Concerto de orquestras de violões abriu encontro em São Luís, ontem

Foto: Zema Ribeiro

 

Um bom público compareceu na noite do feriado de ontem (1º.) ao Teatro Arthur Azevedo para prestigiar o concerto de abertura do I Encontro Interinstitucional de Violões – cujas atividades já aconteciam desde a manhã, no Convento das Mercês. O espetáculo teve entrada franca.

Além de concertos, a programação inclui oficinas, workshops, masterclasses, palestras e curso de regência, numa realização da Orquestra de Violões da Uema-Emem, em parceria com instituições como a Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), Convento das Mercês, Teatro Arthur Azevedo, Escola de Música Municipal Maestro Nonato (de São José de Ribamar) e Orquestra Maranhense de Violões, além do apoio do Grand São Luís Hotel e do Restaurante Flor de Vinagreira.

O professor Roberto Fróes, que regeu a Orquestra de Violões da Uema-Emem, a segunda a se apresentar na noite de ontem, ressaltou a importância do encontro – São Luís não realizava um do tipo há pelo menos sete anos –, da valorização do instrumento e do destaque alcançado pelo violão na identidade musical nacional.

Os concertos – impossível falar no singular – de ontem foram oportunidades de ouvir um repertório quase sempre restrito às escolas de música ou para iniciados. O interesse do público presente demonstra que a plateia gosta do que é oferecido, para se jogar lenha na fogueira daquele velho debate sobre o porquê de a mídia insistir em oferecer apenas o que em tese é mais palatável.

Regida por Domingos Nélio Soares, a Orquestra Maranhense de Violões apresentou as seguintes peças: Camiño de Felanitx, Dança andaluza (ambas de Eythor Torlakson) e Em la playa (folclórica espanhola). Fechando sua apresentação foram de Bela mocidade (Francisco Naiva e Donato Alves), clássico do Bumba-meu-boi de Axixá, quando duas violonistas do grupo trocaram seus violões por ukulele e chocalho. O público cantarolou junto, numa demonstração de que erudito e popular podem ocupar o mesmo espaço. O grupo é formado por Alessandro Freitas, Kevin Wesley, Linda Yang, Mariana Morgana, Admary dos Santos, Carlos Felipe e Luana Gomes.

Na sequência foi a vez da Orquestra de Violões da Uema-Emem, formada por Tiago Fernandes, Uriel Ewerton, Davi Farias, João Marcos Costa, Gabriel Veras e Emanoel Gomes. Roberto Fróes, que cumpriu bem o ofício de mestre de cerimônias, com a dose certa de bom humor, dança enquanto rege, talvez a celebrar o sucesso do evento – merecida comemoração.

O grupo executou Brumas (da Suíte modal), de Paulo Porto Alegre, Schafe können sicher weiden, apresentada pelo regente pela tradução, As ovelhas podem pastar em segurança, de Johann Sebastian Bach, e três movimentos (dos seis da peça) de Variações sobre um tema de Brouwer: Tema, Dança e Final. O cubano Leo Brouwer é desde sempre uma das maiores referências contemporâneas em composição para violão e as peças executadas exploram diversas possibilidades do instrumento.

Bruno Cipriano solou uma máquina de escrever num dos momentos mais inusitados do concerto – dos concertos: A máquina de escrever, de Leo Wilczek. A plateia riu, em estado de graça. O grupo encerrou sua apresentação executando um arranjo inédito de João Pedro Borges para Boi da lua, de Cesar Teixeira, ao lado de Bela mocidade um dos maiores clássicos do período junino do Maranhão. Roberto Fróes contou uma curiosidade: integrava uma camerata com Domingos Nélio entre o fim da década de 1990 e início dos anos 2000, quando receberam o presente de Sinhô, à época seu professor, mas o grupo acabou antes e o arranjo permaneceu inédito até ontem.

As duas orquestras voltaram juntas ao palco, sob regência da professora Verónica Pascucci, “uma das responsáveis pela existência do curso de música da Ufma”, como destacou Fróes. Tendo por solista Davi Farias e contando com a participação especial de Joaquim Santos (contínuo), “uma referência nacional em se tratando de violão”, como também salientou Fróes, os grupos executaram o Concerto em D (RV 93), uma das peças mais conhecidas de Antonio Vivaldi.

A programação do I Encontro Interinstitucional de Violões segue até sábado (4), no Convento das Mercês, com as presenças de Alessandro Freitas, Cristiano Braga, Domingos Santos, Endro Fadell, João Pedro Borges, Joaquim Santos, Júnior Maranhão, Marcelo Moreira, Orlando Fraga, Roberto Fróes (coordenador do encontro) e Verónica Pascucci.

Plural e desnuda

Retrato: Camila Neves

 

“Uma vez minha mãe falou que ele era primo do meu avô. Mas eu nunca chequei isso, não lembro se essa é a informação certa [risos]. Mas vou perguntar pra ela”. É com essa imprecisão acerca de seu parentesco com o escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) que começa minha conversa com Bia Sabino (27), cantora carioca que estreou no mercado fonográfico ano passado, com Ecos [independente, 2018], um dos discos mais verdadeiros da temporada – ao longo da entrevista ela me encaminharia uma mensagem de texto da mãe: “Oi, filha. De acordo com a tia Aparecida, ele era primo primeiro de pai. Temos parentes dele em Resplendor/MG”.

Sabino não é o único parente famoso da moça, mas ela não carece de parentes importantes à guisa de cartão de visitas. “Tem um moço da minha família que bem fez o Hino da Independência. Imagina se as pessoas esperassem que eu fizesse músicas parecidas com as dele”, diverte-se, referindo-se a Evaristo da Veiga (parente de seu bisavô) – Francisco Manoel da Silva, autor da melodia do Hino Nacional, fundou o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, que precedeu a Escola de Música da UFRJ, era parente de sua bisavó, ela acrescentou após consulta a sua vó. “Os dois pais da minha vó, por parte de pai; a família da minha mãe tem raízes indígenas, eu tenho certeza que tinha uma galera da batucada lá, mas esses não estão nos livros de história [risos]”.

Sobre a sinceridade a que me referi, digo que percebo um desnudar-se, uma carga autobiográfica em seu trabalho. Ela concorda: “Acredito que isso aconteça mesmo, sabia? É o que faz a arte. Eu não entendo como alguém consegue cantar ou compor “vestido” [risos]”. Ela mesmo se corrige: “até entendo. Mas não me move”.

A cantora durante o show de lançamento de Ecos. Foto: Camila Neves

Bia Sabino já compõe há algum tempo, mas só agora, após um processo de crowdfunding, conseguiu botar seu bloco na rua – a campanha de financiamento coletivo bateu todas as metas. “Eu espero que o caminho seja longo mesmo, às vezes me sinto meio atrasada, tendo escolhido me jogar nesse caminho meio tardiamente, já que a música sempre esteve presente”, me revela a geóloga de formação, que ao longo da entrevista, realizada durante cerca de dois meses através de chat de rede social e aplicativo de mensagens, revelará ser várias: está concluindo uma pós-graduação em Naturopatia. “Parece que são coisas distintas, mas tudo reverbera nas minhas músicas”, revela-se.

A conversa com Bia Sabino transcorreu entre afazeres diários do repórter e da artista, entre aulas de pós-graduação, shows, viagens, feriados, apresentações circenses – é acrobata e professora de acrobacia – e tudo o mais que sua pluralidade lhe permite.

Pergunto-lhe se encara a música como profissão ou hobby. “É definitivamente uma profissão. E agora estou tentando encontrar os caminhos para viver essa realidade. Por que eu quero espalhar uma mensagem, sabe? Eu tenho algo a dizer”, diz. “Mas ao mesmo tempo eu tenho que tocar em barzinhos etc. para conseguir viver aqui”.

“Eu faço poemas desde MUITO pequena [grifo dela]. Minha mãe guardou umas coisas muito engraçadas disso. Aí quando eu tinha uns 10 anos eu percebi que eram músicas, na verdade”, puxa o fio das origens. “Acho que isso da idade é construção social, né? A gente vê vários artistas incríveis começando tão novinhos, fazendo sucesso aos 20 [gargalha]. Sei que sou super jovem, mas ao mesmo tempo fico querendo ter tomado essa decisão antes [risos]”.

A garota prodígio torna às origens: “Eu entrei pro coral do colégio aos cinco anos, o que é até uma história engraçada, por que não podiam babies como eu. Só que eu queria MUITO cantar [grifo dela]. E aí fui falar com a coordenadora, arrastando minha mãe… ela disse que se o diretor deixasse eu podia ir. Aí fui falar com a tia Rute, falei que me comportaria, que queria muito cantar… Então o limite antes era de 10 anos de idade, eu desci para cinco. Era meio precoce”.

E continua: “Fiz 11 anos de coral, mais ou menos. No meio disso comecei a aprender violão sozinha. Depois entrei no [curso de] violão clássico da [escola de música] Villa-Lobos”. Ela não chegou a se formar no instrumento, mas estudou durante um tempo. Digo que é uma história incrível e ela retruca: “tem que ouvir minha mãe contando essa história. É muito bom [risos]”.

Indago-lhe sua opinião sobre artistas mirins. “Eu era uma criança muito engraçada, ficava pensando na vida. Quando eu era pequena eu tinha uma certa pena desses artistas crianças, eu lembro do Molecada [grupo de pagode mirim], achava que eles não aproveitavam a infância. Eu não gostava da Sandy. Acho que ela tem uma voz incrível, mas não me move muito. Mas vou falar que adorava cantar Imortal [versão de Imortality, de Barry, Robin e Maurice Gibb] e A lenda [de Nando, Kiko, Ricardo Feghali] com a Sandy [e Júnior] por que podia gritar [risos]. E detestava Xuxa, achava muito infantil”.

“Eu tinha muitas composições, várias coisas que estavam meio engasgadas e eu queria colocar pro mundo justamente por considerar que demorei pra fazer isso. Sempre toquei minhas músicas para amigos, família, mas gravar seria outro nível de espalhar as mensagens que eu queria. Fui conversando com pessoas à minha volta, fiz algumas enquetes no instagram, botava alguns trechinhos, isso para a primeira parte do disco, as seis primeiras músicas; a segunda parte, as sete músicas a partir de Quem olha de fora, eu fiz todas num retiro, cada dia compus uma música e isso foi uma das forças-motrizes para eu lançar o disco, esse caminho que eu fiz por essas músicas, esse retiro de autoconhecimento, foi superimportante, e decidi que elas deveriam estar todas no disco”, revela sobre o repertório do álbum de estreia.

“Eu estava aprendendo a fazer leitura de aura, é uma técnica que se desenvolveu fora do Brasil, mas quem trouxe é uma moça que é uma das líderes lá de Piracanga [comunidade em Maraú/BA]. Eu fui por que estava muito perdida no sentido profissional, estava trabalhando direto na empresa, não tava fazendo o disco, não tava cantando tanto quanto eu gostaria, e sabia que esse não era meu propósito, que eu não tinha nascido para ficar atrás do computador [risos]. Eu sabia disso, mas me faltava uma força de dar esse passo, tomar essa decisão. Fui para esse retiro para entender esse processo, as autossabotagens que eu tava fazendo na minha vida. E tinha zero viés de fazer isso, de compor, eu tinha vindo de um período de seca musical bizarro. Eu compus Jabuticaba e depois que eu fiz Jabuticaba começou o processo de fazer a música tomar uma proporção bem maior do que tava tendo. Era um retiro sobre chacras, centros energéticos que representam setores da nossa vida, digamos. Cada dia do retiro você trabalhava um chacra. No primeiro dia já foi: “nossa, quero compor uma música sobre o que estou sentindo”. No segundo dia a mesma coisa e cada dia eu fui fazendo uma música. Foi incrível. No final eu apresentei, à capela, não tinha violão, eu estava fazendo as coisas e gravando minha voz no celular. Foi sensacional, eu senti que precisava gravar isso, estar lá com as pessoas me deu muita, muita força para fazer isso acontecer”, prossegue sobre o retiro.

Com sua trupe de circo Bia Sabino integra uma banda, em que ela desenvolve uma pesquisa a partir de se apresentar no ar cantando. “Cantando mesmo, não é playback”, faz questão de frisar. A banda se apresenta mensalmente, com o espetáculo Parangolé.

Sobre influências ela diz que acha que foram um “pouco doidas”. “Quando eu era pequena meus pais ouviam muito Michael Jackson, eu podia ficar o dia inteiro assistindo os vídeos e ele cantando, e eu adorava as coisas que meus pais ouviam, que era Bee Gees, Genesis, Queen, ouvia muita coisa assim. No Brasil eles gostavam mais dos rockzinhos, ouviam Legião Urbana, minha mãe adorava Ney Matogrosso, Roberto Carlos, apesar de que eu não peguei muito a referência do Roberto Carlos. Depois eu comecei, no colégio, por conta do coral, aula de música, comecei a conhecer por mim, eu tive várias fases. Comecei a gostar muito de punk rock, ia a saraus de bandas locais aqui no Rio e a galera fazia um som bem parecido com, sei lá, CPM22, depois comecei a conhecer o lado clássico da música de compositores mais antigos. Nisso eu já gostava muito de bossa e samba, apesar de que eu não me desenvolvi no violão nesses ritmos, mas peguei uma cadência. Aí comecei a ouvir muito Ed Motta, Tim Maia, essa parte meio soul, eu gosto muito de soul, MPB, Marisa Monte, e claro umas divas internacionais que eu sempre escutei, Aretha Franklin, Nina Simone, Joss Stone, mais velha agora já, Amy Winehouse, tem uma banda também que eu adoro, Morcheeba, o nome da moça que canta é Skye Edwards, adoro o jeito que ela canta. Foram muitos ritmos diferentes da MPB, reggae, rock, soul, blues, adoro blues e jazz. Elis, como que eu esqueci de falar da Elis Regina? Amo a Elis Regina desde bem mais nova, Novos Baianos. Cara, foi uma mistura bem doida, não sei se te respondi ou se deixei mais confuso [risos]”, desfia o rosário.

Comento que é um caldeirão vasto, muito interessante e despido de preconceitos, e ela manda uma mensagem de texto completando: “e eu fui econômica: Tom Jobim, Vinicius [de Moraes], Bob Marley, amo muito Bob Marley, Soja, Lauryn Hill, Cazuza. Música boa não tem endereço, né?”.

Ecos. Capa. Reprodução

“Acho que estou em um momento tentando amadurecer isso, todos esses amores da música, transmutar isso em uma unidade, que, em essência, acaba tendo muitas facetas. O que ainda é um retrato de mim, talvez, geóloga, circense, cantora e terapeuta”, arrisca-se, quando proponho-lhe o exercício de relacionar as referências ao resultado de Ecos. “Ou só Bia [risos]”.

“Acho que eu fiquei revoltada quando disseram que eu tinha que escolher uma carreira só pra ter sucesso. Mas também, o que é sucesso?”, provoca-se/nos.

Pergunto-lhe sobre referências em outros campos para além da música: literatura, cinema. “Não esperava por essa pergunta, sabia? Acho que é a primeira vez que eu entro nesse campo conversando com um jornalista [risos], gostei. Por que fez muito parte da minha vida. Eu tenho um negócio com histórias. Eu amo histórias. Se eu começo a ler uma história ou assistir um negócio que eu gosto muito, eu não consigo parar. Foi assim na minha adolescência, eu li muitos livros, tive a sorte de ter, no colégio a gente tinha a ciranda de livros, tinha muito livro legal, e ao mesmo tempo, eu lembro que uma vez, eu morei em muitos apartamentos, apartamentos alugados e tal. Num desses apartamentos o antigo morador era um editor da Globo, algo do tipo, e tinha um armário cheio de livros, nossa, eu li muito, muita Agatha Christie, Harry Potter [série de J. K. Rowling], amava, minha vó me dava muitos livros, A menina que roubava livros [de Markus Zusak], O caçador de pipas [de Khaled Hosseini], adorei o Dan Brown. Sempre li muito mas nunca fui muito específica de um autor, tem vários escritores que fizeram parte da minha vida. Eu gosto muito de livros de fantasia, tem muito isso de jornadas de autoconhecimento, eu gosto muito disso. Eu leio muito, gosto muito de ler, ultimamente tenho lido muito para a pós, medicina vibracional, umas coisas mais direcionadas. Tenho lido menos do que gostaria”.

Continua: “cinema é a mesma coisa, tenho certa compulsão por histórias. Acho que mal ou bem todo mundo começou com a Disney. Eu adoro desenho animado. Os desenhos animados sempre vão para esse lugar de passar uma mensagem positiva e eu me identifico muito com isso. Não sei, eu não sou muito cult do cinema, não sou essa pessoa que tem vários filmes alternativos na rota. Eu gosto muito de ficção, fantasia. O senhor dos anéis [de Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien], eu adoro, gosto muito mesmo, mas é uma saga, fica meio nesse lugar, uma saga de autoconhecimento. Eu gosto muito de filmes que tiram um pouco a gente da realidade, que mostram esse mundo extraordinário, que na verdade é o que a gente vive só que não vê. Eu gosto dessas histórias que trazem, que te tiram dessa superfície que eu acho que muitas vezes a gente escolhe viver no nosso mundo. Eu adoro assistir filme, estou sempre buscando alguma coisa nova, tem dia que eu quero ver uma coisa boba, tem dia que eu tou com vontade de ver documentário sobre saúde, espiritualidade, ou sobre o tempo, eu gosto muito de documentários científicos, acho que muito por conta do background geológico, eu gosto de assistir coisas sobre física, tempo, física quântica, realidades alternativas, buracos de minhocas [risos]”.

A primeira vez que Bia Sabino saiu de casa foi quando foi morar na Austrália, onde passou um ano. Ao voltar, morou seis meses sozinha em Santa Tereza e há cerca de dois anos mora em Botafogo com o namorado. A viagem internacional, realizada por conta da faculdade, também tem a ver com seu disco de estreia.

“O disco tem uma música em inglês, foi uma música que eu fiz lá. Estar fora me fez ver quem eu era, já, quem eu realmente era. Quando a gente vive em algum lugar por muito tempo acaba se prendendo a rótulos. Eu era filha de alguém, amiga de alguém, cresci dessa tal maneira, e às vezes você muda e não consegue encontrar espaço para ser quem você é, justamente por que você se prende aos rótulos, você acaba pensando “poxa, se eu fizer tal coisa, se eu falar tal coisa, talvez eu não seja mais amiga dessa pessoa”, e a gente gosta de preservar nossas relações, mas muitas vezes isso acaba fazendo mal pra gente. Quando eu fui pra Austrália eu tive esse espaço, eu percebi que eu já tinha mudado muito, tive espaço de crescer, minha independência, ver o que eu realmente queria, o que a Bia queria pra vida, isso foi muito engrandecedor. Se você reparar a letra de Carry on é basicamente sobre isso, descobertas, ver o mundo com outros olhos, outra perspectiva e me ver com outra perspectiva. Ir para a Austrália definitivamente foi um turning point na minha vida, sem dúvida alguma”, revela.

“A ideia inicial seria algo bem cru, não ia ter tantos instrumentos, ia ser voz, violão e percussão”, remonta as primeiras ideias para Ecos. “Entramos com o baixo, eu e o Glaucus [Linx], meu produtor musical, que entrou nessa empreitada e também surgiu de maneira mágica na minha vida. Ele conhecia o Pedrinho, que foi o baixista, Pedro Leão, um superbaixista, toca com muita gente boa, tocou com O Rappa, e o PC [Andrade] da percussão, que foi também um amigo do Glaucus, no caso. Violão fui eu quem gravei, voz, eu e Glaucus produzimos alguns sons já gravados, tipo cuíca, a gente optou por usar os gravados, por que não tinha dinheiro para contratar tantos músicos. Demoramos a gravar por que cada hora era uma música nova, um problema, cheguei a perder seis pistas de voz, um amigo meu de tempos [Leonardo Elger] tocou violão em Jabuticaba, o Yann [Vathelet] tocou percussão, ele é francês, já não está mais no Brasil”.

Jair Bolsonaro já havia sido eleito mas ainda não havia sido empossado enquanto conversávamos, mas não deixamos de falar de política. “Política é um assunto polêmico. Toda essa crise política no Brasil não é nada que me surpreenda. Tem um tempo que eu vejo política da mesma maneira que eu passei a ver futebol, no sentido dos times. Eu não acredito mais que existam partidos diferentes, acho que tem pessoas que lutam por coisas diferentes, mas as crises políticas no Brasil não são novidade, e pra mim isso não tem especificamente a ver com um partido, mas com o tipo de sociedade que somos, como a gente escolhe viver. Tem até um documentário muito legal, Kymatica [de Ben Stewart], que é uma coisa meio doida, até, que basicamente ele fala que guerras acontecem, guerras terminam, políticos ascendem, decaem, partidos, por que como sociedade a gente nunca buscou curar o que precisa ser curado, a doença social, no sentido de que a gente valoriza coisas que não têm valor e desvaloriza coisas que têm valor, a gente se repete em ciclos, a roda do Samsara, o famoso karma, a gente repete os mesmos ciclos sociais como humanidade há milênios. Acho que tem muito a ver isso com o fato de eu ser geóloga. Quando você estuda geologia você perde um pouco essa individualidade, “ai, partido tal”, você acaba olhando o mundo com uma outra visão, de 4.6 bilhões de anos, e a terra como um super organismo e não a gente com nossa pequena mente. Eu vejo que o que está acontecendo é o reflexo da sociedade que a gente é, o que a gente valoriza como sociedade, dos valores que a gente busca. Eu fiquei muito chocada com essa última vitória da presidência, do Bolsonaro. Eu acreditava que como sociedade a gente estava valorizando outras coisas, valores humanos mesmo. Isso foi o que mais me chateou nas eleições, não foi partido tal ter ganhado ou partido tal ter perdido, mas entender que a mente social está num lugar que eu não esperava, de intolerância. Hoje em dia eu vejo a política dessa maneira, um reflexo do estágio de consciência da sociedade. É até o que eu quero, o que eu tento colocar nas minhas músicas, outro lugar, um olhar pra dentro. Não dá pra mudar o que tá fora sem mudar o que tá dentro. Durante muito tempo na minha vida eu me coloquei muito nesse lugar do tipo “ah, tá tudo errado no mundo, o que eu posso fazer?”, enquanto a gente tem as nossas pequenas corrupções diárias, sabe? Você é parte de tudo o que você não gosta que está acontecendo, politicamente, socialmente, ambientalmente. Onde você faz a sua parte para mudar isso? Aí eu comecei, em vez de ficar pirando com a política e as coisas que no momento estão fora de meu alcance, a mudar as minhas pequenas atitudes. Por exemplo, no que eu posso, hoje em dia, eu não minto pra nada, sou sincera comigo em primeiro lugar, por que quando você mente para o outro você está mentindo para si mesmo. Então, furar fila, tento não furar fila, andar no acostamento, coisas assim”.

Sobre a extinção do Ministério da Cultura, completa: “eu tou achando isso uma doideira. A gente já tem tão pouco incentivo cultural aqui no Brasil, musical, na cena do circo, a gente tem até umas iniciativas muito boas, mas tá tudo muito decadente, mas falta muito incentivo para que coisas novas surjam, espaço para a cultura, e mais uma vez isso tem muito a ver com a sociedade que somos”.

A divulgação do disco, revela, tem sido uma de suas maiores dificuldades. “Eu não sou muito boa nisso, até estou fazendo um curso agora, para ver se melhoro” – mais uma faceta de Bia Sabino. “Eu não sou boa em vender, eu não consigo me enxergar como um produto, mas todo mundo diz que tem que ser assim”, continua a cantora, que também assina o design de seu próprio site (e desenha as próprias tatuagens).

O show de lançamento de Ecos aconteceu em um espaço da Fundição Progresso e teve um público de cerca de 300 pessoas. Bia Sabino cantou, tocou e fez acrobacias. Durante a conversa ela anunciou novo clipe [Loba, que acabou saindo antes da publicação da entrevista]. Ela pretende circular pelo Brasil e atualmente estuda criar as condições para tanto.

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Ouça Ecos:

No labirinto da memória (em um país sem memória)

Tássia Dur e Cláudio Marconcine em cena de Ensaio sobre a memória. Foto: divulgação

 

Uma peça de Marcelo Flecha não é apenas uma peça, ou ao menos não pode ser reduzida a mero entretenimento. Mas isto nem de longe deve afastar o espectador da sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em cujo palco estreia nesta quarta-feira (1º. de maio), às 19h, o espetáculo Ensaio sobre a memória – a temporada fica em cartaz até 6 de maio (sexta e sábado às 19h e 21h); ingressos: R$ 30,00 (meia: R$ 15,00). Serviço completo no cartaz ao final do post.

Não é mero entretenimento nem para a plateia e menos para o grupo, que faz jus ao nome apenas no número de integrantes: quatro atores em cena mais o diretor, que também cumpre os papéis de autor do texto da peça, sonoplasta e iluminador. O trabalho começa já na adaptação: depois de Franz Kafka e Gabriel García Marquez, Flecha agora transmuta Jorge Luis Borges do livro ao palco. É A outra morte, conto do argentino, o ponto de partida do novo espetáculo do conterrâneo, radicado no Maranhão há mais de 40 anos.

Ensaio sobre a memória tem pouco mais de uma hora de duração e quem conhece o conto original se perguntará como é que o dramaturgo preenche tanto tempo a partir de um conto tão curto. Mas quem conhece a obra de Flecha logo sabe que ele elimina qualquer possibilidade de comparação, algo do tipo “o conto é melhor que a peça?” ou vice-versa.

O conto foi publicado em O Aleph, de 1949. A adaptação de Flecha o traz a um tempo não definido, mas cujo resultado soa atual, num momento em que revisionistas querem negar ou atenuar as ditaduras militares brasileiras ou negar-lhes seus efeitos.

São três atores em cena – Cláudio Marconcine, Lauande Aires e Tássia Dur, mais as participações ligeiras de Kátia Lopes –, todos enormes, dando voz a uma crise de consciência de um escritor que, a partir do desejo de escrever sobre episódios de tortura ocorridos durante a ditadura militar argentina – vizinha de geografia e crueldade da brasileira de 1964 – enfrenta vários dilemas, a começar por sua legitimidade para tratar do assunto, tendo em vista que não foi vítima direta do regime (de crimes contra a humanidade todos somos vítimas de algum modo). Nós, espectadores, passeamos pelo labirinto mental de um escritor-pesquisador em conflito consigo mesmo e com duas versões da mesma história (memória, invenção ou esquecimento?).

Texto e interpretações brutais, cruéis, precisos, mas carregados de ironia e cerzidos por certa delicadeza. O debate sobre a memória está posto, urgente e necessário em um momento em que o governo brasileiro dificulta a identificação de corpos de vítimas de um Estado que nunca fez seu dever de casa quanto ao tema.

Ensaio sobre a memória é literalmente uma obra de arte que nos leva a refletir sobre o estado de coisas a que chegamos no Brasil justamente por não termos acertado as contas com o passado: teria o então deputado Jair Bolsonaro dedicado seu voto na sessão da Câmara Federal que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff a Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador, se agentes da repressão (leia-se assassinos) tivessem sido punidos?

Uma das lições da peça de Flecha é que a memória precisa, além de ser preservada, construída: quem não viveu determinado período, precisa aprender sobre ele. Urgente, necessária e certeira, Ensaio sobre a memória ensina e leva a refletir. É tudo de que não querem sequer ouvir falar os ditadores de plantão.

Ensaio sobre a memória. Cartaz. Reprodução

Poesia no meio do expediente

Filarmônica para fones de ouvido. Capa. Reprodução

 

Jornalista de reconhecida elegância no texto, com atuação no mercado publicitário, Félix Alberto Lima, firmado também no universo da poesia, lança hoje (25), às 19h, em noite de autógrafos na Livraria da Associação Maranhense de Escritores Independentes (Amei), no São Luís Shopping, o livro Filarmônica para fones de ouvido [7Letras, 2018, 113 p.; R$ 38].

Seu livro anterior, O que me importa agora tanto [7Letras, 2015], trazia ecos de Paulo Leminski, sobretudo os poemas mais curtos e bem humorados, uma das marcas do curitibano – que também atuou no mercado publicitário.

Os universos se misturam, carregados de referências, na obra que Félix Alberto Lima constrói, em constante evolução. Estão lá Bob Dylan, o balé Bolshoi, Led Zeppelin, The Police e a Movelaria Guanabara. O próprio Leminski comparece, com sua Dor elegante, transmutado em Backup: “sofrer/ será teu próximo post”.

O livro é organizado em 10 sessões, mas o autor não é um burocrata da poesia. Poemas essencialmente urbanos, versam sobre temas atuais. Oratório se insufla contra a homofobia: “ora/ tanto faz/ se a moça é rapaz”, finaliza.

Obituário, dedicado ao poeta Nauro Machado, começa: “desapareceu ontem/ das ruas do centro/ na cidade velha/ o poeta prateado/ com seu machado e lenha”, para arrematar lembrando o “cuspo azul tiquira” de seus dias embriagados.

Félix Alberto Lima sabe brincar/jogar (não à toa ambos os verbos têm a mesma tradução em inglês, o play com que se escreve playground) com as palavras, e em Cantiga de roda arma “a ciranda do poema”.

Tudo é combustível/conteúdo para sua poesia: “essa canção que toca no rádio agora”, o “primeiro bilhete deixado no guardanapo” (em Tudo era quimera), “aquele senhor/ na fila do banco” (Um gole de cinzano), “aquele mar ali/ que lança a cidade” (Mágoas de mar) e “uma névoa rara de saudade/ com cheiro de manga e solidão/ que vem de dentro das ladainhas” (A sombra das carpideiras).

No poema-título, Félix Alberto Lima rememora e celebra a tradição dos poetas-funcionários públicos a exercer o ofício da poesia em meio ao expediente na repartição, entre o prazer e o ganha-pão, a poesia como uma necessidade vital que não tem hora para acontecer.

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Leia o poema-título:

FILARMÔNICA PARA FONES DE OUVIDO

no meio do expediente escrevo cartas
para desconhecidos que moram distante

componho meu primeiro rock inglês
e quase pinto um american gothic a guache

no meio do expediente ponho os fones
de ouvido e embarco na filarmônica de viena

carimbo ofícios na terça e ouço a voz de yoko
por entre as árvores no inverno do central park

entro e saio da comissão interna de prevenção
de acidentes de trabalho sem que ninguém me veja

leio as horas na estampa de um blusão de couro
e ainda não anoiteceu no sertão de nova iorque

é no meio do expediente que tiro férias
para não lembrar que moro longe das cartas

sou um desconhecido sincero de alma cigana
que vez por outra ronda o infinito da repartição

O bluesman brasileiro

Ao vivo 2. Capa. Reprodução

 

Quando completou 40 anos de carreira, em 2016, Edvaldo Santana colocou na rua o petardo certeiro Só vou chegar mais tarde, apontado pela crítica como o melhor álbum de uma carreira pautada pela coerência.

Alicerçado sobre o repertório daquele disco, mas também relendo faixas de trabalhos anteriores, Santana, acompanhado de uma verdadeira big band, subiu ao palco do Sesc Pompeia para um show memorável: eram 12 músicos em cena, incluindo o próprio Edvaldo (voz e violão) e a cantora Alzira E (vocais).

O show foi gravado e, antes tarde do que nunca, virou disco: Ao vivo 2 atesta que Santana é o grande bluesman brasileiro – embora disso já soubesse quem acompanha sua trajetória há algum tempo.

Filho de piauienses, nascido, criado e moldado artisticamente em São Miguel Paulista (lembrada em Ruas de São Miguel, parceria com Roberto Claudino, e Sou da quebrada), Edvaldo Santana é o artista brasileiro que melhor encarna o blues americano, sem abrir mão de sua brasilidade. Se Raul Seixas foi pioneiro ao mesclar rock com baião, Santana é a própria encarnação brasileira do blues. Gênero musical quase sempre associado à tristeza, a obra do bardo é pautada pela alegria, como canta em Quem é que não quer ser feliz, que fecha o disco ao vivo à guisa de bis.

Naipe de metais com o elegante reforço de uma tuba (de Eliezer Tristão, que também toca trombone), o show registrado em disco tem ainda o luxo de um gaitista exclusivo – isto é, não é um músico que toca outro instrumento e aqui e ali encara a gaita: Bene Chireia. A banda se completa com Ubaldo Versolato (clarinete e saxofone tenor), Claudio Faria (trompete), Gó (trombone), Reinaldo Chulapa (contrabaixo), Daniel Szafran (teclado), Leandro Paccagnella (bateria), Ricardo Garcia (percussão) e Luiz Waack (banjo e guitarra).

Mesmo os sambas de Santana têm inclinações blueseiras, casos de Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Dom, a primeira, autobiográfica, repassando a carreira de craque peladeiro em campos de várzea – outro talento do músico –; a segunda uma comovente homenagem a Sócrates, líder da democracia corintiana. Ambas, como se percebe, devotadas ao futebol, podendo fazer frente a qualquer clássico de Chico Buarque, Jorge Benjor ou Skank quando o assunto é o esporte bretão.

Citações explícitas ou implícitas em sua obra, aproximam-no também de Belchior, afinal de contas, outro bluesman de mão cheia. A Ao vivo 2 comparecem homenagens a parceiros, gente de seu convívio e ídolos. A título de exemplo, apenas em 40 figuram Beatles, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Tom Zé, Paulo Lepetit, Matsuo Bashô, Haroldo de Campos e, entre outros, a banda Matéria-Prima, na qual começou a carreira, em 1976.

Cabral, Gagarin e Bill Gates (parceria com Ademir Assunção) perpassa evoluções tecnológicas e frustrações, também com citações sutis (por exemplo a Chão de estrelas, o clássico de Orestes Barbosa e Silvio Caldas) e O retorno do cangaço cita Antonio Conselheiro e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ao criticar a corrupção como instituição consolidada (e em pleno funcionamento) no Brasil.

O disco foi gravado em dezembro de 2016, poucos meses depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, bem antes, portanto, das eleições, da chegada de Bolsonaro ao poder, e da propina de 40 milhões por deputado pela aprovação da reforma da previdência. O que demonstra que o blues de Edvaldo Santana é também afiado e antenado.

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Veja o clipe de Gelo no joelho (Edvaldo Santana e Luiz Waack):

“Vai-se o homem do baixo”

Facebook. Reprodução

 

Faleceu ontem (22) em São Paulo, vítima de um infarto fulminante, o músico Gerson da Conceição. Tinha 52 anos e deixa uma folha extensa de relevantes serviços prestados à música brasileira, em especial o reggae – entre muitos outros feitos fundou a banda Manu Bantu, referência no gênero.

Tocou em discos de, entre outros, Banda Black Rio, César Nascimento, Marquinhos Mendonça, Rita Benneditto e Zeca Baleiro, além de ter deixado parcerias com o duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões) e os poetas Celso Borges e Fernando Abreu.

Assim se manifestou o último em uma rede social: “Tenho muita alegria de todas as minhas parcerias musicais. Todas elas me fizeram ir um pouco mais longe, me deram e me dão um pouco mais de gás. Entre elas, um cara que era pura energia chamado Gerson da Conceição. Agora ele se vai, de repente. Está acima de minha compreensão como a vida pode abrir mão de alguém como Gerson. Ele que transpirava vida, a pura vibe que emanava dos seus dreads antenados. Fica a alegria de tê-lo conhecido, construído algo com ele mas, acima de tudo, de saber que seu contrabaixo poderoso continuará eternamente açoitando a Babilônia. Gerson Vive!”.

“Faz tempo que não convivo com Gerson diretamente, desde que ele mudou pra Sampa. Mas meu carinho, admiração e respeito por ele permanecem intactos até hoje. Adoro a voz, as canções, a energia positiva, a paixão pela música e todo amor que ele sempre me passava. A morte é inevitável a todos nós, mas ela sempre nos surpreende e nos deixa assim, quase sem vida também, por que dói demais”, declarou a cantora Rita Benneditto, de quem o contrabaixista foi um dos primeiros Cavaleiros de Aruanda [banda que acompanhou a cantora].

Foram inúmeras manifestações de pesar e, ante a vitalidade e juventude, reações de surpresa com a notícia, nas redes sociais. O compositor Josias Sobrinho lembrou-se de um episódio pouco conhecido, de quando Gerson estava iniciando a carreira. “Era um cara super do bem. Conheço desde os tempos do [bar] Risco de Vida. Quando ele saía do trabalho no Banco Real passava por lá para dar uma canja com as primeiras levadas que fazia”, rememorou.

Ao receber a notícia em um grupo de whatsapp desconfiei: há alguns anos Gerson havia sofrido um AVC do qual escapou sem sequelas. Minha reação automática foi tentar contato com pessoas próximas a ele, na esperança de que me dissessem se tratar de alarme falso, boato, fake news, qualquer coisa… Infelizmente não era. Confirmada a notícia, pedi um depoimento ao jornalista e dj Otávio Rodrigues, amigo comum. No áudio enviado é possível perceber a voz embargada, o esforço em conter as lágrimas. A última vez em que eles se apresentaram juntos foi em São Luís, em 2015, no palco do projeto BR-135, no show Poesia Dub, que tem como frontman o poeta Celso Borges. A dose seria repetida na próxima Virada Cultural, em São Paulo, mês que vem. Infelizmente não deu tempo.

“Quando a gente se conheceu eu morava em São Luís, tinha acabado de chegar, e logo percebi esse músico, ele chamava atenção. Logo ele montou a banda Conexão Rasta, e eu tinha uma esperança de ver no reggae do Maranhão uma inclinação mais jamaicana, mais radioleira, e o baixo no reggae é uma coisa especial, um item essencial, e há modos de se tocar. O reggae engana muitas vezes, muitos músicos acham que é fácil, que são poucas notas etc., mas o baixo especialmente mostra que não e o Gerson logo chamou minha atenção nesse aspecto. Ficamos amigos, quis o destino que eu voltasse de São Luís para São Paulo, depois ele também, o que só fortaleceu nossa relação, a presença do Celso Borges aqui também. Eu e CB começamos o Poesia Dub, esse nosso projeto, e logo na primeira apresentação ao vivo a gente sentiu falta de uma coisa mais forte, um live p.a., uma coisa que funcionasse mais visualmente, tivesse mais peso, e o chamamos para participar, o que ele vinha fazendo desde sempre. Assim foi no Itaú Cultural, depois no Tim Festival. Trocamos mensagens semana passada, por conta dessa gig mês que vem, ele me veio com planos de inovação, que tinha umas bases novas para me mostrar, coisas que a gente podia desenvolver juntos até essa apresentação… “sim, sim, vamos, vamos”, me chamando no estúdio. Em suma vão ficar as incontáveis lembranças, das nossas baladas por aí, em São Luís, aqui em São Paulo, entre shows juntos – a gente sempre se contatava, “vamos lá juntos!”, um chamava o outro –, e as tardes e noites imensas e sem fim, que passamos juntos, eu, ele, ou eu, ele e CB, ensaiando, bebendo pinga, catuaba, música, alegria, risada e fumaça. Um músico espetacular e um bom gosto musical absurdo. Era sempre uma delícia sentar e ouvir música com ele. Fica aí o curso da vida pra nós que ficamos, essa saudade sem fim. Vai-se o homem do baixo e deixa a gente aqui chorando baixinho”, declarou o não à toa alcunhado Doctor Reggae.

O corpo de Gerson da Conceição será velado e sepultado em São Paulo.

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Relembre Down down, com a Manu Bantu:

Choro e Praia Grande: patrimônios nossos

Foto: Rose Panet

 

O Instrumental Pixinguinha se apresenta hoje (22), às 19h, no Restaurante Flor de Vinagreira, na Rua da Estrela, Praia Grande – o local é o antigo Antigamente e piadas internas em grupos de whatsapp acendem debates sobre o nome do bairro, tal qual citado, e o nome Reviver, pelo qual também ficou conhecido, desde um inacabado projeto de revitalização que já conta mais de três décadas.

Formado por professores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), vizinha de rua do restaurante, a ideia do Instrumental Pixinguinha é iniciar uma temporada, sentando praça no novo point todas as segundas-feiras – o Expoentes da Música, às quintas-feiras, no mesmo horário, com a dj Vanessa Serra, me parece já estar firmado.

O Pixinguinha é formado por Domingos Santos (violão sete cordas), João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Nonatinho (pandeiro) e Raimundo Luiz (bandolim). O grupo toma emprestado o nome de Alfredo da Rocha Viana Filho, cuja data de nascimento (em 1897) foi transformada em Dia Nacional do Choro – pela lei federal nº. 10.000, de 4 de setembro de 2000, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. No Maranhão, a lei 10.996, de 7 de dezembro de 2018, sancionada pelo governador Flávio Dino, institui o Dia Estadual do Choro, a ser celebrado na mesma data.

É, portanto, simbólica a data escolhida pelo Instrumental Pixinguinha para esta apresentação – que esperamos marcar o início de uma longeva temporada: poderá ser considerada a abertura de uma semana de comemorações do Dia Nacional e Estadual do Choro, que amanhã (23), às 19h, como já é tradição, terá grande festa, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), sendo o grupo o anfitrião, mas com diversos convidados se apresentando ao longo da noite e a homenagem ao cavaquinhista Paulo Trabulsi – único remanescente da primeira formação do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

A semana deve brindar chorões iniciados e neófitos com outras iniciativas, com palcos, grupos e instrumentistas distintos, atestando a relevância de São Luís como praça brasileira de choro, ao lado de cidades como Brasília/DF, Fortaleza/CE Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ e Santos/SP, entre outras.

Que a estas iniciativas se somem outras, num esforço de preservação e ocupação do centro histórico ludovicense. Afinal de contas é sempre mais fácil e cômodo apenas reclamar, enquanto empresários optam por abrir negócios do outro lado da ponte e grupos por tocarem em locais mais chiques ou “blindados”. Choro e Praia Grande são patrimônios nossos e patrimônios não se fazem apenas com pedras, mas sobretudo com gente.

O canto forte, delicado, poético e político de Manu Saggioro

Clarões. Capa. Reprodução

 

Há 20 anos Ceumar estreava no mercado fonográfico com Dindinha, produzido pelo maranhense Zeca Baleiro. Agora é a vez de a mineira devolver a gentileza, assinando a direção artística e dividindo a produção musical com Manu Saggioro em Clarões [2019, distribuição: Tratore], disco de estreia da paulista.

Delicado como não poderia deixar de ser, com tal encontro, o disco é sensível ao tocar em temas de nossos tempos, como, por exemplo, o uso excessivo de tecnologia, sobretudo o telefone celular, em Um dedo de prosa (Levi Ramiro), cuja letra graceja, séria: “vai de cabeça baixa sem ouvir a ninguém/ sem olhar pros lados, parecendo quem/ tá no mundo da lua”.

Se Ceumar demorou a revelar-se talentosa compositora, Saggioro apresenta logo suas credenciais: sozinha ou em parceria assina seis das 14 faixas de Clarões – a faixa-título leva a assinatura de Tetê Espíndola e Tavinho Limma – inclusive Moda de viagem, parceria dela com Ceumar, que cantam juntas fechando o disco, sua beleza aproximando-a tematicamente de clássicos como A vida do viajante (Luiz Gonzaga/ Hervê Cordovil) e Cantiga do estradar (Elomar), mas por um prisma feminino: “essa é minha natureza/ viajar é minha cura/ andar solta e sem rumo/ liberta do que me anula/ sentindo pulsar nas veias/ a vida fluindo pura”.

As paisagens sonoras de Saggioro evocam a brejeirice mineira de Titane, ao canto pantaneiro de Tetê Espíndola e à música de protesto latino-americana, irmanando-a a nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Das primeiras, o disco é completamente permeado; das últimas, bons exemplo são Aguita (Ana Beatriz Pereira Rolando), cantada em espanhol, e Pachamama (Osvaldo Borgez) – “Terra, quem me dera contê-la, guardá-la/ no vaso de minhas mãos/ pudera, cuidava, zelava/ num bonsai, mas cabe não”, lamentam alguns versos urgentes.

Soma de tudo isso, Saggioro tem personalidade e é ótima instrumentista – toca os violões do disco, a cuja ficha técnica comparecem nomes como Adriana Holtz (violoncelo), Antonio Loureiro (bateria), Lelena Anhaia (contrabaixo), Webster Santos (violão, dobro, bandolim, banjo, cuatro venezuelano) e Ari Colares (percussão).

Saggioro presta também reverências a companheiras de ofício, registrando composições de mulheres que merecem ser mais gravadas, ouvidas e conhecidas, casos particularmente de Tata Fernandes (Graça) e Déa Trancoso (Só restarão as estrelas), ambas de talento indiscutível.

Disco de alma feminina mais que pela delicadeza, pelo conteúdo político que cerze seu tecido poético: “mais um morador de rua/ de um condomínio fechado/ quem compra contos de fada/ acaba em cantos de fado”, dispara em Cantos de fado (Levi Ramiro/ Carlinhos Campos), preci/o/sa em tempos de pós-verdade. Afinal de contas, “cadeia de pensamento/ serve pra libertar”, como canta em Graça.

Ouça a faixa-título:

Sebos unidos

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando a Editora Autêntica começou a republicar a obra do monumental Campos de Carvalho (não confundir com o outro Carvalho, ideólogo de revisionistas), brincávamos, um grupo de amigos: éramos uma espécie de seita, descobrindo ou reencontrando a literatura do autor de Vaca de nariz sutil.

Íamos além, numa matemática maluca: se somos três leitores apaixonados por Campos de Carvalho em São Luís, isso faz da ilha a cidade brasileira com mais leitores do autor de A chuva imóvel. A equação é simples: a tiragem média de um livro no Brasil é de algo em torno de 3 mil exemplares, o que dá menos de um livro por cidade, pouco mais de meio.

E ríamos também de nossa própria falta de talento, já que talvez essa matemática tivesse alguma graça se proposta literariamente pelo próprio escritor de A lua vem da Ásia – ou Macedónio Fernandez (autor do Museu do romance da eterna).

Lembro da devoção ao mineiro Campos de Carvalho, de saudosa memória, por ocasião da inauguração, ontem (10), da 1ª. Feira do Livro Usado (vascaíno que sou, é melhor não inventar sigla), evento que acontece até amanhã (12), na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) – para quem não sabe, aliás, Valdelino e Odylo dois importantes escritores.

O acontecimento congrega diversos sebos que vêm configurando um corredor literário no centro da capital maranhense: estive na abertura, ontem, e por lá encontrei Natan Máximo, Riba da Feira da Tralha, Silvia do Paço Prosa e Arteiro – Riba do Poeme-se se somaria, me disseram.

Enquanto jogava conversa fora, tomava café cubano e amealhava exemplares, rato de sebo que sou, me deparei com a diversidade dos frequentadores, motivados pela paixão pelos livros, curiosidade e, às vezes, circulando por ali como quem não quer nada.

Certamente muitos dos passantes, quando acabar a Feira, voltarão a estes espaços em seus endereços fixos e eventos: sem periodicidade no Sebo do Arteiro e no Paço Prosa, às últimas quintas-feiras do mês no Poeme-se, e todo domingo na Feira da Tralha, um com discotecagem de vinil, outro com roda de choro ao vivo, alternadamente – a propósito, amanhã, na noite de encerramento da iniciativa, João Eudes (violão sete cordas) e Ronaldo Rodrigues (bandolim) se apresentarão.

Cumprimentei conhecidos, vi uma desconhecida catar um exemplar de bolso do On the road de Jack Kerouac, topei com um exemplar do Hemóstase de Bruno Azevêdo, volume de contos de que até então eu só ouvira falar, a primeira edição de O desatino da rapaziada de Humberto Werneck, uma conferência proferida por Josué Montello sobre o Arthur Azevedo contista e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, entre outros volumes de seus consagrados romances.

Eis uma das graças de sebos – e livrarias, em geral: entrar procurando uma coisa (ou nem procurando nada especificamente) e sair com várias coisas completamente diferentes e tudo bem, tudo certo. Aliás, ainda prefiro comprar livros e discos presencialmente, mais ainda conversando com alguém que entenda daquilo que está vendendo.

Em um tempo em que o desmonte da educação e da cultura é uma política pública do governo federal, não faltam motivos para visitar a 1ª. Feira do Livro Usado, ainda que São Pedro não colabore. É praticamente um ato de resistência.

Senti saudade de Moema de Castro Alvim, em cujo Papiros do Egito iniciei essa perambulação que espero que nunca termine.

A força das mulheres cantando o Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

São impressionantes a qualidade e o entrosamento da Orquestra Guajajaras, em atividade apenas desde agosto de 2018. O show apresentado ontem (9), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), foi uma prova da vitória de um esforço coletivo que, embora recente, já mostra a que veio.

A Orquestra Guajajaras surge “da admiração pela consagrada formação instrumental das big bands e da paixão pela renovação estética empreendida pelas orquestras de baile brasileiras na primeira metade do século XX, das quais a Tabajara”, sua irmã de rima, “foi a mais conhecida e longeva”, em atividade até hoje – as aspas são do texto lido pelo mestre de cerimônias da noite, o cantor Fernando de Carvalho.

A Orquestra Guajajaras é formada por Ricardo Mendes, Emerson de Paula, Danilo Santos, Lucas Lima e Paulo Rafael (saxofones), Hugo Carafunim, Evandro Maia, Daniel Cavalcante e Gabriel Oliveira (trompetes), Elder Ferreira, Daniel Miranda, Adrian Ferreira e Sidney Diniz (trombones), Rafael Bruno (contrabaixo), Anselmo Rômulo (violão), Ronald Nascimento (bateria) e Wesley Sousa (piano).

A noite musical – dedicada inteiramente a repertório brasileiro – começou pela instrumental Brooklyn High (Nelson Faria), a única música que a orquestra tocou sem uma convidada no palco. O show chamava-se Orquestra Guajajaras e Elas e podia ser entendido como uma espécie de prolongamento das celebrações às mulheres pelo mês de março.

10 cantoras maranhenses de todas as gerações e timbres desfilaram um repertório impecável – difícil até elogiar pontos altos em uma apresentação que tampouco pode ser considerada uniforme diante das particularidades dos talentos de cada convidada. No fundo do palco, o telão exibia fotografias das cantoras e de outras grandes mulheres da história: Annah Harendt, Chiquinha Gonzaga, Janis Joplin, Malala Yousafzai, Maria da Penha, Maria Firmina dos Reis e Simone de Beauvoir, entre outras.

A primeira a subir ao palco foi Bruna Lussaray, que interpretou Maçã, de Djavan, o autor mais interpretado da noite, autor da peça seguinte, Açaí, interpretada por Adriana Bosaipo. Um problema técnico tirou o piano elétrico de Wesley Sousa de cena e enquanto isto se ajustava, ele continuou cumprindo seu papel de anunciar as próximas músicas e intérpretes, fazendo-lhes as devidas e merecidas referências e reverências.

A troca de elogios entre cantoras e orquestra era sincera. Elas eram unanimes em reconhecer a importância da iniciativa da orquestra e de o público prestigiar tal iniciativa – o Teatro Alcione Nazaré estava completamente lotado.

Após cantar Viagem de novembro (Erasmo Dibell), Regiane Araújo revelou o quanto foi difícil fazê-lo sem o piano de Wesley, que seria substituído na sequência. Ele chamou Anna Cláudia, paraense radicada no Maranhão há mais de 20 anos, recomendando: “ela tem um disco lindão no spotify, quem não conhece está pecando”, disse, referindo-se a Bons ventos, segundo disco da carreira da cantora, que interpretou Papel marché (João Bosco e Capinam).

Com o piano devidamente trocado, Wesley pode participar do momento seguinte, em que à sua exceção, todos os músicos da orquestra se retiram do palco e ele dueta com o violino de Thaynara Oliveira em Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque). “Ela sempre chora nessa música, vamos ver hoje”, provocou, mas ela aguentou firme, até seus agradecimentos.

Milla Camões arriscou uns passos de dança na síncope de Capim, de Djavan, cuja letra cita de raspão o “tronco do juremá” dO canto da ema de João do Vale (com Ayres Viana e Alventino Cavalcante), metáfora-síntese para as camadas descortinadas ao longo do espetáculo. Tudo isso antes de Gabriela Marques por toda sua exuberância à prova em Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), não perdendo o prumo nem na única (ligeira) microfonia da noite.

Ao revelar que a Orquestra Guajajaras está trabalhando em seu disco de estreia, antecipou que uma das faixas do repertório será Flanelinha de avião (Cesar Teixeira). Revelou ainda que não conhecia Milena Mendonça, tendo topado convidá-la por indicação de outros dois integrantes da orquestra: deve ter sido a cantora que mais causou reações no público, sendo aplaudida de pé no meio da música. A cantora interpreta Maria Bethânia no musical João do Vale – o gênio improvável e recomendou ao público valorizar a arte produzida no Maranhão, “para que a gente possa fazer aqui, para vocês, e não tenha que ir para lá, fazer só para eles”, afirmou, aludindo ao fluxo migratório a que Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra se referiam em Missa agrária – que Bethânia gravou junto ao Carcará (João do Vale e José Cândido) em seu disco de estreia – e que durante tanto tempo foi regra para o sucesso de artistas nascidos maranhenses.

A Célia Maria pediu aplausos e tratou de diva, tudo merecido. Engraçadíssima, chegou fazendo o povo rir, embora estivesse sendo apenas modesta, virtude das grandes: “maravilhosos são eles”, disse ao público, referindo-se aos músicos que a acompanhariam em As rosas não falam (Cartola) – nem errando a letra ela se apequena.

Tássia Campos brilhou em Ladeira da preguiça (Gilberto Gil), dançou e arrematou o discurso unânime: “todos nós estamos aqui por amor à música. Prestigiem e valorizem iniciativas como essa, por que nós, além de fazermos com profissionalismo, fazemos com amor”. Como dizem os tabeliães: o referido é verdade e dou fé.

Encerrando o espetáculo, Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) foi entoada por todas juntas no palco, traduzindo a grandeza de cada uma, colocando a letra no plural: essas mulheres são dons, certas magias, forças, sons, cores, suores, as doses mais fortes.

Jazz até no escuro

Foto: Zema Ribeiro

 

​​”O doce é melhor”, respondeu-me Daniel Cavalcante (trompete e flugelhorn) quando eu disse que finalmente havia ido ver “se esse Buriti prestava”. Ambos brincávamos e eu me referia ao quarteto que ele forma ao lado de Ronald Nascimento (bateria), Wesley Sousa (teclado) e Mauro Sérgio (contrabaixo).

Ontem o Quarteto Buriti se apresentou no Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande) para um bom público, a despeito do rodízio: difícil entender como alguém consegue sair no meio de um show com um nível tão bom (tocaram pouco mais de duas horas).

Começaram com So what (Miles Davis), que abre o clássico Kind of blue (1959), quase sempre apontado por jazzófilos insuspeitos como o maior disco de jazz de todos os tempos. Seguiram-se Naima (John Coltrane) e All the things you are (Jerome Kern e Oscar Hammerstein II), sucesso de Ella Fitzgerald. Durante a execução de Corcovado (Tom Jobim) faltou energia. Com o apagão dos instrumentos elétricos, trompete e bateria duelaram no escuro, até o fim da canção.

Menos de meia hora depois a plateia aplaudiu o retorno da energia elétrica. Novamente tirei onda com Daniel: “difícil agora vai ser superar o aplauso da luz”. Ele riu e anunciou que tocariam Corcovado novamente. Para mim não precisava, dado o fecho incrível ante o inusitado. “Eu adoro!”, revelou-me antes do bis no meio do show, que puxou outra sequência instrumental de bossa nova. Seguiram-se Só danço samba (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Amazonas (João Donato e Lysias Enio).

Conhecedor dos talentos individuais dos integrantes do Buriti, não me restavam dúvidas sobre a qualidade do quarteto, embora uma constelação de craques nem sempre traga títulos, vide o time que o Flamengo montou quando de seu centenário em 1995. Não bastasse a enorme qualidade do grupo, afiado e despojado, entre execuções precisas, solos inspirados e improvisos idem, a noite ainda nos guardava uma surpresa.

Gabriela Marques subiu ao palco, apresentou os músicos e acabou esquecendo de se apresentar (ou eles a ela). Seu cartão de visitas, no entanto, foram as três canções que interpretou com bastante personalidade: Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Autumn leaves (Joseph Kozma, John Mercer, Jacques Prevert e Jacques Enoch), que ganhou versão em português de Chico César, em 2006.

Ela canta tamborilando o microfone com os dedos, como se estivesse diante de um trompete imaginário. Ou um piano, já que ela, antes das canções que interpretou, armava acordes no teclado de Wesley antes de ditar o tom aos escudeiros da noite.

Após sua descida do palco, Mauro Sérgio foi temporariamente substituído por Davi Oliveira, na sequência formada por Wave (Tom Jobim), Isn’t she lovely (Stevie Wonder) e A rã (João Donato), executada em versão instrumental. A música tem letra de Caetano Veloso e me peguei imaginando como teria sido, na ocasião, se cantada por Gabriela Marques, mas já era querer demais. A essa altura havia se somado ao quarteto o guitarrista Júlio César, até então sentado num canto do bar, bebericando discretamente.

Um bom número de alunos da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ocupava o recinto. Daniel e Mauro (novamente de volta ao palco) são professores da instituição; Ronald e Wesley, alunos – o trompetista Gabriel Oliveira, aluno de Daniel, chegou a dar uma canja.

O bis já havia rolado ao fim do apagão e a noite foi encerrada com Blue train (John Coltrane) e Doralice (Dorival Caymmi). O Quarteto Buriti se apresenta hoje (4), às 21h, no Talkin Blues (Rua Auxiliar II, quadra 9, nº. 16, Cohajap).

Lição

Foto: Gilson Teixeira

 

Em abril de 2016, na sessão da Câmara dos Deputados que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) dedicou seu voto à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, seu ídolo. O pesselista não sofreu nenhuma sanção por quebra de decoro e pouco mais de dois anos depois, em uma campanha baseada em fake news e no elogio à violência, tornou-se presidente da república, eleito pelo voto popular.

O deputado federal Márcio Jerry (PCdoB) apresentou recentemente projeto de lei (PL 1798/2019) que criminaliza a apologia ao retorno da ditadura militar, tortura ou pregação de rupturas institucionais. Um passo importante em um país que, ao contrário dos vizinhos latino-americanos, para ficarmos em exemplos mais próximos, não acertou suas contas com o passado: agentes da repressão envelhecem tranquilamente sem nenhuma punição, sequer no campo simbólico.

Um ato realizado ontem (30) no Memorial Maria Aragão, na praça homônima, prestou homenagens à médica que dá nome ao logradouro, ao poeta, jornalista e economista Bandeira Tribuzi e a Manoel da Conceição. O governador Flávio Dino assinou um projeto de lei que concede pensão especial ao líder camponês, vítima da ditadura militar.

O compositor Cesar Teixeira cantou Oração latina, de sua autoria, verdadeiro hino de movimentos sociais maranhenses, cujos versos “com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar/ ninguém vai ser torturado com vontade de lutar” foram cantados a plenos pulmões, enquanto os presentes agitavam bandeiras e rosas brancas.

“Em nosso governo, todos os dias, temos procurado reparar injustiças. Essa é uma reparação ínfima, diante do que Mané sofreu”, afirmou o governador, referindo-se às torturas sofridas por Manoel da Conceição, que teve um prego martelado no pênis e perdeu uma perna em decorrência de uma gangrena ocasionada por tiros, não tendo o atendimento médico sido realizado em tempo hábil. Parece cruel descrever sua tortura, mas é um exercício necessário: lembrar, para que nunca mais aconteça.

Gabriela Campos, neta de Bandeira Tribuzi, relatou casos de familiares que sofreram com a ditadura. Sua mãe nasceu prematura, pois sua avó foi vítima de violência durante o estado de exceção. A revelação contraria o falacioso argumento da direita que elege torturadores como ídolos, de que a ditadura militar brasileira só “mexia” em quem “fez algo errado”.

O advogado Mário Macieira, ex-presidente da OAB/MA, neto de Maria Aragão, celebrou: “é bastante simbólico que este ato esteja sendo realizado em uma praça com o nome de Maria Aragão, que combateu a ditadura militar, e não com o nome de um general, de um torturador”. Cabe lembrar que o projeto arquitetônico da praça é de Oscar Niemeyer, outro respeitado comunista.

“Aqui no Maranhão não se celebra ditadura, não se exalta torturador”, afirmou Flávio Dino em meio a palavras de ordem do público: “Manoel, guerreiro do povo brasileiro!” e “Lula livre!” foram as mais ouvidas. “É contraditório que alguém democraticamente eleito faça apologia a um regime que cassou mandatos e fechou o congresso nacional”, continuou.

“Quais os pecados de Bandeira Tribuzi, de Manoel da Conceição e de Maria Aragão?”, perguntou Flávio Dino. Ele mesmo respondeu: “Bandeira Tribuzi compôs o hino de São Luís [Louvação a São Luís, no ato interpretado por Serginho Carvalho], que fala nos “claros sóis da liberdade”; Manoel da Conceição queria que os trabalhadores do glorioso Vale do Pindaré se organizassem e tivessem acesso a terra; e Maria Aragão, uma médica que não enricou, atendia mulheres humildes sem cobrar nada e reunia a juventude na sala de sua casa para realizar cursos de formação política. Percorro mentalmente os códigos de processo penal de hoje e da época e não encontro o crime. Não há crime! O crime está na cabeça de quem não aceita quem pensa diferente”, finalizou.

O Maranhão deu ontem mais um belo exemplo ao Brasil. Mirem-se!

O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

Sonhar em travesseiros de pedras de cantaria

O abraço dos poetas José Maria Nascimento e Fernando Abreu. Foto: divulgação

 

Aluno aplicado e devotado de Cesar Teixeira, há duas lacunas em minha formação boêmia: nunca bebi com o saudoso Nauro Machado (apesar de termos nos encontrado em não raras ocasiões de copos nas mãos – minha timidez impediu aproximação, à época) nem com José Maria Nascimento, que parou de beber e tem uma memória milimétrica sobre farras homéricas, suas e alheias. Conta histórias tão incríveis que às vezes ficamos em dúvida se este ou aquele episódio de fato aconteceu ou é fantasia de Cabeça de Poeta, salve Odair!

Ontem (19), pela calçada da Livraria Poeme-se, ocupada pelo recital de lançamento de Contra todo alegado endurecimento do coração, novo petardo do poetaço Fernando Abreu, passaram nomes como Adriana Gama de Araújo, Antonio Carlos Alvim, Celso Borges e Laura Amélia Damous – e é muito provável que eu esteja esquecendo o nome de alguém –, além da discotecagem de Eduardo Júlio e da performance do grupo Teatrodança.

Em suma, a noite foi linda, sem desmerecer a participação de ninguém. Mas quem, literal e literariamente roubou a cena, foi José Maria Nascimento: declamou um poema escrito sob o impacto da leitura (e releitura, “eu li ontem e reli hoje de manhã”, confessou) do volume, homenageando o bardo. Leu o poema em meio a trejeitos que imitavam o andar de bêbados e velhos. Ele e Fernando Abreu não ingerem álcool há décadas.

“Você vai ficar como eu”, galhofou José Maria Nascimento para gargalhada geral da plateia, inclusive o homenageado. Bendita maldição, que a praga pegue, vida longa a ambos, um brinde! – eles não bebem, mas eu sim.

Uma imagem não me saiu da cachola, desde que a ouvi da boca do poeta mais velho, não sei se fruto de exagero, de licença poética ou simplesmente de memória – lembram do que eu disse? Guardei na memória, sem nada anotar, o verso em que ele rememorava algumas farras, ocasiões em que, em alguma praça da cidade, “fizeram de travesseiros as pedras de cantaria”.

Devoção à poesia

Contra todo alegado endurecimento do coração. Capa. Reprodução

 

Contra todo alegado endurecimento do coração [7Letras, 2018, 73 p.] é uma pedrada, para quase usar a expressão com que a massa regueira designa os melhores reggaes, o gênero jamaicano que também faz a cabeça do poeta Fernando Abreu.

O título nos chega em hora urgente, num tempo em que a brutalidade e a ignorância – vizinha da maldade, já nos alertaria Renato Russo, outra referência do poeta – tentam se impor como políticas de Estado.

“Poesia mata fascistas” é slogan usado pelo poeta em redes sociais, mas a palavra não pode estar distante da ação, como já ensinou Paulo Freire, outro nome odiado por eles, vocês sabem quem. Em terreno minado de referências, Fernando Abreu aprendeu a lição de outro, o cearense Belchior: “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”.

“Uma ocasião para a beleza”, crava certeira, citando Jorge Luis Borges, a poeta Adriana Gama de Araújo, que escreveu a apresentação de Contra todo alegado endurecimento do coração. Quinto livro de poemas de Fernando Abreu, este volume aprofunda algumas características de sua obra.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, nos ensinou Manoel de Barros, a cuja poesia a de Fernando Abreu se irmana. Não teme sujar as mãos com nada e merecem destaque os poemas Ghost news e Mesmo assim um poema, eminentemente de cunho político, refletindo o desastroso momento que o Brasil atravessa – este último figura na antologia Lula livre Lula livro.

É um eternizador de instantes, como Marcelo Montenegro, outro irmão de sua poética, também permeada de referências da cultura pop, entre literatura, cinema, artes visuais, música e cotidiano.

Sucessor de Manual de pintura rupestre (2015), Aliado involuntário (2011), O umbigo do mudo (2003) e Relatos do escambau (1998), em Contra todo alegado endurecimento do coração, Fernando Abreu se despe da poesia para vesti-la ainda melhor. É como se praticasse uma espécie de anti-poesia, aproximando seus versos da prosa, como se num diálogo cara a cara com o leitor. Como o chileno Nicanor Parra.

É a roupa do rei que pode ser vista mesmo por quem não tem olhos privilegiados, como os do próprio Fernando Abreu, como quando reprocessa Jim Jarmusch: “mesmo que seja apenas um filme/ um poeta de verdade sim”.

“Em Contra todo alegado endurecimento do coração, as exigências que o poema faz ao poeta não são sutis”, alerta Fernando Koproski, na orelha. Reflexões sobre o ofício poético, espécie de making of do livro – ou de determinados poemas – também aparecem ao longo das páginas do volume.

Autor consciente de sua condição de poeta, a cada poema encontra-se diante de uma encruzilhada. “Se não é capaz de/ enfrentar esse dilema,/ é melhor continuar escrevendo/ poemas que exigem de você/ apenas habilidade com as palavras/ mas a habilidade com as cartas/ não faz de um jogador/ um mágico”, como afirma certeiro no poema Promessas, central no livro e, de resto, na obra de Fernando Abreu.

Em Amor: fuga impossível crava, direto: “você pode enrolar seus credores/ mas não pode fugir do amor/ você pode dar uma de joão sem braço/ diante da suprema corte/ mas não pode fugir do amor/ você pode se disfarçar de monge/ só pra mudar de hábito/ mas não pode fugir do amor/ você pode se tornar um alpinista/ treinando em suas dunas de solidão/ você pode ser um novo líder/ um mártir, um revolucionário/ um careta, um picareta, um otário/ mas não pode fugir do amor”. Nem do amor, nem da poesia.

*

Leia o poema Sobre homens e destinos:

alguns diálogos no cinema
valem pelo filme inteiro
como certos momentos
justificam uma existência

ainda vou ver umas duas ou três vezes
a batalha final do remake do remake
de sete homens e um destino
só pra ver o atirador goodnight robicheaux
e seu servo zen
acossados pela metralha dos canalhas
travarem esse diálogo maluco:

– me lembro sempre do que meu pai falava.
o chinês vira o rosto, todo ouvidos
para a sabedoria do mestre.
nada.
a espera dura segundos eternos.
de repente:
– bem, meu pai falava muitas coisas…
diz goody
e caem os dois na gargalhada
em meio às balas que zunem
no velho campanário incendiado
de onde caem mortos
menos de cinco segundos depois

*

Serviço

A noite de autógrafos de Contra todo alegado endurecimento do coração acontece hoje (19), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antônio, 264-A). Com performance do grupo Teatrodança, discotecagem de Eduardo Júlio e recital com o autor e os poetas Celso Borges e Adriana Gama de Araújo.

Segunda chamada: dia 28 de março (quinta-feira), no mesmo horário, Fernando Abreu autografa o novo livro no Restobar Villa 25 (Rua Gago Coutinho, 25, Laranjeiras, Rio de Janeiro/RJ).