Liberdade abriu suas asas para ouvir o canto de seus filhos

[Sobre Filhos da Liberdade, ato-show apresentado ontem (31/3) em memória dos 50 anos do golpe militar]

Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func
Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func

Não lembro quem disse certa vez que caso o Rio de Janeiro fosse completamente destruído por uma tragédia, seria possível reconstruí-lo a partir da audição da obra de Noel Rosa.

A afirmação ilustra a riqueza de nossa música, sempre tão pródiga em registrar nossa história, nossos grandes compositores verdadeiros cronistas do cotidiano.

Com a ditadura militar não poderia ter sido diferente. E além de tudo o que nos vem à cabeça quando ouvimos a expressão, sempre cabem também algumas canções.

O show Filhos da Liberdade, realizado ontem (31/3) em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima, com Cesar Teixeira, Flávia Bittencourt, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis, trouxe ao público presente um bom punhado de canções de protesto.

Uma luxuosa banda acompanhou-lhes: Fleming Bastos (bateria), Leandro (percussão), Jayr Torres (violão), Carlos Raqueth (contrabaixo) e Rui Mário (teclado e sanfona).

O espetáculo foi precedido do cerimonial de Ricarte Almeida Santos (sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão) e de depoimentos de Francisco Gonçalves (presidente da Fundação Municipal de Cultura), Dom Xavier Gilles (bispo emérito de Viana), Bira do Pindaré (deputado estadual), Eurico Fernandes (ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do Maranhão) e deste que vos fala (presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos), além de imagens do acervo de Murilo Santos, retratando o período e figuras emblemáticas de resistência à ditadura militar brasileira, como Manoel da Conceição e Maria Aragão.

O repertório na íntegra e na ordem em que foi apresentado: Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros), interpretada pelo quinteto; Engenho de Flores e Três potes, ambas de Josias Sobrinho, interpretadas pelo próprio; Viola enluarada (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) e Flor do mal (Cesar Teixeira), por Flávia Bittencourt; Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro) e A voz do povo (João do Vale e Luiz Vieira), por Lena Machado, com participação especial de Luiz Jr. (violão sete cordas); Carcará (João do Vale e José Cândido) e Gaiola (Joãozinho Ribeiro e Escrete), por Rosa Reis; Oração latina (Cesar Teixeira), cantada por todos, inclusive pelo público, de pé e marcando nas palmas; Samba pra Dedê, composta em homenagem a Maria Aragão, de Cesar Teixeira, por ele mesmo. O apoteótico final tornou a juntar a todos e todas no palco para uma sequência triunfal: Apesar de você (Chico Buarque), Vai passar (Chico Buarque e Francis Hime) e Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré).

Frase repetida por quase todos os depoentes, mestre de cerimônias e artistas, que acabou por virar slogan da noite, traduzindo a necessidade do compromisso coletivo pelo aprimoramento e fortalecimento da democracia – retroceder jamais: a luta continua!

400 anos de São Luís: panfletagem constrange Sarney e Cia. na farra das medalhas!

DO VIAS DE FATO

Um grupo de integrantes do Grito dos Excluídos marcou presença e criou um fato político importante na cerimônia promovida pela Assembleia Legislativa do Maranhão, no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, para homenagear os 400 anos de São Luís. O evento, puxado pelos deputados, foi uma grande patacoada, que tentou juntar muita gente de bem com quadrilheiros e alguns notórios picaretas. Uma noite que, nesta festa do quarto centenário, será conhecida como a farra das medalhas!

O interessante é que o clima de perturbação criado pelo singelo protesto fez com que José Sarney, Roseana e os ministros de Estado Edison Lobão e Gastão Vieira (que estavam no evento entre os 400 homenageados) saíssem pela porta dos fundos, para não cruzar com a panfletagem. Esta informação nos foi passada pelas pessoas que estavam trabalhando no local e confirmada por várias integrantes do cerimonial, que nos contavam um ou outro detalhe do embaraço, sempre com um sorriso maroto. E o bando saiu tão rápido, que nem ficou para o coquetel, que àquela altura, estava inundado pelos panfletos.

Entre os integrantes do protesto estava o poeta Cesar Teixeira, fundador do jornal Vias de Fato, que inclusive, estava na lista dos homenageados. Cesar não quis a homenagem. Ele não foi receber “sua” medalha, indo para o evento de bermuda, ficando fora do auditório, entre os manifestantes.

Logo na abertura da cerimônia, muito “chique”, cercada de pompa e circunstância, a jornalista Dulce Brito secretária de comunicação da Assembleia (ligada a Fernando Sarney), se equilibrando em cima de um salto, tentou impedir a ação política, afirmando que não seria permitida a distribuição do material gráfico. Rapidamente foi acionada a segurança e um tenente coronel da Polícia Militar, com traje de gala e acompanhado de outros militares, tentou pessoalmente recolher os panfletos. Tudo em vão! Os integrantes do Grito se recusaram a entregar, deixando claro ao oficial, que ele teria que prendê-los para impedir a ação que estavam determinados a fazer.

Foi neste clima que começou a cerimônia! De repente, com o falatório já iniciado, ninguém podia mais entrar com bolsa no auditório, pois havia um medo de que elas estivessem cheias de panfletos. Isso acabou criando problemas e houve um convidado, que não tinha nada a ver com a panfletagem, que foi barrado por causa da sua bolsa e acabou armando um barraco na porta do auditório. Diante do tumulto, uns já gritavam: “tem que revistar alguns que estão lá dentro!”.

E assim, enquanto o cínico festejo se desenrolava no auditório, os manifestantes garantiram a possibilidade da panfletagem dentro do Centro de Convenções, sob o forte argumento de que aquele era um local público, a festa era de uma instituição pública e tudo ali estava sendo pago com o dinheiro do contribuinte. E os promotores do evento foram obrigados a ceder, pois não tinham outra opção. Ou permitiam a panfletagem, ou teriam que usar da força, contra um grupo de mulheres e homens que reunia integrantes do Comitê Padre Josimo, das Irmãs de Notre Dame Namur, da União Por Moradia Popular, das CEBS, da CSP Conlutas e do jornal Vias de Fato. O deputado estadual Bira do Pindaré também reforçou o argumento do grupo, ajudando a garantir a panfletagem, que foi feita, exatamente, entre o auditório e o local onde seria servida a bóia, os comes e bebes.

E assim, a verdadeira festa aconteceu! A cidade foi homenageada! Mais de mil panfletos foram distribuídos, diante do sinal positivo de uns, da zanga de outros e do constrangimento de vários. Tudo isso acontecia, enquanto um encurralado José Sarney saía com Roseana e seu grupelho mais próximo pela porta dos fundos. E os manifestantes, de alma lavada e com a certeza do dever cumprido, saíram pela porta da frente, não sem antes, provar do pirão, pago com o dinheiro dos já citados excluídos.

Viva São Luís!

PT de Sarney deixa Marlon Botão de fora da propaganda eleitoral gratuita

A dobradinha Lula/Sarney é a principal responsável pela atual esquizofrenia do Partido dos Trabalhadores. Se a situação já é(ra) muito ruim no plano nacional, o quadro piora se nos detivermos ao Maranhão, onde o PT sempre se caracterizou pelo combate à oligarquia local.

Em 2010 o Diretório Nacional do partido do então presidente da República passou por cima de tudo e todos, impondo apoio do PT à então candidata Roseana Sarney, filha do presidente do Senado, contrariando a maioria local, que havia decidido pelo apoio à Flávio Dino (PCdoB) para a disputa pelo Governo do Maranhão. Dois anos depois foi fácil ter a maioria, com vitória folgada do ex-comunista e atual vice-governador do Maranhão Washington Oliveira sobre o deputado estadual Bira do Pindaré, com o cearense disputando as eleições com apoio da oligarquia que um dia combateu (ou ao menos dizia combater).

E se digo que a dobradinha Lula/Sarney foi a principal responsável por isso, não estranhem: não é a única. Vantagens individuais, cafezinhos, anuidades, empregos e promessas outras também deram uma ajudinha.

A questão agora é que não dá para falar pura e simplesmente que Fulano de Tal é candidato do PT. É necessário esclarecer que Beltrano é candidato do PT antissarney e Ciclano é candidato do sarno-PT.

Explico: este blogue, por exemplo, apoia a candidatura de Nelsinho, do PT antissarneyista. O número dele é 13.555, a quem interessar possa. Outro candidato do mesmo campo, digo, do PT antioligárquico, é Marlon Botão, 13.200, outro bom nome para a Câmara Municipal. O primeiro é professor de educação física das redes públicas municipal e estadual, mestre de Capoeira, ligado ao Laborarte; o segundo, Relações Públicas, com atuação em assessorias no movimento sindical. Mas, bem, isto aqui não é horário eleitoral gratuito nem este blogue recebe para fazer propaganda, vamos ao que interessa.

Recebo, estupefato, a notícia de que Marlon Botão teve seu programa de tevê censurado na primeira semana de propaganda eleitoral gratuita. O motivo: não querer atrelar seu nome ao do candidato à prefeito da oligarquia Sarney, o citado Washington Oliveira, tido como “cerca velha”, à boca miúda, por diversos outros nomes que, no entanto, não tiveram a coragem e a postura de Marlon Botão, Nelsinho e uns poucos outros, de não pedir votos ao vice-governador que quer ser prefeito.

Ambos têm apoio do deputado estadual Bira do Pindaré, outro nome do PT que não se rendeu ao modus operandi oligárquico, o que certamente incomoda bastante as hostes petistas. “Sarney sabe que temos o apoio do deputado federal Domingos Dutra e do deputado estadual Bira do Pindaré e quer impedir a nossa presença na Câmara dos Vereadores”, analisa Marlon Botão no texto que recebi por e-mail de um amigo comum.

O diretório municipal do PT em São Luís havia sido notificado sábado (18) para garantir a participação do candidato no horário eleitoral; no sábado seguinte (25), ontem, o notificado foi Marlon Botão, pelo “juiz Fernando Mendonça, nos autos da Representação 87211/2012, proposta pela Coligação “Juntos por São Luís”, para responder, em 24 horas, sobre o pedido de retirada de matérias do seu site de campanha com a concessão de direito de resposta e aplicação de multas”, também de acordo com o texto recebido por e-mail.

A coligação alega que a responsabilidade pela gravação dos programas é do PT. Marlon Botão diz que outros candidatos o fizeram por conta própria, incluindo a gravação de externas. Cabe lembrar que o candidato é sócio de uma produtora e tem condições de elaborar seu próprio material. Ele disse que não aceitará censura e que irá lutar por seu direito (veja a seguir o programa censurado).