Cinema e literatura: dose dupla no Chico Discos

Dose dupla no Chico Discos amanhã (12) à noite: Bruno Azevêdo lança A intrusa e Flávio Reis a edição revisada de Cenas Marginais, sua estreia de 2005.

A bomba da Pitomba nunca fez tanto sentido.

flávio no chicomenor

Feira do Livro de São Luís cresce em sua sétima edição

[NO Imparcial de hoje; aqui com umas poucas modificações e acréscimos]

Evento acontecerá na Praia Grande e pela primeira vez terá convidados internacionais

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

A maior Feira do Livro que São Luís já teve. É o que promete a curadoria do evento, coordenada pelo poeta e jornalista Celso Borges. “Trata-se de uma feira de retomada. Foi visível o abandono do evento em suas últimas edições. É também a primeira Feira com convidados internacionais”, adianta.

Auxiliam-no nos trabalhos de curadoria o escritor Alberico Carneiro, o poeta Josoaldo Rego e o jornalista Zema Ribeiro. “São três figuras ligadas ao universo literário: Alberico é editor de um importante suplemento literário, o Guesa Errante, e também um autor de ficção; Josoaldo é um poeta respeitado nacionalmente; e Zema tem praticado a crítica literária num cenário infelizmente hostil”, justifica.

A 7ª. Feira do Livro de São Luís (Felis) acontecerá entre os dias 27 de setembro e 6 de outubro, em diversos espaços da Praia Grande, no Centro Histórico da Capital: Morada dos Artistas, Univima, Teatro João do Vale, Praça Nauro Machado, Beco Catarina Mina, Praça Valdelino Cécio, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (incluindo o Cine Praia Grande, o Teatro Alcione Nazaré e a Galeria Valdelino Cécio), entre outros.

O tema da 7ª Feira é “Livro e leitura: do impresso ao virtual sem perder a poesia”, que, segundo Celso Borges, busca “tratar de questões como a convivência do objeto livro, o livro de papel que alguns temos tanto prazer em tocar e ler, com os formatos digitais”. Mas as diversas palestras, mesas redondas, oficinas e lançamentos de livros abordarão diversos outros temas.

O poeta em frente à sua efígie na praça que leva seu nome

Patrono – O poeta Nauro Machado é o patrono desta edição, que homenageia ainda o poeta Catullo da Paixão Cearense, por seus 150 anos de nascimento, o escritor Aluísio Azevedo, por seus 100 anos de falecimento, o poeta Salgado Maranhão, maranhense há muito radicado no Rio de Janeiro, e a folclorista Zelinda Lima, que como todos terá um espaço batizado com seu nome, onde será exposta a relação da literatura com a gastronomia.

A cerimônia de abertura será realizada no Centro de Criatividade Odylo Costa filho, a partir das 18h30min de 27 de setembro, com a presença de autoridades. Em seguida, o poeta Ivan Junqueira ministra a palestra “A obra de Nauro Machado no contexto da poesia brasileira”, que será mediada pelo também escritor Ricardo Leão.

Benjamin Moser proferirá a palestra “Que mistérios têm Clarice?”

Entre os nomes confirmados para a 7ª FELIS estão o do americano Benjamin Moser (autor de Clarice, biografia da escritora Clarice Lispector), os jornalistas Xico Sá (Big Jato) e Ronaldo Bressane (V.I.S.H.N.U.), os escritores Mário Prata (Os Anjos de Badaró) e Bruno Azevêdo (A intrusa), o biógrafo Fernando Morais (Os últimos soldados da Guerra Fria), o quadrinista Allan Sieber (É tudo mais ou menos verdade), a professora Lucia Santaella (PUC-SP) e a ensaísta Walnice Nogueira Galvão, estudiosa das obras de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Também virão a São Luís o poeta Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, Bráulio Tavares, letrista, especialista em ficção científica, e a poeta Alice Ruiz, duas vezes ganhadora do prêmio Jabuti de Poesia.

“Será uma grande feira, qualitativa e quantitativamente. A Feira manterá o espaço para o comércio de livros, que sabemos que é importantíssimo, mas deixará de ser somente isto, como foi nos últimos anos. Muita gente interessante falando sobre temas tão diversos, muitos deles pela primeira vez em São Luís”, comemora o curador.

Poesia – A poesia tem especial destaque na programação. O Beco Catarina Mina será tomado por recitais de poesia e música. Deles participarão nomes como Ademir Assunção (A voz do ventríloquo), Marcelo Montenegro (Garagem Lírica), Rodrigo Garcia Lopes (Canções do Estúdio Realidade, cd), Fernando Abreu (aliado involuntário), Oliveira de Panelas, Bráulio Tavares, Artur Gomes, Alan Mendonça, Ricardo Corona (Curare), Lirinha, Lúcia Santos, Reuben da Cunha Rocha, Lilia Diniz e Adeilton Lima, entre outros.

“São Luís tem uma tradição poética bastante forte, portanto é natural que vários dos homenageados desta feira sejam poetas. Os convidados contribuirão com discussões em mesas redondas e palestras e aproveitando a passagem pela ilha também apresentarão seus espetáculos, como têm feito em seus locais de origem e Brasil afora”, anuncia Celso Borges, referindo-se a espetáculos de poesia que ocorrem em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Outras linguagens – Engana-se quem pensa que a 7ª. Felis estará restrita ao tripé livro, leitura e literatura. “Já estaria de bom tamanho, mas vamos além”, provoca Celso Borges. A programação contará com shows musicais, esquetes, oficinas de dança, percussão e grafite. Entre os destaques estão o espetáculo Os operários da agonia, de Tácito Borralho, sobre a obra de Nauro Machado, e o show Bandeira de Aço 35 Anos, que homenageia um dos discos mais importantes da música brasileira feita no Maranhão. “Afora a programação que os próprios escritores com certeza irão armar, um circuito alternativo, paralelo, off-feira, durante suas estadas por aqui. Serão 10 dias bastante intensos, para ficar na história. Ao menos até a próxima feira”, finaliza.

O evento é uma realização da Prefeitura de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Cultura (Func), correalização do Serviço Social do Comércio (Sesc/MA) e da Secretaria Municipal de Educação (Semed). E, tem apoio das Universidades Federal e Estadual do Maranhão, Associação dos Livreiros do Maranhão (Alem), Governo do Estado Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma) e da Secretarias Estadual de Educação (Seduc) , e o patrocínio da Vale.

7ª. FELIS EM NÚMEROS: Mais de 100 autores convidados > 38 estandes > 36 palestras > 27 cafés literários> 25 saraus poéticos > 12 espaços culturais > 10 shows de música > 2 convidados internacionais

Dica: três quadrinhos charmosos

Compartilho com os poucos mas fiéis leitores três publicações que me chegaram recentemente às mãos. São quadrinhos charmosos, independentes, de bolso e a preços justos. Infelizmente não são encontrados em qualquer banca de revista – embora mereçam ser mais populares –, mas podem ser adquiridos pela internet, direto com os autores.

Onde meu gato senta, de Pedro Leite: ele tira onda de si mesmo, como todo bom humorista deveria saber fazer. Zoa dizendo que é considerado um dos maiores desenhistas do Brasil, pelo fato de ter mais de dois metros de altura. Mas ele é realmente bom. O livro [2012, 57 p.] é sobre a mania que gatos, donos de tudo, inclusive de seus donos, têm de encontrar o lugar mais inapropriado e se instalar. Em cima do jornal que leio sobre a mesa, dentro da mala que arrumo, sobre o teclado do computador justo quando estou digitando e tantas outras situações por que quem tem gato – ou gata, Pagu, no meu caso, veja-a curtindo meu exemplar – certamente já passou.

Quadrinhos ácidos, zine de Pedro Leite e Leandro Difini: uma série de tirinhas que faz piada com nosso cotidiano besta. Diz umas verdades e pisa nuns calos. É melhor não presentear aquele amigo que gosta de Big Brother com ele, por exemplo. Os quadrinhos fazem jus ao nome.

Tension de la passion, vol. 1 [Beleléu, 2013, 36 p.]: este livreto cor de rosa é obra coletiva. Diversos artistas do traço interpretam o seguinte mote erótico: “A noite me envolvia quando François apareceu, misterioso e sedutor/ nossos corpos trêmulos se tocaram/ no estupor do momento, perdi a razão/ nunca mais o vi, jamais o esqueci”. Comparecem às páginas Daniel Carvalho, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda (ilustrador de A intrusa, de Bruno Azevêdo), Eduardo Belga, Elcerdo, Koostella, LTG, Mateus Acioli, Pablo Carranza, Rafael Campos Rocha, Rafael Sica e Stêvz (autor do texto mote).

A intrusa: eis a questão

a intrusa flyer09

Neste sábado (20), às 18h, o escritor Bruno Azevêdo lança A intrusa [Pitomba/ Beleléu, 2013]. A noite de autógrafos acontecerá na livraria Leitura, no Shopping da Ilha. O livro, originalmente publicado em capítulos no jornal Vias de Fato, recria as tramas eróticas de romances de banca, encontrados por quilo em sebos, como Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina. Escrevi sobre aqui.

Promoção: deixe sua resposta para a pergunta que ilustra este post aí embaixo, na caixa de comentários. A que o blogue achar melhor leva um exemplar dA intrusa. Só valem respostas deixadas na caixa de comentários deste post até sexta-feira (serão desconsideradas respostas, ainda que criativas, engraçadas etc., deixadas nos comments de outros posts, facebook etc.). Sábado de manhã o resultado, por aqui mesmo.

“A química do amor não cabe na tabela periódica”

A intrusa, de Bruno Azevêdo, presta homenagem crítica aos romances femininos de banca. Livro foi publicado em capítulos no Vias de Fato

POR ZEMA RIBEIRO

O Vias de Fato nunca temeu dar a cara pra bater. Assim foi, quando, finzinho de 2011, começo de 2012, resolveu ceder uma página sua à publicação de A intrusa [2013, 160 p., R$ 20,00], folhetim de Bruno Azevêdo que agora virou livro através de sua editora Pitomba (em coedição com a carioca Beleléu), que inventou para se publicar. “Só me tornei editor por que não arrumei um!”, já disse o autor em texto na imprensa local (Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, Jornal Pequeno, 30 de junho de 2012).

A capa, em tons de rosa, com duas mulheres nuas na cama e um quinto braço a apalpar o corpo de uma delas, por sobre o título em tipologia inspirada em clássicos femininos de banca a exemplo de Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina, anuncia: “Uma envolvente história de amor, da qual nenhuma leitora sairá sem um suspiro, um momento qualquer de elevação ou um fugaz sentimento de pertencimento”. Ou como o autor – e faz-tudo na Pitomba – resume: “paixão e sedução para a mulher moderna”.

Se o jornal local – como apregoou outro jornal local, para não citar o nome do Vias de Fato em matéria sobre o livro – sofreu com as pedradas vindas de todas as direções – menos de um clube de reggae, assunto sobre o qual a Edufma publicou Onde o reggae é a lei, da jornalista Karla Freire, esposa de Azevêdo, com preparação editorial da Pitomba – o jornal não se acovardou e seguiu adiante, para ver onde aquilo ia dar, com o perdão do trocadilho. De um lado seus editores não tinham conhecimento do que aconteceria no próximo capítulo; de outro, o autor não sofreu qualquer influência com as opiniões que o jornal recebia de leitores e leitoras, fossem prós ou contra o folhetim.

Uma das ilustrações de A intrusa

Na contracapa, Xico Sá (autor de Modos de Macho e Modinhas de Fêmea e do Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias, entre outros) reafirma o que já havia dito desde O Monstro Souza (2010), livro anterior de Azevêdo, sem contar a HQ Isabel Comics (2012), feita a quatro mãos com a esposa, retratando a vida de sua filha, dois aninhos recém-completados (o volume com as histórias do segundo ano deve ser lançado em breve, entre mil “projetos” – palavrinha surrada, mas vá lá – que ele desenvolve tudo ao mesmo tempo agora): “O monstro Bruno Azevêdo, este papaléguas, alcança, com este volume que ora lateja nas mãos da mulher moderna, a condição de nosso melhor escritor pícaro-mexicano. Que outro escriba seria capaz de erotizar o tilintar dos duralex? A pia de louça por testemunha de um tórrido amor engordurado”.

É isso mesmo e mais um pouco. Não julguem, ó apressados, ó apressadas, o autor de A intrusa por suas primeiras páginas, como o fizeram alguns leitores, algumas leitoras do jornal. Não é (só) sacanagem. O que faz A intrusa diferente dos títulos jogados às centenas mês após mês nas bancas de revista, dia após dia nos sebos?

“Pornografia é foder, foder, foder! Você abre uma porta, você fode; abre outra porta, fode. Você trepa com todo mundo! Isto é pornografia! Se houver amor, é erotismo”, como afirma Just Jaeckin, diretor de Emmanuelle, em uma das 12 epígrafes do livro, que manteve o texto original publicado no jornal – com uma revisão mais caprichada.

Bruno Azevêdo reprocessa o romance feminino de banca, apropria-se de sua gramática e o resultado é uma literatura que tanto agradará às costumeiras leitoras dos romances de banca típicos – cujos principais expoentes já foram apontados neste texto – quanto leitores e leitoras da chamada “alta” literatura, ou da literatura dita “séria” ou como se queira chamar qualquer literatura que não seja produzida em série – e em série podemos incluir os faroestes dos antigos bolsilivros (ainda circulam? Ou só em sebos?) como possível vertente masculina dos romances de banca (o que quase Bruno Azevêdo fez em Breganejo Blues – Novela Trezoitão, Pitomba, 2009). “Se o futebol é a telenovela do homem brasileiro, a telenovela é o futebol da mulher brasileira”, já rezava o saudoso Décio Pignatari.

Bruno Azevêdo escreveu um livro divertido, já lançado na Festipoa Literária, em maio, em Porto Alegre/RS, e este mês em São Luís, tendo por palco o salão de beleza e casa de depilação Dot Beauty. A obra, no entanto, não se encerra na diversão ou no erotismo puro e simples. Narrada em primeira pessoa por uma personagem sem nome, que se ocupa apenas de agradar a seu amado Wanderley. Ou simplesmente W, para as íntimas. Tanto agrada que aceita a intrusa, a personagem central, respondendo à pergunta feita nos primórdios do livro, “estará mentindo a mulher que disser nunca ter se perguntado: e se houvesse outra?”.

O século passado foi o auge da produção e venda em bancas do romance que ora Bruno Azevêdo reescreve, relendo, como ele mesmo indica em Seios túrgidos e membros intumescidos: sexo e literatura pornográfica para mulheres, longo artigo acadêmico que ele mesmo escreveu, provavelmente para tirar onda com a academia – e apresentou, já em 2013, em um Encontro de Estudantes de Letras, na UFMA. Assinado por Jessica Sweethorny, traduzido por Bruno Azevêdo. Ela é ele.

Vimos ou soubemos das conquistas que as mulheres tiveram num período da história recente – o autor de A intrusa é licenciado em História e mestre em Ciências Sociais pela UFMA. Se hoje em dia as mulheres já não precisam receber aulas de “prendas domésticas” ou se contentar com o piano para que se lhe aflore a feminilidade, enquanto espera “um homem pra chamar de seu”; se hoje em dia a maternidade é uma opção entre outras; se podem ter vários parceiros sem que na rua lhes apontem “a puta” ou coisa que o valha, por outro lado (vi)vemos a onda neoconservadora que assola o país, a reboque das cartilhas do politicamente correto imediatamente sacadas de qualquer carteira ou bolsa tiracolo ao primeiro sinal de qualquer ousadia que ameace a ordem vigente.

Antecipando-se a isso e à presença do deputado homofóbico e racista Marco Feliciano (PSC/SC) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, Bruno Azevêdo apresenta aos leitores e leitoras um romance homossexual, com direito a discreta citação de There is a light that never goes out, dos Smiths na voz de Morrissey, seu vocalista gay. Mas isso de romance gay é diminuí-lo: A intrusa é uma história de amor. E da liberdade que o amor exige.

[Vias de Fato, junho/2013]

A intrusa: adquira já a sua!

O escritor Bruno Azevêdo reuniu os 12 capítulos de A Intrusa, folhetim que publicou ao longo do ano passado no jornal Vias de Fato, e publica agora um livro com sua história de amor, voltada sobretudo ao público feminino, nos moldes de hits de bancas de outrora, vide Julia, Sabrina e Barbara Cartland, entre outros que eu sempre vi tia Sara comprando e lendo.

Com ilustrações de Eduardo Arruda, capa de Frédéric Boilet, e prefácio de Xico Sá, a obra, que será lançada em maio, já pode ser adquirida no site da Beleléu, que lança a obra junto da Pitomba.

Em tempo: 18 de maio (sábado), às 14h30min, Bruno Azevêdo divide uma mesa com Ronaldo Bressane e Pedro Franz, sob mediação de Augusto Paim, sobre Narrativas gráficas sequenciais na Festipoa Literária.