A diversidade de Moska

Beleza e medo. Capa. Reprodução

 

Liminha foi um dos artífices da sonoridade do que se convencionou chamar de brock ou rock brazuca: produziu discos importantes daquela cena nos anos 1980, além de trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não à toa os primeiros ídolos de Moska.

Não à toa, Moska também foi personagem importante daquela cena roqueira no Brasil: em meados da década de 1980 fez sucesso no rádio e tevê à frente da banda Inimigos do Rei, com seus hits Adelaide (You be illin) (I.Simmons/ R.White/ I.Mizell) e Uma barata chamada Kafka (Luiz Guilherme/ Marcelo Marques/ Paulinho Moska).

Sucessor de Loucura total, que Moska dividiu com o argentino Fito Paez, em 2015, Beleza e medo [Deck, 2018] marca o encontro de Moska e Liminha, em disco que diz muito sobre a dupla, e cujo título e os tons de cinza e vermelho dizem muito sobre o Brasil de hoje – a capa traz Moska mergulhado em local incerto, usando uma espécie de véu cor de sangue. Ele mesmo assina o projeto gráfico do disco.

A sonoridade do disco transita entre o pop do começo da carreira de Moska, a MPB que abraçou – e por quem foi abraçado –, um flerte com o reggae, escancarado em Medo do medo, parceria dele com Zélia Duncan, pontuado pelo contrabaixo do produtor Liminha (que ao longo do disco toca ainda violão 12 cordas, percussão e guitarras), em time que se completa com o próprio Moska (voz, violões e direção artística), Rodrigo Nogueira (guitarras e violão), Rodrigo Tavares (teclados), Adriano Trindade (bateria) e Adal Fonseca (bateria).

A propósito cabe destacar o leque de parceiros de Moska, ao longo das 10 faixas de Beleza e medo: além de Duncan, Carlos Rennó (com quem assina Em você eu vi, Nenhum direito a menos e Megahit) e Zeca Baleiro (Pela milésima vez).

O “que beleza” entoado na abertura de Que beleza, a beleza (Moska) evoca a “imunização racional” de Tim Maia, em faixa que versa sobre o belo, passando por indagações como “a tinta vibra quanto pinta a tela?/ o que Picasso achava de Dali?” e especulações como “ouvi dizer que Darwin passou mal/ sentindo um pouco de irritação/ olhando a cauda de um pavão real/ mudar sua ideia de evolução”.

Megahit é encontro de especialistas no assunto: Moska e Rennó são dois dos maiores hitmakers que o Brasil já conheceu. “Você não sai da minha cabeça/ como canção que toca à beça/ toca em excesso, é um puta sucesso/ um megahit”, começa a letra, que tem tudo para se tornar um.

Outra parceria da dupla, Nenhum direito a menos é incisiva e direta, marca particular da produção mais recente do letrista Rennó. Toca em feridas escancaradas pela invasão de Michel Temer ao Palácio do Planalto, após o golpe perpetrado por seus comparsas que depôs Dilma Rousseff. “Nesse momento de gritante retrocesso/ de um temerário e incompetente mau congresso/ em que poderes ainda mais podres que antes/ põem em liquidação direitos importantes/ eu quero diante desses homens tão obscenos/ poder gritar de coração e peito plenos:/ não quero mais nenhum direito a menos”, mandam direto, com direito a trocadilho cristalino, logo na primeira estrofe.

Minha lágrima salta (Moska), que fecha o disco, é sobre um fim de relacionamento. Tomara que em pouco tempo não se configurem politicamente proféticos os versos “porque um vazio foi se construindo em nós/ ficou distante pra escutar alguma voz/ e fomos desaparecendo sem ninguém desconfiar”.

*

Ouça Beleza e medo: