Buscas e reflexões

Reprodução
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Em determinada altura do espetáculo, já não sabemos se Orlando é homem ou mulher. E isto pouco importa. Uma das facetas desta peça do repertório do Grupo Expressões Humanas, de Fortaleza/CE, é justamente fazer o espectador se perguntar onde mora, onde guarda seu preconceito.

Três atores em cena e um músico (ou eu deveria dizer quatro atores?) – Juliana Veras, Marina Brito e Murilo Ramos, mais Zéis –, um cenário enxuto, com cabides com roupas que serão usadas ao longo do espetáculo – e oito figurantes, previamente escolhidos pela produção. Acompanhamos a jornada da protagonista, do protagonista, em busca dos sentidos da vida, da arte, do amor. Do sexo.

O espetáculo é baseado em Orlando: uma biografia, de Virginia Woolf, que se inspirou parcialmente na vida íntima de Vita Sackville-West, amante da escritora. O texto já teve também adaptação cinematográfica. Esta, de fôlego (são cerca de duas horas de espetáculo), em cartaz em São Luís de ontem (6) a amanhã (8), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), leva assinatura de Rafael Barbosa e Herê Aquino, que a dirige.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, acompanhando as viagens da quixotesca personagem, nascida homem na Inglaterra, acordada mulher na Turquia, atravessando mais de três séculos, com elementos do barroco, da música medieval, pitadas de canto gregoriano e ecos de vanguarda paulista.

Orlando tem ares de comédia, sobretudo quando o grupo tira sarro com a arte contemporânea, experimental, e com o seu próprio fazer artístico e a própria circulação, patrocinada pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura – aprovada ainda antes dos sistemáticos ataques e cortes do governo neofascista de Jair Bolsonaro.

Para rir (para não chorar) e pensar, como tem sido sempre necessário, num Brasil novamente respirando ares militares.

Serviço:

Divulgação
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O Brasil na lama: um retrato

Foto: Marla Batalha

 

Uma peça é uma peça é uma peça. Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski, encenada pela companhia carioca Aquela Cia. de Teatro, com direção de Marco André Nunes, é uma peça impactante. Por vários motivos, a começar pelos caranguejos para além do título – também há areia e lama –, a princípio em uma gaiola, depois interagindo com os sete atores em cena.

Vi a peça em São Paulo, em março do ano passado, e poderia dizer tratar-se da mesma peça, antenadíssima com o atual momento político vivido no Brasil – naquela ocasião já trazia à cena o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido poucos dias antes. Agora acompanha a tragédia brasileira até o governo Bolsonaro.

Com um power trio em cena fazendo ao vivo a trilha sonora do espetáculo, evocando a memória e grandeza de Chico Science, Caranguejo Overdrive conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos num mangue aterrado que vai à Guerra do Paraguai, nas fileiras do exército brasileiro. Quando volta, ajuda a explicar o falso patriotismo que rege o atual governo militar/izado. “Éramos uma multidão de famintos, analfabetos, sem disciplina”, diz ele, já sem saber se é homem ou caranguejo, ave, Josué de Castro!

Cosme tem distúrbios mentais, decorrentes da violência aprendida no campo de batalha e da fome. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo, é um resumo do Brasil: não há mais mangue, aterrado, não há mais alimento para os miseráveis, que têm que se contentar com excrementos, até a inanição e a consequente morte.

O ex-combatente é um deles, que tem que sucumbir a constantes e vexatórias abordagens policiais, um estranho em sua própria pátria. Através de sua figura e de uma prostituta, personagens comuns em zonas portuárias, Caranguejo Overdrive perpassa a história do Brasil a partir do que de mais ridículo e caricato há em cada governante, desde Getúlio Vargas, passando pelos militares até os eleitos após a redemocratização, chegando novamente ao militar, com a prostituta que serve de guia ao homem-quase-caranguejo, cujo fio de humanidade aos poucos se esvai. Ela narra diversos episódios em espanhol – foi arrancada violentamente do Paraguai natal.

Caranguejo Overdrive ironiza ainda a eterna insuficiência de recursos para a área cultural, agravada no presente governo com a extinção do Ministério da Cultura – a circulação da peça, que se encerra em São Luís, após passar por Belém e Teresina, é apresentada por um genérico Ministério da Cidadania, com patrocínio da Petrobras.

O texto debate temas que parecem ser eternos no Brasil, apesar de muita gente fingir acreditar que a corrupção é uma invenção recente no país. Uma miríade de assuntos que torna a peça atual e necessária: obras superfaturadas e inacabadas, megaprojetos sem discussão e planejamento necessários, remoções forçadas de populações, violência urbana, saúde mental, ausência do Estado.

Para quem não está dando conta de acompanhar as notícias do hospício nacional, uma curiosidade: o tempo todo, ao longo de hora e meia de espetáculo, há sempre pelo menos duas ações se desenrolando simultaneamente no palco, o que convida o espectador a um processo de edição (“a memória é uma ilha”, ave , Wally Salomão!): só assim se pode tentar dar conta do Brasil.

Serviço

Caranguejo Overdrive tem última sessão hoje (6), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Somente 100 ingressos – a plateia assiste ao espetáculo no palco do teatro, disposta em meia lua. Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro uma hora antes da apresentação.

Você tem medo de quê? Você tem ódio de quê?

Foto: Zema Ribeiro

 

​Duas portas de rolo são levantadas e de trás delas saem duas travestis a se somar à que​​ já está no palco — ao todo são seis em cena. Teatro, canto, dança e música conduzem os espectadores por seu universo.

A rua, a noite, o medo. O bullying na infância, o preconceito dentro e fora de casa, da família, a violência. Paisagens e temas que compõem a vida de qualquer travesti.

Quem tem medo de travesti, de Silvero Pereira e Jezebel De Carli, é um exercício de pensar em como lidamos com o diferente, uma peça urgente diante da licença para matar minorias traduzida na política armamentista do governo federal.

Mulher Barbada, Denis Lacerda, Patrícia Dawson, Diego Salvador, Ítalo Lopes e Verònica Valenttino em cena travestem-se várias vezes. O figurino, de Antônio Rabadan, é um luxo. Os jogos de sombras ajudam a descortinar as várias situações de uma população em geral enxergada como sub-cidadã (inclusive, ou principalmente, pela hipocrisia dos “cidadãos de bem” que desfrutam de seus serviços). O texto joga luz sobre esse grupo vulnerável, que mais que invisível, é alvo fácil do ódio.

A dramaturgia conduz à reflexão mas consegue fazer sorrir, fazendo-se valer de piadas do universo homoafetivo, sem nunca precisar descambar para o politicamente incorreto, além do pajubá, o código linguístico particular da população LGBTQI+ (mas não só), que tanto incomodou o homofóbico presidente da república ao ser tema de questão do último Enem.

Medo é uma palavra central em Quem tem medo de travesti. Nem sempre travestis podem perdê-lo antes de tombarem, vítimas da violência, agora infelizmente legitimada. Mas o espectador pode perder seu medo e ir assistir o espetáculo.

Serviço

A circulação de Quem tem medo de travesti integra o projeto Travestis Itinerantes, do Coletivo Artístico As Travestidas, selecionado pelo programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural, e conta com mesa redonda, oficina e encenação. Hoje, às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) acontece a última apresentação em São Luís. Os ingressos custam R$ 20,00 (meia para estudantes com carteira: R$ 10,00). Daqui o grupo segue para Belém/PA (dias 20 e 21 de maio na Estação Gasômetro) e Imperatriz/MA (25 e 26 de maio, no Teatro do Sesc Palmas).

Você tem medo de travesti?

Coletivo Artístico As Travestidas se apresenta em São Luís. Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com o diretor Silvero Pereira.

Cena de Quem tem medo de travesti. Foto: Leonardo Pequiar

O espetáculo Quem tem medo de travesti está em circulação pelo Brasil e este mês chega a Belém/PA, Imperatriz/MA e Palmas/TO – depois de São Luís (entre amanhã e quinta-feira, 16). Segundo o material de divulgação, as cidades foram escolhidas pelos altos índices de violência contra a população LGBTQI+.

O Coletivo Artístico As Travestidas está em circulação com o projeto Travestis Itinerantes, contemplado no edital do programa Rumos, do Itaú Cultural. O espetáculo é escrito e dirigido pelo ator e pesquisador cearense Silvero Pereira e pela professora e diretora gaúcha Jezebel De Carli.

A agenda do grupo na capital maranhense tem início amanhã (14), às 9h, com a mesa de debate “Os corpos dissidentes na cena contemporânea: tombamentos e dissoluções em normas de gênero”, que acontece no Teatro de Bolso do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (CCH/Ufma). À tarde e noite (das 14h às 21h), no mesmo local, acontece a oficina “Procedimentos técnicos em atuação, dramaturgia e encenação do Coletivo As Travestidas”.

Quem tem medo de travesti será apresentado dias quarta (15) e quinta-feira (16), às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Silvero Pereira não virá à São Luís: está a caminho de Cannes, no elenco de Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial do prestigiado festival.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O diretor Silvero Pereira. Foto: divulgação

Vamos começar pelo título do espetáculo que chega à São Luís: Quem tem medo de travesti. A homofobia é ódio, mas esse ódio parte do medo, não sei se você concorda. A seu ver, quais as razões desse medo e desse ódio?
Silvero Pereira: A gente trabalha o título a partir da definição da palavra “medo”, que é exatamente o fato do não conhecer, ou seja, do pré-conceito. Muito do que temos é a violência provocada por falta de conhecimento, por ignorância e, principalmente, falta de políticas públicas que trabalhem o respeito às questões de gênero e diversidade na família, na escola e na sociedade em geral.

Tua dramaturgia, desde BR-Trans, é baseada em tristes estatísticas e acaba misturando arte e política. Na sua opinião é dever do artista fazer do fazer artístico um fazer político também?
Não consigo pensar em arte sem ação político-social. Fui criado e arrebatado por ela desta forma e só me sinto artista quando consigo subir no palco pra provocar e questionar a sociedade. Arte não é instrumento de transformação social, isso depende do espectador que aprecia e decide se o que vou mostrar muda, ou não, algo em sua vida. Acredito na arte como manifestação de provocação.

As ações do atual governo brasileiro são desastrosas em todos os campos, mas sobretudo no cultural e no social, com o desmonte de estruturas como o Ministério da Cultura e os conselhos de direitos, que eram os canais de participação social. Como você tem acompanhado esse cenário?
Desastroso e cheio de retrocesso. Uma nação sem uma cultura, arte e educação solidificadas jamais conseguirá evoluir no trabalho, saúde, relações humanas, judiciária e legislativa. A cultura e a arte são processos fundamentais na formação humana de uma nação.

Depois de BR-Trans você fez novela na Globo [ele interpretou Nonato em A força do querer, de Gloria Perez]. Acredita que a visibilidade que você adquiriu favorece a causa pela qual você milita?
Sim! A TV me possibilitou alcançar mais pessoas e poder ajudar, por meio da minha militância e arte, desconstruir paradigmas, enfrentar preconceitos e reduzir violências.

Sua peça vai ser apresentada em São Luís, mas você está indo a Cannes…
Infelizmente não estarei nessa etapa de São Luís, pois estou de partida para o Festival de Cannes, onde estou no elenco de Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o único filme brasileiro a concorrer na mostra oficial. É um grande ato estar presente nesse festival e neste momento em que a cultura se vê tão devastada por um governo e aclamada mundialmente através do audiovisual. Não poderia perder esse feito! Reencontro o Coletivo As Travestidas nas etapas Belém, Imperatriz e Palmas.

Além do elenco, já que BR-Trans é um solo, que diferenças e aproximações você destacaria entre aquele espetáculo e Quem tem medo de travesti?
Quem tem medo de travesti é uma espécie de continuação de BR-Trans, pois eles trazem as experiências de encenação, dramaturgia e atuação que, hoje, configuram as pesquisas do Coletivo As Travestidas. Quem tem medo de travesti é um trabalho cheio de questões reais e que parte da multimídia, música, teatro, dança e musical, variando entre o trágico e cômico.

No labirinto da memória (em um país sem memória)

Tássia Dur e Cláudio Marconcine em cena de Ensaio sobre a memória. Foto: divulgação

 

Uma peça de Marcelo Flecha não é apenas uma peça, ou ao menos não pode ser reduzida a mero entretenimento. Mas isto nem de longe deve afastar o espectador da sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em cujo palco estreia nesta quarta-feira (1º. de maio), às 19h, o espetáculo Ensaio sobre a memória – a temporada fica em cartaz até 6 de maio (sexta e sábado às 19h e 21h); ingressos: R$ 30,00 (meia: R$ 15,00). Serviço completo no cartaz ao final do post.

Não é mero entretenimento nem para a plateia e menos para o grupo, que faz jus ao nome apenas no número de integrantes: quatro atores em cena mais o diretor, que também cumpre os papéis de autor do texto da peça, sonoplasta e iluminador. O trabalho começa já na adaptação: depois de Franz Kafka e Gabriel García Marquez, Flecha agora transmuta Jorge Luis Borges do livro ao palco. É A outra morte, conto do argentino, o ponto de partida do novo espetáculo do conterrâneo, radicado no Maranhão há mais de 40 anos.

Ensaio sobre a memória tem pouco mais de uma hora de duração e quem conhece o conto original se perguntará como é que o dramaturgo preenche tanto tempo a partir de um conto tão curto. Mas quem conhece a obra de Flecha logo sabe que ele elimina qualquer possibilidade de comparação, algo do tipo “o conto é melhor que a peça?” ou vice-versa.

O conto foi publicado em O Aleph, de 1949. A adaptação de Flecha o traz a um tempo não definido, mas cujo resultado soa atual, num momento em que revisionistas querem negar ou atenuar as ditaduras militares brasileiras ou negar-lhes seus efeitos.

São três atores em cena – Cláudio Marconcine, Lauande Aires e Tássia Dur, mais as participações ligeiras de Kátia Lopes –, todos enormes, dando voz a uma crise de consciência de um escritor que, a partir do desejo de escrever sobre episódios de tortura ocorridos durante a ditadura militar argentina – vizinha de geografia e crueldade da brasileira de 1964 – enfrenta vários dilemas, a começar por sua legitimidade para tratar do assunto, tendo em vista que não foi vítima direta do regime (de crimes contra a humanidade todos somos vítimas de algum modo). Nós, espectadores, passeamos pelo labirinto mental de um escritor-pesquisador em conflito consigo mesmo e com duas versões da mesma história (memória, invenção ou esquecimento?).

Texto e interpretações brutais, cruéis, precisos, mas carregados de ironia e cerzidos por certa delicadeza. O debate sobre a memória está posto, urgente e necessário em um momento em que o governo brasileiro dificulta a identificação de corpos de vítimas de um Estado que nunca fez seu dever de casa quanto ao tema.

Ensaio sobre a memória é literalmente uma obra de arte que nos leva a refletir sobre o estado de coisas a que chegamos no Brasil justamente por não termos acertado as contas com o passado: teria o então deputado Jair Bolsonaro dedicado seu voto na sessão da Câmara Federal que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff a Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador, se agentes da repressão (leia-se assassinos) tivessem sido punidos?

Uma das lições da peça de Flecha é que a memória precisa, além de ser preservada, construída: quem não viveu determinado período, precisa aprender sobre ele. Urgente, necessária e certeira, Ensaio sobre a memória ensina e leva a refletir. É tudo de que não querem sequer ouvir falar os ditadores de plantão.

Ensaio sobre a memória. Cartaz. Reprodução

João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

O batalhão de um homem só

Foto: Marla Batalha

 

Já disse aqui e acolá, mas não custa repetir: certos artistas têm uma impressionante capacidade de premonição, o que os torna artistas maiores.

É o caso de Lauande Aires e particularmente de O miolo da estória, da Cia. de Artes Santa Ignorância, reapresentado ontem (10) no Teatro Arthur Azevedo (em cujo palco chegou pela primeira vez), dentro da programação do Gema – Grandes espetáculos do Maranhão, que promove o reencontro do público com destaques da produção teatral local recente. Aliás, estamos em ótima safra.

Sozinho em cena, Lauande encarna um batalhão. João Miolo, seu personagem, é um operário da construção civil, que sonha. Sonhar, aqui, verbo literalmente intransitivo. “Nunca deixe de sonhar” é o seu principal conselho. Os tempos são duros e ele se veste com a roupa da utopia.

João Miolo faz rir, não aquele riso fácil, mas um riso que leva à reflexão, ao criticar a mobilidade urbana enquanto pedala rumo ao serviço. No traçado da massa com a colher de pedreiro, percute, pá e enxada idem. O carro de mão vira carcaça. Tudo nele é bumba meu boi, embora não haja, a rigor, em cena, nada que lembre o folguedo.

João se machuca e faz promessa, como antigamente se originava a maioria dos grupos de bumba meu boi no Maranhão. Mas não soa saudosista. O monólogo critica as relações trabalhistas e mesmo não sendo encenado há cinco anos, soa atual e necessário. É um retrato do trabalhador que sua para pagar as contas e poder se divertir de vez em quando, a cada fim de semana ou temporada junina. É, pelo recorte de um brasileiro, um retrato fiel do Brasil.

Ao fim do espetáculo, Lauande cumprimentou, na plateia, Geovane (vulgo Bomba), miolo, hoje no Bumba meu boi da Madre Deus, que um dia viu subir de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, na tradicional homenagem ao santo, num 29 de junho. Tocado por sua devoção e sacrifício, acompanhou-o noutros eventos, colhendo elementos para a pesquisa que resultou nO miolo da estória.

Selecionada em edital da Ancine, a peça vai virar filme, dirigido por Lucian Rosa, com roteiro dele e Lauande Aires. As filmagens devem se iniciar em junho deste ano, em São Luís, conforme também anunciou ontem.

Pequena coleção de emoções

Foto: Rodrigo Oliveira

 

Dirigindo para o trabalho vi hoje uma cena que me botou comovido como o diabo, ave, Paulo Mendes Campos!

Um casal se beijava no canteiro central de uma avenida. Gente humilde que acabara de descer do ônibus, ao menos foi o que imaginei, a caminho do trabalho. Era uma despedida temporária, supus também, como se quisessem que o beijo fosse uma espécie de empréstimo, adiantamento da saudade que sentiriam um do outro enquanto durassem seus expedientes.

Confesso mesmo que senti vontade de parar o carro e contemplar a cena. Não fotografar. Apenas assistir, como um voyeur invulgar. Mas nem ousei por que os motoristas que, apressados como sempre, não perceberam a singularidade daquela cena, logo estariam atrás de mim, buzinando e me amaldiçoando até a quinta geração com os palavrões mais vulgares possíveis.

Adiante, pensei ser hoje meu dia de sorte: enquanto o carro deslizava sobre a ponte do São Francisco e um pequeno engarrafamento se anunciava na avenida Beira-Mar, mirei o céu e vi uma revoada de pássaros que me fez lembrar aqueles patos que migram em bando, sobretudo nos desenhos animados do Pica-Pau. Ou a memória da infância me trai?

Ando tão à flor da pele, Zeca Baleiro, que ontem fui ver uma peça teatral, um musical adolescente baseado em um filme americano que nunca me interessou. Fui ao teatro movido pelo interesse (jornalístico) na cena local, que tem proporcionado ao público interessado uma boa safra de espetáculos, o que pode ser comprovado na programação do Gema, boa sigla de Grandes Espetáculos do Maranhão (confira a programação completa), que começou no final de semana passado com a adaptação “codoense” de O auto da compadecida, da Companhia Gracielle Costa, e segue neste fim de semana com O miolo da história, de Lauande Aires, e adiante com Pai e filho, da Pequena Companhia de Teatro, Chico, eu e Buarque e João do Vale, o gênio improvável, realizações do próprio Teatro Arthur Azevedo.

High School Musical Brasil, parceria da Oficina de Interpretação SLZ com a Troupe Parabolandos (SP), a peça de ontem, é pueril como todo cinema americano que só o poema de Leminski salva: “podem ficar com a realidade/ esse baixo-astral/ em que tudo entra pelo cano/ eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano”. No fim das contas é sobre o amor e suas descobertas adolescentes. Segurei as lágrimas uma ou duas vezes. “Homem não chora”, não é, Pablo do Arrocha?

Na saída, pude comentar o espetáculo com os amigos que me acompanhavam, diante de uma cerveja gelada servida na Feira da Tralha. Sempre me ressenti da ausência de botecos nos arredores dos teatros, para que os que quisessem esticar os comentários, a noite, prosear. A Feira da Tralha não é bem um boteco, mas o sebo faz as vezes de. Ontem conversamos ao som de Janis Joplin e Raul Seixas.

A noite foi arrematada – e nós arrebatados – pela sabedoria de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela: “o dia se renova todo dia/ eu envelheço cada dia e cada mês/ o mundo passa por mim todos os dias/ enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, samba que muito cantarolei ninando José Antonio. “A natureza é perfeita/ não há quem possa duvidar/ a noite é o dia que dorme/ o dia é a noite ao despertar”.

Um brasileiro

 

O personagem de Cláudio Marconcine já está sentado, num canto, numa das quatro malas com que divide a cena em Extrato de nós, quando o público adentra a sala de espetáculos da Pequena Companhia de Teatro.

Quando a peça se inicia, ele, espécie de palhaço, demonstra impaciência, batendo o pé, depois tamborilando os dedos contra a bagagem, acompanhando o ritmo do tic tac frenético de um relógio que anuncia a chegada do trem.

O monólogo, teatro quase mudo, foi idealizado e encenado há alguns anos, mas como a melhor arte, tem algo de assustadoramente premonitório, a se concretizar no Brasil de 2019, sob a égide de uma nova ditadura, desta feita deflagrada pelo voto popular.

Os que compartilharem a impaciência inicial do personagem poderão enganar-se, ao fazer comparações com clássicos televisivos como Chaves e Os Trapalhões, com seu humor em parte inocente, de quedas e tropeços que despertam gargalhadas no público.

Boa parte do tempo de Extrato de nós se passa nesse vai e vem, na correria de alguém que tem medo de perder o trem, que foge da chuva, fuma, sente fome e tenta ler uma revista a matar o tempo. O brasileiro comum. Ameaçado pelo próprio Brasil. Com suas cores sequestradas e sua alegria idem. Em que mais que o aeroporto, a morte parece ser a única saída. Infelizmente não de causas naturais, nem a cumprir a expectativa de vida, que deve diminuir muito em breve.

Cláudio Marconcine interage com a plateia, mas sem a vulgaridade típica das comédias que buscam o constrangimento alheio diante do vazio de um humorismo que nem mereceria assim ser chamado. Ele tem elegância e tato: sente o clima e o público.

É um dos maiores atores que já vi em cena na vida. Até o aparentemente mais simples esgar, nele é minuciosamente estudado e ensaiado. Qualquer gesto seu é milimetricamente calculado e tudo aparenta naturalidade. Não à toa integra uma das maiores companhias de teatro do Brasil, a despeito do nome – que faz referência ao número pequeno de integrantes.

Extrato de nós traduz o Brasil – e os brasileiros – que insiste/m em rir, mesmo com a tragédia batendo a porta e a desgraça invadindo a casa. A nação.

Ria se/quem puder, chore quem quiser, aplauda e peça bis. O ator em cena e sua Pequena Companhia fazem jus.

Serviço

Extrato de nós terá outras duas apresentações hoje (25) e amanhã (26), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos custam R$ 30,00 (casadinha: R$ 40,00; estudantes e nomes na lista amiga pelas redes sociais da companhia pagam meia).

Espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” terá quatro apresentações em São Luís

[release]

Circulação do grupo cearense Nóis de Teatro tem patrocínio da Petrobras e acontece de 6 a 9 de dezembro em praças da capital. Apresentações têm tradução simultânea em Libras.

Foto: Luiz Alves
Foto: Luiz Alves
Foto: Augusto Oliveira
Foto: Augusto Oliveira

A discussão sobre a criminalização e perseguição da juventude negra nas periferias brasileiras dá o tom do espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, com que o grupo Nóis de Teatro, de Fortaleza/CE, circula por São Luís, com quatro apresentações gratuitas em praças da capital maranhense. A circulação tem patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura/ Governo Federal. As apresentações têm tradução simultânea em Libras.

O espetáculo é dividido em três atos e conta a história de Natanael, uma espécie de anti-herói nascido na periferia, inserido num brutal sistema de opressão e violência, realidade comum a muitos brasileiros, que, aos 18 anos, resolve ingressar nas fileiras da polícia militar. Este ator-narrador é o grande foco de “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e sua dramaturgia épica, algo como uma “tragédia afro”, é cerzida por elementos alegóricos e representativos do movimento negro no Brasil e no mundo, além de diversas referências à mitologia dos orixás.

A montagem do espetáculo do Nóis de Teatro se baseia em visitas realizadas a comunidades quilombolas do Ceará e do Maranhão, além de terreiros de umbanda e candomblé, e dialogando com movimentos sociais que pautam questões da população negra. O grupo tem sede na periferia da capital cearense, na Comunidade de Granja Lisboa, Território de Paz do Grande Bom Jardim.

Trajetória – Com 16 anos de fundação, o grupo Nóis de Teatro tem construído uma ação continuada no que diz respeito à circulação de espetáculos, oferta de cursos, intercâmbios e oficinas de teatro e percussão, contribuindo de forma significativa para a formação de plateia, incentivando crianças e jovens ao fazer artístico e à reflexão, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” venceu o Prêmio Funarte de Arte Negra, o que garantiu o trabalho de pesquisa, construção e montagem do espetáculo. Dirigida por Murilo Ramos, a peça tem concepção geral, dramaturgia e assistência de direção de Altemar Di Monteiro, que também integra o elenco, que se completa com Jefferson Saldanha, Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Henrique Gonzaga, Amanda Freire e Maurício Rodrigues. A produção local é de Andressa Cabral, da Mará Cult Produções.

Serviço

Em São Luís, o espetáculo será apresentado dias 6 (Praça Nauro Machado, Praia Grande), 7 (Praça dos Catraieiros, Casa do Maranhão, Praia Grande), 8 (Praça da Ressurreição, Anjo da Guarda) e 9 de dezembro (Largo do Desterro), sempre às 19h. Todas as apresentações são gratuitas. Dias 6 e 7 de dezembro, das 9h às 13h, o grupo realiza uma oficina para artistas da cidade, no Teatro Itapicuraíba (Anjo da Guarda). Dia 8, no mesmo local e horário, acontece um encontro com um grupo local, para intercâmbio e oficina.

FICHA TÉCNICA

Coordenação Geral – Altemar Di Monteiro
Direção ­– Murillo Ramos
Dramaturgia e Assistência de Direção – Altemar Di Monteiro
Elenco – Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Altemar Di Monteiro, Henrique Gonzaga, Amanda Freire, Carlos Magno Rodrigues e Maurício Rodrigues
Contrarregragem – Bruno Sodré, Nayana Santos e Edna Freire
Cenografia – Jefferson Saldanha
Figurino ­– Miguel Campelo
Bonecos – Carlos César
Adereços – Pádua Oliveira
Maquiagem – Kelly Enne Saldanha
Preparação Vocal – Danilo Souto
Preparação Canto – Juliana Veras
Produção – Nóis de Teatro

Um teatro na contramão

 

Fotos: Ascom/Sesc/MA

Alvíssaras! Em concorrida solenidade o Sesc inaugurou ontem (7) o mais novo equipamento cultural de São Luís, como apregoou a campanha publicitária pendurada em outdoors e traseiras de ônibus: o Teatro Sesc Napoleão Ewerton, localizado no Condomínio Fecomércio/Sesc/Senac (Av. dos Holandeses).

Mais importante ainda: sua completa acessibilidade. Um bom percentual dos 245 lugares do teatro é reservada a pessoas obesas e há oito espaços para cadeiras de rodas, rampas de acesso, piso tátil e banheiro adaptado. Tudo o que foi apresentado ontem contou com tradução simultânea em libras e audiodescrição: das falas das autoridades do assim chamado Sistema S às apresentações musicais da Orquestra Filarmônica Sesc Musicar e da cantora Flávia Bittencourt – que, acompanhada do músico Carlos André (sanfona e bases eletrônicas), apresentou uma espécie de redução de Eletrobatuque, show que lançará em dvd em breve –, às intervenções teatrais, que homenagearam o falecido ex-presidente da Fecomércio que batiza o lugar e nomes como a atriz Apolônia Pinto e a escritora Maria Firmina dos Reis, entre outros.

Entre as autoridades presentes, os secretários municipais Marlon Botão (Cultura) e Socorro Araújo (Turismo) somaram-se a representantes da classe artística maranhense e servidores do Sesc – sobretudo de seu Departamento de Cultura – para prestigiar a inauguração, numa demonstração da importância que tem o Serviço Social do Comércio no fazer cultural do Brasil, configurando-se no mais importante organismo não estatal do país na área. Não à toa é comum ouvirmos referências ao Sesc de São Paulo, por exemplo, capitaneado pelo gigante Danilo Santos de Miranda, como uma espécie de “ministério da Cultura paralelo”.

“A Cultura no Sesc se caracteriza como ferramenta democrática de difusão de conhecimento possibilitando a educação transformadora da sociedade, por meio de projetos e ações voltados para as áreas de biblioteca, música, dança, teatro, circo, audiovisual, artes visuais e literatura objetivando a formação de seus diversos públicos”, diz um trecho da Apresentação, em folder distribuído aos presentes, ontem.

Há muito para se comemorar com a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, em São Luís. Inclusive pelo momento em que acontece, quando as ações culturais empreendidas pelo Sesc estão sob ameaça do governo federal recém-eleito – que nutre pouco ou nenhum apreço por diversas palavras(-chave) do parágrafo anterior –, sobre o que o próprio Miranda se manifestou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Só os projetos institucionais da entidade certamente já garantiriam ocupação qualificada do espaço inaugurado ontem, mas a pauta será aberta a agentes culturais em geral, observando-se os princípios que regem as ações do Sesc: atendimento a seu público prioritário (trabalhadores dos setores de comércio, serviços e turismo), mas não só, gratuidade ou ingressos a preços populares, entre outros.

Por falar em programação, ela já começa intensa: amanhã (9), às 18h30 a Klinger Trindade Cia./AM apresenta o espetáculo Pneumático [classificação indicativa: livre; duração: 60 minutos]; dia 10 (sábado), às 16h30, a Companhia Cambalhotas apresenta Os Saltimbancos [livre; 60 minutos], esta última integrando a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Algo a ser comemorado não apenas por São Luís e seus artistas, que ganham um novo espaço, na contramão do que se desenha para o Brasil, com a dilapidação de instituições – o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a ventilada extinção do Ministério da Cultura, para ficarmos em apenas dois exemplos –, a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton reafirma a importância e dá a real dimensão do quão imprescindível é o Sesc para a cultura brasileira.

Um palhaço brasileiro

Foto: Zema Ribeiro

 

​”Era uma vez uma boca de fumo. Nessa boca de fumo havia drogas e doces. Chapeuzinho Vermelho encheu uma cesta de doces, botou na garupa de sua bizinha para levar para a vovó e saiu pilotando pela floresta. No meio do caminho apareceu o lobo. “O que tem na garupa, Chapeuzinho?”, perguntou. “Doces para a vovó”. “Me dá a metade?”. “Não posso, são para a vovó”. O lobo insistiu, pedindo quantidades menores, até arrematar: “Se você não me der os doces, eu pego um atalho, chego antes de você na casa da vovó, mato ela e toco o terror em você; todo mundo conhece a história, vem o caçador e me mata. Dois homicídios por causa de um punhado de doces. É isso que você quer para sua vida?”.

O palhaço Klaus (Márcio Douglas) atualiza a história infantil para os perigosos ares que o Brasil respira no momento. Para bom entendedor, uma fábula basta. Foi longamente aplaudido pelo ótimo público presente ao Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde foi apresentado ontem (24) o espetáculo da La Cascata Cia. Cômica, de São José dos Campos/SP, integrando a programação do Palco Giratório, do Sesc. E arrematou, irônico, para a plateia novamente irromper em aplausos: “isso sim é uma história infantil: ninguém morre!”.

Klaus é um palhaço aposentado. No monólogo tragicômico ele compartilha sua experiência animando festas infantis. O palhaço é uma metáfora: alvo de toda sorte de preconceitos e violência. Politicamente incorreto, a personagem bebe e fuma em cena. Beira o desalento. Logo de cara, adverte: “quem está em busca de algo lúdico, algo mágico, pode ir embora”. Soa cruel, mas é apenas sincero.

Animo festas, o espetáculo, se vale do universo infantil para debater temas em torno das relações de trabalho: qualificação, violência, preconceito, assédio, direitos. E também realização e felicidade: não à toa a pergunta “você é feliz?” aparece diversas vezes no texto, dirigida ao palhaço, quando ele relata encontros com pessoas diversas após as festas.

Hábil ao embrulhar estes questionamentos no “inocente” mundo das crianças, Klaus provoca gargalhadas na plateia durante o espetáculo inteiro. Beira o nonsense quando, por exemplo, saca um canivete ao ameaçar as “crianças” (dois adultos escolhidos aleatoriamente em meio ao público) para que deixem a aniversariante (outra adulta idem) vencer o jogo da dança das cadeiras – quando joga luz sobre outro assunto em voga no Brasil: a corrupção.

“Todo DJ é um “filha” da puta”, provoca: “a gente pede uma música, ele sempre toca outra. O DJ é aquele cara que não aprendeu a tocar um instrumento, mas teve dinheiro pra comprar o equipamento”, ataca. Provocar é uma especialidade de Klaus, que vai parar numa penitenciária após provocar um policial. É outra história em que se equilibra entre o hilariante e a denúncia social, a debater a questão carcerária, tema sempre urgente e quase sempre escamoteado, não apenas no período eleitoral.

Vez por outra, a palavra palhaço é injustamente usada como xingamento. Klaus define a si mesmo como um palhaço profissional. Ousa peitar contratantes, aniversariantes e quem mais achar que deve em nome de sua dignidade, que não desaparece sob uma camada de tinta e maquiagem. Ao contrário de muitos (não apenas palhaços) que se deixam tanger como gado para o abatedouro, ele dá um importante alerta a quem, por ação ou omissão, em nome de valores no mínimo dúbios, se arrisca a abdicar de seus próprios direitos. Klaus é brasileiro e se reinventa para existir e resistir.

Serviço

O grupo La Cascata Cia. Cômica apresenta hoje (25), às 17h, o espetáculo Precisa-se de um mané, no Cine Teatro Aldo Leite (Palacete Gentil Braga, Rua Grande, 782, Centro). A entrada é gratuita. A programação integra o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

Ainda queima a esperança

A lona do circo da Turma do Biribinha. Foto: Zema Ribeiro

 

Termina amanhã (17) em São Luís a programação do Sesc Circo.

Na programação do Palco Giratório, que antecedeu o Sesc Circo, vi um espetáculo, quinta-feira passada (12), intitulado Magia. Era da Companhia Teatral Turma do Biribinha, de Alagoas, e unia, com simplicidade e competência, os ambientes mágicos do circo e do cinema.

Teófanes Antônio Leite da Silveira, o palhaço Biribinha, completa 60 anos de carreira em 2018. Em Magia, convida pessoas da plateia a interagir com ele no palco, longe de qualquer possibilidade de constrangimento – não faltaram, aliás, candidatos, sob a lona absolutamente lotada.

O espetáculo é um conjunto de esquetes que homenageiam do Gene Kelly de Cantando na chuva ao Charlie Chaplin de tantos clássicos do cinema mudo, passando também pelo universo do faroeste, entre outros.

Diversão e risos garantidos, além de uma viagem à infância e ao universo lúdico do picadeiro, de que o palhaço é senhor absoluto, ainda mais no caso de Biribinha de Arapiraca.

Com classificação indicativa livre, havia muitas crianças na plateia, mas criança não anda só. A determinada altura, enquanto agradecia os que participavam de um esquete e recrutava outros para o próximo, disse a um jovem que deixava o palco: “desça! E leve o Temer junto!”, para gargalhada geral.

Há quem ache que arte e política não se misturam e este que vos perturba mesmo chegou a ver quem tentasse censurar os poetas Celso Borges e Fernando Abreu pela Noite Lula Livre, que realizaram na quinta anterior (5), no Chico Discos, vendendo pôsteres com poemas de sua autoria aludindo ao sequestro político do líder das intenções de voto em qualquer pesquisa eleitoral – ambos estão no livro Lula Livre, que sai este mês, organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire, com entre outros, Aldir Blanc, Augusto de Campos, Caco Galhardo, Carlos Rennó, Chico César, Frei Betto, Juvenal Pereira, Laerte e Xico Sá.

Há quem pense que tergiverso e mude de assunto. Não. A Turma do Biribinha e a palavra que dá título a seu espetáculo tiveram mesmo a capacidade de encher de esperança (roubei o título de um antigo sucesso de Raul Seixas na voz de Diana) os ludovicenses que (ainda) creem na arte e na política – juntas ou separadas: durante o tempo em que estiveram na cidade, armaram literalmente um circo (onde Magia foi apresentado) ao lado do Terminal de Integração da Praia Grande, relembrando o saudoso Circo Cultural Nelson Brito, o Circo da Cidade, para os íntimos, retirado da população no fim do mandato do ex-prefeito João Castelo (1937-2016) e nunca devolvido.

Teatro fantástico

Cláudio Marconcine e Jorge Choairy em cena em Velhos caem do céu como canivetes. Foto: divulgação

 

A curta temporada de Velhos caem do céu como canivetes encerrada ontem (4) marcou seu retorno à São Luís, após circulação por cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, pelo programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A peça está há cinco anos em cartaz e inicio este texto com uma espécie de mea culpa: como é que eu nunca a tinha visto antes?

Essa, aliás, deve ser a reação de qualquer um/a que assista esta ou qualquer peça da Pequena Companhia de Teatro pela primeira vez – foi o impacto que me causou, por exemplo, a também ótima Pai e filho, baseada em Carta ao pai, de Franz Kafka. A de ontem é baseada no conto Um senhor muito velho com suas asas enormes, de Gabriel García Marquez. Para o segundo semestre de 2018 o grupo anuncia uma adaptação teatral de Jorge Luis Borges.

A transposição de gêneros marca o trabalho da Pequena Companhia de Teatro e uma característica interessante, tanto de Pai e filho, quanto de Velhos caem do céu como canivetes, é o livre exercício da imaginação de Marcelo Flecha, dramaturgo autor de ambos os textos. A Carta ao pai kafkiana, nunca enviada, é originalmente um monólogo, obviamente, por tratar-se de epístola – ainda que nunca enviada; no conto do colombiano, a criatura alada que cai em um quintal não fala.

São os diálogos a grande força do fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Tanto Pai e filho quanto Velhos caem do céu como canivetes, ambas encenadas por Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, são basicamente conversas. Mas não há espaço para conversa fiada na obra de Flecha, embora na segunda haja espaço para um humor, ao menos a quem se dispõe a rir de si mesmo – e que fecho sensacional!

Digo basicamente conversas, mas é necessário apontar que isto não significa descuidar de todos os outros detalhes que compõem a cena: cenário, figurino, maquiagem, vozes, trejeitos, trilha sonora, iluminação, tudo a serviço do texto, da atuação do par de atores. A Pequena Companhia de Teatro só é pequena no nome e no número de componentes – além do trio já citado completa o time a diretora de produção Kátia Lopes. Esta trupe não apenas faz teatro: acima de tudo, pensa teatro.

Uma criatura alada cai, não se sabe de onde ou de quando, no quintal de um catador de materiais recicláveis. O embate se inicia com a estranheza do anfitrião à força, que não sabe se seu hóspede é um anjo, um demônio ou um frango – alucinação possível motivada pela fome. Sem nada para comer ou dar de comer, é tão somente uma lata d’água que ele oferece ao curioso e improvável visitante.

Velhos caem do céu como canivetes tem um caráter distópico e metafórico: não somos nós mesmos este catador de materiais recicláveis, ex-artista plástico? Ex por que estes foram banidos no tempo da ação, um futuro, breve ou distante, ou a égide do ilegítimo, não sabemos precisar. Tudo é muito bem costurado na trama de Flecha e aqui e ali pipocam críticas à sociedade de consumo, a governos ilegítimos, religiões e a mazelas como a fome, num texto também sobre exílios: a criatura alada fora de seu habitat e o catador exilado de sua condição de pessoa humana, sem o básico para sobreviver. Mas que fala bonito, como reconhece o visitante. “Leio”, o anfitrião usa o mesmo verbo para responder a diversas perguntas daquele, citando livros e dicionários que também catava.

Longe de hermética, para ver ou entender a peça não é preciso ter lido o texto original no qual se baseia Velhos caem do céu como canivetes. Mas é necessário estar disposto/a a pensar, a refletir, condição válida em qualquer encenação da Pequena Companhia de Teatro, uma verdadeira escol(h)a de resistência, a começar pela opção de manter uma sede – e ali encenar, inclusive às segundas-feiras – no Centro Histórico da capital maranhense, quando muitos têm feito um percurso contrário, mas este é outro assunto.