Convergência em T

Meu corpo é politico. Cartaz. Reprodução

Quatro histórias se cruzam em Meu corpo é político [drama/documentário, Brasil, 2017, 71 minutos], documentário da diretora paulista Alice Riff. As personagens fogem ao padrão heteronormativo vigente e o grande trunfo do filme reside em revelar-lhes em ações cotidianas. O quarteto mora em distintas periferias da cidade de São Paulo.

A câmera-corpo acompanha-as no dia a dia: um operador de telemarketing, uma professora ocupando o cargo de direção de uma escola, uma jovem fotógrafa que coloca sua arte a favor da militância pelos direitos de transexuais e uma artista do funk idem.

Meu corpo é político é didático sem ser panfletário. É um mergulho ousado na temática, a apontar questionamentos que deveriam ser feitos por cada um de nós, diante de tema (relativamente) novo, pouco abordado, ao menos com a devida responsabilidade, sobretudo por (grande) parte da mídia.

O olhar sensível de Alice Riff passa a merecer ainda mais respeito justamente por ela tê-lo devotado a seu próprio mergulho no universo dos Ts da sigla LGBTQI+: sendo mulher cisgênero (e aqui o resenhista não foge ao lugar comum de enquadrar seres humanos no binarismo que rege/ia a identidade de gênero), ela consegue contar, com louvor, as histórias a que se propõe.

O roteiro é bem urdido, entremeando as vidas de Fernando Ribeiro, Paula Beatriz, Giu Nonato e Linn da Quebrada, que além de protagonistas, assinam o roteiro do filme com Alice Riff.

Se todo corpo é político, o corpo de um/a transgênero o é ainda mais, vivendo em estado permanente de ameaça, e na iminência de toda forma de violência. Existir é político: resistir se faz necessário.

Em uma época em que um presidente recém-eleito ameaça toda sorte de cotas e de censura o mais importante mecanismo de acesso ao ensino superior do país, o filme de Alice Riff é peça fundamental na re/educação da sociedade, ou ao menos da parcela ainda disposta a abrir a mente.

Selecionado pelo mais recente edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que garante a produção de conteúdo audiovisual para a veiculação em emissoras públicas, uma versão estendida de Meu corpo é político foi exibida ontem (12), no Cine Teatro Aldo Leite (Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão – DAC/UFMA, Canto da Viração, Centro), na mostra Corpos Elétricos, que integra a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, do Sesc/MA.

A sessão foi seguida de debate com a diretora, a atriz Áurea Maranhão e o técnico em cultura do Sesc/MA Fábio Azevedo. A programação continua daqui a pouco, com Uma mulher fantástica [drama, 2017, direção: Sebátian Lelio, duração: 104 minutos; classificação indicativa: 14 anos], às 16h, e Corpo elétrico [drama, 2017, Marcelo Caetano, 94 minutos, 16 anos], às 18h. As sessões têm entrada franca.

Veja o trailer de Meu corpo é político:

O dial da memória sintonizando o FM Abissal

Em 2014, contratado como assessor de comunicação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, me vi diante de um dilema: o show principal da noite de abertura do evento teria a banda pernambucana mundo livre s/a (que eu nunca havia visto ao vivo) tocando de graça na Praça Nauro Machado, mesma data em que o baiano Elomar Figueira de Mello se apresentaria, ao lado do filho João Omar, no Teatro Arthur Azevedo, com ingresso pago.

Imaginei que a apresentação de Elomar começasse praticamente sem atraso, que o show durasse algo entre uma hora e hora e meia e que o show do mundo livre atrasasse, em virtude do que sempre acontece quando um show principal fecha uma noite de programação, precedido por outras apresentações. Isto é, eu conseguiria ver ambos os shows. Mas meus cálculos estavam errados, matemática nunca foi meu forte, e Fred Zeroquatro e companhia continuam praticamente inéditos ao vivo para mim.

Digo “praticamente inéditos” por que ao chegar à praça, voltando do teatro, ainda ou/vi as últimas palhetadas do jornalista e compositor ao cavaquinho, encerrando o bis.

Não me arrependi da escolha e sei que a hora de ver/ouvir o mundo livre s/a chegará. Profissionalmente não me penitencio: a pequena equipe de assessoria com que eu contava deu conta do recado, isto é, de contar o que foi a noite de abertura daquela edição da Aldeia.

Antes do show de Elomar começar, enquanto enxugava umas latinhas com o amigo Otávio Costa no bar do Arthur Azevedo, recebi um telefonema: Fernando Matos – cujo aniversário, hoje (20), me fez lembrar essa história –, o lendário DJ Abissal, estava em São Luís e me convidava para “molhar a palavra”. Informei-lhe que estava no teatro para assistir Elomar e avisei-o do show do mundo livre s/a, a que ele acabou assistindo. “Eu não esperava tanta opção”, revelou-me o amigo pernambucano, que baixou na Ilha numa quinta-feira útil, a trabalho.

Elomar e sua produção proibiram fotos – regra que dei um jeito de desrespeitar, mas o resultado foi tão tosco que joguei todas fora, depois. Uma amiga, com uma máquina melhor, teve melhor sorte.

O mundo livre s/a posou para fotos com fãs. Levei Fernando ao camarim e acabei por promover, em plena São Luís, seu reencontro com Zeroquatro, o Montenegro que foi seu contemporâneo de “científico” e UFPE. Daniel Sena clicou e ainda tivemos pique para ir até A vida é uma festa!, capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, àquele ano integrada à programação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

FM, 04 e o blogueiro no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena
FM, 04 e o homem de vícios antigos no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena

Vai ter peitinhos! E muito mais!

França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação

 

A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).

O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.

O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.

Encarnado. Capa. Reprodução
Encarnado. Capa. Reprodução

Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).

Selvática. Capa. Reprodução
Selvática. Capa. Reprodução

Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.

Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!

Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):

Confiram Metá Metá em Trovoa (Maurício Pereira):

Chorografia do Maranhão: Juca do Cavaco

[O Imparcial, 13 de abril de 2014]

Juca do Cavaco virou bordão em programa de choro. Cavaquinista do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 30º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando a realização de sua entrevista para a Chorografia do Maranhão foi previamente anunciada nas redes sociais, Juca do Cavaco foi saudado como um chorostar. Não é à toa: o músico virou um bordão no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado há mais de 20 anos por Ricarte Almeida Santos na rádio Universidade FM (106,9MHz). “Eu sinto uma alegria muito grande, eu fico satisfeito em chegar o domingo, escutar o programa numa rádio de respeito, com um pesquisador fantástico, escutar o nosso nome. Já começo o domingo de uma forma 10. É uma honra!”, revela o torcedor do Fluminense, de longe o mais adjetivado de nossos instrumentistas, entre chorografados e chorografáveis.

Fora o instrumento que lhe deu o sobrenome artístico, Emilson Pires dos Santos não sabe a origem do apelido que ganhou na infância. “Eu perguntei várias vezes para mamãe, mas ela vacilava e nunca soube responder”, confessa. Titular do cavaquinho do Instrumental Pixinguinha, o músico nasceu em 26 de julho de 1958, em Bacuri, então Cururupu, “perto de Valha-me Deus, Lençóis. Da família sou o único que não conhece minha cidade”, conta o ex-bigodudo que veio ainda menino para a Ilha capital.

Formado em Medicina Veterinária, Juca do Cavaco é filho de Doralice Rodrigues Pires dos Santos, autonôma, dona de casa, e Cândido Machado dos Santos, com quem não teve convívio. É o mais novo de três irmãos, em time que se completa com os quase homônimos Edilson e Enilson. Casado com Maria da Conceição Souza, ele deu seu depoimento à chororreportagem, o 30º. da série, após a feijoada sabática do Hotel Pestana, onde toca com o Regional Feitiço da Ilha.

Regada a chopp, a conversa foi ilustrada musicalmente por Você, carinho e amor, Minhas mãos, meu cavaquinho, Chiquita e Pedacinhos do céu, todas de Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. Na última simulou o jargão de Ricarte ao apresentar o Chorinhos e Chorões: “Olá, são nove horas, está no ar Chorinhos e Chorões, o seu café instrumental de domingo”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico, qual a tua outra profissão? Atualmente eu vivo só de música. Fiz um concurso nacional, aqui em São Luís, concorrendo a uma vaga para cavaquinho e tive a felicidade de passar nesse concurso, que fez com que eu abandonasse todas as minhas outras funções, de professor de inglês e matemática nos principais colégios daqui. Eu fiquei como tempo integral e dedicação exclusiva, tive que largar todas as outras coisas e estou até hoje, graças a Deus, na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

De onde vem o apelido Juca? Olha, nem mamãe soube me explicar. Eu andei perguntando pra ela. Ela vacilou e não soube me explicar, eu curioso… é uma pergunta que todos me fazem, principalmente os amigos íntimos, como vocês. Eu perguntava, ela não soube me responder direito. Eu não sei a origem desse apelido.

Quando você veio para São Luís, você veio morar onde? Eu lembro que morei num quarto com mamãe na Praia Grande, perto da Escola de Música. Às vezes eu passo lá, fico olhando, “eu morei aqui”, dá vontade de entrar, curiosidade mesmo. Depois desse quarto eu fui morar na [rua] Pereira Rego [também conhecida como Rua dos Craveiros], entre a Rua da Paz e a Rua do Sol, nunca asfaltaram até hoje, até hoje os paralelepípedos estão lá.

Qual era o seu universo de vivências musicais, o que fez você optar por essa carreira? Na verdade, quando eu morava nessa Rua Pereira Rego, meus irmãos, principalmente o mais velho, tinham amigos que tocavam violão, se encontravam, estudavam no mesmo colégio, aquela amizade. Eles se reuniam para tocar violão e eu ficava olhando. Nunca pensei na minha vida em ser músico. Eu os olhava tocando, achava bonito, o tempo foi passando. De repente quando me vi, estava morando na Rua do Norte, nº. 129, perto do Caneco Bar, até hoje existe, inclusive eu fui o bebedor da primeira cerveja do Caneco Bar, e o Martins [proprietário do bar] não deixou que eu pagasse a cerveja. Na Rua do Norte meus irmãos continuavam a tocar violão, por brincadeira, por hobby, nada profissional. Eu já fazia faculdade nessa época. Lá tinha uma roda de samba, e aí que eu comecei a entrar no âmbito da música sem eu saber.

Você fazia faculdade de quê? Primeiramente eu fiz a faculdade de Medicina Veterinária, formei. Depois eu fiz Matemática, incompleto. Larguei pela metade, não tinha mais tempo mesmo. Eu entrei na Escola de Música, tinha muita tarefa, estudava inglês, depois a Escola me contratou para ser professor e eu aceitei. Na Rua de São Pantaleão tinha uma roda de samba que eu gostava muito. Eu nem tocava cavaquinho nessa época. Dava final de semana, o pessoal se encontrava: Cotia [Jorge Henrique], que hoje mora em Natal, violonista, cavaquinista; Vadeco, que era a grande expressão daqui do Maranhão, me ensinou muita coisa, era solista e centrista, depois virou percussionista; era um exímio cavaquinho, tenho-o como um dos mestres, eu tenho muitos mestres, na verdade. Tinha essa roda de samba, que tinha o grande Armand como violonista, irmão de Gerude [cantor e compositor]. Aí eu comecei a tocar cavaquinho e aprender os acordes, pedia muita consulta pra Vadeco. Quando ele solava um choro eu ficava extasiado: que coisa bonita!

Falando em Bar do Caneco, é verdade aquela história de que você foi chamado de Juca dos Teclados? Essa história foi uma grande brincadeira do, se não me engano o nome dele é Alessandro. Uma vez na Rua de São Pantaleão, ele gostava de tocar saxofone, e eu virei para ele e disse: “grande baterista!” [risos]. E ele virou pra mim e disse “você é um grande tecladista!”. Depois eu estava no Clube do Choro [Recebe], quando ele contou essa história. Mas não tem nada a ver, eu nunca fui… não foi no Caneco, foi no CC, no Canto da Comunicação, ali onde tem uma funerária, em frente à antiga sede da [escola de samba] Flor do Samba, o grande reduto destes meus mestres. Essa história é brincadeira, uma brincadeira bem saudável, todo mundo gosta, eu gosto. Tudo isso é alegria, é saúde.

Você é uma das pessoas que mais enriquece esse anedotário, além do espírito didático-pedagógico, de cumprir uma função de interagir com o público, o que é, quem é, uma história sobre a música, sobre o compositor, você sempre cumpriu esse papel de maneira bem interessante. Eu fico feliz com estes adjetivos.

Por que você escolheu o cavaquinho? Por que é um instrumento que tem um timbre muito bonito, agradável. A beleza do próprio instrumento, a facilidade. Não por que ele é pequeno, eu poderia muito bem tocar piano, ou violoncelo, mas o cavaquinho está dentro da linha do samba, dentro da linha do choro, da música brasileira, apesar de sua origem portuguesa. Eu olhava meus amigos tocando e achava tão bonito que isso me influenciou, a beleza deles tocando. Quando eu fazia faculdade foi a época em que eu passei a tocar cavaquinho. Foi lá pelos anos de 1980, 81. Nessa época já rolava essa roda de samba e Vadeco era o único solista que eu conhecia aqui. Depois eu fui conhecendo outras pessoas, o Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], exímio solista, principalmente de choro, domina bem, depois vieram outras pessoas, Adelino Valente [bandolinista], foi meu professor [de matemática] no Colégio Batista. Eu fui me juntando com essas pessoas, sempre aprendendo, fazendo perguntas, tirando dúvidas. Eu comprava muitos vinis, principalmente do Waldir e do Jacob [do Bandolim]. Mais ainda do Waldir por que era o instrumento que eu me engracei por tocar. Os vinis quando chegavam em São Luís, era perto da casa da minha mãe, onde eu morava, tinha uma loja lá que eu comprava muito, Arpasão, eu era federal [frequentador assíduo] no Arpasão.

Com o advento da tecnologia e a facilidade que a internet proporciona, você continua um grande comprador de discos, de cds? Eu procuro muito cd, muitos vinis. Não tenho uma grande coleção. Os vinis que eu consegui comprar ainda estão na casa da minha mãe. Uma grande parte está na casa de um grande amigo meu, a gente fez um trabalho de transformação de vinil para cd. Eu uni meus vinis com os dele. Na minha casa, atualmente, eu não tenho nenhum, na verdade. Eu tenho já passado tudo para o computador. Mas é muito interessante as pessoas terem esses vinis como relíquias. Nos vinis é que estão as verdadeiras histórias dos músicos. Por isso é que eu sei contar muitos casos, hoje nos cds tem algumas histórias, mas nos vinis vinham as histórias de cada músico, sambistas, chorões, e muitos casos, na capa do vinil. Eu lia muito isso, relia, e se eu olhar um vinil hoje eu continuo lendo. É muita cultura!

Você falou há pouco de Vadeco e Adelino e disse que tinha muitos mestres. Quem são os outros? O Cotia também, [César] Jansen, bandolinista, Natan, violonista que me ensinou muita coisa de cavaco, tocava cavaquinho esporadicamente. É principalmente essa turma. Sem falar nos percussionistas, que acompanham os sambas, os choros. Até hoje, toda vez que eu vou tocar com qualquer pessoa que seja, eu sempre estou observando, aprendendo. Se eu toco um choro e a pessoa toca outro, são praias completamente diferentes. Eu sou muito observador, às vezes eu vejo o jeito de a pessoa tocar, a dinâmica. Eu fui conhecendo as pessoas ao longo da minha vivência. Primeiro Vadeco, depois Paulo Trabulsi, Cotia. Nessa roda de samba eles invertiam os instrumentos: quem tocava cavaquinho depois pegava violão.

Quando é que o [Instrumental] Pixinguinha entra na tua vida? O grupo Instrumental Pixinguinha foi criado e formado na Escola de Música. Quando eu entrei lá eu já conhecia muitos dos integrantes do grupo. Quando eu entrei para estudar, pra me aprofundar, pra aprender a ler, a escrever a música, tinha esse grupo de choro, com uma deficiência muito grande no instrumento cavaquinho. Ora passava um, ora passava outro, passou muita gente. Uma vez, eu dentro de um ônibus, encontrei Marcelo Moreira [violonista], grande músico, grande amigo meu, a gente começou a conversar. O grupo estava num momento de crise, aquela coisa de grupo, até os Beatles acabaram, não é? Ele sentado, eu em pé, eu perguntei: “Marcelo, no Pixinguinha eu vejo muita deficiência em termos de cavaquinho. Por que vocês não botam uma pessoa fixa pra tocar cavaquinho? Eu me disponho a tocar com vocês!”. Certo tempo depois, me convidaram: “Juca, tu não quer tocar no grupo?”. Eu já tocava alguma coisinha, depois daí não parei mais. Eu já tinha tido passagens pelo [regional] Tira-Teima, meus amigos de longa data, os do Pixinguinha eu fui conhecer na Escola de Música.

Quem tocava cavaquinho? Era Raimundo [Luiz, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], era Biné [do Cavaco], o Athos [Lima], houve muitas passagens. Quirino…

Athos virou roqueiro depois. Muitos roqueiros vêm do rock pro choro. Athos fez o movimento contrário. O Ronaldo [Rodrigues, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 1º. de setembro de 2013], sobrinho de Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], veio do rock pro choro, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]. Tinha um aluno na Escola de Música, chamado Ricardo [Foca], toca um bandolim de prima, era roqueiro. Continua roqueiro, mas toca muito choro.

Não está na hora de o Pixinguinha gravar um disco novo? Essa é uma história sobre a qual eu tenho observações.

Eu soube que você não gosta de gravar. Essa história está totalmente errada. Vamos tirar isso a limpo [gargalhadas do entrevistado e dos chororrepórteres]. Quando eu me propus, como integrante do grupo, a gravar o primeiro cd [Choros Maranhenses, de 2005], eu disse, “olha, eu vou gravar com várias condições”. Eles: “quais?”. Primeiro, temos que ter um produtor, quando forem fazer o cd, capa, encarte, letras grandes, toda pessoa que se interessa, vai ter que ler. Eu vejo tanto cd com letra miudinha, letra preta em fundo azul, gente! Isso é uma falta de respeito com o leitor, com o ouvinte, o consumidor. Tem que ter uma foto bem produzida, realmente a foto foi bem produzida. Outra: depois que gravarmos o cd, vamos contratar alguém para gravar entrevistas, contratos musicais, trabalhar em cima do cd, fazer shows de divulgação em São Luís, no interior do Maranhão, e depois rodar o Brasil. Isso não aconteceu. O único show que a gente fez foi quando tocávamos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen]. A gente lançou o cd ali. Depois disso não houve nada. Por isso quando se pergunta: “vamos gravar o cd?”. Eu posso gravar o segundo, o terceiro, o quarto e ficar encofado.

Tuas condições são plausíveis. Choros Maranhenses cumpriu um papel muito importante: é o primeiro disco de choro gravado no Maranhão, com repertório autoral, de membros do grupo e mestres do passado. Neste aspecto há alguma discussão, de um eventual segundo disco manter essa linha? Já houve conversas, de se manter a mesma linha. Pesquisar e fazer uma seleção.

O Caderno de Partituras de Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] seria um orientador da pesquisa de vocês? Eu falei pra ele também: “Zezé, esse teu caderno é muito bom, uma iniciativa muito boa, mas leva teu projeto pra frente, pega um apoio, um produtor, que te leve com esses cadernos para o interior, divulgar teu trabalho”. O trabalho está parado. Ele me convidou para gravar o caderno dele [um cd encartado, para que o estudante de música possa tocar acompanhando as partituras], eu, Carbrasa [percussionista] e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], mas o caderno está parado! A única coisa que foi feita nesse livro, em termos produtivos, foi quando chega músico de fora, ele dá, entrega. Mas tem que ter um trabalho direcionado, estratégico, educacional, música nas escolas.

Pra você, o que é o choro? O choro é, como diz meu amigo João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], a espinha dorsal da música brasileira. É a música que abrange todos os gêneros. A pessoa que toca choro tem maior facilidade em tocar os outros ritmos, fica mais fácil. É a primeira música brasileira, tem que ser respeitado. É onde começa todo o desenvolvimento musical da história da música brasileira. O choro é a base.

Você se considera um chorão? Assim como eu me considero também um sambista, assim como eu gosto de vários estilos musicais. Ser chorão é como se eu estivesse dizendo que toco só choro. Eu toco outros estilos. Eu me identifico muito com a música de boa qualidade. Eu posso dizer que sou um chorão dentro das minhas limitações. Não conheço tudo, mas sinto muito prazer em tocar.

Além do Instrumental Pixinguinha, de que outros grupos musicais você participou? Eu toquei muitas vezes com o Tira-Teima, eu andava muito com eles. Fixo mesmo foi com o Pixinguinha. Em relação a grupos de samba toquei em muitos grupos: Amigos do Samba, que inclusive é um choro de Waldir Azevedo, toquei no Sambando na Praia, toquei com Serrinha [e Companhia]. Hoje em dia São Luís está cheia de grupos. O grupo Ébano até hoje me convida para tocar, de vez em quando eu toco com eles. De choro eu tenho vários grupos formados: o Duo Chora Cavaco, eu e Domingos Sete Cordas [Domingos Santos]; o Triângulo Escaleno, eu, Domingos e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira]; grupo Éramos Seis, que era o Pixinguinha, Garrincha [baterista] saiu. Atualmente, fixo, eu estou tocando com o Feitiço da Ilha, que sou eu, Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014] e Chico Nô [cantor, compositor e violonista], e com o Instrumental Pixinguinha.

Você esteve em duas iniciativas que ganharam prêmios Universidade, Choros Maranhenses e Rosa Secular [o show Noel, Rosa Secular, que celebrou o centenário do compositor de Vila Isabel, com vários artistas]. O que isso significou para você? Significou muito para mim. Houve muita produção, a gente estudou vários arranjos, a produção de cada música, tocar, ensaiar. Foi um ganho muito bom, me sinto recompensado, alegre e satisfeito de ter participado destes dois momentos. Quem não fica satisfeito em ser reconhecido? Em produzir um trabalho e ganhar determinado prêmio? Agora, o prêmio maior é a convivência com os envolvidos. Puxa, quando eu lembro que no primeiro Rosa Secular não tinha mais como entrar no Daquele Jeito [bar no Vinhais]. Foi apoteótico, essa é a palavra. A gente passou vários meses ensaiando, e nunca havíamos pensado em chegar a este patamar de sucesso.

Para você, o que é sucesso? Sucesso é o fruto de um trabalho bem feito, feito com muito esforço, com muito estudo e muita participação. Acima de tudo, estar tocando uma música bem tocada. No momento em que a gente começa a tocar errado, a gente já vira insucesso. Sucesso é a gente tocar bastante, se esforçar, ter gratidão às pessoas que ajudam a gente, de uma maneira geral. Isso gera o sucesso. Se fizer bem feito o sucesso chega. Tem que tocar por amor, mesmo. Dinheiro é consequência.

Ano passado você esteve envolvido em um episódio importante, quando o Tira-Teima e o Pixinguinha subiram juntos ao mesmo tempo em um palco da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, promovida pelo Sesc. O que aquele momento significou para você? Foi um encontro onde reunimos os grandes chorões e onde houve um encontro de muita musicalidade e entrosamento. Dois grupos tocarem o mesmo repertório juntos é complicado, mas conseguimos. Um detalhe interessante, muito difícil: no Pixinguinha eu me responsabilizei por montar o repertório, e Paulo Trabulsi por montar o do Tira-Teima. Fizemos os repertórios, mandamos um pro outro, eram músicas diferentes. Foi tão difícil fazer esse repertório, em cima da hora mudamos [risos]. Quando eu desci de lá, duas pessoas vieram: “gente, vocês devem ter ensaiado muito, saiu tudo perfeito”. Foi um reconhecimento a essa cultura instrumental.

Uma questão fashion: por que você tirou o bigode? É o seguinte: cabelo branco eu acho lindo, agora bigode branco, eu não acho legal. E eu fiquei mais jovem [risos]. Agora, esse lance de bigode, toda semana eu recebo comentários interessantes: “Juca, depois que você tirou o bigode, é tipo o cabelo de Sansão, tu não faz mais aquele negócio”; “Juca, agora tu tá o cara!”. Eu fico em cima do muro [risos].

Como você avalia o choro que se pratica no Maranhão hoje? Temos duas faculdades de música, a Escola, grupos de choro, grupos de estudo. Como você enxerga isso, comparando o hoje com o que era anteriormente? É uma evolução muito grande, acima de tudo do interesse pela música. Nas escolas, nas faculdades, a gente vê pessoas interessadas em aprender, não só para entrar no mercado de trabalho, mas produzir uma música que é estudada, a pessoa se esforça para fazer uma coisa bem feita. É altamente positivo. Vivemos um bom momento no choro, assim como no samba, que está num momento incrível em São Luís.

O choro do Maranhão tem futuro? Só tem! Basta a gente querer e ter o apoio de pessoas sérias.