Disco de estreia da Quartabê reverencia Moacir Santos

Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução
Lição #1 Moacir. Capa. Reprodução

 

Nada na Quartabê é convencional. Nem o nome, nem a formação (quatro moças e um rapaz), rara no meio instrumental brasileiro, nem a acertada escolha do repertório do primeiro disco, formado quase completamente por composições do lendário compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista pernambucano Moacir Santos [1926-2006], intitulado justamente Lição #1 Moacir [2015], o que denota modéstia e humildade.

Descontração é fundamental e o nome do grupo surgiu de uma brincadeira entre seus integrantes: “Surgiu como uma gíria, porque nossos ensaios sempre foram muito bagunçados desde o início. Produtivos, mas com pausa pra youtube, piada e fofoca no meio. E a gente sempre dizia “nossa, essa banda é muito quartabê”, no sentido de sala de aula de escola”, revela a baterista Mariá Portugal.

Foi o homenageado o responsável por juntá-los: a Quartabê formou-se especialmente para o Festival Moacir Santos, realizado em 2014 no Rio de Janeiro. “A Quartabê é uma turma um pouco indisciplinada que está aprendendo a lição número 1 do professor Moacir Santos”, anuncia o perfil da banda no site que disponibiliza o disco para audição (gratuita) e download (pago). E não param em Moacir Santos as bênçãos a este quinteto instrumental (que também sabe cantar): Lição #1 Moacir foi gravado (e avalizado) no estúdio Comep por Ricardo Mosca, baterista do grupo Pau Brasil.

Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete e clarone), Maria Beraldo Bastos (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria), Ana Karina Sebastião (contrabaixo elétrico) e Chicão (piano e teclados) reverenciam o mestre sem se contentar em simplesmente executar peças de sua lavra. Tampouco a Quartabê se limita ao repertório mais fácil ou óbvio (se é que isso existe) de Moacir Santos: de suas Coisas, por exemplo, somente as de números 3, 8 e 5, nesta ordem, figuram no disco.

Há no registro espaços para o improviso e para o diálogo da obra “moacirsantosiana” (título de uma das faixas, Moacirsantosiana 10, de Maurício Carrilho) com a de outros nomes, explícita ou implicitamente. No primeiro caso, por exemplo, João de Barro e Antonio Almeida, autores de A saudade mata a gente, gravada na mesma faixa de When it rains [Brad Mehldau]; no segundo, Arrigo Barnabé (cuja banda Claras e Crocodilos é integrada pelas moças da Quartabê) e o Grupo Rumo, expoentes da vanguarda paulistana, no trato instrumental dado pelo quinteto aos 12 temas escolhidos para sua estreia. Com vocais, a vinheta Chamada evoca o clássico Clara Crocodilo [1980].

Difícil (e desnecessário) rotulá-los, pela abordagem inusitada. Não poderia ser diferente em se tratando de uma homenagem, justa e merecida, a um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos – embora menos falado e reconhecido do que deveria, quase praxe por estas plagas. Influência de Tom Jobim e João Gilberto, professor de Baden Powell, Eumir Deodato e João Donato, Moacir Santos certamente aprovaria os resultados obtidos por estes alunos, acima da média.

Aplicados, Mariá revela já estarem pensando na segunda lição: “vamos escolher outro professor, não sabemos qual. Mas ainda este ano pretendemos gravar um EP com mais músicas do Moacir”, adianta.

Ouça a Quartabê em Oduduá (Moacir Santos), faixa que abre Lição #1 Moacir:

O “príncipe do samba” subiu

“Descendo o morro” (1958)…

Em 1958 quando o Brasil inventava a Bossa Nova, Roberto Silva estava Descendo o morro, disco de capa e conteúdo bonitos, que mereceria um segundo volume, idem, no ano seguinte.

… e seu volume dois, do ano seguinte.

Nestes dois discos estão gravações antológicas de sucessos obrigatórios em qualquer roda de samba ou discografia de música brasileira: no primeiro Juracy (Antônio Almeida/ Ciro de Sousa), Pisei num despacho (Elpídio Viana/ Geraldo Pereira), Ai, que saudade da Amélia (Ataulfo Alves/ Mário Lago), Falsa baiana (Geraldo Pereira) e A voz do morro (Zé Ketti), entre outras; no segundo Se acaso você chegasse (Felisberto Martins/ Lupicínio Rodrigues), Você está sumindo (Geraldo Pereira/ Jorge de Castro), Escurinho (Geraldo Pereira), Rugas (Ary Monteiro/ Augusto Garcez/ Nelson Cavaquinho) e, entre outras, Maria Tereza (Altamiro Carrilho). Verdadeiras antologias do samba popular brasileiro.

Este par de discos e uma vida inteira dedicada ao gênero valeram-lhe o epíteto de “príncipe do samba”. Assim foi reconhecido e por estas e outras merece todas as homenagens: Roberto Silva faleceu aos 92 anos, na madrugada de ontem. O cantor lutava há seis meses contra um câncer na próstata e quarta-feira passada foi vitimado por um AVC. Lúcido, pediu para voltar para casa, onde morreu na companhia de familiares.

Faleceu na ativa, tendo ido reencontrar-se com esta turma boa que gravou. Um dia desceu o morro, ontem subiu ao céu: o panteão dos que carregam a bandeira do samba, ilustres ou anônimos, com ou sem títulos de nobreza.