Batatinha revisitado em formação inusitada

O amor entrou como um raio. Capa. Reprodução

 

Aos 20 anos do falecimento de Oscar da Penha (1924-1997), sambista baiano que atendia pela alcunha de Batatinha, o cantor e compositor Celso Sim presta bela homenagem ao autor em O amor entrou como um raio [Circus, 2017]. O título é verso de Conselheiro (Batatinha/ Paulo César Pinheiro), uma das pérolas do repertório.

Os sambas existencialistas de Batatinha encontram par na obra de Nelson Cavaquinho, embora aquele seja bem menos conhecido e reverenciado que este, apesar de o baiano ter sido gravado por nomes como Beth Carvalho, Caetano Veloso, Jussara Silveira, Ligiana Costa, Maria Bethânia e Pedro Miranda, entre outros, além de Adriana Moreira, que dedicou a seu repertório o disco Direito de sambar (2006), outra que comparece a esta nova homenagem.

Celso Sim – que já dividiu disco com Jorge Mautner (Pedra bruta, de 1992) e é autor de Benedita (em parceria com Pepê Mata Machado), em que divide os vocais com Elza Soares em A mulher do fim do mundo (2015), seu festejado trabalho mais recente – é escoltado por Webster Santos (violões, cavaquinho, bandolim, guitarras, viola caipira), Maurício Badé (percussão) e Filipe Massumi (violoncelo), formação pouco usual no universo do samba, este último em geral garantindo a moldura trágica aos versos de Batatinha.

Caso de, por exemplo, Imitação (Batatinha): “Ninguém sabe quem sou eu/ também já não sei quem sou/ eu bem sei que o sofrimento/ de mim até se cansou/ na imitação da vida/ ninguém vai me superar/ pois sorrio da tristeza/ se não acerto chorar”. Ou a citada Conselheiro (Batatinha/ Paulo César Pinheiro): “Sou profissional do sofrimento/ professor de sentimento/ do amor fui artesão”. Em Bolero, os parceiros Batatinha e Roque Ferreira assumem a persona feminina ao narrar as desventuras de uma bailarina: “fui bailarina na festa/ dancei para lhe contentar/ sorria/ a rodar/ a rodar/ gastei a ilusão e a pintura/ nesta ribalta de sonhos azuis/ num papel que destrói/ mas seduz”.

Samba sincopado, Foguete particular (Batatinha) é ponto fora da curva, no disco e na obra de Batatinha: “numa prova de alegria/ eu vou chegar sambando”, diz a letra.

O projeto gráfico de O amor entrou como um raio é um espetáculo à parte: no miolo, fotografia do etnólogo franco-brasileiro Pierre Verger; na capa, foto inédita de Batatinha, clique de Pedro de Moraes, o artista em ambiente natural – um bar –, com um sorriso que não condiz com a tristeza da maioria de suas composições. Seriam personagens seus protagonistas que sofrem por amor ou a criança por não pode comprar um ingresso para ver o circo?, caso de O circo (Batatinha): “todo mundo vai ao circo/ menos eu, menos eu/ como pagar ingresso/ se eu não tenho nada/ fico de fora escutando a gargalhada”.

Em 11 faixas, Celso Sim e seu trio dão um tapa no visual da obra de Batatinha, o que certamente lhe trará novas atenções, outros olhares – e ouvidos. Merece, o Oscar.

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Ouça Celso Sim em Foguete particular (Batatinha):

Reverenciando grandes mestres do gênero, Divino Espírito Samba marca volta de Lena Machado aos palcos

[release]

Show gratuito acontece na Praia Grande e terá participações de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

No melhor espírito “eu quero é botar meu bloco na rua”, a cantora Lena Machado volta aos palcos com o show Divino Espírito Samba. A apresentação, gratuita, acontece no Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na Praia Grande, no próximo dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. A produção é da Negro Axé.

Recentemente Lena Machado participou do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, do réveillon, como convidada do grupo Afrôs, e da posse do governador Flávio Dino, mas há algum tempo o fã clube vinha reclamando um show completamente seu.

“O show é uma espécie de antologia com o melhor do samba brasileiro, o que inclui autores locais, que não devemos nada a ninguém”, exalta a cantora, que volta aos palcos em grande estilo. Nenhum dos 18 sambas do repertório já foi gravado por Lena nos dois discos que lançou: Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009). Com Quem roubou minha aquarela?, de Cesar Teixeira, ela participou da Exposamba, concurso voltado ao gênero em nível nacional. “O repertório não deixa de ser também uma espécie de teste para o que estamos pensando para o próximo disco”, revela, ainda sem previsão de lançamento.

Além de Cesar Teixeira, fornecem obras primas para sua privilegiada voz Antonio Vieira, Batatinha, Benito di Paula, Bruno Batista, Candeia, Chico Buarque, Ismael Silva, Luzian Filho, Paletó, Patativa, Paulo César Pinheiro, Roge Fernandes e Roque Ferreira.

A cantora contará ainda com as participações especiais de Patativa (em cujo disco fez vocais e de quem gravou Colher de chá em seu segundo trabalho), Luzian Filho (do grupo Feijoada Completa) e Zé Pivó (compositor da Turma de Mangueira, escola de samba do bairro do João Paulo, e do bloco carnavalesco madredivino Fuzileiros da Fuzarca).

“Para mim é uma honra, eu, aprendiz, dividir o palco com estes mestres. É beber na fonte de nosso samba genuíno, legítimo, autêntico”, derrete-se a artista. Sobre o nome do show ela conta: “é impossível negar o samba como uma das autênticas expressões de nossa cultura popular, essa nossa batida diferente. O nome une dois aspectos de nossa tradição, e dessa fusão de duas tradições surge algo moderno, daí Divino Espírito Samba”. Além de tudo, soa bem. Como um bom samba.

Lena Machado será acompanhada por Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo Seixas (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho e direção musical). Uma constelação de craques para ninguém botar defeito.

Serviço

O quê: show Divino Espírito Samba.
Quem: a cantora Lena Machado, com participações especiais de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho.
Quando: dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h.
Onde: Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), Praia Grande.
Quanto: grátis.
Maiores informações: (98) 981920200 e 981220009.