João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

O batalhão de um homem só

Foto: Marla Batalha

 

Já disse aqui e acolá, mas não custa repetir: certos artistas têm uma impressionante capacidade de premonição, o que os torna artistas maiores.

É o caso de Lauande Aires e particularmente de O miolo da estória, da Cia. de Artes Santa Ignorância, reapresentado ontem (10) no Teatro Arthur Azevedo (em cujo palco chegou pela primeira vez), dentro da programação do Gema – Grandes espetáculos do Maranhão, que promove o reencontro do público com destaques da produção teatral local recente. Aliás, estamos em ótima safra.

Sozinho em cena, Lauande encarna um batalhão. João Miolo, seu personagem, é um operário da construção civil, que sonha. Sonhar, aqui, verbo literalmente intransitivo. “Nunca deixe de sonhar” é o seu principal conselho. Os tempos são duros e ele se veste com a roupa da utopia.

João Miolo faz rir, não aquele riso fácil, mas um riso que leva à reflexão, ao criticar a mobilidade urbana enquanto pedala rumo ao serviço. No traçado da massa com a colher de pedreiro, percute, pá e enxada idem. O carro de mão vira carcaça. Tudo nele é bumba meu boi, embora não haja, a rigor, em cena, nada que lembre o folguedo.

João se machuca e faz promessa, como antigamente se originava a maioria dos grupos de bumba meu boi no Maranhão. Mas não soa saudosista. O monólogo critica as relações trabalhistas e mesmo não sendo encenado há cinco anos, soa atual e necessário. É um retrato do trabalhador que sua para pagar as contas e poder se divertir de vez em quando, a cada fim de semana ou temporada junina. É, pelo recorte de um brasileiro, um retrato fiel do Brasil.

Ao fim do espetáculo, Lauande cumprimentou, na plateia, Geovane (vulgo Bomba), miolo, hoje no Bumba meu boi da Madre Deus, que um dia viu subir de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, na tradicional homenagem ao santo, num 29 de junho. Tocado por sua devoção e sacrifício, acompanhou-o noutros eventos, colhendo elementos para a pesquisa que resultou nO miolo da estória.

Selecionada em edital da Ancine, a peça vai virar filme, dirigido por Lucian Rosa, com roteiro dele e Lauande Aires. As filmagens devem se iniciar em junho deste ano, em São Luís, conforme também anunciou ontem.

Pequena coleção de emoções

Foto: Rodrigo Oliveira

 

Dirigindo para o trabalho vi hoje uma cena que me botou comovido como o diabo, ave, Paulo Mendes Campos!

Um casal se beijava no canteiro central de uma avenida. Gente humilde que acabara de descer do ônibus, ao menos foi o que imaginei, a caminho do trabalho. Era uma despedida temporária, supus também, como se quisessem que o beijo fosse uma espécie de empréstimo, adiantamento da saudade que sentiriam um do outro enquanto durassem seus expedientes.

Confesso mesmo que senti vontade de parar o carro e contemplar a cena. Não fotografar. Apenas assistir, como um voyeur invulgar. Mas nem ousei por que os motoristas que, apressados como sempre, não perceberam a singularidade daquela cena, logo estariam atrás de mim, buzinando e me amaldiçoando até a quinta geração com os palavrões mais vulgares possíveis.

Adiante, pensei ser hoje meu dia de sorte: enquanto o carro deslizava sobre a ponte do São Francisco e um pequeno engarrafamento se anunciava na avenida Beira-Mar, mirei o céu e vi uma revoada de pássaros que me fez lembrar aqueles patos que migram em bando, sobretudo nos desenhos animados do Pica-Pau. Ou a memória da infância me trai?

Ando tão à flor da pele, Zeca Baleiro, que ontem fui ver uma peça teatral, um musical adolescente baseado em um filme americano que nunca me interessou. Fui ao teatro movido pelo interesse (jornalístico) na cena local, que tem proporcionado ao público interessado uma boa safra de espetáculos, o que pode ser comprovado na programação do Gema, boa sigla de Grandes Espetáculos do Maranhão (confira a programação completa), que começou no final de semana passado com a adaptação “codoense” de O auto da compadecida, da Companhia Gracielle Costa, e segue neste fim de semana com O miolo da história, de Lauande Aires, e adiante com Pai e filho, da Pequena Companhia de Teatro, Chico, eu e Buarque e João do Vale, o gênio improvável, realizações do próprio Teatro Arthur Azevedo.

High School Musical Brasil, parceria da Oficina de Interpretação SLZ com a Troupe Parabolandos (SP), a peça de ontem, é pueril como todo cinema americano que só o poema de Leminski salva: “podem ficar com a realidade/ esse baixo-astral/ em que tudo entra pelo cano/ eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano”. No fim das contas é sobre o amor e suas descobertas adolescentes. Segurei as lágrimas uma ou duas vezes. “Homem não chora”, não é, Pablo do Arrocha?

Na saída, pude comentar o espetáculo com os amigos que me acompanhavam, diante de uma cerveja gelada servida na Feira da Tralha. Sempre me ressenti da ausência de botecos nos arredores dos teatros, para que os que quisessem esticar os comentários, a noite, prosear. A Feira da Tralha não é bem um boteco, mas o sebo faz as vezes de. Ontem conversamos ao som de Janis Joplin e Raul Seixas.

A noite foi arrematada – e nós arrebatados – pela sabedoria de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela: “o dia se renova todo dia/ eu envelheço cada dia e cada mês/ o mundo passa por mim todos os dias/ enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, samba que muito cantarolei ninando José Antonio. “A natureza é perfeita/ não há quem possa duvidar/ a noite é o dia que dorme/ o dia é a noite ao despertar”.

Um brasileiro

 

O personagem de Cláudio Marconcine já está sentado, num canto, numa das quatro malas com que divide a cena em Extrato de nós, quando o público adentra a sala de espetáculos da Pequena Companhia de Teatro.

Quando a peça se inicia, ele, espécie de palhaço, demonstra impaciência, batendo o pé, depois tamborilando os dedos contra a bagagem, acompanhando o ritmo do tic tac frenético de um relógio que anuncia a chegada do trem.

O monólogo, teatro quase mudo, foi idealizado e encenado há alguns anos, mas como a melhor arte, tem algo de assustadoramente premonitório, a se concretizar no Brasil de 2019, sob a égide de uma nova ditadura, desta feita deflagrada pelo voto popular.

Os que compartilharem a impaciência inicial do personagem poderão enganar-se, ao fazer comparações com clássicos televisivos como Chaves e Os Trapalhões, com seu humor em parte inocente, de quedas e tropeços que despertam gargalhadas no público.

Boa parte do tempo de Extrato de nós se passa nesse vai e vem, na correria de alguém que tem medo de perder o trem, que foge da chuva, fuma, sente fome e tenta ler uma revista a matar o tempo. O brasileiro comum. Ameaçado pelo próprio Brasil. Com suas cores sequestradas e sua alegria idem. Em que mais que o aeroporto, a morte parece ser a única saída. Infelizmente não de causas naturais, nem a cumprir a expectativa de vida, que deve diminuir muito em breve.

Cláudio Marconcine interage com a plateia, mas sem a vulgaridade típica das comédias que buscam o constrangimento alheio diante do vazio de um humorismo que nem mereceria assim ser chamado. Ele tem elegância e tato: sente o clima e o público.

É um dos maiores atores que já vi em cena na vida. Até o aparentemente mais simples esgar, nele é minuciosamente estudado e ensaiado. Qualquer gesto seu é milimetricamente calculado e tudo aparenta naturalidade. Não à toa integra uma das maiores companhias de teatro do Brasil, a despeito do nome – que faz referência ao número pequeno de integrantes.

Extrato de nós traduz o Brasil – e os brasileiros – que insiste/m em rir, mesmo com a tragédia batendo a porta e a desgraça invadindo a casa. A nação.

Ria se/quem puder, chore quem quiser, aplauda e peça bis. O ator em cena e sua Pequena Companhia fazem jus.

Serviço

Extrato de nós terá outras duas apresentações hoje (25) e amanhã (26), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos custam R$ 30,00 (casadinha: R$ 40,00; estudantes e nomes na lista amiga pelas redes sociais da companhia pagam meia).

Espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” terá quatro apresentações em São Luís

[release]

Circulação do grupo cearense Nóis de Teatro tem patrocínio da Petrobras e acontece de 6 a 9 de dezembro em praças da capital. Apresentações têm tradução simultânea em Libras.

Foto: Luiz Alves
Foto: Luiz Alves
Foto: Augusto Oliveira
Foto: Augusto Oliveira

A discussão sobre a criminalização e perseguição da juventude negra nas periferias brasileiras dá o tom do espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, com que o grupo Nóis de Teatro, de Fortaleza/CE, circula por São Luís, com quatro apresentações gratuitas em praças da capital maranhense. A circulação tem patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura/ Governo Federal. As apresentações têm tradução simultânea em Libras.

O espetáculo é dividido em três atos e conta a história de Natanael, uma espécie de anti-herói nascido na periferia, inserido num brutal sistema de opressão e violência, realidade comum a muitos brasileiros, que, aos 18 anos, resolve ingressar nas fileiras da polícia militar. Este ator-narrador é o grande foco de “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e sua dramaturgia épica, algo como uma “tragédia afro”, é cerzida por elementos alegóricos e representativos do movimento negro no Brasil e no mundo, além de diversas referências à mitologia dos orixás.

A montagem do espetáculo do Nóis de Teatro se baseia em visitas realizadas a comunidades quilombolas do Ceará e do Maranhão, além de terreiros de umbanda e candomblé, e dialogando com movimentos sociais que pautam questões da população negra. O grupo tem sede na periferia da capital cearense, na Comunidade de Granja Lisboa, Território de Paz do Grande Bom Jardim.

Trajetória – Com 16 anos de fundação, o grupo Nóis de Teatro tem construído uma ação continuada no que diz respeito à circulação de espetáculos, oferta de cursos, intercâmbios e oficinas de teatro e percussão, contribuindo de forma significativa para a formação de plateia, incentivando crianças e jovens ao fazer artístico e à reflexão, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” venceu o Prêmio Funarte de Arte Negra, o que garantiu o trabalho de pesquisa, construção e montagem do espetáculo. Dirigida por Murilo Ramos, a peça tem concepção geral, dramaturgia e assistência de direção de Altemar Di Monteiro, que também integra o elenco, que se completa com Jefferson Saldanha, Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Henrique Gonzaga, Amanda Freire e Maurício Rodrigues. A produção local é de Andressa Cabral, da Mará Cult Produções.

Serviço

Em São Luís, o espetáculo será apresentado dias 6 (Praça Nauro Machado, Praia Grande), 7 (Praça dos Catraieiros, Casa do Maranhão, Praia Grande), 8 (Praça da Ressurreição, Anjo da Guarda) e 9 de dezembro (Largo do Desterro), sempre às 19h. Todas as apresentações são gratuitas. Dias 6 e 7 de dezembro, das 9h às 13h, o grupo realiza uma oficina para artistas da cidade, no Teatro Itapicuraíba (Anjo da Guarda). Dia 8, no mesmo local e horário, acontece um encontro com um grupo local, para intercâmbio e oficina.

FICHA TÉCNICA

Coordenação Geral – Altemar Di Monteiro
Direção ­– Murillo Ramos
Dramaturgia e Assistência de Direção – Altemar Di Monteiro
Elenco – Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Altemar Di Monteiro, Henrique Gonzaga, Amanda Freire, Carlos Magno Rodrigues e Maurício Rodrigues
Contrarregragem – Bruno Sodré, Nayana Santos e Edna Freire
Cenografia – Jefferson Saldanha
Figurino ­– Miguel Campelo
Bonecos – Carlos César
Adereços – Pádua Oliveira
Maquiagem – Kelly Enne Saldanha
Preparação Vocal – Danilo Souto
Preparação Canto – Juliana Veras
Produção – Nóis de Teatro

Um teatro na contramão

 

Fotos: Ascom/Sesc/MA

Alvíssaras! Em concorrida solenidade o Sesc inaugurou ontem (7) o mais novo equipamento cultural de São Luís, como apregoou a campanha publicitária pendurada em outdoors e traseiras de ônibus: o Teatro Sesc Napoleão Ewerton, localizado no Condomínio Fecomércio/Sesc/Senac (Av. dos Holandeses).

Mais importante ainda: sua completa acessibilidade. Um bom percentual dos 245 lugares do teatro é reservada a pessoas obesas e há oito espaços para cadeiras de rodas, rampas de acesso, piso tátil e banheiro adaptado. Tudo o que foi apresentado ontem contou com tradução simultânea em libras e audiodescrição: das falas das autoridades do assim chamado Sistema S às apresentações musicais da Orquestra Filarmônica Sesc Musicar e da cantora Flávia Bittencourt – que, acompanhada do músico Carlos André (sanfona e bases eletrônicas), apresentou uma espécie de redução de Eletrobatuque, show que lançará em dvd em breve –, às intervenções teatrais, que homenagearam o falecido ex-presidente da Fecomércio que batiza o lugar e nomes como a atriz Apolônia Pinto e a escritora Maria Firmina dos Reis, entre outros.

Entre as autoridades presentes, os secretários municipais Marlon Botão (Cultura) e Socorro Araújo (Turismo) somaram-se a representantes da classe artística maranhense e servidores do Sesc – sobretudo de seu Departamento de Cultura – para prestigiar a inauguração, numa demonstração da importância que tem o Serviço Social do Comércio no fazer cultural do Brasil, configurando-se no mais importante organismo não estatal do país na área. Não à toa é comum ouvirmos referências ao Sesc de São Paulo, por exemplo, capitaneado pelo gigante Danilo Santos de Miranda, como uma espécie de “ministério da Cultura paralelo”.

“A Cultura no Sesc se caracteriza como ferramenta democrática de difusão de conhecimento possibilitando a educação transformadora da sociedade, por meio de projetos e ações voltados para as áreas de biblioteca, música, dança, teatro, circo, audiovisual, artes visuais e literatura objetivando a formação de seus diversos públicos”, diz um trecho da Apresentação, em folder distribuído aos presentes, ontem.

Há muito para se comemorar com a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, em São Luís. Inclusive pelo momento em que acontece, quando as ações culturais empreendidas pelo Sesc estão sob ameaça do governo federal recém-eleito – que nutre pouco ou nenhum apreço por diversas palavras(-chave) do parágrafo anterior –, sobre o que o próprio Miranda se manifestou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Só os projetos institucionais da entidade certamente já garantiriam ocupação qualificada do espaço inaugurado ontem, mas a pauta será aberta a agentes culturais em geral, observando-se os princípios que regem as ações do Sesc: atendimento a seu público prioritário (trabalhadores dos setores de comércio, serviços e turismo), mas não só, gratuidade ou ingressos a preços populares, entre outros.

Por falar em programação, ela já começa intensa: amanhã (9), às 18h30 a Klinger Trindade Cia./AM apresenta o espetáculo Pneumático [classificação indicativa: livre; duração: 60 minutos]; dia 10 (sábado), às 16h30, a Companhia Cambalhotas apresenta Os Saltimbancos [livre; 60 minutos], esta última integrando a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Algo a ser comemorado não apenas por São Luís e seus artistas, que ganham um novo espaço, na contramão do que se desenha para o Brasil, com a dilapidação de instituições – o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a ventilada extinção do Ministério da Cultura, para ficarmos em apenas dois exemplos –, a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton reafirma a importância e dá a real dimensão do quão imprescindível é o Sesc para a cultura brasileira.

Um palhaço brasileiro

Foto: Zema Ribeiro

 

​”Era uma vez uma boca de fumo. Nessa boca de fumo havia drogas e doces. Chapeuzinho Vermelho encheu uma cesta de doces, botou na garupa de sua bizinha para levar para a vovó e saiu pilotando pela floresta. No meio do caminho apareceu o lobo. “O que tem na garupa, Chapeuzinho?”, perguntou. “Doces para a vovó”. “Me dá a metade?”. “Não posso, são para a vovó”. O lobo insistiu, pedindo quantidades menores, até arrematar: “Se você não me der os doces, eu pego um atalho, chego antes de você na casa da vovó, mato ela e toco o terror em você; todo mundo conhece a história, vem o caçador e me mata. Dois homicídios por causa de um punhado de doces. É isso que você quer para sua vida?”.

O palhaço Klaus (Márcio Douglas) atualiza a história infantil para os perigosos ares que o Brasil respira no momento. Para bom entendedor, uma fábula basta. Foi longamente aplaudido pelo ótimo público presente ao Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde foi apresentado ontem (24) o espetáculo da La Cascata Cia. Cômica, de São José dos Campos/SP, integrando a programação do Palco Giratório, do Sesc. E arrematou, irônico, para a plateia novamente irromper em aplausos: “isso sim é uma história infantil: ninguém morre!”.

Klaus é um palhaço aposentado. No monólogo tragicômico ele compartilha sua experiência animando festas infantis. O palhaço é uma metáfora: alvo de toda sorte de preconceitos e violência. Politicamente incorreto, a personagem bebe e fuma em cena. Beira o desalento. Logo de cara, adverte: “quem está em busca de algo lúdico, algo mágico, pode ir embora”. Soa cruel, mas é apenas sincero.

Animo festas, o espetáculo, se vale do universo infantil para debater temas em torno das relações de trabalho: qualificação, violência, preconceito, assédio, direitos. E também realização e felicidade: não à toa a pergunta “você é feliz?” aparece diversas vezes no texto, dirigida ao palhaço, quando ele relata encontros com pessoas diversas após as festas.

Hábil ao embrulhar estes questionamentos no “inocente” mundo das crianças, Klaus provoca gargalhadas na plateia durante o espetáculo inteiro. Beira o nonsense quando, por exemplo, saca um canivete ao ameaçar as “crianças” (dois adultos escolhidos aleatoriamente em meio ao público) para que deixem a aniversariante (outra adulta idem) vencer o jogo da dança das cadeiras – quando joga luz sobre outro assunto em voga no Brasil: a corrupção.

“Todo DJ é um “filha” da puta”, provoca: “a gente pede uma música, ele sempre toca outra. O DJ é aquele cara que não aprendeu a tocar um instrumento, mas teve dinheiro pra comprar o equipamento”, ataca. Provocar é uma especialidade de Klaus, que vai parar numa penitenciária após provocar um policial. É outra história em que se equilibra entre o hilariante e a denúncia social, a debater a questão carcerária, tema sempre urgente e quase sempre escamoteado, não apenas no período eleitoral.

Vez por outra, a palavra palhaço é injustamente usada como xingamento. Klaus define a si mesmo como um palhaço profissional. Ousa peitar contratantes, aniversariantes e quem mais achar que deve em nome de sua dignidade, que não desaparece sob uma camada de tinta e maquiagem. Ao contrário de muitos (não apenas palhaços) que se deixam tanger como gado para o abatedouro, ele dá um importante alerta a quem, por ação ou omissão, em nome de valores no mínimo dúbios, se arrisca a abdicar de seus próprios direitos. Klaus é brasileiro e se reinventa para existir e resistir.

Serviço

O grupo La Cascata Cia. Cômica apresenta hoje (25), às 17h, o espetáculo Precisa-se de um mané, no Cine Teatro Aldo Leite (Palacete Gentil Braga, Rua Grande, 782, Centro). A entrada é gratuita. A programação integra o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

Ainda queima a esperança

A lona do circo da Turma do Biribinha. Foto: Zema Ribeiro

 

Termina amanhã (17) em São Luís a programação do Sesc Circo.

Na programação do Palco Giratório, que antecedeu o Sesc Circo, vi um espetáculo, quinta-feira passada (12), intitulado Magia. Era da Companhia Teatral Turma do Biribinha, de Alagoas, e unia, com simplicidade e competência, os ambientes mágicos do circo e do cinema.

Teófanes Antônio Leite da Silveira, o palhaço Biribinha, completa 60 anos de carreira em 2018. Em Magia, convida pessoas da plateia a interagir com ele no palco, longe de qualquer possibilidade de constrangimento – não faltaram, aliás, candidatos, sob a lona absolutamente lotada.

O espetáculo é um conjunto de esquetes que homenageiam do Gene Kelly de Cantando na chuva ao Charlie Chaplin de tantos clássicos do cinema mudo, passando também pelo universo do faroeste, entre outros.

Diversão e risos garantidos, além de uma viagem à infância e ao universo lúdico do picadeiro, de que o palhaço é senhor absoluto, ainda mais no caso de Biribinha de Arapiraca.

Com classificação indicativa livre, havia muitas crianças na plateia, mas criança não anda só. A determinada altura, enquanto agradecia os que participavam de um esquete e recrutava outros para o próximo, disse a um jovem que deixava o palco: “desça! E leve o Temer junto!”, para gargalhada geral.

Há quem ache que arte e política não se misturam e este que vos perturba mesmo chegou a ver quem tentasse censurar os poetas Celso Borges e Fernando Abreu pela Noite Lula Livre, que realizaram na quinta anterior (5), no Chico Discos, vendendo pôsteres com poemas de sua autoria aludindo ao sequestro político do líder das intenções de voto em qualquer pesquisa eleitoral – ambos estão no livro Lula Livre, que sai este mês, organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire, com entre outros, Aldir Blanc, Augusto de Campos, Caco Galhardo, Carlos Rennó, Chico César, Frei Betto, Juvenal Pereira, Laerte e Xico Sá.

Há quem pense que tergiverso e mude de assunto. Não. A Turma do Biribinha e a palavra que dá título a seu espetáculo tiveram mesmo a capacidade de encher de esperança (roubei o título de um antigo sucesso de Raul Seixas na voz de Diana) os ludovicenses que (ainda) creem na arte e na política – juntas ou separadas: durante o tempo em que estiveram na cidade, armaram literalmente um circo (onde Magia foi apresentado) ao lado do Terminal de Integração da Praia Grande, relembrando o saudoso Circo Cultural Nelson Brito, o Circo da Cidade, para os íntimos, retirado da população no fim do mandato do ex-prefeito João Castelo (1937-2016) e nunca devolvido.

Teatro fantástico

Cláudio Marconcine e Jorge Choairy em cena em Velhos caem do céu como canivetes. Foto: divulgação

 

A curta temporada de Velhos caem do céu como canivetes encerrada ontem (4) marcou seu retorno à São Luís, após circulação por cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, pelo programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A peça está há cinco anos em cartaz e inicio este texto com uma espécie de mea culpa: como é que eu nunca a tinha visto antes?

Essa, aliás, deve ser a reação de qualquer um/a que assista esta ou qualquer peça da Pequena Companhia de Teatro pela primeira vez – foi o impacto que me causou, por exemplo, a também ótima Pai e filho, baseada em Carta ao pai, de Franz Kafka. A de ontem é baseada no conto Um senhor muito velho com suas asas enormes, de Gabriel García Marquez. Para o segundo semestre de 2018 o grupo anuncia uma adaptação teatral de Jorge Luis Borges.

A transposição de gêneros marca o trabalho da Pequena Companhia de Teatro e uma característica interessante, tanto de Pai e filho, quanto de Velhos caem do céu como canivetes, é o livre exercício da imaginação de Marcelo Flecha, dramaturgo autor de ambos os textos. A Carta ao pai kafkiana, nunca enviada, é originalmente um monólogo, obviamente, por tratar-se de epístola – ainda que nunca enviada; no conto do colombiano, a criatura alada que cai em um quintal não fala.

São os diálogos a grande força do fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Tanto Pai e filho quanto Velhos caem do céu como canivetes, ambas encenadas por Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, são basicamente conversas. Mas não há espaço para conversa fiada na obra de Flecha, embora na segunda haja espaço para um humor, ao menos a quem se dispõe a rir de si mesmo – e que fecho sensacional!

Digo basicamente conversas, mas é necessário apontar que isto não significa descuidar de todos os outros detalhes que compõem a cena: cenário, figurino, maquiagem, vozes, trejeitos, trilha sonora, iluminação, tudo a serviço do texto, da atuação do par de atores. A Pequena Companhia de Teatro só é pequena no nome e no número de componentes – além do trio já citado completa o time a diretora de produção Kátia Lopes. Esta trupe não apenas faz teatro: acima de tudo, pensa teatro.

Uma criatura alada cai, não se sabe de onde ou de quando, no quintal de um catador de materiais recicláveis. O embate se inicia com a estranheza do anfitrião à força, que não sabe se seu hóspede é um anjo, um demônio ou um frango – alucinação possível motivada pela fome. Sem nada para comer ou dar de comer, é tão somente uma lata d’água que ele oferece ao curioso e improvável visitante.

Velhos caem do céu como canivetes tem um caráter distópico e metafórico: não somos nós mesmos este catador de materiais recicláveis, ex-artista plástico? Ex por que estes foram banidos no tempo da ação, um futuro, breve ou distante, ou a égide do ilegítimo, não sabemos precisar. Tudo é muito bem costurado na trama de Flecha e aqui e ali pipocam críticas à sociedade de consumo, a governos ilegítimos, religiões e a mazelas como a fome, num texto também sobre exílios: a criatura alada fora de seu habitat e o catador exilado de sua condição de pessoa humana, sem o básico para sobreviver. Mas que fala bonito, como reconhece o visitante. “Leio”, o anfitrião usa o mesmo verbo para responder a diversas perguntas daquele, citando livros e dicionários que também catava.

Longe de hermética, para ver ou entender a peça não é preciso ter lido o texto original no qual se baseia Velhos caem do céu como canivetes. Mas é necessário estar disposto/a a pensar, a refletir, condição válida em qualquer encenação da Pequena Companhia de Teatro, uma verdadeira escol(h)a de resistência, a começar pela opção de manter uma sede – e ali encenar, inclusive às segundas-feiras – no Centro Histórico da capital maranhense, quando muitos têm feito um percurso contrário, mas este é outro assunto.

Máquina teatral

Automákina na Praça da Casa do Maranhão, ontem (2). Foto Raquel Durigon

 

Não há uma palavra em Automákina – Universo deslizante, apresentado ontem (2) na Praça da Casa do Maranhão. Espetáculo/instalação, uma engenhoca gigante, com que contracena Luciano Wieser, o Duque de Hosain’g, misto de carroça e castelo, é abrigo de um misto de bruxo (com os cabelos a la Ravengar), cientista louco e pescador.

Uma vaca alada encima a engenhoca, com oito metros de altura, fazendo girar um móbile – a montagem da estrutura, com cerca de cinco horas de antecedência ao início do espetáculo já fazia parte dele.

O conde adentra a cena calçando pesadas botas e sobe e desce por entre as ferragens, para deleite da plateia, sobretudo da criançada presente à praça. Bonecos autômatos pedalam bicicletas acopladas à engrenagem e interagem com o ator, ensimesmado em um universo particular – que ele mesmo, pedalando, faz entrar em cena. Deslizando.

Qual a estrutura, a trilha sonora é um espetáculo à parte, uma espécie de ópera-milonga-pós-moderna. Ver Automákina é uma experiência que induz o espectador a reflexões sobre a solidão, a criatividade, a fantasia, o amor e, por que não?, o momento político conturbado que o país atravessa.

Companhia teatral familiar, o grupo De Pernas Pro Ar, com sede em Canoas, no Rio Grande do Sul, já conta 30 anos de atividades, e chegou à São Luís com patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet. No conturbado momento por que passa o Brasil, o caminhão com seus equipamentos chegou a ficar parado por nove dias no Tocantins – motivo pelo qual a apresentação de Automákina precisou ser adiada. Rodrigues, o motorista, foi saudado como herói e aplaudido de pé pelo ótimo público presente.

Em São Luís, integrantes da companhia realizaram intercâmbio e a oficina “O ator inventivo”. Daqui, seguem para Candeias e Ilhéus, na Bahia. O grupo teve sua A última invenção selecionada no edital Rumos, do Itaú Cultural. Esta contará com 10 maquinarias em cena.

A fome e outros dramas humanos

Cena de Caranguejo Overdrive no programa da peça. Reprodução

 

SÃO PAULO – O ambiente é enfumaçado, ajudando a criar certo clima de podridão, durante pouco mais de uma hora em que o público vai conviver com o drama de Cosme, homem-caranguejo, para evocar o clássico do pernambucano Josué de Castro, uma das inspirações de Caranguejo Overdrive, peça de Pedro Kosovski (autor da ótima Cara de Cavalo), com Aquela Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, em cartaz no Teatro Caixa Cultural (Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo/SP), de quinta a domingo (até 1º. de abril), às 19h15, com entrada franca (os ingressos podem ser retirados no dia das apresentações, a partir das 9h).

Um power trio – guitarra, baixo e bateria – executa a trilha sonora ao vivo, reverenciando Chico Science e Nação Zumbi, como de resto todo o movimento MangueBit, as outras referências fundamentais de Caranguejo Overdrive. O texto e as atuações são fortes, num roteiro carregado de denúncia social contra toda uma ordem de desmandos dos poderosos.

Cosme é um ex-combatente do exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando volta a seu lugar de origem, onde havia sido catador de caranguejo, o mangue não existe mais, aterrado em nome do progresso. Qual os bichos que outrora lhe deram sustento, Cosme não tem mais como viver. É um personagem à beira de um colapso, entre policiais insensíveis (quase uma redundância) e uma prostituta – personagens típicos de zonas (perdão do trocadilho) portuárias.

O espetáculo é bem humorado – seria cômico se não fosse trágico – ao refazer a trajetória do Brasil desde a abertura, apontando idiossincrasias de nossos governantes e dos que os rodeiam. Ao biografar o país, os atores dAquela Cia. fazem verdadeiras caricaturas ao vivo de todos os ocupantes do Palácio do Planalto. De José Sarney ao ilegítimo, ninguém escapa do humor ferino e da crítica afiada de Kosovski.

Em cena, um homem se transforma literalmente em caranguejo, o corpo nu coberto de lama, que ele mesmo prepara durante o desenrolar dos acontecimentos. É importante frisar: sempre há ao menos duas ações transcorrendo simultaneamente em Caranguejo Overdrive, o que exige atenção e escolhas por parte da plateia. E, portanto, participação.

“Vocês pensam que é confortável ficar tanto tempo assim?”, ele indaga à plateia, referindo-se à posição incômoda em que se mantém durante certo tempo, demonstrando ótimo preparo físico, mas no fundo fazendo uma metáfora à fome e à inanição a que o personagem foi condenado. “Este corpo de lama que tu vê é apenas a imagem”, volta a Chico Science.

O dedo cavouca uma ferida que o Brasil havia superado, a fome, a cujo mapa o país foi devolvido pelos golpistas de plantão, que tomaram o poder de assalto. A fome, cujo primeiro tratamento sociológico e acadêmico foi dado justamente por Josué de Castro, autor de, entre outros, Geografia da fome e da ficção Homens e caranguejos. O texto do programa, aliás, afirma o desejo da companhia de que esta temática abordada em Caranguejo Overdrive se torne datada.

Com a pose prolongada do ator, a peça também debate, de modo sutil, o próprio fazer teatral: emular um caranguejo é dureza, como escrever e encenar espetáculos consistentes, longe do riso fácil e/ou de artistas consagrados em emissoras de televisão.

Caranguejo Overdrive é dinâmica e, como a lama metafórica de sua concepção e execução, incorpora os detritos sociais que são, afinal, elementos de denúncia do texto de Kosovski. À encenação a que assisti (sexta-feira, 23), por exemplo, já comparecia o assassinato brutal e covarde da vereadora carioca Marielle Franco, num dos momentos mais impactantes (e não são poucos) da peça.

Ousadia e atualidade

Maria e o Cristo, morto e nu. Foto: Valdeir Limaverde/ Divulgação

 

Paixão segundo nós é um espetáculo ousado. Se já o era quando de sua primeira encenação, há quase 30 anos, o momento político nefasto que atravessa o Brasil torna-o ainda mais.

O espetáculo gira em torno do julgamento de Cristo (Luís Ferrara), com Pôncio Pilatos (Domingos Tourinho) entre a angústia e o desespero da sentença que condena o protagonista.

Tácito Borralho (texto, direção e cenografia), sobre textos de Gibran Khalil Gibran, do Evangelho segundo Mateus e dos Evangelhos apócrifos, traz inevitavelmente o martírio de Cristo para a reflexão sobre as fake news (no fundo um eufemismo para mentiras) e a inversão de valores que se tornou comum em nossos tempos.

O espetáculo da Coteatro humaniza o Cristo, como trazendo-o à nossa realidade. Em ano de Copa do Mundo, mas não só, costumeiramente se apregoa por aí que Deus é brasileiro. Em Paixão segundo nós, mais que nunca: Cristo é negro, o diabo é homem (Raimundo Reis) e mulher (Isa Everton), Maria (Lúcia Gato), mãe de Cristo, também é negra.

A dramaturgia de Tácito Borralho corajosamente nos faz lembrar que o filho de Deus era, no fundo, um defensor das minorias – ou dos direitos humanos, expressões que causam reações quase sempre virulentas nos que se dizem cidadãos de bem.

ServiçoPaixão segundo nós estreou hoje (27), Dia Mundial do Teatro, e fica em cartaz amanhã (28) e quinta-feira santa (29), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia entrada para estudantes e demais casos previstos em lei).

Conflito kafkiano – e a resistência quixotesca da Pequena Companhia de Teatro

O diretor Marcelo Flecha ladeado pelos atores Cláudio Marconcine (E) e Jorge Choairy. Foto: Rose Panet

 

Ontem, ao fim da sessão de Pai e filho, quando teve início o debate com o diretor e o par de atores da peça, calei. Não era apenas o receio de antecipar algo deste texto. Era o impacto do espetáculo.

Ninguém é obrigado a participar do debate. Ao fim da apresentação, a porta é aberta, mas o exercício é interessante: Marcelo Flecha (dramaturgia e direção), Cláudio Marconcine (o pai) e Jorge Choairy (o filho) bateram um papo informal com o bom público presente à sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande; lotação: 45 lugares). Mais que “gente do teatro”, são pensadores do Teatro, com T maiúsculo.

A noite de ontem foi histórica: estava presente o espectador número 10.000, após 148 apresentações de Pai e filho em 62 cidades de 22 estados brasileiros, desde 2010, quando a peça foi encenada pela primeira vez. Pode parecer pouco, mas o Teatro da Pequena Companhia de Teatro é realizado para pequenas plateias e também por isto merecem aplausos estes quixotes.

Baseada na Carta ao pai, de Franz Kafka, Pai e filho mereceu todos os prêmios que conquistou, e não foram poucos: Myriam Muniz/Funarte e Sated Maranhão, para citar apenas dois, além da participação em diversos festivais e mostras. Foi o primeiro espetáculo maranhense selecionado para o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Volto a mim, ao fim do espetáculo. A primeira sensação foi a de tempo perdido: como pude levar tanto tempo para ver a peça?

Este texto, agora, diz tudo o que eu poderia ter dito ontem ao trio (bem como aos demais integrantes da Pequena Companhia de Teatro), mas não o fiz.

A começar pelos parabéns pela transposição da literatura ao palco. Se adaptações em si já não são fáceis pelas comparações quase sempre sem sentido – o livro é fiel à peça? A peça é melhor que o livro? Ora, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas a adaptação de Flecha é feliz ao transformar uma carta não enviada pelo escritor a seu pai, ou seja, um monólogo, já que, se não foi enviada, não teve resposta, em um diálogo.

Intenso diálogo, diga-se. Marconcine e Choairy agigantam-se no palco. Sua entrega é tamanha, suas máscaras estão para muito além da maquiagem. Um deles, cito de memória, revelou, em entrevista ao Balaio Cultural, programa que tenho a honra de apresentar na Rádio Timbira AM, com Gisa Franco por companheira de bancada, que na dramaturgia de Flecha não há um fio de cabelo fora do lugar.

É impressionante como isso diz bastante sobre o que vi ontem. Mais que vi: senti.

O pai é um lojista-alfaiate e o filho um escritor, “o intelectual”, como desdenha ironicamente o primeiro. Eles estão o tempo todo em movimento, quem ainda não viu não perca tempo imaginando, pensando em monotonia ou coisa que o valha, longe disso.

Não há excessos, mas em cena, Marconcine e Choairy parecem vestir não só outros corpos, mas outras vidas. Está tudo milimetricamente calculado: as vozes e trejeitos de um e de outro, a lida do pai com linhas e panos e do filho com livros e cadernos.

“Por que você tem medo de mim?”, a pergunta do pai norteia o diálogo, recheado de violência, pontuado de bom humor, não o do riso fácil e gratuito e por isto Pai e filho merece mais aplausos: a longevidade de um espetáculo que não é entretenimento puro e simples.

Os personagens travam uma conversa – ou tentativa de – em que os argumentos se anulam. O pai quer sempre ter razão, mesmo sendo incoerente, e o filho, se/quando responde, se arrepende e pede desculpas. Ou simplesmente silencia.

O poeta Roberto Piva dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental. A julgar por esta carta levada ao palco, a própria vida de Kafka foi kafkiana, o autor já praticava a autoficção tão em voga atualmente.

Pai e filho é uma metáfora das relações familiares e sociais, uma crítica a hierarquias e a estruturas de poder convencionadas. Um convite à rebeldia – como é o próprio fazer artístico da trupe da Pequena Companhia de Teatro, a quem desejamos teimosia e merda!

Serviço

Pai e filho tem duas novas sessões hoje (4) e amanhã (5), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, meia hora antes de cada sessão, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Hilário e comovente

Foto: Zema Ribeiro

 

Goste-se ou não do ABBA, o grupo sueco está nos escaninhos da memória coletiva mundial: basta tocar um de seus hits no rádio para fazermos uma viagem particular no tempo, lembrando da infância, dos discos que nossos pais ouviam, ou de versões como Fernando, sucesso no Brasil com a paraguaia Perla.

É a este universo que nos conduz Mamma Mia!, “o musical baseado nos hits do ABBA”, como anuncia o programa. A peça tem direção musical de Paulo Cardoso, direção geral de Josué da Luz e coreografia de Rebeca Carneiro.

Com grande elenco – são 26 atores no palco – a Vertu Casa de Artes, após êxitos de público com A bela e a fera (três sessões esgotadas no Teatro Arthur Azevedo em 2015) e A família Adams (duas em 2016), encenou ontem (3), também para um TAA lotado, o musical com composições de Benny Andersson e Björn Ulvaeus – a metade masculina do ABBA, autores dos hits do roteiro. O grupo que se completava com Anni-Frid Lyngstad e Agnetha Fältskog, sendo o nome do grupo um acrônimo com as iniciais dos nomes de seus integrantes –, e versão brasileira de Claudio Botelho para o libreto de Catherine Johnson, já adaptado ao cinema em 2008, com direção de Phyllida Lloyd e Meryl Streep no papel de Donna Sheridan.

São duas horas de espetáculo, em dois atos, com a memória afetiva passeando por versões em português (são raros os números cantados na língua original) de sucessos radiofônicos como I have a dream, Honey, honey, Money, money, money, Chiquitita, Dancing queen, S.O.S., The winner takes it all e Waterloo, além da música que dá nome ao espetáculo, entre muitas outras.

Entre os números musicais costura-se a trama da comédia, de não poucos momentos de gargalhadas gerais: Sophie (Lara Sabbag), de 20 anos, mora com a mãe, Donna Sheridan (Jéssica Monteiro), dona de um pequeno hotel nas ilhas gregas, onde se passa toda a história. Lendo o diário da mãe, descobre que esta teve relacionamentos com três homens – Sam Carmichael (Leonardo Fernandes), Bill Austin (João Carvalho) e Harry Bright (Nestor Fonseca) – e, por conta própria, convida os três para seu casamento, a fim de descobrir qual deles é seu pai e ser levada até o altar.

Também merecem destaque as atuações hilariantes de Kerlys e Bricia Queiroz, que interpretam Tanya e Rosie, amigas de Donna, com quem tiveram uma banda na juventude, além dos Pedros Monteles (Sky, noivo de Sophie) e Danilo (Pepper, empregado do hotel de Donna).

Entre as angústias em torno da descoberta da paternidade de Sophie, muitas lembranças do passado vêm à tona, nesta comédia romântica que emociona e faz sorrir – nunca em doses pequenas.

Serviço

A Vertu Casa de Artes apresenta hoje (4), às 19h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), a última sessão de Mamma Mia! Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam entre R$ 25 e 40.