O barato pesado de Siba

Não mexe comigo que eu não ando só. Foto: José de Holanda

O Bloco Bota Pra Moer, capitaneado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, percorrerá o Circuito Beira-Mar, oficial do Governo do Estado do Maranhão, dia 4 de março (segunda-feira de carnaval), às 16h. O convidado do bloco, em seu segundo ano, é o cantor e compositor eterno novo baiano Moraes Moreira, que ganhou uma homenagem da dupla, Demorô Moraes, composta em parceria com o poeta Celso Borges.

O Bota Pra Moer realiza amanhã (23), às 17h, ensaio aberto na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). O Criolina terá como convidados o grupo Divina Batucada, o dj Jorge Choairy e o pernambucano Siba.

Embarcando para o Maranhão o convidado ilustre conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos sobre sua participação na temporada pré-carnavalesca de São Luís, política e seu disco novo, que lança em maio ou junho. Siba disponibilizou hoje nas plataformas digitais um single do novo trabalho, a faixa Barato pesado.

Barato pesado. Capa do single. Foto: José de Holanda

Siba, como se deu o convite e qual a sua sensação em voltar ao Maranhão para uma apresentação na temporada de pré-carnaval?
Quem me conhece sabe que eu tenho uma longa história de amor com o Maranhão. Cada vez que eu tenho uma oportunidade de ir aí é sempre um momento especial pra mim. O convite se deu através de minha relação de admiração e amizade com o Alê e a Luciana do Criolina. Foi um convite de surpresa, agora, muito próximo do carnaval, a possibilidade de ir aí cantar com eles, viver um pouco dessa [temporada] pré-carnavalesca de São Luís, que eu nunca tive a oportunidade de ver. Vai ser duplamente especial para mim dessa vez.

Como será sua participação e qual o set list previsto?
Eu vou cantar coisas minhas que têm relação com o carnaval, especialmente frevos, A bagaceira, Canoa furada, A velha da capa preta, Bicharada, esse repertório que dialoga diretamente com o carnaval, não poderia ser diferente.

O folião Siba é representado na letra de A bagaceira? “Pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”?
A bagaceira é meio autobiográfica, do meu carnaval de juventude, muito novo, brincando como folião mesmo, sem nenhum vínculo mais direto com a tradição do carnaval que eu fui depois elaborando. Então, quando eu era um garoto de subúrbio em Olinda eu brincava de mela-mela e depois, mais pra frente, tomar uns goles, e sair na sexta e voltar na quarta-feira, esse foi o meu carnaval folião por alguns anos. Depois eu me envolvi com o carnaval, primeiro com o maracatu, e depois profissionalmente como cantor e compositor, e aí deixei esse lado folião para outros momentos, por que já não dava mais para ser no carnaval. Embora eu não sinta falta por que eu gosto muito de fazer carnaval, de atuar e construir o carnaval, de cima do palco. É um momento muito especial, de muita intensidade pra mim.

Em seu disco mais recente [O ouro do pó da estrada, Deck, 2018] Elba Ramalho gravou José, faixa inaugural do Mestre Ambrósio. O que você achou do registro e o que ele significa para você, enquanto compositor?
José é uma música muito importante pra mim, do repertório do Mestre Ambrósio, do primeiro disco [1997], uma música que eu cantei, sei lá, mais de 12 anos a fio, que foi a história da banda. Na voz de Elba ficou incrível, especial, ela é uma intérprete fabulosa, segue sendo uma intérprete única, de voz imediatamente reconhecível, uma marca muito forte na música nordestina e brasileira. Pra mim foi uma honra também de ter essa versão na voz dela. Me deu até vontade de cantar a música novamente no repertório, quem sabe agora eu bote ela de volta na minha lista.

Mais do que nunca o carnaval será uma espécie de escape da realidade. Como você tem acompanhado o cenário político e o que espera do Brasil sob a égide dos militares eleitos em outubro?
Olha, eu não gosto de dizer que o carnaval é escape da realidade, eu acho que o carnaval é a realidade intensificada. É onde a gente coloca pra fora o que há de melhor e pior da nossa realidade, concentrado em comportamento, em fantasia, em música, em expressão. Eu acho o carnaval muito importante para a saúde de nosso país, por que ele é central de nossa cultura e de nossa dinâmica de vida em sociedade. Você me pergunta o que eu espero do Brasil militarizado como ele está: eu sou bastante pessimista, acho que o governo atual é um desastre, um desastre caótico, uma família envolvida com milícia, um trato caótico do governo, cada um diz uma coisa uma hora, um vereador diz o que o presidente tem que fazer, é uma coisa realmente muito complicada. Parece vir dos próprios militares as vozes às vezes mais balanceadas, o que pra mim não é uma vantagem. Na verdade, a gente lutou muito para ter uma democracia de direito, e agora vê a volta dos militares, eu não vejo com bons olhos. Eu espero estar errado, mas eu acho que a gente tem aí um longo período de incertezas pela frente.

O que o fã clube pode esperar de Siba em 2019? Vem disco novo por aí?
Tem sim um disco novo, agora, estou preparando ele. Hoje nós lançamos nas plataformas digitais, um single desse disco, se chama Barato pesado, é uma música que tem muito a ver com o carnaval, por isso que a gente se apressou em lançá-la logo, podem procurar e ouvir. É uma música muito especial para mim, ela é talvez prima-irmã dA bagaceira e está aí pra todo mundo ouvir. O disco sai em maio ou junho, não quero adiantar muito sobre ele. O que eu tenho de melhor pra adiantar está na música que eu lancei hoje, dá para ouvir e ver qual é a pegada do disco. Até já! Estou indo para o Maranhão agora.

Criolina lança clipe antecipando o carnaval

O carnaval vem aí e o Criolina solta novo videoclipe na rede. A menina do salão (Alê Muniz/ Luciana Simões) ainda nem esfriou e eles já saem com Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões), música que batiza o bloco (ou vice-versa?) que o casal Alê Muniz e Luciana Simões comandará na segunda-feira de momo (12).

O nome do bloco homenageia Bota pra moer, um dos “doidos antológicos” de São Luís, catalogado pelo saudoso e múltiplo Lopes Bogéa no igualmente antológico Pedras da rua [Sioge, 1988]. Antonio Lima, seu nome de pia, pernambucano de Caruaru, viveu na capital maranhense, onde protagonizou histórias hilárias. Era hábil em matemática, conseguindo dizer, de cabeça, em poucos segundos, quantos dias, meses e anos a pessoa tinha vivido até ali, a partir de sua data de nascimento. Outra habilidade sua era ler naturalmente um jornal. De cabeça pra baixo.

Mas folclórica mesmo ficou a história de quando se tornou porta-bandeira da famosa Greve de 51. São Luís ficou paralisada pela revolta popular contra a posse do governador Eugênio Barros. Bota pra moer puxava o bloco dos descontentes até o Palácio dos Leões, quando viu o aglomerado de policiais montados a cavalo e passou a bandeira a quem estava a seu lado, dizendo: “até aqui eu trouxe. Daqui pra frente, vocês arranjem um mais doido do que eu”.

O novo clipe do Criolina antecipa o clima do que o bloco promete para este carnaval. Bota pra moer, o bloco de Alê Muniz e Luciana Simões não é oportunista: o casal tem balançado o coreto desde que optou por viver em São Luís e produzir a partir daqui, dando uma contribuição fundamental para a organização e a profissionalização da cena musical, com o advento do Festival BR 135, produzido anualmente por eles. Homenageia uma figura folclórica da cidade. Garante o diálogo multicultural durante a folia, algo já destacado no carnaval recifense e inaugurado cá por estas plagas ano passado com o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público e destaque incontestável do reinado de Momo de ano passado. E realizaram dois ensaios abertos e gratuitos do bloco, na Avenida Beira-Mar, no Centro da cidade.

“Queremos circo, queremos pão/ queremos a libertação”, começa a letra, que traz também a epígrafe da Akademia dos Párias: “loucos somos todos em suma/ uns por pouca coisa/ outros por coisa alguma”. E para não esquecer que o carnaval é também um momento político: “vai querer, vai querer/ bota pra moer/ vai querer, vai querer/ pra gente poder/ sem temer sem temer sem temer”, segue a letra, entre explícita e sutil.

Para o corredor da folia, o Criolina terá como convidados a Bateria da Favela do Samba, o bloco Fuzileiros da Fuzarca, a cantora Rosa Reis e o DJ Pedro Sobrinho, além da participação especial a cantora Elza Soares, entre o estrondoso sucesso de A mulher do fim do mundo [2015] – uma das faixas é intitulada Pra fuder (de Kiko Dinucci, de algum modo antecipando o diálogo com Bota pra moer) – e as gravações de Deus é mulher, novo disco que lançará este ano.

Para o videoclipe, o Criolina contou com as participações especiais de Rosa Reis, Lucas Santtana (que participaram do BR 135 ano passado), Chico César e Zeca Baleiro (que animaram o Bloco do Baleiro ano passado), acompanhados de João Simas (guitarra), Sandoval Filho (teclado) e Thierry Castelo (bateria). A direção do clipe é de Arthur Rosa França, com imagens (em São Luís) de Laila Razzo e direção de estúdio de Rovilson Pascoal (em São Paulo) e Alê Muniz (em São Luís).

Assista o videoclipe de Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões):

Chorografia do Maranhão: Zezé Alves

[O Imparcial, 9 de junho de 2013. Cá no blogue um tantinho maior

Oitavo entrevistado da série Chorografia do Maranhão, Zezé da Flauta tornou-se Zezé Alves e investe na formação para a continuidade da cena.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Estavam enganados os que pensavam que uma cirurgia cardíaca diminuiu a atividade e/ou a intensidade musical de Zezé Alves: ele apenas mudou o foco, trocando os palcos pelas salas de aula. Trocando, não, que o professor já dava aulas enquanto o artista apresentava-se nos bares e bailes da vida.

É o próprio músico, nascido no Maracanã, em São Luís, em 8 de dezembro de 1955, “dia de Nossa Senhora da Conceição”, ele emenda à data, quem faz a distinção entre o Zezé Alves de hoje e o Zezé da Flauta de outrora. Filho do paraibano José Alves da Nóbrega e da doméstica Inês Alves da Costa, ele chegou a morar em Bacabal, onde lembra de ter ouvido choro pela primeira vez na vida, ainda criança: “Palito, mestre Palito, José de Brito, que era dono de um conjunto em Bacabal. Saxofonista, dono do Brito Som Seis. Chegou a ser um dos maiores do nordeste. Era meu vizinho, morava de frente a minha casa. Eu saía, chegava na porta, ele estava tocando Saxofone, por que choras? [de Ratinho].

Sua mãe “fazia aqueles reisadinhos, aqueles autos, tocava cabaça, gostava muito de cantar, talvez esta seja a origem familiar”, afirma, sobre sua musicalidade. “Sempre fui muito musical”, continua. “Quando comecei, criança, eu cantava, eu era cantor, cantava Waldick Soriano. Talvez a coisa da minha musicalidade seja a seguinte, tem uma história muito interessante. Quando eu era criança eu era muito fraquinho das pernas, cheguei a ir a médicos, tomar remédios, pra ficar mais forte. E tinha um rádio e eu ficava sentado debaixo desse radio, num caixotezinho, um banquinho, um tamborete, ouvindo todas as músicas do rádio da época, da década de 1950, virando pra 60, Orlando Silva, Waldick Soriano, eu repetia todas essas músicas”, começa a contar antes mesmo da primeira pergunta.

Além de flauta, Zezé toca violão, para compor e estudar harmonia. Depois de ter ajudado a formar muitos músicos que hoje tomam conta da cena local, o professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo considera-se uma espécie de “Bota pra Moer”, apelido de Antonio Lima, folclórico personagem ludovicense que carregou uma bandeira numa passeata contra o governador Eugênio Barros, em 1951. “Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu”, teria afirmado, conforme relata Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua (1988).

Zezé Alves recebeu os chororrepórteres em casa. Isto é, na Sala Leny Cotrim Nagy, na EMEM, a mesma que serviu de cenário para uma das fotografias do encarte de Choros Maranhenses, disco de estreia do Instrumental Pixinguinha. Estudantes de música em aula em duas salas contíguas garantiram a boa trilha sonora da conversa.

Além de músico, qual a tua outra profissão? Eu fui criado por outra família e essa família não queria que eu fosse músico, pois o pai desse pai que me criou não se deu bem, era saxofonista. Eles não queriam, eu tive que sair de casa. Eu comecei a tocar, tocar mesmo, com 22 anos já. Mas eu só vivia cantando. Na realidade me formei em contabilidade, sou contador, técnico em contabilidade. A outra profissão seria essa, por que eu trabalhei com meu pai por muito tempo num comércio, eu sei muito de comércio.

Você exerceu a profissão? Não, não exerci a contabilidade. Mas trabalhei junto no escritório dele muito tempo, ajudava nessa área. Aqueles irmãos do Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva] eu conheci todos do Banco do Brasil por que eu ia pagar as duplicatas do comércio do meu pai e os via lá.

Quando tu falas que começaste a tocar com 22 anos, isso tu falas profissionalmente? É, por que eu cantava, eu já arranhava um violãozinho, tocava Eu só quero um xodó [de Dominguinhos e Anastácia, sucesso na voz de Gilberto Gil], tocava flauta doce, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo [repete enfatizando]. Quando chega em 77, em 76 eu saí de casa, em 77 é que aí eu digo que é o meu marco: eu participei de um show chamado Boca do Lobo, de [o compositor] Sérgio Habibe. Esse show foi o primeiro com características de show, com banda, com [o violonista] Joaquim Santos, [o compositor] Ronald Pinheiro, e eu na flauta começando. Por que na realidade, meu professor de música, meu primeiro mestre de música, é o Sérgio Habibe, é meu mestre mesmo! Quando [o violonista] João Pedro [Borges, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] volta à São Luís, em 97, eu já o conhecia, ele de certa forma passou a ser o meu mestre, me convidou para trabalhar no Musiceuma junto com ele, aí foi que eu comecei a reforçar mais a ideia de ser educador musical. Ele reforçou isso. Eu comecei essa carreira, de 77 pra cá, comecei no show dele [de Sérgio Habibe], ele trouxe uma flauta do Rio de Janeiro, daqui a pouco eu tava tocando com todo mundo. Eu é que fui o “Bota pra Moer”, até enquanto surgiu o [flautista João] Neto, Paulinho, Lee Fan. O que eu quero agora é a função de educador. Até por que eu gosto de ensinar, sempre gostei de ensinar, eu ficava dando aula em mesa de bar [risos].

Se tu pudesses citar três músicos que foram bem influentes pra ti, do começo até agora… Palito foi o primeiro cara que eu ouvi tocar. Mas, claro: Sérgio Habibe, Chico Maranhão e João Pedro Borges. Por que Chico Maranhão também influenciou muito na minha vida, estive em São Paulo, acompanhando-o no Lances de Agora [1978]. As pessoas às vezes dizem [imita um cochicho] “ah, por que Chico Maranhão é um cara chato” [volta ao tom normal], quem é amigo dele não acha. Eu sou amigo dele, de ele ligar “vem comer aqui um tabule comigo”.

Esses três nomes que tu citaste, de João Neto, Lee Fan e Paulinho, seriam os nomes de destaque, na flauta, hoje, no Maranhão? Sim, sim. A gente não pode negar o Serra [de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], o grande Serra, pelo tempo, pela história dele, aquela qualidade que ele tem de tocar, lembrando Copinha, lembrando Carrilho, inclusive o Sérgio me disse isso uma vez, “Zezé presta atenção, toca igualzinho”.

Você vive de música? Vivo de música como professor de música. Sou funcionário do Estado e hoje, depois de uma pós-graduação, estou professor substituto na UEMA. Como instrumentista, o que eu ganhava era pra pagar a passagem no outro dia e tomar uma e tal. Então, sobrevivo de música, como professor, dou aulas particulares.

Tu tens uma preocupação muito grande com o registro da obra de chorões, seja no disco [Choros Maranhenses, de 2006] do Instrumental Pixinguinha, seja no Caderno de Partituras [2012]. A gente percebe que o registro ainda é uma fraqueza, mesmo com todas as tecnologias hoje disponíveis. A que tu creditas essa pobreza de registro? O pouco registro se deve a certo descaso nosso mesmo. Nós admiramos muito o que é dos outros, muita besteira. Se você ver pessoas como Cleômenes [Teixeira, compositor], Tomaz de Aquino, eram grandes professores, saxofonistas, mas não houve nenhum registro. As condições técnicas não havia, agora é que estão surgindo gravadoras com nível, mas na década de 70 não havia onde, edição de partituras era raridade. Agora é que a Escola de Música vai ter um banco de partituras, quer dizer, quase 40 anos depois [da fundação da EMEM]. O Rabo de Vaca foi um grupo que eu sempre disse que é uma escola, muita gente passou por ele: Ronald Pinheiro, [o compositor] Josias Sobrinho, [o compositor] Beto Pereira, [o contrabaixista] Mauro Travincas, todo mundo passou, mas tem pouco registro. Josias deve ter uns k7s. A gente não ligava para registrar, não havia recursos tecnológicos, nem apoio.

O Rabo de Vaca foi importante para o desenvolvimento da música do Maranhão. De que outros grupos você participou? O mais importante foi o Rabo de Vaca. O Rabo de Vaca é a cabeça de Josias. Ele tinha saído do Laborarte e eu entro no Laborarte, era muito amigo de Nelson Brito [ator e diretor teatral, ex-diretor do Laborarte], que trabalhava numa loja de discos de um tio dele, tava todo mundo debandando, e havia um departamento de artes, eu entrei, o período em que fiquei no Laborarte, Josias saiu, mas o [a peça] Cavaleiro do Destino ainda estava sendo encenado. Eu entrei para tocar violão nas peças. Em outubro [de 77] o Aldo Leite monta uma peça chamada Os Saltimbancos, e se não me engano, foi o segundo lugar em que foi feito com músicos ao vivo. No Rio de Janeiro era feito com músicos, depois no Maranhão. Nos outros lugares era playback. Na do Maranhão o Aldo Leite convidou Josias, “monta um grupo”, e se fez ao vivo. Josias convidou Beto Pereira, Mauro Travincas, acho que [o percussionista] Manoel Pacífico e Vitório Marinho, um cara que pouca gente fala, um moço cego que tocava violino. A gente tinha público. Foi um grupo muito importante para a música maranhense. Depois disso, Beto Pereira fez um grupo para tocar música maranhense em barzinhos, tocou muito, o Amor de Canela, era eu, [o percussionista] Carbrasa, Mauro, [o percussionista] Jeca e Beto, o banda líder [aportuguesa o band leader]. E no Maçaroca [1986], disco dele, ele gravou uma música nossa [Campo Cidade, parceria de Zezé Alves e Paulinho Lopes]. Depois teve outro grupo, eu, Omar Cutrim, Fazendo Mel, que era uma música dele…

E o [Instrumental] Pixinguinha? Aí sim, aí é que vem o Pixinguinha. A gente já era professor da Escola de Música, eu, Marcelo [Moreira, violonista], [o bandolinista] Raimundo Luiz, quando [Francisco] Padilha chegou, começou a ser diretor da Escola, teve essa ideia, junto com Marcelo, que era carioca, a escola precisava criar um núcleo de música popular, criaram a Big Band junto com Tomaz e Marcelo encabeçou, de certa forma, a criação de um grupo de choro. Por que um grupo de choro? Por que é a nossa música, com raiz no samba. Por que Instrumental Pixinguinha? Por que foi o maior arranjador e não sei o quê e não sei o quê. O Instrumental Pixinguinha vingou, tocamos em muitos lugares, fez um trabalho belíssimo, aquele cd, Choros Maranhenses, pioneiro, que esse caderno [aponta para o Caderno de Partituras] é uma continuidade dele, aqueles dez choros e mais alguns. Pra não falar dos compositores que eu acompanhei. Com [o cantor, compositor e violonista] Chico Nô e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira] a gente teve um trio chamado Trio Tom, tocávamos Bossa Nova, é outro grupo de que participei. Toquei muito no Cacuriá de Dona Teté. De início era só caixa, depois tiveram a ideia de botar flauta, depois eu fiquei tocando, viajei o Brasil todo por conta do Cacuriá de Teté.

E atualmente? Atualmente eu sou titular, fundador do Pixinguinha. Emérito [risos]. Atualmente o que eu quero mesmo é essa coisa de educador musical.

Quando tu começaste a dar aulas na Escola de Música? Essa coisa da Escola de Música é interessante. Teve um governo, na época da Olga Mohana, ela foi ao Rio de Janeiro, e alguém escolheu para ela, uma porção de professores. Estes professores moravam no Seminário Santo Antonio, ela era irmã do padre João Mohana. Os caras ganhavam uma grana, na época coisa de 10 salários mínimos. Nós tivemos Watanabe, grande violinista, Emanoel Martinez, hoje regente do coral de Curitiba, Mércia Pinto, Cidinho Ornelas, então foi um naipe incrível. De repente foi todo mundo embora. Dessa leva o cara que ficou e hoje é uma figura importante é o Marcelo Moreira. Quando Padilha chega, pegou os alunos mais avançados e transformou em professores. Era eu, Raimundo Luiz e alguns outros.

Uma das críticas recorrentes à Escola de Música é a erudição, o distanciamento da pulsação de São Luís, uma coisa mais de cultura popular. Isso parece que vem sendo equacionado nos últimos anos. Vem sim. A Escola, quando ela foi lançada, na época da professora Olga, ela foi pensada nesses moldes, de formar músicos de orquestra. Ela era meio mãe, e dizia “tu vai estudar viola e tu vai estudar piano”, ela era quem dizia. Por um bom tempo ela ficou nisso, ficou nessa insistência. A primeira aluna formada aqui, grande pianista, com [o então governador do estado] João Castelo entregando diploma e tudo, foi a professora Rosimary Fontoura. Hoje em dia se forma muito aluno na área popular, violonista, baterista, cavaquinhista. Quando chega a música popular na escola, que é quando a direção chama Jayr [Torres] pra dar aula de guitarra, Diógenes pra dar aula de contrabaixo, Jeca chegou a dar aula de percussão, abriu concurso, hoje em dia Rogério Leitão é professor de bateria da casa. Essa vertente, chamada núcleo de música popular, ainda hoje em formação, com isso a escola se tornou uma coisa mais popular, encheu. O Jayr Torres faz toda sexta uma coisa chamada Sexta Musical, Sexta Jazz, enche. 90% dos alunos da escola são evangélicos. Isso mudou, se não a escola estaria do mesmo jeito.

Tu tocaste em alguns discos importantes, como Lances de Agora, Pedra de Cantaria [disco coletivo gravado em Belém, reunindo diversos compositores maranhenses, entre eles Chico Maranhão, Josias Sobrinho e Giordano Mochel], Maçaroca, Choros Maranhenses. Eu queria que tu lembrasses outros discos que têm tua flauta. O de Fátima [Passarinho, Voos, 2007] eu fiz uma flauta lá. Com Joãozinho Ribeiro eu participei daqueles shows do Samba da Minha Terra [temporada de 18 shows em bairros ludovicenses produzida por Vanessa Serra] e agora da gravação do Milhões de Uns [estreia de Joãozinho Ribeiro em disco, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a ser lançado em breve], em que ele gravou uma parceria nossa [a música Rua Grande, interpretada por Lena Machado]. De Sérgio eu nunca toquei em nenhum disco dele, ele gravava quase tudo no Rio. Fiz pontas em outros.

O que é o choro pra ti? Que importância tem para a música feita no Brasil? A visão que eu tenho é a que todo mundo tem: o choro como raiz dessa música popular urbana. Tem essa história toda que vocês já conhecem, da década de 30 pra cá, com Noel Rosa, com Pixinguinha. Como raiz dessa música, a mistura do batuque com a música que veio com o colonizador europeu, que criou a escola nacional, tocaram juntos com os músicos que vieram nas caravelas, e daí, teve o momento de renascimento, a partir do momento em que os caras vão estudar em Berkeley, depois a chegada da Odete Ernst Dias, que é uma mãe de todos os flautistas. O choro, a importância dele é inconfundível, inegável. Tem que estudar o choro para compreender a música brasileira. Aquela máxima de que tudo é choro, de repente vale, tudo é choro, tudo é baião. Luiz Gonzaga quando chegou no Rio, chegou tocando choro. Aliás, Gonzaga é nosso primeiro músico pop.

Como tu observas o choro hoje? Já está começando a se universalizar. Já está tendo outras influências, já estão fazendo choros mais modernos. Se você pegar o [violonista] Guinga, já faz choros mais elaborados, com a influência do jazz – Influência do Jazz [Carlos Lyra] é o nome de uma música da bossa nova [risos] – ele não tá parado, ele tá evoluindo. A pessoa hoje em dia já não estuda choro só pra tocar choro como antigamente. Ele está enriquecendo. O cara pega, estuda, vai atrás, vai fazer uma boa música.

Que nomes tu destacarias nessa cena? Gostei muito do [saxofonista] Eduardo Neves. Alguns que eu nunca mais ouvi falar, mas são muito interessantes, o [saxofonista] Zé Nogueira, o [saxofonista Mauro] Senise, assim, que eu conheço mais. Atualmente, que eu conheço, o Guinga, que a gente pode considerar um cara do choro. Tem aqueles já mais tradicionais, [o trombonista] Zé da Velha, [o trompetista] Silvério Pontes. É tanta gente que não dá para dizer um ou dois só, tem muita gente fazendo choro.

Tu disseste que tua obra como compositor é pequena. Saberias precisar em números? Quantas composições? Ah, poucas. Por que na realidade eu fiz esse choro, Candiru [parceria com Omar Cutrim gravada em Choros Maranhenses], tenho duas músicas só, mais, assim. O resto tudo tá no baú, eu toco quando me lembro. Choro é só essa. O resto são baladas, são músicas seis por oito. Com Paulinho Lopes eu tenho umas coisas que nunca foram gravadas.

Independentemente de compor choro, tu te consideras um chorão? [Pensativo, demora a responder] Não. Não. Essa resposta é meio doída, mas eu não me considero um chorão, não. Por que eu me interessei pelo choro quando foi criado esse grupo que eu tive que aprender a tocar, a mergulhar. Por que com o Rabo de Vaca eu tocava era os bois da gente, os baiões, frevo, xote, xaxado. Quando era criança, o primeiro cara que eu ouvi tocando Saxofone, por que choras?, mestre Palito, todos aqueles discos de Pixinguinha, Altamiro Carrilho na banda do Palhaço Carequinha, tudo aquilo eu ouvia.

Como tu observas o atual momento do choro no Maranhão? O choro no Maranhão, se for pegar na raiz, a gente tem sempre os antigos, por que eles tocavam choro mesmo, todo mundo tocava, tocou-se muito choro. Se você pegar, todo mundo, Cleômenes, Palito, seu Raimundo Amaral. Aqui em São Luís, a referência que eu tenho é o [Regional] Tira Teima, é Ubiratan [Sousa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Paulo Trabulsi. O Pixinguinha foi o segundo grupo. Depois do Tira Teima e do Pixinguinha, não demorou muito, o Pixinguinha reinou um pouco, aí começaram a surgir, por exemplo, o Chorando Callado, com Tiaguinho [o saxofonista e clarinetista Tiago Souza], hoje tem Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista], que tá um figura, indo gravar em Brasília, São Paulo, tem esse menino do bandolim, o Robertinho Chinês [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], tem o João Eudes, os filhos de Osmar, tem Osmar [do Trombone], que eu fico muito feliz por ele, foi visitar o filho, os colegas adoraram, ele virou estrela, está gravando o disco lá em Minas. Quer dizer, continua aquela coisa, Clube do Choro sem sede, o povo se reunindo aqui, aqui, ali, mas tem uma geração boa tocando. Meus alunos, quando eu falo, dou o caderno pra todo mundo, “ah, tocar choro” e tal. Tá todo mundo tocando choro.

Nesse processo de pesquisa para o Caderno de Partituras, quais foram as principais dificuldades? Não houve muitas dificuldades. As 10 partituras do disco eu já tinha. Minha ideia foi recolher mais uma de cada. Eu editei, fui nos autores pra corrigir. Escolhi algumas que achava muito importantes. Cesar Teixeira não podia deixar de ter. Algumas partituras eu escrevi, mas a maioria os autores já me deram.

Quem são os teus compositores preferidos da música popular no Maranhão? Aí vão entrar as paixões. A ordem é aquela mesminha: Sérgio Habibe é um cara maravilhoso, o Chico, Josias, tem um cara que eu tenho lembrado muito dele agora, por causa dessa história do Bandeira de Aço, que é o Mochel. Cesar Teixeira inegavelmente, tem características muito próprias, de samba, tem aquela consciência política dele muito forte. É um cara muito especial.

Quais os teus próximos projetos no campo da música? Me aprofundar mais. Fazer um mestrado, se der. Aprofundar.

Qual é a diferença entre o Zezé da Flauta e o Zezé Alves? O Zezé da Flauta surgiu a partir do momento em que eu peguei uma flauta e comecei a tocar em shows, com todo mundo. É a história do “Bota pra Moer”, eu chegava e o pessoal, “olha Zezé!”, e eu onde chegava tirava, e tocava, de graça, toquei muito, tava aprendendo, toquei muito romanticamente. Esse é o Zezé da Flauta. O Zezé Alves é o educador, que começa a racionalizar mais as coisas. Todos dois são legais [risos]. As pessoas me chamam de Zezé da Flauta, gente que me reencontra depois de não sei quantos anos. As pessoas que me conhecem hoje já me chamam de Zezé Alves.

Essa distinção entre um Zezé e outro tem a ver com o consumo de álcool? Não. Por que Zezé Alves ainda bebeu pra poxa [risos]. Todo mundo que passa por essa cirurgia do coração muda muito. Eu acho que é por que o cara vai lá e volta [risos]. Mas não tem a ver não.

Você vê algum futuro para o choro no Maranhão? Não só para o choro. Teu programa [o Chorinhos e Chorões que Ricarte Almeida Santos apresenta aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], uma iniciativa como a do Alê Muniz, lembrar os 35 anos de um disco [o show em que o projeto BR-135 homenageou o Bandeira de Aço no Teatro Arthur Azevedo]. A música do Maranhão precisa se organizar. Elizeu Cardoso, Bruno Batista, há uma moçada nova muito boa, são mais organizados. A gente era mais romântico.

Tu hoje estás mais concentrado na função de professor. Mas o que te tiraria de casa para um palco ou um estúdio? O convite de grandes amigos, participar de um projeto interessante, com minha turma. Mas mesmo para pessoas de hoje eu não me nego. É só me ligar e marcar que eu vou.

Bota Pra Moer

Antônio Lima era o nome próprio daquele pernambucano entroncado, de cor clara, cabeça a la Rui Barbosa, natural de Caruaru e do qual os maranhenses recordam muitas histórias. Devido a sua impressionante inteligência, logo que aqui chegou foi batizado pela plebe de “Bota Pra Moer” e essa alcunha o acompanhou até o fim de sua existência. “Bota Pra Moer” era simplesmente impressionante, um matemático como até então nunca tinha aparecido igual em São Luís. Para quem não teve o privilégio de conhecê-lo, basta dizer que “Bota Pra Moer” chegava para uma pessoa e perguntava o dia, mês, ano e hora em que aquela pessoa nascera. De posse destes dados e num rápido cálculo que fazia mentalmente, dali a minutos respondia quantos anos, meses, dias e horas aquela pessoa tinha vivido até aquele instante. Outra faceta impressionante deste personagem era ler (mas ler mesmo) um jornal de cabeça para baixo e ficava lendo com a maior naturalidade. Depois relatava tudo o que os jornais estavam noticiando.

“Bota Pra Moer” usava sempre roupas de segunda mão que ganhava de famílias mais abastadas. Almoçava, jantava e, às vezes, dormia na residência do farmacêutico Garrido, proprietário da Farmácia Garrido, na Rua Grande. O farmacêutico não admitia que o chamassem pelo apelido e tinha, juntamente com sua esposa, uma estima muito grande pelo excêntrico matemático. Conta-se que, certa vez, “Bota Pra Moer” chegou à farmácia do seu Garrido e perguntou-lhe, num tom muito sério

“Seu Garrido, o senhor gosta de carne de boi?”

Garrido que estava muito atarefado, respondeu que sim, gostava de carne de boi. “Bota Pra Moer”, depois de algum instante, novamente tirou o farmacêutico de suas tarefas e perguntou-lhe:

“Seu Garrido, o senhor come carne de boi?”

Um pouco chateado, Garrido respondeu:

“É claro, Antônio, eu gosto e como carne de boi. E tu, não comes?”

Ao que “Bota Pra Moer” respondeu, ironicamente:

“Comer eu como, seu Garrido, mas é sentado…”

O farmacêutico caiu na gargalhada, diante daquela tirada de “Bota”.

Os bolsos de “Bota Pra Moer” viviam cheios de pão, que ele comia constantemente. Em outros bolsos guardava papéis e tocos de lápis para fazer seus cálculos. Às vezes era contratado por firmas para sair fazendo propaganda de casas comerciais. Nessas ocasiões andava pelas ruas com duas placas, uma na frente e outra atrás, anunciando os produtos e preços da firma comercial que o contratara. E como ficava feliz e sorria quando os transeuntes paravam para olhar as placas que conduzia!

“Bota Pra Moer” gostava também muito de crianças, sempre tinha alguma coisa para oferecer aos petizes que o cercavam. Um de seus hábitos era fazer casinhas de papelão que vendia para as crianças, a preços módicos, porque, para ele, o importante era fazer felizes aqueles pequeninos seres. Outra mania do nosso personagem: colecionar nos bolsos bolinhas de gude. Quando encontrava alguém disposto fazia aposta de como era capaz de engolir aquelas bolinhas e quase sempre ganhava, trazendo-as de volta na hora em que fazia as necessidades fisiológicas. Tirava as bolinhas da “massa fecal” e limpava, guardava-as novamente nos bolsos, à espera de novos apostadores.

São Luís é conhecida como “Ilha Rebelde” devido à célebre greve de 1951, quando o povo se revoltou contra a posse no governo do Sr. Eugênio Barros. Um dia os grevistas entregaram a “Bota Pra Moer” a bandeira nacional e o colocaram à frente, numa marcha rumo ao Palácio dos Leões. Os grevistas se autointitularam de “Soldados da Liberdade”. Quando a turba chegou à Praça Pedro II e “Bota Pra Moer” viu aquele monte de policiais em frente ao Palácio, com as armas em ponto de bala, prontamente entregou a bandeira para o primeiro que apareceu, afirmando:

“Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu…”

Outros fatos pitorescos que se conta de “Bota Pra Moer”:

Certa vez telefonaram da residência do Sr. João Pereira, avô do Dr. Gabriel Cunha (que morava na Rua das Hortas) pedindo que fosse com urgência com determinado medicamento para uma pessoa da família que estava passando mal. Nessas ocasiões, o farmacêutico sempre pedia a “Bota Pra Moer” para fazer tais entregas. E foi o que aconteceu naquele dia. Seu Garrido tirou o remédio da prateleira, chamou “Bota” e deu-lhe o medicamento, instruindo-o quanto ao endereço onde deveria entregá-lo.

“Bota Pra Moer” chegou à porta da casa do Sr. João Pereira e bateu. Não foi atendido, tornou a bater e nada. Insistiu mais uma vez e ninguém dava sinal de vida. Vendo uma janela aberta, “Bota” pulou a referida janela, foi até a varanda da casa, deixou o remédio em cima de uma mesa, voltou a pular a janela e retornou para a farmácia. Ao chegar àquele estabelecimento, seu Garrido perguntou-lhe:

“Como é, Antônio, deixaste o remédio lá onde eu te disse?”

“Deixei, seu Garrido. Não tinha ninguém na casa e eu coloquei em cima de uma mesa.”

A essas alturas, na residência do Sr. João Pereira, estava todo mundo estupefato, sem saber como aquele precioso remédio fora parar em cima da mesa, sem que ninguém tivesse aparecido. Já estavam considerando um verdadeiro milagre, quando Garrido telefonou e contou a presepada de “Bota Pra Moer”.

Em outra ocasião, o então Presidente Dutra estava em visita a São Luís, trazido pelo Senador Vitorino Freire. Como parte da programação, Dutra e Vitorino foram para o Estádio Santa Isabel, onde o Presidente deveria dar o pontapé inicial de uma partida entre Sampaio e Moto. Quando as autoridades adentravam ao gramado (como dizem os locutores esportivos) lá atrás ia o “Bota Pra Moer”, muito na dele, jogando ioiô de tampa de panela. Nas arquibancadas e gerais a gritaria era infernal, todos se deliciando com o feito do “Bota”…

Pouco antes de “Bota Pra Moer” deixar este mundo, foi protagonista de outro episódio interessantíssimo. Tocava uma valsa numa das casas comerciais da Praça João Lisboa e nosso personagem, desinibido como era, apanhou a esmoler conhecida por Tiririca e com ela saiu valsando pelo calçadão existente em frente ao Moto Bar. Foi um acontecimento! Muita gente parou para ver aquele casal dançando feliz em plena praça, deixando de lado as tristezas da vida.

“Bota Pra Moer” costumava banhar-se numa lagoa infecta que se formava na Rua Paulo Frontin (no hoje bairro Retiro Natal) e que na época estava sendo aterrada. Aquela lagoa era, para o “Bota”, uma espécie de piscina, de rio ou de mar. Numa dessas vezes, vitimado por um mal súbito, “Bota Pra Moer” pereceu naquela lagoa e seu corpo foi encontrado no dia seguinte por populares que ali transitavam.

O corpo de “Bota Pra Moer”, depois de autopsiado, foi entregue à Faculdade de Medicina, onde os acadêmicos dele fizeram uso para seus estudos. Mesmo morto, o conhecido matemático foi útil – ou continua sendo útil – para os maranhenses…

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Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua [São Luís, 1988, 320 p.], cuja capa desenhada por Elvas Ribeiro, vulgo Parafuso, abre-ilustra este post. No livro o saudoso compositor dedica-se a perfilar estas “figuras populares”,  “gente simples de São Luís”, merecedoras de “nosso respeito e o nosso carinho”, como alerta o autor no preâmbulo da obra.