Música para qualquer um/a

Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação
Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação

 

Há alguns anos entrevistei o poeta Antonio Rezende, por ocasião do lançamento de Acerto de contas, seu livro de estreia, coletânea de poemas escritos desde a década de 1980, quando o tocantinense morou em São Luís, onde chegou a integrar a Akademia dos Párias, movimento que fez barulho na cena da poesia local.

Poeta, jornalista e artesão, eis que Reza, como os amigos carinhosamente o chamam, está de volta à Ilha. Desta vez a bordo da Kombi Miliquinha, estacionada no pátio da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM, Rua do Giz, Praia Grande), onde o artista realiza, em parceria com a instituição, uma exposição de flautas artesanais, produzidas por ele. Amanhã (26), às 14h, a EMEM sediará uma tarde de oficinas de iniciação musical em sopro xamânico e produção artesanal de flautas. As atividades são gratuitas e abertas ao público em geral. Os instrumentos produzidos pelo artista poderão ser adquiridos pelos interessados.

O veículo é uma unidade móvel do Lar do Bardo, escola/oficina de produção artesanal de instrumentos e iniciação musical em sopro e percussão, que Rezende mantém em Taquaruçu, distrito de Palmas/TO, onde vive há alguns anos e desenvolve atividades de arte-educação nos campos da música, literatura, fotografia, artesanato e produção artesanal de instrumentos experimentais.

A passagem pela Ilha é fruto também de uma parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e incluirá, até domingo (29), oficinas livres. “Elas podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, dependendo da oportunidade e do interesse das pessoas. É uma iniciação rápida que demonstra a simplicidade das flautas nativas e a facilidade que qualquer pessoa encontra para tocá-las. São flautas para improvisos melódicos espontâneos e dispensam conhecimento teórico de música. É como assoviar dando asas à musicalidade interior. Pura viagem introspectiva, uma meditação/elevação pelo sopro. Simples e vital como o ar que se respira”, afirma.

A circulação do projeto é, como diria mestre Itamar, às próprias custas s.a.

Telhas na cabeça! Elmo Renato expõe na Galeria Trapiche

Artesão expõe 96 peças realizadas em telhas de construção. Na conversa com o blogue revelou origens e apontou influências.

O artesão Elmo Renato Serra Cordeiro nasceu em 20 de outubro de 1970, em São Luís/MA. É bastante conhecido da maioria dos leitores do Vias de Fato: pelos corredores da Universidade Federal do Maranhão era figurinha fácil, envergando mochila, bengala, um chapéu a la Lampião e alguns exemplares do jornal debaixo do braço.

Ele ingressou na UFMA em 2009 para cursar História, que trancou no quinto período. O uso da bengala decorre de uma patologia que teve quando criança, o que o deixou sem andar até os cinco anos de idade. “Fiz muita fisioterapia para poder me locomover sozinho. Mesmo com algumas limitações físicas, tive uma infância muito feliz e bastante proveitosa, graças ao apoio sempre constante dos meus pais”, revela.

Elmo dedica-se ao ofício do artesanato e atualmente está em cartaz com a exposição Deu na telha, que pode ser conferida em horário comercial, até o próximo dia 12 de junho, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (av. Vitorino Freire, em frente ao Terminal de Integração da Praia Grande). São 96 peças, utilizando telhas de construção como principal matéria prima.

Os temas, os mais diversos possíveis, vão do abstrato à cultura popular do Maranhão, da lenda da serpente ao imaginário de pescadores, passando por homenagens a familiares do artesão e uma galeria da esquerda sul-americana, a que comparecem o jornal Vias de Fato, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), o Mercosul e Ernesto Che Guevara, entre outros.

O blogue visitou a exposição e conversou com o artesão.

Foto: Divulgação (fan page do artesão)
Foto: Divulgação (fan page do artesão)

 

Quando você teve o estalo de produzir usando telhas de construção? Foi há mais ou menos 18 anos, quando vi numa loja de artesanato uma máscara em estilo tribal africana esculpida em madeira, mas que lembrava muito o formato de uma telha. A partir daí comecei a produzir máscaras usando a princípio a massa epox ou resina sintética para sua confecção e depois pintava com tinta acrílica.

Qual o material utilizado na confecção das telhas em exposição? Uso a argamassa para sentar piso como massa para esculpir sobre a telha e as pinto depois de secas com tinta plástica a base d’água.

Você produz artesanato em outros suportes? Quais? Sim, em pisos e revestimentos cerâmicos, com os quais pretendo fazer outra exposição só com esse tipo de base.

Com quem você aprendeu a fazer artesanato? Aulas, alguma influência na família, autodidatismo? Desejo de criar, curiosidade e prazer, não necessariamente nessa ordem. A influência veio do meu irmão, que desenhava muito melhor do que eu.

A quem interessar possa, fora da exposição, onde as pessoas podem ver teu trabalho? No momento estou criando peças na minha casa, onde tenho um espaço reservado para meu trabalho e exposição delas.

Percebe-se na exposição uma gama bastante variada de temas. Quais os teus prediletos? O que te inspira a produzir? Eu desde muito cedo sempre gostei de desenhar, principalmente nas aulas de educação artística, disciplina que tinha quando estudava no Franco Maranhense, onde iniciei no jardim e conclui o primeiro grau, na década de 1980. Foi nesse período que, por gostar muito de quadrinhos, procurava desenhar imitando o estilo dos desenhistas, principalmente os brazucas: Watson Portela, Mozart Couto, Flávio Colin e outros que produziram o melhor do quadrinho de gênero terror da antiga editora Vecchi, com títulos como Spectro Sobrenatural e Pesadelo, dos quais era um fã e colecionador. Depois vêm os quadrinhos de heróis da Marvel e outros. Vendo meu gosto e dedicação pelo desenho, minha mãe me matriculou no curso de desenho e pintura com o grande mestre Ambrósio Amorim, no antigo [Centro de Artes] Japiaçu, onde fui apresentado à tela, paleta, óleo de linhaça, terebintina e tintas a óleo (gato preto). Foi minha fase dos casarios e marinhas, fiquei nesse estilo muito tempo. Foi pela curiosidade que comecei a buscar outras formas de artes plásticas, como a escultura em argila, com o professor ceramista Luis Carlos. Depois passei para a xilogravura com o Airton Marinho, outro espetacular artista popular na arte de esculpir em baixo relevo na madeira para depois passar para o papel suas formas em cores vibrantes e sempre valorizando nossa cultura popular. Enfim, foram muitos os caminhos e estilos até chegar na forma que hoje em dia eu produzo minhas peças, onde o abstrato é muito frequente, mas também o figurativo, mesmo que de forma estilizada, e a arquitetura colonial da cidade de São Luís, onde nasci e que ainda me inspira, apesar do descaso do poder público.

Quando não está fazendo artesanato, o que você mais gosta de fazer? Gosto de ler, assistir documentários e filmes, navegar na rede [é usuário frequente do facebook, onde expõe suas obras virtualmente na fan page Elmo Artesanato], ir à praia com a família ou visitar meus pais.

Faça sua festa no Ceprama. Ligue já para o Governo do Estado e faça sua reserva!

(OU: A MORTE DO CEPRAMA DEPRIME)

Ontem eu fui ao Ceprama. Por conta de uma demanda da Cáritas, uma das entidades a que presto assessoria. Dei bom dia a um homem na porta e entrei. Assustei-me ao ver o enorme salão vazio. Quer dizer, cheio de vigas, ou coisa que o valha, uma reforma em andamento, vi rápido, entre o susto e aquele embaço nas vistas, sempre ocorrido quando adentramos um ambiente fechado imediatamente após deixarmos o sol a pino.

Onde estavam os artesãos e suas obras de arte? Quedê azulejos, chaveiros, camisas, boizinhos, bijuterias, souvenires que tanto alegram os turistas que passam por aqui ou os parentes e amigos presenteados lá fora? Nada. As perguntas, inicialmente feitas de mim para mim, incrédulo, repeti ao homem que havia cumprimentado na entrada. “Eles estão lá no… como é o nome?”, começou a responder, perguntando a um terceiro. “Do quê?” “Do negócio que eles [os artesãos e as artesãs] ‘tão… ali na Beira Mar…”, continuou a perguntar, ao que chutei, certeiro: “Casa do Maranhão?”, “Isso!”. Agradeci e me dirigi ao carro, voltando do meio do caminho.

“Deixa eu te perturbar de novo. Faz quanto tempo?” “Uns quatro meses.” “E aqui, vai ser o quê?” “Uma casa de eventos, o Governo vai arrendar.”

Quatro meses! Ok, eu não leio jornais como deveria, às vezes o faço por mero dever de ofício, dada a qualidade de nossa mídia em geral. Mas essa minha ida por acaso ao Ceprama foi a primeira vez que ouvi falar na remoção dos artesãos dali para a Casa do Maranhão. Ok, o Ceprama não era lá um local que eu frequente habitualmente, mas acredito que essa notícia, nada nova, vá pegar de surpresa alguns dos poucos mas fieis leitores deste blogue.

Por conta da demanda da Cáritas, fui, em seguida, à Casa do Maranhão: superapertada com os artesãos instalados ali. “Como vocês vieram parar aqui?”, perguntei a um homem em um dos stands. “O pessoal do governo chegou lá e disse que a gente vinha pra cá.” “Só isso? Sem discussão, sem nada?” “Só, a gente tem que vir, não tem outro lugar, né?”, respondeu ele num tom conformado sem convencer sequer a si mesmo.

Resta saber como serão regidos e geridos (digeridos nunca!) os arrendamentos futuros do agora ex-Ceprama. Seguirão os princípios constitucionais da administração pública, da legalidade, impessoalidade, interesse público e transparência, entre outros? Ou será apenas palco privilegiado de barricas, marafolias e maracutaias?