Para ler e reler (e deixar mais doce a vida)

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

 

Qualquer assunto é tema para Antonio Prata e essa versatilidade também faz dele um grande cronista. Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016, 226 p.; leia um trecho] reúne um punhado de crônicas suas publicadas desde 2010 no jornal Folha de S. Paulo.

Do relacionamento à paternidade, passando por futebol, infância, tecnologia, Deus, Keith Richards, procrastinação, cirurgia plástica, cinema e muito mais, qualquer assunto é tema para Antonio Prata, insisto.

A crônica, esse gênero legitimamente brasileiro, tornado grande literatura por nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues, entre outros – não à toa todos citados na seleção de Trinta e poucos –, encontra em Antonio Prata um dos melhores nomes a garantir a continuidade desta tradição, hoje, no país.

Por detrás de textos aparentemente simples, descolados do compromisso com o factual, o calor da hora, tão caro às principais manchetes dos jornais, a crônica pode ser erroneamente vista como gênero menor. No fim das contas, tudo acaba forrando obra ou embrulhando peixe, como tira sarro o próprio Prata. E talvez aí resida a necessidade de o autor reunir as melhores em um livro, a que os afeitos às tecnologias podem achar desnecessário: livro? Que coisa mais obsoleta! Ainda mais com textos já publicados em jornal, outros torcerão o nariz.

Por detrás de textos aparentemente simples, insisto, toda a sensibilidade e um misto de erudição e cultura de almanaque do autor – em Saída para o mar, por exemplo, ele cita a Wikipedia como fonte. Engana-se quem pensa, no entanto, que é fácil ser cronista. Que é fácil ser Antonio Prata.

Filho do Mário (como assim, que Mário?, ele também uma referência, também personagem), Antonio Prata tem quase quarenta, como entrega o título do presente volume, e já tem, mesmo tão jovem, seu lugar garantido em algum panteão ao lado de todos os citados – inclusive Luis Fernando Veríssimo e Humberto Werneck, de quem também lembra em textos ao longo de Trinta e poucos, o bom humor sempre presente, outra característica sua.

A vida é que nem rapadura: é doce, mas é dura, diz o dito popular. Pode ser mais doce ou mais dura. Depende, certamente, se você lê ou não Antonio Prata.

Lembranças da infância com bom humor

Antonio Prata é um de nossos mais charmosos cronistas em atividade, e aqui poderia estar me referindo ao homem, mas falo da obra. Com elegância, idem, ele ocupa uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, dono de um estilo fino, inconfundível.

Nu, de botas [Companhia das Letras, 2013, 144p., leia a primeira crônica], seu novo livro, reúne divertidas histórias de sua infância, numa mescla de memória e ficção – não é possível que apenas um moleque tenha sido agraciado com tantas experiências hilariantes como as que povoam as páginas do livro.

As primeiras descobertas, as brincadeiras e os brinquedos, a vizinhança num bairro de classe média em São Paulo nos anos 1980, a admiração pelo palhaço Bozo, o maior astro da televisão de então na inocente opinião dos petizes, até a descoberta das revistas de sacanagem e do amor, não necessariamente nessa ordem. Nada fica de fora do crivo memorialístico e do talento de ficcionista do escritor, o leitor não suspeita onde termina um e começa o outro, tão habilidoso é o autor na condução dos enredos – para quem não sabe, por exemplo, Antonio Prata integrou o elenco de roteiristas da novela Avenida Brasil.

Embora as histórias sejam independentes entre si, a coleção de crônicas pode ser encarada como um romance, já que o leitor não vai conseguir parar de rir e consequentemente desgrudar do livro antes de terminá-lo. Não há um rigor por lê-las na ordem em que aparecem, mas como as próprias experiências infantis, cada leitor se relacionará com os textos de maneira diferente, uns certamente voltando páginas para reler e garantir ainda mais risadas.

Blablablá

Uma vez, a gente bebendo lá em Imperatriz, o Cuenca me disse que eu era “a cara do Pratinha”. Já não sei: do encontro com o autor de O único final feliz para uma história de amor é um acidente pra cá, ganhei peso mais do que devia. Outro dia uma queridamiga, que não sabia do que já havia me dito o escritor, disse a mesma coisa. É, talvez eu pareça um pouco, não sei… ao menos o Antonio Prata é engraçado, coisa que eu tento ser sempre, mesmo quando a maré não tá pra peixe.

Abaixo o cronista entrevistado por Ronaldo Bressane, na estreia do Blablablá, mês passado: