Quem sabe das coisas mete a mão na cumbuca

Foto: Carolina Libério
Foto: Carolina Libério

 

Cumbuca é palavra que guarda sonoridades. É cuia, simplesmente, outra palavra interessante. A primeira vem do tupi kui’mbuka, “espécie de cuia”. Quem nunca tomou um banho de cuia não sabe o que está perdendo, embora do fruto da cuieira se façam também outros usos.

Como o que as Afrôs fazem em show hoje (7) no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), às 21h: Na cumbuca com Afrôs. A ideia é aliar música e gastronomia: da cumbuca sonora do grupo a sonoridade mestiça, calcada nos tambores tocados por mulheres, nos riffs de guitarra e no groove do contrabaixo; doutra cumbuca o sabor de surpresa inusitada preparada pelo chef Pieter, proprietário do restaurante.

A banda é formada por Cris Campos (percussão e voz), Fernanda Pretah (percussão e voz), Rebeca Alexandre (percussão), Hugo César (violão e guitarra), Jânia Lindoso (percussão), Melannie Carolina (contrabaixo e voz), Fofo Black (percuteria) e Tieta Macau (performer).

No repertório, músicas autorais, do primeiro EP do grupo, o homônimo Afrôs, além de inéditas e clássicos dos terreiros do Maranhão, todas com pegada dançante para instigar a interação com o público. O show de hoje é o primeiro de uma série com essa proposta, e percorrerá diversas casas em São Luís. Nesta edição inaugural as Afrôs recebem a cantora Dicy Rocha e o dançarino Igor Gauthier.

Os ingressos podem ser adquiridos no local e custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei).

Confiram as Afrôs em Entre o chão e a encantaria (Cris Campos, Camila Pinto Boullosa, Jânia Lindoso e Fernanda Pretah):

Saudade de Pixixita (Ou: Um abraço em Nelsinho)

Contrariando o compositor baiano, Pixixita subiu há algum tempo para uma estrela colorida, brilhante. De lá, certamente continua cumprindo a missão que tinha cá na terra: legar às pessoas o amor pela música.

O saudoso José Carlos Martins, dono do apelido, com sua cara e jeito “de índio”, deixou uma legião de fãs e amigos. Seguidores, nestes tempos de redes sociais.

O homem é uma lenda. Quase todo mundo que tem algo a ver com música em São Luís conta alguma história envolvendo Pixixita. Ou foi seu aluno. Ou tomou uma com ele. Ou tirou um retrato, bonito como o preto e branco em que ele aparece com o também já saudoso Nelson Brito.

Durante muito tempo, aliás, pensei que meu amigo Nelsinho, muito provavelmente pelo sobrenome, fosse filho de Nelson Brito. Entre tantos afazeres, este herdeiro do espírito agregador de Pixixita tem por missão manter vivo o legado do pai: sua memória, o amor pela música, simpatia e o “um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar”, para citarmos outro compositor. Graças a estes, a missão de Nelsinho torna-se até fácil.

Seu pai não cheguei a conhecer, mas admiro-o já há algum tempo. Com o filho, este simpático professor de capoeira, já tomei umas tantas cervejas nesta vida e tanto mais pretendo fazê-lo.

Como sábado agora, quando os companheiros de tribo do saudoso pajé reúnem-se para mais uma festa ao redor das fogueiras acesas nos corações em nome do amor à música e à vida.

Com Tributo ao Bandeira de Aço, termina hoje a #7felis

A 7ª. Feira do Livro de São Luís termina hoje, após 10 dias (incluindo este domingo) de intensas atividades nos mais diversos espaços da Praia Grande.

Às 21h, na Praça Nauro Machado, diversos artistas relembrarão as nove faixas do antológico disco gravado por Papete para a Discos Marcus Pereira, em 1978, ocasião em que pela primeira vez foram gravadas em disco músicas de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

É um bis do show apresentado em maio passado no Teatro Arthur Azevedo.

35 anos do antológico Bandeira de Aço são celebrados com grande festa no Arthur Azevedo

Público lotou o teatro na primeira edição do BR-135 em 2013. Repertório do disco foi tocado na íntegra

Um encontro para a história da música brasileira

O Teatro Arthur Azevedo ficou absolutamente lotado para a celebração aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, de Papete, divisor de águas da música brasileira produzida no Maranhão.

O projeto BR-135, capitaneado pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, propôs uma revisita ao repertório do antológico LP lançado pela Discos Marcus Pereira e revelou o que todos já sabíamos: todo mundo que faz música aqui bebe na fonte do disco que reuniu a obra dos “compositores do Maranhão”, como assinalava a capa da obra que muitos ouvem hoje como se fosse uma antologia, dada a qualidade do repertório. Não à toa Bandeira de Aço encabeçou a lista dos 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, recentemente realizada pelo jornal Vias de Fato.

Um balanço do projeto ao longo do ano passado mostrou números impressionantes no telão, principalmente de artistas que passaram pelos palcos do BR-135 – iniciado no ainda desativado Circo da Cidade, que precisa ser urgentemente reativado pela atual gestão municipal –, e de público presente aos eventos, cujo principal objetivo é a formação de plateia – o que se viu ontem no TAA é o bom resultado da iniciativa.

A projeção de um documentário, dirigido e narrado pelo poeta e jornalista Celso Borges, revelou histórias que jogam luz às polêmicas que sempre envolveram o Bandeira de Aço, sempre envolto por uma aura mística, justo também por isso. Entre os entrevistados, os quatro compositores das nove faixas, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota (o único que não mora no Maranhão e que não participou do show de ontem) e Sérgio Habibe, além do intérprete Papete, Chico Saldanha (que jogou a fita com a obra dos quatro nas mãos do percussionista maranhense e este apresentou-a a Marcus Pereira e o resto é história) e de diversos artistas para os quais o álbum é referência.

Ao longo do show o filme continuou dialogando com a plateia, entre uma música e outra, apresentando o contexto da época, as insatisfações de cada compositor com a interpretação de Papete para suas obras, o clima em que foi gestado e a repercussão do disco para suas carreiras artísticas e para a música do Maranhão e do Brasil em geral.

A homenagem do BR-135, a exemplo das edições anteriores do projeto, propôs também um diálogo entre a velha guarda e a nova geração de instrumentistas, cantores e compositores, percebido desde a formação da ótima banda que acompanhou a todos os artistas que pisaram no palco para a celebração: Erivaldo Gomes (percussão), Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado, sanfona e laptop). Alê Muniz assinou os arranjos do que foi ouvido na noite histórica.

O repertório seguiu a ordem do disco, sob o cerimonial do ator César Boaes, ou de sua personagem na comédia Pão com ovo, sucesso de bilheteria que volta ao palco do TAA nas comemorações dos 196 anos da casa de espetáculo: o mestre de cerimônias carregou no humor, os risos da plateia em peso garantidos também pelas deliciosas histórias que os protagonistas relatavam.

Boi da lua, de Cesar Teixeira, abriu o show com interpretação do autor, num arranjo próximo ao original. De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) foi interpretada por Bruno Batista, entre a lentidão e uma “porrada de pista”. Flávia Bittencourt interpretou Flor do mal (Cesar Teixeira), música registrada por ela em Sentido (2005), seu disco de estreia. Boi de Catirina (Ronaldo Mota) teve o vigor interpretativo de Madian, com vocais das Afrôs. Fechando o lado a, Josias Sobrinho cantou e dançou sua Engenho de flores.

O lado b seguiu com Josias Sobrinho sendo interpretado pelas Afrôs: Dente de ouro, com direito a mina incidental. Eulália, interpretada por seu autor Sérgio Habibe ficou entre o bumba meu boi e a cantiga de ninar, reforçada pelo teclado de Rui Mário – muita gente foi ninada pelas letras das músicas do disco. Catirina, de Josias Sobrinho, ganhou arranjo reggae na interpretação competente de Dicy Rocha. Com introdução tango, o casal Criolina subiu ao palco para interpretar a faixa título, que fecha o disco. Entre o tango e o bumba meu boi, convidaram Papete ao palco, e depois todos os outros que por lá já haviam passado. A plateia tornou-se um imenso arraial, com muitos dos presentes batucando pequenas matracas distribuídas pela produção, e já que todo mundo havia engrossado o coro do batalhão, o assíduo Zé da Chave também estava no palco, dividindo a percussão com Erivaldo Gomes.

Há tempos eu não via o Arthur Azevedo tão cheio para um espetáculo de artistas genuinamente maranhenses. Que a semente do BR-135 floresça, a começar por um bis desta homenagem a Bandeira de Aço e, quem sabe, ainda este ano, uma homenagem ao também antológico Lances de Agora, de Chico Maranhão, outro disco trinta-e-cincão de nossa música. Fecho com o que declarou o dj Joaquim Zion (esposo de Dicy) em sua conta no facebook: “uma noite pra ficar na história da Música Popular Brasileira”.

Tribo do Pixixita lembra seu legado de amizade e maestria

José Carlos Castro Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, ganha mais um tributo neste sábado (13), às 20h, no Trapiche (Ponta d’Areia). Mais que um tributo, aliás, a Tribo do Pixixita é uma grande festa que congrega amigos e admiradores do saudoso músico.

O nome parece mais apropriado, para além das feições indígenas do engenheiro civil de formação que tinha na música sua maior paixão e acabou se tornando professor da Escola de Música do Maranhão. Chegando em 2013 à sua 10ª. edição, a Tribo do Pixixita é um espaço plural que reúne música, fotografia, poesia e vídeo.

“O evento acontecerá mesmo em caso de chuva!”, exclama o material de divulgação do espetáculo, que tem confirmados os nomes de Afrôs, Ângela Gullar, Celso Borges, César Nascimento, Chico Maranhão, Chico Nô, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Rosa Reis, Sérgio Habibe e Tutuca. Tudo pode acontecer – inclusive alguns dos nomes anunciados não aparecerem; ou aparecerem nomes não anunciados.

O que não acontecerá é a festa não acontecer. A Tribo do Pixixita já é uma tradição no calendário cultural da cidade que o músico tanto amou. “O Chico Nô e a Anne Martins, uma amiga e aluna, fizeram primeiramente uma homenagem para ele n’A Vida é Uma Festa [espetáculo poético-musical comandado desde 2002 todas as quintas-feiras na Praia Grande pelo músico e poeta ZéMaria Medeiros] em 2004, e a partir daí ficamos na pilha de realizar algo um pouco mais abrangente. No ano seguinte nos juntamos ao César Roberto, radialista que também tinha essa ideia, e fizemos o tributo no Armazém da Estrela [bar na Praia Grande, hoje fechado]. Foi o maior sucesso, lotamos o Armazém numa terça-feira chuvosa, todo mundo adorou. Depois fizemos no Dom Calamar [bar no Turu, hoje também fechado]. Novamente o evento foi muito bom, reunimos além do Chico Nô, Rosa Reis e Claudio Leite, que estiveram no ano anterior, Josias Sobrinho, Sergio Habibe e Chico Maranhão. Depois não paramos mais”, conta Nelsinho Brito, professor de capoeira, herdeiro de Pixixita, hoje vice-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís.

A Tribo do Pixixita tem, ao longo dos anos, reunido um bom público em suas edições. Para além do talento das atrações que se revezam no palco ano após ano, pela energia que contagia o evento, entre produção, artistas e plateia, pelo espírito gregário do homenageado. “Pixixita sabia ouvir muito bem todo mundo, sempre saía com palavras surpreendentes e adequadas. Para muitos era o guru da galera [risos], não discriminava ninguém, na vida e na música. A rapaziada do rock era apaixonada por ele. Era calmo e inteligentíssimo, e exageradamente metódico”, lembra Nelsinho.

Fazer amigos talvez seja o maior legado de Pixixita, cuja obra enquanto compositor é pequena. Amigos e alunos se confundem e não raro os dois substantivos consubstanciam-se na mesma pessoa, não poucas vezes. Não o conheci em vida, uma lacuna; mas é recorrente entre os que tiveram a oportunidade qualificá-lo como grande figura humana, amigo, professor, mestre. Místico, “acreditava muito na astrologia, sempre fazia o seu mapa astral e o meu também [risos]. Jogava tarô e adorava seus cristais. Eu os guardo até hoje”, lembra o herdeiro da simpatia e popularidade de Pixixita.