alto), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano, o Chicão (teclados) acabaram de chegar de sua primeira turnê europeia. O agora quarteto passou por Alemanha, Áustria, Espanha, França e Portugal. Foram 10 apresentações em 22 dias.

“Rumamos para o Festival BR135, no Centro Histórico de São Luís do Maranhão! Primeira vez da banda no Estado! Estamos ansiosíssimos para chegar nessa cidade maravilhosa que é São Luís, num Festival lindão, DE GRAÇA, tão cheio de gente bacana tocando. Dia 24 (sexta)”, assim a banda anunciou sua chegada à ilha em um boletim distribuído por e-mail a seu fã clube.

Por e-mail a baterista Mariá Portugal conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O quarteto em foto de José de Holanda

Vocês estiveram recentemente em turnê pela Europa e gravaram um single na Alemanha. Como foi a receptividade do público? Este single aponta algum caminho para um novo disco?
Na verdade gravamos um single na Espanha junto com a banda Forastero, dentro do Projeto SON Estrella Galicia, depois de ter dividido o palco no El Sol, em Madrid. Já participaram deste projeto Anelis Assumpção e Tulipa Ruiz. Este single significou principalmente uma troca de vivência com a banda, o que é uma forma muito interessante de entrar no ambiente musical do lugar, bem mais profundo que apenas fazer um show e ir embora. Passamos um dia inteiro no estúdio e gravamos uma música deles, e eles uma nossa.

No primeiro disco vocês homenagearam Moacir Santos. O próximo disco seguirá a trilha das lições de um mestre? Quem será o homenageado?
Sim, já estamos preparando nossa Lição #2, que será novamente sobre um compositor brasileiro (que não podemos revelar por enquanto, mas quem for ao nosso show consegue adivinhar).

A Quartabê agora é um quarteto. Como é se adaptar à nova formação?
Sim, desde setembro somos um quarteto. Como agora não temos baixista, dividimos a função do baixo entre nós quatro – ora o Chicão faz o baixo com sintetizadores, ora Joana ou Maria no clarone com auxílio de pedais, ora eu faço no MPC. Estamos bem felizes com a sonoridade que conseguimos, que sai do formato tradicional de quinteto de jazz que tínhamos com a Ana Karina Sebastião. Creio que essa mudança abriu uma série de possibilidades estéticas bem interessantes, e que com certeza refletirão no Lição #2.

A ida de Joana para uma residência artística na Argentina ano que vem pode vir a modificar novamente a formação do grupo? Ou ainda não se pensa efetivamente nisso?
A residência da Jojô será de apenas duas semanas, mas a verdade é que já estamos acostumadas com o fato de nós quatro sermos muito ativas profissionalmente e termos projetos paralelos. Isso é uma das coisas que fazem com que a Quartabê seja a banda que é. Todos nós estamos bem empolgadas com as conquistas dos últimos tempos e a fim de fazer acontecer. Ao que tudo indica, 2018 será um ótimo ano para a Quartabê.

Vocês tocam pela primeira vez em São Luís. Quais as expectativas? Musicalmente, o que vem à sua cabeça ao ouvir falar no Maranhão?
Estamos super empolgadas! Sabemos da riqueza musical maranhense e que tem muita gente esperando pela Quartabê por lá. Musicalmente nos vêm muitos nomes como os de Mestre Antonio Vieira, Dona Teté, Papete, a geração de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, todo o mundo do Boi e do Tambor de Croula, toda a cena de reggae maranhense, Tião Carvalho, Lopes Bogéa… tantos outros. Pessoalmente, tenho uma história antiga com São Luís. Quando tinha por volta de 17 anos me hospedei junto com minha mãe na casa do percussionista Arlindo Carvalho. Aprendi muita coisa com ele e conheci vários outros músicos incríveis. Foi uma experiência inesquecível e transformadora.

E para além de musicalmente?
Arroz de cuxá, camarão seco com farinha d’água do Mercado Central e Guaraná Jesus!

Qual a base do repertório que vocês estão preparando para tocar aqui?
Será uma mistura dos nossos dois discos, Lição #1: Moacir e Depê (ambos dedicados à obra de Moacir Santos), com uma palhinha do Lição #2.

Você e Maria gravarão no próximo disco de Elza Soares. Para você, qual o significado de estar no sucessor de A mulher do fim do mundo?
Sem dúvida é um privilégio imenso. Nos dá a sensação de que estamos fazendo parte de um momento histórico. Só temos a agradecer.

Um artista em constante metamorfose

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

 

O pernambucano Siba é um artista em constante processo de reinvenção. Entre meados dos anos 1990 e 2000 liderou o Mestre Ambrósio, banda que ajudou a consolidar o movimento manguebit. Com o fim do grupo, formou, com músicos da zona da mata pernambucana a Fuloresta do Samba. Só depois estreou em carreira solo, com Avante [2012], um bem-humorado disco de tons autobiográficos.

Em 2015 lançou De baile solto (seus discos solo e com a Fuloresta estão disponíveis para download no site do artista), com letras em geral com conteúdo político de grande força. Em Marcha macia, que abre o disco, por exemplo, criticava a tentativa de ingerência do poder público de mexer nas tradições dos maracatus em Pernambuco, com que trocadilha o título do álbum.

De baile solto foi o disco com cujo show Siba baixou na ilha no final de 2015, no Festival BR 135. Ele volta à cidade amanhã (10): se apresenta às 22h no Fanzine Rock Bar (av. Beira Mar, Praça Manoel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher, Centro). Os ingressos custam R$ 40,00 (20,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A produção local do show é novamente do BR 135, que pretende, ao longo do ano, realizar algumas apresentações, como a preparar o clima para o grande festival no Centro histórico – a edição de ano passado teve, entre as atrações, os também pernambucanos da Nação Zumbi.

Na apresentação de amanhã Siba (guitarra e voz) será acompanhado por Atife (guitarra), Thomas Harres (bateria) e Mestre Nico (percussão e voz). O artista conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

Qual a base do repertório do show desta sexta em São Luís?
Esse show tem uma formação reduzida, é um quarteto que vai aí pra São Luís. São duas guitarras, bateria, percussão e vozes, e eu tenho usado este formato pra experimentar com repertório de vários momentos, desde a Fuloresta, do Avante, e também bastante coisa do De baile solto. Mas é uma formação que tá em metamorfose, sempre experimentando novas possibilidades, já tentando talvez apontar aí a direção para um novo projeto, esse ano ainda ou no ano que vem.

Em De baile solto você volta pela primeira vez em disco ao repertório do Mestre Ambrósio, com a regravação de Gavião. Qual a sensação da revisita?
A música Gavião foi regravada no De baile solto por que ela tinha uma relação muito profunda com o repertório, primeiramente musical. O De baile solto é um disco muito marcado pela retomada da rítmica que eu sempre tive como principal no meu trabalho, que é a da música de rua de Pernambuco, e Gavião era uma das músicas mais importantes, pra mim, no Mestre Ambrósio. Sendo que depois a letra dela tomou uma dimensão muito particular. Em contraponto com as letras mais diretamente políticas do disco, Gavião acaba se ressignificando, ao lado das outras músicas, eu acho.

Você se consagrou como rabequeiro, no Mestre Ambrósio e na Fuloresta, mas na carreira solo se acompanha com guitarra. Há uma razão para a mudança? E qual a chance de a rabeca reaparecer?
Com relação à rabeca eu considero o instrumento como uma ferramenta, somente. O instrumento não tem um valor em si, embora que o meio de onde ele vem ou a linguagem que ele representa pode sim agregar valor ou subtrair. No caso da guitarra, foi meu primeiro instrumento e eu precisei retomá-lo no momento onde eu carecia de mais recurso musical, que a rabeca é um instrumento, embora muito expressivo, também bastante limitado. Foi mais este motivo mesmo de retomar a guitarra, nenhum outro não, e até então tem sido meu instrumento principal.

Tua formação musical se dá entre ambientes urbanos e rurais e isto fica claro em tua música, sempre dançante. Há uma preferência? Há um lado com o qual você se identifique mais ou tudo se equilibra e se completa?
Esse contraste de urbano e rural ele é um pouco falso, eu acho, hoje no Brasil. Especialmente na música que eu faço, que eu pratico, não dá mais nem pra falar em mundo rural na Zona da Mata norte, que é o berço desses estilos que são a base do meu trabalho. De um modo geral são estilos que já são urbanos há décadas. A grande diferença está no fato de eles serem classificados como cultura popular e daí são formas de expressão que costumam sofrer bastante preconceito e ocupar sempre um lugar inferior na qualificação, no nosso panorama cultural de modo geral. Mas o rural em si, ele já é coisa do passado.

Outra característica muito marcante de tua obra é o conteúdo fortemente político, notadamente este disco mais recente. Como você tem acompanhado o noticiário acerca do conturbado momento político que atravessa o Brasil?
Eu acompanho o momento político do Brasil com muita preocupação, eu acho que é um momento muito pernóstico. As grandes forças mais reacionárias, o acúmulo de dinheiro e poder está se multiplicando e se reforçando de um modo assim assustador. Ao ver a versão da grande imprensa prevalecendo a gente fica com um sentimento de que a gente quase que perdia a oportunidade de ter construído um país melhor nos últimos anos aí. Continuo acreditando na possibilidade de o povo brasileiro de encontrar saídas, mas este realmente é um momento bem preocupante, que acho que vai reverberar negativamente por muito tempo ainda. A gente segue resistindo por que é a única maneira e cada um tem que encontrar o seu modo de escape, de saída, e tentativa de construir pelo menos pequenos modos de afirmação positiva dentro disso tudo.

Veja o clipe de O inimigo dorme:

A revolução do BR 135

Dois recordes quebrados, shows históricos, a Praia Grande reocupada com arte e coros em uníssono: “Fora, Temer!”

Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Em seu quinto ano, o Festival BR 135 superou todas as expectativas e parece que qualquer coisa que se diga dele soará clichê – inclusive isto.

Colocando São Luís na rota do circuito brasileiros de festivais, alguns longevos, outros tão ou mais novos que o “nosso” BR, como é simplesmente abreviado – e chamar o BR de nosso é mais que legítimo! –, mas já demonstrando vigor – e aí já disputamos as atenções de igual pra igual.

Se não, vejamos: que outro/s festival/is brasileiro/s consegue/m reunir numa mesma edição Nação Zumbi, Di Melo e Liniker e os Caramelows, para ficarmos apenas nos headliners, já que havia outras ótimas atrações na programação?

“A única saída é o aeroporto”, dizia um jocoso Tom Jobim, sobre a situação brasileira, noutros tempos. 52 anos depois do golpe que implantou a ditadura civil-militar no Brasil, um novo golpe, político-jurídico-midiático, destituiu a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, para ascender o vice-decorativo ao posto de presidente-decorativo.

Mas por que falar de política em um texto sobre cultura, mais especificamente sobre um evento cultural? Se você ainda se pergunta isso, das duas uma: ou apoia os golpistas ou está muito por fora.

Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Já na primeira noite de BR 135 – batizado com o nome da única entrada e saída de São Luís por via terrestre –, a de quinta-feira (24), as atrações foram unânimes em compartilhar do grito da galera: um mar de gente – outro clichê – entoava o coro de “Fora, Temer!”, com a recíproca verdadeira de bandas como Venga Venga (um duo de djs), DuSouto e Nação Zumbi. Estes, encerrando a noite inaugural, quebravam um recorde de público do festival. Há quem fale em 10 mil pessoas na Praça Nauro Machado e arredores.

“Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o imorrível”, gracejou Di Melo, outro pernambucano, lenda vivíssima – chegou a ser dado como morto, depois reapareceu –, cujo álbum de estreia passou anos esquecido até tornar-se cult e cantado a plenos pulmões pelo ótimo público que lotou a Praça da Criança na segunda noite de festival (quinta-feira, 25). Aqui cabe um elogio também à banda local que o acompanhou.

“Foram só 40 minutos de ensaio, estes músicos são maravilhosos”, derramou-se ao se referir a João Paulo (contrabaixo), Rui Mário (teclado), Fofo (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). Com todos os presentes cantando seu repertório de cabo a rabo – mesmo as poucas músicas de Imorrível, disco lançado este ano, nem se sentiu falta de backing vocals, para repetir o refrão “calma, calma, calma, calma, calma!”, de A vida em seus métodos diz calma, da estreia Di Melo, de 1975.

Por falar em atrações locais, a noite central foi também a “noite do empoderamento feminino”, quando o palco da Nauro Machado – difícil falar em palco principal – foi totalmente das mulheres: Nathália Ferro, Tássia Campos, Núbia e Lei di Dai mandando a real.

Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Outros destaques locais foram a volta da Pedeginja, entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco de estreia e inéditas, Beto Ehongue e os Canelas Preta, que aproveitaram os ótimos público e clima do Festival BR 135 para a gravação de um dvd ao vivo, e Bruno Batista, que apresentou novamente aos ludovicenses o show Bagaça, baseado no repertório de seu último álbum, com participações do casal Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões, idealizadores e produtores do BR 135), de Léo Chermont (guitarrista da Strobo, banda paraense que faria show na sequência) e acompanhado de André Bedurê (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria), Márcio Guimarães (guitarra) e Estevan Sinkovitz (guitarra).

Bruno Batista afirmou com todas as letras o que, de algum modo, todos tínhamos certeza: “o BR 135 é a coisa mais revolucionária que aconteceu na cena cultural do Maranhão nos últimos tempos”. Certamente referia-se ao conjunto Festival BR 135, que além dos shows promove feira criativa e intercâmbios os mais diversos, além do Conecta Música, evento paralelo que envolve debates, palestras, mesas redondas, oficinas, rodadas de negócio – sem falar na histórica roda de samba na Feira da Praia Grande, na tarde de sábado (26), reunindo Patativa e a Turma do Vandico.

Como anunciou Leminski, "essa noite vai ter sol". Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Como anunciou Leminski, “essa noite vai ter sol”. Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir: fechando a última noite de festival (sábado, 26), Liniker e os Caramelows fizeram um show para um público ainda maior que o da Nação Zumbi. Havia gente pendurada nas árvores. Um festival com dois recordes sucessivos quebrados não é qualquer festival.

Quando ela cantou Zero, acompanhada, obviamente, pela multidão, isqueiros e celulares se acenderam, quase antecipando em algumas horas a barra do domingo – na memória de quem esteve presente ainda não se apagaram.

[originalmente publicado nO Imparcial de hoje]

Barulho!

O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135
O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135

 

Barulho foi a palavra mais repetida por Di Melo ao longo de seu histórico show, ontem (26), na Praça da Criança (Praia Grande), na segunda noite da programação do Festival BR 135. Era uma saudação, referindo-se ao próprio som: “barulho para estes músicos maravilhosos!”, “barulho para todos vocês que vieram até aqui”.

O pernambucano esbanjou vitalidade, suingue e simpatia e não cansou de agradecer à produção do BR 135, leia-se o duo Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, pela oportunidade de se apresentar pela primeira vez na ilha.

Lenda vivíssima, a história é bastante conhecida: Di Melo lançou um excelente disco de estreia em 1975, mas o álbum demorou décadas para ser cultuado. O show de ontem foi majoritariamente baseado nesse repertório e o ótimo público cantou tudo junto a plenos pulmões.

Di Melo havia sumido do mapa e sido dado como morto. Reapareceu e assumiu a alcunha de Imorrível, título de seu segundo álbum, digamos, oficial, lançado este ano – o site do artista lista outros nove discos caseiros, feitos ao longo destes mais de 40 anos de carreira.

Ontem subiu ao palco trajando boina, óculos escuros e uma camisa com sua própria efígie – anunciando que na banquinha ao lado do palco era possível comprar camisas, CDs e LPs –, acompanhado de uma competentíssima banda local: João Paulo (contrabaixo), Fofo (bateria), Rui Mário (teclado), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). “Músicos maravilhosos, a gente teve 40 minutos de ensaio”, elogiou, tirando onda.

Além de Di Melo [1975] o repertório trouxe quatro músicas de Imorrível [2016]: Dioturno, que ele dedicou ao parceiro Waldir da Fonseca, recém-falecido (o outro parceiro é B.Negão, que no disco participa da faixa), Barulho de Fafá (na sequência de Se o mundo acabasse em mel, do disco inaugural, a música que também tem mel na letra: “Parei na filha da dona Emília e do seu Antônio/ ela é bonita e tem mel de abelha no olhar”, começa), Navalha e Milagre (quando tocou violão), agradecendo novamente ao público e à produção, tocando um reggae (parceria com Larissa Luz, que participa da faixa no disco) justo na Jamaica brasileira.

Não faltaram os hits Kilariô (que abriu e fechou a apresentação, a única do bis), A vida em seus métodos diz calma, Aceito tudo (Di Melo/ Vidal França), Minha estrela, Má-lida e Pernalonga.

Pouco depois da metade do show, Di Melo mandou, outra vez referindo-se ao entrosamento com a banda: “Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o Imorrível”. Está explicada a magia.

Parabólica nos paralelepípedos

Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135
Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135

 

Se a alguém restavam dúvidas sobre a consolidação do Festival BR 135 (veja a programação completa) no calendário cultural do Maranhão, a noite de ontem (24) tratou de dirimir. Em sua segunda passagem por São Luís, a primeira em um show gratuito, os pernambucanos da Nação Zumbi refizeram ao vivo o repertório de Afrociberdelia, um dos discos fundamentais do movimento manguebit, que completa 20 anos neste 2016.

Maior banda do Brasil em atividade, a Nação Zumbi demonstra um vigor ainda maior no palco – e qualquer um que conheça qualquer disco, com ou sem Chico Science à frente, sabe o peso da banda. Por falar em Chico Science, cujo falecimento também completa 20 anos no próximo fevereiro, sorte a nossa Jorge Du Peixe ter assumido os vocais e a banda ter continuado de ali em diante, sempre surpreendente.

Em geral elegantes, artistas costumam dizer que tanto faz tocar para 10 ou para milhares de pessoas. Mas sabemos que, geralmente, quanto mais público melhor. E o público de São Luís fez bonito: lotou a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, para ver/ouvir os malungos. Arrisco dizer: estávamos diante de uma quebra de recorde, ao menos em se tratando do BR 135 – não ouso estimar a quantidade de público por pura inabilidade.

Em cerca de hora e meia de show, a Nação Zumbi mostrou o peso e a atualidade do repertório de sua mistura de africanidade, cibernética e psicodelia – a justaposição que dá título ao disco de 1996, considerado o 18º. melhor disco da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil.

Não faltaram clássicos para botar o público para cantar junto e dançar: Macô (Jorge Du Peixe/ Bid/ Chico Science), Samba do lado (Nação Zumbi/ Chico Science), Manguetown (Lúcio Maia/ Dengue/ Chico Science), Criança de domingo (Cadão Volpato/ Ricardo Salvagni) e Maracatu atômico (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina). O bis extrapolou Afrociberdelia, lembrando Blunt of Judah Meu maracatu pesa uma tonelada, de Nação Zumbi [2002], e Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho), de Rádio S.Amb.A. [2000]

Um satélite na cabeça, título de uma das faixas de Afrociberdelia, também lembrada ontem, se traduziu em um satélite por cabeça: todo mundo sintonizado. A antena parabólica na lama, um dos símbolos do manguebit, hoje parece fácil de ter sido fincada. Nos paralelepípedos do centro histórico de São Luís é mais difícil, mas a Nação Zumbi conseguiu.

Em tempos de golpe e dos sucessivos ataques à cultura brasileira, convém reafirmar a importância e a resistência do BR 135. Na noite de ontem, a primeira das três da programação, Venga Venga, a ótima DuSouto e a Nação Zumbi foram unânimes (e acompanhados pelo público) nas palavras de ordem (a hashtag) do momento: fora, Temer!

#ocupafeira

Patativa e Turma do Vandico farão três horas de samba na Feira da Praia Grande, na programação do Festival BR 135

Há dois anos, em novembro, a compositora Patativa realizava um sonho: pelas mãos do conterrâneo Zeca Baleiro, lançava Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia, que contou com participações especiais de Simone e Zeca Pagodinho, dois cantores de sua admiração, além do maranhense, idem.

Seu primeiro disco era há muito aguardado por um séquito de fãs e conhecidos que Patativa acumulou ao longo dos anos em que inventou e aprimorou o que ela mesmo chama de “samba de cachaceiro”, sambas de letras propositalmente curtas para evitar o risco do esquecimento numa manhã de ressaca.

Prestes a completar 80 anos, em 2017, quando lançará seu segundo disco, também produzido por Zeca Baleiro, Patativa esbanja, além do galho de arruda na orelha esquerda, uma saúde de ferro, de fazer inveja a muito jovem trabalhado na academia. Consultas e exames, aliás, contradizem a maledicência provinciana que lhe imputa o mal de Alzheimer – o HD privilegiado de Maria do Socorro Silva, nome de batismo da pedreirense, arquiva mais de 200 composições nos mais variados estilos, que o público conhecerá no sucessor de Ninguém é melhor do que eu, que privilegiou o universo do samba, vertente pela qual é mais conhecida.

A exceção, no primeiro disco, era Xiri meu, cacuriá malicioso, batizado pelo apelido maranhense dado à genitália feminina, que acabou por emprestar título a um documentário curta-metragem de Tairo Lisboa, que obteve algum êxito no circuito de festivais de cinema do Brasil. A música que fecha Ninguém é melhor do que eu é, no final das contas, um quase-samba de empoderamento feminino, que, no universo geralmente machista do samba, coloca as mulheres em seu devido lugar: fazendo o que quiserem, quando quiserem, com quem bem entenderem.

O Mercado das Tulhas ou Feira da Praia Grande, espécie de segunda casa de Patativa, que ela visita com frequência, tirando onda com feirantes, habitués e turistas, será o palco em que a madredivina dama estará à vontade, na companhia da Turma do Vandico, um dos mais longevos grupos de samba da Ilha.

A grande roda de samba e sorriso acontecerá no próximo sábado (26), a partir das 15h (a previsão é que siga até 18h), com entrada gratuita – a exemplo de toda a programação do Festival BR 135 e do Conecta Música, evento paralelo de formação e debates.

Patativa passeará pelo repertório de seu disco de estreia e do próximo (já gravado!), além levar ao público inéditas de seu cofo fundo e versátil de composições.

Há alguns anos o BR 135 e o Conecta Música ocupam com arte e discussões sobre seus rumos diversos espaços da Praia Grande, valorizando o patrimônio arquitetônico, cultural e humano. Alê Muniz, seu idealizador e organizador, ao lado de Luciana Simões, com quem forma o duo Criolina (que lança disco novo ainda este ano), reconhece o “formato de feira” do Festival, que este ano tem as ocupações culturais destes tempos temerários, mas não só, entre os temas de debate. Entrar na Feira, literalmente ocupá-la, é mais um acerto, que se soma a vários outros na estrada que o BR 135 já percorreu até aqui. Ainda mais com Pattaiva e a Turma do Vandico de cicerones.

Pré-festa

A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d'Areia. Foto: Diego Chaves
A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia. Foto: Diego Chaves

 

Semana que vem o BR 135 e sua programação paralela de debates e formação, o Conecta Música, ocupam diversos espaços da Praia Grande, no quinto ano do Festival que já consolidou seu lugar no calendário cultural do Maranhão.

Este ano, entre diversas outras atrações, estão confirmados shows com Liniker, Di Melo e Nação Zumbi, além do maranhense radicado em São Paulo Bruno BatistaHomem de vícios antigos voltará à programação em momento oportuno.

Hoje (17), às 20h30, no Bangalô Gastrolouco (Av. Litorânea, Calhau), acontece o lançamento oficial do festival, com as bandas Canal Raja e Telúricos (ambas participaram da edição do BR 135 ano passado), Forró Pé de Serra de Seu Raimundinho e discotecagem de Jards Zue.

“Além da música, nesta edição outras linguagens estarão nos palcos e na rua em um amplo painel de formas de expressão. Nossa ideia é mostrar que a estrada do festival está aberta para os artistas que resistem fora da indústria cultural tradicional”, explica Luciana Simões, realizadora do evento ao lado de Alê Muniz, com quem forma o duo Criolina – que lança disco novo ainda este ano.

Este blogueiro mediará um debate na próxima sexta-feira (25), às 16h30, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). A mesa, “Jornalismo cultural além da “grande mídia””, terá Marcelo Costa (blogue Scream&Yell), Roberta Martinelli (TV Cultura e Rádio Eldorado, leia-se, Cultura Livre e Som a Pino) e Alexandre Matias (blogue Trabalho Sujo e Ecossistema da Música).

Depois da MPM

FLÁVIO REIS*

Trupe que gravou o LP "Lances de agora", de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de "Em ritmo de seresta" (de onde copiei a legenda)
Trupe que gravou o LP “Lances de agora”, de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de “Em ritmo de seresta” (de onde copiei a legenda)

Nos últimos tempos novos trabalhos sobre música popular e identidade cultural no Maranhão vão recolocando um tema que se tornou, aos poucos, incômodo entre os músicos e controverso entre comentaristas, apesar de relativamente aceito entre radialistas e produtores locais: a categoria música popular maranhense ou MPM. Uma referência obrigatória encontra-se ainda em 2004, no debate entre Ricarte Almeida Santos e Chico Maranhão, em dois artigos claros e densos, onde se colocou, de um lado, a inadequação restritiva do termo, utilizado a partir de meados da década de 80, considerado apenas uma receita de sucesso atrelada à estetização de ritmos populares com que se tentou reduzir a produção musical do Maranhão; de outro, foram enfatizadas as condicionantes históricas que teriam propiciado o seu surgimento, o sentido da “construção de uma canção maranhense moderna”.

Nas palavras do próprio Chico Maranhão: “Naquele momento, a afirmação de nossa identidade era mais importante, e a música popular um veículo significativo, embora naquela época inconsciente. (…) Isto continha um enorme peso estimulador criador na época. Demos a cara pra bater e ascendemos (sic) a fogueira que ainda hoje se vê a brasa arder. Éramos muito jovens e necessitávamos responder às ressonâncias que pairavam nos céus do país. Desta forma, qualquer análise sobre esta sigla MPM tornar-se-á vã se não tivermos clareza desses aspectos mórficos históricos de sua ‘adoção’”.

Em 2005, Roger Teixeira apresentou a monografia Xô do Mato, Boca de Lobo e Rabo de Vaca: a trajetória da música popular maranhense nos anos 70. Trabalho direto, sem trololó acadêmico, escrito acima de tudo por um ouvinte e admirador confesso dos compositores em questão, coloca de maneira sucinta, mas informada, praticamente todas as figuras em cena, com algumas histórias ótimas, daquelas de algibeira, onde afloram traços pessoais e situações emblemáticas do período.

Ao final, o autor afirma que as experiências ocorridas mais ou menos no mesmo momento no Ceará (Fagner, Belchior e Ednardo), no Recife (Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho) e na Bahia (Novos Baianos), além de Minas (Clube da Esquina), foram incorporadas à chamada MPB, tendo seus artistas rumado para o grande centro, o que não ocorreu no caso da geração laborarteana, seja por questões financeiras ou por convicções pessoais, pois “ir para o centro do país seria concordar que fazer música no Maranhão não poderia dar certo”.

O passo seguinte foram as monografias de músicos participantes do Rabo de Vaca. Em 2010, o trabalho do baixista Mauro Travincas, Rabo de Vaca: memória de uma geração musical, onde recupera a trajetória do grupo fundamental que existiu entre 1977 e 1982, capitaneado por Josias Sobrinho, dando continuidade nas experiências com ritmos e melodias levadas a efeito no Laborarte em meados da década e com uma postura decidida de tocar em praças e espaços comunitários na periferia, não ficando preso a apresentações em teatros. Curiosamente, o único show realizado no principal palco da cidade, o Teatro Arthur Azevedo, seria também o último do grupo.

Em 2011, o trabalho do flautista José Alves Costa, A Música Popular Produzida em São Luís na Década de Sessenta do Século XX, sobre o momento anterior ao Laborarte, quando a cena musical da Ilha era dominada pelos programas de auditório, no rádio e depois na televisão, e os grupos de acompanhamento eram no estilo “regional”, com violões, cavaquinho, baixo, percussão e algum instrumento solista, como o sax. Um pouco depois, conjuntos de baile, com formação básica dos grupos de rock, guitarras, baixo, bateria e teclados, como Nonato e Seu Conjunto e Os Fantoches, com vasta influência da Jovem Guarda, mas também de toda tradição dançante dos boleros e outros ritmos com toques caribenhos.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução

No ano passado, foi a vez da monografia de Josias Sobrinho, Aquém do Estreito dos Mosquitos: a música popular maranhense como vetor de identidade. Para o compositor, a construção da música popular maranhense significa a inserção de sua cultura de raiz popular no universo da música popular brasileira, ou seja, os ritmos do bumba boi, principalmente, transplantados para o universo da produção musical brasileira. Em nota indica que “o site de vídeos online YouTube incorporou o gênero ‘boi music’ entre as categorias disponíveis para a classificação de vídeos enviados pelo usuário da plataforma”. A consagração do gênero bumba meu boi como categoria musical estaria no disco Bandeira de Aço, gravado pelo percussionista e cantor Papete, em 1978, com composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

As células rítmicas do boi e do tambor de crioula e sua utilização nas composições é apontada por Josias como elemento distintivo e acompanhada em sua dificuldade de transposição para o disco desde os anos 60. Por exemplo, a toada de tambor de crioula Sanharó, de João do Vale e Luiz Guimarães, gravada por Marinês e Sua Gente, em 1963 ou a conhecida música Tambor de Crioula, de Cleto Júnior e Oberdan Oliveira, gravada por Alcione Nazaré e pelo Nonato e Seu Conjunto. Cleto Júnior explica: “ela não tem a pegada do tambor ainda… ela tem a letra do tambor, ela tem a ideia do tambor, ela tem a homenagem do tambor, ela tem aquela coisa toda do tambor, os versos do tambor (,,,) mas o acompanhamento não tinha ideia de como fazer”. O ritmo terminava sendo levado com toque de umbanda.

Em outros momentos a dificuldade já tinha se colocado. Na gravação do disco do I Festival da Música Popular Brasileira no Maranhão, na Toada Antiga, de Ubiratan Sousa e Souza Neto, realizada sem o acompanhamento percussivo do bumba boi ou em Cavala Canga, de Sérgio Habibe, ritmo do tambor de mina, gravada no primeiro disco do Nonato e Seu Conjunto, em 1974, também com tratamento diferente da forma original.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Essa questão de trazer a rítmica para dentro das canções gravadas só seria resolvida com Bandeira de Aço, fruto direto da estética trabalhada pelos compositores no Laborarte e o disco Lances de Agora, de Chico Maranhão, que expressa uma aproximação de seu trabalho com as “influências de berço” (os ritmos do boi e do tambor de crioula). Depois disso, “daí em diante outros artistas e álbuns, com alguma relação com a cultura popular de raiz maranhense, foram sendo colocados no mercado nacional”, citando Papete, Ubiratan Sousa, Tião Carvalho, Betto Pereira, César Nascimento, Mano Borges, Alê Muniz, a dupla Criolina, Flávia Bittencourt e “Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, que sempre apontam em suas produções um elo qualquer de identidade maranhense”.

Em setembro de 2011, publiquei no jornal Vias de Fato um longo artigo, posteriormente incluído no livro Guerrilhas, abordando, a partir das questões colocadas nos textos de Ricarte e Chico Maranhão, o mal-estar e mesmo a indefinição e o desconhecimento que cercam a sigla MPM, pois indicava algo que parecia existir quando ainda não havia sido nomeada (década de 70) e se tornava uma incômoda indagação depois de batizada (década de 80). Afinal, quem além de nós utilizava ou compreendia o que era MPM?

O artigo acentuava a visível distinção do período de gestação, marcado pelo cruzamento das experiências dos três compositores que participaram do Laborarte (Cesar, Josias e Sérgio) com figuras também exponenciais no processo, como Chico Maranhão, Giordano Mochel, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, do momento seguinte, quando a rádio Mirante FM estava no centro de uma estratégia de propagação do que se passaria a chamar de MPM, trazendo uma nova geração de compositores, entre eles, Gerude, Godão, Mano Borges, César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz.

Ao contrário das linhas de continuidade, era enfatizada uma descontinuidade em relação ao empuxo inicial, tendo a aproximação com as agências governamentais e com o mecenato privado se verificado segundo os esquemas de patronagem de uma ordem social e política ainda em larga medida oligárquica, por onde terminariam se enredando quase todos os compositores, os novos e a maioria dos antigos. O texto, não por acaso, intitulava-se Antes da MPM, para enfatizar o momento da década de 70 e início dos 80, quando a sigla não existia. Soava, ao mesmo tempo, pois, como elogio e crítica.

O ataque que essa ambiguidade carregava não só à utilização do termo, mas ao próprio estatuto da coisa, colocada como uma experiência interrompida e redirecionada, resultando em pouco tempo numa projeção fantasmagórica sobre os músicos e a própria música que realizavam, não passou totalmente despercebido e foi objeto de um comentário de tom enviesado, meio truncado, mas com uma observação importante. Intitulado Música Para Maiores, de autoria de Lane Mosi, foi publicado no mesmo jornal Vias de Fato, na edição seguinte, de outubro de 2011.

Em linhas gerais, diz que o artigo estava “perfeitamente enquadrado nos moldes históricos – sociais – científicos da sociedade vigente” por comungar de uma mitificação da ação do Laborarte, principalmente na questão das experiências “para criação de uma determinada categoria de música maranhense elitizada”. Alertava então: “É evidente que a periferia a qual me refiro não é composta por aquele bairro privilegiado, pela sua localização estratégica perto dos casarios antigos, tão pouco àquele cheio de afilhados culturais, me refiro mesmo, aos não tão distantes e nem tão abastados, mas totalmente esquecidos e desconsiderados na influência da musicalidade desta cidade”.

Para a autora, a periferia a que o pessoal do Laborarte se articulava resumia-se ao Desterro e a Madre Deus. Sem indicar qualquer referência, de ontem ou de hoje, afirma que ¨existe todo um potencial na periferia que consegue escapar à ‘estratégia governamental de mercantilização da cultura’ mas que é renegado a (sic) pelo menos 30 anos, pouco tempo cronologicamente mas uma eternidade em se tratando de uma arte para libertar”. Surpreendentemente, no entanto, termina o texto falando em reviver os “momentos áureos da música maranhense que tanto gosto”, depois de exaltar programas de rádio com “o melhor da MPM” e “os bolachões (vinis) do Festival Viva”.

Afora o evidente desconhecimento do que foi a atuação do Laborarte, principalmente até o início dos anos 80, minimizando totalmente seu significado cultural e político, pensando o que ele era a partir do que se tornou, e a percepção do momento de diluição como se fosse o “momento áureo” (aí é aquela história, cada qual com seu ouvido…), o texto deixa a observação de que a incorporação da periferia na cultura da cidade ainda não se deu ou seria bastante incompleta, muito seletiva, não aceitando o marco que geralmente é atribuído ao Laborarte. Este momento ainda seria um porvir.

No ano seguinte, Ricarte Almeida Santos volta ao tema, desta vez através de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, da UFMA, intitulada Música Popular Maranhense e a Questão da Identidade Cultural Regional. Temos aqui um trabalho mais circunstanciado, com utilização de todos os textos então existentes, destacando trechos e depoimentos com argúcia, além de sua própria pesquisa, trazendo novos e interessantes depoimentos de músicos e jornalistas. De forma geral, define dois períodos: o de surgimento da música popular maranhense, na década de 70, e o de sua inserção nos mecanismos da “indústria cultural”, na década de 80.

O Laborarte teria configurado uma “ação cultural”, um processo “com início claro e armado, mas sem fim especificado”, onde avulta o papel dos agentes ou mediadores culturais, indivíduos que “num ambiente de heterogeneidade sociocultural, de preconceitos, cumprem uma ação de aproximação de grupos sociais, de pessoas de diferentes procedências”. Uma ação pensada para a prática de um novo teatro, terminou tendo numa nova estética musical seu resultado mais duradouro e “consequentemente, contribuiu decisivamente para a assimilação das expressões e manifestações da cultura popular, até então marginalizadas e negligenciadas, como símbolos da identidade cultural regional”.

Apesar de citar e conhecer todos os nomes principais que estavam envolvidos com a música popular nos anos 60 e 70, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe são considerados “os três principais agentes culturais do desenvolvimento da música popular maranhense”. O disco Bandeira de Aço é colocado no texto como “marco de partida e de chegada” da MPM. Num dos vários trechos destacados de um rico depoimento, Cesar diz: “Bandeira de Aço é uma consequência do que foi sistematizado no Laborarte” (…) “esse paradigma musical incluiu ritmos de bumba meu boi, divino, tambor de crioula e de mina, entre outros, caracterizando-se como música percussiva e adotando uma poética enriquecida pelo vocabulário popular”.

Ou ainda, de forma mais precisa: “creio que o Laborarte serviu como um ponto de referência para a difusão de uma música popular que já vinha sendo gestada antes mesmo da criação dessa entidade cultural. Foram acrescentadas novas células rítmicas à MPB local, deixando transpirar as virtudes artísticas da nossa gente, das nossas raízes culturais. (…) No ponto de convergência estava a estratégia para a superação das dificuldades, habilitando uma essência rítmica – com base harmônica de violão e cavaquinho – alicerçada por instrumentos regionais: matraca, tambor-onça, pandeiro, cabaça, agogô, abatá, terno de crioula, pífaro etc.”

No capítulo seguinte, é olhada mais de perto, com depoimentos esclarecedores, a questão da criação da sigla a partir da ação decidida de Fernando Sarney em promover a “música maranhense”, através da Mirante e de sua posição como diretor da Cemar. É o momento da estetização, que define ao mesmo tempo uma expansão e a descontinuidade no movimento artístico, pois “a música popular em si, se reorienta em vista também de obter o apoio e a legitimação do campo político”.

Ricarte é um conhecedor de música popular brasileira, de suas raízes no choro e no samba, apreciador e incentivador dos compositores maranhenses, além de seu texto ter objetividade e fluência, oferecendo-nos, sem dúvida, uma rica análise do momento. Da sua exposição discordo, no entanto, da centralidade excessiva dada ao Laborarte (lembro, é claro, da observação feita por Lane Mosi, aproveitando-a em outro sentido), basicamente em dois aspectos.

De um lado, a própria definição da estética musical em questão, que passa, a meu ver de maneira significativa, por outros compositores, já indicados. Ameniza essa discordância o fato de que estamos falando de um movimento (ou de uma ação) cuja proposta inicial era de uma integração entre campos distintos e aberta a influências diversas. De outro, acho que a ação do Laborarte deve ser enfocada mais incisivamente como um dos elementos de um processo mais amplo de redefinição da identidade regional, a passagem da exaltação do passado letrado, centrado nos mitos de distinção expresso nas alegorias da Atenas Brasileira e da Fundação Francesa, para a exaltação da cultura popular, principalmente do bumba meu boi, antes excluído e alvo de perseguições. Algo que se efetivou mais como superposição, dado a direção do processo pela oligarquia dominante.

Claro que isto está referido lá, Ricarte sabe das coisas, mas um trabalho importante como o de Lady Selma Albernaz, O “Urrou” do Boi em Atenas: instituições, experiências culturais e identidade no Maranhão, uma tese defendida em 2004 na Unicamp, favoreceria o olhar para o movimento que se efetuava no campo das instituições governamentais em torno da cultura popular e do turismo desde o final dos anos 60. Assim, o encontro posterior com o guarda-chuva da oligarquia não era propriamente entre elementos estranhos.

O que se perceberia com clareza a partir daí era que o sentido da “ação cultural”, para manter o conceito utilizado, foi redirecionado para a ênfase na carreira profissional, aproveitando os caminhos que se ofereciam através dos favores oficiais. De maneira emblemática, o coletivo que se sobressaiu a partir do final dos anos 80 foi a Companhia Barrica, cujas principais atrações eram o Boizinho Barrica, no São João e, depois, o bloco Bicho Terra, no carnaval.

Ambos eram fruto principalmente da ação do compositor Godão na Madre Deus. No Boizinho Barrica elabora uma recriação cujos ritmos envolvem os vários sotaques do boi, os ritmos dos tambores de crioula e de mina, as ladainhas do Divino e até as batucadas dos blocos e tribos de índio do carnaval. É uma tentativa de síntese de vários elementos da cultura maranhense, da música, das danças, do artesanato etc. A Companhia tentou se colocar como movimento, mas terminou se definindo mesmo mais como atuação de empresa e desencadeou toda uma enorme discussão à época sobre grupos “parafolclóricos”. A outra ponta era a Marafolia, uma empresa de eventos vinculada ao Sistema Mirante, responsável pelo carnaval e as festas juninas “fora de época”, ambas com intensa participação da turma do Barrica. Para estes, a década de 90 significou os anos dourados.

Em ritmo de seresta. Reprodução

No final do ano passado, mais um trabalho tocou na questão da formação da MPM e, desta vez, por um ângulo inusitado. Trata-se do livro de Bruno Azevêdo, Em Ritmo de Seresta: música brega e choperias no Maranhão (Edufma, 2014), também fruto de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da UFMA. Inicia com uma relação entre a crise nas bandas de baile, determinada pelo aparecimento dos teclados eletrônicos polifônicos e a criação de um novo estilo, uma corrente da música brega que se desenvolveu nas regiões norte e nordeste a partir do final dos anos 80, conhecida como “seresta”. Muitos músicos migraram para o teclado com programação, pois barateava o show, eliminando instrumentos, como baixo e bateria. Era uma modificação na técnica acarretando alterações no estilo. “Músicos que por anos tocavam diversos instrumentos passaram para o teclado com programação, músicos que nunca cantaram passaram a emprestar sua voz para as serestas”.

O texto, bem articulado e bastante informativo, penetra fundo no universo das choperias, tendo como campo privilegiado duas grandes, a Choperia Marcelo, no retorno da Forquilha, e o Kabão, no Aterro do Bacanga. Bruno aqui está à vontade, passeando entre os nomes de destaque e suas imensas discografias, as nuances de estilo, a produção dos shows, o mercado de discos (que se apoia justamente na “pirataria”, subvertendo a lógica das gravadoras), o público consumidor etc. Consegue depoimentos incríveis de músicos, desencava vasto material fotográfico que traz muito do espírito do tempo, explorando as capa dos discos, os instrumentos e cenas de palco. Conta ainda com um ensaio do fotógrafo Márcio Vasconcelos, em flagrantes de campo, descortinando as cores, gestos e expressões em torno dos ritmos da seresta. A edição, vale frisar, é caprichada em seus detalhes, além de vir acompanhada de um cd. Tudo com a cara da Pitomba! (apesar de carregar o signo da Edufma, cujo padrão é justamente o oposto…).

Depois de analisar um estilo musical que alicerçou o boom das choperias e envolve milhares de pessoas, Bruno volta sua atenção para a (in)visibilidade dessa música e concentra-se na separação entre os músicos de seresta e suas canções e o que se poderia chamar de “identidade musical maranhense”, indicando a existência de uma marginalização nas “esferas discursivas de poder”, tanto no plano do acesso a financiamentos nos programas de cultura, quanto de legitimação nos meios de comunicação, carecendo de “reconhecimento”, pois a categoria não constaria nas listas de premiação, nem nos catálogos de cultura.

O bolero, a música romântica de “dor de cotovelo”, o brega, que dominavam as rádios, foram taxados de “música de velhos” ainda nos anos 60 e, apesar de constar das lembranças de formação de músicos e jornalistas, seriam deslocados da receita de mistura que definiria a MPM nas décadas seguintes. Nos seus próprios termos: “o processo de construção da tradição da música maranhense, corre em paralelo ao processo de exclusão de outros estilos e seus representantes”. O brega, formaria então sua linhagem à margem do que era reconhecido como “música maranhense”, dos grandes como Raimundo Soldado e Adelino Nascimento, à reinvenção com Lairton e seus teclados e depois continuando em transformação, com o aparecimento do arrocha e outras fusões, em aproximação com o sertanejo e o forró.

O trabalho dá uma guinada e passa a discutir então o processo de definição da MPM. Novamente nos deparamos com uma riqueza de depoimentos, até mais variados. O desenho interpretativo, em sua armadura mais geral, é similar ao já colocado, com a distinção de dois momentos, mas os detalhes levam a resultados distintos. Bruno estabelece uma contraposição entre a geração Laborarte e a geração Mirante. Enquanto a primeira estaria voltada para a pesquisa, a postura política de combate e o contato com bairros da periferia, a segunda centrava-se na busca do apoio de mídia, na proximidade com os grupos dominantes e na fetichização do registro fonográfico. Assim como no trabalho de Ricarte, os dois momentos privilegiados para a análise são o disco Bandeira de Aço e o aparecimento da sigla MPM.

No caso do disco e todo o imbróglio que ele gerou, com o problema dos direitos autorais, da omissão dos nomes nas rádios etc., existem depoimentos extensos de Cesar e de Papete, botando os demônios pra fora mesmo, pois, como diz este último, “é uma coisa que respinga até hoje, essa coisa rançosa, uma pena porque é um disco tão importante”. O disco foi gravado à revelia dos compositores, as músicas capturadas meio à distância, de forma enviesada e depois conseguida a autorização, apesar das resistências de Cesar e de uma certa desconfiança que pairava no ar. Mas foi um sucesso e chegou a vender na época, segundo Papete, 150.000 cópias.

Várias opiniões são reunidas, todas considerando o trabalho como referência fundamental. Como bem sintetizou Ribamar Filho, dono do Sebo Poeme-se, foi “a primeira vez que a gente se ouviu”. Ou Zeca Baleiro: “Bandeira de Aço foi um divisor de águas na música do Maranhão. Sei de cor e salteado, de trás pra frente, ouvi demais. Pela primeira vez pudemos ouvir em disco e com a qualidade de áudio (ao menos próximo) de um disco de grande gravadora, os nossos ritmos e autores. (…). Aquilo calou fundo na alma do maranhense. E abriu portas para que outros artistas se aventurassem naquela seara. Já havia outros discos feitos antes – Chico Maranhão etc. – mas aquele lá foi certeiro. Conjugou a excelência artística com o poder de fogo comercial”.

Quanto à questão da MPM, o contexto mais atual que a cerca, marcado por um certo “toma lá, que o filho é teu…”, ganha aqui contornos até mesmo hilários, dependendo da perspectiva. No geral os depoimentos descortinam ainda mais as engrenagens em operação, principalmente o papel da Mirante e dos favorecimentos pessoais concentrados na figura de Fernando Sarney. O radialista César Roberto, por exemplo, depois de dizer que “Fernando era o pai da nossa música, né? O padrinho, o ‘paitrocinador’”, afirma que ele foi “um dos criadores dessa expressão MPM”.

Pedro Sobrinho, também radialista, não concorda: “Foram os próprios artistas que criaram essa sigla, Betto Pereira, Gerude, acho que Godão do Boi Barrica também. Hoje eles não gostam, mas ele foi um dos grandes incentivadores. (…) Surgiu através dos artistas e a rádio (Mirante) abraçou, também porque houve um boom lá pela década de oitenta, um boom da música maranhense… foi a partir daí que neguinho resolveu ‘não, a nossa música é a melhor’ e criou a sigla, só que foi um grande, quer dizer, o tiro saiu pela culatra, porque não existe, foi um tiro no pé”.

Betto Pereira, por sua vez, devolve: “É do rádio. Não foi pelos artistas não. Rotularam pra diferenciar, fazer uma diferença do que é a MPB e o que é a MPM… Fez uma merda que até hoje a gente tá penando por isso, que eu não sou artista do Brasil, sou MPM”. Essa relação de estranhamento torna-se ainda mais curiosa com a afirmação de Papete, outra figura emblemática da difusão dessa música, com vários discos tendo compositores maranhenses como base, inclusive um deles intitulado Música Popular Maranhense, que a certa altura diz: “MPM não conheço não”.

Para Cesar Teixeira, “é uma discussão que surge no rádio, na verdade nos bastidores da Secretaria de Cultura, que eu acho que surgiu foi ali. Ou era pra reinaugurar uma geração que não tinha pesquisado coisa nenhuma na vida, tipo assim, legitimar uma geração que não foi lá na zona, que não foi no bumba boi, não pegou em matraca, não sei o que, pra legitimar o que eles tavam fazendo, e de repente vender aquele produto, como se venderia o reggae e outras coisas. E mais uma vez não deu certo”.

Bruno trata da programação das rádios Mirante FM e Universidade FM e de como elas cuidadosamente se apartaram dos boleros e do brega, envolvidas no processo de construção da identidade musical local baseada no bumba meu boi e, de forma mais ampla, representando-se como o moderno e conceitual. No decorrer das entrevistas ele sempre se defrontou com a posição dos músicos (de quaisquer vertentes) e dos jornalistas, todos contrários ao estabelecimento de uma relação entre a “música brega/seresta” e a “música maranhense”.

No modelo explicativo com que trabalha, isso seria fruto da internalização por parte dos agentes da construção da identidade musical maranhense como determinada pela aproximação com a cultura popular, sustentada num processo seletivo e excludente (“elitizante” é um termo várias vezes utilizado – lembro novamente de Lane Mosi). A posição das rádios seria, enfim, sintomática de uma “intenção de afastamento do popular”.

A conclusão a que chega é cruel, mas termina se tornando também uma caricatura do processo: “A MPM seria assim, um arremedo de movimento centralizado na rádio Mirante, que reuniu artistas de música popular inspirados no folclore, com o intuito de criar um elemento distintivo para a música dentro do mercado”. Para entender o que ele quer dizer é preciso não esquecer a maneira como foi colocada a dinâmica do processo, como dicotomia entre geração Laborarte e geração Mirante.

O termo geração Mirante é ótimo, basta destacar um depoimento dado por Mano Borges para um programa de televisão sobre os 30 anos da rádio, quando afirma: “30 anos que se confunde, na verdade, com a história da gente, da nossa música. Eu acho que é uma rádio que foi pioneira em mostrar essa música produzida no Maranhão, e isso nos deu muita visibilidade”.

No entanto, utilizá-lo como Bruno faz, a geração Mirante e a MPM como signos intercambiáveis, obscurece o trânsito que também houve da geração Laborarte para dentro da esfera de influência da Mirante e das secretarias de cultura. Talvez fosse mais simples falar, como Celso Borges, simplesmente em primeira e segunda gerações da MPM. Neste caso, o cuidado é para não esmaecer o fato crucial de que o termo é uma criação da segunda geração, quando a produção já não guarda a mesma qualidade, nem as mesmas características, voltando-se para o mercado fonográfico e as rádios, na busca de uma inserção que tinha ficado até então em segundo plano.

Por não se dar conta da rigidez que o esquema explicativo continha, o texto chega ao final escorregando em passagens surpreendentes ao afirmar que após o estabelecimento da sigla pela ação da rádio Mirante, “músicos da geração anterior como Sérgio Habibe passaram a ser reconhecidos como MPM por mais que não tomassem parte ativa em suas engrenagens”. Ou ainda: “Chico Maranhão se considera MPM, mesmo que a sigla tenha surgido depois da maioria de seus discos”. Em suma, aí ele opera uma disjunção total que torna a coisa toda um pouco confusa, na medida em que passa a configurar quase a existência de dois movimentos (mais do que dois momentos).

Não é possível dizer, por exemplo, que pela filiação à Mirante esta geração “é amplamente criticada pela geração anterior”. Salvo grosseiro engano, o único nome da linha de frente que permaneceu à margem dos canais que se formavam entre artistas, a Mirante e secretarias de cultura, foi Cesar Teixeira. Isso lhe valeu um certo ostracismo, uma distância que funcionou ao mesmo tempo como sua maldição e sua aura de identidade. Em graus variáveis, todos em algum momento participaram dos pequenos canais que se formaram para a produção de shows e gravação de discos de música popular. Basicamente era o esquema de financiamento que se formou aqui.

O trabalho de Bruno vai além da boa etnografia, ultrapassa a observação do fenômeno ao inquiri-lo em sua forma constitutiva, enquanto categoria socialmente legitimada, na trilha de Bourdieu, autor de quem pega as lentes para enquadrar os depoimentos dos músicos e agentes de mídia. Analisa um processo de construção simbólica e sua legitimação, insistindo na lógica da exclusão e sua introjeção, através da naturalização de noções como “cultura maranhense”, atrelando-a a um conjunto de signos retirados da cultura popular, mas filtrados pelas elites, no sentido mais preciso do conceito, portanto, incluindo o próprio Laborarte. Penso que a coisa pode ser encarada de outra forma.

Como é sabido, a discriminação acompanhou a música brega desde a formação do agregado que responderia pela sigla MPB a partir da segunda metade da década de 60. E isto só recentemente começou a se romper. No entanto, esta exclusão funciona mais como um recalque. E aqui não foi diferente, pois não dá para dizer que elementos do bolero e do brega não estão presentes na obra desses compositores, ontem e hoje. Me vêm imediatamente músicas como o bolero Babalu, que abre Emaranhado, de Chico Saldanha, seguido da cafonice fundamental de Mara, com aquele órgão hammond lá no fundo, ou ainda bregas escancarados presentes em seu disco anterior, Celebração, como Baby e Telma e Louise. Cesar e Josias não têm influência de brega? Acho que eles dificilmente negariam. Mas do velho brega, da cultura da zona, como enfatizou o primeiro.

E nem teria como ser tão diferente porque isso tudo rodava muito nas rádios. Quando Bruno analisa a questão da programação das duas FM e, através de vários depoimentos, mostra como o que era considerado muzak, de mau gosto, “brega” (Waldick Soriano, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Odair José ou Wando, por exemplo), não rodava, fala como se não estivessem presente direto nas rádios AM. Isso não invalida a percepção geral defendida no livro, principalmente a questão dos modos de incorporação e legitimação que culminaram na invenção midiática da MPM, mas abre um caminho para nuançá-la e olhar a persistência desses elementos, que estavam introjetados e não poderiam ser tão facilmente apagados.

Também na década de 80 a onda do reggae se colocava com força e o ritmo terminou sendo absorvido, não ficou à margem, passou a frequentar os discos dos compositores maranhenses. E igualmente parece ter criado um nicho próprio, com bandas, gravações etc. e ainda com a particularidade do negócio das radiolas, mas hoje faz parte do cardápio oficial e é vendido na prateleira da diversidade. O potencial de afirmação de diferenças parece ter se diluído sob o guarda-chuva da “maranhensidade” e a noção de Jamaica Brasileira foi incorporada de maneira a esvaziar o potencial crítico da ordem social e cultural vigente.

Toda essa conversa pode parecer uma ruminação de águas passadas, na medida em que o quadro atual, à primeira vista, tem características muito distintas. É o que pode ser percebido na leitura de dois instigantes e, até certo ponto, antitéticos artigos a respeito do recente festival de música do projeto BR-135 e seu significado no contexto das artes, publicados em 27 de dezembro e 3 de janeiro últimos no Caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão. Refiro-me aos textos DR-135, do mesmo Bruno Azêvedo e Não há saídas (só pontes e avenidas), de Reuben da Cunha Rocha.

Para encurtar o que já vai longo, Bruno faz um comentário bastante elogioso do festival, por expressar a diversidade atual das bandas e pelo local de realização (a Praia Grande) e do projeto, por ser o resultado de uma “ação política” dos produtores (Luciana Simões e Alê Muniz), que indicaria “uma boa chance para mudança paradigmática dos produtores locais”. A existência de uma ¨cena” artística em plena ebulição, um modelo de produção viável e, por fim, a “mudança política” anunciada são os ingredientes principais do texto.

A questão a que o BR-135 apontaria uma “saída” é de como “fazer acontecer uma cena que já acontece”, identificada por duas características: 1) “a cidade anda cheia de bandas de estilos diversos”; 2) “essas bandas tão (sic) interessadas num som autoral e desamarrado dos medalhões de identificação da cidade/estado”.

Correlato a este processo, que vem de algum tempo, ocorre agora a alteração política com a derrocada do grupo que comanda o estado há décadas, abrindo possibilidades de romper a “organização feudal” em que se tornou a pasta da cultura. Para isso, diz, “espero muito que a nova gestão consiga desfolclorizar a Secretaria de Cultura ou que aja uma ação dos produtores nesse sentido”. E conclama os artistas em geral a se inteirarem das possibilidades abertas com as leis de incentivo e a “convencer as empresas da importância estratégica do investimento na arte”. No horizonte, a aposta de que a “efetivação de uma política pública para a cultura transparente e impessoal”, seja uma alavanca para as atividades artísticas, um caminho “em direção ao público, à cidade, ao seu próprio ofício”.

O texto de Bruno é muito bom, vibrante, tocando em várias questões referentes ao esgotamento de um padrão de política cultural que vigora há décadas. Uma semana depois recebeu um comentário forte de Reuben. Um artigo radical no melhor sentido, opondo logo no título à “saída” do BR as conexões das “pontes e avenidas”.

No geral, ampliava o escopo da ¨cena¨ referida, recusando qualquer viés de apresentação do festival como sua expressão. “O que discuto no texto de Bruno é a tentativa de sequestrar, para sua formulação do BR-135, certos traços da experiência mais ampla e mais ousada que tem borbulhado na panela da ilha. Nessa jogada, ele esvazia os aspectos mais radicais ou pelo menos mais inquietos”.

Reuben expõe a desconfiança com um esquema voltado para a “profissionalização”, que estimula a troca e a mistura, mas “capitaliza experiências radicais como se fossem ‘cases de sucesso’”. Não é propriamente uma recusa, antes uma observação que recupera a importância das formas de agrupamento não marcadas pelo viés “empreendedorista” e sim pelo caráter mais “autonomista e não hierárquico”, como a experiência do Sebo no Chão, no Cohatrac, “que nunca deixa de acontecer e se vale das melhores e piores condições com o mesmo empenho”, ou a da Casa Loca, “que além de boa banda é uma casa ocupada mesmo, e parece que é louca”.

Não tenho condições de comentar o leque que ele apresenta do cenário contemporâneo das artes na Ilha, mas mesmo para quem conhece tão pouco é possível sentir os ventos e a energia que começam a despontar desses sons e imagens, dessa nova gestualidade, do “trânsito de linguagens”, claramente impulsionados por “dispositivos que apontam para a autonomia: a capacidade de gravação, a coletivização do trabalho produtivo, o domínio dos meandros da captação de recursos”.

Neste sentido, o chão da experiência atual é realmente muito distinto, tanto no referente às possibilidades de produção e circulação quanto aos desafios estéticos e políticos a responder. Os anos 70 e 80 marcaram aqui a passagem de uma configuração cultural caracterizada pelo predomínio dos signos de erudição para a incorporação de signos extraídos da cultura popular. Tal processo atingiria seus contornos mais definitivos somente na década de 90, através da ação concertada entre agências estatais e agências de comunicação, e terminou propiciando um aprisionamento e até uma acomodação dos artistas. O que se põe hoje é a necessidade de recriar os canais e ativar outros para uma nova leitura da diversidade cultural, que não seja refém de uma visão asfixiante da identidade e permita ao Maranhão se ver refletido em outros lugares, além do casarão ou do bumba meu boi. Para isso, mais do que (re)ler o local, a questão é como absorver o estranho e deixar acontecer as vias de combinação, vale dizer, de destruição das fórmulas de exaltação predominantes.

Para Reuben (no que Bruno concorda), “uma evidente liberdade se coloca entre a geração mais nova e os mais longevos fantasmas da cultura maranhense. Já quase não se sentem os ecos de certa ideia de legitimidade antes pretendida sobretudo através da cultura popular. O Maranhão, na música mais nova que tenho ouvido, aparece em outro lugar”. Liberados de qualquer “acerto de contas” com o passado, “afinal os mitos deixaram poucos discos e tudo depende da memória hiperbólica dos que lá estavam”, essa geração estaria de certo modo, liberada de carregar o fardo da “preservação da cultura”, abrindo espaço não só para um leque mais amplo de gêneros como, principalmente, da perspectiva que ele se coloca, para a experimentação mais radical e subversiva. Na formulação feliz: “O jogo agora é com o estúdio e não com o histórico”.

O dilema é o que fazer com essa “liberdade”, pois se é possível dispensar “a demanda dos fantasmas históricos”, é necessário também fugir dos “acertos do mercado nacional”, ou seja, do velho sonho de “estourar”. O próprio Reuben alerta: “não adianta tirar onda dos velhos medalhões para acabar refém de outros lugares de poder”.

Se não estamos mais na posição de reféns da relação entre arte e cultura popular, é bom frisar que isto se deu antes pelo desgaste da fórmula e pelas possibilidades abertas com os novos meios de produção e comunicação do que por qualquer diálogo crítico com essa “herança”. Não é apenas “um papo desgastado entre nós”, como Reuben e Bruno parecem concordar, é uma limitação que essa nova geração vai carregar, apesar de ser também por onde vai tentar se livrar dos “fantasmas da cultura maranhense”, que poderia sintetizar na necessidade de ultrapassar a tônica do “Maranhão, meu tesouro, meu torrão…”, o canto de sereia da ordem vigente.

Não me refiro, é claro, à bela toada que Humberto deixou gravada na memória da cidade, mas ao narcisismo ludovicense historicamente enraizado, que sempre deu o tom de nossas mais duradouras representações e ajuda a entender como um momento tão rico de transformação da música popular, capaz de definir os contornos de uma estética regional na linha de experimentações do período, desembocou na caricatura pretensiosa que significou a sigla MPM.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Publicou Cenas marginais (ed. do autor, 2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007; 2ª. ed. 2013) e Guerrilhas (Pitomba!/Vias de Fato, 2011).

Céu para deleite e delírio

Céu: talento e entrega. Fotosca: Zema Ribeiro
Céu e banda: talento e entrega. Fotosca: Zema Ribeiro

 

O público lotou as dependências do Teatro Arthur Azevedo para a noite de abertura do Festival BR-135, ontem (18). Os ingressos foram trocados por um quilo de alimento não perecível.

Áurea Maranhão é a Tatá Werneck local: todo mundo acha graça, menos eu. A mestra de cerimônias carregou nas tintas ao encarnar uma “aborrecente”, forçando por demais a barra para parecer descolada.

Secretária de Estado da Cultura, Olga Simão era dispensável no púlpito. É tipo “jabuti trepado”, alguém sem nenhuma organicidade. Apesar de o órgão ser um dos patrocinadores do evento – ao lado de Cemar e Vivo –, ela não combinou com o resto da noite.

Acsa Serafim e Otília são talentosas. A primeira cantou uma música autoral e, juntando-se à segunda e ao guitarrista Márcio Glam, emendaram um repertório de covers de Beatles, Janis Joplin – Otília evocou-a nas vestes – e Queen. O Maratuque Upaon Açu acompanhou-os nos dois últimos números e foi interessante vê-los evocar a ciência do pernambucano Chico, mesmo sem citar seu nome ou tocar seu repertório.

O show de abertura era uma espécie de micropanorama da diversidade proposta pelo BR-135, projeto idealizado pelo casal Criolina – os músicos Alê Muniz e Luciana Simões –, que desde 2012 vem movimentando a cena autoral de São Luís.

A noite de ontem (18) era um cartão de visitas do Festival que eles realizam até amanhã (20), no Centro Histórico da capital maranhense. Além de shows estão previstas atividades formativas, através de debates, seminários, palestras, rodas de conversas e negócios, oficinas etc.

O BR-135 pode orgulhar-se de mais um feito, entre tantos mostrados em vídeo, ontem, na abertura do Festival: trouxe à São Luís, pela primeira vez, a cantora Céu, contando 10 anos de carreira, com cd e dvd Ao vivo [2014] recentemente lançados.

Calçando havaianas, o brilho de seu vestido curto reforçou seu brilho: é das mais talentosas cantoras em atividade neste país de cantoras. E é autora de quase todo o seu repertório. O do show de ontem tinha por base Caravana sereia bloom [2012], mais recente álbum de estúdio.

Mas não faltaram músicas de Céu [2006], Vagarosa [2009] e mesmo do Ao vivo. Deste último pinçou suas recriações para Piel Canela, bolero cinquentista de Bobby Capó, do repertório de Eydie Gormé com o trio Los Panchos, e Mil e uma noites de amor, sucesso oitentista de Pepeu Gomes, parceria dele com Baby Consuelo e Fausto Nilo.

Céu (voz, teclado e percussão) estava acompanhada de DJ Marco (scratches e MPC), Dustan Gallas (guitarra, teclado e vocais), Lucas Martins (contrabaixo e vocais) e Bruno Buarque (bateria e vocais), a mesma banda de Ao vivo. Ao cantar o bolero ela os apresentou como “quarteto Los Panchos”.

Ela ainda encarou outros covers: Mora na filosofia, de Monsueto de Menezes e Arnaldo Passos, aparece como incidental em Malemolência [Alec Haiat/ Céu] e Visgo de Jaca, de Rildo Hora e Sérgio Cabral, lançada por Martinho da Vila, ganhou uma interpretação característica desde que a gravou em Vagarosa.

O público delirou com a sequência de reggaes Concrete jungle, Slave driver e Kinky reggae, do antológico Catch a fire, de Bob Marley, disco que completou 40 anos em 2013 e que ela vem tributando em shows há algum tempo. De repente formou-se uma clareira na plateia e os corredores laterais viraram um clube de reggae, com muita gente dançando em pé.

À cantora não faltou simpatia. Elogiou a beleza do teatro e da cidade e revelou que espera voltar o quanto antes. “É muito bom tocar lá fora [no exterior], mas chegar aqui [no Brasil], é outra coisa. Nossa cultura é muito forte”, disse.

Para não deixar de citar, de sua lavra, ela foi de Falta de ar [Gui Amabis], Retrovisor [Céu], Sereia [Céu], Grains de beauté [Céu/ Beto Villares], Cangote [Céu], 10 contados [Alec Haiat/ Céu] e Lenda [Alec Haiat/ Céu/ Graziella Moretto], entre outras.

O bis, magro, trouxe Chegar em mim [Jorge du Peixe]. “Não dá para fazer outro, não há tempo”, justificou-se. Não sei se se referia a algum limite de horário do teatro ou a seu voo de volta ao Rio, onde ela tem show hoje (19), fazendo ao vivo justamente o repertório de Catch a fire.

A depender do público não haveria limite. Céu é o limite.