Festejos, o início de um duradouro voo

[Sobre Festejos, de Alexandra Nicolas, 7 e 8 de março de 2013, Teatro Arthur Azevedo]

A artista esbanjou talento, simpatia e sinceridade em Festejos

Na condição de assessor de comunicação, talvez o conflito de interesses pudesse me impedir, mas não podia deixar, ainda que tardiamente, de dizer algumas palavrinhas sobre Festejos, o par de shows com que a cantora Alexandra Nicolas lançou seu disco homônimo em São Luís, 7 e 8 de março passados.

Acompanhar o processo de dentro deixa-nos em posição privilegiada, mas não quero aqui simplesmente dizer as músicas que ela cantou e/ou seus autores, as mesmas do maravilhoso disco, que gravou no Rio de Janeiro, acompanhada de grandes mestres do choro brasileiro, interpretando 13 obras assinadas por Paulo César Pinheiro, sozinho ou em parceria – foi dica dele, aliás, o “gosto de quero mais” que ela deixou a quem assistiu a um ou aos dois dias de espetáculo.

Alexandra Nicolas protagonizou um espetáculo musical de alto nível, seja por sua própria qualidade artística, indiscutível – é uma de nossas grandes cantoras, embora estreie em disco apenas agora, após 20 anos de carreira, e daí? –, seja pela qualidade do repertório escolhido, seja pelos exímios instrumentistas escolhidos, seja por outros aspectos que contam: sonorização, cenário, luz. Tudo estava “na medida” para a plenitude da artista no palco. De emocionar!

Nada lhe faltava, nada lhe sobrava, embora a artista não seja um robô de gestos meramente ensaiados. Contradigo-me: sobrava-lhe sinceridade, aquela era a sua verdade, como bem disse em diversas entrevistas antes dos shows, por vezes justificando sua demora em estrear no mercado fonográfico.

Em arte não há isso de cedo ou tarde: podem existir momentos certos e errados. Alexandra Nicolas estreou em boa hora, presenteando o público sempre ávido de boa música com um repertório que valoriza as mulheres brasileiras, e em que, qual João do Vale, outro gênio de nossa composição, também canta sua terra.

Alexandra Nicolas veio parir Festejos em sua terra natal, mas feito ave cantadeira voará para sacudir a poeira de sua saia, noutros terreiros em que reinará soberana. Por que seu disco, repertório, talento e carreira terão vida longa, a começar pela turnê anunciada para breve, por diversas capitais brasileiras, terminando no Rio de Janeiro.

E isso é só o começo da festa, abram alas, como bem recomendou Paulinho, do alto de sua experiência, sabedoria e intimidade de compositor-padrinho.

O dono da UFMA

POR FLÁVIO REIS*

Tempos sombrios marcam a universidade brasileira, não obstante toda a propaganda governamental (e das próprias instituições) falando maciçamente em expansão, melhoria de infraestrutura, inclusão, participação e comprometimento com a sociedade. Na UFMA, o reitor Natalino Salgado segue a escalada autoritária que foi a marca real de sua administração desde o primeiro mandato. Pouco afeito à contradição e ao debate, é um homem do espetáculo, preocupado acima de tudo com a projeção da imagem, para quem os estatutos da universidade estão sempre abaixo de sua vontade. O recente caso da exoneração do professor Ayala Gurgel deve ser analisado num quadro maior de desmandos e caprichos de um reitor que reedita em várias questões as posições de um símbolo do autoritarismo na UFMA, José Maria Cabral Marques, a quem nos referíamos no início da década de 80 como o “Reitô”.

Vindo de uma gestão de dez anos à frente do Hospital Universitário, um tempo total ilegal se observados os estatutos, iniciou seu reitorado convocando a polícia militar para garantir a votação da adesão ao REUNI pelo Conselho Universitário (CONSUN). A partir daí, o que se viu foi um processo de esvaziamento dos colegiados superiores (mesmo que lhe sejam sempre dóceis), a rotinização de decisões tomadas centralizadamente pela Pró-Reitoria de Ensino, um plano de reestruturação física levado a efeito de forma caótica, sem nenhuma preocupação em ouvir a comunidade universitária, contando hoje com uma série de esqueletos de prédios espalhados pelo campus (ops!, pela cidade universitária, como quer o Magnífico), uma expansão irresponsável de cursos e número de alunos, cujos problemas já se acumulam a olhos vistos e começam a vazar por todos os lados, aqui e nas unidades do interior (ops!, do continente). Emoldurando tudo, uma obsessão com o que chama de “imagem da universidade”, mas confunde cada vez mais com a sua imagem e da sua administração.

Neste período, para que ocorressem as eleições regulares para chefes de departamento e coordenadores de cursos foi preciso a APRUMA solicitar a intervenção do Ministério Público. Em contrapartida, a consulta eleitoral para reitor foi largamente manipulada, com exíguo tempo de campanha, inexistência de debates e utilização descarada da máquina universitária. Ao final, registrou-se o menor comparecimento percentual de todas as consultas. Uma abstenção gigante, solenemente ignorada pela ASCOM, cada vez mais transformada em assessoria de comunicação do reitor e não da universidade, que alardeou uma vitória esmagadora.

Seguindo o script do “Reitô”, protagonizou uma intervenção na direção do Colégio Universitário em plena greve de professores no ano passado, desencadeando-se, com a nova diretoria, perseguição ao professor Bartolomeu Mendonça, da área de sociologia e integrante da atual direção da APRUMA, cuja disciplina foi simplesmente cancelada da grade do 3º. ano. Na ocasião, em cena patética registrada no youtube, falou contra os “professores que reclamam, que não vestem a camisa da instituição” (leia-se da sua administração). Mais recentemente encaminhou a adesão do Hospital Universitário à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares sem discussão e sem consulta ao Conselho Universitário. O mesmo se deu com a assinatura da demissão do professor Gurgel, pois a reunião do CONSUN que confirmou a decisão foi efetuada por força judicial. Uma decisão que, de resto, já havia sido anunciada pelo próprio “Reitô” no início de tudo, antes de qualquer processo, ao convocar uma entrevista coletiva com a presença do núcleo da administração superior da universidade, todos no auditório central em autêntico espetáculo midiático, para dizer que ou o professor comprovava suas “denúncias” (uma afirmação feita numa conversa no twitter) ou seria exonerado.

A comissão de sindicância convocada não teve nenhuma dúvida em atender à vontade do Magnífico “Reitô”, que prontamente deu por finalizada a questão e assinou a demissão, em contraste flagrante com o estipulado nos estatutos e nos ritos a serem seguidos. Não bastou a defesa mostrar como o processo estava eivado de erros, relativo a prazos, encaminhamentos, forma de enquadramento, contradições etc. Instado judicialmente a convocar o CONSUN, o que deveria ter feito antes de finalizar o caso se tivesse a mínima preocupação com a observância dos estatutos, este confirmou vergonhosamente, mas sem surpresas, a decisão sumária de exoneração. Os conselheiros não parecem interessados em outra coisa a não ser não contrariar o “Reitô”, pois ao invés de perceberem no atropelamento do processo a sanha vingativa encapuçada de defesa da instituição e a afirmação de um modelo de direção que tem ojeriza por decisões colegiadas, justamente o contrário do que deveria ser numa universidade, preferiram entregar na bandeja a cabeça não apenas do professor Ayala Gurgel, mas de qualquer um que, por algum motivo, venha a ferir a “imagem da UFMA”, seja lá o que isso signifique, ficando a critério daquele que se considera o seu dono. E ainda assinaram embaixo que o processo pode seguir independente da observância das regras para sua instrução.

Deve-se ressaltar que tudo foi feito com a anuência velada, mas não menos vergonhosa, de todos os que se abstiveram na votação. O único voto contrário à decisão foi o da representante da APRUMA, justamente o único espaço da universidade que Natalino Salgado tentou controlar e não foi bem sucedido. Se no Conselho Universitário têm assento pró-reitores e outros cargos de nomeação pelo reitor, lá também estão os diretores dos centros, chefes de departamento, coordenadores de cursos, todos eleitos, na plenitude de suas prerrogativas, mas abaixam a cabeça e acatam tudo, sempre. É o servilismo como vocação.

Não venho a público apenas prestar solidariedade ao professor Ayala Gurgel, a quem não posso dizer que conheça, muito menos avalizar seus métodos e comportamentos, mas para insistir no ponto crucial que é o viés autoritário que marcou todo o posicionamento da direção da universidade no caso, o encaminhamento praticamente à margem da legislação, a qual se agregam agora observações críticas ao professor colocadas no site da instituição, levantando problemas que não têm a ver com a questão em foco. A nota emitida pela administração superior chega ao cinismo de dizer que a decisão foi levada ao CONSUN “por respeito à comunidade acadêmica”, invertendo completamente os fatos e tratando a todos como idiotas. Isto é comum aos ditadores de vários matizes, os métodos são sempre os piores possíveis.

Num quadro de fragilidade institucional e desmandos rotineiros, perseguições tendem a se tornar correntes. Recebemos estarrecidos um comunicado da APRUMA dando conta de que a progressão funcional da professora Marizélia Ribeiro, do departamento de Medicina III, encontrava-se parada há um ano no respectivo Centro, apesar de toda a documentação comprobatória estar em ordem. Foi necessário, mais uma vez, mandado judicial para que o processo chegasse ao final. Frise-se: mandado judicial para uma simples progressão funcional! Que outra explicação encontrar a não ser a conhecida atuação da professora, secretária geral da APRUMA, na luta contra os desmandos da atual administração? É quase inacreditável e chega mesmo a ser ridículo que estejamos nesse ponto.

Ao “Reitô” Natalino Salgado não interessa uma discussão a sério sobre a reforma dos estatutos no sentido de uma efetiva democratização que garanta maior espaço para a comunidade universitária decidir os destinos da UFMA. Nada mais longe do seu ideal concentrador e personalista. O próximo passo, inclusive, é jogar as fichas no fim das unidades departamentais, na verdade com a finalidade pura e simples de concentrar decisões sobre ensino e pesquisa, destinação de carga horária etc. nas Pró-Reitorias ou alguma instância superior, contanto que seja quebrada a parca autonomia ainda exercida no nível dos departamentos.

Ao invés de encontrar formas de integrar as atividades e os departamentos, que agem como ilhas quase incomunicáveis entre si, para o que concorre a inércia dos Centros, incapazes de exercer qualquer função dinâmica, muitos parecem já concordar em comodamente entregar tudo para as decisões vindas de cima, sem atentar para os riscos a uma frágil aglutinação que ainda se exerce no âmbito dos departamentos. Seremos jogados numa pulverização similar à que ocorre nas universidades privadas, onde o interesse final limita-se à contabilidade das horas de aula ministradas, numa submissão sem freios à lógica quantitativa da mercadoria.

Torna-se cada vez mais imperiosa a mobilização pela reforma dos estatutos numa perspectiva contrária a essa avalanche de uniformização e centralização de decisões, cujos frutos maiores sempre são o autoritarismo e a paralisia da crítica. A UFMA passa por um momento importante de renovação de seus quadros de docentes e funcionários, além da expansão do número de alunos. É preciso que se envolvam nas questões postas e os antigos não se furtem ao compromisso de construção de um espaço mais dinâmico e integrado, seja em sua face interna, acadêmica, seja nas relações efetivas com a sociedade, o que só conseguiremos quebrando os velhos modelos de gestão da coisa pública, mergulhados nos conhecidos festivais de arbitrariedade, compadrio e patrimonialismo, apesar de todo o invólucro da propaganda modernizadora. É recuperar, pelo menos, a dignidade de afirmar ao sr. Natalino Salgado que a UFMA não tem dono. Algo que o CONSUN perdeu.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Antropologia e Sociologia da UFMA. Publicou Guerrilhas (Pitomba/ Vias de Fato, 2012), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (Ed. do autor, 2007) e Cenas marginais (Ed. do autor, 2005).

Profissionais da Ascom do MP encaminham carta aberta aos candidatos a Procurador Geral de Justiça

Os seis candidatos ao posto de Procurador Geral de Justiça do Estado do Maranhão receberam, em mãos ou por e-mail, esta Carta Aberta, datada de ontem (11), assinada por seis profissionais da Assessoria de Comunicação do Ministério Público: Adriano Rodrigues, Eduardo Júlio, Francisco Colombo, Johelton Gomes, José Luís Diniz, Lucina Medeiros e Rodrigo Freitas, todos concursados.

Na carta, de uma dignidade e transparência raramente vistas por estas plagas, reiteram seu compromisso com o serviço público e os atributos ministeriais e relatam casos de transferências injustificadas, assédio moral, agressões e outras irregularidades perpetradas pelo coordenador de Comunicação Tácito de Jesus Lopes Garros, mandito no cargo pela procuradora Fátima Travassos mesmo após uma série de denúncias, sindicâncias e processos administrativos contra ele.

Este blogue torce para que a carta dos membros da Ascom não vá simplesmente repousar em gavetas ou ser levada em consideração apenas durante o processo eleitoral, que conforme já relatou o jornalista Itevaldo Jr., está indo mal, com o cancelamento do único debate previsto entre os candidatos.

A eleição no Ministério Público acontece nesta segunda-feira (14).

UFMA errou de Flávio

Como já é sabido dos poucos mas fieis leitores deste blogue, o professor mestre FLÁVIO ANTONIO MOURA REIS lança hoje, em debate com os professores Flávio Soares e Wagner Cabral, seu mais novo livro, Guerrilhas.

O último, via tuiter, alertou: a UFMA errou o Flávio. Numa lambança (para lembrar título de artigo de Reis que ficou de fora de Guerrilhas sobre a gestão de Natalino Salgado), googlaram Flávio Reis (o certo é este, dona UFMA!) na página do CNPq/Lattes e acharam Luis Flávio Reis Godinho, professor doutor.

A turma errou até o título do livro: vejam que está no singular, no parágrafo inicial.