Música para crianças de todas as idades

Antes de ser pai, meu interesse por música infantil era quase zero. Julgava o nicho de uma tremenda pobreza (letras pobres, arranjos idem etc.), o que não me despertava o menor interesse. Exceções havia, é claro, casos da Arca de Noé, de Toquinho e Vinicius, e de Os Saltimbancos, trilha da peça homônima, formada por versões de Chico Buarque para composições de Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, entre poucos outros.

Com algum atraso, no início dos anos 2000, o amigo Glauco Barreto apresentou-me aquele que considero um dos melhores discos de música infantil já produzidos no Brasil: Monjolear [1996], dos irmãos mineiros Dércio e Doroty Marques, cujos trabalhos “adultos” eu já conhecia e apreciava – em Erva cidreira [1980], ela gravou Chico Maranhão (Arreuni) e Sérgio Habibe (Cavalo cansado); em Fulejo [1983], ele gravou Cesar Teixeira (Namorada do cangaço).

José Antonio tem microcefalia e um ano e três meses e entre todas as experiências maravilhosas que me tem proporcionado está a revisão do repertório infantil. Desde a gravidez de Graziela intensifiquei a compra de discos de música infantil – com a desculpa de Homem de vícios antigos de presentear o que estava por vir, as recomendações de pediatras de ouvir música desde a barriga etc.

Não sei o que José Antonio vai ser quando crescer, nem se vai detestar música como João Cabral ou detestar poesia como João Donato. Não prevejo nada: tento fazer o melhor possível, o que inclui deixá-lo livre – sem condená-lo a ser como eu, o que seria uma grande crueldade, como já disse o amigo tetra-pai Jotabê Medeiros, com quem sempre aprendo bastante, para além do jornalismo.

O fato é que, desde a barriga, e desde antes, se isso for possível, meu filho sempre ouviu muita música. Do que eu ouvia em casa e no carro, entre minhas preferências e o que chega para resenhar, até os sambas que lhe cantava acalentando – o que gerou um comentário bem humorado do amigo também pai Fernando Matos: “com o pai cantando sambas, sem dúvidas o menino será roqueiro”.

Na crônica Dormir é para os fracos [Folha de S. Paulo, 19/7/2015], compilada em Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016], Antonio Prata, maior cronista brasileiro em atividade (sorry, Veríssimo!) e também pai, lista “catorze constatações a partir da paternidade”, incluindo: “11) Galinha Pintadinha é a imagem da Besta. 12) Galinha Pintadinha é uma bênção divina.”, referindo-se, obviamente, ao poder hipnótico que a azulzinha tem sobre os bebês – por isso o sarro de Diego Freire me fez gostar tanto mais de Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016].

Digo, pois, sem falsa modéstia: José Antonio passou incólume por Galinha Pintadinha, amém! Se sobra na tela, até vê, sem reclamar – como o pai vendo, sei lá, uma Ana Maria Braga, por exemplo. Não ligo naquele canal, naquele horário, mas se tem alguém vendo não é necessário instaurar um conflito familiar.

Este texto não é ou se pretende um tratado sobre bom gosto musical infantil (ou adulto). Mas sabemos que, como em qualquer nicho, o que é melhor às vezes fica escondido pela mídia, cujo interesse, antes de informar, é simplesmente vender. José Antonio vê muito Palavra Cantada, Tiquequê, Grupo Triii, Partimpim (a persona “infantil” de Adriana Calcanhotto), o Zoró de Zeca Baleiro e a Arca de Noé (com grandes nomes da MPB interpretando composições de Toquinho e Vinicius), entre outros.

Um exercício a que me proponho é eliminar a barreira – se é que ela existe – entre música adulta e música infantil e os exemplos acima são ótimos. Brinco de aterrorizar minha esposa dizendo que ouvindo o que ouve na infância, o menino será admirador de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Premeditando o Breque – que eu adoro e ela detesta! –, entre outros.

Fora o terrorismo conjugal, faz sentido: a Palavra Cantada, por exemplo, é formada por Sandra Peres e Paulo Tatit, este, ex-integrante do Grupo Rumo, outro nome fundamental da chamada Vanguarda Paulista. Aqui e acolá pintam parcerias com Arnaldo Antunes, além da participação do ex-Titãs em músicas, bem como Mônica Salmaso – outro nome cuja voz agrada bastante adultos que apreciam boa música. No que a dupla é craque: fazendo música para crianças, não se despreocupa da qualidade nas letras, melodias e arranjos, mesmo quando estão apenas interpretando alguma cantiga de roda ou tema de domínio público.

A seguir, 12 (+2) clipes musicais infantis, escolhidos entre o lobby de José Antonio (suas preferências) e o que mais agrada este pai coruja entre o que ele vê.

Cuida com cuidado (Paulo Tatit e Zé Tatit), Palavra Cantada
Esta chegou a integrar minha lista de melhores videoclipes de 2016, na tradicional eleição do site Scream & Yell – não fosse José Antonio, provavelmente eu nem a conheceria

O pinguim (Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulo Soledade), Chico Buarque
Meu sogro é professor de matemática aposentado. Brinco com José Antonio dizendo que este é o clipe do avô dele

O gigante (Angelo Mundy), Tiquequê
Um grupo bastante interessante em um videoclipe realizado pelo mesmo estúdio que produz a Galinha Pintadinha (viram? É possível!)

Lindo lago do amor (Gonzaguinha), Adriana Partimpim
Música de adulto em belo videoclipe de roupagem infantil

Ciranda da bailarina (Chico Buarque), Adriana Partimpim
Para adultos e/ou crianças Chico é gênio! Pena que os filhos de pais de direita demorarão mais a perceber

Bolacha de água e sal (Sandra Peres e Paulo Tatit), Palavra Cantada
Saquem a pegada rock’n roll que agrada o menino. Talvez a piada de Fernando Matos não fosse apenas uma piada

Eu sou um bebezinho (Paulo Tatit), Palavra Cantada
Sem chiliques, José Antonio!

O ornitorrinco (Zeca Baleiro e Tata Fernandes), Zeca Baleiro
Entre os bichos esquisitos do maranhense há uma girafa regueira e uma onça pintada, entre outros

Rato (Paulo Tatit e Edith Derdyk), Palavra Cantada
Letra longa, cerzida a valsa e choro, mostra o capricho das produções da dupla

A Galinha d’Angola (Toquinho e Vinicius de Moraes), Ivete Sangalo
Clássico infantil originalmente interpretado por Ney Matogrosso

O ar (O vento) (Luiz Enriquez Bacalov, versão de Toquinho e Vinicius de Moraes), Boca Livre
Apesar do erro teórico, garante a diversão dos adultos. Sempre ouvi um ditado, ainda bem que nunca comprovado, que diz que “quem ri de peido caem os dentes”

História de uma gata (Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, versão de Chico Buarque), Nara Leão e Miúcha
Da trilha sonora de Os Saltimbancos. Há várias músicas com gatos – estes seres que adoram jazz – como protagonistas dos videoclipes

Bônus track

Completado o top dúzia, mais dois clipes animados. Não são infantis, mas José ficou quietinho vendo as novidades. Um prêmio para papais e mamães que se renderam aos encantos da boa “mpbaby”, aguentaram textão e perdoaram o clichê publicitário do título, vocês merecem!

Burn the witch (Radiohead), Radiohead
De A moon shaped pool, disco mais novo dos ingleses

The girl in the yellow dresses (David Gilmour e Polly Samson), David Gilmour
Clipe sensacional e jazz classudo do ex-Pink Floyd, aqui acompanhado pelo The Julian Joseph Quintet

Infância roubada

Reprodução
Vestida feito adulto, criança fuma em anúncio publicado na imprensa brasileira em 1918. Reprodução

 

Por princípio, sou contra programas como The Voice Kids, Masterchef Kids e que tais. Não me venham dizer que os que por lá desfilam são fofinhos, inocentes, que cantam e/ou cozinham com a alma e blá blá blá. Nem se apressem simplesmente em me tachar mero chato, estraga-prazeres, #diferentão.

Os cantos das crianças, afinados até demais, as feições emocionadas dos jurados – certamente bastante ensaiadas – e as lágrimas de ambos, concorrentes e jurados, nada é capaz de tocar e amolecer meu coração de pedra, perdoem-me a fra(n)queza.

O que percebi, vendo alguns poucos minutos do certame musical mirim televisionado é que as crianças ali perdem sua inocência e pureza: são tão ensaiadas que chegam a opinar com desenvoltura até sobre a questão indígena brasileira. E certamente saberiam, caso instigadas, comentar política, economia, o impeachment da presidenta, o crime de lesa-humanidade cometido pela Vale/BHP Billiton/Samarco em Mariana/MG e por aí afora.

Crianças devem brincar e estudar – e nisso, consequentemente, desenvolver habilidades. Expô-las a competições e aos constrangimentos inerentes, ainda mais transmitidos simultaneamente pela tevê para outros milhões de terráqueos, é algo que não consigo conceber.

Alguns hão de argumentar que o mundo é assim mesmo e que, na seleção “natural”, quem não pisa na cabeça dos outros será engolido, tentando justificar, talvez, que, por isso, é necessário que mais e mais cedo crianças entrem no jogo – literalmente. Sinceramente, não creio. Crianças não são miniaturas de adultos, como no anúncio que abre/ilustra este post, da Revista da Semana de 19 de março de 1918, que roubei daqui.

Imaginem os danos psicológicos que uma derrota, ou mesmo um comentário mais ácido (e/ou cretino) de um jurado, pode causar em uma criança. O mundo já é por demais cruel e não precisamos antecipar o ingresso dos petizes nesta trágica realidade.

A meu ver reality shows mirins são uma forma bizarra de os pais realizarem alguma frustração: um sonho abandonado em prol de alguma questão prática é realizado num filho, seja lá por vaidade, os 15 minutos de fama, ou mesmo a sobrevivência – quanto rende, ainda que temporariamente, um talento revelado por um grande canal de tevê? Outro problema disso é que pode pintar aí uma nova frustração, desta vez redobrada.

Pai recente e de primeira viagem, preocupo-me naturalmente com os rumos que ofereceremos ao guri. Como livrá-lo da miríade de horrores propagada pela mídia convencional e/ou sob demanda, sem prendê-lo numa bolha, sem sermos extremamente superprotetores?

É claro que quero que ele experimente se arriscar a tocar um instrumento musical, praticar esportes, aprender línguas estrangeiras: ter as possibilidades. Mas não quero simplesmente impor-lhe estes anseios, como um “diferencial de mercado”. Antes, é preciso deixá-lo à vontade para escolher o quê e quando fazer, aproveitando as coleções de “vícios antigos” do pai – respeitando-lhe os tempos, escolhas e abdicações.

O que me incomoda em reality shows mirins é também o que me incomoda em reality shows adultos: muito show e pouca reality. Todo mundo ensaiadinho buscando as cifras milionárias da premiação. A vantagem dos segundos em relação aos primeiros: os participantes já estão bem grandinhos e podem decidir seus destinos por si mesmos. O que vão fazer com a grana do prêmio, eventuais contratos descolados a partir dele, se vão posar nu/a/s ou não só lhes diz respeito.

Dos males o menor em relação aos problemas que afligem nossa infância? Certamente. Num país em que crianças são assassinadas no colo da mãe, escravizadas ou exploradas sexualmente, ou sucumbem às drogas e ao crime, sua exibição musical-televisiva nem chega mesmo a ser problema.

Estes outros casos, citados aqui de raspão, constituem o verdadeiro show de realidade que infelizmente ainda persiste no Brasil. A este reality show nos negamos a assistir.

José Antonio,

Foto: ZR (20/11/2015)
Foto: ZR (20/11/2015)

há um mês você chegou, prematuro, apressado, se antecipando às previsões, feito um atacante que adivinha o pensamento do zagueiro e descobre o melhor flanco para eliminá-lo e marcar.

Desde então, em minha cabeça, rumino um texto​, ou algo que o valha,​ para te saudar. Incontáveis vezes abri o editor de texto, às vezes escrevia umas linhas​ num computador, ou no celular​, mas nada me agradava. Não sei se é alguma espécie de bloqueio ou se é só o fato de faltarem palavras para exprimir qualquer sentimento: elas são nada perto do que realmente importa e do que quero (e não consigo) dizer.​

Foi a maior emoção da minha vida. Está sendo. E ​sei que ​para sempre será.

Tenho muito a aprender contigo. A ser uma pessoa melhor, inclusive. “Filhos são professores dos pais” é mantra repetido sempre por minha sogra, quase o machadiano “a criança é o pai do homem”.

“A criança traz o pão embaixo do braço”, disse-me um amigo quando lhe pedi trabalho – poucos dias depois o trampo apareceu. Agradeci a ele e a você.

Entre noites mal dormidas e a correria cotidiana, os longos intervalos em que te olho, quieto, sorrindo pra lua, no berço, no carrinho ou em meus braços – até você abrir o berreiro anunciando a hora da próxima mamada, infalível relógio.

Tão ansioso quanto fiquei com a gravidez, confesso que agora estou por te ver logo correndo pela casa. Ainda não sei se vais gostar de meus livros e discos – embora desde sempre, eu te embale ouvindo (e te fazendo ouvir) choro – ou de comer ostras na praia. Torço para que sim. Mas se não, espero saber respeitar.

Um mês! ​Obrigado pelo aprendizado, “papa”! Obrigado pelo amor! Obrigado por tudo​! Obrigado por você!

Deus te abençoe!

Beijos do papai.