Baratão 66: ficção e realidade se confundem tanto quanto público e privado

[Vias de Fato, julho/2014]

Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum colam discurso de Sarney filmado por Glauber Rocha para tirar sarro da cultura (política) oficial. Baratão 66 foi indicado ao troféu HQMix 2014.

Uma das capas de Baratão 66. Reprodução
Uma das capas de Baratão 66. Reprodução

 

Um quadrinista que não desenha. Eis uma boa definição para Bruno Azevêdo, que agora foi buscar o Luciano Irrthum para dar vida a Baratão 66 [Pitomba/ Beleléu, 2013, 190 p.], a estória de uma casa de depilação (de dia) que vira puteiro (à noite), o Baratão 69.

A dupla ilustra a história do Brasil profundo, onde puteiros viram extensões dos gabinetes, climatizados ou não, das administrações públicas, as putas espécies de assessoras especiais com sexto sentido e o sonho de fisgar um figurão destes e largar a vida “fácil”.

O livro traz a clássica referência à distinção entre ficção e realidade, o que em se tratando da nossa, torna qualquer linha entre uma e outra bastante tênue. Como o é, bem sabemos, principalmente em se tratando de Maranhão, a que separa interesses privados de interesses (de homens) públicos.

Luciano Irrthum desenha o roteiro ditado por Bruno Azevêdo, autor cujo romance A intrusa foi publicado em capítulos neste Vias de Fato. Com duas capas, a gosto do freguês, como as “estampas” de depilação que ditam moda, Baratão 66, impresso em roxo, apresenta a tragicomédia das pequenas cidades do interior do Brasil – embora o livro seja ambientado em São Luís do Maranhão, capital que delas não guarda lá muitas diferenças.

O traço “grotesco” de Irrthum ilustra a “boca suja” de Azevêdo. Reprodução

Esqueçam a moral e os bons costumes e preparem-se para entrar na rotina dos inferninhos, em uma aventura hilariante, seja pelo traço, propositalmente grotesco, como a traduzir os personagens do livro e de nossa política, seja pelo enredo – “com cu ou sem cu?”, “cu fiado a gente não faz”, “só quem dá cu sem aviso é qualhira”, ouvem-se aqui e ali das bocas sujas que povoam as páginas.

Personagens bizarros, malditos, marginais compõem o cenário: a proprietária da casa de depilação que espera pela volta do “falecido”, herói de guerra com quem sonha, um porteiro “viado” apaixonado pelo padre, pecador mais que as ovelhas de seu rebanho, um carteiro que entrega os catálogos da Piu Piu, franquia em que se tornará o Baratão 66, o governador, habitué da zona. Também aparecem em Baratão 66 Ribamar Willer, taxista fã de Waldick Soriano e música brega, incluindo Adailton e Adhaylton, dupla sertaneja que protagoniza Breganejo blues, outro livro de Azevêdo, além dO Monstro Souza, serial killer e loverboy, saltado das páginas de outra obra-prima do autor, que vai pedir emprego no Baratão.

Não sabemos mesmo o que é mais imoral: se os palavrões ou o discurso de posse de José Sarney quando eleito ao governo do Maranhão em 1966, captado pelas lentes de Glauber Rocha e colado por Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum em determinada passagem de seu Baratão 66, numa alusão óbvia à película glauberiana que captou o discurso do então jovem bigodudo, Maranhão 66 – o trocadilho, como nada ali, é por acaso. No fundo, é como se o Maranhão fosse um imenso puteiro a céu aberto – com esgotos a céu aberto, ratos e baratas passeando entre nossos pés.

A política está presente, e Baratão 66 tira um sarro com a cultura dita oficial, infelizmente ainda não completamente democratizada. A HQ de Azevêdo e Irrthum não tem um centavo de dinheiro público.

Não é fácil classificar – isto é, enquadrar em um rótulo – Baratão 66, como de resto, a qualquer livro de Bruno Azevêdo, ele ao mesmo tempo bacharel em História, mestre em Ciências Sociais, professor universitário, músico e escritor. A HQ que assina com Luciano Irrthum demonstra uma série de influências, que passam por literatura, quadrinhos, música, história, cinema e política.

HQMixBaratão 66 concorre, este ano, em duas categorias do troféu HQMix, a mais importante premiação dos quadrinhos brasileiros: Publicação independente edição única e Novo talento (roteirista) – Bruno Azevêdo. O HQMix chega à 26ª. edição em 2014.

Novidades – Autor, editor e “contínuo” da Pitomba! livros e discos, Bruno Azevêdo atualmente trabalha na edição da fotonovela Nonato, meu tudo. Ainda em 2015 lançará Brega é tu, sua dissertação defendida no mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), recentemente selecionada em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema). Fruto de pesquisa acerca da dita música brega em ambientes como choperias e serestas em São Luís, o livro terá pesquisa iconográfica assinada por ele e pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos, que já havia colaborado com a edição de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, livro vencedor do Prêmio Cidade de São Luís, publicado pela Edufma com preparação editorial da Pitomba!

Dica: três quadrinhos charmosos

Compartilho com os poucos mas fiéis leitores três publicações que me chegaram recentemente às mãos. São quadrinhos charmosos, independentes, de bolso e a preços justos. Infelizmente não são encontrados em qualquer banca de revista – embora mereçam ser mais populares –, mas podem ser adquiridos pela internet, direto com os autores.

Onde meu gato senta, de Pedro Leite: ele tira onda de si mesmo, como todo bom humorista deveria saber fazer. Zoa dizendo que é considerado um dos maiores desenhistas do Brasil, pelo fato de ter mais de dois metros de altura. Mas ele é realmente bom. O livro [2012, 57 p.] é sobre a mania que gatos, donos de tudo, inclusive de seus donos, têm de encontrar o lugar mais inapropriado e se instalar. Em cima do jornal que leio sobre a mesa, dentro da mala que arrumo, sobre o teclado do computador justo quando estou digitando e tantas outras situações por que quem tem gato – ou gata, Pagu, no meu caso, veja-a curtindo meu exemplar – certamente já passou.

Quadrinhos ácidos, zine de Pedro Leite e Leandro Difini: uma série de tirinhas que faz piada com nosso cotidiano besta. Diz umas verdades e pisa nuns calos. É melhor não presentear aquele amigo que gosta de Big Brother com ele, por exemplo. Os quadrinhos fazem jus ao nome.

Tension de la passion, vol. 1 [Beleléu, 2013, 36 p.]: este livreto cor de rosa é obra coletiva. Diversos artistas do traço interpretam o seguinte mote erótico: “A noite me envolvia quando François apareceu, misterioso e sedutor/ nossos corpos trêmulos se tocaram/ no estupor do momento, perdi a razão/ nunca mais o vi, jamais o esqueci”. Comparecem às páginas Daniel Carvalho, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda (ilustrador de A intrusa, de Bruno Azevêdo), Eduardo Belga, Elcerdo, Koostella, LTG, Mateus Acioli, Pablo Carranza, Rafael Campos Rocha, Rafael Sica e Stêvz (autor do texto mote).

A intrusa: eis a questão

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Neste sábado (20), às 18h, o escritor Bruno Azevêdo lança A intrusa [Pitomba/ Beleléu, 2013]. A noite de autógrafos acontecerá na livraria Leitura, no Shopping da Ilha. O livro, originalmente publicado em capítulos no jornal Vias de Fato, recria as tramas eróticas de romances de banca, encontrados por quilo em sebos, como Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina. Escrevi sobre aqui.

Promoção: deixe sua resposta para a pergunta que ilustra este post aí embaixo, na caixa de comentários. A que o blogue achar melhor leva um exemplar dA intrusa. Só valem respostas deixadas na caixa de comentários deste post até sexta-feira (serão desconsideradas respostas, ainda que criativas, engraçadas etc., deixadas nos comments de outros posts, facebook etc.). Sábado de manhã o resultado, por aqui mesmo.

“A química do amor não cabe na tabela periódica”

A intrusa, de Bruno Azevêdo, presta homenagem crítica aos romances femininos de banca. Livro foi publicado em capítulos no Vias de Fato

POR ZEMA RIBEIRO

O Vias de Fato nunca temeu dar a cara pra bater. Assim foi, quando, finzinho de 2011, começo de 2012, resolveu ceder uma página sua à publicação de A intrusa [2013, 160 p., R$ 20,00], folhetim de Bruno Azevêdo que agora virou livro através de sua editora Pitomba (em coedição com a carioca Beleléu), que inventou para se publicar. “Só me tornei editor por que não arrumei um!”, já disse o autor em texto na imprensa local (Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, Jornal Pequeno, 30 de junho de 2012).

A capa, em tons de rosa, com duas mulheres nuas na cama e um quinto braço a apalpar o corpo de uma delas, por sobre o título em tipologia inspirada em clássicos femininos de banca a exemplo de Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina, anuncia: “Uma envolvente história de amor, da qual nenhuma leitora sairá sem um suspiro, um momento qualquer de elevação ou um fugaz sentimento de pertencimento”. Ou como o autor – e faz-tudo na Pitomba – resume: “paixão e sedução para a mulher moderna”.

Se o jornal local – como apregoou outro jornal local, para não citar o nome do Vias de Fato em matéria sobre o livro – sofreu com as pedradas vindas de todas as direções – menos de um clube de reggae, assunto sobre o qual a Edufma publicou Onde o reggae é a lei, da jornalista Karla Freire, esposa de Azevêdo, com preparação editorial da Pitomba – o jornal não se acovardou e seguiu adiante, para ver onde aquilo ia dar, com o perdão do trocadilho. De um lado seus editores não tinham conhecimento do que aconteceria no próximo capítulo; de outro, o autor não sofreu qualquer influência com as opiniões que o jornal recebia de leitores e leitoras, fossem prós ou contra o folhetim.

Uma das ilustrações de A intrusa

Na contracapa, Xico Sá (autor de Modos de Macho e Modinhas de Fêmea e do Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias, entre outros) reafirma o que já havia dito desde O Monstro Souza (2010), livro anterior de Azevêdo, sem contar a HQ Isabel Comics (2012), feita a quatro mãos com a esposa, retratando a vida de sua filha, dois aninhos recém-completados (o volume com as histórias do segundo ano deve ser lançado em breve, entre mil “projetos” – palavrinha surrada, mas vá lá – que ele desenvolve tudo ao mesmo tempo agora): “O monstro Bruno Azevêdo, este papaléguas, alcança, com este volume que ora lateja nas mãos da mulher moderna, a condição de nosso melhor escritor pícaro-mexicano. Que outro escriba seria capaz de erotizar o tilintar dos duralex? A pia de louça por testemunha de um tórrido amor engordurado”.

É isso mesmo e mais um pouco. Não julguem, ó apressados, ó apressadas, o autor de A intrusa por suas primeiras páginas, como o fizeram alguns leitores, algumas leitoras do jornal. Não é (só) sacanagem. O que faz A intrusa diferente dos títulos jogados às centenas mês após mês nas bancas de revista, dia após dia nos sebos?

“Pornografia é foder, foder, foder! Você abre uma porta, você fode; abre outra porta, fode. Você trepa com todo mundo! Isto é pornografia! Se houver amor, é erotismo”, como afirma Just Jaeckin, diretor de Emmanuelle, em uma das 12 epígrafes do livro, que manteve o texto original publicado no jornal – com uma revisão mais caprichada.

Bruno Azevêdo reprocessa o romance feminino de banca, apropria-se de sua gramática e o resultado é uma literatura que tanto agradará às costumeiras leitoras dos romances de banca típicos – cujos principais expoentes já foram apontados neste texto – quanto leitores e leitoras da chamada “alta” literatura, ou da literatura dita “séria” ou como se queira chamar qualquer literatura que não seja produzida em série – e em série podemos incluir os faroestes dos antigos bolsilivros (ainda circulam? Ou só em sebos?) como possível vertente masculina dos romances de banca (o que quase Bruno Azevêdo fez em Breganejo Blues – Novela Trezoitão, Pitomba, 2009). “Se o futebol é a telenovela do homem brasileiro, a telenovela é o futebol da mulher brasileira”, já rezava o saudoso Décio Pignatari.

Bruno Azevêdo escreveu um livro divertido, já lançado na Festipoa Literária, em maio, em Porto Alegre/RS, e este mês em São Luís, tendo por palco o salão de beleza e casa de depilação Dot Beauty. A obra, no entanto, não se encerra na diversão ou no erotismo puro e simples. Narrada em primeira pessoa por uma personagem sem nome, que se ocupa apenas de agradar a seu amado Wanderley. Ou simplesmente W, para as íntimas. Tanto agrada que aceita a intrusa, a personagem central, respondendo à pergunta feita nos primórdios do livro, “estará mentindo a mulher que disser nunca ter se perguntado: e se houvesse outra?”.

O século passado foi o auge da produção e venda em bancas do romance que ora Bruno Azevêdo reescreve, relendo, como ele mesmo indica em Seios túrgidos e membros intumescidos: sexo e literatura pornográfica para mulheres, longo artigo acadêmico que ele mesmo escreveu, provavelmente para tirar onda com a academia – e apresentou, já em 2013, em um Encontro de Estudantes de Letras, na UFMA. Assinado por Jessica Sweethorny, traduzido por Bruno Azevêdo. Ela é ele.

Vimos ou soubemos das conquistas que as mulheres tiveram num período da história recente – o autor de A intrusa é licenciado em História e mestre em Ciências Sociais pela UFMA. Se hoje em dia as mulheres já não precisam receber aulas de “prendas domésticas” ou se contentar com o piano para que se lhe aflore a feminilidade, enquanto espera “um homem pra chamar de seu”; se hoje em dia a maternidade é uma opção entre outras; se podem ter vários parceiros sem que na rua lhes apontem “a puta” ou coisa que o valha, por outro lado (vi)vemos a onda neoconservadora que assola o país, a reboque das cartilhas do politicamente correto imediatamente sacadas de qualquer carteira ou bolsa tiracolo ao primeiro sinal de qualquer ousadia que ameace a ordem vigente.

Antecipando-se a isso e à presença do deputado homofóbico e racista Marco Feliciano (PSC/SC) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, Bruno Azevêdo apresenta aos leitores e leitoras um romance homossexual, com direito a discreta citação de There is a light that never goes out, dos Smiths na voz de Morrissey, seu vocalista gay. Mas isso de romance gay é diminuí-lo: A intrusa é uma história de amor. E da liberdade que o amor exige.

[Vias de Fato, junho/2013]

A intrusa: adquira já a sua!

O escritor Bruno Azevêdo reuniu os 12 capítulos de A Intrusa, folhetim que publicou ao longo do ano passado no jornal Vias de Fato, e publica agora um livro com sua história de amor, voltada sobretudo ao público feminino, nos moldes de hits de bancas de outrora, vide Julia, Sabrina e Barbara Cartland, entre outros que eu sempre vi tia Sara comprando e lendo.

Com ilustrações de Eduardo Arruda, capa de Frédéric Boilet, e prefácio de Xico Sá, a obra, que será lançada em maio, já pode ser adquirida no site da Beleléu, que lança a obra junto da Pitomba.

Em tempo: 18 de maio (sábado), às 14h30min, Bruno Azevêdo divide uma mesa com Ronaldo Bressane e Pedro Franz, sob mediação de Augusto Paim, sobre Narrativas gráficas sequenciais na Festipoa Literária.