Rita Benneditto acaba de disponibilizar novo videoclipe

A cantora Rita Benneditto disponibilizou há pouco no youtube o videoclipe de 7Marias (Rita Benneditto e Felipe Pinaud). Na última sexta-feira (21), o single chegou às principais plataformas de streaming.

O videoclipe tem, além da cantora, seis atrizes interpretando as entidades, pombagiras, as sete Marias a que se refere o título da música: Amanda Calabria, Carmen Eça, Dani Ornellas, Isabel Chavarri, Leona Cavalli e Tati Villela. Na gravação Rita Benneditto (direção, arranjo, voz e vocais) é acompanhada por Fred Ferreira (direção, arranjo e guitarras), Pedro Dantas (contrabaixo) e Ronaldo Silva (bateria e percussões), com participação especial do paraense Felipe Cordeiro (guitarras). O single é distribuído pela ONErpm, em parceria com o selo Manaxica.

Com a mesma pegada, juntando elementos da música popular brasileira com eletrônica a rezas e pontos dos terreiros das religiões de matriz africana, 7Marias celebra os 15 anos do bem sucedido Tecnomacumba, com que a cantora já percorreu o mundo – por enquanto há três shows comemorativos agendados até o fim do ano: dia 29 de setembro no Festival Puroritmo, no CCBB de Brasília/DF; 30 de novembro no Circo Voador (Rio de Janeiro); e 1º. de dezembro no Cultural Bar (Juiz de Fora/MG).

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Assista o videoclipe de 7Marias (Rita Benneditto/ Felipe Pinaud):

Revelando Louzeiro

José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte

 

A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.

Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.

A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.

Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.

O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.

Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.

Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.

Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.

A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).

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Veja o trailer de José Louzeiro – Depois da Luta:

O cabaré musical de uma estrela

Cabaré Star. Capa. Reprodução

 

Edy Star demorou 43 anos entre seu solo de estreia, Sweety Edy [Som Livre, 1974] e Cabaré Star [Saravá Discos, 2017], segundo disco de sua carreira. Aos 80 anos recém-completados, é o único remanescente do antológico pastiche Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, clássico maluco que dividiu com Miriam Batucada, Raul Seixas (autor do bolero-título, cantado por Edy) e Sérgio Sampaio em 1971.

“Há muito tempo/ eu vivo dividido entre Caetano e Raul”, cita os conterrâneos em Rock’n’roll é fodaço (Edy Star), que brinca com A bossa nova é foda, do primeiro.

Baiano de Juazeiro, Edy Star é uma espécie de fênix da música popular brasileira. Com Ney Matogrosso, então de cara pintada e à frente do Secos & Molhados, cultivou a androginia, num período de maior conservadorismo (será?), abrindo veredas para todos/as os/as que viriam depois, com ou sem polêmicas (vazias).

Ney, Caetano e Raul – um trecho de entrevista abre O crivo (Waldir Serrão e Mauricio Almeida), que fecha o disco –, além de Angela Maria, Emílio Santiago, Felipe Catto e Zeca Baleiro (que divide a produção com Sérgio Fouad) estão no disco, como a recuperar o tempo perdido.

“É o maior barato […], é incrível”, elogia-o Raul. Caetano Veloso canta em Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Viana) e Merda, dele. Ney Matogrosso se/nos diverte em Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera). Emílio Santiago deixou sua participação gravada antes de falecer em Ave Maria no morro (Herivelto Martins). Em Perdi o medo (Odair José), Edy Star recebe a visita de Felipe Catto. Já Zeca Baleiro participa de Dezessete vezes, de sua autoria, aberta por citação de Tango pra Tereza (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), interpretada à capela por Angela Maria.

Há uma diversidade de temas, gêneros e gerações em Cabaré Star – marca de Edy desde a estreia. Os outros parceiros de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista também comparecem: Sérgio Sampaio é o autor de O que será de nós e Miriam Batucada de Você é seu melhor amigo. Eu fiz pior, de Lula Côrtes, abre o disco, com estrofes bem humoradas sobre os bastidores do show business: “Meus parceiros, entre aspas/ meus cúmplices de nada/ cem críticos de arte que nem tinham emprego/ chegavam nos jornais/ com papo de manchete/ achando que uma enquete me faria medo”, canta Edy.

“A vida é um cabaré/ foi assim que eu aprendi/ sonho, emoção e prazer/ você escolhe o que quer/ se vai sorrir ou sofrer/ seja lá homem, mulher/ só interessa o viver/ na noite de cabaré”, canta em A vida é um cabaré (versão de Edy Star e Zeca Baleiro para Y’a la rumba dans l’air, de Alain Souchon), devolvendo elegância ao ambiente, também espaço de fruição artística, em oposição à visão pejorativa, porém rentável, de letras típicas do breganejo e da sofrência – “há muito tempo/ não ouvia tanta shit na MPB”, voltamos à letra de Rock’n’roll é fodaço.

O disco traz ainda Procissão, talvez a faixa mais conhecida do disco: é o clássico lançado por Gilberto Gil em 1967, cuja parceria só foi reconhecida em 2008 – de lá para cá, todos os discos lançados com a música trazem-na com os devidos créditos também a Edy Star.

Ele é acompanhado por Adriano Magoo (piano, teclados e acordeom), Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo) e Kuki Stolarski (bateria e efeitos), além das participações especiais de Emílio Martins (percussão), Hugo Hori (saxes), Tiquinho (trombone e tuba de Bauru), Jorge Ceruto (trompete e voz de cafetão cubano em A vida é um cabaré), Zeca Baleiro (violão “peba” em Peba na pimenta), Swami Jr. (violão sete cordas e arranjo em Ave Maria no morro) e Webster Santos (violão, violão sete cordas, cavaquinho e bandolim em Procissão e Merda).

“Se no nosso país houvesse respeito ao talento e à dignidade de nossos artistas, o nosso Edy seria visto como um artista superior. Seria não, ele é!”, atesta o folclorista e produtor musical Roberto Sant’Ana (pai do músico Lucas Santtana), em texto no encarte de Cabaré Star.

“Edy é uma antologia que anda, sabe tudo de música brasileira e outras bossas o rapaz, um pé no rock e na transgressão, outro no cabaré e na reverência à tradição. […] Tudo com alma teatral, farsesca ou, como ele gosta de dizer, cabareteira”, arremata Zeca Baleiro, produtor e parceiro.

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Veja o lyric video de Rock’n’roll é fodaço (Edy Star):

As conexões de som e sentimento

Conectar. Capa. Reprodução
Conectar. Capa. Reprodução

 

Uma leitura mais apressada, menos atenta, pode enxergar o convite: “vem conectar”. Não estará de todo errado. Mas ali está Wem Conectar [2016], nome do artista e título do disco, em cuja capa ele aparece, emoldurado por bela paisagem, sentado num cubo com seu nome/marca, com um fio caído do céu plugado – conectado – ao violão que empunha. O verbo-título transforma o “ar” em voo de pássaros.

Uma andorinha só não faz verão, sabemos, e ao abordar o universo das conexões, as humanas, sem mediação de máquinas, o disco de Wem soa como uma doce lufada de esperança no humano, na humanidade. Doçura, aliás, não falta. Outro ponto destas conexões que merece destaque é o fato da realização de Conectar ter sido possível graças a uma campanha de financiamento coletivo.

Wem é autor das 11 faixas de Conectar, somente as três iniciais com parceiros: Se eu te encontrar (com Chico Salem), a faixa-título e Nosso quarto (ambas com Amanda Basani). “As manchetes vão virar poema/ Marginal Pinheiros vira mar/ a televisão vira cinema/ roda de fogueira vira altar”, diz o otimismo escancarado da faixa de abertura. “A segunda vira sexta-feira/ a quaresma vira carnaval/ qualquer gafe vira gafieira/ bad trip vira alto astral”, continua, com o lendário Dadi ao contrabaixo e piano, o que conecta o artista a Novos Baianos, A Cor do Som e Tribalistas.

Em Antes, a voz de Wem é emoldurada pela companhia de Marcelo Jeneci, que além de cantar, toca piano e sintetizador. São artistas de timbres, estilos e doçuras parecidos – aliás, quem gostou dos dois discos solos de Jeneci certamente vai gostar também de Conectar, mais uma em um disco de tantas conexões.

As letras, com cifras para violão no encarte, tratam basicamente do amor – a melhor conexão possível. Wem (voz, violão, assovio, piano, guitalele, guitarra, cuatro, palma) é escoltado por – ou conectado a – Fabio Pinczowsky (guitarra, palma, violão, teclado), Ricardo Prado (sanfona, teclado, contrabaixo, palma, piano, guitarra), Guilherme Kastrup (bateria, percussão) e Bruno Buarque (bateria em Se eu te encontrar).

Nestes tempos botocudos, Conectar é um disco necessário e preciso. Como as constatações e o convite da faixa-título: “Não consigo te conectar/ mas não canso de te procurar/ sobra megabyte falta amor/ desencana desse servidor/ Chega a hora de dormir/ liga a tv pra se distrair/ queria tanto te conquistar/ larga desse celular e vem pra cá me amar/ Meu bem vem que tem/ um abraço um amasso é melhor/ que essa tela fria, vai na minha/ isso é alta tecnologia humana/ se enrosca na rede real do amor a dois”.

Veja o clipe de Solidão Jamais (Wem):

Metais em brasa hoje no Sesc Partituras

O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação
O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação

 

O auditório da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, Praia Grande) recebe hoje (29), às 19h, mais uma edição do Concerto Sesc Partituras – o espetáculo integra a programação de aniversário de 70 anos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Daniel Cavalcante (trompete) regerá o sexteto Marabrass, formado, além dele, por Hugo Carafunim (trompete), Jairo Moraes (trompa), Daniel Miranda (trombone), George Campos (tuba) e Marcel Pereira (percussão).

“Quando eu recebi o convite, pensei em fazer uma formação diferente, mas ao me debruçar sobre o banco de partituras do Sesc, optei por tocar com o grupo que já existia, o Quinteto Marabrass, Mara de Maranhão e brass de metais, que já tem 13 anos tocando junto. É grande a responsabilidade”, contou Daniel Cavalcante ao Homem de vícios antigos.

Ele prometeu “mesclar o repertório [do acervo do Sesc Partituras] de forma que a gente possa transitar entre o erudito e o popular”, destacando, entre os compositores que estarão no repertório do Marabrass na noite de hoje, nomes como “Henrique Alves de Mesquita, Marcílio Onofre, Maestro Duda e Bonfiglio de Oliveira, dentre outros”.

A biblioteca virtual de partituras do Sesc tem acesso gratuito a qualquer interessado/a. O concerto de hoje à noite também.

Lourival Tavares lança Enluarado no Teatro da Cidade

[release]

Divulgação

Oitavo disco da carreira do maranhense radicado em São Paulo será lançado em show intimista. Além de repertório autoral, espetáculo trará obra de grandes nomes da música brasileira

Com 29 anos da gravação de seu primeiro disco, o cantor e compositor Lourival Tavares volta a se apresentar em São Luís. O show será sexta-feira (11), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Na ocasião o músico lançará seu oitavo disco, Enluarado, mesmo título do espetáculo.

O repertório de Enluarado terá a íntegra do disco, que inclui, entre outras, Muito romântico, de Caetano Veloso (gravada por Roberto Carlos), e Pequeno concerto que virou canção, de Geraldo Vandré. No show, Lourival Tavares passeará também por músicas de outros discos seus, casos de Matadouro, parceria com o poeta Celso Borges, Velha calça de xadrez, parceria com Josias Sobrinho e Éden Bentes, além da obra de artistas que admira, como João do Vale, Luiz Gonzaga e Betto Pereira, de quem gravou Ana e a lua.

Enluarado é uma espécie de apanhado de sua trajetória. O disco, junto com o dvd O laço do olhar, aponta os destaques de sua produção e nomes que foram importantes para a sua formação musical. O dvd conta com a participação especial de Jarbas Mariz, músico da banda de Tom Zé, que já havia gravado com Lourival Tavares em seu disco ao vivo Na colheita dos versos. No palco ele será acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra).

“O roteiro do show é baseado no repertório do disco Enluarado, acrescido de músicas que gosto de cantar. Mas é claro que seu formato enxuto, somos eu e mais um músico no palco, permite certa flexibilidade. O público pode aguardar algumas surpresas”, avisa Lourival Tavares, natural de Santa Inês/MA, hoje radicado em São Paulo.

O músico voltou à São Luís para participar da temporada junina. “Fiz algumas apresentações, recarrego as baterias, as energias para viver em São Paulo e criar. Resolvi aproveitar o prolongar da passagem para lançar o disco novo em minha terra natal”, revela.

Serviço

O quê: show Enluarado
Quem: Lourival Tavares
Quando: 11 de julho (sexta-feira), às 20h
Onde: Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy)
Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei)
Maiores informações: (98) 8122 0009

Bota Pra Moer

Antônio Lima era o nome próprio daquele pernambucano entroncado, de cor clara, cabeça a la Rui Barbosa, natural de Caruaru e do qual os maranhenses recordam muitas histórias. Devido a sua impressionante inteligência, logo que aqui chegou foi batizado pela plebe de “Bota Pra Moer” e essa alcunha o acompanhou até o fim de sua existência. “Bota Pra Moer” era simplesmente impressionante, um matemático como até então nunca tinha aparecido igual em São Luís. Para quem não teve o privilégio de conhecê-lo, basta dizer que “Bota Pra Moer” chegava para uma pessoa e perguntava o dia, mês, ano e hora em que aquela pessoa nascera. De posse destes dados e num rápido cálculo que fazia mentalmente, dali a minutos respondia quantos anos, meses, dias e horas aquela pessoa tinha vivido até aquele instante. Outra faceta impressionante deste personagem era ler (mas ler mesmo) um jornal de cabeça para baixo e ficava lendo com a maior naturalidade. Depois relatava tudo o que os jornais estavam noticiando.

“Bota Pra Moer” usava sempre roupas de segunda mão que ganhava de famílias mais abastadas. Almoçava, jantava e, às vezes, dormia na residência do farmacêutico Garrido, proprietário da Farmácia Garrido, na Rua Grande. O farmacêutico não admitia que o chamassem pelo apelido e tinha, juntamente com sua esposa, uma estima muito grande pelo excêntrico matemático. Conta-se que, certa vez, “Bota Pra Moer” chegou à farmácia do seu Garrido e perguntou-lhe, num tom muito sério

“Seu Garrido, o senhor gosta de carne de boi?”

Garrido que estava muito atarefado, respondeu que sim, gostava de carne de boi. “Bota Pra Moer”, depois de algum instante, novamente tirou o farmacêutico de suas tarefas e perguntou-lhe:

“Seu Garrido, o senhor come carne de boi?”

Um pouco chateado, Garrido respondeu:

“É claro, Antônio, eu gosto e como carne de boi. E tu, não comes?”

Ao que “Bota Pra Moer” respondeu, ironicamente:

“Comer eu como, seu Garrido, mas é sentado…”

O farmacêutico caiu na gargalhada, diante daquela tirada de “Bota”.

Os bolsos de “Bota Pra Moer” viviam cheios de pão, que ele comia constantemente. Em outros bolsos guardava papéis e tocos de lápis para fazer seus cálculos. Às vezes era contratado por firmas para sair fazendo propaganda de casas comerciais. Nessas ocasiões andava pelas ruas com duas placas, uma na frente e outra atrás, anunciando os produtos e preços da firma comercial que o contratara. E como ficava feliz e sorria quando os transeuntes paravam para olhar as placas que conduzia!

“Bota Pra Moer” gostava também muito de crianças, sempre tinha alguma coisa para oferecer aos petizes que o cercavam. Um de seus hábitos era fazer casinhas de papelão que vendia para as crianças, a preços módicos, porque, para ele, o importante era fazer felizes aqueles pequeninos seres. Outra mania do nosso personagem: colecionar nos bolsos bolinhas de gude. Quando encontrava alguém disposto fazia aposta de como era capaz de engolir aquelas bolinhas e quase sempre ganhava, trazendo-as de volta na hora em que fazia as necessidades fisiológicas. Tirava as bolinhas da “massa fecal” e limpava, guardava-as novamente nos bolsos, à espera de novos apostadores.

São Luís é conhecida como “Ilha Rebelde” devido à célebre greve de 1951, quando o povo se revoltou contra a posse no governo do Sr. Eugênio Barros. Um dia os grevistas entregaram a “Bota Pra Moer” a bandeira nacional e o colocaram à frente, numa marcha rumo ao Palácio dos Leões. Os grevistas se autointitularam de “Soldados da Liberdade”. Quando a turba chegou à Praça Pedro II e “Bota Pra Moer” viu aquele monte de policiais em frente ao Palácio, com as armas em ponto de bala, prontamente entregou a bandeira para o primeiro que apareceu, afirmando:

“Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu…”

Outros fatos pitorescos que se conta de “Bota Pra Moer”:

Certa vez telefonaram da residência do Sr. João Pereira, avô do Dr. Gabriel Cunha (que morava na Rua das Hortas) pedindo que fosse com urgência com determinado medicamento para uma pessoa da família que estava passando mal. Nessas ocasiões, o farmacêutico sempre pedia a “Bota Pra Moer” para fazer tais entregas. E foi o que aconteceu naquele dia. Seu Garrido tirou o remédio da prateleira, chamou “Bota” e deu-lhe o medicamento, instruindo-o quanto ao endereço onde deveria entregá-lo.

“Bota Pra Moer” chegou à porta da casa do Sr. João Pereira e bateu. Não foi atendido, tornou a bater e nada. Insistiu mais uma vez e ninguém dava sinal de vida. Vendo uma janela aberta, “Bota” pulou a referida janela, foi até a varanda da casa, deixou o remédio em cima de uma mesa, voltou a pular a janela e retornou para a farmácia. Ao chegar àquele estabelecimento, seu Garrido perguntou-lhe:

“Como é, Antônio, deixaste o remédio lá onde eu te disse?”

“Deixei, seu Garrido. Não tinha ninguém na casa e eu coloquei em cima de uma mesa.”

A essas alturas, na residência do Sr. João Pereira, estava todo mundo estupefato, sem saber como aquele precioso remédio fora parar em cima da mesa, sem que ninguém tivesse aparecido. Já estavam considerando um verdadeiro milagre, quando Garrido telefonou e contou a presepada de “Bota Pra Moer”.

Em outra ocasião, o então Presidente Dutra estava em visita a São Luís, trazido pelo Senador Vitorino Freire. Como parte da programação, Dutra e Vitorino foram para o Estádio Santa Isabel, onde o Presidente deveria dar o pontapé inicial de uma partida entre Sampaio e Moto. Quando as autoridades adentravam ao gramado (como dizem os locutores esportivos) lá atrás ia o “Bota Pra Moer”, muito na dele, jogando ioiô de tampa de panela. Nas arquibancadas e gerais a gritaria era infernal, todos se deliciando com o feito do “Bota”…

Pouco antes de “Bota Pra Moer” deixar este mundo, foi protagonista de outro episódio interessantíssimo. Tocava uma valsa numa das casas comerciais da Praça João Lisboa e nosso personagem, desinibido como era, apanhou a esmoler conhecida por Tiririca e com ela saiu valsando pelo calçadão existente em frente ao Moto Bar. Foi um acontecimento! Muita gente parou para ver aquele casal dançando feliz em plena praça, deixando de lado as tristezas da vida.

“Bota Pra Moer” costumava banhar-se numa lagoa infecta que se formava na Rua Paulo Frontin (no hoje bairro Retiro Natal) e que na época estava sendo aterrada. Aquela lagoa era, para o “Bota”, uma espécie de piscina, de rio ou de mar. Numa dessas vezes, vitimado por um mal súbito, “Bota Pra Moer” pereceu naquela lagoa e seu corpo foi encontrado no dia seguinte por populares que ali transitavam.

O corpo de “Bota Pra Moer”, depois de autopsiado, foi entregue à Faculdade de Medicina, onde os acadêmicos dele fizeram uso para seus estudos. Mesmo morto, o conhecido matemático foi útil – ou continua sendo útil – para os maranhenses…

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Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua [São Luís, 1988, 320 p.], cuja capa desenhada por Elvas Ribeiro, vulgo Parafuso, abre-ilustra este post. No livro o saudoso compositor dedica-se a perfilar estas “figuras populares”,  “gente simples de São Luís”, merecedoras de “nosso respeito e o nosso carinho”, como alerta o autor no preâmbulo da obra.

64 anos após lançado Carrossel da esperança permanece atual

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Comédia de Jacques Tati é uma crítica ao corre-corre desenfreado da sociedade contemporânea

Carrossel da esperança [Jour de fête, 1949, 77min.] inaugurou hoje a mostra Tati por inteiro, promovida pelo Sesc, no Cine Praia Grande, que recebeu um bom público para a sessão de abertura.

No filme, o próprio Jacques Tati interpreta o carteiro François, um atrapalhado de bom coração que tem em ajudar um prazer. Na praça de um vilarejo francês – alguns moradores compõem o elenco – instala-se um carrossel, a despertar o interesse, por motivos diversos, de adultos e crianças.

Nosso adorável carteiro, entre fazer o seu e bebericar em serviço, acaba assistindo, em um cine-mambembe a um filme sobre os carteiros americanos, cujo ideal de rapidez passa a perseguir. E é a partir daí que o filme torna-se ainda mais engraçado.

Muitos comediantes sem graça de hoje em dia deveriam assistir Tati e aprender com ele: é impressionante como mais de 60 anos depois de lançado, o filme continue despertando o sorriso em adultos e crianças. Carrossel da esperança não é cinema mudo, mas a fala ali é quase detalhe, o que facilita o entendimento para crianças que por vezes não conseguirão acompanhar as legendas. Ou mesmo para os que ainda não aprenderam a ler: o cineasta é recomendável para todas as idades. Sem contraindicação, sem moderação. Aproveite a mostra Tati por inteiro por inteiro.

Outro detalhe curioso sobre o filme é que durante muito tempo conheceu-se apenas sua versão em preto e branco: o colorido era uma tecnologia experimental na época e a versão em cores só veio a público em 1995, durante o restauro da obra de Tati, coordenado por sua filha. A música de Jean Yatove mereceria um comentário à parte: impecável trilha sonora de ares circenses.

Não se enganem os que pensam que a atualidade do humor de Tati está na facilidade, no fazer rir descompromissado de tropeços e quedas típicos dos pastelões. Isso está lá também. Mas não só. No fundo, a busca de François pela velocidade dos carteiros americanos em Carrossel da esperança acaba sendo uma crítica ao nosso correr desenfreado em busca de não sei o quê – dinheiro, celular último modelo, carro zero em não sei quantas prestações, casa própria, sucesso e reconhecimento profissional. Quer algo mais atual que isso?

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A mostra Tati por inteiro continua até sábado, programação de amanhã (22) na imagem que abre o post. Abaixo, trailer de Meu tio (Oscar de melhor filme estrangeiro de 1959, 20h); o de As férias do sr. Hulot (18h), no post anterior.

A intrusa: adquira já a sua!

O escritor Bruno Azevêdo reuniu os 12 capítulos de A Intrusa, folhetim que publicou ao longo do ano passado no jornal Vias de Fato, e publica agora um livro com sua história de amor, voltada sobretudo ao público feminino, nos moldes de hits de bancas de outrora, vide Julia, Sabrina e Barbara Cartland, entre outros que eu sempre vi tia Sara comprando e lendo.

Com ilustrações de Eduardo Arruda, capa de Frédéric Boilet, e prefácio de Xico Sá, a obra, que será lançada em maio, já pode ser adquirida no site da Beleléu, que lança a obra junto da Pitomba.

Em tempo: 18 de maio (sábado), às 14h30min, Bruno Azevêdo divide uma mesa com Ronaldo Bressane e Pedro Franz, sob mediação de Augusto Paim, sobre Narrativas gráficas sequenciais na Festipoa Literária.

Mais Ernesto Nazareth

Esta semana o blogue tem lembrado de Ernesto Nazareth, por ocasião dos 149 anos de seu nascimento e pelo lançamento do site do IMS que o homenageia. Abaixo, algumas pérolas deste compositor, executadas por nomes do primeiro time de nossa música instrumental:

Lembrando que domingo (25), às 9h, na Rádio Universidade FM tem Chorinhos & Chorões, com Ricarte Almeida Santos e as participações deste que vos perturba e João Pedro Borges. Não percam!

Para roer as Pitomba!s até o caroço

Para ler, baixar e/ou imprimir (e queimar em praça pública), vão aí os dois números da Pitomba! publicados até agora (em breve o site da editora homônima estará no ar). Pois como disse meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, um de seus editores, “se seguirão outros números ainda piores, aos trancos & barrancos”. Divirtam-se, pois como ele também disse, antes, a revista que ele edita com Bruno Azevêdo e Celso Borges é “dedicada a proporcionar o máximo de diversão possível através do maior número possível de provocações — & isso basta”.

http://www.zemaribeiro.wordpress.com

Gente dizendo que eu ‘tava há dias sem escrever. Não ‘tou. Só não escrevo mais aqui. Mudei de endereço, esse aí que batiza o post. Já tinha avisado, basta clicar, ‘tá ligado?

Pra que não restem dúvidas: eu agora escrevo no http://www.zemaribeiro.wordpress.com (um cliquezinho resolve).