A música é a arte dos encontros

Joãozinho Ribeiro autografa hoje Milhões de uns – vol. 1 no Bip Bip, em Copacabana. Foto: Paulo Caruá

 

Mesmo de férias, o compositor Joãozinho Ribeiro não baixa a guarda. Explico: funcionário público federal, ele está no Rio de Janeiro, acompanhado da musa Rose Teixeira, a quem dedicou, entre outras, Te gruda no meu fofão, tema de espetáculo homônimo encenado pelo Laborarte em tempos idos. Pois se o funcionário público goza férias, o artista não. Ou ao menos não completamente: poeta e musa estarão hoje (20) à noite no mítico Bip Bip, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, onde o primeiro autografa Milhões de uns – vol. 1 para cariocas e turistas que aparecerem.

Alfredinho, proprietário do mítico Bip Bip. Foto: Dario de Dominicis/ CartaCapital

A escolha não poderia ter sido mais apropriada e é cercada de coincidências. Tanto o Bip Bip quanto Joãozinho Ribeiro são menos conhecidos do que deveriam, dadas suas importâncias, um para a boemia carioca, outro para a música produzida no Maranhão, ambos para a cultura brasileira de modo geral. O bar foi fundado em 13 de dezembro de 1968, data da promulgação do famigerado Ato Institucional nº. 5, que acirrou as trevas da ditadura militar brasileira, de que o artista foi bravo combatente, destacado militante da greve da meia passagem, em São Luís do Maranhão, setembro de 1979.

As coincidências não param por aí: tanto João Batista Ribeiro Filho, o artista, quanto Alfredo Jacinto Melo, atual proprietário do bar, que adquiriu em 1984, são conhecidos por diminutivos. Outra coincidência reside no futebol: tanto Joãozinho quanto Alfredinho atualmente frequentam a segunda divisão, com seu “glorioso” Botafogo.

Como todas as noites (o bar abre às 19h30), a de hoje será pautada pela arte, cultura e solidariedade, além da confiança mútua entre proprietário e frequentadores, desta feita somada à do artista que, aproveitando um passeio, resolve estreitar os laços entre a cidade maravilhosa e a ilha magnética.

A noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro no Bip Bip tem entrada franca. Milhões de uns – vol. 1 será vendido por R$ 20,00 na ocasião.

Só a arte nos salva

“A Praia Grande está abandonada!”

Não sei quantas vezes tenho ouvido, algumas não sem razão, a frase acima nos últimos anos. A ausência de políticas e ações mais efetivas de real valorização da área – e não se fala aqui apenas de prédios tombados pelo patrimônio histórico, mas também da valorização do patrimônio humano – explica-a em parte, assim como, em menor escala, a evasão de órgãos públicos, comércios e bares, deixou-a aos ratos, baratas e outros bichos escrotos.

É o cartão postal da cidade, cenário de comerciais, paisagem no imaginário de qualquer turista que a tenha visto na tevê ou ouvido alguém falar.

Ao “a Praia Grande está abandonada” soma-se agora o “a Praia Grande está tomada pelo crack”. As drogas em geral só chegam ali, como em qualquer lugar, pelo vazio deixado, inclusive por nós mesmos. Mas o problema do bairro não é só o consumo de drogas, ou mais particularmente de crack, como às vezes se quer crer: ele é mais um elemento, num conjunto de violência e ausência de infraestrutura, entre outros. Além do mais, sabemos, o crack não é um problema exclusivamente praiagrandense: é um problema social espalhado pelo Brasil e pelo mundo, cuja solução é mais complexa do que o que mostram inconvincentes propagandas no nível do “é possível vencer” e da defesa da internação compulsória – o que este blogue é terminantemente contra.

Dois exemplos louváveis de reocupação da Praia Grande aconteceram recentemente entre setembro e novembro: a 7ª. Feira do Livro de São Luís e a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, encerrada ontem (1º.), promovidos pela Fundação Municipal de Cultura (Func) e Serviço Social do Comércio (Sesc), respectivamente. Provaram que, com programação de qualidade, o bairro do Centro Histórico da capital ludovicense volta a ser a menina dos olhos de turistas e autóctones.

Os movimentos precisam continuar, cada um fazendo a sua parte, mas sem essa de “cada um no seu quadrado”: artistas fazem o que sabem, plateias aplaudem, a iniciativa privada incentiva, apoia, patrocina, e o poder público garante as condições para que este conjunto se torne possível – atualmente a presença do Estado por ali apenas é percebida apenas na figura da polícia, em geral em atuações desastradas, inclusive com a circulação de viaturas onde não é permitido o trânsito de veículos.

Amanhã (3), às 16h, um grupo de artistas se reúne para “ocuparte” os degraus da Escadaria Humberto de Campos (a do Moiras Drinks, subindo a rua João Gualberto, da Livraria Poeme-se). É o Ocupa com Arte – Rock & Blues, evento gratuito que visa continuar a citada reocupação cultural da Praia Grande.

Dará conta de todos os problemas (históricos) do bairro? Irá resolvê-los todos? Certamente não. Mas cumprirá um papel importante. A que devemos nos somar.

Arriba, arriba, arriba!

Leia ligeiro o título acima. Como se arriba tivesse apenas um r. Como se fosse o Ligeirinho falando. Lembram do Ligeirinho, aquele simpático camundongo mexicano do desenho animado? Pois é.

Adentrei umas poucas vezes o Miguelitos, o charmoso barzinho do Miguel, um conhecido dos tempos de faculdade, onde aprendi na prática o que eram tacos, burritos e michelada, uma deliciosa cerveja servida com gelo e sal.

O bar é pequeno, o que já me obrigou a ocupar sua calçada (o que não acho ruim) ou a ir embora, voltar outro dia, que enfrentar fila por uma mesa é coisa de quem quer aparecer em coluna social.

A decoração é uma atração a parte, com temas lembrando o adversário brasileiro de amanhã na Copa das Confederações. De certo modo, é possível até mesmo imaginar-se num pequeno saloon em uma aventura do Tex Willer, vício que reeditei depois do esgotado Breganejo Blues, do Bruno Azevêdo, ele, aliás, o mesmo cara que me viciou na música do Marcos Magah, mais precisamente no Z de vingança, seu disco de estreia.

Reza a lenda que música ao vivo é o que há de pior em restaurantes do México. O que me faz lembrar de um filme em que Adam Sandler é perseguido por um grupo de músicos mexicanos em plena lua de mel. Se é verdade ou não, não sei. Mas sei que Magah não faz música mexicana: faz punk rock bregadélico. Que você pode conferir ao vivo quinta agora (20), às 21h, no Miguelitos.

O dia em que o homem de vícios antigos encontrou a socialista morena

Eu poderia dizer que Cynara Menezes é uma das melhores jornalistas que descobri nos últimos tempos, mas isso diminuiria o que quero dizer. Até mesmo por que sua descoberta, enquanto jornalista, não é recente. Talvez dizer que ela é uma das mais admiráveis pessoas que conheci nos últimos tempos traduza.

Ela ocupa com talento as páginas da semanal CartaCapital e tem um blogue bonito, inteligente e de esquerda. Que nem ela. Leio-a em ambos, com gosto.

Quem a conhece pessoalmente ou ao menos acompanha seu trabalho sabe que quaisquer elogios serão merecidos. Mas hesitei bastante em escrever sobre nosso encontro em minha mais recente ida à Brasília: temia fazer mero texto de fã que encontra ídolo – o que não deixa, em parte, de ser; o que não deixo, em parte, de fazer.

“Coleciono amigos, essa é a minha natureza”, já li, ou algo parecido, nalgum texto seu no Socialista Morena, o blogue bonito, inteligente e de esquerda, a cara da dona, que ela mantém. Nossas naturezas se parecem e, em minha mais recente passagem pela capital federal, dividimos alguns chopps e quibes no Beirute, “o bar mais antigo de Brasília”, como ela me apresentou o espaço que tem no cardápio texto de Leandro Fortes, seu colega de redação na revista de Mino Carta e de faculdade, na Universidade Federal da Bahia.

Conversamos um bocado entre o fim de minhas atividades de trabalho e a hora do voo de volta à Ilha – que Cynara conhece, gosta e onde quer voltar –, enquanto Tito, seu filho figuraça, de quatro aninhos, se divertia entre jogos no celular da mãe, o parquinho que o bar tem, mel e amendoim vendidos por ambulantes.

Catei na mochila uns presentinhos que levei à nova amiga, com quem já tinha trocado alguns tuites. Entre eles, dois pratinhos de doce de espécie, iguaria típica de Alcântara – quando de sua passagem por São Luís chegou a ir até lá, confessando o medo da travessia de lancha –, à base de coco. Espero ter contribuído para deixar seu “esquerdismo way of life” ainda mais doce.

Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense
Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense

Duas coisas

Ontem bebi no Retão. Sim, reabriu. Funcionará, agora, apenas de quinta a sábado, sempre à noite. O garçom me disse que vão meio que ver no que dá, terminar 2012, avaliar se vale a pena e, se for o caso, alugar o ponto ano que vem. Torço pra que continue, vida longa ao Retão!

Tratei equivocadamente, por puro esquecimento mesmo, o disco A obra para violão de Paulinho da Viola como um disco dele. Não é. É um dos volumes de Brasil Instrumental, disco-brinde duplo distribuído por uma empresa mineira de mineração a clientes, amigos, parceiros, fornecedores e que tais em fins de 1985. No primeiro volume, o violonista maranhense João Pedro Borges executa 10 peças instrumentais de autoria de Paulinho da Viola, acompanhado por este ao cavaquinho e César Faria, pai do compositor, ao violão. No volume 2, Brasil, sax, violão, cello e trombone, um encontro sui generis, um quarteto, no mínimo inusitado, tanto quanto talentoso: Paulo Moura (sax, clarinete), Raphael Rabello (violão sete cordas), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Zé da Velha (trombone). Brasil Instrumental nunca chegou ao formato digital, ao menos não oficialmente. Mas seus dois volumes podem ser abracadabaixados.

Obituário: Retão

O Retão: saudades e lembranças, após mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da Ilha

Localizado na Avenida Vitorino Freire (entre Camboa e Areinha), na altura da Vila Passos, o Restaurante Retão era um espaço por que tínhamos muito carinho, onde costumeiramente íamos beber, eu e minha esposa – que chegou a comemorar um aniversário no recinto –, nós e os pais dela, mamãe e alguns amigos iniciados em nosso particularíssimo roteiro de baixa gastronomia – às vezes este grupo inteiro somado, de uma vez.

“E aí, meu patrão?!”, sempre me saudava o garçom da noite, logo que eu lhes pisava a calçada, onde em geral ficávamos fugindo da parte interna, sempre mais abafadiça e barulhenta – a exceção eram as noites de chuva (o Retão sempre funcionava à noite, algo em torno de entre 18h e meia noite). Depois dos apertos de mãos e abraços, tanto faz termos ido ali ontem ou há muito sem aparecer, já devidamente instalados em uma mesa ao vento, saltava o pedido: “o de sempre!”. E cervejas começavam a ser enfileiradas enquanto o tira-gosto era preparado.

Espaço simples, mas muito agradável, sua calçada e vento era o que havia de bom na região, com sua cerveja gelada e tira-gosto de vitamina B3, os três bês de bom, bonito e barato – sempre ótimas pedidas seus pratos de alcatra, frango e carne de sol, entre outros, porções “consideradas”, sempre acompanhadas de batatas fritas, salada e farofa. As contas, trazidas por seus garçons oficiais, os dois únicos que se revezavam nas noites, sempre nos assustavam. “Só isso?”, indagávamo-nos entre os comensais, sempre esperando uma conta mais cara, diante de tantas garrafas vazias enfileiradas aos pés da mesa e um ou mais pratos já recolhidos por Humberto e George, eles, os dois garçons no revezamento noite após noite.

A música não era o seu ponto forte e o aparelho de DVD podia exalar tanto um forró de plástico da pior qualidade quanto uma coletânea “momentos de amor” anos 70-80 e até mesmo apresentações de manifestações juninas de nossa cultura popular, ao longo dos festejos de São João.

Era, às vezes, nossa esticada natural após fazer a feira semanal, nas noites de quinta. Ou a parada obrigatória na sexta, para um papo qualquer, extensão do trabalho ou apenas bobagens para descontrair e aliviar a seriedade da vida, sempre tão corrida, após mais uma semana de missão cumprida. Canto de matar o calor que castiga a Ilha cotidianamente, mesmo quando a noite já caiu.

Depois de mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da capital maranhense, o Retão fechou as portas. Sem maiores detalhes, Humberto confidenciou-me prejuízos que sua mãe, proprietária do local, estaria tendo. O espaço está lá, fechado e bem localizado. Torço para que renasça feito Fênix pelas mãos de alguma alma bondosa que queira ver contentes alguns habitués dali. Do contrário, restarão boas lembranças e saudade – as que me ocorrem todo dia, toda vez que passo ali em frente. Como hoje, com este obituário já escrito, quando parei defronte para tirar a fotografia que o ilustra.

A notícia

Eu era um molecote que sequer tinha idade para tomar cerveja e, portanto, não bebia. Mas estava no bar, o saudoso Giovani, saudoso o bar, o ex-proprietário ainda está entre nós, em Rosário/MA, acompanhado de uns tios. Fran Gomes, atração da casa entre o fim de tarde e início da noite, certamente não lembra do episódio e nem teria por que.

Ele se apresentava, voz e violão, no local. Nossa mesa era próxima do palco. Eu, regado a refrigerante e com um conhecimento razoável de música brasileira para um garoto de minha idade, 14 anos?, 15?, 16?, adivinhava compositores e intérpretes das músicas com que ele agraciava o público presente, além de pedir-lhe músicas, algumas atendidas, outras não.

Talvez já “invocado” com minha “saliência”, a certa altura Fran Gomes lançou-me uma espécie de desafio: disse que ia tocar uma música que eu não conhecia. Duvidei. Dito e feito. Cantou a música abaixo, de Celso Viáfora e Vicente Barreto, pela qual apaixonei-me à primeira audição e, à época, não sosseguei até tê-la em disco em minha modesta coleção.

Um hino em tempo em que índios já não são salvos por guardas marinhos, muito pelo contrário.

Arte pela arte

Longe do descompromisso: Chico Saldanha e Josias Sobrinho fazem show hoje, no Chico Discos, em prol da próxima empreitada do Papoético.

 

Chico Saldanha e Josias Sobrinho voltam a subir juntos em um palco hoje (7), acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Jeca Jecowisky (percussão). Depois de pouco mais de mês da estreia do show DoBrado ResSonante em Brasília/DF, o espetáculo poderá finalmente ser conferido pelos ludovicenses. Os artistas já haviam se apresentado juntos em São três léguas, outros bois e muito mais, de 1999, e Noel, Rosa secular, que teve edições em 2010 e 2011, ocasião em que homenagearam o Poeta da Vila ao lado de Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro.

Na capital federal foram duas apresentações. Aqui não há anúncio, ao menos por enquanto, de um bis, embora o Chico Discos, bar que abrigará o show de hoje, comporte confortavelmente apenas cerca de 60 pessoas, plateia certamente menor do que merecem os autores de clássicos como Terra de Noel e Linha puída, Josias e Chico, respectivamente.

Mas a causa é boa: a ideia inicial era angariar fundos para o I Festival de Poesia do Papoético, que após muita ralação de Paulo Melo Sousa, o Paulão, seu idealizador, e do envolvimento de mais alguns teimosos e de doações de amigos e simpatizantes, conseguiu se pagar. DoBrado ResSonante, no entanto, continua sendo um show beneficente, em prol da arte: o valor arrecadado com os ingressos vendidos para a noite de hoje será revertido para a premiação do I Concurso de Fotopoesia do Papoético, cujo regulamento será publicado em breve (aqui neste blogue). A premiação deve acontecer em setembro, mês de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Sobrinho e Saldanha estão no cenário musical desde a década de 1970. O primeiro integrou a trupe do Laborarte, o segundo correu por fora, tendo ambos participado de festivais de música desde então. Ambos estrearam em disco na década seguinte, o primeiro no rastro do reconhecimento proporcionado pela gravação de Papete para quatro músicas suas no antológico Bandeira de aço [Discos Marcus Pereira, 1978] – De Cajari p’ra capital, Dente de ouro, Engenho de flores e Catirina –, o segundo fazendo de sua Itamirim clássico imediato e retumbante, na interpretação arrebatadora de Tião Carvalho em seu disco de estreia [Chico Saldanha, 1988].

Seus discos mais recentes são Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha. Ambos completamente autorais, o primeiro uma mescla de grandes sucessos e músicas inéditas, com participações especiais de César Nascimento, Papete, Lenita Pinheiro (sua esposa) e Zeca Baleiro; o segundo, quase completamente inédito, a exceção é Linha puída, gravada num arranjo diverso do bumba meu boi que é originalmente, com a participação de Lenita Pinheiro. Josias, ao lado de Gerude e Inaldo Bartolomeu, canta com Saldanha em É tudo verdade, onde este conta em versos a história de seu Mário Mentira, como era conhecido um morador da Rua de São Pantaleão de sua infância e adolescência. Zeca Baleiro, diretor musical em algumas faixas, canta na faixa-título, moderno boi de zabumba.

Algumas músicas de Dente de ouro e Emaranhado estão no repertório de DoBrado ResSonante, que se completa com músicas inéditas de Josias Sobrinho e Chico Saldanha, além de releituras de conterrâneos como Cesar Teixeira [Botequim] e Zeca Baleiro [Babylon], entre outros.

O charme de Lucap & Nosotros no Chico Discos

Lucap (C), acompanhado de Guilherme Raposo (E) e Hamilton Oliveira (D)

O charme do Chico Discos, que não cansamos de elogiar, é inversamente proporcional ao seu tamanho, o do bar, não o do proprietário. Aconchegante, 50, no máximo 60 pessoas lhe garantem a lotação total. Se o espaço é pouco, sobra talento. Consolidado como um dos mais interessantes espaços culturais surgidos nos últimos tempos numa São Luís sempre ressentida da carência de coisas do tipo, Chiquinho, um ex-sebista que ainda tem algumas sobras do acervo a decorar as paredes do lugar, nega qualquer palavra que não “bar” para definir sua casa.

Dando prosseguimento à temporada iniciada mês passado, o cantor, compositor e violonista André Lucap volta ao palco do Chico Discos (Rua Treze de Maio, 389, esquina com Afogados, sobre o banco Bonsucesso), acompanhado dos músicos Guilherme Raposo (teclado) e Hamilton Oliveira (contrabaixo), o duo Nosotros. No repertório, músicas autorais, do álbum inédito On, a ser lançado em breve, e releituras de nomes como Beatles, Beck, Bob Marley, Johnny Cash, Joy Division, New Order, Nine Inch Nails e Vitor Ramil.

O show acontece nesta sexta-feira (20), às 21h. Os ingressos custam R$ 12,00. Maiores informações: (98) 8159-1990.

Chico Discos: um bar

Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).

Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.

Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.

Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.

Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.

Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.

Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).

Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.

Cine Chico

Há quase ano e meio o poeta Paulo Melo Sousa, mais conhecido como Paulão, resolveu reunir pessoas e temas interessantes e bater papo. Em novembro de 2010 surgia o Papoético, num endereço anterior do Chico Discos, o charmoso misto de sebo e bar do Chiquinho, cabra de bom gosto, figura que também aprecia uma boa conversa e boa bebida, sobretudo se for para falar de cinema, música e literatura, suas, nossas paixões.

O Papoético, hoje consolidado, sucesso absoluto de público, vem a cada quinta-feira instigando cabeças a passear pelos mais diversos assuntos. Tenho aparecido pouco, mas confesso que é sempre um espaço superagradável.

O debate-papo semanal recentemente lançou seu 1º. Festival de Poesia, tendo por patrono o poeta Maranhão Sobrinho, cujo edital e regulamento podem ser acessados na aba [PAPOÉTICO] deste blogue, aí por cima.

Mas não é do Papoético que quero falar. Desde sábado passado outra tertúlia está também agitando o Chico Discos. Trata-se do Encontro com Cinema, cujo e-mail de divulgação recebi do cineasta Beto Matuck, diretor de Mané Rabo. A ideia é a seguinte: às 19h exibe-se um filme (sábado agora, dia 10, é Medeia, de Lars Von Trier) e na sequência a “música do mundo” toma conta do lugar.

Desserviço – Não tenho mais informações nem fui atrás. Não sei por exemplo se o dj é o próprio Chiquinho e se a curadoria cinematográfica (suponho que a cargo do próprio Matuck) está aberta a sugestões do público. O grande lance é chegar lá e se inteirar.

Mundo, mundo, vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo…

O blogue dedica este post a Bruno Azevêdo (brega é tu!) e Ricarte Almeida Santos, que outro dia, em meio ao expediente, cantou o trecho da música que vocês lerão na prosa abaixo.

TUDO É RAIMUNDO

Ventania, agitador cultural, botou um bar. No dia sete de setembro, depois do desfile dos colégios, Roberto Baresi sentou-se e pediu uma cerveja. Outros estudantes, vendo que a cerveja estava véu de noiva, super-gelada, imediatamente lotaram o ambiente. Eram vários pedidos ao mesmo tempo:

“Ventania, traz uma cerveja… Ventania, um refrigerante… Ventania, uma água mineral…”

Neste intervalo, alguém gritava…

“Ventania, bota Raimundo Fagner.”

A correria continuava e os estudantes pedindo cervejas, refrigerantes, água mineral e o rapaz cada vez mais alto gritava:

“Ventania, bota Raimundo Fagner.”

Depois de muita insistência do rapaz, Ventania entra no bar e grita:

“Lá vai a música.”

De repente se ouve uma introdução com ritmo brega e uma voz rouca brada nas caixas de som:

“Minha Santa Inês, minha terra querida…”

Raivoso, o rapaz rebate:

“Porra, Ventania, esse aí não é o Raimundo Fagner não, é o Raimundo Soldado!”

E cansado, Ventania finaliza:

“Tudo é Raimundo… e esse aqui é melhor ainda porque ele é soldado e além de tudo é maranhense.”

&

Zé Lopes, Bacabal – Cenas de um capítulo passado. São Luís: Edições Secma, 2009