O pife é pop

Chego já. Capa. Reprodução
Chego já. Capa. Reprodução

 

Quando Gilberto Gil lançou Expresso 2222, em 1972, gravou Pipoca Moderna, do alagoano Sebastião Biano com letra de Caetano Veloso: “e era nada de nem noite de negro não/ e era nê de nunca mais”, anunciava a letra, cujo fecho era a aurora: “pipoca ali, aqui/ pipoca além/ desanoitece, amanhã tudo mudou”.

Os pífanos da Banda de Pífanos de Caruaru, desde muito antes liderada pela família Biano, ganhavam mais ouvidos brasileiros que os a que sempre estiveram acostumados. O instrumento rústico, primo da flauta, mais conhecido no meio rural, onde anima festas religiosas e profanas, tornava-se pop.

Anos depois os parceiros pernambucanos Carlos Fernando e Geraldo Azevedo prestaram bela homenagem aos Biano e à Banda de Pífanos de Caruaru, saudando-os como “os Beatles de Caruaru” em Forrozear, gravada pelo segundo em Futuramérica (1996).

Com 97 anos recém completados na última véspera de São João, Sebastião Biano e Seu Terno Esquenta Muié – assim assinam o disco, com expressões usadas como sinônimos de banda de pífanos – acabam de lançar Chego já [2016, com incentivo do Proac/SP e realização da Maracá Cultura Brasileira], com 17 faixas, quase completamente autoral – a exceção é Bendito de Nossa Senhora Aparecida, tema de domínio público que encerra o disco, o segundo solo da longeva carreira de Biano (o primeiro foi lançado ano passado).

A ele (pífano e voz) somam-se Junior Kaboclo (pífano), Filpo Ribeiro (viola, rabeca e marimbau), Renata Amaral (contrabaixo) e Eder “O” Rocha (zabumbateria). O grupo assina a direção musical, sob produção musical de André Magalhães.

Predominantemente instrumental, o disco passeia por dobrados, arrasta-pés, marchas, sambas e valsas, demonstrando a versatilidade do pífano – ou “pife”, como se costuma simplificar a pronúncia do nome do instrumento protagonista de Chego já.

Nas faixas faladas, Biano conta histórias. “Nós fazia [sic] música no compasso, era o compasso do toque do chocalho no pescoço do animal, que ele vai andando e o sonzinho vai saindo; nós trabalhávamos para fazer a música em cima daquele som; o compasso é o estilo da música, chamava o compasso; hoje em dia tem a palavra de ritmo, era o compasso”, revela em A zabumba, antes de entrar propriamente no método de construção do instrumento de percussão, com couro de bode e madeira de imburana, de que seu pai era um ás.

O trecho acima transcrito é uma aula de simplicidade. Como o que não carece ser complexo para ser bonito, qual um baile animado a pífano – ou pife –, Chego já é uma aula de musicalidade suprema, de sensibilidade posta à prova, onde qualquer coisa se transforma em beleza, servindo de inspiração.

Veja trecho do show de lançamento de Chego já:

Utilidade pública: discografia da gravadora Marcus Pereira disponível no youtube

Num dia triste para a música, com as notícias dos falecimentos de George Martin e Naná Vasconcelos, uma notícia alvissareira me alcança por um e-mail do poeta Reuben da Cunha Rocha: toda a discografia lançada pela gravadora Marcus Pereira está disponível para audição no youtube (e download via torrent).

A gravadora lançou mais de 100 discos entre 1967 e o início da década de 1980. O primeiro, Onze sambas e uma capoeira, reunia, em 12 faixas, os irmãos Chico e Cristina Buarque e Adauto Santos interpretando a obra de Paulo Vanzolini. Uma das raridades desta gravadora em que, afinal de contas, tudo é raridade, é a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira, o terceiro disco brinde distribuído pela agência de publicidade de Marcus Pereira a seus clientes por ocasião das festas de fim de ano. Logo ele abandonaria a publicidade, dedicando-se exclusivamente à gravadora, passando a realizar talvez o mais importante mapeamento musical brasileiro da história. Algumas dezenas de discos e pouco mais de uma década depois, acossado por dívidas, Marcus Pereira se suicidaria.

Foi ele o responsável pelo lançamento de algumas pérolas do cancioneiro nacional: Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Arthur Moreira Lima, Banda de Pífanos de Caruaru, Canhoto da Paraíba, Carlos Poyares, Cartola, Celso Machado, Chico Buarque, Dércio Marques, Dilermando Reis, Donga, Doroty Marques, Elomar, Luperce Miranda, Marcus Vinicius, Paulo Bellinati (do Pau Brasil), Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial, Quinteto Villa-Lobos e Sérgio Ricardo, entre outros, tiveram álbuns lançados pela Discos Marcus Pereira.

Lances de agora. Capa. Reprodução
Lances de agora. Capa. Reprodução

Os maranhenses Irene Portela, Papete e Chico Maranhão lançaram discos pelo selo. A codoense lançou Rumo Norte em 1979, entre repertório autoral e regravações de João do Vale; no ano anterior o visionário Marcus Pereira lançou Bandeira de aço e Lances de agora, ambos citados entre os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, em enquete do jornal Vias de Fato.

Rumo Norte. Capa. Reprodução
Rumo Norte. Capa. Reprodução

Por lá Papete lançaria ainda Água de coco, Berimbau e percussão e Voz dos arvoredos; Chico Maranhão, além do disco brinde dividido com Renato Teixeira e de Lances de agora, lançaria ainda Maranhão (comumente conhecido como Gabriela, por seu frevo-título), e Fonte nova.

O acervo da gravadora Marcus Pereira está com a Universal Music (que adquiriu a EMI), que não tem interesse comercial em relançar este precioso catálogo, ao menos não com a urgência necessária. “Grande parte da música brasileira está simplesmente se perdendo por não haver interesse comercial”, declarou-me o jornalista Eduardo Magossi, que aborda a história da gravadora em sua tese de mestrado. Ele foi o responsável pelo relançamento dos quatro discos da série História das Escolas de Samba, dedicados à Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro e anuncia novidades para 2016, sem adiantar que títulos serão relançados.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

De um lado burocratas preocupados apenas com lucros de grandes companhias, de outro lado o poder público despreocupado com este imenso patrimônio cultural. Enquanto isso, viva a iniciativa do anônimo que decidiu disponibilizar esta valiosa coleção, de audição obrigatória para qualquer interessado em música brasileira.

[Update: Recomendando-me este texto de sua autoria o jornalista Eduardo Magossi alertou-me de uma incorreção no texto, aqui corrigido às 14h13; o primeiro disco lançado por Marcus Pereira foi Onze sambas e uma capoeira, e não a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira]