Por uma poética política

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Sábado passado (19) um grupo de prosadores, poetas e músicos ocupou o Memorial Bandeira Tribuzzi, na Praia da Ponta d’Areia.

O elefante branco tem “35 anos de inexistência”, conforme decretou o poeta Celso Borges, enquanto lia poemas seus, de Marcos Magah e do poeta que empresta o nome ao monumento, falecido no dia em que a cidade da qual compôs o hino completou 365 anos.

O autor de O futuro tem o coração antigo também fez o papel de mestre de cerimônias, chamando ao microfone nomes como André Lucap, Beto Ehongue, Bruno Azevêdo, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego, Madian, Luís Inácio Oliveira, Reuben da Cunha Rocha e outros. Sua senha-vinheta era “ê, Ponta d’Areia/ há muito tempo que eu não te vejo, não”, da Ponta d’Areia de Chico Maranhão, mixada com seu “eu quero ver” de A serpente (parceria com Ramiro Musotto e Zeca Baleiro).

Não fiquei até o fim do at(entad)o poético, formado em grande parte por amigos meus. Sua intenção é alertar para o abandono de lugares, em São Luís, que poderiam ser cartões postais, mas estão sendo roídos pelo salitre do descaso, do abandono, da insegurança.

Outras ocupações virão, promete o coletivo organizador do encontro. Torço para que com ampla divulgação e cobertura da mídia, falatório nas redes sociais e presença de pessoas ouvindo poesia e música, comprando livros, quem sabe até dividindo o microfone e reivindicando a reinvenção do espaço público.

Espero sobretudo a atenção e sensibilidade dos gestores públicos no sentido de revitalizá-los, não só no que tange à pedra, mas no que tange à gente.

Tempo de Pitomba!

Joacy James

Há quem não goste de pitomba, a fruta, pelo excessivo trabalho, haja paciência, que ela dá para ser apreciada: tirada a casca, rói-se até o caroço, um quase nada azedinho de prazer.

Há quem não goste da revista com nome de fruta, vai entender, talvez por razões opostas. A Pitomba chega ao quinto número, fruto dos esforços de um pequeno time de talentosos teimosos: Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha, todos por demais conhecidos dos poucos mas fieis leitores deste blogue.

Não merecesse apreciação por nada, a revista por si só já estaria escrita entre nossas grandes revistas de artes por alguns motivos. E eu não tou falando de nosso quintal-Maranhão.

Juntar estas três cabeças pensantes em um projeto, o primeiro, escritor hoje reconhecido nacionalmente, o segundo, um poetaço, teimoso que já fazia revistas antes mesmo dos outros pares terem nascido (saibam: não é fácil manter acesa essa chama), o terceiro, hoje morando em São Paulo, talentoso poeta, competente tradutor.

Fazer uma revista bonita, a baixo custo, mapeando talentos, mesclando artes visuais, poesia, sacanagem, literatura, hq, bom humor.

Meter as mãos nos bolsos, quando o patrocínio e as vendas em bancas não cobrem os custos (o que sempre acontece!).

Louvem-se a livraria Poeme-se e o bar Chico Discos: nossas multinacionais culturais locais não são megaempresas, mas têm colaborado um bocado ao longo dos últimos anos para iniciativas inteligentes, interessantes. São as duas únicas logomarcas que aparecem nas páginas da revista, oxalá sirvam de exemplo a outros pequenos, médios, grandes empresários.

Abre este post um cartum bomba inédito do saudoso Joacy James, uma das artes nas páginas desta Pitomba number five. Há ainda fotos de André Lucap (a capa é dele também), traduções de Samarone Marinho (de poetas argentinos) e Reuben da Cunha Rocha (e. e. cummings), poemas de Celso Borges, contos do pernambucano Fabiano Calixto, quadrinhos de Bruno Azevêdo, Rafael Rosa e Ricardo Sanches.

O lançamento é hoje às 19h, no Chico Discos.

Tássia Campos: da periferia ao universo

Sobre Trilha sonora do universo, show de Tássia Campos, ontem (27), no Cine Roxy, na programação da 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes

Numa época em que só se ouve falar em política, Tássia Campos aponta a poesia na nossa cara

Tássia Campos sobe ao palco acompanhada apenas do DJ Franklin e sob uma base posta por ele manda ver num reggae em inglês. O músico – sim, em seu caso DJ é músico! – havia tocado antes de Trilha sonora do universo, o show da cantora na 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes, em cartaz pela cidade até o próximo 1º. de novembro.

O espetáculo aconteceu ontem, no Cine Roxy. Antes de entrar, comentávamos, minha esposa, eu e o amigo Celso Serrão – que há tempos não via – que este era um daqueles espaços cujo novo nome – Teatro da Cidade de São Luís – não vai pegar. A cidade está cheia de exemplos: a Escola Técnica (hoje IFMA, depois de ser CEFET), a RFFSA (Plantão Central da Beira Mar), o Circo da Cidade (Circo Cultural Nelson Brito) – esse não pega mais nem o velho nem o novo.

O público era bom, embora o Roxy não estivesse completamente lotado, mesmo com toda a programação da mostra sendo gratuita. Após o duo com o DJ, a banda atacou. E que banda!: Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Paulo (contrabaixo) e Moisés Mota (bateria).

Aos incautos, Trilha sonora do universo, o título do show, pode soar pretensioso. Não é: tem a medida exata de quem conhece o talento que tem sem soar arrogante, sua trilha sonora e seu universo particulares.

O repertório vai de Novos Baianos (A menina dança), Bob Marley (Is this Love?) e Sérgio Sampaio (Que loucura! e Cada lugar na sua coisa), artistas que ela homenageou este ano com tributos, em shows diferentes, a André Lucap (Intervalo), Celso Borges (Persona non grata, poema dele musicado por ela, que o apresentou acompanhada de Edinho Bastos ao teclado), Kléber Albuquerque (Logradouro, primeira gravação dela que tocou no rádio e lhe valeu o troféu de artista revelação no Prêmio Universidade FM ano passado), João Donato (A rã) e George Gershwin (Summertime, no bis), entre outros.

Nada óbvio, portanto. Nem na escolha, nem nos arranjos, que Tássia e banda se preocupam em mostrar cada música, mais ou menos conhecida, com uma nova cara, um novo som, um novo coração. Como disse quando, ao avistar um de seus compositores na plateia, ao cantar sua música: “Desculpa, Lucap, mas essa música é minha!”. É isso: Tássia é uma recompositora.

Nela, tudo é sinceridade. Ela que faz poucos shows por preferir se manter afastada do esquema “pires na mão” praticado por nossos órgãos de cultura, agradeceu ao SESC a oportunidade de estar ali e elogiou o alto nível de profissionalismo de toda a equipe envolvida para que a Mostra aconteça – apesar de este blogue ter ficado sabendo do show pelo Facebook da própria cantora, a assessoria de comunicação (do SESC? Da Mostra?) ou não está funcionando ou nos ignora.

“Eu tenho até camarim. Eu perguntei a um dos músicos: “será que isso tudo é pra mim mesmo?”. Um camarim com flores, frutas… a gente é tão acostumado a ser maltratado, que até estranha, se espanta quando é bem tratado”, revelou, entre a sinceridade e a ironia, sempre apertando o dedo em nossas feridas. “E eu ainda tou recebendo pra fazer isso aqui; geralmente eu pago [para fazer shows]”, riu.

Emocionada chegou a chorar ao lembrar o saudoso mestre Leonardo, uma das maiores personalidades do bumba meu boi do Maranhão, oriundo da Liberdade natal da cantora, bairro sempre mais lembrado pelo estigma e pelas estatísticas da violência que por sua riqueza cultural. “É um bairro pobre, mas é tão rico. Só na rua em que nasci, tem um boi, um cacuriá, um tambor de crioula, uma quadrilha”, enumerou. “Leonardo para mim era [como] meu avô. Eu era uma das poucas pessoas de que ele lembrava, já acometido pelo Alzheimer [lágrimas interrompem a fala]. Depois de 26 anos eu deixei a Liberdade, mas por causa dele [Leonardo] é que eu vou ser sempre periferia!”, anunciou antes de mandar os “ó aqui pra vocês!” no Punk da periferia de Gilberto Gil.

Sobrou até para a tal da lei seca: “Eles fazem merda e roubam quatro anos e nós é quem temos que ficar sem beber?”, perguntou, anunciando que iria, dali, caçar canto para infringi-la. Se os que já saíram de lá embriagados de tanto talento, beleza e poesia mereciam, imagina ela, que nos proporcionou aquela hora e pouco de muita magia.

p.s.: obrigado, Celijon, pela info do batera. Hora dessas quito minha ausência com a Satchmo.

p.s.2.: obrigado, Fafá, pela foto do Gleydson Nepomuceno que ilustra o post, roubada de teu facebook. 

p.s.3.: CB, depois que o Souza inchou no bucho não rolou estica, foi mal aê! Terça ‘tou no Odeon pra te ver/ouvir, o que ainda direi por aqui.

O charme de Lucap & Nosotros no Chico Discos

Lucap (C), acompanhado de Guilherme Raposo (E) e Hamilton Oliveira (D)

O charme do Chico Discos, que não cansamos de elogiar, é inversamente proporcional ao seu tamanho, o do bar, não o do proprietário. Aconchegante, 50, no máximo 60 pessoas lhe garantem a lotação total. Se o espaço é pouco, sobra talento. Consolidado como um dos mais interessantes espaços culturais surgidos nos últimos tempos numa São Luís sempre ressentida da carência de coisas do tipo, Chiquinho, um ex-sebista que ainda tem algumas sobras do acervo a decorar as paredes do lugar, nega qualquer palavra que não “bar” para definir sua casa.

Dando prosseguimento à temporada iniciada mês passado, o cantor, compositor e violonista André Lucap volta ao palco do Chico Discos (Rua Treze de Maio, 389, esquina com Afogados, sobre o banco Bonsucesso), acompanhado dos músicos Guilherme Raposo (teclado) e Hamilton Oliveira (contrabaixo), o duo Nosotros. No repertório, músicas autorais, do álbum inédito On, a ser lançado em breve, e releituras de nomes como Beatles, Beck, Bob Marley, Johnny Cash, Joy Division, New Order, Nine Inch Nails e Vitor Ramil.

O show acontece nesta sexta-feira (20), às 21h. Os ingressos custam R$ 12,00. Maiores informações: (98) 8159-1990.

Chico Discos: um bar

Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).

Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.

Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.

Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.

Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.

Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.

Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).

Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.