De Nostrife para o mundo, via São Luís: a viagem sonora de Babi Jaques e Os Sicilianos

Não é fácil classificar a música de Babi Jaques e Os Sicilianos – assumisse o grupo uma sigla ela seria quase “beijos”. Talvez seja mesmo tarefa impossível e dizer simplesmente liquidificador sonoro certamente soaria clichê. É pop, é rock, é blues, é frevo, é música popular brasileira, mas é muito mais que isso. Ecos de tropicalismo e manguebeat – justificado pela conterraneidade com Chico Science, a quem, aliás, sampleiam na vinheta de abertura de Coisa Nostra, seu disco de estreia –, mas também da vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Ao menos aos ouvidos deste modesto crítico, impossível não lembrar, de cara, das experiências do pianista em Clara Crocodilo.

Talvez pelo fato de a banda ser formada por personagens. O que justifica a multiplicidade, Barbara Jaques, a vocalista, assumindo diversas formas durante uma performance. O disco enquanto suporte – um cd com encarte ou as faixas soltas nas esquinas virtuais para download – não é suficiente para cabê-los. Qualquer busca no google levará o leitor/ouvinte a biografias inventadas – o que pode reacender propositadamente ou não a fogueira em torno da polêmica um tanto vazia e insossa sobre o assunto.

Em Coisa Nostra, disco e show com que chegam à São Luís, por exemplo, travestem-se de mafiosos oriundos da cidade imaginária de Nostrife, evidente soma de máfia e Recife, sua (verdadeira)  terra natal. Babi Jaques pode ser numa faixa cantora de cabaré, noutra dublê de desenho animado, versátil cantora é o que é, afinal de contas. Sua música está próxima da poesia, melodias e harmonias são trilha sonora para a palavra, onde cabem ainda teatro, cinema, circo e, por que não?, música.

Coisa Nostra chega após a participação da banda em coletâneas e na trilha sonora de filmes. Produziram e lançaram ainda o documentário Sabe lá o que é isso, investigando as transformações do frevo, o título um verso do Hino de Batutas de São José, cuja releitura moderna o disco traz de brinde. É a estreia de um grupo que parece ter nascido pronto. São apenas quatro anos de carreira, mas o que se ouve e vê é pura maturidade musical. Alexandre Barros (bateria), Babi Jaques (voz), Thiago Lasserre (baixo) e Well (guitarra) garantem diversão nostrifense aos estrangeiros que se aventuram por seu disco e shows.

Hoje eles aportam em outra cidade imaginária, de tantas alcunhas um tanto já sem sentido: Athenas brasileira, Ilha do amor. Certamente não conhecem a lenda da serpente e é capaz dela despertar para dançar e se divertir – e fumar!: o afundar de São Luís fica pra outra ocasião, hoje no máximo o chão vai tremer ali na Praça Nauro Machado e arredores, onde às 23h Babi Jaques e Os Sicilianos armam sua (fan)farra musical, de graça, dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A festa está garantida, como na letra de Evocação sem número: “E não importa se acabou fevereiro/ meu carnaval dura o ano inteiro”.

O quarteto se apresenta ainda em Itapecuru-Mirim (3/11) e Caxias (8/11), antes de continuar as aventuras por Piauí, Ceará, São Paulo, Uruguai e Argentina.

Um reencontro histórico e imperdível

Confesso: enquanto a banda durou, não acompanhei o trabalho.

Sua provavelmente mais recente “aparição” se deu justo quando os conheci: em uma faixa de Música, livro-disco de Celso Borges, um entusiasta desse ato de fênix. O poeta havia tentado remontar (remendar?) a banda para um show na 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o que acabou não acontecendo.

Se a sétima não conseguiu, a oitava consegue. E os fãs, novos e/ou órfãos, nem precisarão esperar a feira do ano que vem. O reencontro acontece é na aldeia deste 2013 mesmo: a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes orgulhosamente apresenta T. A. Calibre 1!

Groove Balaio, o show, será apresentado hoje, às 22h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça.

Balaio, o disco, saquem só a importância!, figurou na lista dos 12 discos mais lembrados da música produzida no Maranhão nos últimos 40 anos, em que diversos jornalistas, radialistas, DJs, produtores, críticos etc. votaram para o jornal Vias de Fato.

Contrastes da Ilha sem lentes e sem filtro

Contraste: a cidade velha…

São Luís é uma cidade de contrastes. O singular é justamente o título da exposição das irmãs Dinalva e Denise dos Anjos, estudantes de Educação Artística (UFMA), que fotografaram as cidades nova e velha fazendo uso do pinhole, técnica artesanal de fotografia.

Contraste, a exposição, é composta de 15 fotos, oito retratando a cidade velha – o centro histórico – e sete a cidade nova – a Av. dos Holandeses, na altura da Ponta d’Areia. Há várias técnicas para captar imagens através do pinhole – também conhecido como fotografia estenopéica. As irmãs usaram caixas de fósforo e filme fotográfico.

Sob qualquer aspecto São Luís é a capital dos contrastes. As irmãs dos Anjos concentraram-se na arquitetura. “De um lado a arquitetura colonial, de outro os prédios luxuosos e a arquitetura moderna. Buscamos com isso ir além da apreciação visual, proporcionando ao espectador uma reflexão crítica sobre a cidade e nossa história”, afirma Dinalva.

A exposição integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes e fica em cartaz de amanhã (29) a domingo (3/11), das 9h às 17h, com entrada gratuita, no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, 221, Praia Grande).

… e a cidade nova

Arte tem cemitério como cenário

Wilka Sales no túmulo mais antigo do Cemitério do Gavião. “Tem mais nem data, o tempo apagou”

A exposição Ex-Vivos – Série 2 também integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. O título traduz a relação entre o expressionismo alemão e os ex-votos – diversos objetos doados a divindades como forma de agradecimento por um pedido.

O número do título dá a ideia de que uma primeira série já foi exposta: está inscrita no IV Salão de Artes de São Luís, ainda não realizado este ano. “Como eu já tinha apresentado o projeto lá, coloquei esse do Sesc como sendo o segundo mesmo”, conta Wilka Sales ao blogue, justificando a inversão da ordem.

São oito fotografias, realizadas por Bigorna Trompete e Nara Oliveira, que eternizam a performance de Wilka, que utiliza o corpo como canal d/e comunicação e assina ainda direção, produção e concepção fotográfica. A locação escolhida foi o Cemitério do Gavião, na Madre Deus.

“Percebi a conexão entre elementos visuais e artísticos que pesquisei, daí relacionar os mortos, os ex-votos e o expressionismo alemão neste trabalho”, explica a autora de Ex-vivos. Ela transgrede e provoca: um corpo vivo feminino no cemitério soou mal aos olhos de uma senhora: “Como é que você tira fotos desse jeito em cima de nossos entes queridos, minha filha?”, perguntou-lhe, indignada com um top less da moça entre as lápides.

“É a leitura dela, eu não fiquei chateada, pelo contrário: adorei a reação”, revela. A estudante de artes plásticas da UFMA, envolvida em interessantes produções culturais por São Luís, está ciente de que não agradará a todos. “Acredito que alguns vão se identificar com o trabalho. Outros não. Mas um ponto fundamental é, por exemplo, perceber as particularidades artísticas e históricas do Cemitério do Gavião, com a consequente valorização desse espaço urbano, em geral visitado apenas em dias de finados ou quando alguém morre”, aponta.

Ex-vivos – Série 2 fica em cartaz de amanhã (29) até domingo (3/11), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, 221, Praia Grande). O horário de visitação é das 9h às 17h.

Encontros e reencontros musicais na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes

Noite dedicada ao choro promoverá reedição de recital com João Pedro Borges e Célia Maria, além do encontro inédito, no mesmo palco, dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha

Realizado há cerca de 10 anos, o Recital de Música Brasileira protagonizou o encontro de um dos mais respeitados violonistas brasileiros em todos os tempos, João Pedro Borges, também conhecido pela alcunha de Sinhô, com uma das mais belas vozes já ouvidas na música popular brasileira, Célia Maria.

Na ocasião, o palco do Teatro Arthur Azevedo foi o escolhido para o espetáculo, em que ao par somava-se ainda um regional. A apresentação deixou saudades em quem esteve na plateia e/ou viu trechos pela internet ou pelas tevês Câmara e Senado, que reprisaram-na, colaborando para a aura mítica de que hoje goza o Recital.

Ainda que em menor escala, uma reedição do show será apresentada na Noite do Choro, domingo que vem (27), às 19h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

A Noite do Choro promete também ser um acontecimento inesquecível: além do Recital de Música Brasileira, o espaço destinado ao mais brasileiro dos gêneros musicais no evento promoverá o encontro inédito, no mesmo palco, tocando simultaneamente, dos mais tradicionais grupamentos de choro do Maranhão: o Regional Tira-Teima e o Instrumental Pixinguinha.

Certamente será também a noite dos encontros, dos reencontros. Nela o verso do poeta centenário ficará incompleto: só não haverá desencontros. Marque com seu amor, marque com seus amigos, e vá prestigiar este bom punhado de talentos do choro e da música brasileira produzidos no Maranhão. Como apregoa um radialista especializado no assunto: “pra gente de qualidade”.

Histórias – João Pedro Borges, também conhecido como Sinhô, é um dos mais importantes nomes do violão brasileiro. Foi professor de, entre outros, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Guinga e Raphael Rabello. Integrou a Camerata Carioca, liderada pelo gaúcho Radamés Gnattali, grupo definitivo para a renovação do choro no Brasil, entre o final da década de 1970 e início da de 1980. Participou de discos fundamentais do gênero, como Tributo a Jacob do Bandolim [Camerata Carioca, 1979], Valsas e Choros [Turíbio Santos, 1979], Vivaldi e Pixinguinha [Camerata Carioca, 1980], Mistura e manda [Paulo Moura, 1983] e Noites Cariocas [vários, 1989]. Sua discografia inclui ainda A obra para violão de Paulinho da Viola [1985], em que executa repertório do autor de Sinal Fechado acompanhado do próprio e César Faria.

Conhecida como “a voz de ouro do Maranhão”, Célia Maria ainda é menos conhecida do que merece, seja no Maranhão ou fora dele, dado seu inegável talento. Nascida em São Luís, Cecília Bruce dos Reis, adotou o nome artístico para poder, então adolescente, cantar escondida dos pais. Sua carreira artística iniciou-se ainda na infância em concursos de calouros promovidos por emissoras de rádio em sua cidade natal. Morou no Rio de Janeiro onde respirou a efervescência cultural do famoso restaurante Zicartola, com cujos proprietários conviveu, Dona Zica e Cartola, além de nomes como Zé Keti e Nelson Cavaquinho, entre outros da fina flor do samba brasileiro. Em seu disco de estreia, de 2001, intitulado simplesmente Célia Maria, registrou obras de nomes como Chico Maranhão [Meu Samba Choro], Cesar Teixeira [Lápis de Cor], Antonio Vieira [Ingredientes do Samba], Bibi Silva [Lágrimas], João do Vale [Na asa do vento], Edu Lobo e Chico Buarque [Beatriz] e, entre outros, Joãozinho Ribeiro, que naquele ano levou o troféu do Prêmio Universidade FM de melhor compositor, por Milhões de Uns. A produção e os arranjos de Célia Maria ficaram a cargo de Ubiratan Sousa. Seu segundo disco está finalizado, tendo sido produzido e arranjado pelo violonista Luiz Jr., e deve chegar às lojas em 2014.

O Regional Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. Suas origens remontam ao final da década de 1970, quando participaram do antológico Lances de Agora [Discos Marcus Pereira, 1978], de Chico Maranhão, gravado em quatro dias na sacristia da secular Igreja do Desterro, no bairro homônimo do centro histórico da capital maranhense. O único remanescente daquela formação é Paulo Trabulsi (cavaquinho). A atual completa-se com Francisco Solano (violão sete cordas), Zeca do Cavaco (cavaquinho), Serra de Almeida (flauta) e Zé Carlos (percussão). O Tira-Teima está em estúdio, gravando seu disco de estreia.

O Instrumental Pixinguinha foi pioneiro ao lançar, em 2005, Choros Maranhenses. O disco de estreia do grupo era o primeiro trabalho inteiramente dedicado ao choro gravado no Maranhão. E foi além: todo o repertório é de autoria de chorões locais, de membros do grupo e chorões fundamentais para a consolidação do gênero por estas plagas, a exemplo de Zé Hemetério e Nuna Gomes, entre outros. Formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), por professores da instituição, o grupo toma emprestado o apelido-nome artístico de Alfredo da Rocha Viana Filho, um dos mais importantes do choro em todos os tempos. Domingo sobem ao palco Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco (cavaquinho), Domingos Santos (violão sete cordas), Nonato Oliveira (percussão) e Paulo Oliveira (flauta).

O compositor, cujo sesquicentenário de nascimento é comemorado em 2013, será homenageado em ambos os repertórios da noite

RepertóriosRecital de Música Brasileira – Choros e Canções, o primeiro espetáculo da Noite do Choro na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, foi pensado para mostrar ao público um momento de formação e afirmação da música brasileira, sendo dividido em duas partes. Na primeira, João Pedro Borges executa sozinho, choros de autoria de Heitor Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, João Pernambuco e Garoto.

“Não são nomes escolhidos à toa, as peças destes compositores dialogam entre si: Villa-Lobos homenageou Nazareth, que homenageou João Pernambuco e Garoto acaba sendo meio que o resultado daquilo tudo que o choro se tornou”, explica Sinhô, também professor da EMEM.

Na segunda parte do espetáculo, Célia Maria, acompanhada pelo violão dele, desfila um repertório que vai de Azulão (parceria de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira) a Piano na Mangueira (de Chico Buarque e Tom Jobim), passando por, entre outras, canções como Senhorinha (parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro), O Velho Francisco (Chico Buarque) e Sinhá (parceria de Chico e João Bosco), além de um tema inédito de autoria de João Pedro Borges (Porto Errante).

O segundo show, a reunião inédita de Tira-Teima e Pixinguinha no mesmo palco, fará um passeio por clássicos do gênero. Serão 10 de nossos melhores instrumentistas executando uma espécie de “o melhor do choro”, aquelas que não podem faltar em qualquer roda – e discografia – que se preze.

“Faremos um repertório conhecido e popular, pra cima”, promete Juca do Cavaco. Raimundo Luiz antecipa alguns títulos: Vibrações (Jacob do Bandolim), Brejeiro (Ernesto Nazareth), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo), Delicado (Waldir Azevedo), Naquele Tempo (Pixinguinha) e Doce de Coco (Jacob do Bandolim). “Isso é só para terem uma ideia”, afirma, em parte agradando antecipadamente aos chorões de carteirinha, em parte deixando algum mistério no ar.

Pelos momentos mágicos que certamente proporcionará, a noite de domingo que vem já está na história.

Serviço

O quê/ quem: Noite do Choro. Dois espetáculos musicais: o primeiro, o Recital de Música Brasileira – Choros e Canções, com João Pedro Borges (violão) e Célia Maria (voz); o segundo, o encontro inédito dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha.
Quando: 27 de outubro (domingo), às 19h.
Onde: Praça Nauro Machado (Praia Grande).
Quanto: grátis.
Classificação livre. O espetáculo integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.