Para Jobim, com muita beleza e alguma burocracia

Sobre show da turnê do Prêmio da Música Brasileira, ontem (18), no TAA, com Adriana Calcanhotto, Alexandra Nicolas, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan

No tom do Tom, a música brasileira em comunhão

Um show como o apresentado ontem (18) no Teatro Arthur Azevedo, da turnê da 24ª. edição do Prêmio da Música Brasileira, não tem como não ser burocrático. No seguinte aspecto: um bom punhado de cantores e cantoras, juntos, celebrando a obra de um compositor, no caso, o “maestro soberano”, como bem compôs Chico Buarque, seu parceiro.

Digo isso por conhecer razoavelmente os trabalhos dos artistas que se apresentaram em São Luís ontem, Adriana Calcanhotto, Zé Renato, Roberta Sá, Alexandra Nicolas, Zélia Duncan e João Bosco, pela ordem de entrada no palco, e saber que, Tom Jobim, o homenageado desta edição, mesmo sendo uma referência fundamental em seus trabalhos, está em suas obras, mas não de maneira direta.

A meia dúzia conhece, admira e se inspira no legado jobiniano, embora não haja (ou haja poucas), por exemplo, regravações de Tom Jobim em seus discos (a estreia de João Bosco em disco foi divida com ele, em 1972, em disco brinde dO Pasquim, mas o então estreante interpretava Agnus sei, parceria sua com Aldir Blanc). Não que isso prejudique o show, embora lhes ajudassem os teleprompteres e o repertório óbvio. Ok, é difícil falar em “lado b” em se tratando de Jobim: Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Luiza (Tom Jobim), Águas de Março, (Tom Jobim), Lígia (Tom Jobim), Insensatez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Eu sei que vou te amar (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Estrada do sol (Tom Jobim e Dolores Duran), Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque) e Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), entre outras.

É claro que cada artista ensaiou e passou som acompanhado da superbanda que tinha como maestro Jacques Morelenbaum (violoncelo e arranjos), mas, fora o elemento surpresa, tudo transcorre dentro do esperado (e não estou falando em possíveis falhas técnicas, pois estas não foram convidadas ontem). Isto é, o mestre de cerimônias, o ator Murilo Rosa, chama ao palco a primeira artista, que sobe ao palco e desfila suas quatro músicas, depois volta o ator, que chama o próximo, que canta mais quatro músicas e assim sucessivamente.

Há momentos sublimes, seja por exemplo a participação de Zé Renato, de longe a melhor, em minha modesta opinião, seja quando a banda investia no solo de algum músico, todos extremamente hábeis, dando vazão à porção jazz bossa-novista.

Convidada local, Alexandra Nicolas interpretou Wave (Tom Jobim), demonstrando maturidade: cantou, dançou e circulou com graça entre os músicos esbanjando simpatia, em pé de igualdade com os demais. Vale (sem trocadilhos) o registro, já que ela não foi acometida de qualquer possível nervosismo (ou, se foi, bem soube disfarçá-lo) por, de repente, estar diante de artistas de sua admiração, consagrados nacionalmente etc.

Ainda sobre Alexandra Nicolas, cabem destacar dois pontos: o meio vácuo em que lhe deixou Murilo Rosa, provavelmente por desconhecimento ou despreparo, já que aos demais artistas reservou um cumprimento, incluindo, por vezes, beijos nas mãos das damas, e o sambalançar na medida (Roberta Sá, por exemplo, exagerou ao tentar sacudir o vestido, embora tenha sido simpática ao cumprimentar São Luís).

Exceção feita a vídeos exibidos na abertura, também não houve grandes falações sobre a Vale, que promove o evento (com dinheiro público, captado através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura) que circulará por algumas cidades brasileiras, sobretudo em áreas afetadas por sua atividade mineradora milionária devastadora.

Momento de rara beleza e descontração foi o dueto de João Bosco e Zé Renato, quase ao fim do espetáculo, em Tereza da Praia (Tom Jobim e Billy Blanco), uma das canções mais graciosas da história da música brasileira. O show terminou com todos juntos, incluindo o neste momento dispensável Murilo Rosa, cantando Se todos fossem iguais a você (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Certamente não se referiam à porção nada pequena do público que não assistiu o espetáculo, preferindo passá-lo inteiro filmando ou fotografando com seus ipads, tablets, iphones, smartphones e que tais.

Alexandra Nicolas cantará em homenagem a Tom Jobim em São Luís

Festejos, seu disco de estreia, foi pré-selecionado para a 24ª. edição do certame. Em São Luís o autor de Corcovado será interpretado ainda por Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan

“Vou te contar”, semana que vem, mais precisamente terça-feira (18), é o show do Prêmio da Música Brasileira, o mesmo criado em 1987 com o nome de Prêmio Sharp, hoje patrocinado pela mineradora Vale, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

“E cada verso meu será pra te dizer” que o Teatro Arthur Azevedo terá como atrações, sob regência do maestro Jacques Morelenbaum, os seguintes artistas, que farão releituras de obras do “maestro soberano”: Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan. A convidada local do evento que terá o ator Murilo Rosa como mestre de cerimônias é a cantora Alexandra Nicolas.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”: para ela, “as músicas do Tom tem tom e cheiro carioca. É puro amor e por tabela uma reverência à cidade mais linda do mundo”.

“Te ligo afobada e deixo confissões no gravador”. Para Alexandra Nicolas a pré-seleção de Festejos, seu disco de estreia, ao Prêmio da Música Brasileira, foi uma grande surpresa – o disco não ficou entre os finalistas, mas a indicação, entre tantos álbuns ouvidos pelo júri, teve sabor de vitória. “Foi uma surpresa muito grande. Nem acreditei quando recebi o e-mail de minha diretora Luciana Rabello com a notícia com o link da seleção, “olha Festejos aí!”. O coração foi na boca!”, revela.

“Vem ouvir esse segredo escondido num choro canção”: a música que vai cantar, escolhida pela produção do espetáculo, não revela. Indagada se o convite para o show em São Luís teve a ver com a pré-seleção de seu trabalho, ela diz acreditar que sim. “Uma feliz coincidência o disco de uma maranhense selecionado e a turnê passando por aqui. Acho que foi meu prêmio pela pré-seleção”.

“Tristeza não tem fim, felicidade sim”, é o que muita gente vai pensar quando acabar o espetáculo, que tem tudo para ser inesquecível. O show acontece às 21h, exclusivamente para convidados.

Estadão na Folha: ainda o encontro de Bob Dylan e Jotabê Medeiros

Bob Dylan será um dos destaques da 46ª. edição do Festival de Jazz de Montreaux, um dos mais conhecidos e longevos do mundo, já tendo rendido ótimos discos ao vivo com shows de artistas brasileiros por lá, entre outros A Cor do Som, Elis Regina e Gilberto Gil, que este ano volta aos palcos suíços.

A Folha de S. Paulo anunciou a antecipação da lista oficial de atrações pelos organizadores do festival, que trará ainda os brasileiros Adriana Calcanhotto, Cidade Negra, Jorge Benjor, Luiz Melodia e Sérgio Mendes.

Notem como o jornal se refere a Mr. Zimmerman, abre aspas, “visto no último domingo pelas ruas de copacabana”, fecha aspas. Quando poderia ter dito “atualmente em turnê pelo Brasil”, a Folha faz uma desnecessária alusão ao encontro do repórter Jotabê Medeiros e da fotógrafa Nana Tucci, do concorrente O Estado de S. Paulo, com o ídolo.

“O micróbio do samba” e a pulga tirada de detrás da orelha do blogueiro

[Este texto (resenha? Crítica?) é dedicado a Alberto Jr., André Sales e Reuben da Cunha Rocha, que me instigaram a ouvir mais e melhor o disco novo de Adriana Calcanhotto, em provocações via tuiter, blogue e messenger. E a Silvério Pessoa, que em 2002 lançou O micróbio do frevo, por sua vez dedicado ao genial Jackson do Pandeiro, cuja obra foi ali regravada.]

O micróbio do samba [Minha Música/Sony Music, 2011, R$ 24,90 em média], novo trabalho de Adriana Calcanhotto, como o título entrega completamente dedicado ao gênero de Noel Rosa e Cartola, para citar apenas dois de uma constelação de craques, é um dos mais instigantes discos recentemente lançados nesse Brasilzão de meu Deus.

Não é um disco fácil, daqueles pelos quais você se apaixona à primeira audição. A primeira sensação, surgida antes mesmo de ouvi-lo, é de ansiedade: a gaúcha demora a lançar discos, quiçá maturando-os, e qualquer anúncio de disco da autora de Esquadros causa rebuliço, seja voltado ao público infantil, seja inteiramente dedicado ao samba.

Você ouve falar ou lê um texto sobre e fica naquela, enorme vontade de ouvir logo o tal disco, no rádio, baixando na internet, pegando emprestado ou comprando – este escriba baixou, teve sua relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem, depois comprou o original. Como um remédio controlado – embora O micróbio do samba não careça de receita –, várias doses diárias.

Adriana Calcanhotto é artista completa: compõe bem, canta idem, toca violão ibidem. Admirador de seu trabalho desde Enguiço, a estreia de 1990 – quando o blogueiro era então apenas um menino –, disco que trazia uma regravação de Disseram que voltei americanizada (Luiz Peixoto e Vicente Paiva) e Naquela estação (parceria inusitada de Caetano Veloso, Ronaldo Bastos e João Donato), e lhe garantiu comparações à Elis Regina, e apreciador de samba desde sempre, a receita só podia ser infalível.

Se “se faz samba com pandeiro/ com cavaco e cuíca/ com retinta, tamborim e violão/ entra o surdo, reco-reco/ o afoxé e o apito/ os sambistas, as cabrochas e animação”, como receitava o sábio e saudoso Mestre Antonio Vieira (1920-2009) em Ingredientes do samba, Calcanhotto bota pra quebrar – literalmente – e causa-me a primeira estranheza: um disco de samba quase sem instrumentos/ingredientes de samba.

Aparecem aqui e acolá um cavaquinho (Davi Moraes em Tão chic, a faixa “mais samba” do disco – não por acaso uma de minhas prediletas), um violão (a própria Adriana ao longo do disco, novamente Davi Moraes em Deixa, gueixa), uma cuíca (a própria Adriana em Vai saber?), um prato e faca (Moreno Veloso em Você disse não lembrar); mas predominam o contrabaixo de Alberto Continentino e bateria e percussão de Domenico Lancellotti – Calcanhotto ainda empunha, além de voz, violão, e da já citada cuíca, piano, guitarra, caixa de fósforos e bandeja de chá. Outros convidados são Rodrigo Amarante (guitarra em Já reparô?) e Nando Duarte (violão em Deixa, gueixa).

Dedicada a Marisa Monte, Beijo sem, já havia sido gravada por Teresa Cristina em Melhor assim (2010); a que recebe a homenagem, em Universo ao meu redor (2006), havia gravado Vai saber?, em O micróbio do samba dedicada a Mart’nália. Ouvi-las com pressa nos induz a crer que as gravações das intérpretes de Calcanhotto são melhores; (re-)ouvi-las com atenção nos faz percebê-las apenas diferentes. Se as gravações da autora soam mais “secas”, aplaudamos o “charme da compositora” – talvez aquilo que nos faz adorar gravações de músicas de, por exemplo, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues em suas próprias vozes.

Adriana Calcanhotto assina todas as faixas do disco, Vem ver em parceria com o lendário Dadi (baixista d’A Cor do Som). Outro grande trunfo deste belo disco é tirar as mulheres dos papeis subservientes a que desde sempre estiveram relegadas no universo em geral machista do samba, Ai, que saudade da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves) e Amor de malandro (Francisco Alves e Ismael Silva) talvez os exemplos mais emblemáticos. As letras de O micróbio do samba dão voz e vez às mulheres, talvez até demais. Alguns marmanjos certamente não gostariam de ouvir versos como “te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ o meu coração é verde e rosa/ (…)/ tá na minha hora” (Tá na minha hora) nas bocas das suas meninas.