Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

Chorografia do Maranhão: Celson Mendes

[O Imparcial, 22 de fevereiro de 2015]

Aviador e violonista, Celson Mendes é o 48º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.

A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].

Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.

Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.

O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].

Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].

Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.

E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.

Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.

E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.

Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.

Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.

O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.

Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.

E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.

E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.

Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.

Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.

Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].

Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!

Carmen Miranda será homenageada no RicoChoro ComVida

[release]

Repertório chorístico imortalizado pela cantora será lembrado por Alexandra Nicolas, acompanhada do grupo Urubu Malandro. O DJ Joaquim Zion também é convidado da terceira edição do projeto

Foto: divulgação
Foto: divulgação

 

“Carmen Miranda é minha maior inspiração como cantora. Eu escuto Carmen Miranda desde menina, mamãe era muito apaixonada por ela, e sempre me dizia que ela era alegria pura, que cantava com os olhos, além das mãos, além da voz. Quando eu pensei nessa alegria de retomar um trabalho com Ricarte, eu pensei nela, em associá-la a essa vida, desse RicoChoro ComVida”.

A cantora Alexandra Nicolas [leia entrevista] emociona-se ao referir-se a Carmen Miranda, a quem homenageia no palco do projeto RicoChoro ComVida, e ao convite para participar de sua próxima edição, que acontecerá dia 3 de outubro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

Alexandra Nicolas será acompanhada pelo grupo Urubu Malandro, formado pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Juca do Cavaco, Osmar do Trombone e Domingos Santos (violão sete cordas). À formação do grupo somam-se, em participações especiais, Fleming (bateria) e Rui Mário (sanfona).

O Urubu Malandro se notabilizou à época do projeto Clube do Choro Recebe, também produzido por Ricarte Almeida Santos, entre 2007 e 2010. Até seu falecimento, o grupo foi integrado por Antonio Vieira (voz e percussão, 1920-2009), também fundador, na década de 1970, do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

“A minha relação com os integrantes do Urubu Malandro vem através de Arlindo Carvalho, que é um percussionista que eu costumo dizer que é meu mestre. É alguém que escuta as batidas de meu coração desde a escolha de meu repertório, até a hora em que eu canto a última frase em um show meu. É o músico que mais me acompanhou em shows até hoje”, revela Alexandra Nicolas. O percussionista é o único maranhense em seu disco de estreia, Festejos [2013], gravado com grandes nomes do choro brasileiro, a exemplo de Luciana Rabello (cavaquinho), Maurício Carrilho (violão) e João Lyra (violão e viola), entre outros.

Sem perder a alegria típica da homenageada, numa das características fundamentais que mantêm vivo seu legado até os dias atuais, Alexandra Nicolas centrará o repertório de seu tributo em músicas mais voltadas ao choro, principal gênero – mas não o único – do cardápio musical oferecido por RicoChoro ComVida. “Urubu malandro [Pixinguinha, João de Barro e Louro] eu não poderia deixar de fora. Ah, tem tanta coisa. Tem uma música chamada Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], que é fantástica! É isso aí, a mulher brasileira, quando ela se propõe, ela tem tudo isso, “tem cheiro de mato, tem gosto de coco, tem samba nas veias, e ela tem balangandãs” [recitando trecho da letra]”, adianta.

“Eu me identifico muito com tudo o que ela fez. Tem Camisa listada [Assis Valente], Disseram que eu voltei americanizada [Vicente Paiva e Luiz Peixoto] não pode faltar. Na verdade eu estou montando uma história sobre as épocas de Carmen como cantora. Ela não é uma cantora só que canta, ela conta uma história muito boa, e por isso me identifico tanto com ela. Ela conta tanto, que ela modificou a maneira de cantar. Quando você olha para os olhos dela, ela está te contando alguma coisa e você tem que prestar atenção”, continua.

Foto: Claudia Marreiros
Foto: Claudia Marreiros

 

Quem também recebeu com alegria o convite da produção foi o DJ Joaquim Zion [leia entrevista]. Ele junta-se ao coro de Alexandra em elogios ao produtor e idealizador do projeto. “Pra mim é uma honra. Tenho imensa admiração pelo Ricarte e o projeto RicoChoro ComVida é de fundamental importância para o desenvolvimento da boa musica em nosso país”, declarou.

Clementina de Jesus, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Gilberto Gil, Dominguinhos, Di Melo, Paulo Moura, Jorge Ben, Caetano Veloso, Djavan, Pixinguinha e Donga, além de surpresas que ele só revelará na hora, estão no set list preparado por Joaquim Zion para abrir e encerrar a festa.

O DJ também destacou a importância da homenageada da noite. “Carmen Miranda foi a primeira cantora brasileira a ter reconhecimento nos Estados Unidos, o que de alguma maneira abriu portas para a nossa música lá fora. O pioneirismo dela fez com que o mundo abrisse os olhos para o Brasil e para a nossa música”, afirmou.

Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.

Serviço

O quê: RicoChoro ComVida – 3ª. edição
Quem: DJ Joaquim Zion, grupo Urubu Malandro e Alexandra Nicolas
Onde: Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quando: 3 de outubro (sábado), às 18h
Quanto: R$ 30,00. Vendas antecipadas de mesas (R$ 120,00 para quatro pessoas) pelo telefone (98) 988265617

Dácio Melo, 60 anos

Foto: ZR (30/5/2015)
Foto: ZR (30/5/2015)

 

Conheço-o há quase 30 anos. Quando criança, aproveitava as viagens de Rosário – onde morei até os sete – à capital para adquirir gibis da turma da Monica e Disney. Já era conhecido da família e aproveitava o gosto precoce do moleque por leitura para empurrar os últimos lançamentos ao adulto que o acompanhasse. Nunca saía de mãos vazias.

Depois, ele e uma tia, dona Maria (in memoriam), mudaram-se da rodoviária velha, na Alemanha, onde hoje há um posto de gasolina e uma escola, em frente ao Hospital da Criança, para a rodoviária “nova”, na Avenida dos Franceses, Santo Antonio. Dos personagens de Maurício de Sousa e Walt Disney, saltei para Tex Willer e Zagor, influência de tios que há muito já liam faroestes em preto e branco. Morávamos de aluguel, e dependendo da temporada, era mais prático descer do ônibus no retorno do Tirirical. Mas para ir à banca eu preferia esticar a viagem até a parada final, a rodoviária. Agora, a rota era ao contrário: tendo vindo estudar no Sesi, morava em São Luís e passava os finais de semana em Rosário.

Com o falecimento de dona Maria, Dácio mudou-se para o estacionamento da Praia Grande, onde está atualmente. Continuo seguindo-o, mesmo sem ele ter contas em redes sociais. O jornaleiro tem as características fundamentais para se destacar em seu ofício: prazer no que faz, conhece o que vende, bom humor, além de poder conversar sobre assuntos relacionados e estar sempre por dentro da agenda cultural da cidade. Hoje mesmo, quando o visitei, comentou brevemente o show Encanto, de Rita Benneditto, que assistiu ontem no Teatro Arthur Azevedo – eu não fui. Em sua banca comprei Som e Fúria, novo dela, com Jussara Silveira.

Durante muito tempo, mestre Antonio Vieira foi habitué de sua banca. O compositor era figura fácil por ali todo fim de tarde, quando ia jogar conversa fora e, não raro, a conversa esticava até a porta do Terminal de Integração da Praia Grande, onde tomava o mesmo ônibus do jornaleiro para voltar para casa. Algumas vezes juntava-me a eles.

Embora ainda teime em resguardar algo daqueles tempos, o moleque tornou-se o homem de vícios antigos e aos gibis juntou-se a leitura do noticiário e outras. “Quem lê tanta notícia?”, perguntaria o compositor. Mesmo frequentando outras bancas e becos, sempre torno a passar por ali para catar as novidades e apertar a mão do amigo. Dácio Melo completa hoje 60 anos.

Chorografia do Maranhão: Adelino Valente

[O Imparcial, 20 de julho de 2014]

Engenheiro civil, professor universitário, bandolinista e pianista, fundador do Regional Tira-Teima, Adelino Valente é o 36º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Adelino Valente, em sua casa, no Calhau, começa com ele mostrando uma velha fotografia emoldurada sobre uma mesa de centro: ao lado de outros músicos, ele figura como integrante do Conjunto Marista, sua “primeira escola musical”, um grupo especializado em jovem guarda, cujo sucesso extrapolou os muros do tradicional colégio, então no Centro de São Luís, e chegou a fazer muitos shows em cidades do interior, próximas à capital.

Sobre o piano vários discos, sobretudo de pianistas nacionais e internacionais, entre a bossa nova e o jazz, e um retrato de Letice Valente, sua filha, psicóloga e cantora, que ele elogia.

Adelino Valente da Silva Filho é filho de Dóris Moura da Silva e Adelino Valente da Silva, um português que chegou a vice-cônsul de Portugal, tendo aportado por aqui já com uma vocação musical. É o quinto de oito irmãos, todos com aptidões musicais. Em 16 de setembro de 1953, quando nasceu, sua família morava na Rua dos Afogados, esquina com Rua da Alegria, onde funcionava o vice-consulado de Portugal.

Arregimentador e arranjador de Antoniologia Vieira, disco dedicado à obra do compositor Antonio Vieira, com a participação de diversos nomes da música do Maranhão, entre os quais Zeca do Cavaco [cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Zé Carlos [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013] e Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], chegou a acompanhar o compositor, ao bandolim e piano, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo, em 2005. Também dividiu um disco, hoje esgotado, com o violonista Turíbio Santos [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013].

 

Adelino Valente define-se como “um apaixonado pela música, engenharia e magistério”. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Todo o Sentimento [Chico Buarque e Cristóvão Bastos] e um medley de Ernesto Nazareth, executados ao piano.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando sua vocação para a música começou a aparecer? Minhas duas irmãs, Ana Clara e Fátima, estudavam piano. Eu, com cinco, seis anos, lembro de papai reclamando: “vocês não estão progredindo, vocês precisam estudar mais”. Quem ensinava minhas irmãs era Maria José Cunha, uma professora da Rua do Sol, Sinhazinha Carvalho, tia de [os irmãos] Marcelo [Carvalho, pianista] e Tutuca [cantor, compositor e produtor cultural], então, papai sempre reclamando, ele era muito exigente pra que todo mundo tocasse. E elas diziam: “papai, a gente nem piano tem, como é que a gente vai progredir?” Papai, “bom, se for o caso a gente vai comprar um piano”, e terminou comprando. Quando esse piano chegou eu tinha uns oito anos de idade. Quando minhas irmãs começaram a estudar, aquilo batia aqui no coração e eu não sabia explicar o porquê. Eu querendo me aproximar e elas me dando bisca, “sai daqui menino, tu vais desafinar o piano novo”. Eu não conseguia nem botar um dedo numa tecla. Meu irmão Fernando Silva, que estudava violino, chegou em casa, abriu o piano, tocou boleros, eu achava maravilhoso. Ele me deu oportunidade: “vem ouvir aqui, deixa eu te mostrar”. A primeira noção que eu tive de piano: tem essas duas pretinhas, o dó tá bem aqui; tem essas três pretinhas, o fá tá bem aqui [aponta teclas no instrumento], nunca me esqueci disso. Eu sentia uma emoção diferente; com oito anos consegui chegar ao piano, minhas irmãs não estavam lá. Eu comecei a tocar as músicas bobinhas que eu sabia, Parabéns a você, muito fácil, Noite feliz, eu cheguei e comecei a catar. Comecei a ver que o que eu sabia aqui dentro eu conseguia passar para o piano com a mão direita. Uma das vezes mamãe escutou eu tocar uma música de brincar de roda, e ela chamou papai: “Adelininho tá tocando Atirei o pau no gato”. Papai, que era músico, percebeu em mim alguma tendência musical. Com isso, minhas duas irmãs, que já tocavam clássicos, começaram a desistir. E eu comecei a chegar perto do meu primeiro instrumento, o piano. Com 10 anos, Fernando Silva, hoje juiz aposentado, começou a me orientar, eu achava que ele era o maestro. Nessa época eu já estudava no Marista e lá encontrei outras pessoas com aptidão musical. Esse grupo musical do Marista foi uma pré-escola, onde tivemos uma orientação importante do professor Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ele era do Liceu [Maranhense] e conheceu nosso grupo.

 

Esse grupo era o Conjunto Marista? Sim. O mais novo era Luiz Fernando [guitarrista], Celso [baterista] era o mais velho. Eu [contrabaixo], Rodrigo Caracas [tecladista] e Jomar Sadok [guitarrista] somos da mesma faixa etária. A gente começou a tocar tudo o que Roberto Carlos lançava, jovem guarda etc. Ubiratan chegou lá uma vez, nunca esqueço, mostrando a harmonia de Garota da Ipanema [Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes]. Aquilo, cada vez que ele mostrava, era um impacto. Acabou que terminei me especializando nisso, harmonias complicadas, dissonâncias, jazz, bossa. Mas naquele tempo… eu sei que esse conjunto nosso foi uma coisa importantíssima. Eu tocava em casa, devagarinho, minhas irmãs se conformaram e no Marista começou isso. Durou uns seis, sete anos. E todas as sessões [os eventos] no colégio tinham que ter participação desse grupo. E tocar bem naquela época era tocar igual ao disco.

Quem você considera seus principais mestres no piano? Eu já tive os principais mestres depois de bastante tempo. César Camargo Mariano, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzzetta e Tom Jobim, entre outros.

Mesmo sem ter tido aulas com eles? Ou você teve aulas com algum deles? Pessoalmente não. Eu ia fazer a escola de Antonio Adolfo, no Rio, mas não cheguei a frequentar. Ele é maravilhoso, a filha dele, Carol Saboia, maravilhosa também. Isso foi numa etapa bem posterior, por que o primeiro instrumento foi piano, mas eu não continuei tocando fora de casa.

Então teu irmão acabou cumprindo um papel de te encaminhar para o piano. O primeiro mestre foi meu irmão. Fernando Silva, advogado, juiz, ele tem atualmente um piano de cauda em casa. No Marista eu tocava contrabaixo, meu professor era o Neném [da banda Os Incríveis, fenômeno da jovem guarda].

Ao que parece você já estava caminhando para ser multi-instrumentista. É, eu tocava ouvindo bastante o Pitomba [contrabaixista], do Nonato e Seu Conjunto. Eu ia para o [clube] Jaguarema, no carnaval, eu não dançava, eu e meu irmão Luis Fernando ficávamos observando. Olhei muito Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] também, ele era guitarrista dos Fantoches. Neném, fora daqui, e Pitomba, aqui, foram dois caras em que me inspirei muito para tocar contrabaixo. Tinha também o Osmar, filho do maestro Pedro Gromwell, que tocava baixo acústico.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você chegou a conhecer o professor Pedro Gromwell? Eu conheci, tive duas aulas com ele de violino, eu tinha apenas sete anos de idade, mas fiquei com medo. Ele era um senhor com o cabelo partido no meio, e papai dizia “tu vais ter que aprender com ele”. Ele me deu duas aulas teóricas. A primeira noção de compasso e tempo, eu não cheguei a pegar em instrumento nenhum. Ele chegou, na primeira aula, eu já estava dividindo. Eu, sem um preparo psicológico. Ele era um cara moreno, com os olhos claros, o cabelo partido no meio, uma gravata borboleta, era estranho. Mas foi bom. Na verdade, eu sou 90% autodidata. Depois eu fiz uns cursos por correspondência, harmonia para piano. É uma coisa intuitiva que foi crescendo.

O que vocês ouviam em casa, em termos de música? O que papai ouvia era fado, a música portuguesa. Eu realmente nunca fui muito voltado para ela. Ele trazia discos de Portugal, novidades, gravações. É uma música muito sentimental, mas não me emocionava, em termos de harmonia eu achava muito simples. E papai além de violino, tocava um pouco de violão.

Isso se mantém hoje ou sua relação com o fado mudou? Se mantém. Eu ouço se alguém tocar, mas eu comprar, eu não compro. Eu prefiro o trabalho da música brasileira. Agora papai se emocionava, chorava, ouvindo.

A música nunca pareceu ter a perspectiva de profissão. Não gostaria de dizer que ela tem ou teve um papel secundário, mas você tem outras formações? Sempre gostei muito de Matemática e Física. Eu entrei na Universidade para cursar Engenharia Civil e depois Licenciatura Plena. Fiz as pós-graduações já como professor da Universidade Federal do Maranhão. Agora, a paixão de nascença é a arte musical.

Houve alguma fase de sua vida em que você viveu de música? Ou ela sempre foi mais hobby? Levo a música muito a sério, sou muito perfeccionista, não é tocar por tocar. A música é um complemento. Apareceu um trabalho, ótimo! Não apareceu, a gente tem como se manter.

Com quem você aprendeu bandolim? É o seguinte: papai me deu as primeiras noções e eu fui evoluindo, ele tirando algumas dúvidas; como ele queria que eu estudasse violino e não deu certo, ele disse “meu filho, você vai estudar guitarra portuguesa”. Guitarra portuguesa é o xodó de todo português. Fomos passar umas férias em São Paulo e papai me levou na escola do professor Manoel Marques. Era o cara da guitarra portuguesa aqui no Brasil. Chegamos lá, pelo sotaque um já reconheceu que o outro era português, “esse é meu filho, tem 14 anos, toca um pouco de piano, um pouco de bandolim”. O professor me recebeu, pediu que eu tocasse os instrumentos que eu já estava tocando e ele se interessou: “esse menino tem que ficar aqui, não pode voltar para São Luís”, mas é tudo aquela coisa que você não tem condições de decidir. “Olha, o que ele já toca de bandolim, não vai dar trabalho nenhum para passar para a guitarra portuguesa, agora ele tem que passar aqui uns três meses, estudando a teoria musical”. É outra coisa que não vingou. Ele me deu um método de guitarra portuguesa, eu tenho até hoje guardado. Aí, papai tinha uma guitarra portuguesa, a influência dele foi fundamental. Ele não era um exímio tocador, mas na época, para a gente, era. Eu já estava tocando bandolim e a guitarra portuguesa era uma coisa nova, eu cheguei a tocar, com o livrinho do professor. Eu nunca tive dificuldade de tocar nenhum instrumento. Todos os instrumentos que eu peguei, eu consegui entender e tocar. Mas a gente precisa definir uns dois ou três instrumentos, no máximo.

 

Além do piano e bandolim, que outros instrumentos você toca? No segundo científico do colégio Marista, eu devia ter uns 17 anos, mais ou menos. Regina Telles [professora de artes], muito conhecida, apresentava um programa num canal de televisão, e eu fui escolhido para tocar todos os instrumentos que eu sabia. Eu cheguei a tocar 12 instrumentos,acompanhado por Zé Américo Bastos e Ubiratan Sousa. Não lembro se Antonio Paiva participou no baixo. Eu toquei piano, contrabaixo, bandolim, cavaquinho, violão, flauta doce, lápis – um instrumento inventado por nós no Marista, batendo o lápis no dente –, toquei Tico Tico no fubá [Zequinha de Abreu], toquei também guitarra e pistom. Não sei se esqueci de algum instrumento. Fiquei conhecido lá como o homem 10 instrumentos. Foi um programa muito bom, divulgou um trabalho, não lembro agora o canal. Eu fazia parte da banda do colégio Marista, era cornetista solo. O pistom eu toquei olhando o Helinho do Nonato [e Seu Conjunto]. Eu acabei me dedicando a dois instrumentos: o bandolim e o piano.

 

Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução
Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução

Foi por essa época que surgiu o Regional Tira-Teima? Como foi essa história? Ubiratan queria montar esse grupo. O bandolinista que ele conhecia era eu, do Marista. Na época em que ele me conheceu eu já me apresentava ao bandolim, fora do conjunto Marista. Dizia-me Ubiratan, “vamos montar um grupo”, mas quem? Ubiratan me ligou falando “encontrei um percussionista maravilhoso, vou levar no teu apartamento”. Liguei pra papai, pra ele ir conhecer a formação do grupo. Quando eu chego lá, vejo um senhor. Ubiratan me apresentou ao percussionista. “Como é seu nome?” “Antonio Vieira”. Ele foi o primeiro percussionista do Tira-Teima. Nós somos fundadores, sob o comando de Ubiratan. Eu peguei o bandolim, nesse tempo estava me dedicando muito, o piano estava até esquecido. Papai gostou, deu sua opinião favorável. Faltava cavaquinho, violão. Ubiratan convidou Cesar Teixeira, ele foi o primeiro cavaquinista do Tira-Teima. Às vezes ele ia num [ensaio], não podia ir em outro, chegou-se à conclusão que não ia dar, tinha outras ocupações, composição, inteligente demais, gosto muito dele. Ubiratan lembrou que tinha um rapaz estudando violão com ele, “muito interessado, Paulinho”. Eu disse: “rapaz, Paulinho é primo de minha esposa”. Era Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], eu o conhecia do Marista. Paulo chegou se justificando, “olha, pessoal, eu estou começando, eu toco violão, cavaquinho eu estou arranhando”. Começou a treinar, Ubiratan orientando. Aí ficou Paulo no cavaquinho. Nós começamos a ser conhecidos até fora do Maranhão. Nos encontramos com o [Conjunto] Época de Ouro, Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinhista, fundador do Clube do Choro de Brasília]. O Regional foi crescendo, faltava um violão, foi entrando gente. Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] assumiu a segunda percussão, Fernando Vieira, que chamavam Fernando Cafeteira, já falecido, tocava violão, Chico Saldanha [compositor] também e depois Sadi Ericeira [violonista, irmão de Paulo Trabulsi].  Nós tivemos a grande sorte de contar com Hamilton Rayol como crooner, que voz maravilhosa! Faleceu com 57 anos. Ele cantava muito choro e muita MPB de qualidade. Feitio de oração [Noel Rosa e Vadico], Olhos nos olhos, de Chico Buarque, dentre outras canções. Além de grande cantor era uma pessoa maravilhosa. O Regional seguia seu trabalho e intuitivamente Vieira começou a me mostrar suas composições. Ao final dos ensaios, pegava o violão, tocava, eu ficava admirado. “Vieira, isso dá um trabalho bonito! A gente vai ter que fazer um disco”. Depois Zeca Baleiro entrou na jogada também. O disco que eu fiz [Antoniologia Vieira] foi primeiro,mas o show [O samba é bom, produzido por Zeca Baleiro, disco gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo] foi primeiro a ser apresentado. Isso foi por volta de 2000. O Regional Tira-Teima já tinha acabado em 1984 por que Ubiratan foi embora daqui, se mudou para São Paulo. O Regional acabou com essa formação.

De onde vem o nome Tira-Teima? Tira-Teima é uma música de Ubiratan. É como se fosse um desafio para alguma música. É uma música muito bonita, inclusive nós tocávamos no grupo, entre outras. O Regional acabou em 1984, mais ou menos, mas a gente se encontrava sempre que podíamos.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Por que você não tocou em Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão? Eu ia tocar nesse disco, só tem que no dia da gravação [o disco foi gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro] nasceu o Bruno, meu primeiro filho, artista, dublador de filmes e Analista de Sistemas, hoje residindo no Rio de Janeiro.

Além do Conjunto Marista e do Tira-Teima, de que outros grupos musicais você participou? A gente montou um grupo de bossa e jazz, eu no piano, Luiz Cláudio [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de junho de 2014] na percussão, Paulo Lima no baixo e Athos [Lima], filho dele [Paulo], na guitarra. O baterista era Celso Raposo, o mesmo do conjunto Marista. O grupo se apresentou em vários eventos sociais. Depois Paulo Lima saiu e entrou Antonio Paiva. Esse grupo tinha uma das melhores cantoras do Maranhão, que eu considero até hoje e pouca gente conhece: Lúcia Faria. É a Leny Andrade do Maranhão! Ela cantou muito por muito tempo no Rio de Janeiro, acompanhada por grandes pianistas, dentre eles Luiz Eça. Depois nós montamos o Quarteto Insensatez. A formação inicial sou eu no piano, Luiz Mochel [cantor], voz, [Arlindo] Pipiu no contrabaixo acústico e Arlindo Carvalho na bateria. Depois Pipiu se ocupou com o seu estúdio, aí entrou o Antonio Paiva no lugar dele, alternando com Pedro Duarte [contrabaixista e saxofonista]. Estamos fazendo diversos shows com a integração de Milla Camões e participação de Marina Vasconcelos [cantoras].

E como está a atividade musical hoje? O Insensatez a partir de agosto, setembro, voltará às suas atividades musicais. Tive participação especial como pianista em oito músicas no show do Marconi [Rezende, cantor], o último, [celebrando os] 70 anos de Chico Buarque, um show maravilhoso no Barulhinho Bom, muita gente, jovem, inclusive. Já estou começando a preparar um novo show, provavelmente em agosto, de Roberto Rafa [cantor e compositor]. Estudamos juntos no Marista, já fiz dois shows com ele, depois que ele retornou, ele passou 20 anos em Brasília. Em 2012 tocamos no Teatro Arthur Azevedo, depois na sede da Caixa Econômica [a APCEF, Associação do Pessoal da Caixa].

Além de multi-instrumentista você desempenha outras funções na música? Faço arranjos e componho temas. Depois que sair aposentado como professor da Universidade Federal do Maranhão pretendo começar a gravar os meus discos, com convidados, a maior parte de músicas de maranhenses. Aqui nós temos belas canções. Uma música que eu quero gravar, chama-se Fuga e Anti-fuga, de Sérgio Habibe. É lindíssima! Já mostrei para ele o arranjo que fiz no piano. Pretendo também incluir nesses trabalhos, músicas de Marcelo Carvalho, Tutuca, Ubiratan Sousa, Giordano Mochel, Luiz Reis e Tânia Maria, dentre outros compositores maranhenses.

Quem são os instrumentistas, no piano e no bandolim, que te chamam a atenção, hoje? No piano, Gilson Peranzzetta, César Camargo Mariano, Francis Hime, Cristovão Bastos. No bandolim, Jacob foi o mestre, Hamilton de Holanda, Déo Rian e admiro demais o Joel Nascimento.

No piano você dá mais ênfase à bossa; no bandolim, ao choro. O que significa essa música para você? Pra mim o choro é o Brasil. A bossa nova já é uma mistura que vem dos Estados Unidos, com o jazz misturado com o samba, com aquela batida atravessada. Mas no bandolim eu não toco só choro, eu toco música popular brasileira.

Reverenciando grandes mestres do gênero, Divino Espírito Samba marca volta de Lena Machado aos palcos

[release]

Show gratuito acontece na Praia Grande e terá participações de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

No melhor espírito “eu quero é botar meu bloco na rua”, a cantora Lena Machado volta aos palcos com o show Divino Espírito Samba. A apresentação, gratuita, acontece no Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na Praia Grande, no próximo dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. A produção é da Negro Axé.

Recentemente Lena Machado participou do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, do réveillon, como convidada do grupo Afrôs, e da posse do governador Flávio Dino, mas há algum tempo o fã clube vinha reclamando um show completamente seu.

“O show é uma espécie de antologia com o melhor do samba brasileiro, o que inclui autores locais, que não devemos nada a ninguém”, exalta a cantora, que volta aos palcos em grande estilo. Nenhum dos 18 sambas do repertório já foi gravado por Lena nos dois discos que lançou: Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009). Com Quem roubou minha aquarela?, de Cesar Teixeira, ela participou da Exposamba, concurso voltado ao gênero em nível nacional. “O repertório não deixa de ser também uma espécie de teste para o que estamos pensando para o próximo disco”, revela, ainda sem previsão de lançamento.

Além de Cesar Teixeira, fornecem obras primas para sua privilegiada voz Antonio Vieira, Batatinha, Benito di Paula, Bruno Batista, Candeia, Chico Buarque, Ismael Silva, Luzian Filho, Paletó, Patativa, Paulo César Pinheiro, Roge Fernandes e Roque Ferreira.

A cantora contará ainda com as participações especiais de Patativa (em cujo disco fez vocais e de quem gravou Colher de chá em seu segundo trabalho), Luzian Filho (do grupo Feijoada Completa) e Zé Pivó (compositor da Turma de Mangueira, escola de samba do bairro do João Paulo, e do bloco carnavalesco madredivino Fuzileiros da Fuzarca).

“Para mim é uma honra, eu, aprendiz, dividir o palco com estes mestres. É beber na fonte de nosso samba genuíno, legítimo, autêntico”, derrete-se a artista. Sobre o nome do show ela conta: “é impossível negar o samba como uma das autênticas expressões de nossa cultura popular, essa nossa batida diferente. O nome une dois aspectos de nossa tradição, e dessa fusão de duas tradições surge algo moderno, daí Divino Espírito Samba”. Além de tudo, soa bem. Como um bom samba.

Lena Machado será acompanhada por Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo Seixas (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho e direção musical). Uma constelação de craques para ninguém botar defeito.

Serviço

O quê: show Divino Espírito Samba.
Quem: a cantora Lena Machado, com participações especiais de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho.
Quando: dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h.
Onde: Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), Praia Grande.
Quanto: grátis.
Maiores informações: (98) 981920200 e 981220009.

Noite de gala para Patativa

[texto escrito às pressas, ontem, a pedido do amigo Gutemberg Bogéa. Saiu no JP Turismo, Jornal Pequeno, hoje]

Emoção e autenticidade marcaram show em que a sambista de 77 anos lançou Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MARISTELA SENA

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Há certas facetas de que só Patativa é capaz. Lotar o Porto da Gabi em plena quarta-feira, por exemplo. Mas o motivo era dos mais justos: o lançamento de seu tão aguardado disco de estreia, que finalmente chegava aos ouvidos de quem aprecia a música de qualidade produzida no Maranhão.

O Samba na Fonte, grupo que ocupa com música a Fonte do Ribeirão, um dos cartões postais do Centro Histórico ludovicense, foi reverenciá-la. Vez por outra ela dá canjas na paisagem.

Os DJs Joaquim Zion e Marcos Vinicius, residentes da casa, misturaram reggae, merengue e música brasileira para recebê-la. A noite era dela, a diva, a madredivina dama, em noite de estreia e gala, aos 77 de idade, que nunca é tarde e “quem espera por Deus não cansa”, como ela mesmo não cansa de dizer.

Pelas mãos de Luiz Jr., produtor musical, e Zeca Baleiro, diretor artístico, Ninguém é melhor do que eu, o disco, chega ao mercado pela Saravá Discos, selo que Baleiro inventou e em que investe energia e um punhado de dinheiro do próprio bolso para lançar nomes em que acredita, que valem a pena. Foi assim com Antonio Vieira, com Lopes Bogéa e agora com Patativa, entre outros.

Ninguém é melhor do que eu tem participações especiais de Zeca Baleiro em Santo Guerreiro, Simone em Saudades do meu bem querer e de Zeca Pagodinho na faixa-título. No repertório, além de Xiri meu, por demais conhecida em rodas boêmias da Ilha, estão ainda Rosinha, gravada por Fátima Passarinho no único disco do grupo Fuzarca (integrado ainda por Rosa Reis, Cláudio Pinheiro, Inácio Pinheiro e Roberto Brandão), e Colher de chá, gravada por Lena Machado em Samba de Minha Aldeia (2009).

Após samba e discotecagem, a exibição de Xiri meu, documentário curta-metragem de Tairo Lisboa preparava o público – como se precisasse – para o que viria a seguir. A noite era dela, repita-se. Na tela, depoimentos de amigos e admiradores: o compositor e jornalista Cesar Teixeira, o ator e incentivador Fumaça, o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, o feirante Corintiano. Patativa caminha tranquilamente pela Feira da Praia Grande, ruas da Madre Deus e da Vila Embratel, onde mora atualmente. Tudo isso regado a seus sambas, trechos do que se ouviria completo no show.

Escudada por Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical), Robertinho Chinês (cavaquinho), Elton (flauta e sax), Davi (contrabaixo), Oliveira Neto (bateria), Lambauzinho (percussão), Wanderson (percussão), Philippe Israel (vocais) e Lena Machado (vocais), Patativa mostrou, sem ser arrogante, por que Ninguém é melhor do que eu.

Cantou quase o disco inteiro, um apanhado de sambas acima da média, além de cinco inéditas. Sua espontaneidade e jovialidade marcantes contagiaram o público, em uma noite realmente mágica. Tudo jogava a favor: o vento das margens do Bacanga, a qualidade do som, o ambiente, cuja proprietária e seu marido, Gabi e Josemar, são personagens de Samba dos seis, uma das músicas do repertório.

A noite foi coroada ainda com as participações mais que especiais de Lena Machado, que dividiu Colher de chá com a autora, e Zeca Baleiro, que cantou e fez graça com ela em Santo guerreiro e na faixa-título.

O som dos tambores dos Filhos de Dadinha (outro apelido da compositora, este da intimidade de sua casa) encerraram a noite em grande estilo. Até nisso Patativa surpreende: em vez de botar uma saia e rodar, mostrou ao público mais uma composição, no ritmo das batidas frenéticas de Josemar, Peixinho e cia.

*

Confiram Patativa em Ninguém é melhor do que eu (com participação especial de Zeca Pagodinho)

Obituário: Léo Capiba

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Neste domingo de finados a música do Maranhão amanheceu mais triste: perdeu o sorriso largo e fácil de Léo Capiba, falecido na noite de sábado (1º.), vítima de ataque cardíaco.

Cearense do Crato, radicado em São Luís há quase 30 anos, Capiba tinha 67 anos e chegou a adiar, por problemas de saúde, o show Desde que o samba é samba, anunciado para 17 de outubro passado.

O Regional Tira-Teima, que deve lançar em breve o disco de estreia, registrou duas composições suas: Pra ser feliz, dedicada à esposa Sandra Tavora, com quem teve três filhos, e Zona do agrião, que usa metáforas futebolísticas para falar de amor.

No disco Memória – Música no Maranhão, lançado em 1997, sob direção musical e arranjos de João Pedro Borges, Léo Capiba cantou e tocou pandeiro em Não vá deixar o samba da vila, do compositor madredivino Henrique Martiniano Reis, o Sapo.

Confiram o depoimento que Léo Capiba deu à série Chorografia do Maranhão em abril passado. Continue Lendo “Obituário: Léo Capiba”

Chorografia do Maranhão: Paulo Trabulsi

[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]

Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.

A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].

Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.

Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…

Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.

Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.

E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.

A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”

Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.

Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.

Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.

Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.

Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.

Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.

Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.

O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.

Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.

Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.

Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.

Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.

A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.

E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.

Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.

O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.

Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.

O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.

Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.

Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.

E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.

Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.

O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.

Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!

Show Elas cantam Vieira celebrará 94 anos que compositor faria 9 de maio

Falecido em 7 de abril de 2009, obra de Antonio Vieira será lembrada na data em que compositor completaria 94 anos

O compositor em ação no também saudoso Clube do Choro Recebe. Foto: Pedro Araújo

No próximo 9 de maio, o compositor Antonio Vieira completaria 94 anos. “Se vivo fosse não cabe dizer, pois ele está vivo entre nós, através de sua lembrança e principalmente de sua obra”, afirma o percussionista Arlindo Carvalho, músico que privou da amizade do “velho moleque”, um dos organizadores do tributo que celebrará a data em São Luís.

Elas cantam Vieira: conosco não tem mosquito! é o nome do show que será apresentado sexta-feira, 9, às 20h, em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima (Av. Beira Mar, Centro). Subirão ao palco Alexandra Nicolas, Anna Cláudia, Camila Reis, Cecília Leite, Célia Maria, Lena Machado, Rosa Reis e Tássia Campos para festejar a obra do autor de clássicos do quilate de Cocada, Banho cheiroso e Tem quem queira, entre mais de 300 outras.

A banda que as acompanhará é formada pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Caio Carvalho (percussão), Celson Mendes (violão), Danilo Miranda (sax alto e clarinete), Fleming (bateria), Mauro Travincas (contrabaixo), Osmar do Trombone e Paulo Trabulsi (cavaquinho). O espetáculo contará ainda com as participações especiais de Adelino Valente (piano) e Zezé Alves (flauta)

Com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Museu da Memória Audiovisual do Maranhão/ Fundação Nagib Haickel (Mavam), o espetáculo é gratuito, mas recomenda-se a quem for, doar um quilo de alimento não perecível: a arrecadação será destinada a uma instituição de caridade da capital maranhense.

“Celebrar o legado de Vieira é também celebrar suas convicções, ele cuja obra e posturas traduziam diversas preocupações sociais”, finalizou Arlindo Carvalho.

[Este post sofreu correções às 9h15min de 6/5/2014]

A boa música apontando em todas as direções

Já se vão mais de 10 anos da primeira vez que ouvi Claudio Lima. Foi na Rádio Universidade FM, sua gravação de Ray ban em arranjo blues, o choro que seu autor, Cesar Teixeira, só viria a gravar depois.

Era seu disco de estreia, de 2001, batizado com o nome do cantor, uma das melhores vozes de nossa música. Passeava por clássicos da música popular produzida no Maranhão e fora dele, além de standard de jazz. Estavam lá compositores como Antonio Vieira, Chico Buarque, Gilberto Gil e Josias Sobrinho, entre outros.

De outra música de Cesar Teixeira, Bis, Claudio Lima tirou o título de seu segundo disco: Cada mesa é um palco, lançado em 2006, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles. Neste apareciam, recriados, que Claudio Lima nunca simplesmente regrava algo, Luiz Gonzaga, Tom Zé, Herivelto Martins e Bruno Batista.

Deste último, com quem já dividiu o palco em Hein?, ele toma emprestado a Rosa dos ventos, música com que venceram um festival de música popular em São Luís, ano passado, para dar nome ao show que apresenta hoje (21), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

No repertório músicas de seus dois primeiros discos, além de inéditas de, entre outros, Bruno Batista e Marcos Magah. Oportunidade rara, como o talento do protagonista, de conferir o que ele anda preparando para o próximo disco. Já é hora!

Gravado em Belo Horizonte, Cinco Gerações será lançado amanhã (24) em São Luís

Como o disco de estreia de Osmar do Trombone show de lançamento terá participações especiais

Oriundo de Carajri, na Baixada Maranhense, Osmar do Trombone é um talentoso músico, cujo nome pode ser lido em diversas fichas técnicas de discos e shows, além das rodas informais, escola fundamental para qualquer músico que se preze, ainda mais em se tratando de choro.

A genética não explica tudo e é sempre necessário muito trabalho para se desenvolver um talento. Feito pimenta e facebook, Osmar do Trombone vem sendo curtido já faz bastante tempo. Nascido em uma família de músicos, a história é por demais conhecida. Frequentadores do saudoso Clube do Choro Recebe, ouvintes do Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM (106,9MHz) e, mais recentemente, leitores da Chorografia do Maranhão nas páginas de O Imparcial, série para a qual o músico foi entrevistado em junho passado, já a leram ou ouviram, talvez mais de uma vez.

Inspirado e cheio de brejeirice, Osmar compôs um choro ao qual deu o nome de Quatro gerações. Eram ele – o próprio Osmar –, seu filho Osmar Jr., saxofonista, seu pai e seu avô. Depois, ao descobrir um bisavô que já tocava, mudou o nome da música: Cinco Gerações.

O belo choro batiza a estreia de Osmar do Trombone em disco solo, gravado ano passado em Belo Horizonte. O nome do solista não aparece na capa. Cinco Gerações é encarado como um trabalho da dupla formada por pai e filho, ou além, da grande roda que se tornou a feitura desta bolachinha recheada de felizes coincidências.

Osmarmanjos filho e pai em detalhe do encarte de Cinco Gerações

Depois de desistir do curso de Administração e resolver dedicar-se integralmente à música, Osmar Jr. prestou vestibular para Música em Minas Gerais – está cursando o bacharelado em saxofone na UFMG. Rapidamente virou figurinha fácil em rodas de choro em bares como Salomão, Pastel de Angu, Bolão e Mosteiro – tive a oportunidade de visitar este último em dezembro passado e já deveria ter escrito algo para compartilhar com os poucos mas fiéis leitores, não é mesmo?

Nestas rodas, Osmarzinho, como também é conhecido, sempre falou do pai – “papai toca trombone” – e sempre procurou mostrar a música instrumental produzida no Maranhão. Um dia Osmar foi visitá-lo, descascou o trombone e mandou ver Na Glória (Ary dos Santos/ Felipe Tedesco/ Raul de Barros): quase toma de seu filho o posto de xodó dos mineiros.

Entre idas e vindas entre Maranhão e Minas, sem pressa, com participações especiais e um repertório entre o autoral e as belas criações de nossos grandes mestres na arte de compor, Osmar do Trombone foi moldando Cinco Gerações, sonho agora realizado, já acalentado há bastante tempo.

Solidariedade e gentileza sabemos o que geram: senhor de seu instrumento, Osmar humildemente permitiu a presença de outros trombonistas em seu disco, o que certamente contribuiu para enriquecê-lo. O resultado evidencia as qualidades de Osmar enquanto instrumentista e compositor, um artista apto a subir em qualquer palco no mundo, sem nunca esquecer as referências de sua Baixada, de seu Maranhão de origem. As influências estão ali nas células rítmicas de suas criações, mesmo quando elas deixam livres – para improvisar e mostrar também suas influências – os músicos de Minas que aparecem na ficha técnica: Abel Borges (pandeiro), Alaécio Martins (trombone), Fábio Martins (percussão), Gilberto Júnior (trompete), Lucas Ladeia (cavaquinho), Lucas Telles (violão sete cordas), Luísa Mitre (sanfona), Marcelo Braga (sax soprano), Marcos Flávio (trombone), Miguel Praça (trombone), Oszenclever (pandeiro), Rafael Francisco (flauta), Raíssa Anastásia (flauta), Rodrigo Picolé (pandeiro), William Alves (trompete), além dos maranhenses João Neto (flauta) e Osmar Jr. (saxofones), este também integrante do Quarteto de Saxofones completado por Cesar Baracho (sax alto), Harrison Santos (sax tenor) e Luís Flávio (sax barítono).

Osmar do Trombone assina cinco composições: Saudades de Tororoma, homenagem a um rio que lhe banhou a infância, Cinco Gerações (que aparece em duas gravações, uma um bis em execução do Quarteto de Saxofones integrado por Osmar Jr. na UFMG), Momentos, Pulo do Gato, com acento jazzístico, e De ladeira abaixo. Intercaladas à porção autoral, as demais faixas funcionam como uma antologia do choro maranhense: O samba é bom (Antonio Vieira), Das cinzas à paixão e Rayban (ambas de Cesar Teixeira), Saiba, rapaz (Joãozinho Ribeiro) e Terra de Noel (Josias Sobrinho) demonstram também a coragem de Osmar do Trombone. Não é fácil nem simples regravar em leitura instrumental, choros com letras, ainda mais da lavra destes compositores. Não é que o músico dispense a lírica dos bardos, isso não explicaria: o que Osmar e companhia fazem é tornar – nunca reduzi-las a – instrumentais as criações alheias.

Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho são alguns dos convidados do show de lançamento de Cinco Gerações, que acontecerá nesta sexta-feira (24), às 21h, no Barulhinho Bom (R$ 10,00, ingressos à venda no local). Além do filho Osmar Jr. (saxofones), Osmar do Trombone será acompanhado por Daniel Cavalcante (trompete), Domingos Santos (violão sete cordas), João Neto (flauta), João Soeiro (violão), Luciano Lima (percussão), Rafael Guterres (cavaquinho), Rui Mário (sanfona) e Wanderson Santos (percussão). Mas como em qualquer roda de choro que se preze, no Maranhão, em Minas Gerais ou em qualquer lugar, outros nomes com certeza aparecerão. São Cinco Gerações festejando: você não vai deixar a sua fora dessa, vai?

Chorografia do Maranhão: Arlindo Carvalho

[O Imparcial, 18 de agosto de 2013]

“Eu nasci pra tocar tambor”. A frase é do engenheiro, professor de artes e percussionista – não necessariamente nessa ordem – Arlindo Carvalho, 13º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão. Ela resume bem o espírito de quem encara a música como um ofício, um prazer.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Filho dos piauienses Caio José de Carvalho e Margarida Pinho de Carvalho, ele de Teresina, ela de Parnaíba, Arlindo José Pinho de Carvalho é o caçula de uma família de cinco irmãos: Michol, Alba, Célia, Caio e ele.

A mais velha, a folclorista Maria Michol, falecida em novembro passado, grande incentivadora do irmão, presenteou-lhe com a primeira bateria, comprada a prestações no Armazém Paraíba.

Arlindo nasceu em 2 de agosto de 1954, na Maternidade Benedito Leite, e desde então mora na mesma casa, na Rua dos Afogados, em frente à Padaria Santa Maria, no Centro da capital maranhense, onde ele recebeu a chororreportagem.

Durante a conversa, o percussionista que já tocou “com todo mundo aqui” lembrou a grande amizade com o compositor Antonio Vieira e revelou a vontade de escrever a biografia do pai, um guarda livros que fundou em São Luís o Centro Caixeiral, a Santa Casa de Misericórdia e a Liga Maranhense de Combate à Tuberculose.

Com o Regional Tira-Teima ele tira onda: “eu sou do original, não do genérico”, afirma sorrindo, para depois revelar a admiração, carinho e respeito que tem por todos. Formado em engenharia e artes, Arlindo nunca estudou música formalmente, mas é certamente um dos instrumentistas que mais aparece em créditos de discos e shows no Maranhão.

Você chegou a atuar na área de engenharia? Eu atuo na área de engenharia. Sou engenheiro do estado. Fui da Cohab, meu primeiro emprego, Companhia de Habitação Popular. Quando a Cohab mudou de nome, depois foi extinta, foi criada outra empresa, e todos nós que somos CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] fomos para lá. De lá eu fui pra onde quis: Secretaria de Trabalho e Urbanismo, Ceprama, até chegar na Secretaria de Cultura, Dona Zelinda [Lima, folclorista] me levou pra lá. Depois fui ser diretor do Teatro Alcione Nazaré, quando ainda era TPG, Praia Grande.

Tua família hoje, Michol, você, Alba, vocês são referências na área de cultura. De onde vem essa relação? Eu sempre vi isso e Michol sempre falou isso: papai era uma pessoa que gostava muito de bumba meu boi. Ele trazia muito bumba meu boi, muito tambor de crioula, ele levava Michol. Michol sempre acompanhou papai. Eu muitas vezes não fui, quando papai morreu eu tinha seis anos. As referências minhas são muito poucas, ela já tinha 10 anos, a memória afetiva de Michol é muito maior do que a minha, eu não lembrava muito.

Michol é quem cumpriu um papel central nessa história? Exato! Michol é quem foi a pessoa central. Eu quando comecei a tocar, Michol é que me deu a primeira bateria. Sempre apoiou. Michol, sim, era a pessoa que estava na linha de frente. Fez Serviço Social, depois fez Mestrado em Cultura Popular. Aí ela desenvolveu um trabalho de cultura popular, embora antes ela tenha trabalhado na Universidade, foi diretora do DAC [Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão]. Quando veio do Mestrado no Rio, ela começou no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e fez as casas de cultura todas.

Além da engenharia, você dá aulas. Depois de engenharia, formei em 1980, logo depois, trabalhando com a professora Nerine [Lobão], na Secretaria de Educação, como diretor da parte de engenharia, me deu vontade de fazer outra coisa. Aí eu fiz artes, educação artística na Universidade, me formei na especialidade de teatro. Fiz concurso para o estado e estou hoje no Liceu [Maranhense], dando aula de Artes. Da engenharia estou mais esperando me aposentar.

Então sempre houve outra profissão pra te sustentar, a música sempre foi uma diversão? Não era uma diversão. Mamãe sempre dizia “você quer ser o que quiser, eu apoio; agora peço pra você estudar uma profissão, ter uma profissão”. Por que isso dá uma base muito grande, você não fica tão refém da fragilidade da arte da música. Eu sempre toquei. Eu me formei, antes de me formar era músico, tocava com [os compositores] Chico Maranhão, Sérgio Habibe, toquei com o Coral [São João], com quem estou até hoje.

Qual era o universo musical da tua casa? Uma música que tem na minha memória, que eu nunca esqueci, é Cigarro de Paia [de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas], de Luiz Gonzaga, que não é dele, mas que ele canta. Essa música eu ouvia. A gente tinha uma coisa de ouvir rádio, o rádio era o grande lance. A gente ouvia o rádio dia de domingo, e eu me lembro de Cigarro de Paia, mas fora disso nenhuma relação de música. Fora o rádio aos domingos, nada.

Ele não era de comprar discos? Que eu me lembre não. Embora eu tenha uma coleção inteira de discos de [cera de] carnaúba. Tá tudo ali. Deve ser dele, eu não lembro, ele morreu eu era muito pequeno. Mas Caio, meu irmão, que tem uma memória de elefante, se lembra. Mas eu fiquei com a coleção de discos dele, de carnaúba. O primeiro disco de Jackson do Pandeiro tá bem ali guardado.

Quando você começou a se interessar por aprender música? Mamãe ganhou de presente no casamento dela uma bandeja de prata que eu quebrei de tanto tocar. Eu fazia como se fosse uma bateria, intuitivamente, sem ter uma noção do que era uma bateria. Mas eu fazia a mão esquerda de um jeito, a mão esquerda do outro, batia nos copos com os lápis que Michol me dava. Eu tinha minha bateria, mas não sabia que aquilo era música e que eu um dia fosse ser músico. Mas era uma coisa muito forte, embora eu nunca tenha visto ninguém tocar. Eu sempre aprendi minhas coisas sozinho.

Você não teve nenhum estudo formal de música? Nenhum! O estudo formal vem ser agora, com meu professor [Chico] Pinheiro que está me ensinando a escrita da percussão. Entrei na Escola de Música por dois anos, depois larguei, por que a professora Olga Mohana [ex-diretora da EMEM, famosa por determinar que instrumento o aluno tocaria] queria que eu tocasse piano e eu queria tocar era percussão.

O percussionista demonstra o “um, dois, três, quatro” que aprendeu com Mascote para a chororreportagem

Mesmo você não tendo o estudo formal de música, teve pessoas que foram referenciais pra ti. Dá pra citar algumas? [O compositor Antonio] Vieira foi uma pessoa que me ensinou a tocar afoxé e reco-reco. E ele me levou para aprender pandeiro com Mascote [o percussionista e violonista Antonio Sales Sodré]. Vieira disse “olha, Mascote, Arlindo é amigo meu e quer aprender a tocar pandeiro”. Mascote perguntou “meu filho, tu tem um pandeiro? É um, dois, três, quatro” [pega um de seus nove pandeiros e demonstra, acelerando rapidamente a batida]. Aí eu vim pra casa, botava o disco na radiola e acompanhava. Errava, acertava, e assim eu fui. Aprendi ouvindo, tentando imitar o disco.

Então você aprendeu instrumentos soltos? Instrumentos soltos. Eu, no meu tempo de Universidade, tinha um grupo chamado Terra e Chão. E a Universidade comprou alguns instrumentos: uma conga, um bongô, um surdo. Eu nunca tinha visto aquilo, mas intuitivo eu fui batendo as congas, o bongô. Tanto que, por exemplo, eu aprendi a tocar bongô pelo som do disco. Depois é que eu fui ver o pessoal tocando bongô, a técnica do bongô. O som que eu tirava, que eu tiro, é igual, mas o movimento não.  Tudo aquilo é intuitivo, eu aprendi intuitivamente.

Quando foi que começou tua convivência com Mestre Vieira? Vieira foi aluno de meu pai no Centro Caixeiral. Não sei quem me convidou, me parece que Adelino [Valente, pianista], morava aqui no [edifício] Caiçara. “Vai no Caiçara, tem um grupo de chorinho”. Aí eu encontrei Vieira, bate papo, já tinha uma atração mútua, Vieira e eu, depois que ele soube que papai foi professor dele, aí foi que ele gostou de mim mesmo. Aí sim, ele começou a pegar o afoxé, o reco reco, “meu filho é assim”. E eu deslanchei. Eu comecei a tocar bateria no [Colégio] Marista, o professor Celso Raposo, até hoje eu digo o nome dele, foi a pessoa que me desemburrou. Tá-tum-tum-tá, tá-tum-tum-tá [imita o som da bateria com a boca]. Bateria você erra, erra, é igual pandeiro, é igual andar de bicicleta: um dia você acerta e não erra mais.

Quem fazia parte do Terra e Chão? Eu, Wellington Reis, Joaquim, um garoto chamado Magno, depois passou o irmão dele, Frias. Aí tem Eliezer, que era flautista, Celso Raposo, nesse tempo não era mais baterista, era tocador de viola.

Isso era que ano? Foi antes do Tira-Teima? O Terra e Chão foi antes, 74, acho. O Tira-Teima é outra história.

E o repertório? Era autoral, a maioria [das músicas] de Wellington. Tinha um lance de um jazz nordestino, Luiz Gonzaga, aqueles grupos de pau e corda, Jackson do Pandeiro, minha referência.

Teus pais e irmãos te impediram de alguma coisa, em algum momento? Não. Pelo contrário. Mamãe sempre me deu muito apoio. Quando eu viajava, que acabava o dinheiro, ela mandava as passagens para eu vir. Sempre me deu muita força, sempre pedia pra eu estudar, pra eu não ficar refém de uma coisa que podia dar certo ou não. Michol me deu congas, bateria, ela tirava à prestação no Armazém Paraíba. Foram grandes incentivadores da minha carreira.

Em que mais Michol te inspira? Leitura. Ela me inspirou a ler, a perceber que você tem que ter uma bagagem literária muito grande, até para você pensar a música. Se você não tem sentimento, a gente não pensa à toa, tem que ter bagagem. Ela me inspirou nesse sentido.

Ser irmão de Michol, extremamente mergulhada no estudo da cultura popular, você um artista do ritmo. Há uma influência muito estreita aí, não é? Eu acredito que sim. Não vejo outra explicação. Até essa coisa intuitiva. Quando eu chegava em casa, que eu era mais garotinho, a primeira vez que eu peguei as congas e transmiti para as congas o tambor de crioula.

Você já viveu de música? Quando eu era estudante, no tempo do Terra e Chão, tinha uma bolsa, que eu dividia com Wellington, era muito boa. Agora viver, de no fim do mês esperar ter algum dinheiro…

De sustentar a casa, a família? Não, não. Eu sempre vivi música, engenharia, trabalhos de arte, que eu desenhava muito bem, pintava, essas coisas. Nunca vivi especificamente de música. Gostaria de ter vivido essa experiência.

De algum modo isso te frustra? Se a gente pensar numa perspectiva de carreira do Arlindo Carvalho percussionista. De jeito nenhum! Eu, por exemplo, quando fui tocar com Chico Maranhão, [a cantora] Diana Pequeno que era o grande nome daquele tempo, ela gostou tanto da gente, que ela foi 16 vezes ao show. Chamou a gente e convidou eu, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] e Ubiratan [Sousa, compositor e instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ubiratan ficou ainda com ela, Zezé veio embora. Eu lhe pedi perdão, “Diana, você me perdoe”, faltava um semestre pra eu terminar engenharia. Eu não ia abandonar tudo por um sonho. Mas não me arrependo. Eu construí uma carreira aqui, e falei uma vez num seminário desses de música, que sucesso é isso: é você na sua terra desenvolver um projeto. Até hoje eu sou uma pessoa respeitada, tenho o meu lugar garantido dentro da história da música popular maranhense.

Você chegou a tocar com Diana Pequeno? Não. Eu toquei aqui uma vez com Sérgio Ricardo [compositor, autor de trilhas do Cinema Novo, parceiro de Glauber Rocha]. A gente fazia a abertura do show dele aqui no Teatro Arthur Azevedo. Quando acabou o show, eu estava guardando meus instrumentos quando chegou um recado para eu ir falar com ele. “Olha, gostei imensamente de você. Eu quero que você toque comigo pelo menos quatro músicas”, aí eu toquei. Toquei com aquele [grupo] Água de Chile, que gravou com Milton Nascimento. Mas pra mim o mais importante é tocar com o pessoal daqui.

Entre nacionais e locais, sabemos que a lista é grande. Ah, toquei com tudo mundo aqui [gargalhadas dos chororrepórteres]. Não tem nenhum. Faltava Papete, outro dia eu toquei com ele. Antigos, novos, novíssimos e geração nova que é Caio [Carvalho, percussionista, filho de Arlindo], que já toquei com ele, muito.

Além do Terra e Chão de que outros grupos você participou? Terra e Chão, o Tira-Teima original. Eu sou do Tira-Teima original, o genérico não [risos]. Do genérico, Paulo [Trabulsi, cavaquinhista] era. É o único remanescente. Todos eles são excelentes. Eu vou ver o Tira-Teima lá naquele hotel, eu adoro ver Paulo tocar.

Urubu Malandro. Urubu Malandro eu fiz com Vieira. Eu fundei também o Sururu no Galinheiro.

O Surra Curuba? O Surra Curuba foi Vieira quem deu esse nome. Vieira foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

A última cena dele em palco foi lá no Clube do Choro Recebe. Foi. Quando eu deixei ele em casa, ele sempre dizia “até o outro se nós vivo for” [sic]. Deixei na casa, sempre esperava ele abrir o portão. O mesmo procedimento. Eu sempre passo agora, a hora que eu passo, eu grito “ê, seu Vieira!”, e vou muito na sepultura dele. Eu sempre digo “seu Vieira, reze por mim”. A pessoa mais digna que eu vivi na minha fase mais adulta. Na fase de criança a minha meta era meu pai. Mamãe sempre falava muito bem, estudei muito a vida dele depois, pretendo lançar um livro sobre a vida dele, o que ele fez aqui dentro [de São Luís].

Dá pra dizer que teu pai foi tua maior inspiração enquanto homem e seu Vieira enquanto músico? Isso. Por que Vieira era uma pessoa que não deixava a gente criar nenhum tipo de soberba. Ele sempre colocava a gente no patamar da humildade. A referência de homem é meu pai, de dignidade, honestidade, de ser uma pessoa batalhadora, respeitadora. Vieira é uma figura que eu vejo como músico. Me inspirei muito nele.

Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Arranjador, compositor… Não. Se algum dia eu compus alguma coisa eu escondi muito bem [risos]. A gente tem que saber o que a gente faz bem. Eu faço bem tocar tambor. Violão eu comprei, toco, mas nunca serei um bom violonista. Agora, tocar tambor, eu nasci pra isso.

Você não tem disco solo, mas já tocou em inúmeros discos. Os de Rosa [Reis], quando ainda eram vinis. O primeiro cd de Sérgio [Habibe], os discos de Chico Maranhão, Lances de Agora [1978] e Fonte Nova [1980]. Eu gravei com muita gente boa. Outra referência agora é [a cantora] Alexandra Nicolas, gravei uma única faixa [São Luís do Maranhão] do disco dela [Festejos, 2013], que foi gravado no Rio. É um bumba meu boi meio estilizado.

Ela fez aquele disco dentro do universo do choro. Os grandes nomes do choro. Como é que foi pra ti estar ali no meio? Eu toquei muito com Alexandra, o último show que ela fez aqui. Eu fiz uma amizade muito grande com Luciana Rabello [cavaquinhista, esposa de Paulo César Pinheiro, compositor]. Aí Luciana me ligou junto com Alexandra e queria que eu participasse desse disco tocando essa música. Fui para o Rio e tive a honra de ser dirigido no estúdio por Paulo César Pinheiro. Lógico que tinham os músicos que assinavam a direção, mas tudo eles se reportavam a Paulinho. Nada que ele não quisesse sairia no disco.

Ele foi uma espécie de supervisor. Ele foi uma espécie de supervisor geral. Ele dizia “é isso que eu quero”. Eu entrei com uma ideia de uma gravação mais lenta, um boi de sotaque de Pindaré. Ele disse “eu quero mais rápido”, mudou algumas coisas, pra mim foi uma honra. A própria Luciana, [o violonista] Maurício Carrilho também.

Você acompanha os grandes nomes da percussão no Brasil? Eu tenho loucura por Naná [Vasconcelos, percussionista]. Eu nasci no mesmo dia dele. A grande loucura que eu vivi foi quando eu ouvi o disco de Santana, Carlos Santana, guitarrista. A base dele era percussiva.

Qual foi o disco? O primeiro dele, que tem uma joia na capa. Quando eu ouvi aquele disco, Celso Raposo botou lá no Marista, eu pirei. Eu não consegui entender o que era aquilo, mas era aquilo que eu queria. Eu tenho discos e discos de percussionista. Escuto, tenho discos de percussão de todo o mundo. Robertinho Silva, adoro ouvi-lo tocar. Tem um cara da bateria que eu digo que eu incorporo, eu adoro: Edson Machado. Dois caras: Jackson do Pandeiro é minha grande paixão. Esse ano eu quero ir ao memorial, na terra dele, Alagoa Grande [Paraíba].

Na tua opinião, o que é o choro? O que significa este gênero? Se a gente for ver é a primeira música genuinamente brasileira. Carioca. Mas não ficou só no Rio. Hoje em dia a nova geração está voltando a ouvir chorinho, embora as rádios não toquem. Quando eu comecei a ouvir chorinho, a gente não percebe, mas se torna apaixonado, vai comprar discos. Você pode nem saber o que é, mas se torna apaixonado por chorinho. É uma coisa de alma, chorinho tem isso.

Você se considera um chorão? Eu sou um profissional. Profissional é você se dedicar. Eu não sei se sou chorão por que eu gosto de tudo. Eu gosto daquelas músicas do tempo da colônia, lançaram agora quatro discos, as músicas no tempo de D. João VI, eu gosto de ouvir uma coisa africana anterior a choro, lundu, eu escuto tudo. Eu escuto um choro de Anacleto de Medeiros, eu choro. Se ser chorão é ter essa alma, se identificar, você chorar até ouvindo. Mas choro também no lundu, no blues, no jazz.

Você passeia com a mesma desenvoltura por ritmos brasileiros, pelos ritmos de nossa cultura popular, por jazz. Em que praia você se sente mais à vontade? Eu me sinto à vontade em todas. Eu só toco bateria no Quarteto Insensatez. Chorinho, eu adorava tocar com Vieira. Era uma brincadeira! A gente nunca ensaiava. Era um ensaio, um dia antes do show, aqui em casa, a gente passava os tons e o resto era brincadeira. Eu quero é estar onde eu me sinta feliz, dentro da música. É ali que eu quero estar.

Você acha possível falar em um choro genuinamente maranhense? Maranhense, paulista, carioca, qualquer um é choro, é samba. É a mesma coisa do samba genuinamente maranhense. O que é o samba genuinamente maranhense? É a batucada dois por um, dos Fuzileiros [da Fuzarca, imita o som da batucada com a boca]. O grande erro nosso foi a gente tentar imitar as escolas de samba do Rio. Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara, se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão.

Chorografia do Maranhão: Osmar do Trombone

[O Imparcial, 23 de junho de 2013]

Osmar do Trombone está prestes a lançar seu disco de estreia, gravado em Belo Horizonte/MG. Para o nono entrevistado da série Chorografia do Maranhão, falta apoio para a consolidação da cena choro em São Luís

Osmar do Trombone, o “pequeno gigante”

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Técnico em eletrotécnica, Osmar Ferreira Furtado enverga dois apelidos. Um, o nome artístico, Osmar do Trombone, que ganhou após escolher o instrumento de sopro para chamar de seu; o outro, “pequeno gigante”, que faz jus, primeiro por sua altura física, segundo pelo que se torna quando sopra seu instrumento.

Osmar nasceu em 1º. de junho de 1950 em uma família de músicos. Não à toa, sua composição mais conhecida, inicialmente intitulada Quatro gerações, foi rebatizada Cinco gerações depois de ele descobrir mais um avô que tocava.

Sua mãe, a grajauense Julieta Pereira Furtado, 87, sempre cantou acompanhando seu pai, José Antonio Furtado, 92, ainda hoje soprando “seu saxofonezinho de vez em quando, dentro das limitações”. Osmar não poderia fazer trocadilho com seu sobrenome, portanto não se furtou a herdar-lhes a aptidão musical.

Hoje divide o tempo que sobra de curtir a aposentadoria entre a música e a Pizzaria Lauletas (ex-Stop, Cohab). Acabou de gravar seu disco de estreia em Belo Horizonte, a capital mineira para onde viajou para visitar o filho Osmarzinho, saxofonista que o acompanhou no grupo Os Cinco Companheiros, o grupo de Osmar que toma emprestado nome de clássico de Pixinguinha.

O nono entrevistado da série Chorografia do Maranhão recebeu os chororrepórteres no restaurante que Chico Canhoto mantém – embora sem espaço para um retorno do Clube do Choro Recebe – nas imediações do Aririzal. Ele nasceu em Barro Vermelho, à época povoado de Cajari, quando a cidade ainda pertencia à Penalva. É lá que se inicia a trajetória de Osmar, abordada nesta entrevista, que se inicia justo por sua vinda para a capital.

Então se empregaria aquela frase que dá título à música de Josias [Sobrinho, compositor], você veio de Cajari pra capital? Também, né? Primeiro de Cajari pra Pindaré, e de Pindaré pra capital.

Teve escala, né? Teve escala. Em Pindaré city [risos].

Como era o universo musical, em casa, na tua cidade? Quando tu começaste a se envolver com música? Que tipos de estímulos recebia? Tu nasce no meio musical, tu já fica… [chora. Continua depois de uma longa pausa] Tu já fica contagiado. Aí papai começou a me ensinar música com oito anos de idade. Tinha a bandinha, lá tinha banda, eu fui tocar aquela trompinha, o apelido do instrumento na banda era cachorra, a cachorrinha, aquela de marcação, de contraponto, fazia “pom, pom” [imita o som do instrumento com a boca]. Todo dobrado, valsa, tudo era no contraponto. Aí eu toquei na banda, a gente viajava pra várias cidades, Penalva, Pindaré Mirim…

Tu gostavas? Ah, adorava. Sempre no meio dos músicos. Isso por muitos anos. Até 14 anos, nós morávamos em Cajari, quando papai recebeu uma proposta de Pindaré, de um amigo dele, um cara que é conhecidíssimo lá, o Chico Devora, era festeiro, aquele cara que aparecia, que só andava de linho branco, dançando, era o pé de valsa da cidade, todo elegante. Ele convidou papai. “Cajari não dá, o meio musical da cidade, vam’bora pra uma cidadezinha mais adiantada”. Aí papai disse “eu vou”. Mas quem influenciou mesmo foi mamãe: “nós temos que ir, Zé Furtado, ele está convidando, lá a gente vai…” Aí mudamos pra Pindaré em 1964. Só que em Pindaré eu fiquei só de junho a dezembro. Foi quando minha mãe fez uma carta para minha irmã que morava aqui em São Luís e disse que não queria os filhos dela lá no interior, que iam ficar só pescando, que aquilo não era vida. Mamãe já tinha uma visão de crescer, que os filhos fossem alguém na vida, que viessem pra São Luís estudar. Aí eu vim, peguei aquela lanchinha lá, tradicional, de Pindaré, passando por Cajari, Viana, fazia escala, Penalva e São Luís. Passava dois, três dias viajando. Cheguei em 64, fui morar no pensionato com minha irmã e aquela vontade de estudar na escola. Fiz exame de admissão, passei.

Em que escola? Na Escola Técnica Federal do Maranhão, na época. O sonho era tocar na banda da escola. Na época era o… o nome dele eu não recordo, mas era conhecido como o velho Dó, o maestro. Logo depois foi o João Carlos Nazaré [maestro, pai da cantora Alcione], o nosso mestre.

Além de teu pai, quais foram teus principais mestres? Quem mais te orientou na formação musical? Importante na minha formação foi João Carlos Nazaré e mestre Nonato [do grupo Nonato e Seu Conjunto]. Além de meu pai foram estes dois músicos, estes dois maestros, que me orientaram. Depois que eu saí da escola, e mesmo quando eu estava lá, já trabalhando, fui bancário, antes de ir pra Cemar [Companhia Energética do Maranhão], eu já era convidado pra tocar em vários grupos de música. Toquei na Banda Reprise, Banda O Peso, Banda Reluz, Mákina du Tempo, e outras. Nessa época não tinha a influência do choro aqui em São Luís, a não ser aqueles velhos chorões. Eu não tava no meio musical, mas já ouvia falar, [o multi-instrumentista] Zé Hemetério tocava choro, Agnaldo Sete Cordas [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Quando eu já estava tocando no Barrica, aí eu encontrei [o violonista sete cordas Gordo] Elinaldo, e comecei a despertar para o choro, comecei a curtir. Peguei um vinil do grupo Chapéu de Palha, no qual [o trombonista] Zé da Velha tocava. Silvério [Pontes, trompetista], acho que tava molequinho ainda. Eles tocando sambas bonitos. Tem um chapéu na capa, acho que ainda tenho o vinil. O choro mesmo chegou pra mim depois que eu larguei o Boi Barrica, ainda toquei em alguns grupos de bumba meu boi, foi o tempo que me aposentei da Cemar, aí eu gostei mais de choro.

Nestes grupos que você citou eram tocadas mais músicas de baile, não é? Sim, músicas de baile. Mas também samba, muito samba, gafieira.

E na tua experiência anterior, ainda lá na baixada, Cajari, Pindaré? Ah, tocava muito com meu pai. Tocava sambas, maxixe, bolero, tudo na festa de meu pai. Cheguei a tocar até tuba. Quando faltava o contrabaixista, ele: “meu filho…”, ele ficava com pena. O instrumento era muito grande, eu apoiava num tijolo, nove quilos e meio.

E como é que se deu a escolha do trombone? A partir do quê você definiu que era seu instrumento? O trombone, tudo é assim: você focar. É tipo torcer por um time. É tipo o cara quando nasce e vai crescendo, o pai diz “meu filho, torce pelo Flamengo”…

Não dá certo! [risosMas só que eu torci pelo Flamengo. O filho disse; “não, eu não quero torcer pelo Fluminense, eu quero é pelo Flamengo” [o anfitrião Chico Canhoto acompanha a entrevista vestido numa camisa do tricolor carioca]. Então o instrumento, quando eu olhei uns alunos de meu avô, Antonio Cacete, Lupércio, eu achava a sonoridade muito grande. Meu pai foi um grande trombonista.

Teu pai tocou trombone? Ave Maria! O primeiro instrumento de meu pai na orquestra de meu avô foi o cavaquinho. Depois ele gostou, tocou trombone. Então meu pai era um instrumentista que quando dizia assim “faltou trompete”. Aí meu avô dizia assim: “Zeca, dá pra ti tocar trompete?” Aí ele ia lá e tocava trompete. “Dá pra ti tocar não sei o quê?”. Então ele saía tocando tudo. Tocou trompete e hoje toca sax, ainda, dentro das limitações. Aí eu comecei a ouvir a sonoridade. Quando eu cheguei na Escola Técnica, eu já tocava. O trombone de vara não era muito comum. Mandaram buscar quatro trombones de vara. Tocava eu, João Carlos Filho [filho de João Carlos Nazaré], Zé Américo [Bastos] tocava bombardino.

Você já viveu de música? Nunca! A música fazia a feira, comprava a cervejinha.

Tu estás aposentado da Cemar? Sim, aposentado da Cemar.

No trombone, quem é tua grande referência? Hoje existem grandes trombonistas, mas minha referência é o Raul de Barros. Quando eu o ouvi tocar Na Glória [de Ary dos Santos, Felipe Tedesco e Raul de Barros], eu pensei: “esse é o cara! Isto é o choro!”, aquela sonoridade linda do Raul. Hoje tem o Vittor Santos, o próprio Zé da Velha. Zé da Velha superou todo mundo, com aqueles contrapontos.

Como está o processo de gravação de teu disco? Graças a Deus terminamos. Está concluindo a mixagem. Osmarzinho [saxofonista, filho de Osmar] me ligou essa semana, minha sobrinha está fazendo a arte da capa. Tem que ter muito cuidado pra fazer a coisa. Sempre o segundo sai melhor, mas o primeiro a gente tem que dar uma caprichada pra sair legal.

É um disco solo? Solo.

Autoral? Autoral.

Todo autoral? Não, só cinco músicas.

E as demais? Uma de Antonio Vieira, O samba é bom, a de Josias é Terra de Noel, a de Joãozinho Ribeiro é Saiba, rapaz, e as duas de Cesar, eu não poderia deixar Cesar Teixeira de fora, Das cinzas à paixão e Rayban.

Todo instrumental? Todo instrumental. Eu sou suspeito pra falar, mas tá uma maravilha. Os músicos lá, não que a minha cidade não tenha grandes músicos, mas foi a oportunidade que me deram pra gravar isso, sem custos, sem patrocínio.

Sonho realizado? Sonho realizado. Tive um grande carinho dos músicos, professores da UFMG. [O trombonista] Marcos Flávio, um dos melhores do Brasil, um cara que tem referência internacional, que já tocou com [o trombonista] Raul de Sousa, com grandes músicos fora do país, gravou com uma simplicidade. Tranquilo! É professor de Osmarzinho em uma cadeira lá de chorinho. Ele me ouvia, cara. E me dizia: “Osmar, todo músico é bom naquilo que ele faz. Eu já ouvi tu tocar, tu é um talento nato”, ele falou pra mim. Não tem como não se emocionar.

Na entrevista anterior Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] comentou a felicidade de saber que tu tinhas gravado o disco em Minas. Parece que foi por acaso, já que tu foste à Minas visitar um filho, não gravar um disco. Como é que foi esse processo? Osmarzinho foi em algumas rodas de choro. Toda vez que ele ia numa roda de choro, ele dizia “papai vem aí, papai toca trombone”. Tem um dia que acontece, que dá tudo certo, aí eu viajei pra Belo Horizonte. Geralmente no Bar Mosteiro, que fica na Savassi, lá em Belo Horizonte, é o point, é o point do choro, é a elite do choro de Belo Horizonte. É só músico bom, só músico talentoso! Osmarzinho disse assim: “papai, eu vou lhe levar primeiro lá no Mosteiro, depois eu te levo no Salomão, no Pastel de Angu, no Bolão”, e eu “tudo bem”. Quando eu entrei, já com trombone e tudo, que a galera olhou, rapaz, tem um pandeirista superengraçado, fora de série, ele levantou a cabeça e disse assim “pode tirar logo, que eu já sei que é pai de Osmarzinho”. Aí eu disse pra Osmarzinho, “e se eu não tocasse? Eu tava ferrado” [risos]. Uma coisa que eu achei muito legal é que o músico que toca em roda de choro é impecável. Uma vez Silvério me falou isso: “Osmar, a música não é brincadeira. A brincadeira tá no meio da música. Mas quando você tá tocando, tem que ter responsabilidade pra tocar certo, fazer tudo pra tocar tudo certinho”. Eu fiquei maravilhado com aquilo que ele me disse. Eu fui sentir lá em Belo Horizonte a capacidade da execução dos músicos. Quando eles perguntaram que música eu ia tocar, eu perguntei qual a música eles queriam que eu tocasse. Altamente sugestivo [risos], sugesta na manha. Mas eu sabia que eu poderia dizer que tava brincando, mas disse “olha, eu vou tocar o hino do trombone”. Eles perguntaram qual era, e eu disse “olha, na minha concepção é Na Glória, é uma música que eu acho que todo chorão tem que saber tocar, e vou tocar um choro que eu compus, chamado Cinco gerações [Osmar do Trombone]”. A paixão pelo choro foi instantânea. Os amigos do choro, tem uma turma lá, que é carteirinha, toda sexta-feira, juízes, advogados, engenheiros, profissionais liberais, aquela galera, alguns que já trabalharam em São Luís, perguntando como estão as praias, “ah, estão ótimas, poluídas, mas estão boas” [risos]. Eu toquei outras músicas, vários choros.

Você listou uma série de grupos de que já participou, mas não falamos ainda de grupos de choro. O que significaram pra ti? A pessoa quando tem na alma a música, qualquer música, soando bem em seus ouvidos, você toca, gosta de tocar. O choro, eu não sei por que, já há uns anos eu me identifico mais com choro e samba, é uma linguagem fantástica, aquela malícia, aquela malandragem da melodia, aquelas armadilhas, aquelas coisas que só a música pode falar por si. Os Cinco Companheiros tem mais de oito anos, foi no bar de meu amigo Chico Canhoto que teve a repercussão de grandes grupos de choro aqui de São Luís, e a gente fica muito feliz de participar, de ter a música na vida da gente, de ter a música como um elemento da vida da gente.

Tu tens quantas composições? Gravada, escrita, tem cinco. Mas já tenho outros seis choros prontos para passar para partitura. E eu pretendo fazer o próximo cd só com músicas minhas. Essas cinco que já estão no primeiro mais essas seis novas, que já estão praticamente prontas, faltando alguns acertos de melodia, algumas notinhas que ficam o tempo todo querendo mudança.

Quanto tempo você demorou para dar o disco por pronto? Olha [pensativo]… em novembro de 2011 a ideia, mas começou mesmo em maio de 2012, então tá com um ano. Sempre com cuidado.

Isso envolveu várias viagens. Cada viagem era uma história. Uma história de conhecer outros grupos, outras rodas de choro.

Dentro do que depende só de ti, tu pretendes colocá-lo na rua, fazer um show de lançamento em São Luís, quando? Depois que o cd estiver pronto eu quero convidar o meu amigo Ricarte para ser o intermediador dessa ideia de fazer um show de lançamento. Ele que tem muita experiência nisso aí, eu quero que ele me mostre o caminho. “Olha, fica melhor por aqui, em ambiente tal”, eu sou todo ouvidos. Foi a primeira pessoa em que eu pensei.

Mas tua ideia é fazer isso quando? O cd estará pronto agora, fim de junho, começo de julho. Eu gostaria de fazer em agosto, por que em setembro já está agendado para eu fazer lançamento em três casas de choro lá em Belo Horizonte: o Bar Mosteiro, o Pedacinho do Céu e o Salomão.

Além deste disco tu tens participação em outros discos? Tem. Na Companhia Barrica, participei de uns dois discos. Participei do cd dOs Foliões, Antonio Vieira ao vivo no Teatro Arthur Azevedo [O samba é bom, 2001], Vagabundos do Jegue, o cd do Fuzarca [grupo carnavalesco que reúne os cantores Cláudio Pinheiro, Inácio Pinheiro, Fátima Passarinho e Rosa Reis], o de Isaac Barros, Cabeh [o póstumo Esquina da solidão].

Você falou que despertou para o choro um pouco depois. O que significa o choro, pra ti, hoje? Ave Maria! É a música! O choro é a música! Não tem outra música. Aprendo muito tocando choro, a cada dia tu tem um ensinamento diferente, é um acorde, é uma maneira, um improviso.

Você gosta de tocar com essa geração mais nova? Adoro! Tem uma galera aí muito legal. Em São Luís, eu não sei, é meu ponto de vista, eu não sei se é falta de formação, de mostrar que choro é uma música legal, tem muita gente nova que não está tocando choro. Por exemplo, Daniel Miranda, que é trombonista do Quinteto de Metais, eu digo “Daniel, tu tem uma sonoridade legal, aprende a tocar choro”, ele não toca. Tocou uma vez, tu lembra, que um quarteto de trombones tocou o Tororoma [Saudades do Tororoma, música de Osmar do Trombone que homenageia um riacho de sua região de origem] lá no Clube do Choro Recebe?

Você ainda participa de algum grupo de choro em São Luís? Só free lance, quando me chamam eu toco.

E Os Cinco Companheiros? Os Cinco Companheiros toca de vez em quando. O problema maior é que não tem onde se tocar, não tem uma casa fixa. Todos os componentes dOs Cinco Companheiros tocam em outros grupos.

Você está vindo de Belo Horizonte, onde pode sentir a efervescência da cena, várias casas, vários grupos, e viveu também a experiência do Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. A gente via, naqueles três anos em que o projeto existiu, um público cativo. Por que esse público não vai para outras casas, ver outras apresentações, de outros projetos? Eu acredito que pela inconstância. Deixaram de acreditar. Eles acreditavam tanto naquele projeto no Chico Canhoto, que aquilo ali era como se ir pra igreja todo domingo, rezar, já sabiam que sábado tinha. Eu encontro pessoas, “rapaz, era tão bom, por quê que acabou aquilo?” Um dia arrumaremos outra casa.

Como tu tens observado a cena choro, o desenvolvimento do choro no Brasil hoje? Tem muitos grupos no Brasil hoje tocando muito choro. Pode acessar a internet aí que tu vê. Nos Sescs, cada instrumentista fantástico. Tem muita coisa boa. Aqui tem grandes músicos.

Quais os chorões que tu mais gostas, que mais te tocam? Pra te ser sincero, Zé da Velha e Silvério Pontes, musicais, alegres. Tenho cds de [o clarinetista] Paulo Moura, que tá lá no outro andar, grande instrumentista, Yamandu [Costa, violonista sete cordas] tem um cd de samba e choro do Paulo Moura com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, o Cliff Korman [Gafieira Jazz, 2006]. Aquilo ali é uma maravilha, cara!

E no Maranhão, quem é que te enche os ouvidos? Tem uma pessoa aqui em São Luís, que já tocou comigo em vários grupos, que tocou no Osmarmanjos comigo em São João e Carnaval, e participou também de roda de choro, que é Daniel Cavalcante, toca trompete. Juca é excelente cavaquinhista, o [cavaquinhista] Rafael Guterres, [o violonista] João Soeiro, tem o Domingos Santos, o sete cordas, Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] é maravilhoso tocando aquele sete cordas dele, parece que ele tá é navegando, não tá tocando. Serrinha de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é um cara supertalentoso, concentrado, não é aquele músico de muita firula. Na última comemoração do Dia do Choro [23 de abril de 2013, na Associação Atlética Banco do Brasil, Serra de Almeida foi homenageado em evento anual que reúne diversos chorões de São Luís] eu achei fantástica, impecável a apresentação de Serrinha. [O flautista] João Neto é um excelente músico. Então, pra não ser indelicado com alguns que eu não lembre, aqui tem muitos músicos, estamos bem servidos. Falta é apoio, principalmente dos poderes maiores, culturais, que nós não temos. A sede do Clube do Choro ficou só no papo de político, ninguém fez nada por aquilo.

Com tudo isso que você fala, é possível prever um bom futuro para o choro no Maranhão? Como tou te falando: só se tiver apoio. Eu não digo nem do poder público, mas da iniciativa privada. Vamos investir, vamos patrocinar o músico.

Mas você não acha que falta iniciativa dos músicos, perceberem a capacidade de gerar essa movimentação? Sim, tem essa carência, essa falta de pulso, de chegar e tomar a frente da coisa. A inviabilidade, às vezes, é até pela forma de retorno financeiro. Tem muita gente que vai tocar choro, vai numa roda de choro, e não tem retorno. A cidade não tem grandes empreendimentos para você ter um salário digno. O músico, geralmente, se ele viver só de música, já é precário. Faltam políticas públicas, oportunidades, incentivos. O músico pode se mexer, mas ele tem que ter pra onde se mexer.

Os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão

[Vias de Fato, abril/maio de 2013]

No ano em que completam 35 anos os discos Bandeira de Aço, de Papete,  e Lances de Agora, de Chico Maranhão, lideraram as lembranças de 11 pessoas do meio musical convidadas a votar em uma lista para o Vias de Fato

POR CELSO BORGES E ZEMA RIBEIRO

Esta lista já estava virando lenda. Da ideia às páginas que ocupa nesta edição do Vias de Fato já se vai mais de meio ano. O escritor Bruno Azevêdo já a havia citado em um texto [Homem lúcido e perigoso se dirigindo para o centro da cidade, O Estado do Maranhão, Alternativo, 15/12/2012] sobre Z de Vingança, de Marcos Magah, cuja prensagem pagou do bolso e em que votou em sua lista afetiva. “A ordem é alfabética que meu coração não hierarquiza”, afirmou sobre sua seleção.

O “amadurecimento” da lista ao longo desses seis meses (e pouco) não significa sua “melhora”. Certamente alguns dos convidados a votar mudariam alguns votos, se o convite surgisse hoje. Ou se, sabe-se lá, surgisse daqui a seis meses. Ou ainda se estivéssemos agora vendo uma lista publicada há seis meses ou um ano. Tanto faz.

Lista é foda: sempre excludente. Não tem como: fica um monte de gente boa de fora, mas é um exercício para reflexão e muita, muita discussão e polêmica, principalmente em mesa de bar – ou apenas por lá? O que vão falar mal não está no gibi, mas nem por isso vamos deixar de dar a cara pra bater – coisa que, aliás, o Vias de Fato sempre fez.

O jornal reuniu literalmente um time com 11 titulares ligados à música – djs, jornalistas, poetas, radialistas, escritores, pesquisadores e uma cantora (ainda inédita em disco) – para escolher os 12 discos mais importantes (há controvérsias) da música produzida no Maranhão nos últimos 40 anos (1972-2012). 12 o número médio de faixas de um vinil, se carece explicação, embora a lista no geral não soe saudosista.

Em 2013 completam-se 35 anos dos lançamentos dos discos Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão, que figuram na proa da lista final, embora esta, a lista, antes de elaborada não tivesse certeza de nada – embora seus idealizadores suspeitassem que eles liderariam a “eleição”.

Esta lista que o Vias de Fato ora publica acaba sendo, pois, a homenagem do jornal aos 35 anos destes discos, importantes não só para a música produzida no Maranhão. O primeiro acabou constituindo-se em um marco, por registrar pela primeira vez em disco obras de compositores fundamentais daqui – Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe – que ajudariam a definir o que se convencionou chamar, depois, de “música popular maranhense”; o segundo, até hoje nunca reeditado em cd, orbita em aura mística, por sua gravação na sacristia da Igreja do Desterro, em quatro dias, pelo lendário Marcus Pereira, que descobriu e registrou tanta gente boa Brasil adentro.

Homenagem – As comemorações não param nesta lista: no próximo dia 28 de maio, às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, sob o manto já consagrado de sucesso do projeto BR-135, diversos nomes da nova cena musical do Maranhão interpretam o repertório de Bandeira de Aço em um tributo capitaneado, como o BR, pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões.

O show contará ainda com as participações dos “Compositores do Maranhão” – como consta na capa do vinil Bandeira de Aço – então gravados por Papete. Entre os novos nomes destaques para o duo Criolina, Afrôs, Bruno Batista, Dicy Rocha, Flávia Bittencourt e Madian. Na ocasião será apresentado ainda um documentário sobre o disco, assinado pelos jornalistas Andréa Oliveira, Celso Borges e Maristela Sena.

OS 12 MAIORES DISCOS DA MÚSICA DO MARANHÃO (1972-2012)

Bandeira de Aço, Papete, 1978, 10 votos > Este deve ser uma unanimidade. Puta discão, apesar das mil falhas e (talvez) também pelas polêmicas. É um disco que traça certa paisagem sonora e fica encravado na memória afetiva de quem teve contato com ele. (Bruno Azevêdo)

Lances de Agora, Chico Maranhão, 1978, 6 votos > Considero este um dos discos fundamentais da música maranhense. Poucas vezes um álbum reuniu tanta poesia embalada em ótimas melodias. (Ademar Danilo)

Cine Tropical, Criolina, 2009, 4 votos > O disco aponta os caminhos tropicalistas da paisagem sonora maranhense que encontra ecos no Caribe, Jamaica e outros portos musicais ameríndios e pós-coloniais, tudo com cores e brisas tropicais. (Alberto Júnior)

Bumba meu boi de Pindaré, 1973, 4 votos > Este disco pioneiro contém uma das mais brilhantes gravações já feitas de bumba meu boi. São as raízes maranhenses cantadas por Coxinho. Um mergulho profundo na alma rústica da nossa identidade. (Eduardo Júlio)

O som e o balanço, Nonato e seu Conjunto, 1975, 4 votos > O sucesso Cafua e outras pérolas habitam esse disco formidável que abre a seleta. Viva o maestro Nonato! (Franklin Santos)

Shopping Brazil, Cesar Teixeira, 2004, 4 votos > Autor de um sem número de clássicos da música maranhense, Cesar Teixeira já tinha mais de 35 anos de carreira, contados a partir dos primeiros festivais de que participou, ao estrear em disco solo, já tendo fornecido pérolas para o repertório de muita gente, daqui e de fora – por exemplo, o saudoso menestrel mineiro Dércio Marques, que registraria sua Namorada do Cangaço em Fulejo (1983). O compositor relê parte de sua vasta obra já registrada – Bandeira de aço, Flor do mal e Ray ban – e apresenta inéditas – Met(amor)fose, Vestindo a zebra e a faixa-título, composta ainda na década de 1970, quando o autor se deparou com o primeiro lixão ilhéu (e uma senhora que o habitava) –, além de homenagear “vodus” de nossa música: Antonio Vieira e Dona Teté (que participam do disco), Mestre Felipe e Dona Elza (que comparecem com excertos de gravações do tambor de crioula e do caroço, respectivamente), Rosa Reis (coro), Laurentino (citado em Mutuca) e João Pedro Borges (que assina o arranjo de Flor do Mal). Cesar mistura tradição e modernidade em pirão musical de farta sustança. (Zema Ribeiro)

Antoniologia Vieira, Vários, 2001, 3 votos > Interpretado por 16 vozes a obra deste compositor cuja carreira se sedimentou aos 80 anos contribui para esquadrinhar a trajetória da música popular feita no Maranhão num intervalo de 40 anos. Arranjado por Adelino Valente, o disco reúne as canções mais conhecidas de Antonio Vieira [nota do blogue: acima, no vídeo, a capa do disco; esta gravação não está em Antoniologia]. Os Ingredientes do Samba (música interpretada por Letice Valente) se sobressaem na obra deste compositor de letras simples, sem rodeios, como Na cabecinha da Dora. Sem o esmero da tecnologia, a gravação ganha ainda mais valor como registro. (Henrique Bóis)

Balaio, T. A. Calibre 1, 2002, 3 votos > Costelo (vocais), Ramuzyo (baixo), Christian (guitarra) e Franklin (bateria) fizeram um disco que propõe um diálogo mais próximo entre o hip hop e os ritmos de cultura popular maranhense. (Celso Borges)

O Boizinho Barrica, Boizinho Barrica, 1988, 3 votos > A brincadeira de rua vai para o estúdio e registra os nossos principais ritmos populares: o boi e seus vários sotaques, o divino, o coco. Um disco que também é fundador, para o bem e para o mal. Para o bem porque tem lindas composições de Godão e Bulcão. E para o mal porque abriu a porteira para o chamado boi de butique. Sugiram mais de 30 diluindo e empobrecendo o que o Barrica inaugurou. (Celso Borges)

Claudio Lima, Claudio Lima, 2002, 3 votos > Um disco que ouvi muito, e até hoje me pego botando na vitrola pra cantar Ray ban (Cesar Teixeira) e a “puta que pariu” que a Rádio Universidade censura. Pensa pra fora e grita alto, com um pé dentro, mas só um pé, que quem coloca os dois se atola! (Bruno Azevêdo)

Eu, você e a cidade, Nicéas Drumont, 1982, 3 votos > Natural de Rosário, Nicéas Drumont morreu cedo, aos 39 anos. Deixou mais de 100 composições e foi gravado, em vida ou postumamente, por nomes como Alcione, Leandro e Leonardo, Moacyr Franco, Nando Cordel, Nando Reis, Noite Ilustrada e Rosa Reis. Foi pioneiro ao registrar dois reggaes neste disco: Gavião vadio e Senzalas, com que tomou de assalto as rádios locais. (Zema Ribeiro)

Regueiros Guerreiros, Tribo de Jah, 1992, 3 votos > A banda de Fauzi Beydoun encabeça só pedras neste disco que é a cara dos Regueiros Guerreiros do Maranhão. Destaque também para a linda Neguinha. (Franklin Santos)

AS LISTAS COMPLETAS (SAIBA QUEM VOTOU EM QUE DISCOS) [incluindo a lista comentada deste blogueiro]

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