O “On the road” de Bob Dylan

Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução
Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução

 

Martin Scorsese volta a esquadrinhar Bob Dylan em Rolling Thunder Revue [documentário, Netflix, 2019, 142 minutos; classificação indicativa: 16 anos]. Não à toa o subtítulo do filme, em tradução livre, é “Uma história de Bob Dylan por Martin Scorsese”. Em No direction home [2005] abarcava do início de sua carreira até a guinada eletrificadora, em 1966, quando trocou o violão  acústico pela guitarra elétrica. O novo documentário acompanha uma turnê no mínimo inusitada, realizada a partir de 1975, às vésperas do bicentenário da independência americana.

Dylan resolve excursionar pelos Estados Unidos de ônibus – ele mesmo dirige –, acompanhado de amigos. Ao longo das cenas aparecem Allen Ginsberg, Joan Baez, Patti Smith, Joni Mitchell e muitos outros. A estrutura do giro mambembe, que antecedeu o álbum Desire (1976), um dos pontos altos da discografia de Dylan, é comparada pelo próprio com os italianos da Comedia Dell’Arte.

No palco, Dylan tem a cara pintada, entre Kiss e Kabuki, e um chapéu com flores. Canta sobretudo o repertório de Desire, ali ainda não registrado em disco. A Larry “Ratso” Sloman, jornalista da revista Rolling Stone que acompanhou a turnê, chega a responder, quando questionado sobre não cantar canções mais conhecidas, que “não se deve ter expectativa, para que esta não seja quebrada”, em relação aos anseios do público, atestando sua própria liberdade. Ainda assim aparecem versões desconcertantes de A hard rain’s a-gonna fall e Knockin’ on heaven’s door, entre outras.

Enquanto o empresário reclama de estar perdendo dinheiro – poderiam estar tocando em locais para 30 mil pessoas e o fazem onde cabem no máximo 5 mil –, Bob Dylan faz o que quer. Há várias lições no filme. Uma delas tem a ver com dignidade artística, algo cada vez menos na moda no circo da indústria. Dylan é peça da engrenagem, mas desdenha dela. “Não podemos medir o sucesso em termos de lucro”, diz o Nobel de literatura.

Não soa falsa modéstia a afirmação inaugural do bardo de que “foi só uma coisa que aconteceu há 40 anos”, sobre a turnê. “Eu nem lembro direito”, diz, como a querer desencorajar o documentarista do feito. Além de imagens de arquivo, Scorsese conseguiu uma entrevista inédita com o ídolo e coloca os Dylans de ontem e hoje lado a lado, numa interessante perspectiva.

Dois personagens ganham centralidade em Rolling Thunder Revue: Joan Baez e Rubin “Hurricane” Carter, ambos também entrevistados para o documentário. A primeira, de quem foi namorado, aparece como um amor irrealizado de Dylan, algo que parece ter ficado no meio do caminho, um travo amargo de “se”. Diálogos mais íntimos são emocionantes, como a demonstrar certo arrependimento de não terem tido um final feliz juntos. “A gente podia cantar juntos até dormindo. Aliás, muitas vezes, dormindo, eu ouvia a sua voz”, ele revela, comovente.

Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix
Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix

O segundo é o pugilista injustamente condenado por um homicídio que não cometeu, visitado por Dylan na prisão durante a turnê, “o homem que as autoridades passaram a culpar por algo que ele nunca fez”, como diz a letra do épico de Dylan (em parceria com Jacques Levy), em tradução livre. O homem que poderia “ter sido o campeão do mundo” (dos pesos médios), como continua a letra, cuja gravação (e performances durante a turnê) é lindamente emoldurada pelo violino de Scarlet Rivera.

O julgamento de Carter foi comprovadamente motivado por racismo. Diz ainda Dylan em seu protesto quilométrico: “Rubin Carter foi falsamente julgado” e “Não posso deixar de me sentir envergonhado por viver em uma terra onde a justiça é um jogo”. Obviamente Rolling Thunder Revue não é um filme (apenas) sobre política, mas é impossível não traçar um paralelo com o Brasil de 2019.

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Veja o trailer:

Um filme extraordinário

Faz todo sentido o subtítulo dado no Brasil a Inside Llewyn Davis [Estados Unidos, 2013, 100min.]: Balada de um homem comum traduz perfeitamente a história contada pelos irmãos Coen, cinebiografia de Dave Von Ronk carregada de ficção – não sabemos onde começa uma e termina outra.

Davis (Oscar Isaac) é um músico que não sabe o dia de amanhã – e quem sabe? Sequer tem certeza de em que sofá dormirá na próxima noite. O músico se equilibra entre o autodesprezo e uma dignidade inabalável.

Em carreira solo depois de um disco gravado integrando uma dupla, o músico erra entre cafés, cigarros e o frio dado por Deus mesmo a quem não tem cobertor – ou casaco. De um sonho não abre mão: viver de música. No entanto, numa gravação, abre mão dos direitos autorais para receber o dinheiro na hora. Tomorrow is a long time, não é, Bob Dylan?

Espécie de Midas às avessas, “tudo o que toca vira merda”, diz-lhe a ex-namorada noutra cena. Ele lhe paga um aborto, de um filho que ela não tem certeza que é dele. Uma visita ao pai num asilo, “o que me espera”, e a tumultuada relação com a irmã, para quem Davis não passa de “um marginal” fracassado, demonstram sua dificuldade em lidar com a sociedade, sempre a exigir sucessos.

Inside Llewyn Davis é, como entrega o subtítulo nacional, um filme sobre um homem comum e suas fraquezas. Além do violão que carrega, seus maiores afetos demonstrados são com o gato Ulisses, de um amigo professor que vez por outra lhe dá comida e sofá, e um cachorro que atropela em uma estrada.

Seu conceito de folk é definitivo: “uma música que não é nova e nunca fica velha”. A trilha sonora é um espetáculo à parte.

Vasta obra de Dylan é celebrada em mix de show e recital

Like a Bob Dylan terá no palco artistas influenciados pela obra do americano

Divulgação

Like a Bob Dylan é daquelas ideias que surgem de um encontro-estalo e fermentam o tempo necessário até que esteja pronta para ser apresentada. Trata-se de um espetáculo de celebração à vastíssima obra do mais importante poeta da música popular mundial.

A ideia do mix de show e recital surgiu há cerca de dois anos, do encontro do poeta Fernando Abreu e do cantor Wilson Zara, ambos admiradores do repertório dylanesco. A eles somam-se Acsa Serafim, Daniel Lobo e Lucas Sobrinho, todos fortemente influenciados pelo autor de Blowin’ the wind.

O espetáculo passeará pelo repertório de Dylan em inglês e português, através das muitas versões de nomes como Babau, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Geraldo Azevedo, Péricles Cavalcanti e Vitor Ramil. Mas nem só à música restringe-se a noite, que incluirá ainda leitura de trechos de Tarântula, livro de prosa experimental lançado em 1971.

A Dylanight acontece dia 29 (quinta-feira), às 22h30, no Amsterdam Music Pub. Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.

Sobre Like a Bob Dylan o blogue conversou por e-mail com Fernando Abreu, que produz o espetáculo e subirá ao palco para algumas leituras.

ENTREVISTA: FERNANDO ABREU

Como surgiu a ideia de Like a Bob Dylan? Me ocorreu que o Zara, que já fazia o lance do Raul [o anual Tributo a Raul Seixas] com muita verve, poderia fazer um show dedicado à obra de Dylan. Mas eu não o conhecia. Um dia saí com Nosly e o encontramos com, dei a sugestão e ficou assim. Agora ele me ligou querendo saber se eu ainda tava a fim. Claro!

Os artistas envolvidos têm alguma ligação com o universo dylanesco. Foi fácil escolher? Sim, ja admirava a Acsa Serafim compondo folk lindamente. Foi a primeira pessoa em que pensei, e ela foi muito simpática e receptiva, vibrou com o convite. Lucas Sobrinho é especialista em Beatles, que tem uma conexão forte com Bob Dylan, os dois se influenciaram e trocaram energias criativas. Zara é o homem do violão e gaita, estradeiro, operário da música, e mais o Daniel Lobo, músico experiente, mais chegado ao blues, se despedindo do Brasil. Estas são pessoas que tem referências mais ou menos explícitas de Dylan, mas sua presença é muito disseminada, diluída, está no DNA da música popular dos anos 1960 para cá no mundo inteiro, a coisa da música popular levada ao extremo de suas possibilidades poéticas. Dylan está em todos, de Caetano a Josias Sobrinho.

Bob Dylan é um compositor muito traduzido no Brasil e suas letras quase sempre sofrem poucas alterações para efeitos de adaptação. O que você acha destas versões, em geral? Geralmente se traduz aquilo que é mais maleável, mais aberto a uma tradução mais ou menos literal, como costuma ser a da música pop. Eu mesmo já me aventurei nesse terreno e acho que não me saí mal, comparando depois com outra versão da mesma canção. Mas é Bob Dylan, ou seja, um universo criativo inteiro com suas nebulosas, quasars e pulsars. Boa parte da obra dele é pura pedra no caminho de qualquer tradutor, alguma coisa talvez não funcionasse fora da língua inglesa, porque a poesia de Dylan não pode ser separada de seu caldo cultural, principalmente do falar das ruas, coloquial. Mas aí mesmo é que está o embate amoroso do tradutor, nas promessas mais difíceis de gozo.

O que o público pode esperar de Like a Bob Dylan? Música e poesia, em português e em inglês? Vai ter mais clima de recital, sem performances pirotécnicas. A ideia é exaltar a obra criativa do bardo por meio de suas canções, textos e poemas. Vamos de inglês e português, os textos de Tarântula ganharam versão especialmente feita para o recital, pela tradutora paulista Claudia Freire.

Qual a sua música preferida de Bob Dylan? E o disco? E a versão preferida, entre as feitas no Brasil? Acho que listaria pelo menos umas dez preferidas, tenho períodos de paixão por essa ou aquela canção. No momento, viajo em Sad-Eyed Lady of the Lowlands, linda, do disco Blonde on Blonde. Cara, Negro Amor [versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para It’s all over now, baby blue, gravada por Gal Costa em Caras e bocas, de 1976] é imbatível, primeiro por ser um grande poema. Mas gosto do faroeste do Raimundo Fagner, Romance no Deserto [versão de Fausto Nilo para Romance en Durango, parceria de Dylan e J. Levy, gravada pelo cearense no disco que leva o título da versão, de 1987].

O que você achou de Full Moon and Empty Arms [Mossman/ Keye], sucesso da lavra de Frank Sinatra recém-gravado por Dylan? O certo é que vai rolar esse disco voltado para as canções de Sinatra. Achei a voz de Dylan melhor do que eu seu último disco [Tempest], que chega a causar certo desconforto. De qualquer forma, é sempre bom ver o velho bardo na ativa, um cara que vive para as canções. Gosto disso!

Reinventando a resenha

Criança, sempre ouvi dizer que “remédio de doido é doido e meio”, dito popular em que você pode substituir o doido por qualquer palavra que dá certo. Por exemplo, excêntrico.

Bob Dylan proibiu a presença de jornalistas e fotógrafos nos shows que fez recentemente pelo Brasil, exigência sem sentido num tempo em que (quase) qualquer pessoa que bloga “pode” ser um jornalista e que qualquer celular que não o meu fotografa. A gente troca por excêntrico ou deixa o doido mesmo no ditado?

Não googlei, mas devem ter pipocado na internet milhares de textos relatando a experiência, (ainda) inédita para este que vos enrola antes de ir ao que interessa, de ver um show do Bob Dylan. Jotabê Medeiros (sempre ele!) havia postado em seu blogue uma foto feita por sua mulher, que foi pega pelos seguranças e liberada após não encontrarem a imagem em sua câmera, sei lá por que, apagou depois.

Rafael Grampá foi ao show e nos conta o que viu:

Tomei emprestado daqui. Lembrar o Cohen foi lindo, que disco idem esse novo, Old Ideas…  assunto para outro post.

Estadão na Folha: ainda o encontro de Bob Dylan e Jotabê Medeiros

Bob Dylan será um dos destaques da 46ª. edição do Festival de Jazz de Montreaux, um dos mais conhecidos e longevos do mundo, já tendo rendido ótimos discos ao vivo com shows de artistas brasileiros por lá, entre outros A Cor do Som, Elis Regina e Gilberto Gil, que este ano volta aos palcos suíços.

A Folha de S. Paulo anunciou a antecipação da lista oficial de atrações pelos organizadores do festival, que trará ainda os brasileiros Adriana Calcanhotto, Cidade Negra, Jorge Benjor, Luiz Melodia e Sérgio Mendes.

Notem como o jornal se refere a Mr. Zimmerman, abre aspas, “visto no último domingo pelas ruas de copacabana”, fecha aspas. Quando poderia ter dito “atualmente em turnê pelo Brasil”, a Folha faz uma desnecessária alusão ao encontro do repórter Jotabê Medeiros e da fotógrafa Nana Tucci, do concorrente O Estado de S. Paulo, com o ídolo.

Eu queria ser Jotabê Medeiros

porque ele tem um dos melhores textos do jornalismo brasileiro, faro, bom humor, teimosia e a sorte necessários ao bom jornalismo, esse artigo cada vez mais raro nas redações.

Jotabê e Dylan: dois gênios

E também, obviamente, porque ele encontrou Bob Dylan em Copacabana.

Imperdível

O diretor Geneton Moraes Neto (D) observa Caetano Veloso

CANÇÕES DO EXÍLIO
Direção de Geneton Moraes Neto tem capítulo inédito.

Agora em quatro episódios – a série foi apresentada originalmente em três programas –, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner relembram momentos marcantes em suas trajetórias na série dirigida por Geneton Moraes Neto.

A expatriação de Gil; o interrogatório a que Caetano foi submetido ao visitar sua terra natal; o choque de Macalé ao sair do Carnaval diretamente para o inverno londrino; as discussões de Mautner em defesa do Brasil como um país do futuro; e os diálogos com o cineasta Glauber Rocha são alguns dos temas abordados.

Sob a ótica dos próprios artistas que sofreram “na pele” com a ditadura, a atração apresenta, em quatro programas especiais, os principais acontecimentos decorrentes do cárcere, da vida no exílio e da tão aguardada volta para casa.

A posição contestadora e contrária ao regime dos entrevistados gerou alguns fatos curiosos como, por exemplo, a tentativa de influenciar Caetano a compor uma canção exaltando a Transamazônica, usando o argumento de que outros companheiros já estariam contribuindo com o governo; e os momentos vividos por Gil na prisão, onde teve seu cabelo cortado à força e foi obrigado a fazer um show.

No último e inédito episódio, Caetano e Gil falam sobre a relação com a música britânica durante o tempo vivido naquele país. Em quatro escalas, os baianos relembram as sensações vividas ao lado de Jimmy Hendrix – com quem conversaram após a apresentação considerada a última de sua carreira –; dos performáticos Rolling Stones; de Bob Dylan, que acabara de sofrer um grave acidente; e de John Lennon e Yoko Ono na experimental Plastic Ono Band.

Comentam ainda a importante influência dos rockeiros estrangeiros em seus trabalhos à época, citando principalmente a faixa O Sonho Acabou, inspirada nos versos de God, de John Lennon.

Produzida por Jorge Mansur, a série conta com a participação especial do ator Paulo Cesar Peréio, apresentador e ex-militante do Partido Comunista, que atuou na década de 1970 em diversos filmes contra o regime de exceção.

Estreia: terça, dia 18/10, às 23h.

Do site do Canal Brasil.