Meio século do Duo Cappareli-Gerling é celebrado em São Luís

O Duo Cappareli-Gerling. Foto: Zema Ribeiro
O Duo Cappareli-Gerling. Foto: Zema Ribeiro

 

Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fredi Gerling (violino) e Cristina Cappareli (piano) – o Duo Cappareli-Gerling – subiram ontem (6) ao palco do Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) para o primeiro concerto do Encontro de Cordas Friccionadas Leocádio Rayol, que acontece até o dia 8 (sexta-feira), como parte das comemorações pelos 53 anos da Universidade Federal do Maranhão (Ufma), realização do Departamento de Música com apoio do Departamento de Assuntos Culturais.

O Duo Cappareli-Gerling está em atividade há 50 anos e o concerto em São Luís tinha também caráter comemorativo. Eles se conheceram em 1969, durante um curso de férias da Pro-Arte e realizaram naquele ano sua primeira turnê. Mudaram-se para os Estados Unidos, onde estudaram, e casaram-se em 1973; desde então, o duo realiza concertos ininterruptamente.

São dois senhores elegantes. Ele fica mais à frente ao violino, é quem interage com o público e dá informações sobre títulos e autores das peças executadas; ela, mais por detrás, ao piano, sempre atenta aos sinais, com um auxiliar, por vezes atrapalhado, virando a partitura antes da hora – a determinada altura, ela chegou a voltar a página (depois se entenderam e ele não tornou a errar).

Gerling aperta o violino entre a clavícula e uma intermediária de queixo e bochecha e estica a mão esquerda até a coxa, abrindo os dedos e voltando a empunhar o braço do violino, até tocá-lo com o arco – de que em determinada altura da apresentação arrebentou um dos pelos da crina, o que não interferiu na execução das peças seguintes. Como se os instrumentos fossem extensões de seus corpos, demonstram entrega absoluta a cada execução.

O concerto foi aberto com o Desafio, do pernambucano Marlos Nobre (nome lembrado por Turíbio Santos e João Pedro Borges em concertos no Festival Internacional de Violão de São Luís), seguida da 5ª. Sonata de Camargo Guarnieri. “Ele foi professor da Cristina e há 50 anos estava na plateia em nosso primeiro recital; achamos por bem homenageá-lo neste concerto comemorativo”, revelou Gerling.

O próprio Gerling, no início, antecipou tratar-se de um concerto para todas as idades: crianças, jovens e idosos, como a plateia diversa de ontem. Diverso também, e didático, foi o conteúdo do concerto, que durou exatamente uma hora. Antes de terminarem com Clair de lune, de Debussy, executaram uma Valsa de esquina, de Francisco Mignone. Para risos da plateia, ele discorreu, não nessa ordem: “nessa peça Debussy tenta retratar em música o clarão da lua”; e antes: “o Mignone retratou bem aquele ambiente boêmio do Rio, a Cinelândia, é uma música agitada, para mostrar os boêmios com seus chopinhos”.

Terminaram a apresentação aplaudidos de pé – e a plateia não era formada apenas por iniciados. Voltaram para novos aplausos. Sorrindo e sem perder a elegância, ele respondeu ao pedido de “mais uma”: “essas duas já foram o bis”.

O Encontro de Cordas Friccionadas Leocádio Rayol acontece até amanhã (8), com atividades no Casarão Azul/Ufma, Palacete Gentil Braga (Dac/Ufma) e Teatro Arthur Azevedo. A programação é gratuita.

Irmão de Antonio Rayol, Leocádio Rayol era considerado, em 1894, “o maior violinista brasileiro”, conforme o Pe. João Mohana em A grande música do Maranhão, cujo Inventário do Acervo João Mohana registra também, de sua autoria, uma missa a três vozes. A propósito, o Arquivo Público do Maranhão (Apem, Rua de Nazaré, 218, Centro) lança hoje (7), às 16h, o Acervo Digital João Mohana, com o conjunto de partituras colecionadas pelo pesquisador ao longo da vida.