A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

A moeda poesia na renegociação das dívidas com a música

Barítono. Capa. Reprodução

 

“Já fui salvo pela música tantas vezes, que, diante dela, sou um amontoado de dívidas constrangidas”. O verso que serve de orelha a Barítono [Editora Terreno Estranho, 2018, 78 p.] dá a pista do que vem ser o livro de poemas de Rodrigo Carneiro, jornalista, “cantor e letrista da banda Mickey Junkies e integrante dos grupos literários Trovadores do Miocárdio e Black Poetry”, como nos informa a outra orelha. O título dá outra pista. O próprio autor aparece na capa, empunhando um microfone e esvoaçando seus dreadlocks – o que dá mais uma pista. A palavra “pista”, aliás, é outra.

Os poemas de Rodrigo Carneiro têm ritmo. Em alguma medida o escritor paga suas dívidas. Ou começa. Ou intenta fazê-lo. “Se liga num poeta capaz de juntar, no mesmo imbatível poema, “a regata do Kiss” e “o sol d’O estrangeiro” de Albert Camus”, Xico Sá nos chama atenção no prefácio, cujo título é Um livro para levar para toda a vida.

A música permeia a obra do autor, edificada de modo a reparar, no céu, o sexo dos astros, entre os vãos dos prédios de São Paulo. Viagens e cenas do cotidiano também estão lá, em diálogo com as ilustrações de Diego Gerlach – autor do zine Pirarucu, encartado na Baiacu de Angeli e Laerte, faço questão de citar para acentuar a relação (também em sua poesia) de Rodrigo Carneiro com a cultura pop.

Em Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?, um poema em prosa a traduzir com graça, uma cena banal que poucos considerariam poesia – faço questão de transcrever a íntegra: “Acompanhado da mãe, um garotinho, de uns seis, sete anos, passa por mim e, finalizando o discurso que faz aos quatro ventos, solta um “rock’n’roll”. A mãe, que o traz pela mão e atravessa o calçamento a passos firmes, para, de súbito. “Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?”, indaga ela, surpresa e grave, ao menino. Como o ângulo de visão de nossos trajetos já tinha sido comprometido – àquela altura eu estava de costas para eles –, e a algazarra da região central da cidade inundava o ar, foi impossível ouvir a resposta do moleque. O que, curioso e dado a obsessões que sou, lamento profundamente. Desde o ocorrido, não consigo parar de pensar no que teria dito a criança a respeito da expressão proferida. Ou ainda: qual a bronca da jovem mãe com o gênero musical criado pela negrada americana. Eis mais uma das dúvidas que se acumulam na minha lista de incertezas. Mais uma das sentenças sem resposta que levarei comigo até o último dos dias”.

É comovente sua homenagem ao punk em Espírito de 1977: “O conheci ainda/ menino, e há/ entre nós tanta/ intimidade, que/ nos permitimos/ silêncios, crises,/ distanciamentos e/ reaproximações/ contínuas”, diz um trecho. Ou à banda de Tom Verlaine em Nós e o  Television: “Sem rede,/ que acolhe impactos,/ eis-nos aqui/ seguros/ nos braços/ da Vênus de Milo”.

Poesia é justamente este salto.

“Momentos que roubamos do mundo”*

Forte apache. Capa. Reprodução

 

Certa vez em uma rede social o poeta Marcelo Montenegro relatou um encontro com um amigo. Passaram horas conversando sobre tudo e, ao se despedir, o interlocutor observou: “nem falamos de poesia”. Ao que o poeta retrucou: “como assim? Falamos o tempo inteiro”.

Marcelo Montenegro é poeta em tempo integral: seja dando aulas de História (sua formação acadêmica), seja escrevendo roteiros (ocupação de que tira o sustento), fazendo a luz de espetáculos de teatro (função lembrada no poema Memórias de um operador de luz), escrevendo prosa (deve-nos um livro) ou poesia.

Sua poesia esbanja musicalidade, não à toa ele apresenta há mais de década o espetáculo Tranqueiras líricas, que virou disco no fim do ano passado, além de ser parceiro de nomes fundamentais da atual cena que vale a pena, entre os quais a banda Fábrica de Animais e a cantora e compositora Vanessa Bumagny.

Forte apache [Companhia das Letras, 2018, 115 p.; R$ 40; leia Três pensatos, poema que abre o livro] é um feito raro, ao reunir três livros de Marcelo Montenegro: além da seção de inéditos que dá título ao livro, o volume traz reedições de Garagem lírica (2012) e Orfanato portátil (2003) – este último coloca o poeta em condição de talvez único poeta brasileiro vivo com um livro de poesia já em sua terceira edição.

Sua poesia é coalhada de referências da cultura pop, do universo do cinema, da música, da literatura, entre citações, colagens e epígrafes (Tom Waits, Elizabeth Bishop e Murilo Mendes), que ele costura como um ás. Como no poema-título, que cita, entre outros, Noel Rosa, Elvis Costello, Laura Riding, François Truffaut e Ferreira Gullar.

Espécie de “Manoel de Barros da cidade grande”, como anota o ídolo Chacal na orelha de Forte apache, Montenegro é dono de uma sensibilidade aguda capaz de eternizar aquilo que geralmente tomamos como banal. Como em Spoiler: “Lembro que você me contou/ uma história incrível./ Embora não lembre a história,/ sou capaz de soletrar,/ inclusive, a brisa que,/ por um microssegundo,/ inflou a cortina da sala.”.

Tudo é matéria-prima para a poesia de Marcelo Montenegro. A desprezada “ponta do pão Pullman”, “o baque da privada gelada” e “os ingredientes do Toddy” (em Velhas variações sobre a produção contemporânea), “Um gosto/ de obturação na boca”, “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato” “E aquela música linda/ que nunca toca no rádio” (em Buquê de presságios) – dois dos poemas mais bonitos já escritos neste século.

Volto ao poema-título e uma de suas citações: “Elvis Costello disse que o rock’n’roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu”. Podemos dizer o mesmo em relação à poesia. Quantas vezes o leitor, mesmo aquele que não arrisca versos, não se pegará pensando, ao longo da leitura de Forte apache, parafraseando Itamar Assumpção (outra referência, citado no poema Bildungsroman): “por que é que eu não pensei nisso antes?”.

Os poemas de Marcelo Montenegro são sofisticados em sua aparente simplicidade. Dão a falsa impressão de que poderiam ter sido escritos por qualquer um, mas, como alertou Leminski, “um bom poema/ leva anos”.

Poetas moram dentro de seus poemas e “Cantar é roubar/ uns minutos da morte” (Literatura comparada). Uma singela e rara cumplicidade se estabelece entre autor e leitor: seus versos nos tornam íntimos do poeta, transformando-nos em seus companheiros de aventuras, Estabanados aprendizes dos feiticeiros: “Contemporâneos de cada estilhaço./ Furtando taças de vernissages./ Bebendo vinho em copos de plástico.”.

&

*verso de Eu costumava grifar meus livros.

Poesia, faça chuva ou faça sol

Mural de nuvens para dias de chuva. Capa. Reprodução

 

“A utilidade é a prisão dos arrogantes”, sentencia a poeta Adriana Gama de Araújo em Poema para o fracasso, um dos de Mural de nuvens para dias de chuva [Penalux, 2018, 62 p., R$ 30,00], sua estreia em livro.

É tapa na cara dos caretas, os que querem justificativa para tudo e insistem na pergunta “para que serve a poesia?”. No DNA poético da autora, mestra em História e professora da rede pública, está Manoel de Barros, com sentença conhecida: “tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, afirmou o poeta pantaneiro.

A poesia de Adriana se constitui de pequenos espantos, como Ferreira Gullar disse de sua própria poesia. “Fazer poesia/ é diferente de escrever versos/ passarinho faz poesia na cumeeira da casa/ que nem cachorro abanando o rabo/ quando brinca no quintal com o menino/ ou a lavadeira fabricando arco-íris/ com sol e sabão na beirada do rio/ eu só olho e copio no papel” (Poesia de cada dia).

Adriana escreve sem se perguntar o porquê: necessidade vital. Grande leitora, o que explica em parte a qualidade dos poemas de sua coletânea de estreia, em caprichada edição. Referências diversas, não apenas no campo literário, poético, espraiam-se pelos poemas de Mural de nuvens para dias de chuva – para ser lido também em dias de sol ou a qualquer tempo.

Ela escreve desde os 15 anos, a princípio confinando seus poemas a um círculo restrito de amizades, a quem os dava de presente – e que honra deve ser receber de presente um poema de Adriana Gama de Araújo! Depois inaugurou o blogue Pólen Radioativo – inspirada em Roberto Piva –, onde até hoje publica com regularidade. O livro era um caminho natural, apesar da apregoada falácia de sua eterna agonia (ou morte, teimam alguns).

O empurrão definitivo veio com uma espécie de chancela do poeta Fernando Abreu: reconhecendo a qualidade da poesia de Adriana Gama de Araújo, ele, além de incentivá-la a publicar, ajudou-a a selecionar os poemas do livro e escreveu seu prefácio. Em retribuição ganhou Poesia, poema que ela lhe dedica, em diálogo direto com a ancestralidade poética do bicho-homem e, consequentemente, com o Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p.], mais recente volume de poemas do “pária”.

“Por mim, sinto vontade de rir alto disso tudo quando leio os poemas desse Mural de nuvens para dias de chuva. Rir com a alegria que é poder celebrar a estreia em livro de uma poesia de tanta potência e poder de comunicação. Grifo “estreia” porque chego a considerar a palavra inapropriada para uma artista que demonstra plena consciência do que faz, das forças estética, emocionais, linguística e espirituais que mobiliza na costura de seus poemas”, atesta Fernando Abreu no texto A poesia morreu, viva a poesia.

Endosso sua opinião, embora isso nada acrescente. Adriana estreia madura. Fecho com ela própria, a demonstrar a verdade do que afirmamos: “não me venha com esse olhar técnico/ construindo paredes entre os meus versos/ e nem tente aparar o exagero das arestas/ se os sentimentos coubessem numa régua/ o poema seria só mais uma forma/ de morrer com precisão geométrica” (Poema não é projeto).

Serviço

Adriana Gama de Araújo lança Mural de nuvens para dias de chuva em noite de autógrafos amanhã (30), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, altos, Praia Grande – sobre o restaurante Cafofo da Tia Dica).

O micróbio da poesia

Os poetas Severina Branca e Jorge Filó em cena de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras. Frame. Reprodução

 

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Muita gente pode lembrar uma não rara desastrada experiência escolar, quando professores tentam empurrar goela abaixo, e pior, fazer decorar versos que ao aluno e seu entorno fazem nenhum sentido. Outros pensam em coisa de iluminados, gente com inspiração divina para cometer versos ou coisa parecida.

Dessacralizar o universo da poesia é justamente o que faz o documentário O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras [documentário, Brasil, 2016, 78 min.], do serra-talhadense Petrônio Lorena (que assina também a trilha sonora), que estreia hoje (22) no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Literalmente um baita título, síntese de dor e delícia de ser poeta.

Dessacralizar talvez nem seja bem o termo: a poesia continua sendo sagrada. O que o filme mostra, no entanto, é que pode ser fruto da cabeça (e coração) de qualquer reles mortal. Há uma cena em que um poeta, num bar (uma das locações mais constantes do documentário), advoga a favor do uso de álcool e outras drogas – em nome da poesia.

Geograficamente, o filme se localiza na divisa entre Paraíba e Pernambuco, em Ouro Velho e Prata, naquela, e São José do Egito, neste, lembrando mitos da poesia nordestina, entre vivos e mortos, privilegiando depoimentos de poetas em vez de especialistas – comparecem histórias de, entre outros, Lourival Batista e Biu de Crisanto.

Sobra bom humor em constantes exercícios de memória: não raro um poeta lembra uma glosa bem humorada, contextualizando a situação em que o verso foi composto, a tiração de onda de um repentista para com outro, a resposta deste àquele, e por aí vai. No fundo, a gente se sente bebendo entre amigos, a relembrar velhos causos, e rindo.

O longo e poético título é mote dado por Severina Branca a Didi Patriota. De poeta a poeta, ela também boêmia e prostituta, é uma das personagens mais interessantes do longa-metragem, considerada por muitos a Eleanor Rigby do Nordeste.

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Para alguns, ela significa a própria vida e sina.

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Veja o trailer de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras:

Instantes eternizados

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

 

De Marcelo Montenegro, Chacal já disse: é o Manoel de Barros urbano. Chacal (que ele lê em Desabutino, único poema não assinado por Montenegro em Tranqueiras líricas) sabe das coisas:  a analogia tem fundamento. Ambos os poetas têm a capacidade de eternizar a banalidade da vida, aqueles acontecimentos que, de tanto se repetirem, já ninguém se ocupa.

Como por exemplo, “agora mesmo alguém deve estar limpando/ cuidadosamente o cd com a camisa,/ pulando a ponta do pão Pullman,/ sentindo o baque da privada gelada”, em Velhas variações sobre a produção contemporânea, poema que abre Tranqueiras líricas, disco que Marcelo Montenegro lançou no apagar das luzes de 2017.

O autor lançará mês que vem, pela Companhia das Letras, Forte apache, que reúne, além do livro-título, os livros Orfanato portátil e Garagem lírica. É poeta bom de ler e ouvir, dono de uma das obras mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Tranqueiras líricas, espetáculo que já apresenta há mais de uma década, é recheado de referências, mas não hermético, tem um pé no rock, outro no blues, a voz de Marcelo Montenegro, talhada “equilibrando/ a lata e o cigarro” (ainda do poema de abertura), acompanhada por guitarras, violões e arranjos de Fábio Brum, seu parceiro de palco e empreitada também de longa data – em 2013 o poeta apresentou o espetáculo durante a Feira do Livro de São Luís, na companhia do guitarrista Marcelo Watanabe.

O título é verso de Buquê de presságios: “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio”.

Tranqueiras líricas é daqueles discos cujo anúncio deixa ansiosos os que acompanham mais de perto o trabalho de Marcelo Montenegro – leva anos entre a ideia e a concretização do objeto disco, às próprias custas s/a. Uma vez lançado, resenhistas correm sério risco ao citar este ou aquele trecho, e não outros, numa bolacha em que tudo é sublime, mesmo o supostamente mórbido: “PENSO em alguém que, na manhã/ do dia de sua morte, desiste/ de usar a camisa que mais gosta,/ preferindo guardá-la para uma festa/ que terá na noite seguinte” (de Três pensatos).

“Tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, já disse Manoel de Barros. Como o poeta rural, a poesia do poeta urbano se ocupa destas insignificâncias, tornadas grandes ao serem eternizadas pelo olhar atento e sensível de Marcelo Montenegro. Como, por exemplo, no poema Filme: “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”, começa. Há outros momentos grandiosos, mas: corta! E termina: “Você volta ao quarto dizendo/ – Está me dando uma fome!/ enquanto rimos da pose engraçada/ que o ator parou./ Antes de apertar o play/ chego a esboçar que algumas pessoas/ são incapazes/ de tirar a poesia do sério”, o que não é o caso de Marcelo Montenegro e eis uma possível síntese para Tranqueiras líricas (e, de resto, toda a sua obra).

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Ouça Velhas variações sobre a produção contemporânea (Marcelo Montenegro):

A poesia indo além

Paulo Leminski dizia que a pessoa que não escreve um verso, mas não consegue dormir sem ler umas páginas de Fernando Pessoa ou outro poeta de sua preferência, é tão poeta quanto quem escreve. Muita gente desiste da poesia às vezes pela forma como ela é enfiada goela abaixo, sobretudo nas escolas, sendo associada, no imaginário popular (preconceituoso), quase sempre a professores/as chatos/as, por detrás de grossas lentes, isso sem falar na “utilidade” da poesia.

Caco Pontes comanda o Baião de Spokens no Teatro Oficina, durante a gravação do dvd. Foto: Mundo em Foco

Mas poesia pode ser outra coisa, poesia deve ser outra coisa, poesia precisa ser outra coisa. Um bom exemplo é o Baião de Spokens, idealizado e capitaneado pelo ator e poeta Caco Pontes (autor, entre outros, do ótimo Sensacionalíssimo, com poemas baseados em notícias de jornais sensacionalistas, editora Kazuá, 2013), projeto multimídia que agrega diversos nomes de várias áreas e já teve várias apresentações em festivais, feiras e mostras.

#Opendrive. Capa. Reprodução

Gregário por natureza, o projeto chega ao disco, recheado de parcerias e participações especiais. Disco é modo de falar, evocando o conceito de álbum: o trabalho do Baião de Spokens é lançado (também) em pendrive, mesclando diversos suportes, com a mídia permitindo ao proprietário/colecionador/usuário salvar seus próprios arquivos além do disco, livro e dvd (com a videoperformance de show gravado ao vivo no Teatro Oficina, enquanto Silvio Santos não lhe veda com suas torres e a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”), uma sacada-trocadilho inteligente com o título do trabalho: #Opendrive.

Além de parceiros, participações especiais, linguagens e suportes, #Opendrive também é ponto de encontro de várias referências, da vanguarda paulista ao Nordeste de Luiz Gonzaga (evocado, além de musicalmente, nas xilogravuras do projeto gráfico de Daniel Minchoni), passando pela Bossa nova e pelo rap, afinal de contas, abreviatura de rhythm and poetry.

Melô do pendrive, que abre o disco com a participação especial de Sandra X (voz), dialoga com o rap e o canto-falado de Linton Kwesi Johnson. Réu, com a participação especial de Alzira E e Iara Rennó evoca Itamar Assumpção, melodicamente, no jeito em que o canto é entoado e no sample de Vinheta I (Itamar Assumpção), que abre Beleléu, leléu, eu (1980), disco de estreia do tieteense.

Sophia Lacoste evoca outra obra-prima oitentista, Clara Crocodilo (1980), citada nominalmente, e sua ficção científica. “São Paulo, 25 de abril de 2037”, começa Arrigo Barnabé, convidado especial da faixa, ao lado de Suzana Salles (Isca de Polícia), outra vanguardista paulistana-paranaense.

O nosso bem, com Alice Ruiz, é pura doçura, poemúsica escrito a quatro mãos com o anfitrião. Sinhá D’Oyá é candomblé elétrico, na melhor levada “tecnomacumba”, com a guitarra sempre em pirueta de Kiko Dinucci.

A viola caipira de Daniel Viana ponteia a introdução de Osso, com participação de Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo), coautor da faixa, uma equação de nossos tristes tempos sob o domínio de golpistas: “ói/ a vida aqui/ tá osso/ (…)/ muito carnê/ & pouca carne/ muito negócio/ & pouco ócio”. Gustavo Galo assina ainda, em parceria com Caco Pontes, Osso – Parte 2 (O preço do terço), faixa que se ouvirá mais à frente.

Mariposas suicidas é uma distopia (no fim das contas muito próxima de nossa realidade, como toda distopia) em que o planeta gira e pira, enquanto seres humanos “vivendo seus próprios dramas/ e a caça de insetos/ outra prestação se dando por vencida/ muriçocas temerosas zunido orelhas”.

Com João Sobral, Evoluo indo “desjustapõe” a evolução, entre encontros e despedidas, fluxos, chegadas e partidas, esta “arte do encontro” chamada vida. Firmino Chão, com Lirinha, trocadilha o nome nordestino com a firmeza sertaneja, o nordestino é “antes de tudo, um forte”, seu Euclides, seu Belchior.

Orecular, com Dani Nega, dialoga com as pistas, “poesia pra/ rimar_comer / viver_sentir / obrar_morrer/ …cantar…/ (desconstruir)/ e o que mais tiver de ser”, então, por que não?, dançar.

O Baião de mashups encerra o disco como propõe o título da faixa: remixa e liquidifica Luiz Gonzaga (Baião, parceria com Humberto Teixeira), Caetano Veloso (que cita Gonzagão em You don’t know me, do antológico Transa, de 1972) e João Gilberto (em seu baião autoral Bim bom).

Eis um ótimo exemplo de que poesia sempre pode ser bem mais.

Ouça #Opendrive:

Herança portuguesa

O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação

 

“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.

Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.

Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez.
Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.

Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria?
A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.

Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é?
A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.

No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório?
Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.

Arte: Diego Dourado/ Divulgação

Lúcia Santos: lúcida e lúdica

Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução
Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução

 

Os remédios tarja preta, de uso controlado mediante receita médica, estão, no imaginário coletivo, associados aos “malucos” que os usam legal ou ilegalmente. A expressão é quase sinônimo de loucura, barra pesada, proibição.

Na capa e no título (e apenas ali) do novo livro de poemas de Lúcia Santos, Nu frontal com tarja [Reformatório, 2016, 125 p.], no entanto, é justamente o contrário. O conteúdo – 102 poemas, como anunciado na capa – é pura lucidez, ludicidade e desnudamento.

Aguardado sucessor de Uma gueixa pra Bashô (2006), inteiramente dedicado ao haicai, Nu frontal com tarja demonstra um amadurecimento da poeta – uma das mais importantes em atividade no Brasil –, sem no entanto, abandonar algumas características de seu fazer poético: a concisão, certa ginga e a musicalidade.

Dividido em três partes, Nu frontal com tarja traz, em A tesoura de Dalila, poemas curtos e/ou rimados; em MudOlhar, poemas em prosa; e em Além Dali, poemas seus musicados por nomes como Kléber Albuquerque, Adolar Marin, Nosly, Dudu Caribé, Pedro Moreno e o irmão Zeca Baleiro, entre outros.

Os títulos das seções, aliás, já dão um rasante em suas referências, que continuam a escorrer por seus poemas, umas mais óbvias, outras menos: mitologia (Penélope, Narciso, Prometeu), religião (Jesus, Madalena), cinema (François Truffaut, Gerard Depardieu), moda (Dior), música (bossa nova, rock’n roll, punk, Maria Callas, Maurice Ravel) e poesia (Matsuo Bashô, Glauco Mattoso, que assina o texto da quarta capa).

“Seu estilo se presta bem ao haicai que, como a temática se desnuda sem pejo nem nojo, funciona à guisa de autêntico epigrama”, sentencia o poeta Glauco Mattoso no texto da quarta capa, em que recomenda ainda: “Continue lúcida e lúdica, Lúcia, nesse pique, pois”. Não é mero jogo de palavras. Ela retribui no poema Ironia crônica: “minha sátira seria/ toda prosa/ ao olhar invejoso/ se ao invés de glaucomatosa/ eu fosse Glauco Mattoso”.

O poema sem título “entre-me/ alma corpo e membro/ como primavera namora setembro” é das delicadezas de que Lúcia Santos é capaz, feminíssima voz. Como em Jogo de cena: “não subestime meu poder de fogo/ sou centroavante linha dura/ quando meu time entrar em campo/ você vai se surpreender com meu jogo/ de cintura”. A poeta é sempre dona da situação. Não entrega o ouro ao bandido, mas não tem nada a esconder. Em Punk, por exemplo, critica a ditadura da felicidade (apregoada sobretudo nas redes sociais) e da sociedade de consumo: “fuck it/ a vida não é um fake book/ comercial de margarina/ pose e look// mesmo fina/ a dita dura da felicidade/ só entra com vaselina”.

Quem não quiser tornar-se o personagem de Deslocado – “perdeu os melhores filmes de sua vida/ vasculhando a empoeirada estante da comédia romântica” – precisa ler este quarto livro de Lúcia Santos. Acompanhe-a nesta viagem. Última parada, poema final, é boa síntese: “fim de linha/ finda viagem/ navios queimados/ desembarco na vida real// agora é que são elas/ agora aqui sou eu/ sem velas”.

Espanto de ex-ilhado

Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução
Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução

 

Novo livro do poeta Dyl Pires, Éguas! [Pitomba!, 2017, 60 p.; R$ 20,00] é completamente distinto do Poema Sujo de Ferreira Gullar, mas é impossível não associá-los, longe de querer cair na comparação preguiçosa de que aquele é o Poema Sujo do século XXI ou coisa que o valha. Neste sentido são absolutamente distintos.

O Poema Sujo foi escrito ao longo de cinco meses em Buenos Aires, Argentina. Éguas! levou pouco menos de um mês, durante um período de férias do autor em São Luís, evocando a Ilha de sua infância e adolescência. Num e noutro a ilha pulsa, viva.

Ambos têm São Luís como cenário-personagem e foram escritos durante o exílio: forçado, no caso de Gullar, perseguido pela ditadura militar; voluntário, no caso de Dyl, radicado há quase década em São Paulo. Publicados em livro, ambos parecem ter sido feitos para a declamação em voz alta e têm a leitura em seu nascedouro.

O Poema Sujo chegou ao Brasil em uma fita k7 com a voz de Gullar e foi apresentado a um seleto grupo pelo diplomata Vinicius de Moraes. Antes de ser publicado Éguas! teve leituras em rodas de amigos e gente interessada em poesia, ocasiões em que o autor colheu e incorporou sugestões – experiência seguida também pelo editor Bruno Azevêdo, cujo work in progress exposto nas redes sociais também acatou sugestões ao resultado final do bonito projeto gráfico, um padrão de sua editora, ouso dizer.

Ao longo da última semana, já com a obra em mãos, sua voz e visão originais materializadas em papel, Dyl Pires realizou diversas leituras, espécies de avant-premières da noite de autógrafos que faz hoje (8), às 19h, no Chico Discos (Rua dos Afogados, 289-A, altos, Centro) – com Samarone Marinho, que lança Ser quando.

Tipicamente maranhense a expressão que dá título ao livro é “uma interjeição, um anúncio de que o extraordinário irrompeu no cotidiano”, anota Matheus Gato em “A dor real é ser ilha”, espécie de posfácio (cujo título é um verso) do livro-poema. De espanto a interjeição se reconfigura em admiração, quando descobrimos estar diante do melhor livro de Dyl Pires, flanando com o autor por ruas, culturas, episódios, gente viva e saudosa que homenageia.

“dizer do si mesmo da cidade que está em/ Cláudio Costa/ Mondego/ Binho Dushinka/ Jesus Santos/ como um grito primitivo do sonho”, erige o poema-monumento aos vivos, tributando também quem já se foi: “escorrem pelas carrancas da Fonte do Ribeirão/ servindo-se daquelas máscaras/ para se reapresentarem à ilha/ são eles/ João Alexandrino/ Padre Mohana/ Cipriana/ João do Vale/ Reinaldo Faray/ Valdelino Cécio/ Pierre Barroso/ Beto Bittencourt/ Cristóvão Alô Brasil/ Lopes Bogea/ Ambrósio Amorim/ Serginho Fontenele/ Zuza/ Wagner Alhadef/ Roberto Lameiras/ Jorge Babalaô/ Lauro Leite/ Rosclim/ Rui/ Carioca/ Terezinha de Jesus Rodrigues/ Eliane Ribeiro/ Terezinha Jansen/ Josemar/ Antônio Vieira/ Mestre Felipe/ Dona Teté/ Nelson Brito/ Rafael Bavaresco/ Marco Cruz/ Faustina/ Michol/ César Maranhão/ Mestre Leonardo/ Mestre Apolônio/ Fidel/ Seu Adalberto/ Moema/ Jackson Pires/ Ubiratan Teixeira/ Magno Aires/ Omar Cutrim/ Humberto do Maracanã/ José Chagas/ Herbeth Fontenele/ Nauro Machado/ Guilherme Teles/ Norberto Fabian Castellano/ Ana Duarte/ Lara Sena/ Ângela Gullar/ Aldo Leite/ Ferreira Gullar”, perdas sentidas pelo poeta e pela cidade-musa.

Imediatamente à frente anota: “as ausências são o lugar/ de onde melhor ainda se vê o futuro”. Com seu olhar de turista-estrangeiro-exilado, Dyl Pires afasta o risco de qualquer pieguice que acomete grande parte das obras de arte que se arriscam a cantar a cidade.

Dyl Pires eterniza momentos fugazes em seu livro-poema, como quando narra: “Dylson Bessa Junior/ endiabrado em sua cadeira de rodas/ desceu a Rua do Egito chutado/ como se quisesse fazer do perigo/ um cardume de morte e ressurreição/ e esquentar a primeira estrela vista aquela noite/ as mãos que o empurravam negociavam/ o arame farpado da fé com o destino/ naquela noite todos foram dormir em paz/ embora tenham sonhado com o céu/ de escuras estrelas das axilas de deus/ hoje de pensar dá medo”.

Seu personagem tornado criança, sem noção do perigo na Rua do Egito, dialoga com as crianças na Rua de Nazaré em uma fotografia de Pierre Verger de 1948 que ilustra o volume – a outra imagem do francês mostra crianças brincando na Fonte do Ribeirão. Talvez ser poeta signifique justamente isso: voltar a ser criança e, portanto, à capacidade de espanto. Por essas e outras, Éguas! já nasce clássico.

Ferreira Gullar: um vazio impreenchível

O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress

 

“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.

Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.

Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.

O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.

Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.

Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.

Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).

O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.

Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].

“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.

Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.

Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.

Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:

Poema sujo: vivo, atual, visual

Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos
Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos

 

Quando Diógenes Moura desceu do táxi, na Praia Grande, de madrugada, deparou-se com o Poema sujo diante dos olhos, vivíssimo: “vi aquele homem agachado, despido, ali, sozinho, tornando públicas as suas entranhas antes de os dois bêbados me abordarem descendo ladeira abaixo e pedindo dinheiro porque precisavam de um pouco mais de loucura”, escreve em Carta número um para uma coisa de fato, seu texto em Visões de um Poema sujo [Vento Leste, 2016], uma carta a seu autor, Márcio Vasconcelos, no livro que ele lança hoje (30) – o terceiro em 2016 –, às 19h30, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro).

“O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”, anota o então exilado Ferreira Gullar no Poema sujo, escrito entre maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, Argentina.

Cada homem ou mulher lê e percebe a cidade de modo diferente. Diógenes Moura, que assina a curadoria e concepção editorial de Visões de um Poema sujo, percebeu, após Márcio Vasconcelos vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2014, que ele já fotografava o Poema sujo há pelo menos 10 anos, expondo, como Gullar fez em versos, com o mesmo talento e olhar sensível, a beleza e a podridão – e nesta, a beleza – da cidade, do itinerário percorrido pelo poeta naquela que é considerada por muitos sua obra-prima.

A perspectiva de Márcio Vasconcelos é interessante: a algumas fotos realizadas antes de vingar a ideia de uma releitura fotográfica do Poema sujo, ele passou a imaginar-se exilado em Buenos Aires para fotografar a obra de Gullar. Este resenhista confessa: quando ouviu falar em Visões de um Poema sujo, antes de o livro existir, pensou tratar-se de uma espécie de Poema sujo ilustrado. Ainda bem que estava errado.

Não espere o leitor, portanto, uma tradução imagética da obra em versos. Quem leu o Poema sujo ora verá fotografias que remetem a determinados trechos do poema, ora se perguntará, talvez, por que determinada fotografia foi incluída no livro. A única constante no livro de Márcio Vasconcelos é a beleza, das imagens, cada uma por si e, obviamente, do conjunto – como o livro de Gullar, que teve trechos musicados e tem uns mais lembrados que outros, mas que é bonito por inteiro, mesmo quando chafurda no horrendo.

O poeta maranhense radicado no Rio de Janeiro prossegue: “mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa:/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas/ (mesmo rolando longe dela)/ O homem não está na cidade/ como uma árvore está num livro/ quando um vento ali a folheia”.

Márcio Vasconcelos fotografa o livro-poema de Ferreira Gullar, mas uma chave de leitura errada, ou melhor, uma chave de olhar errado, é imaginar algum tipo de fidelidade entre as imagens e o poema, como minha crença inicial.

Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução

Visões de um Poema sujo é uma contribuição importante e, por que não dizer, poética, ao reconhecimento da força e atualidade do Poema sujo, recém-relançado pela Companhia das Letras [2016, 112 p.], “livro que é um dos mais importantes da língua portuguesa da segunda metade do século XX”, conforme atesta o poeta e jornalista Celso Borges em Outra cidade e a mesma, o outro texto do livro de Márcio Vasconcelos.

“Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus cheiros e mangues. O fotógrafo procura e desnuda essa sujeira luminosa”, prossegue Celso Borges, para arrematar: “Algo permanece eterno, independentemente do tempo. Este o milagre: reencontrá-la e reinventá-la”.

Márcio Vasconcelos confessa uma de suas intenções ao realizar Visões de um Poema sujo – título também da exposição com que ganhou o Marc Ferrez: chamar novamente as atenções para o poema de Gullar, deixando livres os sentidos dos leitores para suas próprias interpretações.

É Gullar quem arremata: “cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas”.

Paisagens poéticas

Os poetas Heyk Pimenta e Josoaldo Lima Rêgo. Foto: Zema Ribeiro
Os poetas Heyk Pimenta e Josoaldo Lima Rêgo. Foto: Zema Ribeiro

 

Os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta lançam amanhã (12), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM), em São Luís, seus novos livros de poesia, Carcaça [2016, 127 p.] e A serpentina nunca se desenrola até o fim [2015, 71 p.], respectivamente, ambos pela carioca 7Letras, uma das mais conceituadas quando o assunto é poesia contemporânea brasileira.

A serpentina nunca se desenrola até o fim. Capa. Reprodução
A serpentina nunca se desenrola até o fim. Capa. Reprodução

Josoaldo e Heyk são dois estetas e o par de livros dialoga, desde as capas, a primeira de Diego Dourado, a segunda reproduzindo o Mare fecundatalis, de Augusto Meneghin, envolvendo bons poemas, feitos de paisagens e experiências, reflexos de suas andanças pelo mundo.

Graduado em Ciências Sociais com mestrado em Letras, Heyk é mineiro radicado no Rio de Janeiro, após passagens por São Paulo, Rio Grande do Sul e o casamento com uma maranhense – ele aproveita o lançamento em São Luís para apresentar Zoé, seu primeiro filho, à família da esposa. Geografia também é o forte de Josoaldo, professor do curso na Universidade Federal do Maranhão.

Em Penso agora em como vamos nos virar, Heyk relembra a descoberta da gravidez: “nossos olhos são de gato marianna/ e andamos mexemos/ por dentro das bocas de bicho/ que nos demos”, diz. E prossegue: “agora volto sem nada da rua nenhum golpe brotou/ gastei nosso dinheiro e espalhei/ nossos planos/ amanhã não vai ser melhor o despertador/ mostrará nossas cuecas penduradas na porta/ e dirá eu sei, mas não resta saída crianças”.

Carcaça. Capa. Reprodução
Carcaça. Capa. Reprodução

A paisagem de Josoaldo é mais árida, não menos poética, espaço onde brota, no plural, o resto animal que dá nome a seu conjunto de poemas. O maranhense mergulha fundo na violência do interior do Pará e do Maranhão, sobretudo no campo. Bons exemplos os poemas Eusébio e Nos baixões de Altamira, cuja íntegra transcrevo a seguir.

“eusébio cai morto, tomba da moto no alto turiaçu./ dois tiros trespassam o peito e arrebentam a/ pulseira de jaguar. susto – a perspectiva do salto,/ um sentido amplo e feroz de morte estoura na/ cara do índio. a camisa suja de terra suja de/ sangue e gasolina. o barulho dentro do clarão/ noturno. a moto segue por alguns metros,/ sozinha, depois arrola o metal na mata. um rio/ morre assim, eusébio, com pólvora e razão nas/ entranhas”, diz o que homenageia o kaapor assassinado a tiros em Santa Luzia do Paruá em abril de 2015.

“em altamira/pa/ raimundo nonato decide/ matar o tempo:/ dança no escuro/ e arranca 4 dentes à foice/ sem paz/ ao som duma turbina/ de hidroelétrica”, diz o poema cru/el e político sobre a violência que permeia megaprojetos como a usina de Belo Monte, encravada no Rio Xingu, próximo a Altamira.

O lançamento no MHAM terá apresentação do grupo Ninfas Equatoriais, que acompanhará os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta na leitura de poemas dos livros, com microfone aberto a quem quiser participar.

Primeiro póstumo de Nauro Machado deixa a gaveta

Canções de roda aos pés da noite. Capa. Reprodução
Canções de roda nos pés da noite. Capa. Reprodução

 

Canções de roda nos pés da noite [Contracapa, 2016, 160 p.] é uma das provas possíveis – e não são poucos os exemplos – de que poetas sobrevivem à morte física. Trata-se do primeiro livro póstumo de Nauro Machado, falecido aos 80 anos em 28 de novembro do ano passado.

Nauro deixou organizados cinco livros inéditos e manifestou a ordem em que os que ficaram deveriam fazê-lo: o primeiro é este Canções de roda nos pés da noite.

Dedicado às netas Júlia e Luiza, filhas do filho único Frederico Machado – ao lado da mãe, Arlete Nogueira da Cruz, responsável pelas últimas publicações do pai em vida, tornado, com seu falecimento, curador do que Nauro deixou na gaveta –, o subtítulo “Poemas infantis” pode enganar leitores incautos.

Não que Nauro seja hermético – pecha que sempre afastou leitores de sua obra –, mas não é exatamente um livro para crianças. A família, a morte e Deus são temas constantes ao longo dos poemas, ilustrados por fotografias de Márcio Vasconcelos, retratando lugares por onde o poeta costumava flanar, grande prazer que tinha em sua cidade natal.

Em Berçário, o maior poema, que ocupa seis páginas do volume, um bom exemplo: “Minha mãe cega,/ enfim vê tudo/ que Deus revela,/ falando mudo”, finaliza.

É um conjunto bonito e coerente, do feitio de Nauro. O herdeiro prometeu, além de retirar os inéditos da gaveta, como era vontade de seu pai, reeditar os cerca de 40 volumes de sua obra poética. Leitores e admiradores de sua poesia aguardam ansiosos.

Canções de roda nos pés da noite será lançado hoje (2), data em que Nauro Machado completaria 81 anos. Na ocasião, a Academia Maranhense de Letras (AML, Rua da Paz, 84, Centro), que sediará o evento, relançará Erasmo Dias e noites, obra em prosa, misto de ensaio e memória, do autor, sobre o amigo e também escritor e boêmio Erasmo Dias.

Na ocasião, às 19h, a Coteatro apresentará o recital O operário da palavra, baseado em poemas de Nauro Machado, sob direção de Tácito Borralho, apoio técnico de Abel Lopes, com Luciano Ferrgar, Magno Abreu, Rogério Vaz, Cristian Ericeira, Raimundo Reis, Murilo Santos e James Louzeiro. A entrada é gratuita.

Modo de vida: poesia

Os párias Raimundo Garrone, Ademar Danilo e Marcello Chalvinski conversaram com o Homem de vícios antigos no Cafofo da Tia Dica. Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

“Não confio em ninguém com mais de 30”, diz o hit dos Titãs. 2016 marca os 30 anos da publicação da primeira edição da revista Uns & Outros, que ao longo de oito exemplares veiculou os poetas da Akademia dos Párias.

O nome do grupo trazia em si uma provocação: colocava os párias, isto é, a ralé, num local sagrado, a academia – referiam-se provocativamente à Academia Maranhense de Letras (AML). Na outra academia, a Universidade Federal do Maranhão, exercitavam a liberdade, a maioria deles no curso de Comunicação Social.

A Akademia dos Párias congregou, ao redor de poesia, álcool e drogas um estilo de vida que acabou por devolver à cidade de São Luís o status de cidade de poetas – para além do modorrento título, sempre contestável, de Athenas brasileira.

Jovens estudantes, alguns já formados, tomavam de assalto bares com seus recitais caóticos –porém sinceros. Os 30 anos da revista e, portanto, do grupo que a publicava, serão celebrados amanhã (19), a partir das 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com o lançamento de A poesia atravessa a rua, antologia que reúne 25 poetas publicados nos oito números da Uns & Outros.

No Cafofo da Tia Dica (por detrás da Poeme-se), Homem de vícios antigos conversou com os jornalistas Ademar Danilo e Raimundo Garrone e o publicitário Marcello Chalvinski, representantes de duas gerações (ou dentições) da Akademia dos Párias, todos poetas – ao menos em algum momento da vida –, todos publicados na Uns & Outros.

Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)
Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

Vocês abandonaram a poesia?
Raimundo Garrone – Eu continuo escrevendo, mas não publico.
Ademar Danilo – Eu me embruteci. O jornalismo me tirou da poesia.
Marcello Chalvinski – Eu publiquei três livros de poesia [Anjo na fauna, Temporal e Dom Juan] e o romance O plano [Prêmio Literário Gonçalves Dias da então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, 2008], e já estou com outro [de poesia] para publicar.

Garrone, um dia alguém vai achar inéditos em tua gaveta.
Garrone – Como aquela poeta americana, Emily Dickinson. Não é que eu queira ser póstumo, não. Poeta é quem se considera.
Ademar –“Inverno, primavera/ poeta é quem se considera”.
Garrone – Zeca [Baleiro] musicou [o poema de Paulo Leminski de cujo trecho Ademar lembrou]. Uma das coisas que me chamou muita atenção foi uma entrevista atribuída a Ferreira Gullar na qual ele diz que quando alguém o chama de poeta, ele diz ter vontade de responder “poeta é a mãe!”. Acaba sendo um xingamento, enxergam o poeta como aquela pessoa complacente, aquela pessoa no mundo da lua, ainda é uma ideia que se tem.

Poeta acaba sendo uma espécie de mestre ou compadre, aqui em São Luís é uma saudação. Muita gente aqui se aventurou de algum modo na poesia.
Marcello – Uma coisa interessante no Fernando Abreu é que, uma vez ele me disse, ele sabia que ia ser poeta desde que nasceu. Ele já tinha essa noção. Tem uma coisa que eu gosto de registrar: mais ou menos quando eu conheci essa turma, no final da década de 1980, acho até que foi Fabreu quem me falou, sobre a questão da verdade que a poesia precisa ter. Poesia só é poesia se ela tiver verdade, se ela tiver vivência, essa coisa intrínseca. Já na década de 90 eu tive outra constatação de que a poesia, na verdade, é uma forma de viver. O que se registra no livro são poemas, a poesia é a forma de viver dos poetas. Eu continuo publicando, alguém já disse que sucesso e fracasso são iguais, os dois são ilusões. Pra mim importa fazer, produzir, viver dessa forma: a poesia como jeito de ser, existir e perceber as coisas. O que sobra desse filtro é que vai ser o poema, aquilo que sobra, o que a cachaça não apaga e a noite não elimina da memória.
Garrone – Um detalhe importante em relação aos párias é que os párias não eram um movimento literário, mas uma forma comportamental, seja pelo ambiente político da abertura [o processo de redemocratização brasileiro, após 21 anos de ditadura militar], muitos de nós começamos a conviver na universidade, que vivia com a cabeça muito fechada em função do regime.
Ademar – Foi importantíssimo para aquela época. Nós, de certa forma, resgatamos a poesia para o dia a dia da cidade. Nós declamávamos, nós vendíamos revistas, nós tínhamos uma presença poética na cidade.
Marcello – Não era só escrever e publicar. Tinha os recitais, os párias, performances.

Esta mesa tem duas gerações da Akademia dos Párias. Deste lado a primeira geração, fundadora, e deste a segunda dentição, com Marcello, mais novo. Como é que vocês se conheceram e chegaram à Akademia?
Garrone – A UFMA foi um catalisador.
Marcello – Quando eu conheci a turma estava saindo o “quinto dos infernos” [a quinta edição da revista Uns & outros], Fabreu já tinha me convidado, mas eu não entreguei os poemas.
Garrone – Existiam uns bares que eram referência. Por exemplo, no beco do teatro tinha um bar que a gente sabia que só dava artista. Então a gente ia pros bares sabendo que íamos encontrar.
Marcello – E rolava recital. Não era uma poesia só textual, só escrita, só impressa. Era uma poesia que era feita nos bares, subíamos nas mesas e começávamos a recitar.
Ademar – A gente vivia isso.

Marcello, o que te trouxe à São Luís?
Marcello – Eu sou de Curitiba, tenho uma vida errática. Eu viajei, por 10 anos eu fiquei viajando o Brasil, com o trabalho que eu fazia, com cartografia, e escolhi um lugar para ficar. Eu gosto muito das pessoas daqui.

Vocês se conheceram na UFMA no curso de comunicação?
Ademar – Eu fazia Direito. Nós [ele e Garrone] éramos vizinhos. Os maus hábitos nos aproximaram.
Garrone – Aos 50 não se fala em vícios, se fala em hábitos [risos].
Marcello – Acho que no princípio toda a turma, a primeira dentição, era quase totalmente formada por estudantes da UFMA. A segunda dentição, ZéMaria Medeiros, Joe Rosa, eu mesmo, ninguém era aluno da UFMA.
Garrone – O Comunicarte [tradicional encontro promovido pelos cursos de Comunicação Social e Artes] tinha feito um impresso, com vários poetas, e nós resolvemos fazer a Uns & outros. Ela foi um embrião, a partir dali a gente se aproximou mais, fosse para mostrar que todo mundo podia fazer poesia, por que aqui em São Luís tem aquela coisa da tradição.
Ademar – Nós tivemos um incentivo muito grande do pessoal do Guarnicê [suplemento então encartado no jornal O Estado do Maranhão, depois uma revista independente], que eram Celso Borges, Joaquim Haickel, [Roberto] Kenard, Paulinho. Eram jovens, mas já casados, já tinham terminado os cursos, e nos acolheram. A palavra é essa: o pessoal do Guarnicê acolheu os párias. Ajudavam a gente a imprimir, eles já trabalhavam, Celso já era casado, Joaquim já era deputado, eles ajudavam. Era uma geração acima da gente.
Garrone – Naquela época não havia internet, os jornais circulavam bastante e você via ali, no domingo, aquele encarte, num jornal oficial, da família [Sarney, proprietária do Sistema Mirante de Comunicação], mas tinha algo diferente. Ousado, digamos assim. Isso acabou.

Afora a poesia o que vocês destacariam como elementos de interesse comum?
Ademar – Nós tínhamos estilos de vida parecidos. A maior parte de nós tinha militância estudantil, pensava coisas semelhantes, frequentava lugares semelhantes. Eu levei todo mundo pro reggae, todo mundo virou regueiro.
Marcello – Todo mundo progressista, libertário e doido.
Garrone – Havia também uma identificação com a geração beat, a coisa do pé na estrada. Eu e esse aqui [Ademar], a gente tem várias histórias de estrada [risos].

Qual foi a repercussão da primeira Uns & outros? Foi uma coisa pensada ou foi uma coisa meio “vamos reunir quem está escrevendo e ver no que é que dá”? Como é que foi isso?
Garrone – Já tinha essa base do jornal do Comunicarte. O que deu repercussão foi o lançamento, no Sapecas Bar [hoje extinto; na Rua das Flores, por detrás da Igreja de São João]. Pegávamos as revistas, todo mundo liso, e entrávamos nas salas de aula [na UFMA], pedíamos licença e entrávamos, recitávamos.
Marcello – A gente foi pra UFPA em 1993.
Ademar – Nós não achávamos que era uma coisa assim à toa. Nós já tínhamos inserção na sociedade. Naquele tempo eu já trabalhava em rádio, todos nós fazíamos movimento estudantil, nós tínhamos presença na universidade, presença na sociedade. A gente sabia que aquilo ia repercutir. O que a gente não tinha era uma estratégia de marketing pensada, mas a gente não fez à toa. A gente fez sabendo que era possível fazer. Era uma revista de-vez-em-quandal.
Garrone – Saia mais ou menos de seis em seis meses.
Marcello – Uma coisa que eu acho importante que se diga dos párias é que quando íamos fazer um recital eram poemas autorais, próprios, e muitas vezes de improviso. Diferente de outros que faziam leituras de poemas, vão ler Drummond, poemas já… [interrompe-se]. Com a gente, de vez em quando rolava um Baudelaire, um Launtréamont, mas a maioria eram poemas nossos.
Garrone – Os nossos recitais eram junkies mesmo. Tinha gente que batia palma e tinha gente que vaiava, jogavam copos, nós acontecíamos.
Marcello – Eu me lembro do Beco Cultural, a gente botou umas mesas no palco e ficou o microfone ali, a gente bebendo em cima do palco, de vez em quando um levantava, com seus papéis ou não, recitava um poema e as coisas iam fluindo. Assim eram as apresentações dos párias.
Garrone – Todos bêbados!

Uma coisa menos comportada. Era um grogue ao vivo.
Garrone – Era um grogue.
Ademar – O pouco que lembramos era assim [gargalhadas gerais].
Garrone – O Diário Oficial [do Estado do Maranhão], quando era publicado no Sioge [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje extinto], ele tinha um encarte cultural, era Alberico [Carneiro Filho, escritor e professor] que era o editor. Ele ia fazer, nós já tínhamos publicado a última revista, eu era editor de cultura de O Imparcial, e não sei por que cargas d’água, ele quis convidar os párias para fazer um recital lá no Sioge, nessa festa. Lá estavam Jomar [Moraes, escritor, membro da AML], a academia. Foi um escândalo!
Ademar – Diga-se de passagem, o Jomar Moraes não gostava nada de nós. Escreveu artigos detonando a qualidade da Akademia dos Párias. A Academia Maranhense de Letras não gostava, por que o próprio nome Akademia dos Párias mostrava essa contradição, a academia como essa coisa pompa e pária que é a ralé da sociedade.

Quer dizer, havia uma intencionalidade quando vocês batizam o grupo.
Ademar – Claro!
Garrone – Tem um poema de Bráulio Tavares, chamado Amor e verdade, que é um poema assim: “me dá tua mão!/ toca aqui [toca a calça na altura do pênis]/ sentiu? Acredita agora?” Quando eu fiz isso lá no Sioge, aí pronto, a família maranhense… [risos] ao ponto que acabaram com a festa, não nos pagaram o cachê.
Ademar – Nessa mesma época houve uma premiação, dessas premiações fajutas, do produtor que faz, os melhores do ano, e o melhor do ano na área cultural é o diretor financeiro não sei o quê que tem. Aí convidaram os párias para essa festa de melhores do ano no Casino [Maranhense, então um tradicional clube na avenida Beira Mar], onde estava a nata da inteligência formal de são Luís, os tidos inteligentes, acadêmicos e tudo mais, e era o troféu Apolônia Pinto de Cultura do Maranhão. E lá pelas tantas, eu já trabalhava na Mirante, o locutor do evento era [o radialista] César Roberto. Nós éramos temidos, as pessoas sabiam que a gente ia aprontar alguma. César Roberto na apresentação, eu trabalhava junto com ele, eu chego de surpresa nele, por detrás do microfone e digo: “César, a Akademia dos Párias vai fazer uma homenagem à cultura”, e César Roberto, confiando no seu amigo de trabalho [risos]. Tinha um camarote com Jomar Moraes, que era presidente da Academia Maranhense de Letras, e César Roberto anuncia: “e a partir de agora a Akademia dos Párias no troféu Apolônia Pinto vai fazer uma homenagem à cultura!”. Isso era de madrugada, e não se sabe de onde Paulo Melo Sousa [poeta e jornalista] aparece com um abacaxi, todos embriagados, e nós decidimos oferecer à Academia Maranhense de Letras. Era o troféu Apolônia Pinto, nós resolvemos oferecer o troféu Apolônia Pênis [risos]. Quando a gente se espanta Paulão jogou o abacaxi no camarote e esse abacaxi saiu caindo por cima deles lá, aquele alvoroço, a festa acabou por ali.
Marcello – Uma vez nós fomos convidados para representar a Akademia dos Párias num simpósio do curso de Letras da UEMA. Fomos Fernando Abreu, Joe Rosa e este seu amigo. Teve apresentação de todo tipo de poesia. A gente entra depois do coral da Igreja Maranata. A gente se apresentou e foi falar um pouco da poesia erótica. Cada um disse um poema e eu falei um poema de Bráulio Tavares. Quem tinha me convidado era uma professora que estava bem na minha frente. Era o Poema da Buceta Cabeluda, que tem versos como: “a buceta da minha amada é cabeluda/ e cabe linda na palma da minha mão”, quando eu falei mão, olhei para a professora ela estava vermelha, “a buceta da minha amada é cabeluda/ é o alfa e o ômega dos meus segredos/ e na minha língua é lambda”, quando eu falei lambda, a professora não estava mais lá. No final a confusão foi tão grande, a gente estava autografando livros, a meninada pirou, um professor que ia se apresentar depois da gente, disse “olha, eu ia fazer uma coisa meio escandalosa, mas depois dos párias eu vou parecer um anjinho”… e eu estava feliz, vendendo livro, dava pra beber, era aquela coisa, poesia e álcool, álcool e poesia. Aí chega a professora, com outro professor, vieram me dar uma bronca, por que eu tinha feito aquela coisa pornográfica. Eu argumentei: “mas professora, o objetivo da universidade não é atritar as inteligências?”, e eles “não, mas não sei o quê”, eu tentei argumentar, mas eles insistiram, eu virei e disse: “olha, eu já fiz [recitei] o poema, vocês querem que eu faça o quê, agora, com essa buceta, que eu raspe?” [gargalhadas]. Sempre havia um tipo de confusão por causa da ousadia. É como Garrone falou: ou aplaude ou vaia, indiferente não fica.
Garrone – Uma coisa engraçada é que uma vez fomos para Arari, ficamos hospedados na casa do prefeito, um evento só para professores e havia um poema de [Antonio Carlos] Alvim que dizia “grande e lúcida a buceta de Lúcia”, e nós pensávamos que íamos chocar, que fosse o inverso, mas eles receberam super bem. Havia uma preocupação em dizer ou não, e fomos surpreendidos. Para ver a contradição.
Ademar – O fato é que a Akademia dos Párias devolveu a imagem de São Luís como terra de poetas. O pessoal via aquele monte de moleque fazendo poesia. Boa ou ruim, mas fazendo poesia e projetando a poesia na cidade. A Akademia dos Párias foi muito importante para os anos 1980, para a cena cultural de São Luís, foi fundamental.

Vocês falaram há pouco de vender revistas em salas de aula. Quer dizer, havia certo respeito dos professores.
Ademar – Não era tanto respeito, era certa inevitabilidade.
Garrone – A gente pedia licença e entrava. Se eles dissessem não, a gente entrava do mesmo jeito.
Ademar – Isso nós herdamos do movimento estudantil.
Garrone – A universidade como uma casa aberta, era uma compreensão nossa. Você tinha relação com o Sá Viana [bairro por detrás da UFMA], não tinha muros. A gente sempre discutiu que a universidade era o espaço para se exercer a liberdade que a sociedade não permitia. Esse era o discurso que a gente tinha, não o discurso que se tem hoje de que a universidade é um grande colégio.

Nesse aspecto vocês não pensam que o ambiente universitário hoje não está meio estéril?
Ademar – Sem dúvida alguma! É outra realidade.
Garrone – Hoje em dia é o cara entrar, fazer o dever de casa, se formar, fazer o trabalho certinho e acabou. Não tem experiência nenhuma, não viaja.
Ademar – Não existe mais movimento estudantil. Hoje o movimento estudantil se sustenta com emissão de carteiras de estudante. O movimento estudantil não vai mais para os retornos pedir pedágio para a população ajudar na luta estudantil.
Garrone – Papai e mamãe bancam. Hoje se vai para encontro de estudantes, vai de avião, fica em hotel.
Ademar – Isso não existia na nossa época. A gente ia para a rua tentar arrumar dinheiro para viajar de ônibus e ficar em alojamento, em colégio. Hoje o movimento estudantil é uma máquina de fazer dinheiro, há empresas especializadas em organizar encontros. Isso não é saudosismo, pode parecer “ah, na minha época era melhor”, não era, era uma forma diferente de ver o mundo, as coisas eram mais conquistadas.

Que livros de cabeceira vocês elegeriam?
Ademar – [Charles] Bukowski em primeiro lugar, sem dúvida nenhuma, tipo obras completas.
Marcello – Os beatniks, Gregory Corso, [Lawrence] Ferlinghetti.
Ademar – Todo mundo lia muito e várias coisas.
Garrone – Na poesia tinha [Paulo] Leminski, antes de Leminski virar pop, digamos assim, a gente já lia. Chacal era uma referência, passou por aqui. Tinha Os Camaleões [grupo de poetas integrado por, entre outros, Pedro Bial] do Rio. Como a gente viajava muito para encontros, a gente conhecia grupos em salvador e trocávamos com o que fazíamos. Os irmãos [Augusto e Haroldo de] Campos. Ademar tinha Mulheres, de Bukowski, foi o primeiro que a gente viu. Nós tínhamos só uma livraria, que era a Espaço Aberto, aqui na Rua do Sol, era a livraria de Josias Sobrinho [compositor].
Marcello – Talvez uma das maiores divisas da Akademia dos Párias seja de Ferreira Gullar. Aquele trecho “loucos são todos em suma/ uns por pouca coisa, outros por coisa alguma”.
Ademar – Saiu em todos os números [como uma espécie de epígrafe] e representava a nossa loucura mesmo.
Garrone – Bráulio Tavares eu conheço duma edição da Abril que vendia em bancas. Com a Companhia das Letras é que começou a surgir uma literatura mais voltada para nosso caminho. A primeira tradução de [Vladimir] Maiakovski que eu li foi uma tradução portuguesa horrível. Aí tu vai ler a dos irmãos Campos com Boris Schnaiderman, é outra coisa!

O que do espírito pária está mantido intacto em vocês, hoje?
Ademar – Eu digo com toda tranquilidade: eu era um jovem rebelde. Hoje eu sou um coroa rebelde. Eu nunca perdi o meu sentimento de contestação. Ao longo do tempo eu exerci esse sentimento de contestação de várias maneiras, na política partidária, cheguei até a ser vereador, larguei a política partidária, é uma página totalmente virada, mas continuo firmemente com minhas posições políticas, continuo firmemente atendendo e entendendo minha formação de esquerda. Só não tenho mais militância, mas continuo com a mesma visão crítica, claro que hoje com a perspectiva de alguém com 53 anos, que não é igual à de quem tem 18 anos. Mas eu continuo na rebeldia, acreditando e desacreditando na humanidade.
Garrone – Além disso que Ademar falou, está dentro de mim, mas eu me preocupo, por que eu não quero mexer nisso. Não dá para conciliar essa coisa mais pária com essa coisa mais profissional, família. Se eu começar a beber eu sei como é que eu sou, eu me conheço. Até a relação com a poesia, ela não vai te dar sustento, mas te dá comportamento. Eu temo começar a dar mais espaço para o lado poético e menos para o lado jornalístico, por que a poesia me leva, de certa forma, para a anarquia, para a falta de regras, uma série de coisas que eu sei que estão em mim. Não quer dizer que todo mundo seja assim. Eu te garanto que no dia 19 eu vou estar morto de bêbado aqui [aponta para a livraria Poeme-se], por que eu tenho que beber para fazer isso, faz parte de meu espírito, faz parte de minha relação com ela [a poesia]. Dito isso, eu prefiro deixá-la ali, o diabinho está ali, é melhor não cutucar com vara curta.
Marcello – O que aconteceu comigo é que, como eu falei, eu não nasci poeta. Eu descobri a poesia e fui entender que a poesia só é poesia se tiver verdade. A poesia é uma forma de viver. Eu vivo dessa forma e não aprendi outra de lá pra cá. Não mudou nada, só a idade, os joelhos que doem, mas o fígado ainda está bom. Ainda tem muito álcool para transformar em poesia, muita poesia para ser transformada em álcool. Esse é o lado pária que permanece.