Chorografia do Maranhão: Lee Fan

[O Imparcial, 7 de setembro de 2014]

O flautista e saxofonista “bossa nossista” Lee Fan é o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista e saxofonista Lee Fan foi apresentado ao choro através de um cavaquinho que ganhou de presente de uma tia, professora de música. Na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ele concluiu os cursos de cavaquinho e flauta transversal. O saxofone foi consequência.

Lee Jun Fan Santos de Sousa herdou o nome de Bruce Lee, astro de filmes de artes marciais de quem seu pai é fã e resolveu batizar o filho, homenageando-o. O menino Lee chegou a enveredar pelas artes (marciais), mas temendo algum acidente com as mãos, optou pelas artes (musicais). Impossível não lembrar os versos de Caetano Veloso, em sua Um índio: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. “Minha vó era índia”, revelou-nos o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, cujo depoimento foi colhido no pátio comum entre La Pizzeria e a Pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande, espaço onde ele mesmo, então um garoto com entre 14 e 15 anos, chegou a tocar, durante a breve temporada em que o espaço abrigou o saudoso projeto Clube do Choro Recebe, de que ele lembra com carinho e saudade.

Lee Fan nasceu em 19 de março de 1993, em São Luís. Desde então mora na Cidade Operária. “Moro com meus pais”, conta o filho de José de Ribamar Ferreira de Sousa, técnico em informática, e Conceição de Maria Matias Santos, ex-cobradora de ônibus, que deixou a função após ser vítima de nove assaltos. “Ela contraiu fibromialgia, não pode mais trabalhar na profissão. Mas sempre foi muito guerreira, não gosta de ficar parada, sempre teve um pulso administrativo muito grande, então montou lá em casa uma lan house, uma xerox, que ela mantém e com que paga nossas contas. Lá em casa todos somos autônomos”, admite o garoto prodígio.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você está cursando faculdade? Faço Música, sétimo período da Licenciatura na UFMA [Universidade Federal do Maranhão].

Você chegou a procurar outra coisa? Os pais chegaram a recomendar fazer outra coisa por que música não dá futuro ou sempre teve apoio? Graças a Deus, lá em casa eu sempre tive muito apoio. Minha mãe sempre me instigou a estudar o que eu queria. O que ela sempre me diz é que para o bom profissional não falta trabalho. Esse é o lema que a gente carrega. Minha família é de músicos, essa nova geração. Tudo começou com minha tia, Maria Zélia, que é professora da Escola de Música, é minha tia legítima, irmã de minha mãe. Eu sempre tive esse total apoio.

Mas teu pai não quis que você fosse lutador de artes marciais? [Risos]. Na verdade eu cheguei a praticar, eu lutei alguns anos tae-kwon-do, cheguei até a competir, estava tendo um bom desempenho, ganhando medalhas. Só que nessa época, mesmo novo, eu já fui obrigado a tomar uma decisão: ou música ou arte marcial. Eu lutando era um risco grande de machucar minha mão. Como eu já tinha esse foco, de trabalhar com música, eu não quis correr esse risco. Então abri mão da luta.

Além de músico você desenvolve alguma outra atividade para ganhar dinheiro? Ou vive de música? Não. Eu sobrevivo, não é “nossa, como eu ganho dinheiro!”, mas eu ganho dinheiro, procuro rendas em vários ramos da música. Eu não sou um cara que “ah, eu só quero tocar, meu cachê vai ser tudo pra mim”. Não, eu não penso assim, tanto que estou fazendo uma faculdade. Eu dou aulas, trabalho com gravações, além dos shows. A gente tem no Bossa Nossa um pouquinho da parte empresarial, a gente consegue ganhar um pouquinho mais. A gente tenta de todas as formas aumentar a nossa renda trabalhando com o que a gente gosta, sem precisar ir para outros ramos, outras profissões. Eu tento com música pagar as minhas contas, estou conseguindo. Pela faculdade já consegui algumas coisas, já estou dando aula no Sesc [Serviço Social do Comércio] de carteira assinada. A profissão de professor, mais o artista da noite, mais o cara que trabalha com gravação, quer dizer, estou juntando tudo para montar o profissional, o músico.

Para sobreviver de música, figurativamente, tem que rebolar, não é? [Risos]. É, não é fácil. Quem achar que é fácil está enganado. Muita gente, até amigos nossos, colocam a música muito pra baixo, como se fosse uma coisa. Dizem “Deus me livre que meu filho estude música”. Eu já não penso assim. Se quiser estudar música, vou apoiar, vai ser a escolha dele. Lógico que cada escolha é uma renúncia, você vai ter que saber que você vai ter que passar por uma fase que não vai ser fácil, abrir mão de vários finais de semana com sua família, até ter uma situação favorável onde você possa selecionar os trabalhos, mas até aí é uma trajetória que não é fácil, nem pequena. Dependendo do mercado em que você vai trabalhar, se é no Rio de Janeiro, se é no Maranhão, você vai ter que manter uma rotina de estudos de alto nível.

Antes de ingressar na UFMA você estudou na Escola de Música, não é? Sim. Estudei na Escola de Música flauta transversal e cavaquinho. Flauta transversal eu estudei com o professor Paulo Santos, o grande Paulinho, e o cavaquinho eu estudei com o Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], o Emilson Pires [nome de batismo de Juca do Cavaco], e com o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], sendo que eu entrei na Escola de Música no cavaquinho. Aprendi flauta doce em casa, através de minha tia. Quando eu entrei na Escola de Música eu já tinha um cavaquinho, que ela me presenteou, e eu comecei a estudar cavaquinho. Logo após eu fui para a flauta transversal. Lá na Escola de Música eu vi uma apresentação do grupo Instrumental Pixinguinha, foi quando eu vi pela primeira vez alguém tocando flauta transversal ao vivo, aquilo me encantou muito. No semestre seguinte eu me inscrevi para flauta transversa. A partir de então não parei mais de estudar o instrumento. Até deixei, na verdade, um pouco o cavaquinho de lado para poder me dedicar à flauta transversa.

Você chegou a concluir o curso na Escola de Música? Sim, todos dois. Fiz os 10 períodos.

Além de tua tia Zélia, que com certeza te influenciou bastante, como era o ambiente familiar em relação à música? O que se ouvia? Meus pais gostavam muito de samba. Meu pai sempre ouvia aquelas músicas bem retrô, Alphaville, bem antigas, brega também rolava muito. Eram pessoas que ouviam coisas normais, não era bossa nova, não era jazz, não era blues, não tinha seleção. Minha mãe não tem o perfil de ligar o som para ouvir música. Meu pai, sim, ligava, ficava ouvindo. Eu fui aprendendo ouvindo, hoje eu sei tocar muita música antiga de ouvir quando meu pai ligava e botava para tocar.

Além de flauta e cavaquinho você toca algum outro instrumento? Toco sim. Atualmente os instrumentos a que me dedico são a flauta transversal e saxofone. Por que o saxofone? Eu trabalhei em um grupo chamado Pagode do Ivan. Em vários grupos, mas o Pagode do Ivan foi o principal. Hoje em dia, não só na música, as pessoas têm que ser polivalentes, têm que ser versáteis, na música principalmente. Eu não poderia ficar tocando só a flauta transversal por que o mercado pede que o músico de sopro toque também saxofone. Houve uma tendência para que eu começasse a aprender esse instrumento. Não foi uma obrigação. Eu experimentei, gostei muito e hoje eu me dedico a esses dois instrumentos com o maior prazer.

O cavaquinho está meio largado. Isso! Eu ainda toco cavaquinho. Como eu trabalho com as mãos, a música está direto, todo dia em mim. Quando eu pego o cavaquinho, eu ainda sei tocar as mesmas coisas, eu só não vou pra frente. Mas pra trás, graças a Deus, eu ainda não fui [risos].

A busca pelo saxofone foi autodidata ou você teve professor? Foi autodidata. Eu não fui para um lugar pegar aula, mas eu sempre pesquiso muito, converso muito com quem toca. Quer dizer, eu acabo pegando aulas com várias pessoas, que é uma aula de conversa, não é uma aula de didática, com roteiro. Como eu já tocava flauta, eu tive muita facilidade de migrar para o sax, a digitação é bem parecida, a diferença maior é na embocadura. Quando eu comprei o sax, não sabia nada, fui tocando e metendo a cara.

A escolha dos sopros deve-se à influência de tua tia? Como é que a flauta aconteceu? Não. Ela me deu um cavaquinho. Eu aprendi a tocar flauta doce e tocava até relativamente bem, zerei os métodos todos. Fui pra Escola de Música, estudei cavaquinho e simultaneamente estudava flauta doce. Um dia fui ao [Teatro] Arthur Azevedo e o Pixinguinha era um dos grupos da programação. Se não me engano, era até o João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] que estava tocando, não era o Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] que estava nesse dia. E a música que me marcou muito foi André de sapato novo [de André Victor Correia]. Eu ouvi aquela música, fiquei, “nossa, é isso que eu quero para mim”. No semestre seguinte eu me matriculei, ganhei minha flauta estudante, comecei a estudar. Como minha família é de músicos, desde cedo começou a aparecer trabalho para mim. “Nossa, ele é criança!”, eu comecei a ir juntando uns trocados para comprar essa flauta aqui [aponta para seu instrumento, sobre a mesa], que eu já consegui comprar com os meus trabalhos.

Além do Bossa Nossa e do Pagode do Ivan, de que outros grupos musicais você fez parte? Participei do grupo Vamu di Samba, antes do Pagode do Ivan. Antes do Vamu di Samba eu participei do grupo Som Brasil, só que foi uma passagem rápida. Simultaneamente, nessa época, era até com Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], o grupo Som Brasil, lá na Escola a gente tinha uma brincadeira, a gente tocava samba e pagode, que era o grupo Pagodez. Era uma brincadeira, mas foi lá que eu comecei a entender a linguagem do samba, como colocar a flauta no samba. Apesar de ser música brasileira, ser ligado ao choro, a forma como você vai colocar, para não atrapalhar quem está cantando, é uma forma delicada, o chamado contracanto. Lá foi onde eu comecei assim, de fato. Simultaneamente também estava na Segunda sem lei [evento semanal, às segundas-feiras, na Associação Atlética do Banco do Estado do Maranhão, AABEM]. A primeira vez que eu toquei samba foi lá. Lá eu conheci João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a proposta era de samba, mas como a gente gosta muito de choro, o quanto a gente podia a gente tocava. Lá iam também Wendell Cosme [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], era uma festa muito legal.

E os grupos de choro? Toquei durante algum tempo no Chorando Callado, logo depois da saída do Tiago Silva [clarinetista e saxofonista], ele foi para Manaus. Toquei também algum tempo no Um a Zero, mas já não foi como membro do grupo. Eu substituía João Neto em algumas vezes que ele não podia ir. Em participação eu toquei em quase todos os grupos, o Instrumental Pixinguinha, Urubu Malandro, Os Cinco Companheiros. Eu cheguei a tocar com eles, em várias festas. O que durou mais tempo foi o Chorando Callado.

Atualmente você só integra o Bossa Nossa? Sim, só o Bossa Nossa.

O que significou para você, para os outros membros do Bossa Nossa, participar do Festival de Jazz e Blues de Barreirinhas [o VI Lençóis Jazz e Blues Festival]? Foi um presente! Eu considero. Foi um convite feito pelo [produtor] Tutuca Viana. Como a gente tem uma agenda fixa, ele nos viu tocando em um restaurante, gostou muito e convidou. Nós mesmos nem acreditamos, um festival onde só toca a galera fera, de fora. A gente encarou com muita seriedade e tentamos fazer nosso melhor. Graças a Deus o público gostou muito. Foi realmente um presente e uma honra muito grande, pra gente, poder fazer parte desse evento de grande relevância para o cenário musical do Maranhão e do Brasil.

Tuas primeiras aparições públicas tocando choro foram no Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. Isso! Lá, inclusive, eu estava substituindo o João Neto. Foi um show com a [cantora] Tássia Campos, outro com Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] e também com o Um a Zero.

O que significaram aquelas apresentações? Quais as tuas lembranças do período? Aquele palco faz falta para a cena choro de São Luís? Eu tinha acabado de comprar essa flauta, é de prata, é um instrumento para a vida, a gente só faz manutenção. Eu pensava, “agora eu tenho uma flauta bacana, tenho que tocar em lugares melhores, para um público melhor me ver tocando”. O Clube do Choro era um desses locais, eu tinha um sonho, uma vontade grande de tocar. O Clube do Choro do Maranhão está fazendo muita falta. Eu fico triste quando alguns artistas vêm de fora, instrumentistas, principalmente, me perguntam onde está rolando choro aqui na cidade e eu fico sem saber o que responder [os chororrepórteres passam ao músico a agenda do Regional Tira-Teima, que toca às sextas-feiras, a partir das 20h, no Brisamar Hotel]. Atualmente não tem um local onde a galera vá para valorizar essa música. A gente faz uns trabalhos paralelos, toca um pouquinho de choro, mas não é a principal atração. Está fazendo uma falta tremenda!

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Estou iniciando esse aprendizado. Para a gente que estuda instrumento de sopro é um desafio estudar harmonia. Para eu compensar essa dificuldade eu procuro entender um pouquinho de teclado, só que eu não digo que eu toco teclado. Eu estudo um pouquinho, como eu posso, quando eu posso. Como eu estudei cavaquinho, tenho uma boa base dos acordes, eu tenho essa vantagem em relação a quem não toca instrumentos harmônicos, quem estudou cedo, na verdade. Quando eu toco, eu já identifico as cores dos acordes, se é um acorde maior, se é um acorde menor, isso fortaleceu muito meu ouvido. Atualmente, estudo de arranjo, eu estudo devagar. Estou iniciando, na verdade, inclusive estou até pegando aula com Robertinho Chinês, que está me ajudando muito. Também já peguei aulas com Israel Dantas [violonista], Moisés Ferreira [guitarrista]. Eu estudo como eu posso.

Você já gravou em discos? Eu tenho muito na área do samba. Gravei o disco do Argumento, do Feijoada Completa. Gravações de músicas com Lena Machado [cantora], que ela faz para participar de projetos, por exemplo o Exposamba. Com Wendell gravei vários, o do Andrezinho Valois, o do grupo Madrilenus, alguns grupos de pagode, grupo Pura Simpatia, grupo Tô Di Mais. Geralmente quando pinta um trabalho para Wendell e tem sopro, a gente tá junto!

Você falou há pouco do impacto que te causou ouvir João Neto tocando André de Sapato Novo no Arthur Azevedo. Que flautistas te chamam a atenção, hoje? Atualmente o Eduardo Neves. É um músico excepcional. Ele mora no Rio de Janeiro. Eu ainda não tive contato com ele. Apesar de ele ser novo, ele não mexe em facebook, então eu ainda não pude trocar uma ideia. Eu ouço muito os discos dele. Como multi-instrumentista, flautista inclusive, tem o Dirceu Leite, me inspira muito. Me vêm logo à mente esses dois caras, até por que estão em atividade. Que já passaram, vamos dizer assim, tem o Altamiro Carrilho, incomparável. Eu ouvia muito os discos dele, tocava junto, foi assim que eu assimilei melhor a linguagem do choro. Ainda ouço, na verdade, os discos do Altamiro Carrilho. Em São Luís, a referência de som é o Paulinho [Santos]. É um cara que, embora não esteja em atividade, tocando por aí, pra mim o som do Paulinho é um som lindo.

Você afirmou que muito provavelmente teus pais vieram a conhecer choro depois que te ouviram tocar. E como é que você conheceu o choro? Já foi na Escola de Música? Como é que foi essa aproximação com esse gênero? O choro eu conheci nas aulas de cavaquinho. Como eu estudava com Juca, o Juca toca muito choro, é um chorão. A primeira música que eu lembro que a gente tocava muito era Feitiço da Vila [de Noel Rosa e Vadico], inclusive essa música me acompanhou durante vários recitais. Não era uma coisa muito programada, era “ah, amanhã tem um recital, vamos lá tocar”, e a gente tocava Feitiço da Vila, Carioquinha [Waldir Azevedo]. Eu comecei com Feitiço da Vila, mas também as músicas do Waldir Azevedo, eu ouvia muito, tocava muito, Flor do cerrado [Waldir Azevedo], Luz e sombra [Waldir Azevedo], todas eu tocava muito e gostava muito, eu pedia pro Juca me ensinar, dava muito certo. Foi assim que eu conheci o choro.

O que significa o choro para você? Qual a importância dessa música? Eu dou graças a Deus por ter conhecido o choro. A música brasileira, as síncopes, todo suingue, toda malícia, tudo aquilo está no choro. O músico que toca choro está apto para tocar toda música brasileira, tirando as regionais, bumba meu boi, maracatu. A bossa, a improvisação, o choro está em tudo. Até para tocar outras músicas de outros países, o jazz, o blues, também me ajudou, na concepção rítmica, principalmente. Como eu participei de grupos de samba, quando eu fiz essa passagem do choro para o samba, eu já estava um passo à frente de muita gente, já tive muita facilidade. Muita gente gosta de mim tocando samba, acho que por isso, por que eu passei pelo choro.

Você escuta muito choro, hoje? Como é tua relação com o consumo de música? Compra discos, baixa na internet? Ainda escuto. Geralmente, não vou mentir, compro discos quando o artista vem e eu tenho oportunidade de comprar dele. Até por que os artistas que eu compro, não vende o disco deles aqui. Como o Dirceu Leite, por exemplo, Toninho Carrasqueira [flautista], nas vezes que ele veio, sempre trouxe um cd diferente, sempre compro. Zé da Velha [trombonista] também, fiz questão de comprar o cd dele. Fora isso eu baixo, ouço muita coisa pelo youtube, até por que hoje, tudo é muito rápido. A galera que toca lança um trabalho no youtube, depois outro, o ciclo vai rodando. Às vezes eu chego a nem conhecer, quando eu chego já passou, aí eu baixo.

Você prefere o choro tradicional ou o moderno, mais inventivo? Eu estou mais ligado nessa vertente mais inventiva, a galera de Brasília que está inovando muito. O choro tradicional eu ouço, eu curto. A gente começa a estudar improvisação, quer improvisar, quer aplicar o que está estudando. O espaço que a gente tem para fazer isso é quando estamos tocando. Temos que ouvir quem está fazendo isso, Eduardo Neves, Hamilton de Holanda [bandolinista] também.

O que significou para você tocar com Zé da Velha e Silvério Pontes [trompetista]? Foi outro presente. Eu achei que não estava preparado. Eu estava tocando muito com o Pagode do Ivan, muita festa. Wendell comentou que tinha um show, falou que era Zé da Velha. Depois ele comentou já faltando uma semana. Ele me mandou o repertório, algumas músicas eu já conhecia, outras não. Eu fui procurar pegar para aprender. Nós fizemos um ensaio sem ele na sexta, o show foi no sábado. Terminou o ensaio, Wendell me ligou dizendo que o show era o lançamento do cd deles [Zé da Velha e Silvério Pontes], ele conseguiu as partituras, João Eudes foi deixar para mim no samba, ele chegou lá duas da manhã, eu estava tocando. Acordei cedaço no dia, fui ler, o show foi mais do que eu esperava. Eu imaginava que eu ia ficar de canto e eles sendo a atração, mas eu acabei ficando lado a lado com os caras. Zé da Velha tocou com Pixinguinha. Rolou espaço para improvisação, foi muito bom. Conversamos depois do show, fiquei feliz por eles terem ficado satisfeitos.

Na sua entrevista à Chorografia do Maranhão, Henrique [Cardoso, violonista, membro do Bossa Nossa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014] afirmou que um dos hits do Bossa Nossa é Boi de lágrimas [de Raimundo Makarra]. Em outros estados, por exemplo, Pernambuco, o frevo dialoga diretamente com o choro, no Rio de Janeiro, o choro dialoga com o samba. Aqui, fora algumas iniciativas como o Choro Pungado, ainda percebemos uma timidez de misturar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão, e parece que vocês estão retomando essa proposta. Você acha que é possível? Esse casamento é legal? A gente tem a prova que é possível. Em nossos shows o Boi de lágrimas é nosso trunfo. A gente toca o Boi de lágrimas quando a gente percebe que não está chamando muito a atenção. “Vamos quebrar o clima!”, aí a gente toca. Todo mundo vira logo pra gente. Isso é em qualquer lugar: no shopping [da Ilha, o Bossa Nossa se apresenta aos sábados, ao meio dia], no Manu [restaurante na avenida dos Holandeses, o grupo se apresenta semanalmente, às quintas e sábados, alternadamente], em um aniversário. Isso é a prova que a música maranhense é muito admirada e tem espaço. Nós aproveitamos o Boi de lágrimas e acabamos tocando outras músicas: Dente de Ouro, do Josias [Sobrinho, compositor], Bela Mocidade [de Donato Alves], o Coxinho [o cantador e compositor Bartolomeu dos Santos] também, “Urrou, urrou” [cantarola trecho do Urro do Boi, de Coxinho, considerada o Hino do Folclore Maranhense] e outras músicas maranhenses, a gente viu que dá certo. Partindo da grande aceitação do público a gente desenvolveu o show Trupiada, todo de repertório de autores maranhenses, que apresentamos recentemente no Sesc Amazônia das Artes, e também no São João, no Arraial Balaio de Sotaques, também do Sesc.

Vocês consideram o Bossa Nossa um grupo de choro? Também. Quando nós estávamos na UFMA já tínhamos muitas reuniões. Dessas reuniões saiu o nome do grupo. Mas ainda não sabíamos o que éramos. Vamos tocar o quê? Vamos tocar onde? Infelizmente não dá para tocar só o que a gente gosta, só choro, se quisermos um trabalho rentável. A gente não toca só choro, não toca só bossa. O que nosso cliente pedir… a gente tenta selecionar as balas de cada gênero, as mais conhecidas do choro, as mais conhecidas da bossa, música internacional. É difícil, mas está dando certo até agora.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Se for para vestir a camisa eu visto. É claro que eu toco várias outras coisas, mas eu me considero um chorão, sim. Até por que é minha infância, o choro é minha infância, eu ouvia Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho. O choro está na minha infância, eu ficava mudando o cd, um atrás do outro, eu ficava sempre tocando cavaquinho e a flauta também. Meus vizinhos todos me conhecem por isso, eles gostavam também da música, passaram a gostar. Eu me considero um chorão, sim.

Chorografia do Maranhão: Henrique Cardoso

[O Imparcial, 10 de agosto de 2014]

Hoje integrante do grupo Bossa Nossa, o violonista sete cordas Henrique Cardoso é o 37º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Henrique Cardoso de Oliveira Junior começou a ser conhecido na cena choro de São Luís como violonista do grupo Um a Zero. À época seu nome artístico era Henrique Junior. O músico nasceu em São Luís, em 31 de maio de 1983 e passou a infância entre São Paulo e Rio de Janeiro.

É filho do educador físico Henrique Cardoso de Oliveira e da professora Rosete Franco Lopes, a quem reconhece a influência. “Ela nunca mediu esforços para pagar professores ou me deixar ir procurar alguém para me ensinar. Até hoje ela gosta de cantar”, revela o hobby da mãe, que já deu canjas no Clube do Choro Recebe, palco do filho no início da carreira.

Outro palco de importância na carreira do músico foi a Praia Grande: muitas foram as segundas-feiras regadas a choro no extinto Bar Antigamente. Não por acaso o bairro do Centro Histórico ludovicense foi escolhido para que Henrique Junior desse seu depoimento à Chorografia do Maranhão.

Os tempos mudaram: da Praça dos Catraieiros, chororrepórteres e músico – ele estava acompanhado de sua esposa, Rafaele Lopes – tiveram que se mudar, pois o barulho dos bares da região impediam a conversa. No Cafofo da Tia Dica (atrás da Livraria Poeme-se) o pagode invadia até mesmo o ambiente fechado e climatizado, em geral silencioso. Nesse clima mesmo, a agenda foi cumprida.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te levou a morar no Rio e em São Paulo? Meu pai é de uma cultura meio que nômade. Ele é cearense, meu avô era sanfoneiro, e tinha o hábito de, de tempos em tempos, estar mudando de um lugar para o outro. Isso ele [o avô] passou para ele [o pai]. Quando eu já estava com um, dois anos, fomos morar em São Paulo, depois viemos para São Luís, depois São Paulo de novo, depois um tempo no Rio de Janeiro morando na Glória. Aí quando eu voltei para cá de novo eu já tinha uns 12 anos. Foi uma enrolada muito doida, meu pai tinha isso de ficar viajando. E isso foi bom por que eu também fui conhecendo já um pouco da música de vários lados, de vários locais.

Essas viagens influenciaram teu fazer musical? Nem tanto. Teria influenciado se eu tivesse ficado mais tempo morando lá. Eu fiquei morando em Pirapora, uma cidade de São Paulo, com oito anos eu passei para fazer piano. Eu cheguei a me matricular, fiz umas poucas aulas de teoria, só que a gente acabou viajando e eu não cheguei a pegar em instrumento. Ficou um pouco precoce minha ida para a música, ainda não era hora, na verdade. Meu contato com música só viria a se dar aqui em São Luís, eu já chegando na adolescência.

Teu pai é músico também? Da família é o único que não é músico. Ele é educador físico. Os irmãos dele, a maioria, ou é cantor, ou é dj, ou é músico.

O que se ouvia no ambiente musical de tua infância? Minha mãe me influenciou muito nisso. Era na casa de meus avós que se ouviam discos de Elizeth Cardoso e Altemar Dutra. Foi ali que eu comecei a prestar atenção nos sons graves e já a gostar do lado do violão, do violão sete cordas. Aquela música, “Jurei não amar ninguém” [cantarola trecho de Toalha de Mesa, de Noite Ilustrada e Carminha Mascarenhas], Noite Ilustrada. Meu pai era um pouco avesso a música, mas minha mãe até gosta de cantar.

O que te levou a escolher a música, já que teu pai não era adepto? Eu ganhei um violão desde pequeno, na verdade. É um instrumento que meu avô já tinha dado, desde criança ele estava lá no meu quarto, guardado em cima de um case, mas eu não tinha ninguém para me ensinar. Meu pai tinha essa questão de prioridade no estudo, o instrumento sempre estava perto de mim, mas eu nunca tive contato para aprender, de fato. Só na adolescência. Minha mãe sempre gostou de música, na casa de minha avó, fins de semana eram regados a música, a radiola tocando elepês, Altemar Dutra, Noite Ilustrada, músicas variadas, anos 80, Earth, Wind and Fire, Michael Jackson, Lionel Ritchie, entre outros. Sempre fui bem eclético, rock na minha adolescência, e o choro também. Meu avô tinha discos de Dilermando Reis, até hoje tem. Isso ajudou muito na minha vivência, aprendi a gostar de vários estilos, a não ter preconceito com nenhum estilo.

Por que você resolveu trocar o Henrique Junior pelo Henrique Cardoso? Embora o Junior sempre traga aquela coisa do novo, acho que Cardoso impõe certo respeito e também relembra um pouco o lado da família de músicos, Cardoso, que vem de meu avô [incomodados com o aumento do volume do som de diversos bares, chororrepórteres e entrevistado pagam a conta e seguem a pé até outro bar para continuar a entrevista; infelizmente, o barulho continua].

Você tinha quantos anos quando começou a estudar música? Uns 16 anos, já comecei um pouco tarde. Meu contato com a música foi maior por que eu tive, como amigo de colégio, o Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013]. Eu só fui pegar em instrumento depois que meus pais se separaram e quem me ajudou muito foi Rui Mário. Eu vivia na casa do pai dele, seu Raimundinho [sanfoneiro], a gente morava relativamente perto, eu pegava a bicicleta e ia para a casa deles e Rui ficava me enchendo o saco, me enchendo o saco para o bom lado, né? “Rapaz, aprende a tocar um instrumento, tu tem um bom ouvido” e tal. Me incentivou. Na música ele foi o primeiro a me orientar, a ensinar alguma coisa de música, acorde.

Quando você volta à São Luís, a que você credita o despertar imediato para a música? Na verdade, quando eu voltei, ainda não foi a época que eu peguei no instrumento. Eu comecei a ter maior contato com a música quando meu pai ganhou um toca discos usado e veio, junto com o toca discos, alguns elepês: Waldir Azevedo, Pixinguinha, e eu comecei a ouvir tudo. Foi uma noite que até hoje eu me lembro. Quando chegou, que ele armou na sala, eu não dormi. E passei vários dias sem assistir televisão, eu passava dia e noite ouvindo música, o tempo todo. Eles ficaram espantados, impressionados, “por que ele não para para assistir televisão? Não faz nada?”. Um cavaquinho acontece [disco de Waldir Azevedo, de 1960] eu escutava todo dia, Os oito batutas [disco de Pixinguinha com o grupo homônimo, s/d] eu escutava direto.

Que idade você tinha? A cronologia não é o meu forte, mas acho que de 11 para 12 anos.

Você disse que em discos de samba as baixarias te chamavam a atenção. Sim, principalmente no choro. Quando eu escutei, eu não sabia qual era aquele instrumento. Eu me seduzi pelo contracanto, eu ficava admirado com aquilo. Eu só fui descobrir muito tempo depois, ouvindo o Chorinhos e Chorões [programa dominical de choro, na rádio Universidade FM, 106,9MHz, produzido e apresentado por Ricarte Almeida Santos], na verdade; foi ali que eu fui descobrir que existia, no choro, o violão sete cordas. Aqui em São Luís a gente ouvia pouco falar. Eu fui atrás de quem tocava violão sete cordas. Na época foi um pouco difícil, não tinha redes sociais, como hoje em dia. Eu fui para o lado mais fácil para chegar mais perto do choro, eu já havia sido seduzido pelo choro, achava bonito, queria tocar, mas por onde começo? Comecei tocando samba por que via proximidade entre os dois gêneros. Depois de um tempo foi que veio a ideia de montar o grupo de choro.

O Um a Zero? Isso! O Um a Zero. Depois de um tempo, já tocando em alguns grupos de samba aqui em São Luís, eu tocava [violão] seis cordas, mas já no estilo sete cordas. Quando eu entrei no [grupo] Amigos do Samba, eu ouvi falar em Roquinho [cavaquinista e bandolinista]. Eu sabia que o cara do bandolim e do cavaquinho, aqui, era ele. Eu comecei a organizar as ideias e a montar o grupo na minha cabeça. Eu teria que convencê-los que valeria a pena. Daí começou minha história no choro. A primeira coisa que eu sabia é que a música que ele gostava de tocar era Czardas, que não é um choro, é uma música de Victorio Monti [compositor italiano], e ele disse que era muito difícil tocar acompanhando ao violão. Graças a Deus, eu tenho um bom ouvido. Cheguei em casa, fui atrás, encontrei, e peguei a música. Quando eu fui pra casa dele, só pra mostrar do que eu era capaz, eu já fui com Czardas na mão, aí ele abriu o olho: “não, esse rapaz leva jeito!”. Pode ver que todo show do Um a Zero tinha que tocar Czardas. Isso foi interessante pra caramba! Ele me ajudou muito, conhece muito choro, me passava as coisas. A música pra mim era uma maré mansa, de repente veio um tsunami, eu tive que estudar demais.

Que figura você considera sua principal influência, que foi decisivo em tua ida para a música e, especificamente, para o choro? Das pessoas que estão na minha vida, em ordem cronológica, o Rui, muita coisa eu aprendi só na convivência com ele. Ele era um rapaz de 17 anos que tocava em tudo o que é lugar, e muito bem. No choro, especificamente, Roquinho foi o maior. Me apresentou o repertório de choro, eu almoçava na casa dele, jantava lá, e a gente ficava tocando o dia todo.

E foi você quem insistiu para que se criasse um grupo de choro? Isso! Não demorou muito tempo. Na primeira apresentação do Um a Zero o grupo não tinha nem nome. Foi o seguinte: a gente estava tocando a música Um a Zero, de Pixinguinha [parceria com Benedito Lacerda], veio alguém e perguntou o nome do grupo. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, a gente não sabia o que falar, e eu falei: “Um a Zero” [risos], e ficou. Nesse show estava até seu Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], ele tocou com a gente. Era um restaurante no Tropical Shopping. Lá começou certo movimento, a gente fazia um dia e o grupo de Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o Chorando Callado, fazia outro. Foi interessante. O primeiro show foi com seu Agnaldo por que eu não sabia se ia dar conta de tocar três horas de choro, o grupo ia fazer um mês ainda. Eu fui tocar na cara e na coragem. No domingo seguinte eu fui sozinho.

O que você acha de seu Agnaldo? Uma referência. Foi um desbravador do instrumento aqui em São Luís. Não existia internet, que é um facilitador, e ele sabe muita música. Você tinha que pegar os discos. Tem que tirar o chapéu para ele, para esse pessoal de antigamente. É um ótimo músico, eu admiro, embora não tenha tanto contato.

Houve algum momento em que algum familiar aconselhou a procurar outra coisa, por não ver futuro na profissão de músico? Ser músico é uma profissão que às vezes se torna um pouco desestimulante. Um advogado passa cinco anos na faculdade, se forma, vai fazer concurso, pode ser juiz, promotor. O músico tem que estar todo dia tocando o instrumento, o tempo todo. É uma profissão que a pessoa tem que estar todo o tempo trabalhando. Isso às vezes gera um desestímulo, até a questão financeira. Hoje em dia, com os projetos em que estou envolvido, a gente consegue pagar as contas, viver. Já somos bem vistos pelo público. Mas ninguém sabe como vai ser amanhã, daqui a dois meses. Às vezes bate a pergunta: será que eu não devo ser músico, mas fazer um vestibular, sei lá, pra direito? Pra mim foi um diferencial, ser músico, me ver como profissional da música, como empreendedor. Essa foi a diferença que a gente tinha com o Um a Zero e tem hoje com o Bossa Nossa, é a forma de ser empreendedor. Eu já tinha trabalhado em Ribamar [a cidade de São José de Ribamar, na Ilha de São Luís], já tinha trabalhado no Paraíba [rede de armazéns], então, a forma de me portar nestes trabalhos, eu levei para a música, eu virei um músico profissional.

Você chegou a estudar outra coisa? Eu tenho o [curso de] técnico em Eletromecânica. Foi a época pós-Um a Zero. Eu tinha meio que desistido da música, “ah, vou fazer outra coisa”.

O Um a Zero foi tua grande escola, mas foi, ao mesmo tempo, o grupo que te levou a uma crise existencial enquanto músico. É, por que foi o trabalho que eu posso dizer que foi a minha maior escola. A gente tocava toda quarta no Boteco da Lagoa, sexta a gente estava tocando no Taberna Grill, que hoje em dia é Távola Grill. E segunda-feira no Antigamente. Isso já entrava na renda, esses contratos era eu quem ia atrás. Aí teve certos problemas e eu pensei: será que vale a pena tanto esforço? Será que não é melhor eu procurar um emprego de verdade? Já estava faltando um mês para terminar Eletromecânica e a música me chamou de volta. Eu trabalhava em Ribamar, era concursado, trabalhava na área administrativa. Aí eu entrei no [grupo] Argumento, pedi exoneração, valeu a pena. Passei quatro anos no Argumento, foram bons anos.

A tua saída do Argumento se deu por opção? Sim. Eu tinha vontade de me dedicar a um projeto de música instrumental, que é o que a gente tem hoje. O Argumento é um grupo voltado ao público da noite, então tem que tocar tudo.

Como se deu a arregimentação do Bossa Nossa? Quem é o grupo? Eu e Lee Sousa [flautista e saxofonista] começamos a estudar juntos, entramos juntos na faculdade de música. Lá a gente começou alguns projetos, inclusive de choro. A gente entrou com a intenção de tocar também. Embora estejamos fazendo a licenciatura, tocar é o que nos move. Foi nessa época que a gente conheceu o Bruno Agrella, que é percussionista, no grupo toca bateria, o Cleuton [Wanderson], toca violão seis cordas, mas no grupo toca baixo acústico. Foi lá que começou. A gente pensou em levar nosso profissionalismo pra fora. A ideia inicial era tocar só choro, mas ampliamos, então tem choro, bossa, samba, música internacional.

Mas tudo instrumental? Este é o projeto, hoje, com que você está envolvido? Tudo instrumental. Isso! Tocamos no Lençóis Jazz e Blues Festival [em Barreirinhas], já tocamos em eventos do Sesc. Fizemos um show no Sesc só com música maranhense, todo mundo se levantou da cadeira para aplaudir. Há espaço para o instrumental, mas é preciso certo empreendedorismo do músico, saber como se portar, se vestir, isso tudo influencia.

Qual a agenda fixa do Bossa Nossa? Deixa eu falar a respeito do nome: é um nome que a gente pretende trocar, até por que a gente pretende fazer coisas maiores, pra fora. Levar o nome bossa, para um projeto que é maranhense, a gente não acha muito legal. Ainda vamos achar um nome. O Bossa Nossa toca no Shopping São Luís, meio dia [aos sábados], no Restaurante Manu, que varia entre quinta e sábado [à noite].

Em tua trajetória percebemos esse perfil empreendedor. Hoje, dá para viver de música? Hoje dá. Não dá para ficar rico com música, mas dá para viver. Tem que ter uma postura profissional, logicamente. Saber ser um pouco produto, um pouco se vender como produto. Logicamente no cenário instrumental já é tachado, já é visto um pouco como piegas, mas estamos mudando isso no palco. A nossa forma de tocar, de levar uma música internacional, uma música mais atual. Dá moral. Me olha, eu tou aqui! Tou tocando Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra] instrumental! Aliás, essa é uma música que tem feito a diferença, as pessoas levantam, aplaudem. Bela mocidade [toada do bumba meu boi de Axixá, de autoria de Donato Alves] também, Carinhoso [Pixinguinha e João de Barro], lógico!

O Um a Zero acabou? O Um a Zero, o término dele, eu não sei como explicar bem. Foi o seguinte: na época em que eu fiquei um pouco desmotivado, que eu comecei a fazer o curso, eu não pude mais vir tocar com o Um a Zero no Antigamente, nem em outros locais, por que meu curso era à noite. Então ficou o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], só que ele já tinha outros serviços, outras ocupações. Ele é um amigo, ficou por lá, é uma pessoa muito educada, podíamos contar com ele. Mas não teve alguém que fosse atrás de outros locais, ver o que poderia acontecer, conseguir a mais. O grupo acabou ficando muito restrito ao Antigamente. O bar mudou muito o perfil, principalmente depois que a Ana Lula [ex-proprietária] saiu, os donos novos queriam para tocar tudo.

Além do Um a Zero e do Bossa Nossa, houve outros grupos de que você fez parte? Teve muito grupo de samba, muitos artistas maranhenses. Da área do choro eu fiz participações com o [Instrumental] Pixinguinha, o que foi muito importante para mim, o convívio com Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], o pessoal que traz o choro tradicional na veia, ver como tocam. O Roquinho, o jeito de tocar dele, é bem moderno. Ele é autodidata. No Instrumental Pixinguinha, eles são tradicionais, foi muito importante eu perceber coisas que eu não percebia no Um a Zero. Fui vendo Juca, Raimundo Luiz, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. Eu cresci como músico, logicamente, isso foi muito bom.

O que significou para você o projeto Clube do Choro Recebe? Desses movimentos culturais que já aconteceram no Maranhão um dos que teve maior relevância foi o Clube do Choro Recebe. Foi num momento oportuno, colocou em evidência os grupos de choro. As redes sociais não eram tão populares, a gente usava a mídia para dizer que estava ali. Foi muito bom. Precisava de alguém para tomar essa atitude, para dizer que o movimento precisava tomar força. Até hoje é um dos movimentos de maior relevância, ao lado do Festival [Internacional] de Música [promovido pela Prefeitura de São Luís, em 2002], eu posso comparar pela importância histórica. Saber que era uma coisa organizada dava muito respaldo para a gente.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Como compositor eu nunca expus tanto, isso vai acontecer agora, pois estamos pensando num trabalho autoral. Com arranjo a coisa se dá em função do grupo, o grupo me deu mais liberdade de poder colocar tudo na mesa. Nós estamos nivelados, somos jovens que queremos tocar bem, é um laboratório de ideias. A gente se encontra e começa a testar e ver o que acontece. Esse está sendo um dos melhores momentos da minha vida. No Um a Zero, até por uma questão de respeito, eu deixava que Roquinho direcionasse.

Como funciona a dinâmica do Bossa Nossa? Os meios de comunicação modernos têm ajudado muito, whatsapp, facebook, então a gente faz uma conversa prévia, por esses meios, falando a respeito do repertório. Por exemplo, a gente vai tocar em um lugar, alguém pediu um jazz, a gente já guarda essa informação, em casa já pensa no pedido, compartilha as ideias. Quando a gente se encontra, coloca as ideias em prática, “olha, eu pensei no arranjo”, e nunca é feito só por um, tem um pouco do tempero de cada um.

Então o Bossa Nossa está pensando em disco? Já! É importante o momento que estamos vivendo, todo mundo olhando a gente, sendo bem recebido pelo público. Nosso cd já vai servir de portfolio e porta de entrada para outros grandes eventos. Para a gente vai ser muito bom, para o Maranhão, mostrar para o público de fora que São Luís tem músicos bons, pessoas que são comprometidas em tocar bem, em dar o melhor de si.

Para você, o que é o choro? Qual a importância dessa música no cenário brasileiro? Deixa ver se eu sintetizo bem essa importância. É nossa herança. É o que esperam de nós quando a gente vai pra fora. Quando a gente tocava no Antigamente e um turista sentava, ele queria ouvir choro, por saber que aquilo é genuinamente brasileiro. Eu lembro que uma vez um italiano falou que o choro era a música que mais descrevia o comportamento do brasileiro. Depois eu fui perceber isso, a gente se completa tocando aquilo.

Como qualquer processo cultural o choro é uma música em transformação. Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A minha ida para Brasília, para um festival de música há dois anos, eu percebi muito melhor o comportamento do chorão. Brasília é um foco, lá a cultura do choro é muito forte, tem choro todo dia em Brasília. Nessa viagem, fomos eu e Wendell, a gente foi todas as noites em rodas de choro diferentes. Lá a gente pode perceber um pouco mais a respeito do choro, perceber a diferença que faz a galera mais jovem tocando essa música. A tendência cultural, pop, eletrônica, acaba sendo levada para essa música. Tem a coisa tradicional, mas acaba indo a coisa do trânsito, buzina, a correria, acordar cedo para pegar ônibus, metrô e chegar cedo, eles estão levando. A gente nota isso.

Você se considera chorão? A gente nunca deixa de se considerar chorão: uma vez chorão a gente sempre vai se considerar aquilo. Eu estou menos chorão agora, mas o choro está comigo sempre, não tem como desprender. Toda vez que a gente toca Naquele tempo [Pixinguinha] eu imagino o Pixinguinha tocando, aquela coisa que está sempre aqui comigo. [O choro] é uma música que faz pulsar. A gente toca e nos toca.